Título: Cruel Demais Resumo: Um assalto a uma loja de conveniência. Scully e Mulder são feitos reféns por um psicopata, num confronto que pode mudar suas vidas. OS PERSONAGENS DESTA Fic PERTENCEM A SEUS CRIADORES. AUTORA: Graça DATA: 16-03-2001 AGRADECIMENTOS ESPECIALÍSSIMOS: A Bellefleur X e a sua extraordinária capacidade e principalmente paciência de Betar as minhas, ela merece um prêmio especial por isso, eu sugeriria que fosse criada uma nova categoria no desafio que premiasse também os betadores. E a toda poderosa Sky que me ajudou em uma hora supper confusa e me tirou do limbo, e pois ordem na casa na hora certa. Elas com certeza já estão com lugar supper garantido no céu, na Academia de Letras das Escritoras Celestes, obrigada a ambas pela força. Vocês são o MAXIMO !!!!!! CATEGORIA: Meio Shipper SPOILER WARNING: Contém informações que serão reveladas em Within. TIMELINE: Em algum ponto da sétima temporada, provavelmente antes de all things. Cruel Demais Bar do Harry – Washington, DC 10:02 p.m. Mulder está sentado sozinho numa das mesas, tomando sua terceira dose de tequila. Seus olhos ardem de tanto preencher relatórios, formulários, solicitações, burocracias idiotas. Havia perdido metade do seu dia com aquilo. Está cansado. Mas não tão cansado que queira ir para casa. Não, certamente seu apartamento é o último lugar do mundo onde gostaria de estar agora. Sente-se vazio, só. A desordem de seu apartamento apenas acentuaria essa solidão. Queria ter alguém com quer conversar. Uma conversa menos impessoal do que a que travara com o barman minutos atrás. Queria conversar com Scully. Poderia ligar para ela, mas já é tarde. Ela saíra mais cedo aquele dia. Tinha olheiras profundas. "Enxaqueca", alegara. Não, melhor não acordá- la. Poderia ir ao QG dos Pistoleiros. Jogariam pôquer ou um vídeo-game qualquer até tarde. Tomariam cervejas e falariam de mulheres, beisebol, contariam vantagem ou qualquer dessas baboseiras sobre as quais os homens conversam quando se juntam. Não, isso também não lhe serve nesse momento. Suspira. Nunca em sua vida sentira uma necessidade tão grande de conversar com alguém, de partilhar de sua ansiedade, de sua angústia. Com alguém em particular. Com Scully, sua mais leal amiga. Quiçá a única. Em sua cabeça, remói os resultados dos exames médicos aos quais havia se submetido na semana anterior. Gostaria de discuti-los com ela. A frieza científica dela com certeza traria suas dúvidas de volta a um plano racional e as dissecaria, fibra por fibra, até convertê-las em um amontoado seguro de dados e estatísticas médicas que teriam o mágico poder de dissolver-lhe as angústias. Mas contar a ela sobre esses resultados, talvez só viesse a piorar ainda mais a situação em que ele se encontra. Há coisas que devem ser ditas e coisas que devem ser caladas. O mais difícil para ele sempre foi decidir quais se encaixam em cada categoria. Esses exames certamente fazem parte da segunda. Não, definitivamente, não pode contar a ela! "Posso estar sendo cruel demais, mas acho um dia ela vai entender porque eu o estou fazendo. Não quero que ela saiba que estou morrendo... Porque eu não vou morrer... Não ainda..." Repentinamente, o barman aumenta o volume da televisão e o arranca dos devaneios. Um assalto a uma loja de conveniências está em andamento. O repórter anuncia que seis pessoas haviam sido baleadas ou mortas, entre elas uma criança de dez anos e sua mãe, além de uma agente do FBI, que sabia-se ser médica. "Agente do FBI, médica." A atenção de Mulder é imediatamente atraída pela TV. Sem perceber, ele se levanta de seu lugar e se aproxima do aparelho, procurando ver e ouvir melhor o noticiário. O repórter continua sua transmissão, dizendo que o homem na loja mantém cerca de dez pessoas ainda como reféns, incluindo a menina que está baleada e que provavelmente precisa de cuidados médicos. A imagem mostra a área que já está cercada e isolada. Há tantos policiais que só se vêem as luzes dos veículos da polícia e os furgões da imprensa. As pessoas do bar permanecem com os olhos colados à televisão. Pode-se sentir a tensão no ar. O repórter anuncia, então, que mais um policial havia sido baleado, na tentativa de dominar o suspeito. Os nomes das vítimas não são, em momento algum, mencionados. "Agente do FBI, médica", a frase ainda martela a cabeça de Mulder quando ele repara que, no canto congelado da imagem mostrada na TV, há uma mulher ruiva, de costas, tentando fazer uma ligação pelo celular. Os cabelos estão cortados da mesma forma que os de Scully, a estatura é aparentemente a mesma, o modo de se vestir, também. A hora gravada na parte inferior da foto é de cerca de trinta minutos antes. Um calafrio percorre o corpo de Fox Mulder. Ele volta à cadeira onde estava sentado. Nervosamente, enfia a mão nos bolsos do patetó pendurado nas costas da cadeira, procurando desajeitado por seu telefone. Quando o encontra, nota que houve uma ligação não atendida de Scully quase que na mesma hora registrada pela imagem da TV. Sem pensar duas vezes, tira algum dinheiro do bolso e o joga em cima da mesa, pegando casaco. Deixa o bar quase correndo, sem se importar com os olhares curiosos do barman e dos poucos frequentadores ainda no local. Suas mãos estão trêmulas. Deixa as chaves caírem no chão, na tentativa de abrir a porta do automóvel. Ele se recusa a acreditar no que está pensando. "Agente do FBI, médica. Pode ser ela... Morta. Morta... Não. Não. Não pode, não é." A simples possibilidade de que isto seja verdade atormenta os pensamentos de Mulder, enquanto ele dirige em alta velocidade para o local do crime. Freneticamente, ele tenta ligar para a casa de Scully, mas é atendido pela secretária eletrônica. Tenta ligar outra vez, desta vez para seu celular. "O número chamado está desligado ou..." diz a voz impessoal do outro lado. Mulder sente ímpetos de arremessar o telefone pela janela do carro. Respira fundo. Precisa se