Titulo: Domingo Autora: Meggie Disclaimer: Não são meus Classificação: Shipper Resumo: Só um Domingo qualquer. Feed: wm3@uol.com.br DOMINGO Scully aconchegou-se mais entre os lençóis. Estava frio. O dia amanhecia ensolarado, apesar das baixas temperaturas. Todo calor tornado-se pouco suficiente para aquecer o ar. Domingo, não precisaria ir trabalhar. Outro dia vazio e solitário. Não quis se levantar, sua cama parecia- lhe o único lugar do mundo certo para estar naquele momento. Um chá cairia bem, mas não sentia-se disposta a faze-lo. Ficar deitada com seus pensamentos era o suficiente. Acordara com um aperto ligeiro na alma, uma nuvem escura que às vezes nos envolve e deprime. Uma sensação que levava a divagações. Momentos de profunda angustia espiritual, em que se questionava sobre o porque. O porque de estar ali, naquela cama, sozinha. O porque de as perspectivas para as outras noites que viriam serem as mesmas, por muito, muito tempo. Sempre estivera sozinha. Era quase uma opção. Tinha sua família, amigos, mas ela não os permitia estar presentes em seus momentos mais frágeis. Momentos em que realmente precisava deles. Não que não quisessem ajudar. Queriam. Ela que não permitiria. Por que? Por que trancara-se para o mundo de forma tão firme? Por que não permitia que ninguém entrasse e a conhecesse? Não haviam respostas fáceis. As respostas nunca eram fáceis. Tinha medo. O inferno está nos outros. Quem dissera isso? Sartre? Sim, achava que era Sartre. Mas não era por isso, era? Uma vez Gibson lhe dissera que ela não se importava com que os outros pensariam. Até onde ia a verdade daquela afirmação? Talvez fosse insegurança. Medo. Carência. Era uma entre quatro irmãos. Viviam viajando e se mudando sem parar. Não havia tempo para criar laços e depois, aprendera a evita-los. Era melhor assim, trazia menos dor. A dor do adeus. A dor de não ser amada pelo que se é. Nem de ser aceita. E começara a busca pela aceitação. Faça tudo certo, obedeça as regras. E quando você acha que conhece as regras, percebe que não é um jogo. É a sua vida, não era para vive-la como as outras pessoas queria que você vivesse. O caminho era seu. Talvez por isso a rebeldia. Entrara para o FBI. Quase que pela primeira vez indo de encontro as vontades paternas. Uma decisão sua. Agarrou o travesseiro com mais firmeza. Aonde aquela escolha a levara? A Mulder. Mulder fazia seu coração doer. Sempre seria a Segunda na vida dele. Para seu parceiro, ela nunca seria a prioridade. E isso lhe machucava. Aquela certeza incômoda a fazia se afastar dele. Não estava preparada para ser deixada em segundo plano. Magoava porque o amava. E ele era o que mais importava. Não estava antes de nada. Mesmo que tivesse tentado evitar. Doía saber que não havia reciprocidade. Doía saber que ele a deixaria no meio do caminho, se esse fosse o preço pela Verdade. Não que ele não se importasse com ela, nem que não a amasse. Amava. Da forma dele. Mas não era suficiente, não era o bastante para que se entregasse completamente. Besteira, já estava entregue. Ele apenas não sabia. Ou sabia e preferira não fazer nada a respeito. Mulder era seu amigo, e funcionavam muito bem daquela forma. Ele era um ótimo companheiro. Fiel e dedicado. A culpa era sua se ansiava por mais. Se queria-o de forma que ele não parecia interessado. Se levantar pareceu-lhe uma boa escolha. Só se levantar, talvez lavar o cabelo... ............... Mulder jogou a bola de basquete no canto, desligou a TV. Não queria mais assistir Dragon Ball Z. Domingo. O que diabos estava fazendo em casa? Precisava de algo para ocupar o cérebro antes que caísse em alguma espécie de depressão profunda. Domingos eram tão idiotas, podiam cortar aquele dia do calendário. Era por causa dele que as segundas eram tão depressivas. Se não fossem os domingos as Segundas seriam Primeiras e todos seriam mais felizes. O que Scully estaria fazendo? Por que estava pensando em Scully? Não tinha que fazer isso. Ela tinha vida própria, brilho próprio. Era uma estrala sozinha. Seu sol. Girava em torno dela. Coisa mais idiota de se fazer. Conhecia homens que viveram por mulheres e não foram felizes. Andava seguindo o mesmo caminho. O mesmo caminho estúpido. Quando exatamente a felicidade dela passara a ser mais importante que a verdade? Ele não se lembrava. Talvez na primeira vez em que a machucaram, na primeira vez em que ela se abriu em sua companhia, permitindo-se chorar. Permitindo que a abraçasse como sempre quis fazer. Talvez nesse