E N T R E O C É U E A T E R R A AUTORA: Késsia Nina EMAIL: shipperx@gmx.net FEEDBACK: gente, como eu falo e repito sempre, é o único salário dos escritores de fanfics! Essa fic foi escrita com muito suor e dedicação. Mesmo que você tenha achado super chata e que nem tenha terminado, me fale, ok? LINHA DO TEMPO (timeline): Depois de Requiem, mas antes dos acontecimentos da oitava temporada. Lembrem-se, eu comecei a escrever esta história antes de saber de qualquer spoiler da oitava temporada, portanto, alguns acontecimentos são pura coincidência e outros não tem nada a ver com o rumo que a série está tomando agora. CATEGORIA: MSR, angústia (angst), daughter fic (ela não é baby, pô!) CLASSIFICAÇÃO: Acho que é uma fic normal... Dá pra todo mundo ler... AGRADECIMENTOS: Credo, eu nem sei quantas pessoas leram essa fic antes da postagem dela! Hehehehe Primeiro, agradeço à betagem inicial da Clá (que anda super sumida), depois à Cláudia que deu uns toques legais também, à grande Alexandra Morgilli, uma das causadoras da demora na postagem desta estória porque ela demorou séculos pra betar! Hehehehehee E por fim, à maravilhosa Sky, que deu seu toque final e maravilhoso! Meninas, muito obrigada pela opinião de vocês! Com certeza vocês foram responsáveis por eu estar postando esta fic! NOTAS: As minhas fics estão todas no meu site: http://www.shipperx.hpg.com.br Não mencionei sobre as DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) porque ficaria muito esquisito mencionar isso na fic, mas mesmo assim, lembrem-se que a camisinha previne também essas doenças, hein? :) Outra coisa, por favor, prestem atenção aos anos das partes da estória. Eu sei que é difícil (eu raramente leio datas), mas VOCÊS TÊM QUE LER para entender a estória! :) Se não ler, não vão entender nada! Baseei alguns dos fatos aqui ocorridos com o filme Alta Freqüência, que para mim foi um dos melhores filmes do ano! Esta fic começou a ser escrita em Setembro/2000 e finalmente foi terminada em Abril/2001. Dedico esta fic para a minha amiga Cris Scully, cuja notícia de falecimento, me fez refletir bastante sobre a vida. Cris, espero que onde você estiver, saiba que há amigos que sempre lembrarão de você. ENTRE O CÉU E A TERRA PRÓLOGO Washington D.C. 09 de agosto de 2017 As ruas da cidade não pareciam mais as mesmas. As lojas eram diferentes, as pessoas eram diferentes. Agora, mais do que nunca, elas pareciam querer alcançar algo inatingível. Estavam sempre correndo, aflitas, nervosas e à espreita de algo maior. Scully caminhava vagarosamente pela calçada. Era como se não possuísse controle do seu corpo, que simplesmente continuava funcionando. Sentia vontade de ir à praia vez em quando, mas não se permitia sair dali. Toda a sua vida estava traçada para aquela cidade e ela não poderia dar-se ao luxo de ir embora. Ainda restavam problemas não solucionados, porém a esperança que a ex-agente do FBI possuía era maior. Suas roupas casuais contrastavam com seu olhar sério e perdido no tempo. Seus cabelos estavam um pouco mais compridos do que o costume e ela gostava de sentir o vento balançando-os e levando-os para onde ele quisesse. Quisera ela pudesse ser apenas uma folha de árvore ou ainda um pássaro para poder viajar e fugir quando o perigo ou a profunda tristeza lhe assombrasse. Logo à frente, estava o horizonte. Aquele que denotava futuro e esperança. Enquanto houvesse horizonte, ela estaria caminhando. E enquanto houvesse estrada, ela teria esperança. Esperança de encontrar o que de mais precioso lhe fora arrancado. Aquele que ela tanto desejara. Que tanto lhe trouxera felicidade desde o primeiro segundo em que colocou os olhos nele. Aquele ser que a amou incondicionalmente, fazendo-a perceber que tudo na vida tinha solução e que ela poderia ainda ser feliz. Mas a natureza equilibra as coisas. Sempre após um dia com raios solares, claridade e beleza, havia uma noite. Um poço de tristeza que tomava conta do universo. Não poderia ser diferente com os seres humanos. Sempre após um período de extrema felicidade, a tristeza se alojava logo em seguida. Nada era absoluto. E nem poderia ser. Já começava a anoitecer e os raios de sol começavam a se dissipar no céu, formando um grande risco arroxeado na imensidão azul. A brisa fresca daquele final de tarde a trouxe de volta de seus devaneios. Deu meia-volta para dirigir-se à sua casa e deparou com uma garota que caminhava em sua direção. Cruzaram-se finalmente na calçada e Scully pôde perceber que ela não era uma moça qualquer. Praticamente uma mendiga, suas roupas eram maltrapilhas e seus cabelos e rosto sujos, ainda assim , Scully viu beleza nela. Os olhares de ambas imediatamente se encontraram e, como se já se conhecessem, sorriram uma para a outra. Um sorriso que iluminou o rosto da menina. Um sorriso sincero. Um sorriso de amigos que não se vêem há muito tempo. Um sorriso familiar. Extremamente familiar. Tentou adivinhar sua idade, mas era difícil, dadas as suas condições. Mesmo assim, não tinha mais que vinte anos, apesar de Scully apostar em menos idade ainda. Seus olhos eram arredondados, grandes e azuis. Tão azuis que poderiam ser confundidos com o oceano e que chamaram tanto a sua atenção. E seus cabelos eram compridos e ruivos. Ruivos. Scully sorriu tristemente ao lembrar-se mais uma vez do passado e por alguma razão desconhecida, de significado não aparente, sentiu uma estranha necessidade de conhecer melhor aquela moça tão bonita que aparentemente não tinha para onde ir. Virou-se para vê-la, mas era tarde demais. Ela não se encontrava tão perto. Estava distante, caminhando em direção ao horizonte que minutos antes preenchia os pensamentos de Scully. Washington D.C. 09 de agosto de 2017 Minha vida se resume a caminhar. Caminhar até onde meus pés puderem me levar. Até onde eles alcançarem. Eu sei que quando quiserem parar, eles o farão, com ou sem o meu consentimento. Disseram-me que eu somente sobreviveria se encontrasse a minha salvação e que ela estaria aqui. Não sei quem disse tais palavras, mas elas estão guardadas em minha memória, assim como a outra única coisa que sei de mim mesma, meu nome. Não sei o que aconteceu comigo durante tantos anos. Só lembro-me de ter acordado no hospital da cidade, sem documentos, sem memória e com vários ferimentos no corpo. Inclusive um estranho objeto metálico em minha nuca, que não impressionou aos médicos, mas impressionou a mim. As enfermeiras, muito cuidadosas, me vestiram e me alimentaram, mas não pude ficar. Perderia tempo demais ali. Precisava saber quem eu era, de onde vinha e para onde ia. Fugi do hospital dois dias depois. Há apenas alguns dias comecei minha caminhada e acreditava já ter andado toda a cidade e observado todos os rostos aqui presentes. Começava a desacreditar no que minha memória insistia em me fazer lembrar. Nenhum deles pareceu chamar minha atenção ou pareceu familiar. Até que hoje eu a vi. Aquela mulher é a pessoa que tanto procuro. Tenho certeza. Olhei profundamente nos seus olhos enquanto nos cruzávamos na rua e percebi que ali está a minha salvação. É a ela que eu pertenço. E é a ela que devo recorrer. Sorri para ela, que retribuiu tal sorriso com outro. Talvez tenha me reconhecido. Mas de onde? Como eu poderia conhecê-la? Não me lembro de seu rosto, mas é como se ele estivesse presente em meu ser. Seu sorriso foi familiar apesar do rápido contato. Seus cabelos são vermelhos, como os meus. Vermelhos. E seus olhos azuis. Tão azuis que eu me lembrei, imediatamente, da foto que vi numa loja de um grande oceano. Tentei encontrar uma possível idade para ela, mas não foi possível. Ela parecia jovem, apesar de alguns cabelos brancos que provavelmente saíram ilesos de um processo de pintura. Mas seu rosto demonstrava que aquela mulher já havia visto muitas coisas. Nossos passos não se alongaram, mas também não diminuíram. Eu, por nervosismo. Ela talvez por receio ou até por não ligar para mais uma pessoa maltrapilha andando sem rumo nas ruas da capital do país. O que eu poderia falar? Mesmo com todas as dificuldades que estou passando, sou uma pessoa tímida que não conhece e não se lembra da vida neste mundo. Ainda tenho esperanças de encontrar novamente a minha salvação. Tenho certeza que é ela. Eu a vi caminhando. Eu a vi caminhando em direção à minha esperança. PARTE I – O COMEÇO Apartamento de Scully Washington D.C. 2001 O cheiro de bebê impregnara seu apartamento e nunca mais fôra embora. Adorava aquela fragrância. Fazia com que ela agradecesse ainda mais a Deus por ter lhe permitido realizar o que mais desejava em sua vida, ter uma filha. Lauren era o seu nome e acabara de fazer um ano e meio. Era uma garota linda com grandes olhos arredondados e azuis e cabelos ruivos. Era alegre e falante, se os sons que ela fazia poderiam ser chamados de fala. Nos próximos meses deixaria de ficar com a avó coruja Margaret para começar a se socializar com crianças de sua idade. Apesar de reticente, Scully achou melhor fazer isso pela filha, uma vez que tinha consciência de que de nada adiantaria prendê-la sob seus cuidados. Cedo ou tarde ela haveria de viver sua vida. Acordara repentinamente ao ouvir o choro da filha. Ainda bastante sonolenta, jogou seu braço em direção ao lado que o marido dormia e percebeu que ele não estava na cama. Correu em direção ao outro quarto e viu que a pequena Lauren se encontrava nos braços do pai e que chorava apenas por causas das bobas, mas engraçadas brincadeiras dele. A felicidade finalmente batera à sua porta. Após tantos anos, ela agora tinha uma família. Pessoas que amava dependiam dela, das quais ela também dependia. Sentia-se segura e amada no seu ambiente familiar. Seus olhos, entretanto, sempre enchiam-se de lágrimas ao lembrar do tempo em que estava desamparada. Grávida e incompleta sem Mulder, ela seguia sua vida parcialmente vazia. Fazia o que podia para esquecer um pouco da dor causada pela abdução de Mulder. Seus dias pareciam intermináveis sem ele. Todos os segundos da sua vida não passavam sem que ela se lembrasse do homem que amava, fazendo com que ele estivesse sempre ali, mesmo em pensamento. Designaram para ela um novo parceiro, que não era de todo ruim, mas não era Mulder. Ela precisava de suas perguntas e teorias malucas para continuar seguindo com seu trabalho. Não conseguia ser o tempo todo a que acreditava, precisava voltar a ser o lado cético da parceria. Sua barriga então começou a despontar. A criança dentro de si crescia a cada dia e não havia mais como esconder a verdade. Os anteriormente intermináveis dias acabaram quando sua filha nasceu e a vida começou a ter sentido novamente. Scully não poderia imaginar que uma criança