Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Shipper/Drama Spoiler: Lembranças Finais Nome do fan fiction: Em busca de uma razão Resumo: Os agentes Mulder e Scully envolvem-se num seqüestro, numa perseguição, numa reflexão interior, tendo por desfecho algo mais aterrorizante do que a própria morte. Obs.: Desculpem-me a dramaticidade que virá a seguir. Em busca de uma razão Aproximou-se da janela, afastando a cortina, enquanto segurava com uma das mãos uma xícara contendo chá, seus olhos detiveram-se na imagem que se vislumbrava através dos vidros embaçados pela sua respiração. Um som monótono e agradável fazia-se ouvir, era a chuva que cantava a sua tão conhecida melodia. Acordara cedo naquele Domingo, a manhã estava fria, obrigando-a a se agasalhar, poderia Ter permanecido mais tempo na cama se quisesse, já que não havia trabalho ou algum caso que estivesse investigando com seu parceiro. O manto que se estendia por Washington era de um tom cinzento, não havia trovoadas, nem relâmpagos, era uma chuva serena que lá fora caia, respingando em sua janela, deslizando os pingos pelo vidro. Entornou a xícara, sorvendo um gole enquanto se perdia no céu nebuloso com seus pensamentos. Aquela paisagem, aquele dia de chuva transmitia-lhe uma paz, fazia-lhe recordar de tempos muito distantes, em sua maioria contendo boas lembranças, que lhe traziam saudades e com estas, a tristeza. Suspirou profundamente, imersa naquela sensação de nostalgia que a embalava. Tudo lhe parecia tão silencioso, tão pacífico, e iludiu-se por um momento pensando que os homens poderiam talvez Ter dado uma trégua à natureza e à vida, reconciliando-se, pondo fim às guerras e às misérias, por isso a calmaria, sorriu de si mesma, de pensamentos tão inocentes e impossíveis num mundo onde a ganância humana sepultara qualquer esperança de harmonia e de felicidade coletiva. Sentia-se extremamente pessimista naquela manhã, refletia quanto à existência humana e à sua própria, todos os dias milhares de pessoas acordavam e iam para os seus trabalhos, afazeres, provavelmente com algum objetivo, com alguma meta em mente, que almejavam alcançar, sendo essas aspirações um motivo, um meio para justificar as próprias existências, para impulsioná-las a acordarem todos os dias e viverem. É preciso de uma razão, de metas, objetivos para dar continuidade a própria vida, para justificá-la, senão para que existir? Senão o que seria a vida? Nascer, viver, talvez procriar, e morrer? É isso? Só isso? Não fazia sentido. Scully sentia não Ter uma razão, levantava todos os dias mecanicamente, vivia por viver, sem qualquer motivo, talvez simplesmente para não morrer, observou que sua existência estava isenta de ideais, de sonhos, vazia de objetivos, de vida. Relembrou-se das "Danas" do passado, todas possuíam sonhos, por que a "Dana" do presente não os tinha? Sentiu-se envelhecida, não fisicamente, era o seu espírito que parecia Ter perdido a capacidade de sonhar, ou seja, de viver. Devia estar tendo uma crise existencial, sorriu, achando graça daquilo tudo, talvez por finalmente possuir um tempo para si mesma, sendo ele tão raro devido ao trabalho que a consumia tanto, detivera-se em questões sobre as quais nunca havia refletido muito. Talvez a maior razão para viver daquelas pessoas vazias de sonhos, seja o temor da morte, talvez também seja a sua. Um barulho estridente despertou Scully de suas divagações, apoiou a xícara sobre uma mesinha, atendendo o telefone em seguida. - Scully. - Scully, sou eu. - O que aconteceu, Mulder? - franziu uma das sobrancelhas. - Recebi um telefonema de uma fonte segura, dizendo que possuía informações e provas concretas sobre o uso de tecnologia extraterrestre pelos militares, pelo governo dos Estados Unidos - falou ao telefone entusiasmado. - Que fonte segura era esta? - sua voz saiu irônica. - Um militar aposentado do mais alto escalão. - Você o conhece? - Não, falei com ele pela primeira vez hoje no telefone. - Humm... - O que foi? - Sabe o nome dele? - Ele não quis revelar por telefone, marcou um encontro para hoje. - Mulder, pretende se encontrar com um homem que pode muito bem estar brincando com você, mentindo, é isso? Você não sabe nada sobre ele, como pode acreditar que o que ele estava dizendo era verdade? - Scully, não acreditei no que ele disse, para isso, quero Ter certeza do que ele tem para mostrar e as informações a revelar. - Pode ser uma perda de tempo, Mulder. Além do mais, como ele conseguiu o seu telefone? - Não sei, Scully. Sei que parece loucura eu estar querendo ir a um encontro com alguém que nunca vi, simplesmente por causa de um telefonema, mas ele mencionou um nome como forma de eu lhe dar um voto de confiança, e ir ao encontro. - Que nome? - estava curiosa. - Bill Mulder, o nome de meu pai. Scully permaneceu em silêncio. Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora _____________________________________________________________ __ Lanchonete Los Compadre 1:00 p.m. Entraram numa pequena lanchonete, vestiam roupas simples, menos sérias em relação aos ternos e tailleurs que os agentes Mulder e Scully tinham de usar no Bureau respectivamente. Acomodaram-se numa mesa ao canto do ambiente, observando as pessoas ao redor que não passavam de meia dúzia. - Mulder, como vai reconhecê-lo? Ele falou como estaria vestido? - perguntou Scully depois que o parceiro pediu dois cafés à garçonete. - Não, ele falou que me reconheceria quando me visse. - Então, ele já o viu, sabe como você é. - Provavelmente. A garçonete trouxe os copos com os líquidos caramelos e chiando de quentes, afastando-se em seguida. - Scully, sei que é Domingo, e que raros são os fins de semanas que temos livres, então, me desculpe por arrastá-la mais uma vez, acabando com o seu Domingo , mas isso significa muito para mim - fez uma pausa, fitando os olhos da parceira com os seus - E você é a única pessoa em quem confio, em quem me apoio para vir a este encontro. - Não precisa se desculpar, Mulder, este é o meu trabalho, acompanhá-lo, verificar e investigar as informações com você, sei o quanto este encontro é importante para você, principalmente por causa de seu pai, além do mais somos parceiros - bebeu um gole do café. - Somos mais que isso, Scully - encarou-a. Mal o agente falara, um homem jovem entrou na lanchonete bruscamente, empunhando uma arma e gritando. - Ei! Todo mundo quietinho, não quero machucar ninguém. Mulder e Scully se entreolharam. - Quero que todo mundo se levante e vá para aquele canto - indicou com a mão livre o local no fundo da lanchonete - Agora! - gritou. Os poucos clientes que lá se encontravam, obedeceram, os agentes ergueram-se das cadeiras. - Vocês Também, vamos! - disse nervosamente para os três únicos funcionários da lanchonete, que se encontravam atrás do balcão, mais a garçonete que estava estática próxima a uma das mesas. O agente de olhos verdes tentou num movimento rápido sacar a arma quando o outro se distraiu por alguns segundos, porém ele percebeu e foi mais esperto que Mulder. - Ei! É melhor não tentar nenhuma gracinha, cara, ou sua namorada vai sofrer as conseqüências - possuía a pistola mirada para a cabeça de Scully - Agora, coloque a sua arma com muito cuidado no chão, e vá para aquele canto com os outros - estava visivelmente nervoso, suas mãos tremiam. Mulder não hesitou em obedecê-lo, pois não queria arriscar a vida da parceira. O rapaz aproximou-se de Scully, e sem desviar a mira dela, agachou- se, pegando a pistola do agente do chão. - Agora, mocinha - dirigiu-se à Scully, estendendo-lhe uma sacola - Pegue isso, e coloque todo o dinheiro da caixa registradora dentro. E sem truques! Quando a mulher de cabelos ruivos ia se dirigindo ao lugar do dinheiro, o homem falou: - Espere! O agente ficou apreensivo, temendo pela parceira, seu cérebro procurava urgentemente por uma solução enquanto todos seus sentidos estavam em estado de alerta. - Por precaução, acho melhor revistá-la - aproximou-se dela - O que significa isso? - retirou uma pistola que ela carregava na cintura - Quem são vocês? Tiras? Buscou a carteira de Scully nos bolsos dela. - Ora, ora, agente especial Dana Scully, não é? - abriu a insígnia, lendo-a - Certo, Dana, não quero machucar ninguém, então, faça o que pedi. Só quero pegar o dinheiro, e depois juro que vou embora. Ela lhe obedeceu as ordens. Entregando-lhe a sacola em seguida, depois de enchê-la com o dinheiro. - Como prometi, vou embora - olhou para