momento decidira-se que se dependesse dele, ela não sofreria mais por nada. Custasse o que custasse. Ela o deixava tão vulnerável. Antes, quando podia contar apenas com si mesmo, as coisas eram mais fáceis. Vazias, mas fáceis. Ela dera-lhe um sentido, um rumo, e trouxera junto toda a responsabilidade que se carrega quando se ama alguém ( ou se é amado por ela). Scully era sua melhor amiga, nunca iria estragar isso fazendo sexo com ela. Mesmo que quisesse. Mesmo que quisesse desesperadamente. Por isso ela nunca saberia, nunca contaria a ela sobre as noites que passara insone, pensando nela e só nela. Nunca lhe diria como o modo como ela cruzava as pernas deixava sua boca seca. E mesmo que fosse muito difícil, mesmo que algumas verdades lhe escapasse quase sem querer. Seriam sempre amigos. Só amigos. Porque ele não era bom se relacionando e acabaria magoando-a, perdendo-a . E isso Mulder nunca aceitaria. Pegou de volta a bola de basquete. Precisava fazer alguma coisa ou ficaria maluco. ........... - Scully. - Oi, sou eu. O que você está fazendo? - No momento, olhando para parede. E você? - Ligando e desligando a TV enquanto jogo a bola de basquete no teto. - Uau. - É. - Mulder...o que fizemos da nossa vida? - Não sei, mas não estou me sentindo bem, - Nem eu. - Quer vir aqui pra casa se sentir mal comigo? - Não, está frio. Vem pra cá você. - Tudo bem, quer que eu leve alguma coisa? - Pizza. - Tá, já estou indo. .............. Ainda era amigos. Os melhores. .............. A pizza estava entre eles no sofá. Eles comiam em silêncio, os pensamentos vagando muito próximos, no companheiro ao lado. - Mulder, o que vamos fazer quando tudo acabar? A voz dela pareceu seca nos ecos do apartamento. - Continuar. - Como? Depois que não houver mais Arquivos X, nem verdade, o que vai ser de nós dois. Seremos velhos, sozinhos e rabugentos. Nós e nossas velhas histórias. - Que pensamento mais amargo, Scully. - O futuro tem esse gosto ruim. - Mesmo quando tudo acabar, ainda teremos um ao outro. Scully se lembrou de algo que dissera há algum tempo para Sheila, num caso sobre o rei da chuva. Sobre como às vezes não conseguimos pensar em passar o resto da vida com mais ninguém exceto seu melhor amigo. - É. Não sabia porque a perspectiva não parecia tão boa assim. A frustração vinha crescendo dentro de si em ondas avassaladoras. Enormes, deixando um rastro de fel por onde passava. Poderiam Ter tão mais, Mulder e ela. Por que aquela amizade tão linda e completa parecera, de repente, a maior de suas limitações? Por que pensar naquilo agora? Mulder queria-a apenas como amiga. A única depois de tudo. Terminaram a pizza. O silêncio tomou conta de forma opressora e feroz. Infiltrando-se por entre todos seus poros. Até que Scully não suportou, questionando novamente com voz sumida de angústia. - O que nós permitimos que fizessem com as nossas vidas? Mulder sentiu vontade de chorar. Tanta que seus olhos embaçaram. A dor no peito incansável. - Somos monstros. Vivemos embaixo da terra e todas as pessoas que se aproximam de nós se machucam. – Continuou ela, enterrando a cabeça nas mãos. Seus neurônios faziam sinapse com velocidade nauseante. Toda a frustração com a realidade, toda a dor por se sentir tão vazia e inútil, tudo saiu de repente em frases quase sem porquê. Palavras que não eram bem o que ela queria dizer mas lhe pareciam tão certas. - Eu não sou um monstro. – A voz dele era um sussurro. Seco. Áspero. Um sussurro. - É sim. Nós dois. Tão iguais, apesar de tudo. - Que espécie de monstros nós somos? - O pior tipo. O covarde, o idiota, o que se esconde e se afasta, vivendo nas sombras do buraco mais imundo do universo, nosso porão. Somos o tipo insensível, o que se magoa tão sem querer, justamente por não querer. Somos do tipo de monstro que nem sabe direito que é monstro. Os traidores que matam os outros monstros. Somos aqueles sozinhos e cegos. - Eu não sou um monstro. –Ele repetiu, as palavras embolando-se em sua garganta. A ardência crua do desespero arrepiando seus pêlos, sua mente batendo, pulsando, procurando convencer-se. Convence-la. – Monstros não choram, não se sentem sozinhos, nem culpados, não sorriem, não amam. Eu não sou um monstro. A ultima frase foi dita mais alto, seu corpo adquirindo vida e espirito. Levantou-se só para agachar-se de novo, a frente dela, segurando o rosto feminino, já molhado de lágrimas. Um fino estilete salgado de pura tristeza. - Você olha para mim e vê um monstro? Porfavordigaquenão! Porfavorporfavorporfavor! - Não. O