pudesse ser tão linda e tão amada. Chorou muito, sozinha e também na companhia do Diretor Assistente Skinner, que passou a ser um grande e leal amigo. Lembrava-se de nunca tê-lo visto tão abalado com alguma coisa como no dia que este lhe contara da abdução de Mulder. Apesar de todas as desconfianças a respeito do seu chefe durante tantos anos, Scully agora confiava nele mais do que nunca. Precisava confiar. Ele a ajudara muito com sua filha, principalmente porque sabia dos riscos que a menina corria. Scully nunca deixou de imaginar que talvez os homens, que um dia a deixaram estéril, pudessem voltar. Por isso, todas as noites rezava para que eles a esquecessem e principalmente, deixassem sua filha em paz. Então, um dia, assim como aconteceu com ela mesma há sete anos, Mulder apareceu misteriosamente em um hospital da cidade. Ninguém sabia quem havia deixado seu parceiro ali. Ela simplesmente recebeu uma ligação às quatro da manhã avisando que ele havia aparecido. Pegou seu bebê e todas as bolsas da pequena Lauren e correu para a casa da mãe. Entregou a menina a ela e foi para o hospital. A ansiedade era tamanha que ela não conseguia parar de sorrir. Finalmente não estaria mais sozinha. Seu sorriso, entretanto, duraria somente o tempo necessário para percorrer o caminho até o hospital. Mulder estava praticamente irreconhecível. Seu rosto estava roxo e inchado, seus cabelos compridos e sua barba por fazer. Scully não se conteve e chorou ao vê- lo em tal estado. Os médicos nada mais poderiam fazer. Tudo dependia do próprio Mulder... de sua vontade de viver. Scully lembrou-se da própria abdução, quando também tudo dependera dela. Tudo que poderia fazer agora era simplesmente ficar com Mulder o maior tempo possível. Foi o que fez, intercalando momentos no hospital e em companhia da filha, até que uma semana depois, ele acordou e suas primeiras palavras foram: 'Onde está Lauren?'. Após alguns minutos de total surpresa e choque, Mulder lhe dissera que não sabia como, somente que sabia da existência da filha e que precisava vê-la. Três dias depois, Scully o levou para sua casa. Seu antigo apartamento ainda estava no nome dele, mas ela preferiu que ficassem juntos. O percurso foi silencioso. Nenhum dos dois falava coisa alguma. Scully por felicidade. Não havia palavras suficientes para expressar o que sentia. Mulder por receio. Algo estaria para acontecer. Talvez não agora, mas num futuro não muito distante. Tudo parecia diferente para o homem sentado ao lado de Scully. Até as ruas da cidade não mais pareciam ser as mesmas. Era como se ele houvesse visto demais. Visto além do que os homens na Terra haviam visto. Visto além do que seus olhos poderiam enxergar. De longe, avistou a casa de Margaret e viu a pequena garotinha brincando sozinha no jardim da frente. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele sorriu. Um sorriso triste, porém sincero. Lauren brincava com suas naves espaciais. Não havia sido possível retirar da cabeça da criança a idéia daquilo. Ela viu os brinquedos e simplesmente não deixou a mãe em paz enquanto não os obteve. Scully viu, naquele momento, que nunca precisaria de nenhum exame de DNA para certificar-se de que Lauren era filha de Mulder. Até o modo como ela era teimosa era idêntico ao do pai. Scully estacionou o carro com cuidado para não assustar a filha e sorriu quando esta se levantou e correu em sua direção. - Lauren, já não falei para não correr em direção ao carro?_ Gritou, esperando que a filha entendesse o significado de suas palavras. A menina parou com os olhos arregalados ao ouvir a voz da mãe. Ainda não tinha idade suficiente para entender todas as palavras de Scully mas distinguia seu tom de voz. Um sorriso formou-se no rosto de Mulder ao perceber a obediência à mãe. Scully certamente era perfeita naquele papel e ele sentiu falta de não ter estado ali para ver sua barriga e seu mau humor crescerem. Não pôde deixar de sorrir ao imaginar as possíveis reclamações dela durante a gravidez. Ao avistar o estranho homem no carro, Lauren parou por alguns instantes. Olhou no fundo dos olhos dele com o rosto sério. Mulder fazia o mesmo. Era um momento de reconhecimento. Scully olhava para os dois e via como eram parecidos. Lauren movera-se caminhando em direção a Mulder vagarosamente, ainda com um olhar muito sério. Sério até demais para uma criança, pensou Scully. Repentinamente, ela correu em direção a Mulder com os braços abertos, falando ou tentando falar o que parecia ser: - Papai. Com as mãos no rosto e lágrimas embaçando sua visão ao observar uma cena tão linda, Scully teve seus pensamentos interrompidos quando fora notada no quarto da filha. Mulder sorriu para ela que imediatamente entendeu a necessidade de aqueles dois estarem juntos. Virou- se e voltou para cama. Apartamento de Scully Washington D.C. 31 de dezembro de 2001 O silêncio tomara conta da cidade repentinamente. Não havia ruído algum. Era como se o criador e mantenedor de todas as coisas houvesse simplesmente retirado o som de tudo ou mesmo deixado todos os seres da Terra surdos. O céu estava vermelho e as nuvens cor de sangue circulavam rapidamente, trazendo uma escuridão horrenda à Terra. Pedestres corriam para abrigos, mas não conseguiam chegar antes da destruição. Raios e bolas de fogo começaram a cair do céu em velocidades inimagináveis, queimando tudo e todos que estavam ali embaixo. Grandes naves redondas e achatadas encobriram a cidade, fazendo com que a escuridão tomasse conta de todo o local. Todos esperavam há tempos por aquela situação, no entanto sabiam agora que não estavam preparados como acreditavam. Nada poderia prever tamanho terror. Mães e pais correndo com filhos nos braços. Namorados correndo abraçados. Crianças abandonadas chorando em algum canto escuro. Homens ajoelhados pedindo perdão. Era tarde demais. A destruição havia começado. Não havia mais o que fazer ou para onde correr. O destino estava ali e o futuro que todos imaginavam estar longe, chegara. O futuro era hoje e talvez não mais houvesse futuro para hoje. Tudo provavelmente acabaria ali mesmo. Nada mais existiria e caberia a Deus criar tudo novamente. Tudo dependeria da existência de um ser que poderia salvar a humanidade. Um ser que até então não era conhecido por ninguém, a não ser por aqueles que iniciariam a colonização. Uma pequena menina, com cabelos tão vermelhos quanto a cor do céu naquele instante, levitava com braços abertos e rosto caído ao peito. Seus cabelos voavam para todas as direções, enquanto ela era levada através de uma luz para aquela enorme nave que pairava no céu. Ela era a salvação. Uma vida sacrificada em nome de sete bilhões. Uma pequena vida de apenas poucos anos de vida era a responsável pela sobrevivência de todas as raças da Terra. Scully, de longe, via a pequena menina, que talvez tivesse dois anos de idade, subir, levada pela luz com seus pequenos braços abertos e ainda com camisola de dormir. Tentou imaginar a dor que a mãe da menina deveria estar sentindo e seu coração se apertou. Não, não poderia ter idéia daquela dor. Era triste e devastador demais somente de imaginar. A menina finalmente pareceu atentar para o que lhe estava acontecendo e abriu os olhos. O choque da constatação foi tão violento que Scully mal conseguia se conter, diante de tamanha dor. Cerrou suas pálpebras enquanto lágrimas escorriam pesadamente sobre seu rosto. Era Lauren. Scully tentou correr em direção à menina, mas foi impedida. - Scully!!! Ela sentiu mãos fortes segurando seus braços e gritando seu nome. Quem poderia ser? Como poderiam ainda querer que ela parasse e não seguisse em frente para salvar sua própria filha? Por fim, ela virou-se em direção àquele que a segurava e viu Mulder, que a acalmava carinhosamente enquanto a abraçava. - Scully, é tudo um sonho. É tudo um sonho. Mais uma vez Mulder estava ali, ao seu lado, acalentando-a, impedindo- a de continuar mais um de seus pesadelos, impedindo que ela se perdesse no abismo que se criava entre a realidade e aqueles sonhos. Alguma praia ali perto 2006 Era domingo e o céu estava perfeitamente azul e sem nuvens. Um dia maravilhoso para ir pela primeira vez à praia e ver o mar. Mulder e Scully pegaram a pequena Lauren e seguiram rumo à praia mais próxima da cidade. Gostariam de se divertir um pouco e relaxar com sua filha. Além de mostrar a ela como era o mar. O casal estava mais feliz que nunca. Finalmente teriam alguma folga dos diversos casos que resolviam. Scully se impressionava pela forma como Mulder se dedicava à família. Ela sabia que ele seria um ótimo pai, mas não esperava que ele cogitasse a idéia de sair do FBI para se dedicar às duas mulheres da sua vida. Obviamente Scully não permitiu. Tinha certeza que ele não seria feliz se abdicasse do trabalho da sua vida, da sua cruzada, do local onde os dois conheceram o que era o amor, o que era confiança. Não, ela não deixaria que ele pedisse demissão. Enquanto pai e filha brincavam na água salgada e fria do mar, Scully sentava-se à sombra do guarda-sol, observando os dois. Como eram parecidos e como representavam tudo na vida da agente. Somente imaginar perder um dos dois a fazia sentir um profundo aperto no peito e uma vontade imensa de chorar. Sabia que sua vida não era segura e que, a qualquer momento, o pior poderia acontecer. Tentava ao máximo não pensar no amanhã, mas às vezes era praticamente impossível. Especialmente num momento como esse, onde ela via as duas razões de sua vida juntas, brincando felizes com a areia branca e a água cristalina do mar. Era um momento quase sagrado ver os dois juntos, felizes. E ela gostava de observar. Nunca interromperia o que eles estavam fazendo por nada. Gostava de vê-los juntos. ******* - Papai, eu conheço esta praia. Mulder olhou para sua filha com um olhar triste. Não sabia de onde ela conhecia esta praia, visto que era a primeira vez que ali estavam, mas não pôde deixar de imaginar que talvez ela tivesse aquilo em sua mente. Talvez fosse somente uma sensação de Deja Vu, mas isso também o assustava. Sabia como eram os Deja Vus da sua família. - Como você já conhece, Lauren? Onde você viu? Em fotos na revista?