Centro de Gravidade FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. CATEGORIA: Quem viver verá! CLASSIFICAÇÃO: Livre. SPOILER: Todos e mais alguns que eu inventei agora. SINOPSE: Me recuso a fazê-la. É para ser lida como se assiste um daqueles filmes que nem os créditos mostram no início. Assista e, se não gostar, saia no meio da sessão! Leia e, se achar que está uma droga, rasgue, remova de seu diretório! Mas mande feedback xingando a autora. Essa fic é dedicada à grande escritora Claudia Modell. Centro de Gravidade "And when man faces destiny, destiny ends and man comes into his own." (André Malraux, The Voices of Silence) PARTE I - Tempo de Despertar Despertar dificilmente é um ato agradável para quem quer que seja. Por pior que seja o sonho ou pesadelo, a transição do sono para a dura realidade é sempre difícil. Em especial, para alguém como Fox Mulder que raramente poderia afirmar que dormira "o sono dos justos", como apregoa o dito popular. Tornara-se um hábito para ele simplesmente desmaiar de exaustão, à noite, nos lugares mais inusitados. Embora, em geral, amanhecesse no desconfortável sofá da sala, já houvera ocasiões em que despertara esparramado na banheira vazia ou tombado sobre a mesa do escritório. Mas não podia recordar-se de jamais ter acordado, como daquela vez, no chão da cozinha, de qualquer cozinha. Sim, porque aquela certamente não era a SUA cozinha. Não que freqüentasse a cozinha de seu apartamento o suficiente para ter dela recordações muito precisas. No máximo, abria a porta da geladeira em busca de água ou preparava um pacote de pipocas no microondas. Porém, definitivamente, não reconhecia naquela cozinha a de seu apartamento. Era arrumada demais, limpa demais para ser sua. O teto era impecável e branco, nem uma teia de aranha ou um traço de poeira, e, pasme, as DUAS lâmpadas frias da luminária nele instalada funcionavam. AO MESMO TEMPO! No chão, não havia décadas de pó ou farelos de pão ou aquela azeitona que saltara da pizza no Natal passado, se alojara ao lado do fogão e que ele ficara com tanta preguiça de catar. Bem, não era mesmo a sua cozinha... Tentou levantar-se, devagar. Sentia-se estranho, desequilibrado. A cabeça pesada, como se seu centro de gravidade houvesse mudado de lugar. Era difícil equilibrar- se. A cabeça insistindo em puxar todo seu corpo para trás. O maldito centro de gravidade, deslocando-se para lá e para cá. Como se estivesse de ressaca... Estranho... Não se lembrava de ter bebido na noite anterior. A bem da verdade, não se lembrava de nada sobre a noite anterior... Exceto, talvez, que ele era Fox William Mulder, agente especial do FBI? ... Era? Lutava para ficar de pé, mas aquela se revelava, cada vez mais, uma tarefa impossível. O centro de gravidade passara da cabeça para a barriga, que ficara muito, muito pesada. Se tentasse ficar de pé, com certeza cairia para frente, puxado pelas toneladas recém instaladas em sua barriga. Melhor ficar de quatro. Isso mesmo... Sucesso total! Talvez ajoelhar-se, para enxergar mais alto... Difícil com aquele centro de gravidade móvel, mas não impossível. Conseguiu, enfim, pôr-se de joelhos. Olhou a pia. Não havia um único copo ou prato sujo, dentro ou sobre ela. A esponja, limpa e seca e nova em folha, estava colocada no recipiente adequado a exatos três centímetros do vidro de detergente. Cheio! O pano de louça, branco como a neve, jazia perfeitamente dobrado em dois e dependurado na respectiva argola na parede. Em última análise, um brinco. Não era mesmo, sua cozinha. Jamais o seria. Só havia um modo de saber a quem pertencia aquela cozinha e Mulder não hesitou. Destemido, abriu a geladeira como invadiria um