ECCE VERUS Fanfic de Lucas Zago e Silvia Helena Penhalbel Sinopse: Mulder e Scully finalmente se declaram e se casam. No entanto, Scully descobre que seu marido não é quem ele pensa ser. Os problemas de Scully estão apenas no início, quando ela descobre muito, mas muito mais sobre o verdadeiro Mulder. Categoria: Mitológica, Shipper, Drama Claro que, com dois autores supershippers, só tinha que dar uma história shipper!! Logo, você vai saber o que significa a expressão "Ecce Verus". DISCLAIMER: Os personagens desta fanfic pertencem a seus criadores e não há qualquer intenção dos autores em obter lucro com esta história que destina-se somente à diversão dos fãs. QUARTEL-GENERAL DO FBI 4:03 PM 7 DE MAIO DE 2003 Era uma daquelas reuniões mais que comuns no Birô. Entre os presentes estavam Skinner, outros homens-de-preto e, claro, os agentes Mulder e Scully. O encontro tinha sido realizado sobre a saída de Mulder do FBI. Ele já estava cansado de dizer que "a verdade está lá fora". Estava farto de procurar por seus "homenzinhos verdes", ou cinzas... ou seja lá como fossem. Ele já não queria desperdiçar mais tempo buscando o que não pode ser encontrado. A jornada parecia estar sendo cessada. Mulder já não queria ficar louco por suas motivações pessoais. Ao que parecia, ele nunca encontraria sua irmã que buscava há mais de trinta anos. Era uma busca longa, uma jornada que parecia infindável, mas que tinha chegado ao seu fim. Sim, Mulder estava decidido a acabar de vez com aquilo tudo. Queria pôr uma barreira naquilo que parecia fazer de sua sanidade um problema. E quanto a Scully... A pobre Scully não conseguia nem falar. Presenciava toda aquela amarga recepção que tinha por motivo saber o porquê da saída de Mulder. Esquiva, ela olhava com o canto dos olhos para os olhos de Mulder, que permaneciam mais firmes do que nunca, enquanto os dela pareciam desabar... só faltava uma lágrima rolar para que a derradeira hora da amargura viesse à tona. Scully estava tristonha, os olhos lacrimejando, e ela já não tinha mais forças para dizer qualquer coisa. Ouvia incessantemente os argumentos absurdos do parceiro e já tinha a idéia do fim formada em sua mente. Ela nunca fora muito de chorar, mas quando o assunto era o coração... ela desabava em prantos. E Mulder era o dono de seu coração. Era o possuidor de sua imaculada paixão. O mandante de seu amor. Ele era tudo pra ela, mas agora estava indo embora. Talvez para nunca mais voltar. Ela tinha que convencê-lo a não partir... seria o fim de tudo, a busca, a força, a luz, a coragem, a determinação, a sanidade e o senso comum do que deveria fazer. Ela passaria a crer que já estava de fato morta assim que Mulder a deixasse. A reunião acabara. Mulder seguira para seu escritório, sem dar uma palavra de apoio ou apenas uma satisfação a Scully. Nada. Ele foi para o seu escritório arrumar suas coisas. Estava certo de partir. A busca fora cessada. Tudo que tinha de ser descoberto já fora. Chega. Ele queria pôr um ponto final. E Scully não suportava de dor. Fora para sua casa, bater sua cabeça contra a parede, esmurrar a água ou simplesmente deitar-se e chorar. Muito. Estava precisando chorar há muito tempo. Era uma romântica não-assumida... tímida para essas coisas... discreta para esse assunto... mas queria revelar sua paixão. Dormiu ao som de "Angel", sob a voz de Sarah McLachlan. Imaginava voar pra bem longe... ao lado de seu amado... e sempre, sempre com ele. Até que... Um susto. Respiração ofegante. Era só um pesadelo. Ela estava aliviada por ter sido somente uma alucinação... imaginara Mulder sendo levado de si própria... mas não por homens... e sim por seres extraterrestres... e, depois de dez anos juntos, estes seres ainda a afligiam! Que coisa! Ela tinha medo deles sim! Tinha medo que eles o levassem... e o tirassem para sempre. Estava certa. Decidida. Chega de chorar! De sofrer! Chega de tristeza! Ela ia confessar seu amor para seu amado... afinal, ela precisava saber se ele o amava... só assim pra tirá-lo de sua cabeça. APARTAMENTO DE MULDER HORAS MAIS TARDE. Seu coração batia forte. Ela queria poder segurá-lo, mas o pobrezinho parecia saltar pela boca. Já não tinha posse sobre tal. Adentrou o prédio de seu companheiro, subiu no elevador e treinava frases para expor sua dor... sua paixão. Ao chegar no andar do apartamento de Mulder, ela ainda criava situações para a revelação. E chegava a hora. Ela bateu à porta. Mulder, sem camisa, olhou pelo olho-mágico: _Que é? E ela percebeu a amargura presente em sua voz. Estava ressentido, tristeza, perdido num mar de dúvidas. Mas ela queria saná- las. Queria fazê-lo menos são, mais insano. E nada melhor do que o amor... para piorar a insanidade. _Mulder, eu vim aqui pra te dizer uma coisa... _E o que é? _É uma coisa séria... _Pois diga! Sou todo ouvidos! Ela sentia uma lágrima cair por seu rosto. Estava solitária naquela cena... parecia um filme romântico, em que o protagonista despeja a mocinha. E ela se via como tal... jogada num canto, humilhando-se por uma palavra, um gesto, um sinal... qualquer coisa. _Por favor, Mulder. Será que posso entrar? Depois de muito insistir, ele cedeu. Cedeu um pouco de seu precioso tempo. Estava ali, a ouvi-la, indiferente a qualquer pedido, decidido do que iria fazer. _Mulder, eu preciso dizer algo... _Isso eu já sei... _Olhe, Mulder... o que eu tenho pra dizer não é algo fácil pra mim. Você tem que entender que... _Olha, Scully, se você veio aqui apenas pra tomar o meu tempo, é bom ir embora, que eu estou arrumando minhas coisas. _ ...suas coisas?_ ela não acreditava. Ele iria mesmo partir._ Pra onde você vai? _Não sei, talvez para a América do Sul... quem sabe? _Mulder, eu... _ e caminhava, a passos curtos e lentos _ eu preciso dizer que... _Dizer o quê, Scully? O quê? _Eu preciso dizer que... _Fala logo, Scully!! _Eu preciso dizer que... _ e se aproximava ainda mais dele, cada vez mais _ que... que eu te amo. Ao dizer a última palavra, ela levou seus lábios aos dele e os selou com um beijo. Um beijo de "eu realmente te amo". Ele não conteve- a, pelo contrário, levou as mãos pelo pescoço de Scully e retribuiu ainda mais um beijo doce. Um beijo de paixão contida há dez longos anos. Eles sentiam a necessidade de dizer que se amavam. Era algo que vinha de dentro... parecia querer explodir! Estava sucumbindo-os aos poucos. E se beijaram. Era o ápice do amor, do prazer e da emoção. Enfim, a revelação bombástica não foi tão bombástica assim... e ambos se uniam com o calor de seus corpos. LUCAS ZAGO ARQUIVO X "A VERDADE ESTÁ DENTRO DE VOCÊ" "ECCE VERUS" ARREDORES DE WASHINGTON D.C. 12:45 PM 11 DE JUNHO DE 2005 A mulher levantou a cabeça e sorriu abertamente ao ouvir o barulho da porta de entrada batendo mas não parou de desembrulhar o quadro que trouxera da galeria na noite anterior. Só naquele momento, depois de toda a casa organizada ela havia encontrado tempo para pendurar os três quadros novos que havia escolhido para sua sala de estar. Ela percebeu a aproximação do marido mas não se voltou para ele. Sentiu os braços fortes a enlaçarem pela cintura enquanto sua boca depositava um beijo em seu pescoço descoberto. Ela voltou-se para ele e enlaçou-o pela cintura ficando na ponta dos pés e beijando sua boca com paixão. Quando se separaram ele olhou curioso para o quadro apoiado na parede. _Dana, tem certeza de que quer colocar "isto" na nossa sala? Mulder não duvidava da capacidade da esposa em reconhecer uma obra de arte mas duvidava sinceramente da sanidade mental do artista que havia pintado aquele quadro. _Mulder, ela imprimiu um tom de censura na voz apesar de manter o sorriso em seu rosto _"Isto" como você chama o quadro é arte moderna e não custa barato. _Bom, me paga a metade do valor do quadro que eu pinto um igualzinho. Deus, mulher! Uma criança de três anos faria algo mais bonito! Ela não perdeu o bom humor, _Tudo bem Mulder mas acontece que EU gosto do quadro e ele fica. E o senhor vai tomar um banho imediatamente porque o almoço está pronto e eu estou faminta. Ele virou-se e caminhou sorrindo em direção às escadas falando por sobre o ombro, - Se você se alimentasse direito no hospital não teria tanta fome nos fins de semana. _Anda logo Mulder, ela jogou uma bola de papel amassado nas costas dele que começou a escalar os degraus da escada de dois em dois rindo. Scully observou o marido desaparecer no andar de cima da casa e sentou- se em uma poltrona suspirando feliz. Desde que haviam se casado ela desabrochara como uma flor nascida em um jardim bem cuidado. Nem mesmo o cansativo trabalho no hospital conseguia fazê-la perder seu bom humor. Não havia mais Arquivos X. Nada mais de malucos e aberrações tentando matá-los. Inimigos tentando separá-los. Há dois anos, eles viviam um conto de fadas. Mulder lecionava na universidade de Washington durante a semana e Scully trabalhava no pequeno hospital da região. Ela nunca fazia plantões aos finais de semana que ambos passavam em casa, em eterna lua-de-mel. A Drª Dana Scully Mulder nem de longe se parecia com a séria e compenetrada agente do FBI que havia sido. O sorriso vinha fácil a seu lindo rosto e não desaparecia com facilidade. Ela simplesmente adorava a vida que tinha escolhido para si há dois anos atrás quando num arroubo de insanidade, entregara sua demissão ao Bureau e deixara para trás todos os anos de lutas e sofrimentos. No início ela temia que Mulder se cansasse dela. Que se arrependesse do que tinham feito. Ou então que sentisse falta de crianças em casa. Mas ele a tranqüilizara dizendo que quando decidissem ter filhos poderiam adotar. Existiam tantas crianças que precisavam de cuidados, de amor. E amor era o que ambos mais tinham para dar. Mas por enquanto ele afirmava que seu amor seria dedicado somente a ela. Mulder havia decidido que morariam perto de Washington e conseguira um emprego como professor na universidade enquanto ela voltara a clinicar em um hospital próximo do local que escolheram para morar. Por ser um hospital de menor porte, o trabalho era mais tranqüilo e calmo e Scully se descobriu adorando aquela vida que muitos consideravam entediante. Mulder por sua vez se mostrara um marido excepcional. Preocupado e amoroso, ainda conservava seu estranho senso de humor mas agora sorria com freqüência e estava sempre animado com as menores coisas da vida. Depois de dois anos vivendo no paraíso, Scully sentia que finalmente havia encontrado a felicidade e que os pesadelos que vinham esporadicamente onde ela via seu marido virar-lhe as costas e abandoná-la, eram apenas sonhos ruins que nunca se concretizariam. Ela ouvia o barulho da água do chuveiro caindo e a voz de Mulder cantarolando uma canção que ela não identificava mas que a deixava muito alegre como tudo o que seu marido fazia. Um brilho iluminou os olhos azuis dela e sorrindo maliciosamente, ela subiu os degraus rapidamente decidida a adiar o almoço por algum tempo. Definitivamente, ela se considerava uma mulher feliz! 