_ Tentou ser o mais realista possível, embora o pior fosse o esperado. - Não. Eu não sei. Lauren continuou a brincar com seu castelo que há todo momento era destruído pelas ondas do mar à sua frente. Ela adorava vê-lo destruído e não reclamava de ter que montar tudo novamente. Era perseverante como se tivesse certeza que em algum momento o castelo ficaria em pé, mesmo que a onda chegasse perto. Com o coração apertado, Mulder abraçou sua filha carinhosamente. Não queria perdê-la, mas alguma coisa nele o fazia sentir e até mesmo ter certeza de que ela seria levada. Desde quando voltara da sua abdução, sabia que, da mesma forma que ele, Lauren era muito importante para o que estava por acontecer ao planeta. Mesmo correndo o risco de perder Scully não contando a ela tudo o que sentia, preferia fazer dessa forma. Preferia aproveitar os dias que estavam juntos do que fazê-la sofrer por antecipação ou vê-la tentar fugir, algo que seria totalmente inútil. Mulder passava as mãos no pequeno rosto da filha e se orgulhava. Via Scully ali. Via os olhos de Scully. Os olhos alegres de Scully, que Mulder só vira quando voltara do lugar em que estivera durante os meses da gravidez da sua parceira. Lauren era responsável pela felicidade extrema da esposa e não seria ele capaz de retirar dela esse sorriso. Lauren era uma dádiva que lhes fora entregue e que possuía características especiais. Somente gostariam de acreditar que ela não teria o mesmo destino do pai, cuja importância para o grande Projeto do Sindicato esteve sempre à mostra. Anos depois, ainda não se sabia como, Scully pudera engravidar, sem nenhum tratamento. A única explicação plausível seria talvez o chip, que ela ainda possuía em sua nuca e que talvez mantivesse controle sobre ela. Um chip sobre o qual muito pouco sabiam. Um chip que poderia ter dado a ela o poder de fertilidade. Mulder voltou novamente seu olhar para Lauren e viu que ela finalmente conseguira montar seu castelo sem que esse fosse derrubado pelas ondas. A maré já estava baixando e Mulder seguiu rumo a Scully que deitava confortavelmente na sombra. Em algum lugar desconhecido 2001 O lugar extremamente úmido e iluminado por apenas uma tênue luz branca que passava por baixo da porta era onde Fox Mulder se encontrava. Sua respiração era inconstante e seu peito doía todas as vezes que o ar entrava por seus pulmões. O fino, mas intenso feixe de luz, que atravessava o quarto, sala, onde quer que ele estivesse só permitia que ele observasse a luz, nada mais. Era forte o bastante para quase cegá-lo. Seus olhos não abriam mais que alguns milímetros. Estava fraco e impotente. Talvez estivesse amarrado, mas seu corpo estava, de certa forma, anestesiado, impossibilitando-o de se mexer. Não se recordava de nada do que havia acontecido. Absolutamente nada. A porta foi subitamente aberta terminando por cegá-lo completamente e o que pareciam homens, adentraram o quarto. Após alguns instantes, acostumando o pouco que abria dos olhos com a luz, pôde observar que se tratavam de médicos. "Que bom que são médicos. Estou sendo tratado." Seu alívio, entretanto, durou pouco. Imediatamente os supostos médicos encaixaram em seu crânio um capacete com eletrodos diversos. Sem poder gritar ou ao menos se mexer, ele terminou por fechar totalmente os olhos e permaneceu imóvel. Esperando. Uma pequena garotinha ruiva brincava contente num jardim. Parecia o jardim de Meggie Scully. A criança utilizava pequenas bonecas e as fazia caminhar vagarosamente pelo gramado. Ela então avistou alguém. Alguém que a fez levantar-se imediatamente e sair correndo com os braços abertos. Era Scully, que também correu e agarrou a pequena menina nos braços beijando-a. Um som foi ouvido: "Mamãe!" Mulder acordou de supetão. Seu coração batia acelerado e ele abriu completamente os olhos dessa vez. O quarto estava em completa escuridão. Ao relembrar da imagem que viu, seu estômago se apertou de tal forma que chegou a doer. Seu corpo todo estava dolorido, mas a dor psicológica que sentia era muito maior. Sua parceira. Sua amante. Uma filha. Há quanto tempo estava ali? Será que Scully havia se casado? Não conseguia lembrar-se de nada do que acontecera alguns dias antes de ter sido seqüestrado. Como poderia ter "lembrado" de tais imagens? O que elas significavam? Não era a primeira vez que sonhava. Era sempre a mesma garotinha. Entretanto, Scully não estava nos sonhos anteriores. Somente agora, ela aparecera, para seu desespero. Novamente a porta se abriu. Dessa vez não havia luz forte, mas uma fraca e ele pôde reconhecer imediatamente o rosto daquele que entrava na sala. _ Você... _ Surpreso? _ Na verdade não. _ falou com a voz fraca. _ Somente afirmei o que já sabia. Tentou levantar-se na cama. Em vão. Ainda não tinha forças. _ O que estão fazendo comigo, Krycek? Por que estou tão fraco? Que sonhos são esses que estou tendo? _ Quantas perguntas, Mulder. Vou respondê-las calmamente. Krycek caminhou até um canto escuro da sala e acendeu uma luz fraca. Mulder pôde observar onde estava. Era um quarto totalmente fechado. Não via uma porta, nem mesmo a que por onde o homem a seu lado acabara de entrar. Entretanto, havia uma janela com espelho do seu lado esquerdo. Exatamente onde Krycek dispusera a cadeira que puxou para sentar. Mulder se encontrava deitado numa grande maca no centro do quarto de paredes brancas. Mulder deu tempo ao tempo. Não adiantava, nas condições em que se encontrava, brigar com Krycek. Precisava de resposta e se, rastejar diante daquele homem fosse preciso para obtê-las, ele o faria. _ A sua primeira pergunta foi o que estão fazendo com você. Bom, o que EU ordenei que fizessem com você. Depois que você sofreu aquela grande atividade cerebral e foi operado, descobrimos o potencial sobre-humano que vocês possuem. Podem ser submetidos a maiores testes e maiores dores porque sobrevivem. Seres humanos comuns não podem passar pelo que vocês passam. _ Krycek observava Mulder, que possuía um olhar indecifrável. _ Continuando, a agente Scully também sofreu testes e teve grande parte dos seus óvulos inseminados, gerando crianças-teste, como chamamos. Os olhos de Mulder instantaneamente encheram-se de lágrimas ao lembrar de Emily e de como Scully sofrera com a filha. Percebendo o sofrimento, Krycek, cinicamente, perguntou: _ Quer que eu pare? _ Quando eu quiser que pare, eu falo. Continue. _ De qualquer forma, ela sofreu grandes traumas com os testes, mas assim como você também possui em si, a capacidade de sobreviver a esses traumas, inclusive maiores. Precisamos de pessoas assim, agente Mulder, para continuarmos os testes. _ Por que seqüestraram somente a mim? _ Acha que estávamos poupando a sua parceira? _ Mulder permaneceu calado. _ Não a seqüestramos porque precisamos da agente Scully para a segunda parte do plano. Ela provavelmente sofrerá mais que você, pelo simples fato de não ter sido "abduzida". _ Como assim, seu filho da mãe? _ Mulder começou a ficar com raiva. Não se importava de sofrer, contanto que Scully estivesse bem. Mas agora sua impotência estava evidente. _ Não fizemos nada com ela. _ após uma pausa, continuou. _ Ainda não. As lágrimas que antes somente habitavam os olhos do agente, agora caíam lentamente, molhando seu rosto e mostrando a Krycek que pelo menos ele possuía um coração. _ Não adianta chorar. Essa é a verdade que você tanto procurava. Precisamos de alguém forte o suficiente para provar aos alienígenas que somos superiores e que podemos vencê-los. Era isso que você procurava, Mulder. Não adianta chorar agora. Você procurou tudo isso. Se tivesse ficado no seu canto, como qualquer cidadão, as chances de estar aqui agora seriam mínimas. _ E deixar vocês seguirem matando inocentes? _ Você se acha inocente? Já conseguiu salvar alguém do que fazemos aqui? _ Com exceção das lágrimas teimosas que caíam, Mulder estava estático. _ Você só via as pessoas porque deixávamos que visse. Mas não se preocupe, dentro de pouco tempo você sairá daqui. Irá embora. Mas não para sempre. _ O que você quer dizer com isso? _ Você saberá quando for a hora. _ Krycek fez menção de levantar-se para ir embora, mas Mulder o impediu com a mão. _ Você não me respondeu as outras perguntas. _ Pense, agente Mulder. Pense enquanto pode. Apartamento de Scully Washington D.C. 25 de dezembro de 2001 A mesa à sua frente estava tomada de papéis, alguns amassados, outros não. O sofá onde estava sentado era confortável, mas não o bastante para fazê-lo relaxar. Inclinou-se e buscou o copo com suco que se encontrava em cima da mesa. Ao sentir o gosto doce em sua boca, ele suspirou e ficou a ouvir o som dos cubos de gelo balançando. O único som em seu apartamento aquele dia. Scully e Lauren estavam passeando. Gostava de deixar as duas sozinhas vez em quando, principalmente para poder ter um tempo para si próprio também. Não que não precisasse das duas para viver, porém, também era necessário que se encontrasse consigo próprio algumas vezes. Entretanto, esses momentos eram normalmente de reflexão, de angústia e não de relaxamento. Todas as vezes tentava prestar atenção aos filmes que alugava ou mesmo tinha em casa, mas seus pensamentos sempre se voltavam ao que sabia, ou pelo menos, achava que sabia. A sua abdução o deixou com um pressentimento forte de que ainda não havia chegado ao seu destino final e que muito ainda estaria por vir. Ainda não tinha idéia de porque, ao retornar, sabia da existência da filha. Era como se aquelas memórias tivessem sido implantadas nele, já que obviamente não as havia vivido por si próprio. Além de outras lembranças que tinha. Era como se já houvesse visto e vivenciado o que ainda não havia acontecido. Era uma sensação dolorosa poder sentir de antemão fatos que ainda não haviam de fato ocorrido e era com profunda tristeza que ele sabia, porque sentia, que sua filha não estava a salvo. Nunca comentou com Scully sobre tais sentimentos e era como se a estivesse traindo, mas não poderia fazê-la passar pela dor mais de uma vez. Preferia sofrer pela perda e deixar que Scully continuasse aproveitando a vida com a filha enquanto pudesse ou enquanto lhe permitissem. Scully, por sua vez, intrigava Mulder com seus sonhos, os quais ele sabia, aconteciam eventualmente. A vida de Scully estava sendo guiada por homens desprovidos de qualquer tipo de sentimentos. O pior de toda a situação, porém, era saber de tudo isso e não poder influir em nada. Tudo fazia parte de um grande plano a fim de evitar o pior e alguém haveria de ser o escolhido. Neste caso, a família dele fora. Voltou seu olhar para o copo em suas mãos. Vazio. Assim como a vida de sua esposa e a sua estariam quando o inevitável acontecesse. Apartamento de Scully Washington D.C. 2008 O apartamento estava relativamente vazio. Os móveis estavam sendo transferidos para a nova casa que o casal Scully-Mulder comprara no subúrbio da capital. Após muita deliberação, decidiram que o melhor para a pequena Lauren Scully-Mulder seria viver num local calmo, arborizado, com boas e tranqüilas escolas. Lauren estava com sete anos e era uma menina adorável e muito especial. Desde pequena, não parecia ter a idade que possuía. Começou a falar e andar