acalmar. Procura por notícias no rádio. Nada, apenas música country ou a indefectível música de elevador. Consultório sentimental: "Por favor, dra. Lovelace, o que devo fazer para que meu marido repare em mim?" Locutores imbecis dizendo abobrinhas pelas ondas do rádio. "Tenha calma", ordena a si mesmo. Tenta ligar para Skinner, conseguir qualquer informação que seja. "O número chamado...", maldita voz! O retorno é sempre o mesmo grandecíssimo nada, zero, vazio. Droga! A cidade passa veloz pelas janelas de seu automóvel, mas ele não a vê. Não vê os casais de mãos dadas andando pelas calçadas. Não vê as prostitutas procurando fregueses nas esquinas, os maltrapilhos procurando um canto para se abrigarem do frio da noite. Mal percebe os sinais luminosos pelo caminho. Milhões de coisas passam por sua cabeça... Todas relacionadas a Dana Scully. Kwick Mart – Washington, DC 10:56 p.m. Mulder larga o carro de qualquer maneira em cima da calçada. Tomar uma multa por estacionamento irregular não o preocupa nem um pouco naquele momento. Segue em frente, em direção ao local onde estão alguns policiais. Ao chegar ao bloqueio, identifica-se como agente do FBI e sua passagem é instantaneamente liberada. O ambiente é tenso ao redor da loja de conveniências. Muitos policiais e agentes usando o colete negro com a identificação do FBI perambulam atarefados. O ar está pesado, carregado pela iminência de uma tempestade que se aproxima. Fox Mulder avança atormentado por entre as viaturas policiais, quando avista Walter Skinner. Por um momento, pára e parece não acreditar no que vê. Será verdade? Respira fundo e recomeça a andar em direção a ele. Skinner o vê e caminha em sua direção. - Agente Mulder, o quê...? - Onde ela está? - interrompe Mulder, quase gritando, antes mesmo que Skinner possa completar a frase. – Calma, agente Mulder, ela está viva! – tenta acalmá-lo. Mulder ouve, os maxilares retesados, delineando-se esbranquiçados sob a pele. - Russel, a agente que foi baleada, entrou antes dela junto com outro agente, Hollister, para cuidar da garotinha ferida. Hollister puxou a arma numa tentativa de render o bandido, mas ele foi mais rápido e atirou nos dois... – E Scully? – pergunta Mulder ainda tenso. – Chamamos a agente Scully porque precisávamos de outra agente médica, por exigência do bandido. Ele é um velho conhecido do FBI, particularmente do setor de crimes violentos. Fugiu da ala psiquiátrica do hospital penitenciário de segurança máxima a alguns dias. É muito frio, mata por prazer, não tem dó nem piedade. Só escapou do corredor da morte, porque seus advogados conseguiram convencer os jurados sobre o seu estado mental. Já matou dois agentes e um policial e está mantendo cerca de dez pessoas como reféns lá dentro, inclusive a agente Scully. Os lábios de Mulder estão contraídos em uma linha estreita. Os olhos voam rapidamente, num vai-vem contínuo, entre Skinner e o prédio baixo onde funciona o mercado. Um raio corta o céu escuro, seguido apenas uns poucos segundos depois pelo rugido de um trovão. A tempestade está mais próxima. - O prédio está cercado. – continua Skinner. - Estamos traçando um plano para invadi-lo. Há uma câmera escondida na maleta da agente Scully, mas não estamos conseguindo nenhum sinal até agora. O homem é completamente louco. Ele atira em alguém sempre que tentamos alguma coisa. – Skinner pára de falar por um instante, como se procurasse as palavras. - É difícil de admitir, mas estamos meio... perdidos. Temos atiradores de elite por toda a rua, mas ele sempre aparece com um escudo. Ele conhece bem as nossas táticas. - Senhor, como pôde deixar Scully entrar lá? – interrompe Mulder, mais uma vez. Sua voz é dura, mas vacila ao pronunciar o nome da parceira. – Ela sabia dos riscos... Me parece que a garotinha baleada é sua vizinha e que sua mãe e irmão estão entre os outros possíveis mortos lá dentro... Scully quis entrar de qualquer maneira. Você a conhece melhor do que ninguém! Nada consegue impedi-la quando ela realmente quer algo. – acrescenta Skinner com um gesto desconsolado. – Eu quero entrar lá, senhor. Temos que dar um jeito. – Impossível, Mulder. – Skinner é taxativo. – Senhor, conseguimos uma imagem! – chama um policial. Skinner e Mulder caminham rapidamente para frente do monitor e a imagem que aparece é a de Scully debruçada sobre a menina, prestando atendimento de emergência e gesticulando algo para alguém que está fora do alcance da câmera. Provavelmente, para o bandido. Em um dos cantos da tela, pode-se ver os corpos estendidos de dois homens sobre uma poça escura, de sangue, talvez. Há mais duas ou três pessoas encolhidas, assustadas, mais atrás, encostadas a uma parede. Uma mulher idosa chora. Scully move os lábios no monitor, falando com alguém. Na imaginação de Mulder, ela fala com ele. Com esforço, ele consegue ler os lábios da parceira. - Temos que tirá-la daqui. Ela vai morrer, se não o fizermos. – dizem os lábios de Scully. – Venha me tirar daqui, Mulder. – acrescenta a imaginação de Mulder. Cego de desespero e contrariando as ordens, Mulder afasta-se de Skinner e toma o megafone das mãos de um policial. - Qual é o nome dele? - pergunta ao policial do qual tomara o megafone, meneando a cabeça em direção ao mercado. – Jonathan Trust. - Trust, aqui quem fala é o agente Fox Mulder, do FBI. – ele diz pelo megafone. Mulder pode sentir o olhar furioso de Skinner queimando em sua nuca. - Precisamos tirar essa menina ferida daí. Não torne a sua situação pior do que está. Ajude-nos e nós o ajudaremos em troca. Compreendo que você não tem nada a perder, que está no comando agora. – diz em voz conciliadora. - Tudo o que queremos é tirar a garotinha daí. Alguns minutos se passam num tenso silêncio. Repentinamente, o barulho de coisas caindo dentro da loja explode como um trovão nos tímpanos de Mulder. Seu coração dispara. "O que foi que eu fiz?" pensa assustado. Finalmente, uma mulher sai correndo da