11 DE JUNHO DE 2005 LOCAL DESCONHECIDO 11:55 PM Os olhos verdes corriam pela sala escura preocupados e um pouco assustados. Ele sabia que se fosse apanhado era seu fim. Já há um bom tempo estava fora da ativa mas a prática adquirida ao longo dos anos ainda não fora perdida. O homem alto voltou a se concentrar na gaveta de arquivos iluminada pela pequena lanterna, a única luz que podia ser vista na sala. Encontrar as informações demorara mais tempo do que ele imaginara. Mas tinha valido a pena. Com as informações conseguidas ele finalmente conseguiria se vingar de todos que o haviam usado e manipulado durante tanto tempo. Não que ele fosse do tipo vingativo, longe disso mas desta vez seu inimigos tinham ido longe demais. Ele havia perdido tudo pelo que lutara todos aqueles anos e não admitia que "eles" saíssem impunes. Conferiu todos os papéis e documentos da pasta duas vezes para ter certeza de que não faltava nada. Toda a verdade estava ali em suas mãos. Um leve sorriso se insinuou no rosto bonito mas os olhos verdes continuavam frios como gelo. Implacáveis em seu desejo de vingança. Ele estava se virando para sair da sala quando uma idéia surgiu em sua mente. Era pura maldade o que pretendia fazer mas mesmo assim ele decidiu que, cedo ou tarde a verdade seria descoberta. Ligou um dos computadores da sala e selecionando rapidamente alguns comandos, ele programou o envio de duas mensagens pelo correio eletrônico . Escaneou os documentos e desligou novamente o computador. Alguém teria uma bela surpresa ele pensou enquanto se levantava guardando os preciosos arquivos roubados dentro da camisa e abotoava a jaqueta preta até o pescoço. O homem alto caminhou silenciosamente até a saída da sala e abriu a porta cautelosamente. Não pretendia que sua aventura fosse descoberta antes do necessário. Precisava de tempo para executar sua pequena vingança e queria fazer tudo com calma para saborear o sofrimento de Dana Katherine Scully Mulder. Sorrindo maldosamente, Alex Krycek deixou o edifício desaparecendo rapidamente na noite escura. 13 DE JUNHO DE 2005 11:30 AM HOSPITAL DA MISERICÓRDIA Scully acabara de suturar um ferimento em um garoto de 11 anos na emergência do hospital e agora tomava um café na sala dos médicos, vazia àquela hora. No silêncio do local ela planejava algo diferente para fazer no jantar quando a porta foi aberta bruscamente assustando-a. Com os reflexos ainda rápidos ela se levantou derrubando a xícara de café na mesa e afastou-se do homem que invadira a sala daquela maneira brusca. Seus olhos brilharam de raiva ao reconhecer a figura parada à porta que impedia sua fuga. Alex Krycek. _ O que quer aqui? Ela sussurrou entre dentes tentando conter a raiva que começava a tomar conta de si. Era um pesadelo, tinha que ser. O passado não podia retornar agora. Não agora que ela enfim encontrara a verdadeira felicidade ao lado do homem que amava mais que sua própria vida. Krycek sorriu maliciosamente para ela. _ Não cumprimenta velhos amigos agente Scully? Ou devo dizer Drª Mulder? Então você conseguiu conquistar nosso amigo! Meus pêsames. Uma mulher bonita e sexy como você poderia ter arranjado alguém bem melhor que o idiota do Mulder. _ Não tenho que discutir minha vida pessoal com você Krycek. Saia da minha frente. Suma da minha vida! Nos deixe em paz! Não somos mais ameaça para seus chefes. Scully tremia de raiva e um medo irracional começava a dominá-la. A presença daquele homem em sua vida não poderia significar nada de bom. O sorriso abandonou o rosto de Alex Krycek, _ Eu não trabalho mais para eles. Na verdade eu sequer existo Drª. Eles me mataram. Acabaram com a minha vida. Graças a você e ao seu marido. Ele falou a palavra marido como se pronunciasse uma obscenidade e Scully estremeceu diante do ódio que emanava dele. Ela podia sentir que ele pretendia algo muito ruim e pela primeira vez em dois anos, sentiu falta de sua inseparável pistola que a havia livrado de tantas encrencas como aquela. Krycek deu um passo para dentro da sala e percebeu satisfeito que a mulher à sua frente estava com medo dele. Ah! A sensação de poder era inebriante. Ele gostava disso. E sabia que gostaria ainda mais quando revelasse a ela tudo o que havia descoberto. _ Calma Drª, não pretendo machucá-la. Gostaria apenas de conversar com você. Tenho algumas informações interessantes para lhe dar. _ Eu não trabalho mais no FBI Krycek. Vá embora! Não me interessa o que tem para me dizer. _ Tem certeza Drª Mulder? Mesmo que essas informações digam respeito ao seu adorado marido? Mesmo que o que eu tenha para lhe dizer possa desvendar de uma vez por todas a tão procurada verdade pela qual vocês perderam quase dez anos de suas vidas? A verdade pela qual sua irmã e Bill Mulder morreram? Scully hesitou um segundo e Krycek aproveitou para entrar na sala e trancar a porta. Ele caminhou calmamente para a mesa e sentou-se convidando-a com um gesto a fazer o mesmo. Ela se recusou e ele, dando de ombros iniciou sua narrativa. Ele contou a Scully que a invasão fora cancelada definitivamente uma vez que os rebeldes já haviam conseguido instalar várias colônias de resistência em diversos pontos da terra e os colonizadores não tinham interesse em invadir um planeta já colonizado pelos rebeldes pois teriam muito trabalho. Ela ficou secretamente aliviada por isso mas não teceu nenhum comentário a respeito. Krycek continuou revelando que o Sindicato continuava agindo nas sombras, mandando e desmandando no governo mas isso não interessava à Scully. Ela já começava a ficar impaciente quando Krycek retirou um embrulho de dentro da camisa e o estendeu para ela que ficou olhando estática sem se mover. Ele riu cínico para ela _ Vamos Drª, pegue. Não vai mordê-la. Este pacote contêm todas as informações pelas quais você e Mulder perderam anos e anos de suas vidas procurando. Não quer saber quem realmente é o homem com que se casou? Este pacote tem a verdade dentro dele. A verdade que nem mesmo meus antigos patrões conhecem. Nem os alienígenas conheciam pois todas as informações foram destruídas, exceto estes papéis. Os únicos que tinham acesso à essas informações, Bill Mulder, C.G.B. Spender e Teena Mulder, nunca revelaram isso a ninguém. Duas dessas pessoas você já sabe que estão mortas há alguns anos e a terceira...bem eu o matei há uma hora atrás. Com isso, somente você saberá a verdade e caberá a você decidir se vai contá-la a seu marido. Ela por fim decidiu-se a receber o pacote. Krycek permaneceu sentado olhando intensamente para ela. Enquanto segurava o pacote contra o peito, ela notou que suas mãos tremiam. Deus, aquilo não devia ser nada de bom. Krycek parecia querer ficar e apreciar o espetáculo. Por um instante pensou em atirar o embrulho na cara dele e mandá-lo embora aos gritos. Mas a curiosidade prevaleceu e ela sentou-se à mesa e começou a abrir o pacote. Krycek acomodou-se melhor na cadeira e sorriu maldosamente quando ela começou a ler os papéis que ia retirando do embrulho e as lágrimas começavam a correr pela face da mulher de cabelos ruivos que ele pretendia destruir. E o melhor era que destruiria a vida de Fox Mulder junto. RESIDÊNCIA DOS MULDER ARREDORES DE WASHINGTON 13 DE JUNHO DE 2005 10:35 PM Deitado na cama, os cabelos molhados do banho, Mulder mudava os canais da televisão sem realmente assistir nada. Estava preocupado. Desde seu casamento, poucas vezes sua esposa havia ficado fora até tão tarde. O hospital era bem regional e atendia a poucos casos mas graves. E mesmo assim, sempre que Scully sabia que atrasaria ligava para ele. Hoje havia sido diferente. A enfermeira ligara na Universidade avisando que a Drª Mulder chegaria muito tarde em casa e que ele não se preocupasse. Realmente, a princípio ele não se preocupara mas agora se perguntava que tipo de emergência durava tanto tempo. A ligação fora perto das duas da tarde e já passava das dez e meia da noite e nem sinal dela. Ele se repreendeu mentalmente dizendo a si mesmo que era tolice se preocupar. Ela lhe contaria tudo quando chegasse. Com um suspiro cansado ele desligou a televisão e acomodou-se para dormir. Scully viu por trás dos olhos inchados e vermelhos a luz da TV se apagar e o quarto mergulhar na escuridão indicando que ele iria dormir. Estava parada na esquina de sua rua há horas observando de longe as luzes de sua casa acenderem e apagarem e o vulto de Mulder se movimentar lá