Scully fixamente por alguns segundos, assustando-a, principalmente Mulder que não sabia o que se passava na mente do outro homem. - Já tem o que queria, então vá embora - o agente desviou a atenção dele para si. - Você é muito corajoso, sabia? Ou deveria dizer petulante? Alguns sons de sirenes se aproximando não assustaram o jovem assaltante, este voltou-se para Scully. - Pelo visto, terei de levar alguém se quiser sair livre dessa, ou melhor, vivo e livre, já que a polícia foi avisada, não é, Dana? - manteve o autocontrole no tom da voz. - Se tem de levar alguém, leve eu! - ofereceu-se Mulder, sentindo o peito angustiado e a respiração estrangulada só em pensar na possibilidade do assaltante levar sua parceira. - Além de tudo, se acha um herói! - lançou um sorriso irônico para Mulder - Dana, a escolha é sua. Ela ergueu as sobrancelhas sem compreender. - Você escolherá quem eu levarei - fitou-lhe os olhos celestes - Escolha difícil, não? Vou lhe facilitar as coisas. Você terá de escolher entre o seu amiguinho, o herói, e aquela menininha - indicou uma criança que estava no colo da mãe. - Por favor, minha filha não - desesperou-se a mulher, segurando a menina com força. - Eu vou, já disse - bradou Mulder. - A decisão não é sua, é dela - apontou para Scully - Ei! Decida logo, não tenho muito tempo, lhe dou exatamente um minuto para se decidir, senão o fizer, eu atirarei no herói e na menina, daí não precisará ficar mais em dúvida. A agente sentiu-se encurralada como um animal, não poderia escolher, não tinha o direito, mas também de sua resposta dependia a vida ou morte daquelas duas pessoas, da criança e de seu amigo. - Vamos lá, Dana! - olhou para o relógio, sem deixar de mirar Scully com a pistola - ...2..3..4... Scully fitou os olhos amazônicos do parceiro, procurando por uma saída. - Scully, escolha logo eu! - gritou Mulder. - Não posso escolher. - Daqui a pouco não poderá mesmo! - o agente estava nervoso. - Vamos lá, Dana!...30...31.... - Decidi - falou num impulso. - Quem? - sorriu o assaltante. - Eu vou no lugar deles - respondeu Scully. - Você não estava dentre as possibilidades, mas eu gostei da escolha. - Não! Eu vou! - desesperou-se Mulder, precipitando-se em direção ao rapaz. - Não dê mais nenhum passo, ou terei de atirar mesmo que a contragosto na sua amiga ou namorada, sei lá o que vocês são - puxou Scully para si, envolvendo-lhe o pescoço com um dos braços, e o outro com a pistola quase a tocar a têmpora da agente - A escolha já foi feita! - Não!! Espere!!! Me leve no lugar dela, por favor!!! - o agente de olhos verdes estava visivelmente angustiado. - Sinto muito, herói, mas eu não volto atrás. Seguiu até a porta da lanchonete, tendo Scully como refém, usando-a como escudo para sair, do lado de fora algumas viaturas eram visíveis, e alguns policiais encontravam-se em posição ofensiva. O assaltante caminhou de lado, mantendo as costas voltadas para as paredes dos estabelecimentos que se sucediam um ao lado do outro, de modo a evitar um ataque por trás, enquanto mantinha Scully fortemente como defensiva frontal, ameaçando- a com a pistola pressionada em sua cabeça, evitando o homem dessa maneira que seu corpo ficasse a mercê da mira policial. Aproximou-se de um carro estrategicamente estacionado, afastando-se dos policiais. - É melhor não tentarem qualquer coisa que seja, porque eu juro que a mato! - gritou. Alguns dos policiais já haviam entrado na lanchonete em busca de algum ferido ou vítima, Mulder havia saído, juntando-se ao delegado que estava chefiando a operação, depois de identificar-se como agente federal. - Ninguém atire!!! - gritou desesperado o agente para os policiais. - Ninguém atire sem minhas ordens!!! - falou o delegado no megafone para os seus subordinados. O homem entrou com Scully no carro cujos vidros eram fumês, entregando- lhe uma chave para dar partida no automóvel, enquanto se sentava no banco traseiro, numa posição atrás do assento do motorista, em que se acomodara a agente, tendo ela a sua nuca mirada pelo criminoso. - Vamos sair daqui, Dana! A mulher ruiva ligou o automóvel, acelerando segundo as ordens do homem que pressionava ameaçadoramente o revólver em sua nuca. Desde a lanchonete, a agente não emitira