muito cedo. Em alguns momentos inclusive parecia poder ler pensamentos, pois diversas vezes dizia a coisa certa no momento certo. Entretanto, nada fora comprovado e Scully finalmente admitiu para si mesma que tudo não passava de uma boa intuição. Era uma menina única. Os pais bem sabiam disso. Sete anos após o milagre chamado Lauren ter nascido, ainda não estava nem um pouco claro como ela pôde ser concebida. Os agentes, àquela época, estavam sexualmente ativos, celebrando seu amor, mas Scully ainda assim era estéril, tanto que não tomaram precauções quanto à gravidez. Nada disso importava agora. Somente que Lauren era a razão da vida dos agentes e que os dois fariam tudo pela filha. ******* O dia estava ensolarado e quente. A tarde chegara rapidamente e Scully não conseguia sair do trabalho para chegar em casa e esperar por Lauren. Mulder estava fazendo trabalho de campo numa cidadezinha ali perto. A preocupação de Scully aumentava a cada minuto e ela não conseguia liberação da reunião com o Diretor Geral do FBI. A agente estava prestes a ser promovida a Diretora Assistente, devido aos seus resultados bastante positivos nas últimas investigações. Não sabia ao certo se estava feliz ou não com essa mudança, mas já havia tido certeza que não teria que abandonar seu trabalho nos Arquivos X. Na verdade, a única mudança visível no momento era a de que ela seria agora superior a Mulder na hierarquia do Bureau. As horas se passavam e Lauren provavelmente já estaria em casa. Sozinha. Levantou-se apressadamente, despediu-se dos colegas e saiu. A reunião não acabaria cedo e ela não estava disposta a arriscar a vida de sua filha pelo Governo. Deixou seus pensamentos de lado e focalizou sua ida para casa. Precisava chegar o mais rápido possível. As ruas pareciam mais movimentadas que o normal, seu carro mais lento, mas ela sabia que era tudo fruto da sua imaginação. Não tinha certeza de porque estava tão nervosa para encontrar sua filha e isso a assustava. Era como se pressentisse que algo estaria prestes a acontecer. Não queria acreditar nisso. Seu coração falava que o pior estava por vir, mas sua mente dizia que não era nada demais. Ela estava se preocupando à toa. Entretanto, como sempre, a vida dá voltas inimagináveis e seu coração estava certo. À medida que se aproximava da casa recém adquirida seu coração mais se apertava contra seu peito. Ela achava que explodiria a qualquer momento de tamanha angústia. Tudo já estava cercado com as tão conhecidas fitas amarelas do FBI e a porta parecia arrombada. Estacionou seu carro em qualquer lugar da rua e correu pelo gramado onde a pequena Lauren adorava brincar quando chegava da escola. As lágrimas, que já embaçavam seus olhos, estavam prestes a cair quando finalmente alcançou a porta de casa. Olhou quase que hipnoticamente para sua casa e não conseguia enxergar direito. Sabia que muitos homens estavam ali, mas onde estava Mulder? Onde estava Lauren? Por um momento parecia que nada era realidade, que tudo era mais um de seus sonhos e que ela acordaria em alguns instantes e veria toda a sua família novamente reunida e feliz. - Agente Scully._ O agente Stewart, responsável pelo caso, a tirou de seus devaneios. - O que... aconteceu?_ Foi tudo o que pôde falar. - Não sabemos ao certo. Recebemos uma ligação dos seus vizinhos alertando para uma movimentação em sua casa. Viemos o mais rápido possível, mas era tarde demais e a sua fil... Naquele instante, Scully não conseguia mais ouvir perfeitamente, a voz do agente foi rapidamente substituída pelo nada e tudo que podia ver era que ele continuava falando, mas ela não conseguia ouvi- lo. Todos os seus sentidos estavam alterados e ela sentia um gosto amargo na boca, além de sua visão estar deturpada. Suas pernas começaram a fraquejar, até que ela finalmente caiu sobre seus joelhos. Entretanto, aquilo não importava, a dor física não era nada perto do que estava sentindo agora. Tudo o que permanecia na sua cabeça era a idéia de não ter mais a sua filha ao seu lado. PARTE II – A VERDADE Algum lugar 2017 Por um momento tudo pareceu claro, mas novamente a escuridão se firmou em meus olhos. Eles estão abertos, mas mesmo assim não vejo nada. Estou cega ou não há luz nesse local. De onde viera a claridade? Sonho? Imaginação? Alucinação? Não sei. Os dias neste covil passam mais devagar que o normal e o tempo parece expandir-se de tal forma que nada parece de fato existir. Não ouço nada além da minha própria respiração. Às vezes penso que talvez já esteja morta, porém a morte é assim? Que fiz para merecer tamanha solidão e escuridão? As trevas são o local para onde são levadas pessoas de má fé, pessoas más. Não me lembro de ter sido má. Não me lembro de nada para falar a verdade. Não tenho nem idéia de como sou. Não sei nada sobre mim mesma. Somente sei que estou aqui há algum tempo. Talvez dias, talvez horas, talvez anos, séculos. Não sei e nem me atrevo a perguntar a quem quer que apareça. A solidão está me incomodando e quanto mais eu tento afastá- la, mais próxima ela fica. De onde vem tanta falta de luz? Será que essa será minha vida daqui para frente? Vermelho. Muito vermelho é o que eu vejo em minha cabeça. Talvez sangue. Não, não é sangue. É algo bom. Algo que me faz sentir confortável e segura. Totalmente diferente deste lugar onde o chão gelado e o teto são meus únicos abrigos. O que será o vermelho? Será o inferno? Será que minha malevolência é tamanha que o inferno é para mim confortável e seguro? Não creio. Mas novamente não tenho conhecimento ou lembrança suficientes para saber o que é o inferno. Nem sei ao menos se essa cor se refere a inferno. E quem garante que o inferno não é este lugar terrivelmente negro e o vermelho representa a paz. Ou pelo menos a minha paz? Durante toda a vida ouvi um volume enorme de informações em minha mente, como se alguém falasse comigo sobre diversas coisas, ciências, história, matemática. Não compreendo o porquê de tudo isso e tampouco sei se é algo bom. Não acredito que saberei tão cedo. Melhor voltar a dormir e pedir silenciosamente para alguém me retirar deste lugar ou mesmo desta vida. Certamente haverá um lugar melhor para mim do que este. Algum tempo indefinido depois Mesmo local Novamente meus olhos se abrem para ver a escuridão. O costume é tão grande que nem sei se consigo me lembrar de como as coisas são realmente. Só me lembro do vermelho. Espero um dia poder encontrar o que quer que seja que esta cor represente na minha vida para reencontrar a paz. É melhor que eu ande por este local. Minhas pernas estão dormentes e não obedecem aos meus comandos. Quase caio, mas consigo me segurar na parede lisa e seca. Talvez eu precise andar quando sair deste local, melhor iniciar imediatamente. A primeira volta é mais difícil, meu corpo não me obedece como deveria, mas à medida que continuo, ele começa a responder mais rapidamente, o que me dá ânimo para continuar. Algumas voltas depois, uma luz branca adentra o pequeno local onde me encontro. Aos poucos ela invade o quarto e finalmente alcança o meu corpo. Sinto um arrepio ao notar que aquela luz poderá me salvar. E talvez eu finalmente esteja livre deste local. Olho em direção a ela e vejo três pessoas vindo em minha direção. Meu sorriso de felicidade morre ao ver que eles têm seringas nas mãos. Testes. Terríveis testes. Testes em que a minha única esperança é morrer. - Não. Por favor, de novo não._ São as únicas palavras que eu consigo formar antes de ter injetado em mim algum tipo de medicamento. Washington D.C. Residência dos Scully-Mulder 2017 Há alguns anos os ex-agentes do FBI mudaram-se da grande casa que possuíam e também deixaram o FBI. Após o desaparecimento de Lauren, os dois não suportaram mais continuar trabalhando ali. O local era terrível demais, trazia lembranças demais. Incrivelmente, a idéia partira de Mulder. Scully não se sentia confortável com a idéia de retomar sua carreira na medicina sabendo que sua filha estava em algum lugar desconhecido sofrendo horrores. De início, queria os Arquivos X. Eles eram uma forma de fazer com que eles tivessem acesso a documentos, notícias de abduzidos, pudessem viajar, entre outras coisas. Mas antes disso, eles estavam destruindo inclusive seu relacionamento. Scully não conseguia nem mais conversar com Mulder sem irritar-se. Não conseguia dar a ele o olhar orgulhoso que sempre dera ao vê- lo conseguir resolver um caso ou somente para agradá-lo e vê-lo feliz. Sabia também que ele não era culpado, mas precisava culpar alguém e esse alguém era a pessoa mais próxima dela naquele momento. Percebendo que Scully poderia perder-se numa viagem sem volta àquele mundo de culpa, de medo, de solidão e de tristeza, Mulder propôs que eles saíssem do FBI. Obviamente dificultaria um pouco a busca pela filha, mas não seria impossível. Skinner ainda estava no Bureau e poderia ajudá-los. Era a única solução no momento. Sabia o quanto Scully sofria. Sabia o quanto ele próprio sofria ao ver Scully daquela forma e ao imaginar o que sua filha estava passando. Tinha idéia do que estavam fazendo com Lauren. Provavelmente era algo muito próximo do que fizeram com sua parceira há alguns anos e com ele mesmo. Todos os dias olhava para a cama sempre arrumada da filha e se lembrava do seu rosto sorridente. No entanto, não poderia deixar que acontecesse com Scully o que acontecera com ele após o seqüestro de Samantha. Não seria justo. A dor pelo desaparecimento de Lauren era mais forte que a que sentira por sua irmã, mas a dor de tantos anos o deixou mais forte e capaz de lidar com o sofrimento e caberia a ele, agora, ensinar isso a Scully. Afinal, ela sempre fora o seu ponto de apoio quando ele mais precisava. Os papéis foram invertidos e ele precisava ser forte o suficiente pelos dois e tentar fazer o máximo para trazer Scully de volta do mundo escuro e triste onde ela se encontrava. Seus olhos enchiam-se de lágrimas ao imaginar que após tantos anos talvez nem mais reconhecesse a própria filha. Quem sabe ela já não estivesse de volta sem saber de sua família? Não havia a quem recorrer. Mulder levantou-se da cama onde dormia junto com Scully e dirigiu-se à cozinha. Não eram raras as noites em que não conseguia dormir e achava ótimo que Scully conseguisse descansar pelo menos dormindo em algumas noites. Ela mudara bastante após o desaparecimento da Lauren. A maioria pequenas mudanças de comportamento, como chorar com mais facilidade e demonstrar seus sentimentos prontamente. Não os reprimia mais. Entretanto, a mudança mais significativa e a que mais assustava Mulder era que Scully não mais freqüentava a igreja. Diferentemente de quando teve câncer e procurou