loja, com um papel nas mãos. Quando chega até os policiais, Mulder a reconhece como a senhora que chorava na imagem do monitor. Respirando com dificuldade e tremendo muito, ela entrega o papel nas mãos do agente e desmaia em seguida, sendo prontamente socorrida por paramédicos. O papel é, na verdade, um bilhete escrito em um pedaço de papel de embrulho. Nele, Mulder reconhece imediatamente a caligrafia firme e miúda de Scully: "Que seja. A garota sai. Mas quero que você, bravo agente do FBI, venha buscá-la sozinho ou mais uma dessas desagradáveis pessoas aqui dentro morre." Está feito. Agora é com ele, Fox Mulder. Skinner pega o bilhete de suas mãos e o lê. - Eu não autorizo, Mulder. – diz Skinner, quando o agente lhe entrega seu paletó e o coldre com sua arma. Ele simplesmente ignora o superior e começa a andar com as mãos no alto da cabeça em direção à porta da loja, sob protestos de Skinner e do tenente da SWAT. Dane-se a autoridade. Dane-se a razão. Scully está lá dentro e precisa dele. Ele anda com passos firmes, nem muito lentos, nem muito rápidos. Nada que possa assustar o homem armado dentro do mercado. Cada passo que dá pode ser o último. Como disse Skinner, o homem é louco, mas Mulder não se importa. Nem ao menos pensa a respeito. Apenas segue em frente, decidido a encarar aquela parada. Pode ouvir as batidas de seu coração ecoando surdas em seus ouvidos. Não é exatamente medo o que sente. Talvez seja a antecipação do encontro, a excitação característica de quando se está iniciando a primeira subida na maior montanha-russa de nossas vidas. Ele chega à loja e a porta se abre, imediatamente. Ao entrar, Mulder não vê os reféns. Apenas um monte de coisas espalhadas pelo chão. Há latas e garrafas por toda parte, vidros quebrados, diversas prateleiras caídas. Como se um terremoto houvesse ocorrido ali. As lâmpadas da parte dianteira da loja foram quebradas. O caos está mergulhado na penumbra. – Por aqui... – chama uma voz masculina vinda das sombras. Ele continua a caminhar para o fundo da loja, seguindo a voz, até que sente o cano frio de uma arma encostado em suas costas. Pára, por um breve instante, enquanto mãos hábeis apalpam sua cintura e suas pernas em busca de armas escondidas. - Estou limpo. Como você pediu. – ele diz sem entonação. – Ali atrás. – ordena o cano da pistola em suas costas. Mulder se vira na direção indicada e vê Scully ajoelhada, ainda lutando para salvar a vida da garotinha. A menina tem uma enorme ferida no abdômen. Há sangue por todo lado. As mãos de Scully estão cobertas de sangue, sua blusa branca exibe uma grande mancha escura. Ela levanta a cabeça para ele. A pele alva está respingada pelo sangue da menina. Os dois se fitam por um momento, um olhar que mistura alívio e medo. "O que você está fazendo aqui?", ele parece ler nos olhos de Scully. "Eu posso resolver isso sozinha", acrescenta o profundo azul de seu olhar. Scully e sua maldita independência. Por que ela não pode deixar transparecer que precisa dele, de vez em quando? Mulder segue em direção a Scully e à menina ferida. Ajoelha- se ao lado da garotinha e pergunta a Trust se pode levá-la. – Não. Não gostei de você e, por isso, você fica. – responde com sarcarmo o homem. – Você aí. Venha cá. – chama um homem de cerca de sessenta anos que está encolhido no fundo do cômodo. O pobre homem levanta-se com as pernas bambas e caminha com dificuldade até Trust que ordena que ele leve a menina para fora. Um garoto louro aparentando cerca de dezessete anos e vestindo uma camiseta com o logotipo da loja de conveniências que, até então, estava sentado aparvalhado nos fundos, junto com os outros reféns, se levanta de sopetão, vindo em direção ao grupo. - Deixa que eu levo! – ele grita histérico, o rosto vermelho de nervosismo. – O velho mal consegue andar. Vai acabar deixando a guria cair no chão. Sem piscar, Trust ergue a escopeta que carrega na mão esquerda na direção do garoto e atira à queima-roupa. O impacto projeta o corpo do rapaz para trás, o fazendo chocar-se contra uma das poucas prateleiras ainda de pé dentro da loja. A prateleira cai com um estrondo. O corpo sobre ela estremece por alguns instantes, uma mão vacilante tentando erguer-se no ar, até que, com um novo tremor, mais intenso, a mão desaba e os movimentos do balconista cessam com um gemido gutural. Um trovão retumba lá fora. O homem idoso de pernas bambas treme ainda mais do antes. Mulder duvida que possa suportar o peso da menina e conduzi-la até as ambulâncias lá fora. Ainda assim, tentando incutir um pouco de calma aos presentes, toma a criança nos braços e a deposita com cuidado nos braços do homem que deixa a loja com passos trôpegos em direção aos carros de polícia, sob os olhares atentos de Mulder e Scully. Respirações em suspenso, os agentes acompanham com o olhar a difícil caminhada dos dois reféns recém libertos até a segurança dos homens do lado de fora. Sem dar tempo para que Mulder e Scully troquem uma palavra sequer, Jonathan Trust ordena que entrem no frigorífico da loja e os tranca lá dentro. O frigorífico é um lugar apertado de dois por dois metros, com prateleiras atulhadas de mercadorias. A pouca iluminação provém de uma lâmpada fraca e amarelada presa no teto. A pesada porta de metal não tem fechadura pelo lado de dentro. Como se os hambúrgueres congelados fossem algum dia tentar escapar... Faz frio, muito frio. As respirações começam a se condensar. Mulder dá um murro na porta. Mas nada consegue a não ser uma violenta dor na mão que ele se esforça por não demonstrar. Scully observa tudo parada no fundo do compartimento. A expressão de seu semblante é indecifrável. Nenhuma palavra é dita entre eles durante, pelo menos, um minuto. Então, Mulder quebra o silêncio. – Ficaremos sem ar, em aproximadamente uma hora, Scully. Isso se não morremos de hipotermia antes. – ele diz, tentando parecer tranqüilo. Scully interrompe. - Não, Mulder. Não será por falta