recinto repleto de terroristas internacionais armados até os dentes. De peito aberto. Que vengam los toros! Iogurte, frutas, legumes, gelatina. Tudo fresquinho, dentro do prazo de validade, cheiroso e brilhante. Scully! Era a cozinha de Scully! Agora ele tinha certeza. Mas a dúvida permanecia. O que diabos estava fazendo adormecido no chão da cozinha de Scully? Não podia recordar- se de modo algum de como teria ido parar ali, no apartamento da parceira. Seria amnésia? Num impulso, conferiu o horário em seu relógio de pulso com o do mostrador do microondas. Idênticos. Logo, não havia tido um contato imediato ou algo assim, acreditava. Bem, só havia um jeito de saber... E que Deus o ajudasse. Perguntar a Scully! O apartamento estava mergulhado num profundo silêncio. Era muito cedo e ela, provavelmente, dormia. De gatinhas, brigando sempre contra seu centro de gravidade traiçoeiro que teimava em jogá-lo para um lado e para o outro, Mulder começou a mover-se pela casa. Tinha plena consciência do ridículo de sua posição. Rastejava, como um inseto imundo, pelo chão do apartamento de Dana Scully. Irritava-se só em pensar nas dezenas de explicações que teria de dar a ela por aquela situação. Mas que explicações daria se não as tinha? Se não fazia a mínima idéia do que poderia estar lhe acontecendo para vir parar ali. Bolas! Estava frito e sabia disso... Engatinhava pela sala e imaginava o olhar de reprovação de Scully. Não havia nada pior no mundo do que aquele maldito olhar de reprovação de Scully e seu silêncio torturante, que faziam-no sentir como um moleque qualquer, pego em flagrante em plena travessura. Era uma lenta agonia ser vítima daquele olhar. Já havia passado por aquilo antes e conhecia bem os efeitos devastadores que aqueles olhos azuis, furiosos e acusadores, podiam exercer sobre ele. Penetrantes, pareciam rasgar-lhe a carne como punhais. Cortavam-no em fatias finas, quase translúcidas, e depois o serviam com azeite, alcaparras e limão. Carpaccio de Fox Mulder... Às vezes, passavam semanas daquela forma. Outras, abrandavam-se num dia, apenas para reaparecem realimentados, poderosos e vitaminados, no dia seguinte. Droga! Antes ela o condenasse a limpar todos os banheiros do Bureau com sua escova de dentes. Ele o faria com prazer só para não ter que enfrentar-lhe o olhar. Lamberia as botas do Kersh... Não, pensando bem, isso não. Mulder podia ser muitas coisas desprezíveis, mas jamais seria um lambe- botas! E lá se ia Fox Mulder, engatinhando, bamboleando (droga de centro de gravidade!) pelo piso. Sorte Scully ter aquela mania paranóica de organização e limpeza. Não havia obstáculos pelo percurso. Imaginava aquela mesma cena se passando em seu apartamento. Já teria atropelado uns tantos sapatos, algumas outras azeitonas fugitivas e sementes de girassol. Talvez encontrasse até aquela sua camisa azul da qual tanto gostava e que julgava abduzida por alienígenas loucos por Armani. Mas aquele era o chão de Scully e ali não havia nem um grão de poeira, quanto mais roupa suja ou outros trastes. Ôoops! Seu joelho aterrissou sobre uma superfície irregular e o maldito centro de gravidade aproveitou a deixa para mudar de lugar mais uma vez e... Pum! Lá estava outra vez Fox Mulder esparramado no chão, a cara enfiada no carpete. Bosta! Mas o que provocara sua queda? Tsc, tsc, tsc... Um escarpin negro com um salto tão alto quanto um arranha-céu? Jogado no meio da sala? Muito feio, Dana Scully! Mulder se deixou ficar, por uns instantes, caído no chão, esperando que a parceira aparecesse na porta da sala, com cara amassada e pijamas, os cabelos desgrenhados, a arma em punho, à procura do invasor. Ele! Visualizava claramente