nenhuma palavra, deveria estar assustada com aquela situação, principalmente porque sua vida estava em jogo, mas pelo contrário, permanecia serena como se aquilo tudo não lhe dissesse respeito, como se fosse apenas uma espectadora dos acontecimentos. Do lado de fora do automóvel, Mulder encontrava-se desnorteado, apreensivo, pois os vidros fumês do automóvel impossibilitavam a visão do que estava acontecendo no seu interior. Quando o carro acelerou, arrancando pela rua, o agente correu para uma das viaturas acompanhado pelo delegado, a fim de perseguir o assaltante que levava alguém que representava muito mais do que a sua verdade, a sua busca, a sua própria vida. Scully pegou uma rodovia interestadual, pouco movimentada, não queria arriscar a vida de outros motoristas devido à alta velocidade em que se encontrava. - Me perdoe, Dana - iniciou o homem numa voz calma - Não queria lhe ameaçar com a pistola, mas foi preciso - disse com a arma repousada em seu colo na parte traseira do carro. - Deveria se entregar, é a única saída que vejo para você - falou sem desviar os olhos da estrada. - Jamais vou me entregar - olhou-a pelo vidro retrovisor - O pessoal que trabalha para o FBI deve possuir muito sangue frio, basta olhar para você, nem parece que está sendo seqüestrada. Scully nada comentou. - Meu nome é Maurice - fez uma pausa, pensativo - Qual é o nome daquele seu amigo, o herói? - Mulder - respondeu. - Vocês são casados, ou alguma outra coisa? - Somos só parceiros, trabalhamos juntos - sentia que as respostas saíam mecânicas de sua boca. - Está brincando, não é? Aquele cara, o tal Mulder, estava visivelmente desesperado para vir no seu lugar, para impedir que você viesse, aquele terror que eu vi estampado no rosto dele, garanto a você que não era só coleguismo, havia algo muito maior. - Amizade. - Mais do que isso, ele te ama - observou o impacto das palavras na face dela pelo retrovisor. O rosto pálido da agente continuou isento de qualquer expressão, a voz de Maurice chegava-lhe aos ouvidos distante, e as pessoas das quais falava parecia não se tratar dela e do parceiro, o que estava acontecendo com ela? Por que tanta indiferença? Impassibilidade? Tudo era tão alheio para ela. Parecia-lhe que o mundo não mais existia, que só ela se encontrava nele, dirigindo naquela estrada sem rumo. Maurice falou sobre alguém amá-la? Quem? Mulder? Amar quem? Ela? Não era possível, eram apenas amigos e parceiros. De repente veio-lhe à mente os pensamentos que tivera naquela manhã. - Você possui uma razão? - perguntou repentinamente para o jovem assaltante. - Como assim? - estranhou a pergunta. - Possui objetivos, sonhos na vida? - continuou atenta ao volante. - Sonhos? Boa pergunta. - Você com certeza deve tê-los, é tão jovem, a juventude sempre é repleta de ideais, quais são os seus? - Dana, você também é jovem, e não há idade para que a vida seja repleta de sonhos. Nós os construímos, os realizamos e criamos outros, a vida é movida a sonhos. - Por que queria o dinheiro da lanchonete? Maurice ficou em silêncio, refletindo, procurando por uma resposta. - Precisa do dinheiro para realizar algum sonho? - Acreditaria se eu dissesse que eu não sei a resposta - desenhou-se uma expressão preocupada em suas feições. A agente olhou-o pelo espelho retrovisor. - Sinceramente, Dana, eu não sei porque assaltei aquela lanchonete, e isto está começando a me preocupar. - Como? - ergueu uma das sobrancelhas. - Meu Deus, não sei, por que fiz aquilo? - Já cometeu algum assalto antes? - Não lembro - colocou as mãos na cabeça como tentando relembrar algo. A mulher ruiva sentiu sinceridade nas palavras daquele rapaz de olhos chocolates, notando medo e perplexidade em sua voz. - Dana, o que está acontecendo? O que houve? Não consigo me lembrar, é como se eu só passasse a existir depois de entrar naquela lanchonete - seus olhos bem desenhados e felinos arregalaram-se - Deus, você falou em sonhos e ideais, eu não os tenho, será que há alguém em minha vida? Não, não há, disso eu lembro. - O que lembra? - sentiu o desespero do garoto como seu também. - Quando eu era criança, na mesa de jantar, meu pai avisou que ele e minha mãe estavam se separando, e falou para eu me decidir com