de ar que morreremos. Existe uma brecha no canto da porta, ali embaixo. – aponta. - A vedação não está perfeita. Já quanto à hipotermia... – acrescenta, esfregando os braços para se aquecer. Ele não responde. Ela não diz mais nada. Ambos limitam-se a procurar um jeito de sair dali, em silêncio. Examinam a porta, examinam cada canto do compartimento onde funciona o frigorífico, em busca de uma saída. Entretanto, parece não haver solução a não ser esperar que alguém abra a porta e os liberte do cativeiro gelado. Finalmente, desistem de procurar e sentam-se, cada um encostado em uma parede do compartimento. Distantes. Não se falam, não se fitam. Cada um imerso em seus próprios pensamentos, ignorando ou fingindo ignorar o mundo em volta. Os dois parecem não querer falar sobre o que acabara de acontecer, sobre o maníaco lá fora, sobre as mortes, sobre o que levou os dois a chegarem àquela situação. É engraçado como ultimamente eles conseguem continuar sozinhos mesmo estando tão próximos. Tão próximos como nunca haviam sido. Ainda assim, distantes anos-luz um do outro. Quando estão trabalhando, funcionam em perfeita sincronia, qual o mecanismo de um relógio suíço. Tique, taque, cada engrenagem perfeitamente ajustada, movendo-se com absoluta precisão. Pensamentos, movimentos, respirações em harmonia, como num balé. Perfeito, longamente ensaiado. Quando se trata de vida pessoal, no entanto, quando estão apenas um com o outro, as coisas mudam. Como se a música saísse de compasso. Não há harmonia, não há sincronismo. Apenas um amontoado de palavras e ações equivocadas. Um oceano inteiro os separa. Um muro alto os divide. É preciso transpor esse oceano, derrubar o muro. Mas são muitos os anos de auto-negação. São muitos os anos de renúncia. Não é fácil. "Sinto frio. Sinto-me frio por dentro. Vazio. Sozinho. Bastaria um gesto. Bastariam três palavras. Mas do jeito que as coisas estão, ela provavelmente me repeliria. Me excluiria de sua vida como sempre fez. Talvez definitivamente. "Quando penso no passado, em tudo o que disse, em tudo o que fiz... e no que não disse ou fiz, também, percebo o quanto devo tê-la feito sofrer. Mas, ainda assim, a despeito de tudo, ela sempre esteve aqui, ao meu lado. Sempre me apoiando, me impulsionando a seguir em frente, a continuar lutando, enfrentando meus fantasmas. Tudo o que tenho, tudo o que sou, de tudo eu abriria mão por um único sorriso dela, por um olhar. Por sua aprovação." Mulder tem os olhos fechados, imerso em pensamentos, quando a parceira o olha de relance. Sua expressão é de desamparo, quase que de tristeza. Uma expressão que ele não exibe com muito freqüência, sempre escondido que está por detrás de seu ar auto-suficiente e sarcástico. Há uma ruguinha em sua testa, seu cabelo está em desalinho. Um calafrio percorre o corpo de Scully. "Meu Deus! O que foi que eu fiz? Sabia que ele viria. Sabia que isso poderia acontecer, mas, mesmo assim, tentei falar com ele. Ainda não estou pronta para lidar com isso. Pelo menos, não com o que eu estou sentindo nesse momento. "Meu Deus! Pessoas morreram ou estão morrendo e eu aqui, questionando meus sentimentos por ele. Sentindo-me culpada apenas por tê- lo envolvido nessa situação. "Mas, de certa forma, estou aliviada por ele estar aqui, comigo. "Como posso pensar dessa forma? E por que estou com frio? Com medo? Preciso pedir-lhe perdão por envolvê-lo e por me envolver com ele. Imaginar que posso perdê-lo me dá mais calafrios do que esta maldita geladeira. "Por que não conseguimos, ou melhor, por que EU não consigo expressar totalmente o que sinto por ele? O que sentimos um pelo outro? "Tenho medo de não conseguir assumir a responsabilidade de levar adiante esse relacionamento, para um nível superior à amizade. E se o fizer e acabar por perder tudo? "Não suporto mais essa situação. Não quero mais ter medo de expressar fisicamente algo que já ultrapassou todos os limites da intimidade emocional. "Droga! Por que é tão difícil dizer EU TE AMO? "Espere, Dana! Você disse! Você sabe o que sente. Sim, você ama esse homem e não somente como o amigo que ele tem se mostrado. Acredite, ele é mais do que um amigo. Somos adultos, mas até quando poderemos levar adiante essa situação? Posso sentir que ele sente o mesmo que eu, preciso acreditar nisso e pedir-lhe perdão." - Mulder... – ela hesita. - Eu... eu sinto muito por ter envolvido você nesta situação. - Ah, Scully, pare com isso. Você não fez nada. Quando vi a sua foto pela TV e soube que uma agente tinha morrido... Quase perdi a noção de tudo. – cala-se por um instante, sua expressão angustiada. Luta para achar as palavras certas, para não estragar tudo mais uma vez. - De repente tudo deixou de ter importância, eu me senti um inútil, um fracassado. A idéia de ter perdido você... – hesita outra vez, umedecendo os lábios com a língua, esforçando-se para prosseguir, sem coragem para encará-la. – Você. A única pessoa que realmente tem importância na minha vida. Pronto, ele disse. Quer olhar para ela, avaliar sua reação, mas tem medo. Imagina a fúria, o desprezo no olhar da parceira. - Mulder, não... – ela começa com voz trêmula. "Ela hesita!" ele pensa triunfante. "Agora, é tudo ou nada." Levanta o olhar e a encara fixamente. Olhos nos olhos. - Sabe? Não restou mais ninguém, além de você, Scully... Não sei o que seria de mim sem você, realmente não sei. Já não consigo mais imaginar minha vida sem ter você ao meu lado. – os olhos dela brilham, embora suas feições não demonstrem seus sentimentos. - Por isso, pare de sentir muito por esta situação. Você não me obrigou a fazer nada que eu não quisesse. – ele acrescenta com firmeza. - Chegamos a um ponto de nossas vidas em que... - Mulder! – Scully interrompe. Seu rosto é uma máscara indecifrável. Apenas seu olhar permite entrever o turbilhão de emoções que se debatem dentro dela. - Não é hora, nem lugar para este tipo de conversa. Vamos deixar para quando