praticamente no final da sua jornada, o apoio da igreja, agora Scully chegara ao fundo do poço sozinha. Por mais que seu companheiro quisesse e diversas vezes a incentivasse a rezar, ela não o fazia. Sua fé abalada assustava Mulder. Nunca vira Scully sem fé. Era ela que a fazia caminhar, a fazia seguir com sua vida. Lembrou-se de Emily. Scully não perdera sua fé e ajudara a salvar a vida da pequena garota garantindo-lhe sua única salvação que, infelizmente, era a morte. A situação agora era diferente, o Sindicato permitiu a Scully amar Lauren por sete longos anos. Era como se no mundo só existissem os três. Mulder, mais uma vez em sua vida, se sentira culpado por não ter explicitado a Scully os riscos que ela corria. Seu coração se partia cada vez que via lágrimas nos olhos da companheira, lágrimas que nada que ele fizesse poderia fazer cessar. Voltou lentamente para o quarto depois de tentar em vão afogar seus pensamentos num copo de água gelada e encontrou Scully sentada na cama com os olhos bastante abertos. Com medo, sabendo dos seus terríveis pesadelos, correu em direção a ela e a abraçou carinhosamente. - Mulder, eu a vi. Ela está viva. ******* Abatido, Mulder não poderia lutar contra sentimentos, especialmente os de sua esposa. Ele próprio devotara longos anos de sua vida à procura de sua irmã, até que a encontrou. Morta. E se Lauren estivesse morta? Como ficaria Scully? Todos os sonhos que ela tivera ao longo dos anos aconteceram de alguma forma. Sua filha fora de fato abduzida, provavelmente estava passando por inúmeros testes e poderia ou não ser deixada viva. Nada garantia sua vida e nada poderiam fazer. Nunca puderam. Mulder sentou-se na cama e esperou que Scully se acalmasse e dormisse novamente. Não foi difícil convencê-la a relaxar, visto que, assim como uma criança, ela esperava dormir para sonhar novamente com a filha. Talvez fosse verdade que ela estivesse viva, mas Mulder não se encheria de esperança. Não mais. Ele precisava estar ali para Scully, caso as coisas não saíssem como planejado. Seus olhos aos poucos encheram-se de lágrimas, que rapidamente transbordaram caindo por entre seus dedos, onde sua cabeça estava enterrada. Scully acordou com o gosto salgado de lágrimas em seus lábios. Vagarosamente abriu os olhos e encontrou seu marido com o rosto coberto pelas mãos, chorando. Movimentou-se cautelosamente a fim de não assustá-lo e o abraçou. Mulder deixou-se ser abraçado. Há muito necessitava de um momento de afeto, Scully sabia disso, mas não sentia forças para tal. Não se sentia capaz de dar a ele o carinho de que precisava até então. O choro baixo do parceiro a fez refletir sobre o momento. Ele, que desde a abdução da filha fora tão forte, agora se deixava levar por momentos tristes. Teria ela negligenciado tanto o marido a ponto de fazê-lo deprimido e solitário? - Mulder.... Mulder, o que aconteceu? - Eu não sei. Eu... simplesmente senti necessidade de chorar. Me desculpe se te acordei. - Não tem problema. Mas deve haver um motivo... - Eu não quero que você sofra mais do que já sofre, Dana. Então era isso. Durante anos ela acreditava que Mulder havia perdido a sua capacidade de achar que tudo era sua culpa, mas estava enganada e agora ela própria sentia-se culpada por não ter dado o apoio de que ele precisava, os dois necessitavam de ajuda, a qual viria de ambos. - Não estou entendendo. Eu não vou sofrer mais, eu a encontrei. - E se esse sonho não for verdadeiro? - Ele é, Mulder. Eu sei que é. Todos os que eu tive se tornaram realidade. Este também há de se tornar. Eu sonhei com você antes de você voltar. Mulder levantou o olhar incrédulo para Scully. Não tinha conhecimento de tal sonho. Não em mais de dezessete anos. - Pois é, querido. Eu sonhei que te encontrava um dia antes de receber a ligação do hospital. Ele sorria. Seus olhos até brilhavam ao ouvir aquela revelação. Mais do que ninguém, seu coração parecia não funcionar mais, somente de lembrar da filha e talvez agora houvesse uma esperança. Acreditava nos sonhos de Scully. Sempre acreditou, mais do que ela própria. - Quer que eu conte pra você o que eu sonhei? Ele fez que sim com cabeça e voltou a encostá-la nos seios da amada à medida que ela começava a falar. - Na verdade, eu tive diversos sonhos com você. Até acordada. Sonhos em que estávamos juntos. - Fantasias, Scully? - Isso, fantasias. _ ela sorriu. - Deixe-me continuar. Todos os sonhos não tinham na verdade um significado real. Eu não acreditava neles, até que eu acordei à noite um dia e o vi sentado bem ali na beirada da cama. _ ela apontou para o local e ele observou. - Exatamente onde você sentou no primeiro dia em que chegou aqui em casa. Exatamente a mesma posição. Claro que à época eu não tinha idéia do que seria aquilo, mas depois que eu vi você sentado na cama, fazendo o mesmo gesto que fez no meu sonho ou alucinação, como quiser chamar, eu tive certeza de que foi um sinal. Um sinal que eu não tinha percebido. _ ela calou-se por um momento esperando alguma observação. - E então? Acredita em mim agora? Com o silêncio dele, ela inclinou para baixo sua cabeça, de forma que pudesse observar seu amado, que já estava dormindo. Admirou a força daquele homem que se encontrava com ela há tantos anos. Os dois se completavam perfeitamente e nada conseguiria entrar no caminho. Várias foram as situações pelas quais passaram juntos, essa seria somente mais uma, a mais forte e dolorosa de todas. - Enquanto estivermos juntos, Mulder, estaremos bem. _ Scully falou enquanto dava um beijo no rosto de Mulder, virando em seguida em direção à janela para observar as estrelas, que brilhavam e, com seus microscópicos movimentos, distanciavam-se da Terra. Washington D.C. 2017 Abriu os olhos e tudo o que via era vermelho. Piscou algumas vezes e continuava a ver o vermelho. Scully não gostava daquilo. Até que uma sensação de paz alojou-se em seu corpo. E, como se ondas de felicidade o tomassem, o vermelho transformou-se em azul e ela pôde ver que olhos a observavam atentamente. Não eram quaisquer olhos, eram olhos familiares. Com um olhar igualmente familiar. - Você está bem?_ A moça perguntou com uma voz suave e calma. Sentindo-se ainda tonta, Scully tentou levantar-se sem sucesso. A moça a ajudou a sentar-se na calçada e lhe ofereceu um copo d'água, trazido pelo dono da loja em frente de onde estavam. Finalmente Scully recuperou um pouco das forças e pôde falar. - O que aconteceu comigo? - Você desmaiou. Estava andando e de repente caiu. Scully reconheceu aquela que a ajudava. Era a mesma que há poucos dias passara por ela, a quem tanto desejava encontrar novamente. Notou, porém, uma mudança significativa, a moça estava arrumada e bem vestida. Tentou, em vão, entender porque no outro dia ela estava tão maltrapilha. Mas isso não importava no momento. - Estou bem agora. Acho que posso levantar. - Tudo bem. Levante-se, mas nós vamos comer alguma coisa antes de eu te levar para casa. - Não precisa. Mesmo. Eu posso ir andando ou até mesmo chamar meu... marido._ Era incrível como até hoje ela não se sentia totalmente à vontade ao chamar Mulder de marido. Não que não sentisse que ele o fosse, mas foram tantos anos chamando de parceiro que se acostumara mais do que poderia imaginar. Além da palavra marido não conseguir expressar tudo o que ele representava para ela. A moça sorriu e disse finalmente: - Impossível. Não posso deixá-la andar sozinha, pelo menos não enquanto não se alimentar. Eu vou junto. As duas seguiram lentamente e em silêncio até uma lanchonete próxima. Sentaram-se e à chegada da garçonete, Scully fez seu pedido: coca-cola light e sanduíche de atum, sem maionese. Até hoje ela era adepta de uma dieta com baixas calorias, que só fora deixada de lado quando da sua gravidez. Seus olhos encheram-se novamente de lágrimas ao lembrar-se da filha. Às vezes gostaria que não se sentisse tão triste quando lembrasse dela, evitaria imaginar o que Lauren poderia estar passando ou que talvez já estivesse morta. - E então? O que você faz? Seus pensamentos foram cortados pela voz suave da moça sentada à sua frente. Seus olhos estavam preocupados e Scully se perguntou qual o motivo da preocupação dela com uma mulher desconhecida. Talvez ela houvesse também sentido alguma coisa diferente quando se encontraram na rua há alguns dias. Talvez. - Eu sou médica. Trabalho no Hospital Geral de Washington. Os olhos da moça brilharam rapidamente para, em seguida, tornarem-se tristes ao ouvir o que Scully dissera. - Muito interessante. Eu gosto de medicina e gostaria de me graduar como médica. - Você é jovem. Há bastante tempo. Deve estar ainda na escola. - Na verdade não. Eu não estudo há muitos anos. _Normalmente não se sentia à vontade para falar de assuntos tão delicados como sua vida particular, mas de certa forma, a mulher que agora se encontrava em sua frente, lhe fazia sentir segura o suficiente para conversar. E, apesar de saber muitas coisas, não acreditava ter a capacidade de uma graduação. Não tinha noção do quanto era inteligente e do quanto havia sido ensinada. A visão daquela jovem triste fez com que Scully se sentisse da mesma forma e ainda culpada por talvez ter trazido memórias ruins à jovem moça. - Eu sinto muito. A garçonete chegou com os pedidos antes que Scully pudesse continuar a conversa. Olhava atentamente para sua companhia se perguntando porque ela não estudava há tantos anos. Qual seria a idade dessa jovem? E quem respondia por ela? Eram perguntas que Scully não se atreveria a perguntar. De alguma forma, as coisas estavam tomando um rumo, que intuitivamente Scully sentia ser seguro e que não sabia explicar, mas o seguiria. - Você poderia me dizer seu nome? Afinal você me ajudou quando precisei. Agora preciso retribuir tal gesto com no mínimo um almoço ou jantar. _ Aproveitou a oportunidade para saber mais sobre a menina. Ela sorriu com a pergunta e ao mesmo tempo a melancolia se firmou em seu rosto pois não recordava do seu sobrenome, somente do primeiro. De qualquer forma, era tudo o que sabia. - Lauren. Meu nome é Lauren. Scully quase engasgara. Era a primeira vez naquela cidade que conhecia alguém chamado Lauren. Por uma fração de segundo, ela emocionou-se com a possibilidade daquela Lauren ser a sua filha, o que era praticamente impossível. Apesar dos cabelos e dos olhos, nada mais. Exceto talvez a sensação de paz e felicidade que a inundavam sempre que a encontrava. Porém isso não dizia nada, pelo menos não para a mente cética de Dana Scully. Apesar de confiante inicialmente, tinha medo. Medo do que Mulder seria capaz de fazer. Tinha certeza que ele poderia novamente focalizar no assunto e ser consumido por ele. Não podia se dar ao luxo de perder seu amigo, amante, parceiro, companheiro. Aquele a quem ela devotara e entregara a vida. Além de tudo, a vontade de reencontrar a filha era tão grande que essa não era a primeira vez que ela imaginara tal situação. Duas vezes já aconteceram de encontrarem meninas da idade de Lauren que não possuíam memória ou com uma história estranha de vida, mas exames de DNA comprovaram que nenhuma delas era Lauren. Em ambas as vezes Scully e Mulder sofreram muito. Não seria agora que se entregaria novamente a essas emoções. Principalmente também porque era simples demais. Simples demais. E a verdade nunca fora assim. O desejo de se juntar novamente à filha poderia trazer emoções um tanto quanto perturbadoras. Mesmo com todos os sonhos que tivera que se tornaram, de uma forma ou de outra, realidade, agora que tudo se encaixava, não conseguia acreditar. Além do que, a Lauren à sua frente não se parecia com a Lauren do seu sonho mais recente. Não podia lembrar-se com clareza do rosto da filha no seu sonho, mas não lembrava sua companhia. Disso tinha certeza. Mulder deveria estar ali compartilhando esse encontro com ela. Talvez ele soubesse o que estava acontecendo e talvez da mesma forma como sabia da filha assim que chegou da sua abdução, talvez a tivesse reconhecido. Talvez. Tudo eram suposições. Lauren finalmente falara novamente percebendo o momento de reflexão de Scully. - E o seu? - O meu o quê?