quem queria ficar, disse que queria os dois, falou então, que eu só poderia ficar com um, insisti em continuar com os dois, lembro que meu pai se levantou com um revólver da mesa, atirando em minha mãe e suicidando-se em seguida, na minha frente - possuía o olhar fixo no nada, relembrando. - Sinto muito - voltou um pouco o rosto para trás a fim de vê-lo, percebendo os olhos úmidos e lacrimejantes dele. - Foi isso que eu fiz com você hoje, a obriguei a fazer uma escolha, mas você sabia o que aconteceria se não a fizesse, já eu, não. - As situações eram diferentes. - Dana, um homem sem sonhos, é um homem morto, não tenho por quem viver, pelo que viver, não tenho nada, não sou ninguém, acabei de descobrir que não tenho razões, você as têm? - fitou-lhe os olhos azuis pelo espelho. - Razão para viver? O temor da morte, mas nem sei mais. - Boa razão - sorriu. Scully sentiu-se ligada a aquele garoto tão jovem, até simpatia e piedade, o que estava acontecendo? Ele a havia seqüestrado, mas era um ser humano, um garoto, alguém perdido como ela, alguém que precisava de ajuda. _____________________________________________________________ __ 2:30 p.m. Uma ou duas viaturas ainda se encontravam no local, com alguns policiais a interrogar as testemunhas, um homem idêntico ao agente Mulder estava na calçada do outro lado da rua a observar o tumulto, quando alguém se aproximou dele por trás, colocando-lhe uma mão sobre seu ombro. - Agente Mulder - chamou-o - O que aconteceu aqui? - apontou para a lanchonete. - Quando cheguei já estava este tumulto, alguém assaltou a lanchonete - encarou o homem que aparentava uns sessenta anos - Vamos para o meu carro, aqui não é seguro. O homem de cabelos brancos assentiu com um leve movimento de cabeça. - Trouxe as provas que afirmou Ter? - Trouxe - olhou para os lados, antes de abrir um pouco a jaqueta, revelando um envelope pardo - Vamos, tenho informações de vital importância a lhe dizer. Desculpe o atraso, mas tudo estava conspirando para que eu não viesse a esse encontro, meu carro quebrou, o trânsito estava um inferno. _____________________________________________________________ __ Uma viatura perseguia o carro de vidros fumês sem perdê-lo de vista. - Agente Mulder - iniciou o delegado, desligando o rádio após falar nele - Uma barreira está se formando logo após a ponte, o assaltante não conseguirá prosseguir em sua fuga. - Mande desfazer a barreira, ele está com a minha parceira, se ele se sentir encurralado não vai hesitar em machucá-la - falou nervosamente enquanto dirigia. - Sinto muito, agente Mulder, mas precisamos fazer alguma coisa. - Claro que precisam, mas sem arriscar a vida da minha parceira - o homem de olhos verdes quase gritou. Não suportaria se algo acontecesse a Scully. Precisava contatar o assaltante, mas como? Como num estalo, um pensamento veio-lhe a cabeça, o celular de Scully, será que estava com ela? Só saberia a resposta se tentasse ligar para o seu número. _____________________________________________________________ __ Um ruído estridente repentino assustou Scully e Maurice que estavam em silêncio, imersos cada um em seus próprios pensamentos. - O que é isso? - sobressaltou-se o rapaz. - Meu celular. - Me passe ele, Dana - ordenou. A agente ruiva pegou o aparelho com uma das mãos dentro do casaco, enquanto mantinha a outra no volante, entregando-o a Maurice. - Alô! Quem é? - Aqui quem fala é o herói, como está a Scully? - sua voz saiu urgente. - Ela está bem, Mulder, é esse o seu nome, não é? - O que você quer para soltá-la? Quais são as suas condições? - Nenhuma - respondeu simplesmente. - Como nenhuma? - desesperou-se. - Gosto da companhia de Dana. - Quero falar com ela, por favor, preciso Ter certeza de que está bem - quase suplicou. Olhou-a, suspirou, esticando a mão com o celular para ela. - Se ele não falar com você, vai Ter um ataque, é melhor acalmá-lo, não quero ser responsabilizado pela morte de ninguém. Scully pegou o aparelho. - Mulder? - Scully, como está? Ele lhe fez alguma coisa? - seu tom era um misto de ansiedade e alívio por ouvi-la. - Não fez nada, não se preocupe, estou bem. - Há uma barreira policial após a ponte, não se preocupe, tudo vai sair bem. - Não estou preocupada - falou serenamente. - Agora me passa o telefone, Dana - pegou-o da mão de Scully - Está mais calmo, agente Mulder? - Desgraçado! - Que modos são esses, agente? - Diga logo quais são as suas reivindicações! - Sonhos. - O quê? - Esqueça. - Negocie comigo enquanto há tempo, porque logo após a ponte haverá uma barreira policial, e você não terá saída. - Nem a sua amiga, não é? Mulder sentiu o sangue em suas veias gelar. - Pois bem, agente Mulder, o desfecho será inevitável - finalizou, desligando o aparelho. Na viatura, o homem de olhar amazônico tentava ligar inutilmente para o celular da parceira que havia sido desligado, algumas gotas de suor deslizavam pela sua testa, o ambiente ao seu redor estava pesado, sentia o ar faltar, a garganta seca, a adrenalina a percorrer todas as veias de seu corpo, o coração disparado e comprimido. Queria poder gritar, trocar de lugar com a amiga, nunca desejara tanto algo na sua vida. O que faria? Esperar? Esperar o quê? O inevitável? Ou que tudo acabasse bem? E se não acabasse? Não queria nem pensar. Se algo acontecesse a ela, era capaz de morrer ali mesmo. Tentou afastar tais pensamentos mórbidos, precisava recuperar o autocontrole para enfrentar os acontecimentos seguintes e salvar a sua própria vida que consistia na existência de Scully. Sem ela, ele não existia. _____________________________________________________________ __ Estavam aproximando-se da ponte, uma garoa fina caía, obrigando Scully a ligar o limpador de pára-brisas, Maurice estava pensativo, calado, como se a decisão mais importante de toda a sua vida estivesse sendo tomada. - Dana, estacione o carro na margem direita da ponte - rompeu o silêncio. - O que pretende fazer, Maurice? - perguntou calma. - Você saberá daqui a pouco. O automóvel parou no local indicado pelo rapaz, Mulder que vinha atrás, dirigindo a viatura, foi diminuindo a velocidade da mesma. Era possível avistar as sirenes silenciosas emitirem uma luminosidade azulada e vermelha, pertencentes às viaturas que compunham a barreira e que se encontravam logo depois da ponte. O agente estacionou a uma pequena distância do carro de vidros fumês. O jovem de cabelos castanhos e olhos de tom chocolate preparava-se para executar seus planos. - Dana, me perdoe, mas terei de apontar a arma novamente para você - pulou para o banco da frente, do carona, ficando ao lado da agente - Vamos lá, abra a porta devagar e vai saindo, não quero machucá-la, portanto, não faça nada que me obrigue a apertar o gatilho. Scully ouvia as instruções, as ordens, executando-as automaticamente, era como se aquele corpo que obedecia, não lhe pertencesse, sendo ela apenas uma espectadora, um eu-pensante assistindo ao desenrolar de um filme em cenas lentas. Não temia por sua vida, pensou surpresa consigo mesma, para falar a verdade estava indiferente aos acontecimentos que a rodeavam, não é que desejasse a morte, mas também não deixava de desejá-la, como se não houvesse necessidade de lutar por sua sobrevivência, tanto fazia o desfecho que aquela situação teria, simplesmente nada mais lhe pareceu importar. Enquanto saía pela porta, tendo seu pescoço envolto pelo braço de Maurice, ao notar o parceiro descer da viatura e apontar um revólver para o assaltante, deteve-se a refletir quanto às razões do amigo, sim, ele as tinha, a sua incessante busca pela verdade, esta era a razão para justificar a sua própria existência, mas infelizmente não era a dela, passara a viver os sonhos, as razões dele, tornara-se parte dele, perdera a sua individualidade, a sua identidade, os seus ideais, logo deixara de existir. Dirigiu sua atenção para a face do colega, poucas vezes vira Mulder com uma expressão esculpida pelo medo e pela angústia. Por que estaria tão aterrorizado daquele modo? Seria por causa dela? Não suportava vê-lo daquele jeito, queria tranqüilizá-lo, dizer-lhe que estava bem e não temia nada, mas era ele quem temia, pois mais aterrorizante do que o desconhecido da própria morte, era a perda de sua razão, e Scully era a justificativa para a existência do homem de olhos verdes. Duas das viaturas que formavam a barreira vieram em direção a eles, fechando mais o cerco a Maurice. - É melhor se entregar, você está cercado - gritou Mulder com a arma em punho. O rapaz tendo Scully por refém, aproximou-se do parapeito da ponte, uma brisa úmida pela garoa bateu contra a face pálida da agente, fazendo-a experimentar uma deliciosa sensação de liberdade, mesmo o ambiente sendo de uma insuportável tensão, principalmente para Mulder, ela observou as águas escuras correndo no rio lá embaixo, aspirando o ar gélido ao seu redor, sentia que era capaz de saltar do peitoril da ponte e voar. A placidez das feições de Scully chegava a assustar e irritar o agente, como se ela pouco se importasse com o que estava acontecendo, com a tortura que ele sofria. Policiais colocaram-se em posição de ataque atrás das viaturas, observando os mínimos movimentos do seqüestrador, a espera de um deslize, de um erro que poderia lhe ser fatal. Maurice também estava estranhamente sereno, retirou o braço do pescoço da agente, afastando-se dela, mantendo-a apenas sob mira. Por descuido ou propósito, o jovem deixou seu peito à mostra quando deixou de usar Scully como escudo, aproximando-se mais do parapeito. Percebendo a movimentação dos policiais, a agente tentou impedir que se utilizassem da oportunidade para balearem o rapaz, possuía um sentimento de cumplicidade por ele que não conseguia explicar, colocou-se na frente dele, virando-se em seguida para encará-lo, então, foi quando o viu em cima do parapeito, pronto a se jogar nas águas escuras. - Maurice, não precisa acabar assim - gritou Scully, tentando segurar- lhe a mão. - Ah, Dana, nem o temor da morte me serve como razão - disse de costas para ela, arremessando-se em seguida no rio. - Não!!! - gritou Mulder desesperado. Ouvindo aquele grito tão cheio de dor, Scully voltou o rosto em direção ao parceiro, vendo-lhe uma expressão angustiada, percebeu que ele não olhava para ela, e como num filme mudo de cenas em movimento lento, observou Mulder correndo até um corpo caído no chão, que logo reconheceu como sendo o seu, ainda perplexa e incrédula, caminhou até o amigo, assistindo- o a agachar-se no chão e abraçá-la, possuía uma mancha de sangue a estender-se pelo seu peito, o parceiro pressionou-lhe a ferida, como aquilo poderia estar acontecendo? Os paramédicos correram a socorrê-la, Scully observava a tudo como uma espectadora, era ela ali no chão a se esvair em sangue, haviam-na atingido. Mulder foi afastado do corpo pelos policiais, o choro agonizante brotava-lhe do fundo da alma. - Não, isso não está acontecendo! Você não morreu, não pode morrer, não tem o direito, não antes de mim - berrou entre lágrimas, caindo de joelhos no chão, segurando a cabeça com as mãos. A mulher ruiva, de olhos celestes, não pôde evitar as lágrimas de deslizarem pela sua face, não chorava por ela, mas por ele, não suportava vê- lo sofrer, parecia um animal fatalmente ferido, agonizando até a morte, queria poder amenizar-lhe a dor, abraçá-lo. Sentiu ao vê-lo daquele jeito como se seu peito estivesse sendo rasgado, a sua alma dilacerada e o seu coração estilhaçado, uma tristeza afiada e uma dor lancinante tomaram-lhe o ser. Foi então que descobriu a razão que a fazia levantar todos os dias, que a mantinha viva, e que tantas vezes se negara a admiti-la. De repente tudo escureceu ao seu redor, caindo na inconsciência e no esquecimento. _____________________________________________________________ __ Uma semana depois... Hospital Memorial de Washington Um homem alto, vestindo um sobretudo por cima do terno preto, caminhou por um corredor branco e bem iluminado até a porta de um quarto, abrindo-a e entrando no local. - Como está se sentindo hoje? - perguntou enquanto fechava a porta. - Bem. - Trouxe estas flores para você - sorriu, esticando-lhe o braço com um buquê colorido e perfumado. - Obrigada. De quem você roubou dessa vez, Mulder? - pegou o buquê dele, colocando-o no criado-mudo ao lado de sua cama. - Da mesma pessoa da outra vez - sentou-se na beira do leito, junto da mulher ruiva - Falei com seu médico, ele disse que está se recuperando bem e logo terá alta. - Mulder, você não quis tocar no assunto ontem, porque eu tinha acabado de sair da UTI, mas hoje eu gostaria de saber tudo que descobriu sobre Maurice - fitou-o nos olhos verdes. - O nome dele não era Maurice, era Michael Gere. - Então, ele mentiu para mim. - Talvez não. - Como assim? - ergueu uma das sobrancelhas. - Os pais dele haviam dado queixa de seu desaparecimento há mais de um ano... - Os pais? Estão vivos? - interrompeu-o. - Estão. Michael não tinha antecedentes criminais, sempre foi um bom filho, bom aluno, bom tudo, nada justifica a sua atitude de assalto e seqüestro. - Verificou a placa do carro que ele usava? - Verifiquei, nenhum registro dele, Scully, as únicas digitais lá, eram as dele e as suas. - Encontraram o corpo do rapaz no rio? - Sim, foi feita a autópsia do corpo e ...