dentro. Ela não parava de chorar desde o instante em que começara a ler as informações que aquele maldito Alex Krycek colocara em suas mãos. Eram as certidões de casamento de William e Teena Mulder e de nascimento de seu único filho Fox. Único filho? Scully olhara interrogativamente para Krycek que lhe fizera sinal para continuar a ler. Cartas trocadas entre Teena e CGB Spender falando sobre a gravidez e sobre a descoberta de Bill que a criança que esperava não era dele. Uma carta de Bill para CGB ameaçando o Canceroso de morte caso não devolvesse a esposa ainda grávida que havia sido levada para testes pelos alienígenas. Scully se espantou. Então Teena havia sido uma cobaia também? Como Cassandra e ela própria. Scully continuou analisando documentos médicos sobre a criança que havia nascido. Um menino saudável e perfeito e sobre uma outra criança gerada a partir do DNA do bebê de Teena Mulder. Um clone. Um híbrido que crescia perfeito e saudável. As células eram humanas assim como seu sangue. Os genes híbridos estavam adormecidos e não havia risco de se ativarem sem um estímulo pré determinado. Os laudos médicos afirmavam que a criança já poderia ser colocada em contato com os humanos. Suas memórias haviam sido devidamente implantadas. A abdução do menino Fox Mulder seria lembrada pelo clone como a abdução de uma irmã imaginária cujas lembranças estavam apenas na mente dele. Alguns papéis eram memorandos de pessoas que prepararam filmes em super oito com duas crianças brincando, fotos e material escolar. Em uma das cartas, a escrita estava muito borrada pelas lágrimas de Teena que implorava que não levassem seu único filho. Scully lia os documentos e não conseguia acreditar. Seu cérebro se recusava a aceitar que Mulder era um clone do verdadeiro Fox Mulder e que Samantha nunca havia existido. Ela mal enxergava através das lágrimas mas continuava a ler um papel atrás do outro sentindo a dor em seu peito se expandir insuportavelmente. Krycek não se mexia na cadeira ao lado, saboreando o sofrimento da mulher ruiva. _Eu trouxe os originais para você por que sabia que não acreditaria em mim mas tenho várias cópias destes papéis. Não que eu vá usá- los pois, além de Mulder, não há mais ninguém vivo que tenha interesse nestes documentos. Apenas achei que você deveria decidir se ele deve saber a verdade ou não. A verdade real, sem mentiras. Scully olhou para o homem sentado calmamente a seu lado claramente apreciando seu sofrimento e sentiu ganas de matá-lo. Num impulso atirou-se contra ele mas ele estava preparado e segurou-a com força imobilizando-a em seu colo. Scully se debateu mas o braço mecânico de Krycek era mais forte que o normal. Ele riu de seus esforços para se soltar e sussurrou em seu ouvido. _ Impressionante a força deste braço não é? Você nem imagina como a tecnologia deles é poderosa. Se os rebeldes não houvessem interferido não teríamos tido a mínima chance contra eles. Mas até que foram úteis em algumas coisas. Ela parou de se debater e falou entre os soluços _ Por que Krycek? Por que está fazendo isso conosco? Por que quer destruir nossa vida? Ele tocou a orelha dela com a boca úmida e ela se encolheu em seus braços enquanto ele falava ainda mais baixo mas mais próximo de seu ouvido. _ Por tudo de ruim que você e Mulder me causaram. Por culpa de seu adorado marido eu perdi meu braço na Rússia. Por culpa de vocês dois, os líderes do Sindicato quase me mataram várias vezes me obrigando a fugir como um animal de seus assassinos contratados. Não acha que isto é razão suficiente Drª Mulder? Ele a soltou bruscamente jogando-a no chão e se levantando da cadeira. _ Apenas lamento não poder estar com vocês quando contar a seu querido marido que ele é o híbrido humano alienígena que os idiotas do Sindicato tanto procuraram. Ele, o estranho Mulder, é o único ser vivo neste maldito planeta que seria capaz de sobreviver à invasão. Irônico não Drª ? Ele sempre procurou a verdade com tanto afinco e agora a verdade vai destruir sua vida. Pena mesmo eu não poder assistir a esta cena. Mas me contento com suas lindas lágrimas Dana. Ele a olhou pensativo. Você tem um lindo nome, Dana. Um lindo nome para uma linda mulher. Sabe Drª, o sofrimento fica bem em você. Sorte sua. Ele se virou e destrancando a porta da sala, caminhou calmamente para a saída do hospital deixando Scully jogada no chão soluçando incontrolavelmente. Parecera uma eternidade até ela conseguir se levantar e lavar o rosto no banheiro. Havia deixado um recado escrito na recepção para avisarem seu marido que estava atendendo uma emergência e chegaria tarde em casa e saído sem rumo pela estrada. Depois de horas dirigindo sem conseguir se acalmar ela havia estacionado na esquina de sua rua e ficara horas olhando para sua casa. Ela precisava criar coragem e contar tudo a ele. Ele precisava saber a verdade. Mas algo dentro dela lhe dizia que se contasse o que descobrira a ele, ela o perderia. Um medo irracional de perdê-lo a fez tomar a decisão de não contar. Não por enquanto. Ela não conseguia raciocinar e não podia conversar com Mulder naquele estado. Com um suspiro cansado ela dirigiu o carro para a garagem de sua casa. Deixou os papéis escondidos embaixo do banco do motorista e entrou em casa decidida a poupar o homem que amava das revelações horríveis sobre sua origem. Enxugando as últimas lágrimas de sua face, Dana Scully Mulder abriu a porta de sua casa e entrou decidida a preservar a felicidade de seu casamento a todo custo. SILVIA PENHALBEL Mulder dormia feito um anjo. Estava sonhando, livre da vida humana. Parecia voar por entre as nuvens, leve... Mas queria voltar. Somente assim daria fim à vontade de ver sua esposa, a Drª Mulder. _ Mulder? Ele acordou. Viu Scully, à sua frente, parada feito uma estátua e perguntou, percebendo a vermelhidão de seus olhos inchados e que pareciam estar tomados de sofreguidão. _Aonde estava, Dana? _Desculpe, eu... Ele observou seus olhos. _ Você estava chorando? _ Ahn? Não. Eu perdi um paciente. Era um garoto jovem, Mulder. Tão jovem... e morreu de câncer. Tinha um tumor nos rins. Não conseguimos o tratamento correto e já era tarde demais. O pobrezinho morreu. _ ela formulara a desculpa enquanto observava sua casa em seu carro, há horas atrás. Aquela casa que Mulder e Scully construíram e aonde moravam... se Deus quisesse (e ele havia de querer) um dia muitas crianças povoariam aquela sala, pulando à volta dos pais, fazendo bagunça e traquinagem. Scully olhava para Mulder, não acreditando que por tantos anos fora enganada. Ele mesmo fora enganado! Nem sabia sobre sua origem. Sua gênese havia sido forjada. E ele nem ao menos desconfiava. _ Eu estava preocupado... _Não se preocupe, meu amor. Está tudo bem... pode ficar tranqüilo. São ossos do ofício. Ele a chamou para o colchão aconchegante e quente. _ Vem cá, vem, benzinho. Esquece tudo de mal que aconteceu e vem aqui, do meu ladinho... Ela descalçou os sapatos, desabotoou a camisa e despiu- se toda. Mulder a observava, admirado com tamanha beleza. Scully vestiu uma camisola que estava pendurada sobre a cadeira e se jogou na cama. Puxou o cobertor, abraçando Mulder. Este a envolvia com seus braços rijos e dava-lhe confiança e segurança. _Sabe, Dana? Eu realmente te amo. Minha vida seria como um deserto sem você. Você é a fonte da minha água, o Sol do meu céu, o motivo do meu viver... você é tudo pra mim. _ e olhou para seus olhos, fitando-os com paixão. Era de praxe olhá-la sempre, mas ele a fitava com tamanho desejo que parecia tremer. Seus lábios pediam pelos dela. E os dela pelos dele. _ Dana... eu te amo. Scully passou a mão por seus cabelos macios e completou: _ E eu mais. Te amo mais do que tudo, Mulder... _ e uma lágrima escorreu por sua face. Estava desiludida, amargurada, e precisava de amor. Do amor daquele sujeito... aquele Estranho sujeito. 14 DE JUNHO DE 2005 6:32 AM Na manhã seguinte, Mulder acordou para ir à Universidade, como de costume, dar suas aulas de Psicologia para aqueles jovens de Washington. Aprontou-se, certificou-se de selar os beijos da esposa na saída e seguiu. Scully também estava a postos para começar mais um dia de trabalho. A profissão de médica não era tão fácil, mas ela adorava. Mulder saiu. Entrou no carro e Scully seguiu no outro. Eram necessários dois automóveis para uma rotina tão tumultuada. Ele seguia, pensando no que ocorrera na noite anterior. Ligou o rádio e começou a ouvir música nova era. Botou a fita no toca-fitas e aumentou o volume. Estava vivendo tão bem que começou até a ouvir esse tipo de música. Estava começando a se identificar com o gênero. Até que o rádio ruiu. A suave música deu lugar a um estranho barulho, metálico e perturbador. Mulder pensou que se tratava de um OVNI, se aproximando de seu carro. Poderia até ser... quem sabe fosse? O fato é que, depois de alguns minutos, o som voltara ao normal, após Mulder acertar a antena do carro. Sua paranóia estaria voltando? Estaria ele novamente pensando nos Arquivos X? Será que Mulder não tinha esquecido toda aquela loucura de OVNIs e extraterrestres? Não era loucura. O Canceroso estava morto. Sua mãe estava morta. Suicidou-se, prevendo o futuro de seu segredo. E seu pai, Bill, não era o verdadeiro pai biológico, seu progenitor... o verdadeiro pai de Mulder era C.G.B.. O Canceroso. Mas ele não sabia de nada disso. Ele não estava louco, muito menos paranóico. Apenas lembrou-se dos casos em que aquela situação era comum. Sempre acontecia da mesma maneira: o rádio parecia estar com defeito, tudo parecia estranho, e dali a pouco, uma nave surgia pairando no céu, dando origem a uma abdução. Mas Mulder já fora abduzido!! Mal sabia ele que sua vida era