tudo isso acabar e... Antes que ela termine a frase, Mulder toma o rosto da parceira em suas mãos e inclina-se sobre ela. E seus lábios se tocam. Não como das outras vezes. É um beijo daqueles de tirar o fôlego, profundo, a tanto tempo reprimido. É ardente, faz esquecer que a temperatura a sua volta está abaixo de zero. Ambos são consumidos por uma chama interior tão intensa que, por um instante, não sentem mais frio. Mas o momento é breve. Explodem estampidos de tiros e gritos do lado de fora do frigorífico, já não mais tão gélido assim. As bocas se separam. Um tiro atravessa a porta e atinge o braço de Mulder. Preocupada, Scully tenta ajudá- lo, mas outro e mais outro tiro atravessam a porta. Num impulso, Mulder atira-se sobre a parceira, protegendo o corpo frágil com o seu, sem se importar em ser ou não atingido novamente. O tiroteio persiste por mais alguns minutos. Os agentes imóveis no chão frio do frigorífico aguardam seu término. E, então, o silêncio toma conta do ambiente. Mulder ergue o corpo vacilante. - Você está bem? – indaga a Scully que se ajeita, tentando alongar os músculos dos braços e das costas contraídos pela tensão e pela posição incômoda. Ela apenas acena afirmativamente com a cabeça. Percebe o sangue que sai do ferimento no braço do parceiro e tinge sua camisa cinzenta com uma enorme mancha pardacenta. "Oh, Deus! Ele está ferido." Estende as mãos, alcançando o cós das calças de Mulder. Ele reage, tentando afastar-se, assustado. - Calma, Mulder. Quero o seu cinto... Para conter a hemorragia... – ela se justifica. Seu semblante espelha a preocupação que sente. - Nós ainda não acabamos o assunto pendente... – diz Mulder com voz rouca, tomando-lhe novamente o queixo anguloso entre as mãos, a dor provocada pelo ferimento esquecida. Os olhares se encontram, mais uma vez. Nos profundos olhos azuis da mulher, Mulder parece ler finalmente a mensagem pela qual vem esperando. Ele inclina a cabeça, mais uma vez. Seus lábios roçam as pálpebras de Scully cujos olhos se fecham e o queixo se ergue, os lábios vermelhos entreabertos na antecipação do beijo. Um momento mágico, por uns poucos segundos, ela se oferece a ele, ele se abre para ela. Os lábios se tocam outra vez, suavemente, mal se encostando. A maçaneta é forçada. A porta se abre com estardalhaço. Parado no portal, está um homem de cabelos semi-longos e grisalhos. A expressão de surfista que perdeu a maior onda de sua vida não combina com o paletó negro e o colete do FBI que ostenta. – Agente Carter, FBI. Tudo bem com vocês? – pergunta, corando ao ver o posicionamento dos dois agentes no interior do frigorífico. Mulder e Scully afastam-se, embaraçados, assentindo com a cabeça. De onde estão, podem entrever uma parte do exterior. O cenário lá fora é caótico. Mais dois policiais jazem tombados em poças de sangue ao lado do corpo do balconista. Próximo à porta do frigorífico, está Jonathan Trust que exibe um enorme ferimento no tórax. A escopeta com que ameaçava os reféns é chutada por um policial para longe do corpo. No interior do frigorífico, os dois agentes movimentam-se para se levantar. Mulder olha novamente para o lado de fora. Há algo errado naquela cena, algo faltando. Repentinamente Trust, que todos acreditavam morto, tira a pistola escondida debaixo da camisa e dispara a queima- roupa, segundos antes de ser fuzilado pelos policiais e agentes lá fora. O tiro de Trust atinge em cheio a cabeça do agente Carter, que tomba, espalhando sangue e miolos sobre Mulder e Scully. Apartamento de Mulder – Washington, DC 02:15 a.m. Scully cambaleia pelo corredor, com Mulder apoiado em seus ombros. O esforço é evidente na expressão da mulher. Seu parceiro, no entanto, tem um ar levemente cínico no rosto, parecendo gostar da situação. - Pronto, Mulder, chegamos! - suspira Scully, pescando no bolso a chave do apartamento e abrindo a porta com dificuldade. Mulder continua apoiado nela, como se estivesse completamente grogue pelas drogas que lhe aplicaram no hospital. - Mulder... Pare com isso! Foram só uns pontinhos. – a ruiva começa a dar sinais de irritação. - E a anestesia e, muito menos, a anti- tetânica não seriam suficientes para te deixar assim tão doidão como você quer parecer... Nem te deram morfina, que eu vi! Mulder começa a rir baixinho, jogando ainda mais seu peso sobre o corpo da parceira que se inclina contra o batente da porta com a sobrecarga. Concentrando suas forças, ela consegue empurrá-lo de modo a pô-lo de pé. Ele balança de um lado para o outro, querendo cair, esperando que ela lhe ofereça ajuda outra vez. Mas Scully continua impassível, parada na porta. - Vá! Entre, Mulder! – ela acrescenta, dando-lhe um leve empurrãozinho nas costas em direção ao interior do apartamento. Ele dá dois ou três passos cambaleantes para dentro, na esperança que ela o siga. – Nos vemos amanhã. – ela acrescenta, dando as costas e fechando a porta atrás de si. O aparente torpor de Mulder se desfaz "milagrosamente". De um salto, ele alcança a porta e salta para o corredor do prédio, no encalço da parceira. - Scully, onde você pensa que vai? – pergunta, segurando-a pelo pulso. - Para onde? – ela não se volta. Apenas olha para o pulso envolvido pelos dedos longos de Mulder com desagrado. Como se percebesse a intensidade do olhar, Mulder solta-lhe o braço. - Para minha casa, Mulder. Descansar! Boa noite. - Não! Ainda não terminamos. – ele é incisivo. - Precisamos conversar sobre o que houve conosco... hoje... Não fuja... Não de novo... – ele hesita. Quando volta a falar, seu tom é mais suave, há uma súplica velada em suas palavras, em seu olhar. - Por favor. Se você quiser que as coisas continuem do jeito como estão, por mim tudo bem... Mas você não pode simplesmente negar o que aconteceu. Lentamente, Scully se volta em direção a ele e o encara, por alguns instantes. Ele indica com a cabeça a porta aberta de seu apartamento e se dirige para lá. Ela o segue, mas não