- segurou-lhe uma das mãos com as suas. - O que foi, Mulder? - perguntou preocupada. - Encontraram um chip implantado na nuca dele. - O que quis dizer quando falou que talvez ele não estivesse mentindo? - ficara estarrecida, perplexa com a revelação do parceiro. - E se o que ele disse a você, não passasse de memórias implantadas nele através do chip, fazendo-o acreditar que o que dizia eram realmente verdades, e se tudo não houvesse passado de um plano orquestrado contra nós, e as ações de Michael programadas, juntamente com as suas lembranças? - Contra nós? Com que propósito? - Scully estava incrédula. - Para nos afastar da lanchonete, do local do encontro, para evitar que tivéssemos acesso às provas, às informações. - Mulder, não faz sentido, para que tanto trabalho em fazer uma encenação, haveria meios mais simples para nos impedir de ir ao local marcado. Seria mais simples que impedissem o informante de nos encontrar. - E se não soubessem quem era o informante? E quisessem saber o que ele sabia e possuir as provas das quais dispunha? - Como saberiam do encontro? - Verifiquei o meu apartamento, não encontrei nenhum grampo, mas poderiam muito bem tê-lo tirado caso houvesse durante todos estes dias que passei aqui no hospital. - Mulder, não sei o que pensar. - Mas, não pode negar que há coincidências demais entre os acontecimentos para considerá-los fatos isolados. Depois de alguns segundos em silêncio, Mulder decidiu rompê- lo. - Scully - encarou-a - Por favor, nunca mais me dê um susto desses, quase morri, nunca mais dê uma de heroína, colocando-se na frente do criminoso. - Ele era uma vítima, Mulder, era uma pessoa perdida que precisava de ajuda. - Por que tentou defendê-lo? - Não havia necessidade de atirar, ele poderia Ter se entregado. - Como poderia Ter tanta certeza que ele se entregaria, Scully? Não respondeu. - Se você não dá a mínima para a sua vida, eu dou - o agente ergueu-se da cama, soltando a mão dela - Você foi muito egoísta, Scully, arriscando-se daquele jeito. - Egoísta? Eu? Você que vive bancando o herói, arriscando-se, sem se importar com o meu desespero quando você está desaparecido ou em perigo, você é o egoísta, Mulder, agora sabe como me sinto. - É diferente - aumentou o tom da voz. - Diferente como? - Há pessoas que dependem de você? - Quem? - Eu, Scully - desviou os olhos verdes dos dela - Será que você não vê? Não entende? Dependo de você para existir, minha existência consiste em você, seu coração chegou a parar de bater naquele dia, pensei que a tinha perdido, que havia morrido, até que os paramédicos conseguiram ressuscitá-la, não sabe o que é dor, Scully, é aterrorizante, desesperador, eu agonizei, ansiando, desejando a minha própria morte durante aqueles minutos em que seu coração deixara de bater - seus olhos amazônicos ficaram repletos de lágrimas - Não quero passar nunca mais por aquilo, prefiro morrer antes, portanto, quero que me prometa que não irá antes de mim - aproximou o rosto do dela, segurando-lhe novamente a mão - Por favor, prometa. - Mulder, não posso lhe prometer isso, eu quero ir antes de você - fitou-lhe os olhos - O que o faz pensar que eu suportaria viver sem você? - Mas, Scully...- o agente ficara sem palavras, um sorriso formou-se em seus lábios. - Mulder, finalmente encontrei o porquê de minha existência, e sem você, não há razão para existir. - E sem você, eu deixo de existir - inclinou levemente o rosto úmido pelas lágrimas, tocando os lábios de Scully com os seus num beijo repleto de significados, de vida, um pacto mudo de existência. _____________________________________________________________ __ Fim