uma farsa, uma fraude bolada por homens inescrupulosos, e que ele nem ao menos era humano. Era um clone... meio humano, meio extraterrestre. Enquanto isso, Scully seguia para o hospital em que clinicava. Ao entrar no carro, ela sentiu a presença daquele crápula do Krycek. Um ser de horrenda personalidade, sem piedade nem compaixão. Era por causa dele que Scully estava acabada, literalmente. Mas ele não estava ali. Devia estar muito longe, naquele momento. Mesmo assim, seu castelo de sonhos parecia ter sido desmoronado, levado por uma onda enorme de ódio e rancor. E a prova estava ali, debaixo do banco em que estava sentada. Ela apanhou os papéis, relendo-os de trás pra frente e de frente pra trás. Não havia como negar. Tudo era verdade. A verdade estava ali! Tão bem explicada que era difícil duvidar. Se fosse mentira, seria a maior e mais bem planejada já existente na face da Terra. Um homem que parecia estar passando por uma maravilhosa fase teria sua vida jogada fora. Mas como Mulder saberia da farsa? Scully não sabia o que fazer. Estava extremamente indecisa entre contar e não contar. O que seria melhor? Dizer a Mulder ou poupá-lo de tamanho sofrimento? O celular tocou. Scully atendeu. _ Alô? Ouviu um ruído do outro lado da linha. E uma respiração ofegante acompanhava o estranho som. Scully podia ouvir alguém respirando do outro lado. Mas nenhuma palavra era dita. _ Alô?? _ gritou ela. Mas nada. Nenhuma resposta. Até que ela ouviu um sussurro. _ Eu... E ouvia, atenta, alguém balbuciando lentamente e com certo desespero a palavras pausadas. _ ... estou... Ela não entendia nada. Esperava o fim da frase para saber do que se tratava. _ ... aqui. E o indivíduo desligou. Ela logo apertou um botão no aparelho para rastrear a ligação e, em seguida, a busca foi efetivada. O número batia... Scully percebeu que já conhecia aqueles dígitos. Eram-lhe familiares de longa data. Alguém tinha feito a ligação diretamente... do FBI. RESIDÊNCIA DOS MULDER 6:58 AM Alguém abria a porta. Passos. O carro, estacionado, permanecia com os vidros abertos. Um sujeito alto caminhava entre as sombras daquela manhã cinzenta. Seguiu para o quarto do casal dono da casa. Caminhou até a cama. Lá, estava um objeto negro, plastificado e pesado, de grossura espessa. Levou a mão e... Que susto o sujeito levou. O computador emitiu um ruído agudo. Era um aviso. O indivíduo caminhou até lá e olhou para a tela, constatando o que significava aquilo. Era um aviso, realmente: "VOCÊ TEM NOVAS MENSAGENS" E, com um clique no mouse, adentrou na internet, averiguando o tal e- mail. Observou fixamente o remetente e percebeu que não o conhecia, sendo identificado como "Mão de Robô". Averiguou e entrou na mensagem: "A VERDADE ESTÁ DENTRO DE VOCÊ" Que diabos aquilo significava? O que o remetente queria dizer com aquela junção de palavras estranhas e sem sentido? Havia um arquivo anexado. Era uma série de textos que, lendo-os, ele observou que quase todos possuíam a assinatura de C.G.B. Spender. Havia ainda a reprodução de uma carta escrita à mão, passada por um scanner. E, ao fim, a assinatura manchada: "Teena Mulder". Ele estava começando a encaixar as peças. Leu algumas das reproduções e ainda se deparou com a cópia de uma foto. Era o Canceroso, ao lado de um feto mantido em isolamento. Em outra foto, o feto que se tornou um belo garoto de olhos verdes estava deitado numa mesa cirúrgica, e ao seu lado estavam várias pessoas, entre as quais o médico que o operava e Bill Mulder. No pé do garoto estava pendurada por um fio sua identificação... Era Fox Mulder. O homem ficou pasmo, sem reação. Atônico, ele não podia crer no que via. Estava diante da verdade. Aquela verdade que tanto buscara durante mais de trinta anos. Fox Mulder, que havia voltado à sua casa para buscar um livro que havia esquecido, descobrira tudo. A farsa, o ardil, a armadilha, os planos, as mentiras... tudo. A verdade como um todo. As peças se encaixaram, os fatos se juntaram, e ele não podia acreditar. Estava pasmo. E não podia acreditar. Queria, mas não podia. Era duro demais para ser verdade. 9:27 PM Scully já estava em casa, preparando o jantar. Havia comprado na volta pra casa um pacote de sementes de girassol. Estava, ainda, intrigada com o tal telefonema vindo do FBI. No entanto, não queria arranjar mais "pano pra manga", como Mulder dissera uma vez há anos. Ou seja, ela não queria complicar mais sua vida. Já estava decidida, aquela dúvida que assolava sua mente estava agora sanada. Já sabia o que ia fazer dali pra frente. Ela se mostrava sorridente (não demasiadamente alegre, devido às circunstâncias atuais) e preparava com carinho uma comida que tinha aprendido há dois anos: feijoada. Uma comida típica do Brasil. E foi lá que eles passaram sua lua-de-mel, desfrutando do clima agradável, o ambiente confortável e acolhedor e prometeram a si mesmos voltarem lá mais vezes. Na verdade, tinha sido a recomendação de um amigo de Mulder, Jay Alejandro. Eles adoraram a viagem. Mas ela já estava começando a se preocupar. Mulder terminava suas aulas no máximo às sete e meia da noite, mas já eram nove e meia. O que teria acontecido? Ele não a avisara sobre algum outro compromisso. Sendo assim, Scully resolveu ligar para o celular de seu marido. E nada. Estava desligado. Que estranho... bem, de qualquer maneira, ela terminava de aprontar a tal comida tropical. 10:31 PM A comida já estava posta, Scully esperava por Mulder, mas ele ainda não havia chegado. Estava começando a ficar ressabiada, desconfiada de que Krycek tivesse dito a ele as coisas que também tinha revelado a ela própria. Mas não. Não podia ser. Krycek esperava que as palavras surgissem daquela boca carnuda e vermelha que realçava seu rosto pálido e ultimamente tristonho. Tentava ao máximo não fazer tempestade num copo d'água, mas não adiantava. Ela sentia que se dissesse aquilo a Mulder, ele não iria suportar. Ele seria capaz até de cometer alguma loucura. Ela estava disposta a resguardar seu amor e poupá-lo da dor. Afinal, o que ela menos queria no mundo era ver Mulder sofrendo. Ela o amava mais que tudo. E ele sabia disso. QUARTEL-GENERAL DO FBI, WASHINGTON, D.C. 10:48 PM Mulder havia prometido a si mesmo não mais pisar naquele prédio onde trabalhara por tantos anos. Mas desfez a promessa. Ele estava de volta. A recepcionista era outra, os atendentes outros, mas algumas das faces ainda estavam lá, na mesma rotina de trabalho. Ele olhava tudo como se fosse ontem aquele dia em que pedira demissão a Skinner. Na verdade, era com ele mesmo que Mulder queria tratar de um assunto que lhe dizia respeito: a descoberta. Mulder subiu até o andar do escritório de Skinner. Ao chegar lá, ele pediu à sua secretária que ele o atendesse. Mulder havia entrado sem problemas no Birô, pois todos o conheciam, e embora não soubesse, a maioria simpatizava com ele. A secretária foi falar com Skinner. Sim, ele ainda trabalhava lá. Os cabelos um pouco grisalhos, davam-lhe um ar de senhor respeitado. Ele parecia impor respeito, mas Mulder sabia que aquilo não passava de um tratamento formal. Ele havia conquistado sua confiança e até mesmo amizade, porém desde aquele dia, ambos não mais se falaram. _Pode entrar, senhor Mulder. _Obrigado. Ao adentrar o escritório de Skinner, percebera que ele havia dado uma mudada radical no ambiente, que parecia agradável e hospitaleiro. _Mulder! Há dois anos não o vejo... Deu-lhe um abraço inibido. _Soube que casou... _Sim. Ele olhou para Mulder, com um sorriso na boca. _Nem diga... já sei... Se olharam. Skinner sorriu contidamente e lhe deu os parabéns. _Você é um homem de sorte. Mulder e Skinner começaram a conversar, o primeiro disse ao Diretor- Assistente seus motivos do afastamento e contou que havia recebido uma correspondência duvidosa naquele dia. _De quem? _Alguém que se identifica somente por "Mão de robô". Ele explicou que o e-mail tratava sobre seu passado e que expunha a verdade sobre o relacionamento de C.G.B. e sua mãe, Teena. Skinner perguntou: _Me desculpe Mulder, mas o que posso fazer para ajudá-lo? _Na verdade, senhor... _ainda o chamava de senhor, como nos tempos de Agente Especial. _ eu descobri algo muito maior do que isso... Skinner arregalou os olhos. De que diabos ele estava falando? _O quê, exatamente? _Na verdade, creio que não posso lhe dizer. É um assunto pessoal que vai muito mais além das relações entre o Fumacinha e minha mãe, que Deus a tenha... Havia um ar de tristeza que envolvia os olhos de Mulder. Uma nuvem negra, cheia de amargura o tomava por dentro. Estava fraco. Em choque. Totalmente incrédulo. Era a primeira vez em anos que não tinha uma teoria. Estava céptico. E não era Scully que havia feito-o mudar. Ele ainda era crédulo em tudo, mas naquela circunstância, não restava mais nada a não ser duvidar. Afinal, que mais poderia fazer? _Ainda não entendo... onde quer chegar? Mulder olhou para Skinner com uma seriedade total. Estava decidido, tomado pela sede da descoberta. Afinal, aquilo tudo era ou não real? _Bem, senhor... eu tenho um pedido a lhe fazer. _Pois diga. _Na verdade, eu queria falar com ele. Skinner parou. Olhou para os olhos de Mulder, que não piscavam nem por um momento. E prosseguiu: _ Ele, quem? _Ele. _Quem Mulder? _O senhor sabe muito bem. _Não, não sei. _Pois eu lhe digo. Eu quero falar com o Canceroso... Skinner congelou. A palavra "Canceroso" o fazia lembrar de terríveis momentos do passado que deveriam ser esquecidos por completo. _ Mulder... _Sim? _Ele... morreu. Os olhos de Mulder se encheram de lágrimas. Estava ainda mais desiludido, corrompido por sua sede de descobrir a Verdade. Pode-se até dizer que ele estava acometido por... vingança. Não, ele