_ Seus pensamentos mais uma vez tomaram conta dela e Scully esquecera do assunto. - Seu nome. Qual é o seu nome? - Dana Scully. Lauren sorriu e olhou em direção ao grande relógio antigo de parede do pequeno restaurante onde se encontravam e avisou que precisava ir. Imediatamente Scully entregou um cartão com seu endereço residencial a ela marcando um jantar para sábado. - Nos encontramos lá, então?_ Scully estava curiosa a respeito da jovem e talvez pudesse descobrir coisas sobre si mesma nela. - Vai ser ótimo. Ela se retirou, deixando seu sanduíche recém mordido e a ex- agente do FBI perplexa com o ocorrido. De um lado, seu coração dizia que havia algo mais na relação das duas mulheres. Por outro lado, sua racionalidade dizia que não, que era somente uma coincidência do destino ou de alguém que queria deixá-la louca de vez. Scully virou seu rosto em direção à porta do recinto assim que se lembrou que não sabia o sobrenome de Lauren, mas foi tarde demais, ela já havia se retirado. Washington D.C. 2017 Os dias estão passando rapidamente. É como se o meu tempo estivesse em uma escala diferente da normal. E era assim que os dias passavam normalmente para mim. Sempre do mesmo modo. Meus dias de exaustivas caminhadas sem fim e sem rumo finalmente terminaram quando um grupo de freiras me abordou na rua oferecendo-me casa, comida e roupas. Elas são boas e de certa forma, sinto que estou abrigada do perigo dentro do convento. Uma das freiras, a que eu particularmente mais gosto, me disse algo muito importante e que provavelmente fará diferença na minha vida daqui para frente: tudo vem a seu tempo. Deus sabe o que faz e as coisas não acontecem por acaso. A felicidade vai bater à minha porta quando eu menos esperar. As oportunidades estão sempre acontecendo e somente precisamos saber aproveitá-las. Saí do nosso encontro um tanto duvidosa, mas queria acreditar na Irmã Madalena. Ela é uma mulher jovem que decidiu entregar sua vida totalmente a Deus, renegando assim aos prazeres carnais da vida que chamam de normal. Ela me contou que era uma jovem rebelde, que muitas vezes fora inclusive promíscua, que desobedecia às leis humanas e divinas, até que um dia recebeu uma espécie de chamado. Um chamado divino que a libertou da vida que levava, trazendo-a para este lugar, onde ela é feliz. O que aconteceu é que a Irmã Madalena estava certa. Aliás, está certa. Hoje, ao caminhar nas ruas desta cidade, sentindo todo o calor do sol no meu rosto e praticamente sentindo suas ondas de energia entrando e recarregando meu corpo, eu a vi novamente. Mas dessa vez, ela estava cansada e sua figura não mais era a que eu vira pela primeira vez. Não sei se eu estava diferente, com outra perspectiva e criei uma barreira de pseudofelicidade que mascarou a realidade e todos pareceriam tristes perante a minha suposta felicidade ou se ela realmente estava abatida e cansada. A segunda opção se fez verdadeira. Ela desmaiou na rua. Simplesmente caiu no chão como se um raio tivesse caído em sua cabeça naquele mesmo instante. Corri para ajudá-la e como suspeitava, não aceitou a ajuda de imediato. Saímos dali para conversar, mas infelizmente tive que sair e não pude fazer-lhe muitas perguntas, pois as freiras têm uma espécie de toque de recolher e eu devo segui-lo se quiser continuar aqui. Saí apressadamente e só sei sua profissão, médica, e seu nome, Dana Scully. Bonito nome. Familiar também. Tudo nela me é familiar. Qual será a minha ligação com ela? Por que eu me sinto tão confortável quando nos vemos? Somente duas vezes nos vimos e eu já me sinto dessa forma. Por quê? São tantas perguntas pipocando em minha cabeça que às vezes acho que estou doente ou que meu cérebro explodirá. Mas uma coisa eu tenho certeza, a Irmã Madalena está certa e com o tempo eu saberei exatamente quem é Dana Scully para mim. Residência dos Scully-Mulder Washington D.C. (uma semana depois) 2017 Uma semana se passou sem que Scully tivesse notícias de Lauren. Caminhava sempre pelos mesmos lugares de antes, mas em nenhum dia a encontrou. A preocupação que, inicialmente, fingia não sentir, se alojou nela no terceiro dia sem notícias da menina. Mal a conhecera e ela já se fora. Mesmo com a recomendação dos médicos para que ela descansasse em casa após seu súbito desmaio, não pôde. Mulder tentou insistir para que fosse obediente e somente recebeu um olhar de reprovação que imediatamente o fez se calar. Nada parecia mais importante, naquele momento, do que encontrar Lauren e uma semana sem contato era muito para Dana. Foi até o centro da cidade e lá sentou-se na praça observando os pássaros que solitários catavam migalhas de comida dos passantes. Era assim que se sentia, coletando migalhas de um sentimento há muito perdido. O que teria Lauren de tão especial que não parava de pensar nela? Residência dos Scully-Mulder Washington D.C. Sábado, 2017 O cheiro da comida típica do Oeste americano fazia Scully voltar a sentir-se como uma criança ao relembrar os velhos tempos em que toda a família morava junta em San Diego. A cidade era maravilhosa e muito aconchegante e, mesmo que tenha morado ali por pouco tempo, sempre lembrava daquele local. Especialmente depois do natal de 1998. Dezenove anos se passaram desde que tivera contato pela primeira vez com um ser gerado a partir dela própria. Sua pequena Emily, cuja única esperança era morrer, levara com ela a esperança de Scully de ter uma vida que muitos chamavam de normal. Entretanto, essa própria vida que lhe tirou coisas preciosas, lhe permitiu conhecer melhor um homem que até hoje era seu melhor amigo e a única pessoa em quem confiar, lhe permitiu ser, efetivamente, mãe, mãe de sua pequena Lauren, que fora arrancada de seus braços. Sobreviver longe de sua filha foi, sem dúvida, a mais difícil prova que tivera que passar e a dor era tamanha que pensara não sobreviver. Não sabia se realmente o tempo ou se a vontade e a certeza que sempre possuíra de reencontrar a filha fizeram-na mais forte, sabia somente que estava ali, pronta para qualquer verdade. Uma lágrima rolou suavemente sobre seu rosto e, como se em câmera lenta, caiu sobre o mármore gelado da cozinha, fazendo um pequeno barulho tendo em vista o silêncio em que se encontra sua casa. Procurando, sem sucesso, não fixar os olhos na foto doce e singela da filha, num porta-retratos que ela mesma escolhera aos quatro anos de idade, Scully virou-se e reiniciou no processo de cozimento. Dez minutos após o prato principal estar pronto, Dana lembrou-se que não havia sobremesa. Mulder adorava comer tudo o que preparava ou comprava e nunca havia nada para visitas. Faltavam apenas trinta minutos para a hora marcada. Os acontecimentos recentes estavam deixando-a atordoada. Depois de tantos anos de solidão, no que tange sua filha, ela encontra uma menina, com a mesma idade e nome. Um exame de DNA já passara pela sua cabeça inúmeras vezes, mas não se atreveria a pedir isso a Lauren. Não a conhecia o suficiente e poderia inclusive assustá-la. Preferiu deixar o tempo encarregar-se de tudo. Em todas as outras vezes, se decepcionara porque fora fundo demais nas investigações. Seu marido estaria em casa dentro de alguns minutos e se Lauren chegasse antes do combinado, haveria alguém em casa. Pegou sua bolsa rapidamente e saiu, sem perceber que a foto da pequena Lauren caíra e agora repousava no chão frio da casa. Convento Washington D.C. Sábado, 2017 Um convite para jantar. Foi o que ela me ofereceu em troca dos meus cuidados quando passou mal. De certa forma, esperava mais. Eu não sei. Não sei se estou dando crédito demais a uma pessoa que nada tem a ver comigo, que não é quem eu quero que seja. Talvez ela não seja quem eu penso que é. Esperando demais. Gastando as minhas energias de forma inútil, quando poderia estar procurando pela minha verdadeira salvação. Confesso que estou com medo. Muito medo. Não sei se da verdade ou de uma mentira. Minha esperança, antes tão forte, agora se dissipa como se por entre meus dedos e eu a vejo se esvaindo pelo espaço. O tempo passa e a experiência nos mostra a não ter esperança. Mas que experiência? Não tenho memória, quanto mais experiência. Talvez eu devesse cancelar esse jantar. Não aparecer. Para que estou indo? Quem poderia ser essa mulher? Eu estou intrigada com o que ela me faz sentir, mas talvez eu esteja imaginando coisas. Já descobri que tenho uma mente muito fértil. Imaginei-me vivendo numa casa grande, com três cômodos. Um para meus pais que estariam juntos até hoje e completamente apaixonados um pelo outro, um para mim, com uma cama bem grande e vários bichos de pelúcia e livros espalhados pelas paredes e um para hóspedes, para onde eu levaria minhas amigas ou alguns parentes. É um sonho difícil de ser realizado para mim, mas eu acredito que seja meu maior sonho atualmente. Há alguns meses, seria sair daquele quarto escuro e sem vida e poder ver as cores, poder ver o mar ou as estrelas, qualquer coisa que me permitisse sentir viva e sem medo. Porém, os sonhos sempre são atualizados e à medida que alcançamos um outros vêm à nossa mente, prontos a serem realizados. O atual é este, conseguir uma família. É provavelmente um sonho impossível de ser realizado e creio ser por esse motivo que minha