entra. Estaca diante da porta aberta e ali permanece. Mulder está sentado no sofá. Parece feliz, a despeito do provável incômodo causado pelo braço ferido. A despeito da carnificina que presenciaram naquela noite. Ostenta um ar bobo de menino feliz. - Sente-se aqui, Scully. Por favor! – suplica, indicando o lugar ao seu lado no sofá. – Vamos apenas conversar um pouco, como dois adultos... Mais nada, eu prometo. – seu olhar entristece subitamente. - Apenas não podemos mais continuar fingindo que nada aconteceu! Ela suspira. No fundo, ela sabe, ele tem razão. Simplesmente não é mais possível persistirem naquele joguinho de faz-de-conta, fingindo que não sentem o que sentem, não disseram o que disseram, não aconteceram as coisas que aconteceram. É chegado o momento de brincarem de adultos e encararem de uma vez os fatos. O que quer que isso signifique... - Está bem, Mulder. - Scully concorda com um suspiro. Caminha até o sofá e se senta, no canto oposto. Apesar do sofá estreito, a distância imposta consciente ou inconscientemente entre eles, naquele momento, parece ser de muitos quilômetros. Tantas vezes já haviam estado sentados juntos naquele mesmo sofá, confrontando as mais diversas situações. Porém nunca, em nenhuma delas, seu estômago doía tanto quando agora. Mulder, no entanto, volta a exibir o ar feliz, parece estar adorando a situação. Ficam em silêncio, sem se olhar. Mulder parece procurar as palavras corretas para quebrar o gelo. - Bem, Scully... O que vamos fazer agora? Você parece sentir o mesmo que eu, não negue. Ele olha de relance para ela, mas a expressão da mulher é uma máscara impenetrável. Ele prossegue. – Então, por que ao invés de ficarmos dissecando o que aconteceu, não admitimos logo que o que sentimos um pelo outro vai além da amizade? Não quero e não vou mais esconder o que sinto por você. Já chega! Não sei o que vai acontecer daqui para frente, mas não me importo. Não sei como vamos levar isso adiante, mas vou pensar numa maneira. – o tom é de desabafo. - Não quero mais ficar pensando no que pode acontecer amanhã. Embora ainda ache que eu não mereço você e que você seja a mulher da minha vida e que eu não posso mais viver sem você, e blá-blá- blá, sei que você não pensa o mesmo de mim. Afinal, sou só um cara solitário, um esquisito, não é? – ele olha de soslaio, mas a maldita máscara ainda está em seu lugar. - Tudo bem para mim se você não quiser levar o nosso relacionamento para um outro nível. Mas é preciso que façamos alguma coisa. Já demoramos muito tomar essa decisão, você não acha? Eu também tenho medo. Nossa! Como eu tenho medo de perder você... - fala, como que para si mesmo. E acrescenta, - Sabe, acho que é o único medo que me restou na vida... Só não sei se vou agüentar, ficar perto de você sem... você sabe... e.... Mulder fala sem parar. Fala consigo mesmo, alto, para que Scully ouça. Ela tem que ouvi-lo. Mas lá está ela, sentada, muda, impassível como se não ouvisse uma palavra sequer. Apesar da frieza de sua expressão, uma tormenta se processa no peito, na cabeça, no coração de Scully. Um turbilhão de sentimentos represados, negados, soterrados por anos de auto-controle e negação esperando apenas por um momento como aquele para vir à tona. Finalmente, ela consegue contornar o nó na garganta e interromper o discurso de Mulder. - Mulder, por favor, me deixe falar. – sua voz sai baixa da garganta. Ele se interrompe e vira-se para olhá-la, em suspense. Ela fita um ponto qualquer na parede, como se estivesse vendo através dela. Seu lábio inferior estremece sutilmente quando ela começa a falar. - Já me cansei desta situação também. Estaria mentindo se dissesse a você que nunca passou pela minha cabeça ter algo mais com você. – seus olhos se fecham por um instante, as longas pestanas encondendo momentaneamente o que os olhos poderiam estar revelando. - Só que... não consigo. Tenho medo... medo de perder você também. – Scully suspira. - Você viu o que aconteceu hoje, naquela loja. Nos arriscamos demais um pelo outro. Eu... não sei se daria certo... Apesar de curto, pelo tanto que já andamos todos esses anos, esse passo pode mudar muito nossas vidas. Não sei se é certo irmos adiante em nossa relação... Penso que... que está bom do jeito que está, Mulder. Você tem que admitir que nossas vidas podem mudar... para pior. Se descobrissem, no FBI, que temos um relacionamento, iriam nos separar, teríamos que trabalhar separados... Eu simplesmente não sei se iria suportar não saber onde você está ou o que você está fazendo, que alienígena você está procurando... Sei lá, Mulder! Como está, pelo menos, estamos juntos nessa... Mulder tenta interromper. Scully percebe e não permite. Seus olhos continuam fixos na parede. - Deixe-me terminar, por favor. Se é que vou conseguir... – ela expira com força todo o ar dos pulmões, como se isso vá permitir-lhe colocar para fora o que a incomoda. - Vamos simplesmente ser racionais, Mulder. Sobre o que aconteceu naquela geladeira... Estávamos em perigo, com medo. Já passamos por situações similares antes. O tipo de vida que levamos não é exatamente comum. Trabalhamos juntos a muito tempo, somos amigos, estamos sozinhos... Ou seja, as condições nos conduziram a essa situação. Não havia muito como evitá-la no desenrolar dos acontecimentos. Mas agora, com tudo encerrado, analisando os fatos friamente, acho que podemos superar isso, você não acha? A expressão de Mulder muda subitamente. O ar de contentamento de desfaz. Seu semblante assume um ar indignado, quase que furioso com a demasiada racionalidade da parceira. Ele acreditava já estar acostumado com a sempre presente necessidade de Scully por explicações lógicas e racionais para todas as coisas. Mas não estava preparado para esta. Desta vez, a coisa é diferente, Scully está se excedendo. Mulder não pode acreditar que é aquilo que ela realmente quer. Ela não pode estar querendo parar por ali, não pode. Ele não pode