não chorava pela morte daquele ser sem coração. Pelo contrário, queria ele mesmo poder retirar sua vida bem lentamente, fazendo-o sofrer como ele o fizera durante todos estes anos. Mas já não restava nada. Nada para tirar aquilo a limpo. Então, como? Como iria descobrir se aquela não era mais uma das farsas do Sindicato? Ou do Krycek? Ou do Canceroso? Ou até mesmo do próprio Skinner?... era uma incógnita. Mais um xis. A dúvida maior que não podia ser solucionada. E Mulder sabia daquilo. Afinal, seu pai... morrera. Mulder estava farto daquilo tudo. Resolvera ir embora. Já não suportava mais toda aquela angústia de ver sua vida numa retrospectiva em câmera lenta em sua mente. Seu cérebro parecia ferver, quase que queimando sua cabeça. Aquele era um sintoma típico de alguém que possui uma incógnita em suas mãos. Um xis a ser resolvido. Ele seguiu para o elevador e, ao descer, deparou-se com um sujeito alto, de aparência vistosa, de terno e gravata. Era ruivo e de olhos negros. Pele clara e cavanhaque. Sua feição mostrava já seus quarenta e tantos anos. Mas seus olhos o faziam parecer jovial, na flor da idade, de sorriso sutil e olhar discreto, porém perspicaz. Assim como Mulder, que ficara intrigado com o sujeito. Ele parecia conhecê-lo. Mas não, não podia ser. Vai ver era só impressão. Mulder seguiu. Foi embora sabe-se lá para onde. Talvez para o nada. Quem sabe o infinito? Pode ser até que ele nunca mais voltasse... O homem seguiu pelo corredor do andar térreo e saiu do prédio do Birô. Estava abandonando o edifício. Chegou à rua e avistou seu carro. Apanhou suas chaves e cada uma continha uma letra. A última delas... X. Entrou no carro e fechou a porta. Deu a partida e saiu. Quando estava já longe dali, numa esquina há metros de distância, parou numa rua sem saída. Olhou para os lados e concluiu: ninguém ao redor. Nenhum sinal de alguém que pudesse vê-lo. Foi então que ele desligou o carro. Inclinou sua cabeça para ver a si próprio no retrovisor e levou sua mão aos cabelos vermelhos. Envolveu sua cabeça na parte anterior e puxou com toda sua força. Sua pele saía. Seu cabelo saía junto. Parecia se desfazer. Mas não, o cavanhaque era um disfarce. O cabelo cor de sangue era um disfarce, também. Ele estava mascarado. E retirava seu disfarce, revelando sua verdadeira identidade. Levou a mão aos olhos e retirou as lentes que vestia. Seus olhos eram, na verdade, verdes, bastante brilhantes, que refletiam seu interior. Era um homem novo (ou seria novo homem?) e já era conhecido de longa data. Pegou suas chaves, novamente. Juntas, as três formavam um nome, talvez o nome do homem: F – O – X. Fox... Mulder. LUCAS ZAGO RESIDÊNCIA DOS MULDER ARREDORES DE WASHINGTON 11:50 PM A porta se abriu silenciosa mas ela estava atenta e correu ao encontro do homem que entrava em sua casa. _ Mulder! Eu estava preocupada! Aconteceu alguma coisa? Ela o observava com atenção e ele tentou parecer relaxado. _ Não Dana, está tudo bem. Eu só...me atrasei conversando com alguns alunos. Desculpe se a preocupei. Ela suspirou aliviada e convidou-o a jantar mas ele recusou. _ Que pena! Fiz aquele prato delicioso que aprendi em nossa lua-de-mel. Não posso guardar até amanhã à noite. Os Robinsons vão ganhar o almoço de amanhã. Ele sorriu ao se lembrar dos dias maravilhosos que passaram naquele país exótico e quente. Eles haviam sido tão felizes...E teriam continuado se ele não tivesse descoberto aquelas coisas horríveis sobre ele mesmo. Mulder sabia que teria que contar à esposa suas descobertas mas tinha medo do que ela faria quando soubesse. Ela parecia preocupada e cansada e ele decidiu que contaria a ela na noite seguinte. Até lá ele descobriria a melhor maneira de revelar à esposa que estava casada com um... _ Mulder, você não ouviu uma palavra do que falei ouviu? Ele balançou a cabeça e sorriu pedindo desculpas. _ O que disse Dana? _ Eu disse que amanhã não irei ao hospital, troquei minha folga e gostaria de fazer algumas compras em Washington. Queria saber se poderíamos jantar juntos por lá mais tarde. _ Claro Dana, claro que sim. _ Ótimo! Já está tarde. É melhor irmos dormir. Eles subiram as escadas abraçados, cada um pensando em como poupar o sofrimento do outro. Mulder sabia que teria que contar a ela enquanto sua esposa jurava a si mesma que jamais revelaria aqueles fatos terríveis ao homem que amava. Do lado de fora, dentro de um carro estacionado um pouco distante, um homem observava as luzes da casa serem apagadas. Os olhos verdes brilhavam e o rosto bonito não revelava nenhuma emoção. Algum tempo depois o carro deu a partida e saiu levando o homem de quem a vida tinha sido roubada pelo clone que dizia se chamar Fox William Mulder. 6:35 AM Mulder bateu a porta do carro irritado. Isso sempre acontecia na hora de sair para o trabalho. Ele entrou rapidamente em casa e pegou as chaves da esposa. Depois telefonaria para ela avisando que seu carro não pegava. Ela chamaria o mecânico e poderia ir para Washington no carro dele mais tarde. Ele entrou no carro da esposa e riu consigo mesmo. Seu corpo não cabia no assento que estava muito para frente. Colocou a mão na alavanca e empurrou o banco totalmente para trás. Ao fazer isso, seus olhos repararam em um embrulho e ele o pegou tencionando entregar para a esposa achando que seria algo do hospital. O papel estava um pouco rasgado e seus olhos reconheceram um assinatura borrada que aparecia. Era a mesma que vira na mensagem do computador. Intrigado, Mulder retirou todos os papéis do pacote e descobriu horrorizado que sua esposa sabia de toda a verdade. Ele largou os papéis no colo e jogou a cabeça para trás angustiado. Há quanto tempo ela sabia? Por que havia escondido isso dele? Teria sido ela a autora da mensagem? As perguntas martelavam em sua cabeça fazendo-a doer e num impulso ele saiu do carro levando consigo os documentos. Dana Scully Mulder tinha pesadelos esporádicos. Em um deles, seu marido entrava pela porta do quarto e lhe dizia aos gritos que não a queria mais, que a estava deixando. Ela sempre acordava assustada mas sempre encontrava o marido dormindo tranqüilamente aos seu lado. Mas desta vez o pesadelo se tornara realidade. O marido não estava ao seu lado dormindo mas sim à sua frente gritando com ela. Mulder a acordara aos gritos e ela demorou alguns segundos para perceber que ele falava dos documentos. Algo sobre seu carro estar quebrado e ele ter pego o carro dela...Deus! Os papéis estavam embaixo do banco e agora estavam nas mãos dele. Ele fazia perguntas que ela não conseguia escutar. Sua cabeça zumbia horrivelmente e ela colocou as mão nos ouvidos tentando parar o barulho. Mulder continuava falando e só parou quando a viu cair na cama sem sentidos. Assustado, ele a amparou chorando enquanto tentava trazê-la de volta à consciência. No andar de baixo, alguém abria a porta da sala e caminhava em silêncio até as escadas empunhando uma arma. Scully voltou à consciência devagar mas já sabia que o marido a segurava nos braços. Sentia sua mão acariciar seus cabelos e desejou que tudo tivesse sido apenas um pesadelo. Mas ao abrir os olhos viu que ele chorava e soube que teria que enfrentar a dura realidade. Ela sentou-se e ele a encarou preocupado _ Você está bem Dana? _ Estou Mulder, desculpe. Eu...fiquei chocada com sua reação. _ E o que você esperava? Você mentiu para mim! _ Mulder eu só descobri há dois dias! Estava em choque! Como queria que eu chegasse para você e lhe dissesse que sua vida era uma mentira? Que o homem que você conheceu como seu pai não era seu pai e que seu pior inimigo era seu pai? Que sua irmã nunca existiu, que ela era uma memória implantada em sua mente? Que você próprio não era quem pensava ser? Se fosse comigo o que você faria? Quando você descobriu que as experiências que fizeram comigo me tornaram estéril você não me contou! Tentou me poupar! Eu sei que foi por amor! Eu também fiz isso por amor! Ambos choravam enquanto ela gritava as palavras em desespero e Mulder a abraçou com força _ Meu Deus Dana! O que vou fazer agora? O que vamos fazer agora? Ela soltou-se do abraço e o encarou nos olhos _ Nada Mulder, não vamos fazer nada. As únicas pessoas que sabem disso estão mortas. Você não precisa contar isso a ninguém. Ele se levantou nervoso. _ Dana, eu não posso simplesmente fingir que estes documentos não existem. Eu não sou humano. Ele passou as mão pelos cabelos desesperado. _ Eu preciso descobrir o que eu sou de verdade. Ela também se levantou e se agarrou ao marido desesperada _ Você é o homem que eu amo. O homem sem o qual não posso viver. Ele livrou-se do abraço da esposa e olhou para ela muito sério. _ Quem lhe contou Dana? Ela abaixou a cabeça e sussurrou o nome de Krycek. Mulder socou a parede de raiva. _ Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos! Ela o segurou novamente _ Não Mulder! Esqueça Krycek, o Canceroso, o Projeto. Esqueça tudo! Vamos viver nossa vida longe deles como já estávamos fazendo! Por favor! Ele sentou-se na cama segurando os braços dela e olhando-a nos olhos. _ Não posso fazer isso Dana! Tem um homem que teve sua vida roubada por mim. Um ser humano que foi arrancado de sua família e sabe-se lá onde está. Não posso ser feliz sabendo que roubei a felicidade de alguém. Você poderia? Ela baixou a cabeça chorando e negou. Ele obrigou-a a olhá-lo novamente. _ Olhe para mim Dana, você me conhece melhor do que ninguém. Sabe que eu não posso continuar minha vida como se nada houvesse acontecido. Eu vou descobrir o que aconteceu com o verdadeiro Fox Mulder. Vou acertar minhas contas com Alex Krycek definitivamente e então, só então poderemos tentar novamente...se você me quiser. _ Querer você? Claro que quero você! Como pode duvidar do meu amor por você Mulder? _ Agora que descobriu que não sou humano... _ Isso não muda em nada seu caráter meu amor! Você é um homem maravilhoso! Eu te amo e não vou mudar de idéia. Se você quer fazer isso, faça. Eu vou ajudá- lo. _ Não! Eu tenho que fazer isso sozinho Dana, por favor. Ela suspirou vencida _ Está bem. Sem mais nenhuma palavra ele levantou da cama e saiu do quarto cabisbaixo tentando desesperadamente ignorar os soluços que chegavam a seus ouvidos. Minutos depois o carro saía em disparada enquanto o choro de Dana Scully Mulder continuava a ecoar pela casa vazia. Ela começava a se acalmar quando sentiu uma mão masculina tocar seu ombro. Scully virou-se assustada e gritou quando viu o marido parado à sua frente. Ele tapou-lhe a boca com a mão enquanto a imobilizava contra o colchão macio impedindo-a de se mover. Não precisou mais que um segundo para ela perceber que aquele homem não era seu marido. Ele era "o outro", o verdadeiro Fox Mulder. _ Por favor Dr.