o modo como sua expressão se transformaria, da ferocidade assustada pelo despertar tumultuado até o desprezo e a desaprovação quando identificasse nele o causador do distúrbio. Em câmera lenta, como numa dessas cenas de efeitos especiais dos filmes... Aterrador! Estatelado no chão, Fox Mulder rezava, sim, rezava e implorava a todas as divindades conhecidas e desconhecidas para que Scully não acordasse. Muitos segundos, talvez minutos transcorreram. Em seu senso de tempo distorcido pelo pânico, dias e meses se passaram, ele aguardando o fim com os olhos estreitados e os lábios contraídos em antecipação. Mas ela não apareceu. Aleluia! Ainda outra vez, colocou-se de gatinhas, com dificuldade, o centro de gravidade passeando do alto de sua cabeça até os quadris com a maior sem-cerimônia, recusando-se a parar onde quer que fosse, dançando chá-chá-chá com sua paciência... E seguiu Mulder, risivelmente, arrastando-se pelo chão, balançando para lá e para cá, em direção ao quarto. Era estranho Scully não ter acordado com o barulho de sua queda. Normalmente a parceira tinha um sono muito leve. Não que já tivesse dormido com ela da maneira como gostaria, mas já haviam dormido lado a lado de muitos modos estranhos e em muitas ocasiões diferentes antes. Talvez ela não estivesse em casa... Mas, nesse caso, o que diabos ele estaria fazendo em seu apartamento? Talvez fosse exatamente isso! Ela havia sido seqüestrada por algum membro do Sindicato ou um bandido qualquer dos tantos que ambos normalmente investigavam e perseguiam e Mulder, buscando a parceira, havia sido envenenado, drogado ou sabe-se lá o quê... Isso explicava sua incapacidade em ficar de pé, sua confusão mental, sua total ausência de lembranças... Mas não explicava o barulho de água, uma torneira sendo aberta, que vinha agora do banheiro. Quis tatear a cintura à procura de sua arma, porém a mera idéia de tirar uma das mãos do chão para tanto já fez com que seu centro de gravidade saísse para passear novamente, correndo a passos largos na direção de seu nariz. Mulder precisou usar de todo o seu treinamento em Quantico e dos muitos anos de experiência em atividades de campo para não tombar novamente de cara no chão. Com muito esforço e oração, conseguiu reequilibrar-se e evitar mais uma queda miserável. Sentia-se nu e desprotegido, sem sua arma na mão. E se fosse o seqüestrador lavando as mãos sujas de sangue no banheiro de Scully? Como poderia Mulder proteger-se e à parceira, quem sabe, desarmado como estava? Era um alvo fácil daquele modo. Um único tiro e seria mais uma vítima indefesa... Pior! E se fosse a própria Scully, escovando os dentes, lavando o sono da cara na água fria da pia? Como justificar sua presença ali, naquelas condições humilhantes? Começava a imaginar se não seria melhor topar com um bandido sanguinário no banheiro do que com Dana Scully, agente especial, FBI, desarmada e perigosa, cruel e desalmada em sua perfeição e superioridade. O que não tem remédio, remediado está, diz o dito popular. Nunca fora homem de refugar diante de uma briga. Não iria começar daquela vez. Decidido, rastejou silenciosamente até a origem do ruído que infernizava sua imaginação. Espreitou a porta aberta. Chinelos de frufrus cor-de-rosa. Bandidos sanguinários não usam chinelos de frufrus cor-de-rosa... Logo, tinha de ser Scully. A ruiva escovava os dentes meticulosamente, o olhar fixo no espelho. Alívio foi sua primeira sensação. Pânico foi a segunda. "Coragem, Mulder! Você é um homem ou uma barata?" - Scully! - chamou em voz tão baixa que ele próprio mal se ouviu. A ruiva com a boca cheia de espuma não esboçou o mínimo movimento. - Scully! - repetiu mais