deixar que isso acabe dessa forma, sem acabar. Então, engole em seco e vira-se para ela. Segura o queixo da mulher com uma das mãos, a obrigando a voltar-se para ele. Seus olhos enfim se encontram. É o que ele desejava. Então, pergunta de sopetão. - Você me ama, Scully? – os olhos azuis da parceira se desviam velozmente dos seus, indo fixar-se em algum lugar por sobre seus ombros. Mas não foram tão rápidos que pudessem evitar que ele lesse a resposta que tremeluziu dentro deles. - Acho que sim! – ele exclama triunfante. - E também acho, sinceramente, que você me ama da mesma forma como eu te amo. Como parceira, como amiga. Mas agora quero poder te amar também como mulher. Pouco me importa o que o futuro nos reserva. – silencia, observando a fria reação da parceira. Dá de ombros. - Chega, Scully! Não vou aceitar mais. Não vou mais discutir... Ele se levanta com um repelão, caminha até a mesa em frente à janela e pára. A mão direita se contrai como se fosse esmurrar a mesa, mas acaba pousando lentamente, espalmada na superfície atulhada de papéis. - Que seja! Faça como você quiser... – Mulder diz com voz abafada, sem se voltar para a parceira. Seus olhos olham sem ver a chuva forte que lava o vidro da janela. Scully se levanta, sem dizer uma palavra sequer, e, cabisbaixa, encaminha –se para a porta. Seu semblante é tristonho, os olhos sem brilho. Abre a porta em silêncio e sai sem nada dizer, fechando-a atrás de si. O ruído da porta batendo soa como um tiro aos ouvidos de Mulder. Um tiro que atinge em cheio seu coração. "Ela foi embora. Mais uma vez..." Pesadamente, ele anda até o sofá e senta-se. Encara a parede por alguns instantes, na esperança de ver ali o motivo que fez Scully negar tudo. Mais uma vez. Mas a branca parede nada lhe revela deste mistério. Curva- se até acabar por enterrar a face nas mãos pousadas em seu colo. Recusa- se a acreditar na situação. "Ela não pode ter negado seus sentimentos outra vez..." pensa incrédulo. Sua cabeça dá voltas, sem sair do lugar. Não consegue pensar em mais nada, a não ser na sensação de fracasso que o domina por deixar a mulher que ama ir embora. Mais uma vez. "Bem... Ao menos ela já sabe sobre os meus sentimentos." Mulder tenta se consolar com a idéia de que deixou claro, expresso com todas as palavras, o que sente por Scully. "Eu posso morrer... e não me importo com mais nada... Só queria que ela não tivesse atravessado aquela maldita porta..." Minutos se passam sem que ele se dê conta. Discretas batidas na porta o despertam do transe em que se encontra. Vencendo o torpor, levanta-se sem muita pressa, esfrega as mãos pelo rosto e caminha até a porta. Vagamente imaginando o que pode ser agora. Ao abri-la, depara-se, surpreso, com Scully. Seus cabelos e suas roupas estão molhados pela chuva que cai do lado de fora. Os olhos azuis fixam o chão, sua respiração é difícil. Mulder não diz uma palavra, apenas espera. Vagarosamente, ela ergue a cabeça, revelando os olhos rasos d'água. O tempo parece parar por um instante. É como se não existisse mais ninguém no mundo além dos dois. Ambos se fitam, olhos nos olhos, por um longo momento. Scully parece hesitar. Mulder apenas espera. Finalmente, ela fala. - Sinto muito. Eu não queria magoá-lo... – sua voz é baixa, hesitante. - Não sei bem o que dizer... Apenas queria que você soubesse que eu também te amo e... vou tentar não pensar no que pode acontecer daqui para frente... – seus olhos se desviam dos do parceiro por um breve instante, mas voltam a encontrá-los como que atraídos por um ímã. – Sabe... enquanto caminhava por este corredor até o carro... Acho que nunca tremi tanto... – os cantos de sua boca se retorcem, por um segundo, em um sorriso sem graça. - Nunca tive tanto medo em minha vida. Tive medo de não poder voltar atrás naquilo que disse a você... Quando andava sozinha por esse corredor vazio, me dei conta que minha vida seria exatamente igual a ele. Vazia sem você... Percebi que poderia perdê-lo para sempre... Foi como uma luz se acendesse diante de mim... Ela me fez enxergar o quanto eu estava errada em não querer admitir que tenho medo... Na verdade, tenho um medo enorme de perder você, de perder o que conquistamos durante todo esse tempo juntos. Tenho medo de que as coisas mudem... Medo de me expor demais, de ficar vulnerável, sei lá... – ela dá de ombros levemente e sorri novamente o sorriso desconcertado que esteve em seu rosto a um minuto atrás. - Não quero mais pensar nisso agora... Só quero saber se você me perdoa e se podemos recomeçar... De onde paramos... Mulder nada fala. Apenas contempla o rosto da mulher a sua frente por um tempo que parece infinito para Scully. Enfim, ele sorri, seu sorriso de menino. Suavemente, desliza as mãos pelos cabelos ruivos, acaricia os contornos de seu rosto. - Ssshhh... - sussurra no ouvido da parceira. - Não tenho porque te perdoar... Só que não vamos mais conversar, está bem? Nos amamos e isso já basta. Por enquanto... – ele completa, tomando a mulher no colo, a levando para dentro e fechando a porta atrás de si com o pé. Depois disso, os dois viveram felizes e em paz para sempre. Mais tarde, resolveram que iriam juntar seus reinos e decidiram que iriam combater e controlar juntos os monstros que se escondiam debaixo de sua cama: a insegurança e o medo que sentiam em admitir, enfim, o que sentiam um pelo outro... Ao menos, até que o herdeiro chegasse... F I M OBS.: Sobre a morte Agente Carter, eu pessoalmente gostaria de ter escrito de forma diferente, acho que um tiro no meio dos testículos primeiro seria mais adequado, e depois o tiro de misericórdia na cabeça, para finalizar...bom fica a cargo de vocês imaginar as diferentes formas de mata-lo !!!! Cry For Help (Peça Ajuda) Rick Astley She's taken my time, convinced me Ela tem ocupado meu tempo, me she's fine convenceu que é ótima, But when she leaves I'm not so Mas quando ela vai embora, não sure tenho tanta certeza... It's