ª, eu imploro, não grite ou lute comigo. Sei que está assustada e desesperada mas eu também estou. Por favor me escute. Scully parou de se debater e assentiu. Ele a soltou e ambos sentaram-se frete a frente na cama os olhos azuis de Scully mostrando incredulidade. A semelhança era impressionante. Olhos, cabelos, o rosto, o tom da voz. Ele sorriu levemente constrangido. _ É estranho não é Dr.ª? Eu também me assustei quando descobri. Ela o olhou interrogativamente e ele confirmou. _ Sim, eu só soube da verdade há poucos dias quando fui trazido de volta à terra. Ainda há muitos de nós com eles. Não entendo porque não nos mataram depois que a colonização fracassou. Estão nos devolvendo aos poucos mas não estão preocupados em nos devolver a nossas famílias. Somos jogados na terra a esmo. Eu tive sorte por ter tido acesso a algumas informações antes de me devolverem mas nada havia me preparado para encontrar um outro eu vivendo minha vida. _ Sua vida não, a vida dele. Ele a olhou espantado e ela continuou, um brilho de raiva nos olhos azuis. _ A vida que ele teve não seria a sua. Ele acreditava que haviam levado uma irmã que nunca teve. Ele desperdiçou sua vida procurando um fantasma que nunca existiu. Você teria sido uma pessoa diferente. Não venha me dizer que ele roubou sua vida. Ele não fez isso. _ Eu me chamo Fox William Mulder e passei minha vida dentro de naves espaciais e em colônias isoladas na terra. Acha que foi fácil? Acha que gostei? _ E por que quer cobrar algo de meu marido? Acha que ele escolheria a vida que teve deliberadamente? Ele baixou a cabeça _ Não. Sei que não. Desculpe Dr.ª. Eu entrei aqui para matar seu marido e pegar minha vida de volta mas ouvi vocês dois discutindo e descobri que não poderia matar esse homem. E agora conversando com você, descobri que esta não é mesmo minha vida. É a vida dele e ele tem o direito de vivê-la plenamente, sem empecilhos. Ele levantou-se e dirigiu-se para a porta. Scully sentiu pena dele. _ O que vai fazer? Ele a olhou e sorriu _ Vou viver a minha vida Dr.ª Mulder. Esquecer o passado e olhar para o futuro. Ainda sou jovem, tenho muito que viver. Ela sorriu tristemente. Ele realmente era diferente do "seu" Fox Mulder. Seu marido estava novamente atrás de respostas enquanto este homem queria apenas viver em paz. Ela ouviu os passos dele descendo as escadas e a porta sendo aberta depois fechada. Depois de pensar por alguns minutos decidiu que não ficaria esperando em casa. Ela iria lutar pela sua felicidade, quer o marido quisesse ou não. O espelho na parede do quarto refletia a imagem de uma mulher determinada a lutar pela sua felicidade. QUARTEL GENERAL DO FBI TRÊS DIAS DEPOIS Mulder suspirou cansado e recostou-se na cadeira, esticando as costas doloridas. Felizmente Skinner decidira ajudá-lo em sua busca e liberara seu acesso aos computadores do Bureau. Mas infelizmente parecia que Krycek estava certo. Não havia nenhuma informação que ajudasse. O caso havia sido completamente abafado. Por um segundo ele odiou sua mãe por ter escondido isso dele e odiou o Canceroso por ser seu pai. Mas logo uma imagem veio à sua mente: Dana. Sua esposa devia estar sofrendo pelo que ele fizera. Há apenas três dias a deixara e parecia que o estranho Mulder voltara com força total. Ele não fazia a barba nem dormia ou se alimentava. Procurara em todos os lugares feito um louco. Invadira mais clínicas, hospitais e bases secretas nestes três dias do que em toda sua carreira no FBI. E nada. Ele estava cansado mas não queria desistir. Devia isso ao verdadeiro Fox Mulder. Ele iria encontrá-lo e também Alex Krycek e mataria aquele rato sujo pelo que fizera à sua vida. Depois....depois ele não sabia o que faria. Não tinha mais coragem de procurar Dana. Ela merecia ter uma vida normal, com um homem normal não com um... ele levantou-se de repente assustado com o barulho de tiros vindo de algum lugar naquele andar. Àquela hora o Bureau estava vazio. Apenas ele e Skinner estavam no andar. Mulder gelou. Skinner! Ele saiu correndo até a sala de seu ex- chefe e quando entrou lá, seu coração parou por um segundo. Uma cena dantesca se desenrolava à sua frente e ele acreditou estar sonhando. Skinner estava caído no chão, o sangue escorrendo de um ferimento na barriga. Krycek estava caído de bruços no chão e havia um homem na penumbra encostado à parede segurando o braço direito, o sangue escorrendo pelos dedos. Em pé no meio da sala sua esposa, imóvel, a arma na mão direita ainda estendida e um olhar de puro ódio no rosto bonito. Por um segundo o tempo pareceu parar. Então ela baixou a arma e olhou para ele e foi como se o mundo realmente parasse. Havia tanto amor no olhar daquela mulher que ele perdeu toda a força de sua determinação em se afastar dela. Abriu os braços e ela correu para eles. Ambos se abraçaram como náufragos desesperados que se agarram à uma madeira que flutua. Eles então ouviram o gemido vindo do canto da sala. Ambos correram e enquanto Mulder amparava Skinner, sua esposa o examinava rapidamente. _ Não acredito que a bala tenha perfurado nenhum órgão vital mas mesmo assim precisa ir para o hospital urgente. A perda de sangue sempre é perigosa. Skinner encarou a corajosa mulher à sua frente _ Agente Scully, obrigado. Ela sorriu e olhou nos olhos do marido antes de responder _ Agora sou a Dr.ª Mulder senhor e não precisa agradecer. Mulder levantou-se para chamar a ambulância e viu na tela do computador de Skinner uma mensagem. Enquanto solicitava ajuda, leu incrédulo as palavras que descreviam como Krycek pretendia matar o Diretor Assistente naquela noite. Receber um aviso de que será assassinado nunca é agradável e Mulder olhou para o corpo do rato estendido de bruços no chão. A crueldade daquele homem era incrível e assustadora. Quando inclinou-se para virá-lo. Ouviu a voz da esposa, fria como gelo _ Está morto Mulder. Ele olhou espantado com o tom de voz dela mas ela estava impassível, os olhos sem expressão. Ele já havia visto esta expressão uma vez em sua parceira quando ela matara Donnie Pfaster. Mulder virou o corpo e viu que ela havia atirado no coração. Os olhos de Krycek estavam abertos e expressavam incredulidade. Mulder endireitou o corpo e aproximou-se da esposa quando ouviu uma voz no outro canto da sala. _ Então você é Fox Mulder ... Ele gelou. Era sua voz que ouvia e quando virou-se viu que o homem que segurava o braço ferido era o verdadeiro Fox Mulder. SILVIA PENHALBEL Fox Mulder. Quem diria? Duas raposas numa mesma sala. Um, desesperado em obter socorro a seu amigo e ex-chefe. O outro, ali, ferido, os olhos brilhantes que pareciam ficar vermelhos de tanta raiva. Ele estava ali há algum tempo. A cena ocorreu de maneira estranha, inusitada. Todavia Krycek já havia planejado o derradeiro momento de partida de Walter Skinner. Foi até a sala do Diretor Assistente e atirou nele, não dando tempo a ele de se defender. Scully, que chegou ao local, acertou um tiro no peito daquele ser desumano. Certeiro. Único. Fugaz. O ódio estava apenas começando, mas o perigo estava findado. Ela o havia matado. Mulder, o verdadeiro Mulder, que estava atrás de Skinner, também foi ferido com o tiro, vindo da arma de Alex Krycek, que perfurou a barriga de Skinner e também o atingiu. Ele estava escondido, disfarçado nas sombras. Ia falar com Skinner. Observara tudo o que sucedeu ali, naquela sala. Vira Skinner ser ferido. Scully atirando em Krycek. E Mulder, o clone de si mesmo, entrando na sala, aflito ao ver aquela cena. Estava, ao mesmo tempo, enlevado, absorto ao ver o que fizeram consigo. Um híbrido! Um clone! Tão perfeito... não fosse uma coisa. Algo deveria ter saído errado. O clone possuía uma pinta na bochecha direita. E o Mulder verdadeiro, na esquerda. Naquele momento, Fox Mulder, aquele ao lado de sua esposa, passava por um momento de introspecção. As lágrimas, contidas há muito, mas muito tempo mesmo, foram expelidas dos olhos. Estava pasmo, não podia crer no que via. Uma imagem tosca de si mesmo. Sem sentimento, sem alegria, sem nada. Nada do que ele possuía. O marido da Dr.ª Mulder, chorava, incrédulo, ao ver aquela imagem simétrica de si próprio. Estava tudo ali, os cabelos, os olhos verdes... até mesmo a pinta. Ele se reconhecia na figura daquele homem rijo à sua frente. Silenciosa, Scully observava tudo, crédula. Mas como? Mulder céptico e Scully crédula? Como o tempo muda as pessoas... é impressionante o efeito de um casamento. Scully estancou o ferimento do verdadeiro Mulder, sem saber realmente o que mais fazer. Apenas ofereceu-lhe algo para cessar o sangue. Skinner, ali, deitado, balbuciava algo. Mulder não entendera. _Ecce... Mulder, se aproximou dele, buscando compreender o que Skinner tentava dizer. _ ... Verus. Ele compreendeu. Era uma expressão. Uma expressão que significava que a verdade estava ali, bem na sua frente. 