alto. Nada. O ruído da torneira totalmente aberta devia estar encobrindo o som de sua voz. Uma verdadeira cascata, como aquela que jorrava na pia, encobriria até mesmo o ruído da turbina de um Boeing 777. Que desperdício de recursos hídricos, senhora-politicamente-correta-e-defensora-ferrenha- da-natureza-agente-Scully... Engatinhou para dentro do banheiro, postando-se diante da parede, exatamente atrás da parceira. Imaginava poder, com algum apoio como o oferecido por aquela providencial parede, conseguir driblar seu centro de gravidade intinerante e colocar-se de pé. Dito e feito! Com uma boa dose de esforço e perseverança, conseguiu, literalmente, rastejar parede acima e pôr-se de pé. Virou-se para Scully e o espelho. Surpresa! Refletidos no pequeno espelho retangular do banheiro estavam Dana Scully, alguns respingos de pasta de dentes e a parede de azulejos brancos atrás dela. Nem sombra de Fox Mulder. Nem um pálido reflexo de um homem de quase dois metros de altura. Como? Aquilo não podia estar acontecendo! Teria ele morrido de algum modo e seu espectro havia sido condenado a vagar, ou melhor, rastejar sem rumo por toda a eternidade? Quem sabe havia sido vítima de uma maldição de invisibilidade atribuída por algum espírito maligno ou por um gênio mal humorado como naquele caso estranho que haviam investigado em Missouri? Ou talvez houvesse sido submetido a uma espécie qualquer de alteração molecular que fizera com que os átomos de seu corpo se movessem em velocidades inferiores ao espectro visível... Formulava um sem número de teorias, umas malucas, outras nem tanto, que faziam com que seu cérebro trabalhasse como um alucinado, quando se deu conta de um fato que lhe havia passado desapercebido na imagem refletida no espelho. Uma barata! Cascuda, das grandes, solene e impávida, imóvel, sobre a parede branca. No exato lugar onde ele próprio deveria estar... Recordava-se claramente, não havia barata alguma quando rastejara parede acima, instantes atrás. Incrédulo, atônito, fez a única coisa que lhe ocorreu para tirar a dúvida: deu um tímido tchauzinho com a mão esquerda para o espelho. A barata, refletida no espelho, simultaneamente, ergueu uma das patinhas do lado esquerdo de seu corpo no ar, como se acenasse de volta para ele! Inconcebível! Impossível! Inacreditável! Ele? Fox Mulder? Uma barata? Mulder tinha toda sua atenção concentrada na imagem da barata (sua própria imagem?) no espelho, quando Scully, que passara os últimos minutos metodicamente ensaboando cada centímetro quadrado da pele de seu rosto como se houvesse a possibilidade de estar contaminada por um vírus alienígena, finalmente abriu os olhos. Ela estudou longamente seu próprio reflexo no espelho, vasculhando a imagem em busca de um ponto qualquer esquecido pelo sabão, quando seu olhar se deteve em algo. A parede branca de azulejos atrás dela. O pequeno borrão marrom sobre ela. Voltou-se, caminhando devagar e cautelosa até a parede. A cara coberta de espuma parou a uns cinqüenta centímetros de distância do alvo, apertando os olhos para ver melhor. Na seqüência, Mulder leu no semblante da mulher o reconhecimento, a surpresa, o nojo. Até que um risinho sádico retorceu os cantos de sua boca. - Scully! Sou eu! Mulder. - ele dizia assustado. - Seu parceiro, Scully! - o medo começava a transformar-se em pânico. - Não sou essa barata nojenta que você está vendo, Scully! - o pânico cedia lugar ao terror. - Por favor... por favor... - suplicava, os olhos fixos no chinelo que erguia-se no ar. - S-s-scully, não! Não! Nãããããooooo... Estaria Fox Mulder, agente especial, FBI, expert em traçar perfis de assassinos seriais, intrépido caçador de alienígenas e