always the same, she's playing É sempre o mesmo, ela está fazendo her game seu jogo, And when she goes I feel to blame E quando ela se vai, eu me sinto culpado... Why won't she say she needs me Por que ela não dirá que precisa de mim? I know she's not as strong as she Eu sei que ela não é tão forte seems quanto parece... Why don't I see her cry for help? Por que eu não a vejo pedir ajuda? Why don't I feel her cry for help? Por que eu não a sinto pedir ajuda? Why don't I hear her cry for help? Por que eu não a ouço pedir ajuda? I wandered around the streets of Eu perambulei pelas ruas desta this town cidade, Trying to find sense in it all Tentando achar sentido nisto tudo. The rain on my face it covers the A chuva no meu rosto, ela cobre os trace traços Of all the tears I've had to waste De todas as lágrima que tive que desperdiçar. Why must we hide emotions Por que devemos esconder as emoções? Why can't we never break down and Por que não podemos nunca perder o cry controle e chorar? All that I need is to cry for help Tudo que eu preciso é pedir ajuda, Somebody please hear me cry for Alguém, por favor, me escute pedir help ajuda! All I can do is cry for help Tudo que posso fazer é pedir ajuda... No need to feel ashamed. Não precisa sentir-se envergonhado, Release the pain. Libere a dor, Cry for help. Peça ajuda... Cry for help is all I need. Pedir ajuda é tudo que eu preciso, All I need is a cry for help. Tudo que eu preciso é um pedido de ajuda. Cry for help is all I need. Pedir ajuda é tudo que eu preciso, All I need is a cry for help. Tudo que eu preciso é um pedido de ajuda. Why must we hide emotions Por que devemos esconder as emoções? Why can't we never break down and Por que não podemos nunca perder o cry controle e chorar? All that I need is to cry for help Tudo que eu preciso é pedir ajuda, I will be there when you cry for Eu estarei lá quando você pedir help ajuda... Why don't I hear her cry for help Por que eu não a ouço pedir ajuda? All that I need is to cry for help. Tudo que eu preciso é pedir ajuda, Somebody please hear me cry for Alguém, por favor me escute pedir help. ajuda! All I can do is cry for help. Tudo que posso fazer é pedir ajuda... All that I need is to cry for help. Tudo que eu preciso é pedir ajuda, I will be there when you cry for Eu estarei lá quando você pedir help. ajuda... Is it so hard to cry for help? É tão difícil pedir ajuda? Cry for help is all I need. Pedir ajuda é tudo que eu preciso, [No need to feel ashamed] [Não precisa sentir-se envergonhado] All I need is a cry for help. Tudo que eu preciso é um pedido de ajuda. [Come on and release the pain.] [Vamos lá e libere a dor] Cry for help is all I need. Pedir ajuda é tudo que eu preciso, [Put your trust in me.] [Coloque sua confiança em mim] All I need is a cry for help. Tudo que eu preciso é um pedido de ajuda. [My love is gonna set you free.] [Meu amor vai te libertar] Woooooooooooooo. Woooooooooooooo. Just Once I DID MY BEST BUT I GUESS MY BEST Fiz o melhor que pude, mas parece WASN'T GOOD ENOUGH que não foi o suficiente 'CAUSE WE ARE BACK TO WHERE WE Pois estamos de volta ao ponto de WERE BEFORE partida SEEMS NOTHING EVER CHANGES Parece que nada muda WE ARE BACK TO BEEING STRANGERS Estamos voltando a ser estranhos WONDERING IF WE MIGHT TO STAY Imaginando se devemos ficar OR HEAD ON OUT THE DOOR Ou sair pela porta afora JUST ONCE CAN WE FIGURE OUT WHAT Só uma vez será que podemos WE KEEP DOING WRONG? descobrir onde estamos errando? WHY WE NEVER LAST FOR VERY LONG Por que não conseguimos ficar juntos por muito tempo? WHAT ARE WE DOING WRONG? O que estamos fazendo errado? JUST ONCE CAN WE FIND A WAY TO Só uma vez podemos encontrar um FINALLY MAKE IT RIGHT? meio de finalmente de fazermos a coisa certa? MAKE THE MAGIC LAST FOR MORE Fazer com que a mágica perdure por THAN JUST ONE NIGHT mais do que apenas uma noite MAKE IT JUST GET TO YOU Se pudesse fazer você entender KNOW WE COULD BREAK TROUGH IT Sei que poderíamos atravessar a barreira I GAVE MY HEART BUT I THINK MY Entreguei meu coração mas parece HEART HAVE BEEN TOO MUCH que foi demais 'CAUSE THE LORD KNOWS WE ARE NOT Pois Deus bem sabe que não estamos GETTING ANYWHERE conseguindo nada SEEM WE ARE ALWAYS BLOWING Parece que sempre estragamos WHATEVER WE GOT GOING Aquilo que temos AND IT SEEMS AT TIMES WITH ALL E, às vezes, parece que com tudo WE'VE GOT que temos... WE HAVEN'T GOT A WAY Não conseguimos encontrar um caminho JUST ONCE CAN WE FIGURE OUT WHAT Só uma vez podemos descobrir o que WE'VE KEEP DOING WRONG? estamos fazendo errado? WHY THE GOOD TIMES NEVER LAST Por que as coisas boas não duram? FOR LONG? WHERE ARE WE GOING WRONG? Onde estamos errando? JUST ONCE CAN WE FIND A WAY TO Só uma vez podemos encontrar um FINALLY MAKE IT RIGHT? meio de finalmente fazermos a coisa certa? MAKE THE MAGIC LAST FOR MORE THAN Fazer com que a mágica perdure mais JUST ONE NIGHT? do que apenas uma noite? I KNOW WE COULD BREAK THROUGH IT Sei que podemos atravessar a barreira IF WE COULD JUST GET TO IT Se conseguíssemos apenas chegar até ela JUST ONCE Só uma vez I WANT TO UNDERSTAND Eu quero entender WHY IT ALWAYS COMES BACK TO GOODBYE Por que isto sempre acaba em adeus WHY CAN'T WE GET OURSELVES IN HAND Por que não conseguimos acertar as coisas AND ADMIT TO ONE ANOTHER E admitir um para o outro WE ARE NO GOOD WITHOUT EACH OTHER Que não dá certo separados TAKE THE BEST AND MAKE IT BECOME Aproveite o melhor e faça dele FIND A WAY TO STAY TOGETHER Uma maneira de ficarmos juntos JUST ONCE CAN LIFE FIND A WAY Só uma vez poderá a vida encontrar TO FINALLY MAKE IT RIGHT um meio de nos ajudar MAKE THE MAGIC LAST FOR MORE THAN Fazer a mágica durar mais do que JUST ONE NIGHT apenas uma noite I KNOW WE COULD BREAK THROUGH IT Eu sei que poderíamos conseguir IF WE COULD JUST GET TO IT Se chegassemos a esse ponto apenas JUST ONCE uma vez WE COULD GET TO IT JUST ONCE Poderíamos chegar lá ... só uma vez