00:13 AM Os dois Mulders seguiram até o hospital. Scully preferiu sentar no banco de trás do carro. Quando o verdadeiro Mulder não aceitou seguir no mesmo carro do que seu clone, este o impediu: _ Temos muito o que conversar. E realmente tinham. Seguiram, o verdadeiro Mulder com curativos no ferimento, alegando que estava melhor, e o clone sem saber o que dizer. Scully, perplexa ao ver uma imagem ambígua à sua frente, percebeu que seus olhos não a enganavam. Eram realmente dois Mulders. Dois homens idênticos, até na maneira de se vestir, de falar, de andar, de se portar... era impossível não cair na dúvida e pensar que ambos eram gêmeos univitelinos. Mas não, Mulder era unigênito, conforme Scully havia descoberto. Não havia uma irmã, e sim um clone. ELE era o clone. E, no banco do passageiro, estava o verdadeiro. Aquele por quem sua vida fora roubada durante tantos anos e somente agora ele veio a descobrir. Mulder, o clone, tomou a palavra: _ Pela primeira vez, em toda minha vida, não acredito no que vejo. Scully, mesmo lúgubre, irradiava uma luz chamada paixão. Não perdera o amor que sentia por Mulder. Se ela o perdesse de vista e se deparasse com o verdadeiro Mulder, saberia que não era ele o homem dono de seu amor. Mulder, o "seu" Mulder, possuía algo de incomum. Algo que ninguém mais possuía. Talvez fosse aquela sede pelas respostas, a disposição de buscar a verdade. Sim... a verdade, que estava agora ali ao seu lado. _ Você tomou meu lugar. _ E acha que fui eu quem escolhi? Acha que fui eu que preferi ser um clone? Um mero clone?? Acha que fiquei feliz ao saber da verdade? Como acha que me sinto?? Como acha que meu coração está agora, ao saber que tudo não passou de uma farsa? Uma fraude, uma verdadeira mentira?! Olharam-se. Scully divagava sobre sua própria existência. Como queria poder desaparecer naquele momento, ser um fantasma para fugir dali num segundo... como Samantha... sim, ela era um fantasma que não existia... nunca existiu. Mas não era, e sabia que tinha que ser forte para enfrentar a verdade. Seu coração doía, ferido, tanto quanto o de seu marido. Até mais. Era ela quem sofria mais. Sofria muito mais que Mulder, pois não agüentava vê-lo sofrer. Era isso o que previra antes que tudo acontecesse. Meu Deus! Krycek! Aquele maldito Krycek!... mas agora era tarde. Não adiantava culpá-lo pelo sucedido. Tinha que ser forte. "Seja forte", pensou. Ser forte? Como, se o seu único amor estava partido, ferido, machucado por dentro? Ela enxugava a lágrima que escorria, quando seu esposo prosseguiu. _ Como é lá em cima? Ele queria saber como era estar abduzido, fora da Terra. Desejara aquilo durante toda a vida, e quando menos esperava, descobriu que já havia sido levado por seres alienígenas. _ Horrível, Fox... horrível... você nem pode imaginar. _ Posso sim. Durante todos esses anos, pensei que minha irmã... desculpe _ suspirou _ sua irmã... tivesse sido abduzida. _ Eu sei. Sei de tudo. Você pensava que Bill fosse meu pai... mas não, meu pai é Charles. Charles George Barry Spender. _ C.G.B.... _ Esse é seu verdadeiro nome. Fiquei sabendo de tudo. Memórias foram implantadas em sua mente pelo Sindicato. E sabe por que Alex Krycek estava tão envolvido no Projeto? Porque seu pai também foi abduzido. Por isso, ele matou meu falso pai. E agora, ele matou meu pai biológico. O Canceroso... se assim prefere. Mulder estava estupefato. Eram tantas as revelações que ele não podia mais acreditar. Em que acreditar, então? Em quê?? _ Durante todos esses anos, não vi minha verdadeira família. Fiquei sabendo pelo próprio Sindicato, quando fui levado às colônias. _ Como eles são? _Mulder indagou, instigado. _ Quem? _ Os alienígenas... _ Posso lhe assegurar que não são verdes. _ Não? _ Não. Existem muitas raças. Muitas... muitas... os Rebeldes- Sem-Face são uma delas... foram eles que impediram a colonização na Terra. Você deve isso a eles, senhor Mulder. "Senhor Mulder"? Ele não podia acreditar no que ouvia, estava absorto com tudo aquilo. Completamente pasmo. _ O Sindicato conseguiu eliminá-los... e Krycek não ficou nada satisfeito com o que os membros fizeram. Ele os matou um por um. Marita. Os outros membros. E agora, meu pai. Scully ouvia tudo, chocada. Não havia saída a não ser acreditar. E o que mais podia fazer? Estava muito mais preocupada em socorrer seu amor do que impedir a vinda de seres do espaço à Terra. HOSPITAL MEMORIAL DE GEORGETOWN, WASHINGTON, D.C. Skinner estava deitado na cama, no quarto do hospital. Foi quando Mulder, Scully e o verdadeiro Mulder entraram. O ex-chefe de Mulder limpou os olhos, para ver se enxergava direito. O que era aquilo? Dois Mulders?? _Agente Scully... Ela riu. Corrigiu-o, sorrindo: _ Dr.ª Mulder, senhor. Ele também riu, meio constrangido. Agradeceu à ex-agente novamente e indagou: _Então... você já sabe? Ela assentiu. Havia descoberto tudo antes de seu marido. Este, ali, tácito, não sabia o que dizer. Na realidade, não queria dizer nada. Julgava melhor, supunha, que o silêncio ia trazer a paz de volta... _ O que foi aquilo que o senhor sussurrou, no FBI, quando Krycek... ? _ "Eis aqui a verdade". _ Como? _indagou o verdadeiro Mulder. _ É uma expressão vinda do latim. Foi o Canceroso que me disse uma vez, há muitos anos, quando revelou o propósito da parceria com os alienígenas... O ódio ressurgiu. Mulder já havia ouvido aquela frase de seu suposto pai, Bill Mulder. _Esse homem... sempre ele! _ raivou-se. _ Ele era a chave para tudo o que aconteceu. O Projeto. A Colonização. Todos os planos provinham dele... era ele quem sempre comandava tudo. O verdadeiro Mulder resolveu dizer algo. _ Meu pai era um homem forte... _ Bill? _perguntou Skinner. _ Não... Spender. O ex-marido de Cassandra Spender, pai de Jeffrey. Aquele que se envolveu com minha mãe, Teena. _ ele suspirou, triste, ao lembrar-se de sua mãe_ Minha mãe... nunca pude dizer o quanto a amava. O clima era tenso naquela sala. Até mesmo Skinner estava afetado com tudo o que acontecera. Krycek queria matá-lo, assim como matou o Canceroso. Mas como? Como ele o havia matado? Era um enigma. Quem poderia afirmar que ele não estava vivo, ainda? Deveriam eles acreditar na palavra de Krycek? _Como Krycek matou meu pai? _o verdadeiro Mulder questionou Skinner, revelando o interesse que tinha em tudo aquilo. A Verdade estava ali. Finalmente, havia sido descoberta. _ Não sei, ao certo. No e-mail que Krycek me enviou ele dizia que o fez sofrer, que o torturou aos poucos... mas não é possível estar seguro de como ele o matou. Isto é, se ele realmente o matou... O verdadeiro Mulder pediu um aparte a todos ali presentes para falar a sós com Skinner. Queria fazer-lhe perguntas, saber de tudo, afinal Skinner sabia de muitas coisas. E ele queria tirar tudo aquilo a limpo. Mulder e Scully seguiram para o corredor do hospital. Sentaram-se, sem olharem um ao outro. Ela, triste por seu amor. E ele, indubitavelmente triste. Triste por saber de tudo. Triste por sua mãe. Triste por si mesmo. Triste... por seja lá o que fosse. Estava apenas triste. _ Mulder...? Ele fitou-a, de relance. _ Mulder, eu... _Não diga nada Dana. _ ele levou o dedo à boca da amada. Ela fechou os olhos _ Três dias sem você foram como três dias no inferno... uma eternidade sofrendo, sangrando, morrendo. Meu coração estava desesperado pelo seu. Meu corpo pedia pelo seu perfume, seu toque... _ e se aproximava dela, lentamente, exalando paixão_ e mais do que tudo... seu beijo. Era o que bastava para Scully se derreter por completo, se deixar levar e se render ao amado. Ela permanecia de olhos fechados e Mulder, não suportando ver aquela imagem, aquele lume à sua frente... beijou-a. Apaixonada e verdadeiramente. Precisava sentir aqueles lábios como precisava respirar. Era como se estivesse no paraíso, novamente, e o mundo tivesse parado. Mais uma vez. Como ela era mágica! Um simples beijo para fazê-lo transceder do mundo. Estava extasiado, completamente apaixonado por aquela mulher. Pela sua mulher. Por Dana. Dana Katherine Scully Mulder. RESIDÊNCIA DOS MULDER ARREDORES DE WASHINGTON, D.C. 03:16 AM O carro estacionava à frente da casa dos sonhos de Mulder. Qual deles? O único que tinha sonhos, o único que tinha ideais, persistência, garra, força para buscar por algo incessantemente. Era o clone. O mais vivo dos dois. O híbrido que parecia humano, enquanto o humano parecia desumano. Era ele quem parecia ser o clone. Scully descera. Seu marido sentia a barba pinicar quando desceu do carro. Em seguida, no banco do passageiro, o verdadeiro Mulder saiu. Olhou para seu clone e apenas o agradeceu: _Obrigado. Ele estranhou. De que diabos estava falando? _ O quê? _ Eu disse obrigado. Obrigado por viver tão bem minha vida. Você foi mais feliz que eu. Pôde conhecer esta mulher... a sua esposa. Vocês merecem ser muito felizes. Aproveite a vida que lhes foi dada, agentes... _ele se referia a Mulder e sua esposa como se ainda trabalhassem no FBI _ Vocês não sabem a dádiva que lhes foi concebida. Você, Mulder, não é um mero clone. Você é mais que isso. Você agora é Fox William Mulder . Você tem uma vida. Não pode abrir mão dela, você deve ser firme, forte... você é audaz. E eu me orgulho disso. Me orgulho de ter-lhe dado toda essa vontade pelo desconhecido. Esta sede pela verdade que lateja dentro de você... que o faz buscar em todos os lugares, fazer o que for possível e até mesmo impossível. Mulder olhou para Mulder, o clone. _ Você é um segundo eu. E eu tenho orgulho de você. Parabéns