conspirações governamentais, condenado a perecer como uma barata nojenta sob o chinelo de frufrus cor- de-rosa de Dana Scully? Seria aquele o triste destino que a estória havia reservado ao nosso herói? PARTE II - Uma Janela para o Céu A sola lisa e dura do chinelo de Scully se agigantava diante dos olhos de um aterrorizado Fox Mulder, misteriosamente convertido em barata. Dezoito precisos centímetros os separavam. Ele gritava o nome da parceira, em pânico. Mas ela, aparentemente, não o ouvia. Dez centímetros... Mulder tentava desesperado chamar Scully à razão. Mas que razão, se, para todos os efeitos, o que Dana Scully tinha diante dos olhos era uma barata repulsiva? Cinco centímetros e aproximando-se... O filme de sua vida começava a passar em ultra-fast-motion diante dos olhos de Mulder, ao mesmo tempo em que ele se despedia do mundo cruel. Dois míseros centímetros apenas... "Triiiim! Triiiim! Triiiim!" soou estridente a campainha, acompanhada por vigorosas batidas na porta da frente. O chinelo ameaçador paralisou-se no ar. Depois, desceu até o chão e de volta ao pé da ruiva. Quem antes batia com força, agora, verdadeiramente, esmurrava a porta da frente do apartamento de Scully. - Já vai! Já vai! - gritou ela, irritada, enquanto se virava, limpando a espuma do rosto com uma toalha, e seguia para a porta. Não sem antes dirigir uma última e fuzilante olhadela para a barata na parede. Se olhares matassem... Assim que Scully deixou o banheiro, Mulder suspirou aliviado. Já havia visto a morte de perto muitas vezes antes. Havia até mesmo, acreditava, estado quase que do outro lado, em algum lugar além da vida. Mas nunca antes sentira-se tão indefeso diante de uma situação de perigo como daquela vez. Por um triz havia escapado de uma morte tão indigna como a de inseto asqueroso, esmagado por um sapato contra a parede. Morto e esmagado por sua parceira, por Scully, a quem seria capaz de confiar sua própria vida sem pestanejar! Ainda tremia, quando, em meio ao turbilhão de pensamentos que o assaltava, percebeu que não poderia permanecer ali, parado onde estava, como um óbvio alvo marrom na imensidão de azulejos brancos. Sempre pelejando contra seu implacável centro de gravidade, rastejou parede abaixo, olhando em volta, à procura de um lugar para se esconder. Aquele banheiro, tão imaculadamente branco, não lhe parecia seguro o bastante. Era óbvio demais. Seria, com certeza, o primeiro lugar onde ela o procuraria. Mulder corria pelo chão em direção à porta, distante um milhão de quilômetros de onde ele estava. Suas muitas perninhas curtas, cujo movimento ele não conseguia ainda controlar com precisão, moviam-se alucinadas, arrastando seu corpo ovalado e desproporcional pelo chão escorregadio, vencendo o comprimento de cada ladrilho como se percorressem a distância de uma maratona. Subitamente, a consciência de seu tamanho, tão diminuto diante da imensidão do mundo, o atingiu. Assim como a percepção da fragilidade da carapaça translúcida que revestia seu corpo. E o fato de estar nu e desarmado. Poderia deixar-se abater por tudo isso ou por ser tão minúsculo e frágil ou por estar tão cansado e a maldita porta tão distante, mas não havia tempo para isso. Ouvia passos abafados pelo carpete aproximando-se, provavelmente os de Scully. Uns poucos centímetros o separavam do corredor. Poucos centímetros para um humano, quilômetros para um pequenino inseto. Vislumbrou um possível esconderijo e, num esforço desesperado, desapareceu no espaço entre o batente e a porta, exatamente ao mesmo tempo em que a parceira entrava de volta no banheiro, empurrando a porta atrás de si para fechá-la. Um roupão dependurado atrás da porta (sim, a