alivio fez o ar expandir seus pulmões. - E por quê? - Não sei. Eu devia, você me magoa, Mulder. Oh, Deus, não diga isso assim! Um suspiro saiu de dentro dele, enquanto a abraçava tão apertado quanto foi capaz. Nunca quis magoa-la. O pensamento de que fazia mal para ela o anestesiou, deixando-o mudo e incapaz. - Você me machuca tanto. – Ela continuou soluçando nos braços de seu algoz. Ela a magoava Por que sempre magoava as pessoas a quem amava? Ele era mesmo desprezível Mas isso não impedia seu coração de bater triste - Tem razão, Scully, eu sou um monstro. Eu sou o pior tipo de monstro do mundo. O tipo que magoa a única pessoa que ama no mundo inteiro. Que espécie de coisa que eu sou que não consegue fazer nada certo? Que não consegue nem te fazer bem? Eu, que só queria te fazer feliz...Não fica assim, não chora, a minha vida é melhor só por que você existe. Só o seu sorriso é capaz de levar toda a escuridão. Não fica assim, eu te amo muito... Mas eu sou um monstro, você está certa, e os monstros não sabem amar. Não sem magoar o outro. Desculpe...Eu vou embora. - NÃO! - Não? - Fica aqui. A cabeça de Mulder caiu no colo da parceira. Ajoelhado em sua frente, a cabeça escondida em suas pernas, enquanto o queixo da mulher apoiava-se nos cabelos dele. A consciência voltou para Scully devagar. O que ela havia feito? O que havia dito? Onde estava com a cabeça para dizer-lhe aquelas coisas horríveis? Logo para Mulder, a pessoa com maior capacidade para se culpar que ela conhecia... E o que ele havia dito? Ele lhe dissera que a amava? Amava? - Você não me ama, Mulder. Não do jeito que está dizendo...Você, você... Ele riu amargo. - Eu sou mesmo incompetente... Nem consigo fazer você ver que não existe nada mais importante na vida que você. Desculpe. - Pare de se desculpar e olhe para mim. Aquele olhar! Ah, aqueles olhos verdes pareciam tão perdidos...Tão infantis e ao mesmo tempo velhos. Como o dos homens que já viram e sofreram muito mais que qualquer um suportaria, e indefesos como os de um menino. Suas testas se tocaram. - Eu não quis dizer mesmo aquilo... - Quis sim. - Quis, mas não por isso, quis porque eu...eu amo tanto você, Mulder...e você parecia tão incapaz de me amar assim também. Quis porque estava doendo tanto, estava me deixando doente, porque eu nunca seria a primeira na sua vida....Eu estou tão cansada de não ser a primeira, Mulder. Tão cansada. - Mas você é. Você é. A primeira. A única. Não existe ninguém mais. Mesmo que as vezes não pareça, mesmo que as vezes eu te magoe, nunca vai mudar. Afastaram-se ligeiramente. A interação entre seus corpos ainda tão forte que podiam sentir seus elétrons correndo da pele de um para o outro. As mãos dele seguraram em concha a face de Scully. - Uma vez eu disse que te amava. Era verdade, a maior de todas. Te disse que se você desistisse, eu o faria também. Que você era a minha amiga e me mostrou a verdade. Que era meu alicerce, e me manteve honesto. Eu pensei que talvez fosse o suficiente para te fazer ver, que eu não sou nada absolutamente sem você por perto. Mas não foi, e eu vejo isso agora, não foi talvez porque eu não quisesse. Sempre fomos tão bons em deixar tudo subtendido. Mas vou falar agora...Quer que eu diga agora? As lagrimas corriam em fila indiana pela pele pálida dela. Uma languidez emocionada obstruindo suas entranhas. Seus olhos gritaram SIM, mas ela sentiu necessidade de dizer. - Por favor. - Eu estou apaixonado por você. Uma lágrima prima saltou suave dos olhos azuis e ele sorriu. Um sorriso tão lindo e aliviado que Scully achou que pudesse morrer. - É bom dizer isso. - É bom ouvir isso. - Eu não sou só louco, Scully...sou louco por você. Por mais idiota que isso pareça. - Não parece idiota. - Me perdoe por te magoar. - Só se você me perdoar também. - Só se você disser que me ama. - Não. Os olhos dele abriram-se comicamente. - Não o que? - Não vou dizer nada. Joguinhos? - Por que? Ela ficou muito séria. Fechou os olhos. Aproximou seus lábios tão devagar que a respiração dele parou, imóvel, até senti-los nos seus. Eram um caricia tão suave que ele foi simplesmente incapaz de entender como fez seu corpo tremer tanto. Entreabriu-os devagar, aconchegando seus corpos um nos outros, sentindo seu gosto. Sentindo- se. Achou que não fosse mais capaz de deixa-la. - Eu te amo tanto, Mulder, que tenho medo que se disser, tudo acabe. - Não vai acabar. Só me beije assim de novo. ............................ game over..........................