esperança não se encontra muito fortalecida. De qualquer forma, não acho que desistir seja a solução. Residência dos Scully-Mulder Washington D.C. Sábado, 2017 O homem alto e imponente entra em seu apartamento. Seus olhos, que por seis anos, foram alegres, agora são tristes. No lugar habitual, ele guarda suas chaves e caminha pela grande sala em direção ao quarto que divide com sua esposa. A foto de Lauren chama sua atenção. Com o cenho franzido, se abaixa e como se acariciasse o rosto da filha, passa a mão pela foto. Uma forte vibração em seu peito o faz estremecer. - Será que estou tendo um ataque cardíaco? Scully.... _ ele chama pela esposa inutilmente e, apesar do desespero inicial, a dor não continua forte, mas sim como um calmante e ele sente uma paz que há muito não sentia invadir seu corpo. Era como se o que faltasse dele estivesse sendo rapidamente preenchido, com memórias e sentimentos. Olhou ao redor e tudo o que viu foi sua casa diferente. Não era mais um local triste, com móveis sem vida, era um local aconchegante. Aconchegante como antigamente. Permaneceu imóvel próximo à entrada da cozinha, exatamente no local onde estava a foto caída da filha e olhou em volta mais uma vez. Pôde visualizar as duas razões que tinha para viver caminhando pela sala e indo lentamente em sua direção. Sua filha agora estava crescida, talvez uns dezoito anos, seus cabelos eram da mesma cor dos de sua mãe e seus olhos eram a combinação da cor dos olhos dos pais. Pelo menos era o que podia ver àquela distância. À medida que as duas caminhavam sorridentes em sua direção, seus corpos iam se desfazendo no ar, como moléculas de água sob o sol, até que sumiam por completo e da mesma forma como sua sala transformara-se num lugar vivo, voltou a ser o ambiente sombrio e sem vida de antes. Piscou algumas vezes e deixou que lágrimas da súbita felicidade descessem por seu rosto, agora tomado por rugas de expressão e de preocupação. Um singelo sorriso de esperança, no entanto, se formou e ele se encaminhou ao quarto, onde leu o bilhete deixado por Scully: "Amor, Como sempre você me deixou sem sobremesas para visitas. Espero que lembre que a Lauren vem jantar conosco hoje. O jantar será mais cedo pois ela tem toque de recolher no convento onde vive. A comida já está pronta. Por favor, não belisque. Não sei porque peço, se eu tenho certeza que você vai fazer isso. Enfim, estou saindo para comprar uma torta ou sorvete. Receba nossa visita, por favor. Eu te amo, Dana, a sua Scully." Como sempre, ela terminava seus bilhetes da forma mais carinhosa possível. Alguns anos depois de estarem juntos, ele começara a chamá- la de Dana e ela sempre corrigia dizendo que era Dana, a sua Scully. Era bom poder relembrar os velhos tempos. Felizes velhos tempos. Seu quarto estava muito bem arrumado, como de costume. Após a sua volta, de onde quer que tenha estado, sua bagunça foi aos poucos acabando, principalmente porque para viver com uma mulher extremamente organizada era praticamente impossível manter o mesmo padrão desordeiro. Tomou um banho rápido a fim de não se atrasar para o jantar e assim que terminou de se arrumar, com uma calça jeans, camiseta pólo azul marinho e sapatos semi-sociais, a campainha tocou. Levantou- se da cama onde estava sentado e encaminhou-se para a sala. Ao longo do caminho, parecia que tudo ficava mais lento e quanto mais próximo da porta ele se encontrava, mais ele podia sentir uma vibração no peito, a mesma vibração que sentira há apenas alguns minutos. - O que diabos é isso? _perguntou a si mesmo novamente. Chegou até a porta e com as mãos suadas a abriu. Um minuto de tensão interminável se sucedeu, enquanto apenas olhavam-se fixamente. - Pai? _foi tudo o que a menina à sua frente lhe disse. ******* No caminho para casa, tudo parecia diferente, tudo parecia mais bonito. O dia não estava como ela costumava ver. Estava ansiosa e suas mãos suavam um pouco, mesmo não estando quente como uma tarde de verão. Comprara uma torta de chocolate com chantilly. - Todo mundo gosta de chocolate. _ pensou no momento de escolher. No rádio, tocava uma música e uma parte da letra chamou a atenção de Scully. So many ways spent hiding in so many undone plans Forgetting what it's like to fight when no one understands Close call in the shadows There's an end to the dark, there is one out there All those feelings: pain and anger flood back one by one. They must be just around the bend they always come. Da mesma forma que na música, Dana também sentia uma avalanche de sentimentos tomando conta do seu corpo. Não era na verdade raiva, mas tristeza pelo tempo perdido. Quanto à dor, esta estava presente nela o tempo todo. Não houve um dia sequer, nesses ___ anos em que pudesse dizer que estava feliz. A felicidade que almejava não era incompleta. Sempre esteve ao lado de Mulder, seu maior companheiro, mas faltava sua filha. Lauren era parte dela e sem essa parte Scully não poderia levar uma vida plena. A visão de um casal com um bebê chamou sua atenção porque os três lembravam-na da época em que Mulder retornara e que eles caminhavam juntos pela vizinhança, demonstrando toda a felicidade que sentiam. Seus olhos, agora marejados por lágrimas, ao relembrar daqueles bons tempos, retomaram com atenção total à estrada em que estava rumo a sua casa e ao avistá-la permitiu que as lágrimas caíssem e lhe molhassem o rosto recém maquiado. Estacionou na vaga de costume, ao lado da de Mulder e saiu do carro rapidamente. Adentrou sua casa e percebeu Mulder e Lauren na cozinha, provavelmente terminando de cozinhar. _ Cheguei. _ gritou da porta, como era de costume. Foi andando pela sala até alcançar a cozinha e lá encontrou seu marido beliscando a comida e ainda oferecendo a Lauren. _ Mulder, quantas vezes preciso dizer para não beliscar? Não viu meu bilhete? Ele caminhou até ela e a beijou nos lábios rapidamente, mas com tempo suficiente para fazer uma corrente de calor percorrer seu corpo, como acontecia todas as vezes que se beijavam. Mesmo após tantos anos juntos. _ Olá, Lauren. Espero que tenha gostado da comida. _ Oi, Dana. A comida está ótima mas não vejo a hora de comê- la num prato. _ ela sorriu e olhou com cumplicidade para Mulder. _ Ele é um ótimo beliscador. Todos sorriram, ajudaram a colocar travessas e bebidas na mesa e começaram a jantar. _ E então, já se conheceram, isso é óbvio. _ Sim, seu marido é bastante divertido, Dana. E falou maravilhas da esposa que tem. Scully observou os dois juntos e uma sensação de deja vú veio à tona, o que a fez também lembrar-se de quando jantavam os três juntos, Mulder, ela e a pequena Lauren. Mais uma vez seus olhos encheram-se de lágrimas. Lágrimas que ela não deixaria cair. Mulder não estava exatamente à vontade à mesa. Scully não sabia exatamente o motivo, mas conhecia aquele homem por tantos anos e tão bem que sabia exatamente quando havia algo errado. A maneira como estava agindo mostrava que ele apenas tentava parecer confortável. Ele não olhava nos olhos da esposa. E quando isso acontecia, era um mau sinal. Por sua vez, Lauren também não estava muito à vontade, no entanto, havia uma razão para isso. Ela estava na casa de estranhos, pessoas que havia acabado de conhecer, diferentes do que ela estava acostumada. Apesar de todo o desconforto de não saber o que estava acontecendo, o jantar correu dentro do esperado. Conversaram bastante sobre a vida de Lauren e Scully admirou-se da inteligência dela, apesar de todos os esforços de Lauren em deixar claro que nunca havia pegado num livro sequer. Mulder, por sua vez, não se mostrava tão surpreso. Ao mesmo tempo que parecia estar desconfortável com a situação, parecia também estar calmo, como se já soubesse de praticamente tudo o que Scully conversava com Lauren. ******* Durante todo o jantar, Mulder se sentiu incomodado por não poder dizer a Scully a verdade. Sabia que era tudo o que ela necessitava, saber da verdade, mas antes precisava prepará-la para tal. Sabia, entretanto, que ela percebera. Sua esposa não era boba e imediatamente notou seu desconforto. Finalmente tudo estava se encaixando e, ao se lembrar de quando abriu a porta e reconheceu imediatamente a filha, arrepiava-se de tal maneira que sentia um frio percorrer sua espinha. A conversa franca que tiveram antes de Scully chegar deixou ambos mais calmos e ele pôde pedir a Lauren que esperasse, que não falasse imediatamente a Scully que ela era sua filha, por mais que isso lhes causasse dor. Tudo pelo qual passara apenas alguns minutos antes da campainha tocar, antes inexplicável, agora estava fazendo sentido. Era como se sua força estivesse voltando e mais uma vez ele podia ver e sentir algo pelo qual ainda não havia vivenciado. Não acredito nisso. Não acredito que finalmente os encontrei. É tão difícil expressar em palavras o que estou sentindo. Nada faz sentido e o que eu posso fazer é acatar o que meu pai disse. Meu pai. Como é bom poder finalmente dizer tais palavras. Como foi bom chamá-lo de pai, mesmo que por alguns instantes. Depois de nos reconhecermos mais uma vez, ele pediu que eu não comentasse nada com Dana, minha mãe. Ele faria isso. Precisava prepará-la para o fato de que eu voltei. Que eu finalmente havia voltado. Ela esperava muito aquele momento, mas ele não achava que ela estivesse preparada realmente. Não assim, de uma vez só saber da verdade. O incrível é que não sentimos necessidade de nenhum tipo de exame, ele tem certeza que eu sou sua filha e eu tenho certeza absoluta que ele é meu pai. Meu pai. A sensação de liberdade e, ao mesmo tempo, de vínculo é devastadoramente emocionante. Meus olhos enchem-se de lágrimas somente de lembrar do rosto do meu pai ao me reconhecer. Foi bom saber e, principalmente, sentir que eu pertenço a alguém, a uma família, que eu não estou sozinha. A solidão que tanto me perseguiu por todos os anos em que estive presa está agora em vias de acabar. O sentimento de se sentir só chega a doer de tanto que precisamos do contato humano. Contato afetivo, amoroso. Eu finalmente encontrei o que tanto procurava. Meu pai e minha mãe. Minha mãe. Eu sabia, sabia desde o início que ela era importante para mim. Meus instintos não mentem, nem nunca me enganaram. Eu tinha certeza que possuíamos uma relação muito forte. Ela estava tão bonita hoje e tão calma. Não vejo a hora de poder abraçá-la como mãe e ouvi-la me chamar de filha. Provavelmente vou chorar, porque somente de imaginar a cena eu já tenho lágrimas nos meus olhos. Foi tão bom ver que ela, mesmo sem saber quem sou, ficou feliz ao saber que voltarei a estudar. Pelo pouco que pude conversar a sós com meu pai, soube que eles sempre foram pessoas estudiosas, que