por ser quem é. Ele sorriu. Seu ego regozijava das palavras vindas da boca daquele homem. Aquele Estranho homem... mas não mais estranho do que ele mesmo. Ele seguiu até o homem que permanecia, agora, mudo à sua frente e o abraçou. Sentiu como se sentisse a si mesmo. Pôde até mesmo sentir uma lágrima escorrer por sua face, tamanha emoção que tomava-lhe conta. Não era mentira. Era a mais pura verdade. Os documentos, as palavras que Krycek dissera, as revelações, tudo... exatamente tudo era verdade. A verdade era, agora, um todo, e não um amontoado de peças a serem encaixadas. Não eram apenas pedaços. Era inteira. Não havia nada mais a ser descoberto. Até quando, eles não sabiam. Scully sorriu ao ver os Mulders a se abraçarem e sentiu um alívio ao ver que ambos não estavam mais sofrendo tanto como antes. Principalmente o "seu" Mulder. Observando a cena se completar, ela viu o verdadeiro Mulder se afastando de seu próprio clone e caminhando na penumbra. A escuridão o envolvia e ele ia-se. Para sempre. Seguiria sua própria vida, sem buscar respostas para coisas que pertenciam ao passado. O passado... esse magnífico e enigmático ser abstrato. Pode ser até mesmo real, mas Fox Mulder, o agora assumindo-se Spender, fingia que o passado não existia. Talvez até existisse... mas ele preferia dizer que não. O casal abraçou-se, afetuosamente. O carinho entre ambos era algo impressionante, o modo como um se preocupava com o outro. Eles realmente se amavam. Na verdade, não podiam viver um sem o outro. Eram verdadeiras almas gêmeas. Talvez até siameses. Ao adentrar a casa que eles mesmo compraram e viram sendo construída, Scully suspirou, aliviada com o fato de seu marido estar de volta para si. Estava ali, em seu lar, segura ao lado do amado. Este, acometido por uma forte dor de cabeça, pediu a ela que o acompanhasse ao quarto, pois precisava descansar. Não conseguira ainda conciliar todos os fatos como uma única verdade. Precisava de tempo, e nada melhor do que o sono para fazer-lhe esquecer de tudo que havia se passado naquele tumultuado dia. Fora um dia realmente estressante, mas que trouxe a Mulder uma grande certeza: Dana. Pura e simplesmente Dana. _ Você já vai dormir, Mulder? _ perguntou Scully, ao tirar os sapatos. _ Já, estou morto de cansaço. O que mais quero, agora, é descansar. Ele olhou para Scully, fitando-a de forma que somente alguém apaixonado poderia fitar. Sorriu, malicioso: _Me acompanha? _ e ergueu uma sobrancelha, mostrando os dentes brancos feito neve. Scully riu-se, não conseguindo conter a si mesma ao ver a feição de seu marido. _ Mulder, Mulder... Ele riu também. _ O quê, Dana? Só falta agora você me chamar de tarado!... Ela riu ainda mais. Porém, quando olhava para seu marido, ali, deitado na cama, sentiu um enfaro espalhando-se por seu interior. Estava passando mal, enjoada, com dor de cabeça. Desmaiou. Estava agora inconsciente. Mulder, desesperado ao ver sua esposa ali, caída no chão, correu até ela, acorrendo-a num gesto de pura coragem. Ela não o via, inconsciente, mas podia senti-lo ao seu lado. Mulder, aflito, pegou seu celular e chamou uma ambulância. Scully estava mal. E ele tinha que socorrê-la. HOSPITAL DA MISERICÓRDIA, ARREDORES DE WASHINGTON, D.C. HORAS DEPOIS. Scully fora socorrida. Mulder, ali sempre ao seu lado, observava-a com tal ternura que fazia seus olhos brilharem. Ele faria tudo por aquela mulher. Faria tudo que estivesse ou não ao seu alcance para trazer de volta a ela a felicidade. Ele a amava mais do que tudo. Mais do que a irmã que tanto procurara. Mais do que tudo, completamente tudo na vida. Devia a ela seu amor. Sempre ao seu lado, e a melhor recompensa era a paixão. Scully recobrara os sentidos. Estava sob o efeito dos medicamentos, mas aos poucos voltava a si. Estava sóbria, tão sóbria quanto Mulder. Tão sóbria quanto Mulder esteve em toda sua vida, durante toda sua jornada. E ali estava ele, sempre fiel, dando-lhe o ombro aconchegante para chorar, os braços fortes para se envolver... a boca para beijar. Ele daria tudo a ela. E mais, que tudo, seu amor. E junto do amor, sua confiança. _ Mulder... _ Olá, Dana. Ela analisou o local da pinta na bochecha. Era mesmo seu marido. Graças a Deus! Sabia que era ele mesmo. Levou as mãos ao rosto de Mulder e acariciou- o, como forma de gratidão pelo que ele fizera. _ Eu... estava preocupado... _ Não fique. Já estou melhor. O médico disse que logo, isso passa. Mulder sorriu, mesmo estando triste por vê-la ali, numa cama de hospital. _ O que foi que aconteceu? Ela se endireitou na cama. Olhou fixamente para os olhos do esposo e envolveu-o com suas mãos macias. Ficaram algum tempo se olhando, admirando um o outro. Levou vagarosamente os lábios aos dele e... o beijo sucedeu. Um momento esplêndido, que enlevou ambos ao paraíso. Eles realmente estavam no paraíso. Scully podia jurar que estava. Abriu os olhos. Mulder também. Ela olhou para ele e disse, a voz suave: _ Mulder... _ e prosseguiu _ Eu... te amo. Ele sorriu. Como fazia-lhe bem ouvir aquelas três palavras mágicas. Retribuindo, disse: _ Eu também. Abraçou a esposa com todo o amor que possuía e ela revelou: _ E agora muito mais... Mulder não entendeu. Do que ela estava falando? _ Como assim? Ela olhou para Mulder, abrindo um sorriso inibido perante à revelação que estava prestes a fazer. E fez. Disse a ele o motivo do desmaio, o motivo do enjôo e de muito sofrimento que ela carregara durante um longo tempo. E agora, ficou sabendo... _ Mulder... Ele estava ali, atônito , ouvindo-a dizer: _ ... eu estou grávida. LUCAS ZAGO. RESIDÊNCIA DOS MULDER DUAS SEMANAS DEPOIS A voz baixa e suave cantarolava enquanto desembrulhava os pacotes à sua volta. Mulder pendurava pequenas gravuras nas paredes e sorria sentindo a alegria de sua esposa. Ela ainda estava bem magra mas ele já notava as modificações que a gravidez trazia a seu corpo. E também à suas vidas. Mulder demorara a acreditar no que acontecera. Os médicos submeteram Dana a uma série de exames e ficou comprovado que os ovários dela estavam perfeitamente normais e funcionais. Era inexplicável mas estava lá. O exame não deixava dúvidas. O líquido colhido do bebê mostrava que ele era saudável e normal e o medo que o assaltara quando soubera do bebê já passara e agora ele podia aproveitar cada minuto daquele milagre que trazia tanta felicidade para seu lar. Depois de dias de desespero, dúvidas e medo, eles finalmente reencontravam a paz e o amor que habitara naquela casa desde o dia em que se casaram. _ Mulder, olha só isso. A voz doce e melodiosa da esposa o trouxe ao presente novamente e ele viu sorrindo que ela segurava um minúsculo macacão branco com bordados cor-de-rosa. _ Dana...não vou deixar meu filho usar bordados rosa na roupa. _ Será uma menina Mulder, eu tenho certeza e se chamará Samantha. _ Não, se chamará Melissa, como sua irmã. _ Mulder, eu quero que Samantha tenha uma chance de existir neste mundo. Você amou tanto uma ilusão! Sofreu e sacrificou tanto por alguém que não existia...ela se levantou e aproximou-se dele abraçando-o. _ Quero de alguma maneira que você tenha Samantha com você. E quem melhor para fazer isso do que nossa filha? Quem melhor que ela para ser sua verdade? Ele a abraçou com força sentindo a felicidade invadir seu coração. Em toda sua vida nunca estivera tão feliz, tão completo. _ Dana, eu sou feliz. Agora, aqui, com você. Você é e sempre foi a minha verdade. A única nesta minha vida repleta de mentiras. Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou com carinho. Os raios de sol daquela linda manhã entravam pela janela do quarto de bebê e emolduravam o casal que irradiava felicidade ... e paz. SILVIA PENHALBEL RECADO AOS LEITORES: Eu fiquei realmente feliz quando o Lucas me convidou para co - escrever esta fic com ele. Foi uma experiência muito boa desde a elaboração até a finalização. Houveram algumas alterações da idéia original mas a essência permaneceu. Apesar de nossos estilos serem um pouco diferentes, nosso amor por Arquivo X e por seus personagens nos ajudaram a encontrar harmonia em nossos textos. A idéia de matar o Krycek não foi minha e eu escrevi a cena sob protesto apenas para agradar meu parceiro. E aproveitando, parabéns à você Lucas pela idéia original e por seus textos e obrigada por aturar a "tia" chata. Como mudamos a mitologia (se o Carter pode, porque nós não poderíamos?) por favor, ignorem alguns detalhes não explicados e convenientemente esquecidos. Isto é apenas uma fanfiction não uma tese de doutorado portanto esqueçam os furos de roteiro e divirtam-se. Espero realmente que vocês tenham gostado de ler esta história tanto quanto eu gostei de escrevê-la junto com o Lucas. silviapenhalbel@uol.com.br SILVIA PENHALBEL É com imensa honra que digo a vocês que realizei uma fanfic em parceria com Silvia Helena Penhalbel. É minha primeira trama em conjunto, e por isso digo que foi uma verdadeira honra escrever com esta mulher talentosa e simpática que se tornou uma grande amiga. E não se preocupe, pois eu gostei muito da idéia de ser seu "sobrinho". Foi um prazer sem igual formar esta parceria com você, a quem eu carinhosamente chamo de "multi-Silvia". Sinto-me realmente lisonjeado em poder dividir meu amor por Arquivo X com uma mulher que realmente entende do assunto. Admiro seu trabalho. Realmente, tenho que esclarecer uma coisa: a idéia de matar o Krycek foi realmente minha. Meninas, me desculpem, mas aquele crápula teve o fim que merece. A Silvia bem que tentou relutar, mas no final, ela conduziu o derradeiro momento de Alex Krycek da mesma forma como sempre a faz: magistralmente. Ah! E nós dois aguardamos feedback! luxfiles@zipmail.com.br LUCAS ZAGO