ordeira Scully também deixava roupas penduradas atrás da porta do banheiro!) esvoaçou com o movimento brusco da porta e interpôs-se entre a fechadura e o batente, impedindo seu fechamento completo. Com isso, milímetros separaram a pobre barata Mulder de uma cruel morte por esmagamento. Salvo pelo gongo outra vez. Ufa! Trêmulo como estava, Mulder não ousava mover-se. Contentava- se em ouvir os passos de Scully para lá e para cá, os saltos do chinelinho cor-de-rosa ecoando em pancadas nervosas no assoalho, como se procurassem pela atrevida barata que ousava macular a irretocável limpeza de seu banheiro branco. Enfim, ela pareceu desistir. Abriu a porta e saiu do banheiro como um furacão. Mas conhecendo Scully como conhecia, Mulder tinha certeza de que a ruiva não havia desistido. O mais rápido que pôde, ele tratou de deixar seu esconderijo na porta do banheiro e correu para o quarto, enfiando-se no escuro vão entre a cômoda e a parede. Instantes mais tarde, ouviu seus passos retornando ao banheiro e, segundos depois, o "tchiiii" característico do aerossol, um inseticida sendo borrifado generosamente por todo o cômodo. Implorou aos céus e aos deuses das baratas que a parceira restringisse seus ímpetos inseticidas ao banheiro, visto que não poderia afirmar seguramente que a química do produto não o afetaria, agora que era um híbrido humano- inseto ou inseto-alienígena. Ou talvez fosse apenas um inseto. Sim, talvez SEMPRE tivesse sido apenas um inseto. Os deuses das baratas pareciam estar a seu favor, já que Scully, depois de espalhar copiosas doses de inseticida pelo banheiro, guardou o spray no armário sob a pia, lavou as mãos e seguiu para o quarto. Mulder manteve-se tão encolhido e imóvel, que poderia ser confundido com um nó da madeira do fundo da cômoda do quarto. Somente ousou respirar novamente no momento em que ouviu Scully batendo a porta do apartamento atrás de si. E respirou fundo, cerrando os olhos, tentando pôr em ordem os pensamentos, tentando lembrar de algo, qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista do que diabos estava acontecendo a ele. Esforçava-se ao máximo, buscando, no fundo da memória, técnicas de relaxamento aprendidas na faculdade e havia muito esquecidas, as quais costumavam operar milagres nas demonstrações que assistira nos bancos escolares. Tentou recorrer à auto-hipnose que já havia utilizado em ocasiões anteriores com relativo sucesso. Revisou mentalmente tratados, compêndios e artigos diversos sobre psicologia, psiquiatria, paranormalidade, ocultismo, vodu, macumba. Mas em nada, absolutamente nada, encontrou a mínima pista ou obteve qualquer resultado prático que lançasse alguma luz sobre sua presente situação. Inútil, tudo inútil. Todos os anos de estudos, pesquisas e observações não lhe serviam de nada naquelas condições. Fox Mulder havia se transformado em barata e ponto final! Suas esperanças resumiam-se ao fato de que alguém iria dar por sua falta... Scully TINHA que dar por sua falta! E, então, iria procurá-lo. Ele só precisava esperar e arrumar um jeito de fazê-la perceber no que ele havia se transformado. Precisava pensar melhor sobre como fazê-lo. Até lá, restava- lhe aceitar aquela situação e adaptar-se à sua nova condição para tentar conviver com ela da melhor maneira e, se possível, tirar algum proveito do atual estado das coisas. Decidiu, então, que a primeira providência prática a tomar seria percorrer o apartamento, mapeando locais seguros que poderiam vir a lhe servir de esconderijo. E foi isso o que fez, rastejando metodicamente, ao menos para os próprios padrões, pelo quarto, a sala e a cozinha, arrastando consigo seu estorvante centro de