se formaram como melhores da turma. Não pude perguntar maiores detalhes, mesmo porque não acho que agora seja a hora. Como eu vivo repetindo para mim mesma, tudo tem sua hora e eu saberei o que preciso saber no momento certo. Por hora, só quero que tudo dê certo na minha velha e, ao mesmo tempo, nova família. ******* As estrelas aquela noite brilhavam intensamente. O céu estava claro e Mulder podia observá-las perfeitamente. Estava ansioso e tenso. Sabia que Dana havia percebido que havia algo diferente nele. Porém, necessitava do momento certo para falar sobre o assunto. Deixou que os dois se deitassem e enquanto acariciava os cabelos da esposa e observava as estrelas, ouviu a pergunta que já esperava. _ O que aconteceu hoje aqui? _ Como assim? _ Você estava estranho a noite toda. _ Eu não estava estranho, Dana. Eu sou estranho. _ ele sorriu da piada e lembrou-se do tempo dos tempos em que ainda era um agente do FBI. _ Mulder, eu te conheço melhor do que ninguém e sei quando está acontecendo alguma coisa estranha. _ Como é que você sabe? Por que você acha isso? _ Você não olhava nos meus olhos durante o jantar e ainda tinha um sorriso nos lábios o tempo todo. _ Então porque eu estava sorrindo, algo deveria estar errado? Eu não poderia estar somente feliz por estar jantando com a minha família? _ Como? Sua família? O que você quer dizer com isso? _ Exatamente o que você ouviu, querida. Minha família. Ela levantou-se e olhou para ele, que agora mantinha os olhos brilhantes fixos nos dela. _ Ela é... Com um movimento de cabeça e sorrindo, ele concordou. Os olhos da esposa brilharam e encheram-se de lágrimas imediatamente, para segundos depois, tornaram-se tristes novamente. _ Você tem certeza? Agora quem se levantou foi ele, questionando o porquê daquela pergunta. Já haviam conversado sobre o assunto, inclusive há poucos dias e estava tudo bem. Ela havia dito que acreditaria nele, que sabia que quando ele visse Lauren e ela fosse a verdadeira, ele estaria certo. _ Por que a pergunta, Scully? _ subitamente era como se voltassem no tempo. Quando mesmo com todas as evidências ela se recusava a acreditar. _ Não já havíamos conversado sobre isso? _ Eu sei, eu sei. Mas é que é difícil lidar com o fato de que nós finalmente a encontramos. Eu sei que falei que estava forte, mas pensando agora, ouvindo você falar em nossa família, é como se tudo voltasse e eu tenho medo, muito medo de me decepcionar de novo, de sofrer como já sofri. A janela entreaberta chamou sua atenção. Dana levantou-se e apoiou-se no batente, instintivamente esperando que seu marido a acompanhasse e a abraçasse, fazendo com que ela se sentisse segura. Sempre se sentia assim ao ser abraçada por ele. O abraço aconteceu naturalmente, como sempre. Ambos suspiraram ao mesmo tempo ao sentirem o contato de suas peles e desejaram silenciosamente que tudo desse certo. _ Desculpe. Eu não queria estragar a sua surpresa, mas... _ Não precisa falar nada. Eu imaginei que você pudesse reagir dessa forma. _ E ela, Mulder, sabe? _ Na verdade, ela me reconheceu primeiro. Um arrepio percorreu as costas de Scully ao relembrar do primeiro encontro de pai e filha logo quando Mulder voltara do seqüestro. Ela tinha certeza que o mesmo aconteceria, por que então estava tão cética agora? Talvez a vontade de que tudo fosse verdade era tão grande que a assustava. A verdade, e especialmente a sua felicidade, podiam custar caro, como ela própria já havia comprovado. _ Eu me lembro até hoje, de quando eu cheguei com você e ela te reconheceu no jardim da nossa antiga casa. _ Ela disse sorrindo. _ Eu também me lembro. Era como se eu já a conhecesse. Como se tivesse estado com ela durante todos aqueles anos. _ Por que não me falou no jantar quando ela estava aqui? _ Eu queria te dizer sozinho porque sabia qual seria sua reação e não queria assustar nossa filha. Nossa filha. Como era bom poder ouvir aquilo novamente sabendo que ela estava viva, que estava bem. E principalmente, que haviam se encontrado. Agora seriam novamente uma família. Uma família. _ Mulder, eu não sei o que vou dizer a ela quando a encontrar novamente. Ele a beijou na bochecha carinhosamente, pegou suas mãos e também as beijou antes de completar. _ Vai saber sim. Você é a mãe dela. PARTE III – O FIM "Trinta e nove anos depois do meu nascimento, cá estou. E lembro-me como se fosse hoje quando abracei, aos dezesseis anos, você, mamãe. Era como se eu tivesse nascido novamente. Naquele momento, não havia lugar para medo, apreensões, infelicidade, nada. Tudo o que eu sentia era o seu abraço caloroso e suas lágrimas que corriam soltas em meu ombro. E você, papai, eu lembro exatamente do seu rosto quando nos reconhecemos na porta de casa e também quando via suas lágrimas desabarem pesadamente de seus olhos ao finalmente me ver abraçada a mamãe. Os anos que sucederam ao nosso encontro foram os melhores anos da minha vida. Hoje já não lembro mais de praticamente nada do que me aconteceu. A felicidade de reencontrá-los fora tão grande que me fez esquecer. Meu cérebro simplesmente apagou tudo. Talvez vocês, mamãe e papai, fossem realmente os salvadores de tudo e não eu. Vocês foram fortes o suficiente para agüentarem todas as situações terríveis pelas quais passaram. Aguardaram anos a minha chegada, lamentando e sofrendo todos os dias a minha ausência, enquanto tudo o que eu fazia, era querer lembrar a quem eu pertencia. Hoje, anos depois que finalmente nos reencontramos, a felicidade não poderia ser um sentimento melhor. Todos os dias agradeço pelos anos que ainda passamos juntos e por toda a alegria que vocês me trouxeram. Sei que sempre me diziam que, enquanto eu não estivesse ali, vocês não seriam totalmente felizes, mas eu sei que vocês eram felizes e, mesmo que eu não voltasse nunca, vocês continuariam juntos porque vocês são uma pessoa só, cada um com suas características, mas são um ser perfeito. Um ser que me trouxe de volta à realidade e que me permitiu ser eu mesma. Hoje, com meu marido, ainda tenho esperança de alcançar o que vocês alcançaram juntos, a felicidade suprema, mas não sei se é possível. Nada se compara ao que vocês têm em comum. Mas enfim, quero seguir seus passos. É com amor que deixo mais uma mensagem para vocês dois, que ainda são tudo na minha vida. Deixo também a foto do mais novo aniversário da minha filha, sua neta, Liz. Lembrem-se que vocês são as pessoas que me permitem caminhar por essa estrada tortuosa chamada vida e que me fizeram ver que a felicidade chega, eventualmente, mas chega. Com amor da sua amada e orgulhosa de ser sua filha, Lauren Scully-Mulder" Lauren abaixou-se e colocou a carta que escrevera para seus pais no chão, onde se encontrava a lápide de ambos, onde foram enterrados lado a lado. Amada mãe e esposa Amado pai e marido Dana Katherine Scully Fox William Mulder 1964 – 2026 1960 – 2026 EPÍLOGO Washington D.C. Maio de 2050 Uma garota alta, de cabelos castanhos escuros e belos olhos azuis, tentava arrumar o porão da casa onde morava, a fim fazer um quarto com pertences importantes de sua família, uma forma de presente a sua mãe, quando encontrou um envelope escondido dentro de uma caixa com antigos recortes de jornais. A curiosidade foi maior que a discrição fazendo com que ela abrisse o envelope endereçado a Lauren. "Lauren, esperamos que você nunca encontre esta carta. Na verdade, nem sei porque a estamos escrevendo se não queremos que você a leia. Entretanto, ao mesmo que tempo que desejamos isso, sabemos que seria injustiça com você se não lhe contássemos a verdade. Algo que buscamos durante tanto tempo. Hoje iremos, sua mãe e eu, fazer o que deveríamos ter feito há muitos anos, evitar que você seja novamente levada pelos mesmos homens que já a levaram. Não podemos permitir que sofra tudo novamente ou ainda pior. Além do que, sinceramente, não sabemos se é possível sobrevivermos sem você. A vida durante aqueles tantos anos, que nem me lembro mais quantos, em que estivemos separados foi dolorosa demais para ser repetida. Temos que fazer isso. Você tem todo o direito de ficar chateada com o que iremos lhe dizer aqui, mas é para o seu bem, e também para o nosso. A viagem que estamos fazendo hoje, sim, a que nós dissemos estar indo a uma outra lua-de-mel, é, na verdade, uma viagem provavelmente sem volta. Fizemos o que podíamos para propiciar a você uma boa vida, digna de qualquer ser humano. Demos todo o amor que possuíamos em nosso coração e agora daremos a nossa vida a você. É o que podemos fazer agora a fim de evitar que você seja novamente pega e sirva de exemplo para os alienígenas. A hora seria agora. Você seria levada hoje. Você teria que deixar seu lindo bebê e seu marido forçosamente para seguir um destino que não deveria ser seu. Infelizmente, as mesmas pessoas que possibilitaram a gravidez da sua mãe, são as pessoas que querem você. Querem que você seja a salvação para algo que não irá acontecer. Eu tenho certeza que não irá. Eu sinto que nada acontecerá. Porém, somente eu e sua mãe temos certeza disso, Krycek e o Sindicato virão atrás de você se Scully e eu não chegarmos até ele antes de qualquer outra coisa. Se nós falharmos, você saberá e já pedimos desculpas antecipadamente por não termos podido proteger o que de melhor temos em comum, você. Falhando ou tendo sucesso, nós não poderemos voltar. Provavelmente morremos no meio de uma batalha com todas as pessoas com quem sempre lutamos. Não temos mais idade para muitas coisas, mas podemos fazer isso e vamos fazer, mesmo que você não nos perdoe por isso. Se falharmos, você receberá um envelope com instruções para se proteger. Pelo menos para tentar se proteger, se é que isso é possível. De certa forma, desejamos que encontre esta carta para saber da verdade, mas, ao mesmo tempo, é sofrimento demais para uma só vida. Lembre-se sempre que fizemos tudo isso por amor e que devemos colocar o passado onde ele pertence para seguir em frente. Amamos você, por isso estamos dando nossa vida em troca da sua, Seu pai e mãe. Washington D.C., 11 de maio de 2026" Liz secou as lágrimas que caíam insistentemente de seus olhos e decidiu não mostrar a carta que acabara de achar escondida a sua mãe, Lauren. ***************** Fim ********************** É isso aí, pessoal, demorei sete meses para escrever esta fic, vocês acreditam??? É que foi a minha primeira tentativa de escrever algo grande e mesmo assim não foi tão grande assim, né??? Espero feedbacks, hein??? :) Mais uma vez, MUITO OBRIGADA às minhas queridas betas!!! Vocês são demais, amigas! Muito obrigada por tudo! Meu email é shipperx@gmx.net Estarei esperando ansiosamente para ler o que vocês têm a dizer da fic! :)