gravidade. Percorria os cantos escuros, penetrava nos armários e nas gavetas mal fechadas, examinando, tomando notas mentais de cada detalhe obscuro do apartamento de Scully. Sentiu-se vagamente envergonhado ao examinar-lhe o closet com seus muitos trajes de corte elegante pendendo dos cabides. Um tanto quanto voyeur ao percorrer a gaveta da mesinha de cabeceira (um vidro de tranqüilizantes suaves... preservativos, Scully?). Quase um tarado ao vasculhar-lhe a gaveta da cômoda repleta de lingerie acetinada. Outra vez na cozinha, onde tudo havia começado, Mulder olhou as horas no mostrador do microondas. 2:32 PM. Por um instante, imaginou como, mais cedo, julgara ver as horas em seu relógio de pulso e as comparara com aquelas no mostrador do microondas. Como, se não havia relógio e muito menos pulso ou braços? Melhor não se ater a detalhes inexplicáveis, por enquanto, e concentrar-se no que era mais premente. 2:33 PM. Era perfeitamente justificável a fome que agora sentia. Observou a geladeira fechada, uma possível fonte de alimento completamente inatingível para ele. Vagou a esmo pelo chão frio e limpo, sem nada encontrar. Quando já perdia as esperanças, porém, eis que, para sua surpresa, cuidadosamente escondida num cantinho sob um armário, estava uma azeitona, outra provável fugitiva de uma das pizzas da vida. Emboras ligeiramente ressecada e um tanto rançosa, Mulder a saboreou como a um banquete real, surpreendendo-se com a força e a destreza de suas mandíbulas, bem como com sua rápida adaptação ao paladar de sua nova forma. Findo o festim, voltou pesadamente para a segurança do quarto, onde julgava que Scully não o encontraria. Abrigou-se embaixo da mesinha de cabeceira que, além de um perfeito esconderijo, oferecia-lhe uma ampla visão do quarto e de parte do corredor até a porta do banheiro. E esperou, esperou, esperou, até que acabou por adormecer. Dormiu um sono leve e sem sonhos, como convém a uma barata. Foi despertado pelo clique da chave sendo girada na porta da frente. Já era noite, mas Scully não acendeu a luz do quarto. Apenas entrou e, no escuro mesmo, pegou o pijama debaixo do travesseiro e roupa de baixo limpa na gaveta da cômoda e seguiu para o banheiro. Encolhido sob a mesa de cabeceira, Mulder a ouviu abrir o chuveiro, que permaneceu aberto por um longo tempo, e depois fechá-lo. Mais alguns ruídos indicaram que remexia no armário da pia, mais um pouco de água corrente, possivelmente a torneira agora, um pouquinho do "tchii-tchii" do inseticida (Scully não desistia fácil!), outra vez a torneira. Então, a luz do banheiro se apagou e ele observou os pés pequeninos da parceira aproximando-se da cama, na penumbra, e depois desaparecendo sobre ela. Com seus novos ouvidos super sensíveis, Mulder escutava na escuridão a parceira revirando-se de um lado para o outro nos lençóis. Tinha dificuldades em dormir. De repente, ela levantou-se de um pulo e correu até o banheiro. Outra vez, a audição privilegiada de Mulder detectou que, pobre mulher, vomitava. Isso o fez lembrar-se vagamente de que ela não vinha se sentindo muito bem ultimamente. Scully voltou a deitar-se outra vez e ainda revirou-se na cama por um longo tempo. Uma eternidade depois, Mulder pode ouvi-la ressonando suavemente. Finalmente, ele pôde aventurar-se a sair de seu esconderijo e subiu pela cabeceira da cama até um ponto em que tinha uma visão completa da mulher adormecida. Via-lhe os cabelos vermelhos espalhados sobre o travesseiro, acentuando a palidez do rosto. Via as linhas em volta de sua boca, mais marcadas do que podia se lembrar, as sombras escuras sob os olhos. Percebeu, apreensivo, que ela emagrecera nos últimos tempos. Estaria doente outra vez? Tomara que não... Não cessava de surpreender-se com os superpoderes com que sua nova forma o havia dotado. Embora não houvesse luz alguma no quarto, mesmo a persiana da janela estava cerrada, ele enxergava tudo como se fosse dia claro. Lembrou-se de ter visto em algum documentário, Discovery Channel, talvez, que, enquanto os olhos humanos possuem uma lente, o cristalino, os olhos da baratas têm duas mil, o que explicava sua recém adquirida "visão de raio X". Ele, que desde sempre, precisara de óculos! Imaginou vagamente que poderia encontrar vantagens em sua nova condição. Mas isso não vinha ao caso naquele momento. Precisava aproveitar-se da escuridão e vasculhar mais uma vez a casa, para tentar encontrar um meio de avisar à parceira sobre si próprio. Sua incursão noturna não teve outro resultado prático que não empanturrar-se com mais um bocado daquela azeitona fugitiva que encontrara durante a tarde. O dia começava a clarear quando Mulder voltou ao abrigo sob a mesa de cabeceira. E lá se manteve até que Scully saísse para trabalhar. Outra vez percorreu o apartamento, aposento por aposento, desta vez, tentando imaginar um modo de informar à parceira sobre seu paradeiro. Inútil! O notebook, sobre a mesa, estava fechado e ele era pequeno demais para segurar um lápis ou caneta. Impossível, também, deixar uma mensagem gravada, uma vez que, após o episódio do banheiro, percebera que sua comunicação oral era inexistente. Parecia, por enquanto, condenado a passar o restante de seus dias como uma barata entediada, vivendo sorrateiramente no apartamento de Scully. Se ao menos ela não trancasse o controle remoto da TV numa gaveta... Rastejou até uma das janelas da sala, de onde podia ver a vida passando lá fora. Havia, no máximo, ao que se lembrava, um dia que estava preso ali e já sentia falta do vento, da fumaça dos carros, da agitação da vida humana. Tinha saudades, até mesmo, do ligeiro odor de umidade e mofo que era peculiar ao seu escritório no porão do FBI. Por outro lado, o ambiente onde estava era completamente impregnado pelo cheiro de Scully, o aroma de seus cabelos, o suave perfume de sua água de colônia... Era essa, talvez, sua única ligação com sua condição humana original, a razão pela qual não se sentia tão solitário e que o impedia de enlouquecer. Apesar dos pesares, estava junto de Scully! A fome constante, porém, não o deixava esquecer que era agora um inseto rastejante. E deixou de lado as divagações e saiu bamboleando seu centro de gravidade pelo apartamento em busca de comida. Então, novamente era noite e a mulher voltou para casa e dormiu e acordou e tomou banho e vomitou e vestiu-se e saiu... E assim se passavam os dias para Mulder, numa rotina sem fim de ver Scully chegar em casa, jantar, dormir, acordar, tomar banho, vomitar, vestir-se e sair, dia após dia. Se, por um lado, ela parecia ter esquecido a barata que ousara esconder- se em seu apartamento, por outro, para desespero de Mulder, parecia ter, também, esquecido o parceiro de carne e osso. O que lançava dúvidas atrozes à mente daquele Mulder barata que vivia escondido sob a mesinha de cabeceira. Seria ele, realmente, uma barata híbrida mutante transgênica que por alguma razão tivera implantadas as memórias de Fox Mulder? Nesse caso, o Mulder humano devia estar por aí, o que justificava o fato de Scully não ter dado por sua falta. Mas, se era assim, por que razão ele ainda não havia dado as caras no apartamento da parceira como costumava fazer de vez em quando? E mais: como suas memórias tinham ido parar numa barata? Ou, talvez, ele fosse o verdadeiro Fox Mulder transformado em barata sabe-se lá por que tipo de experimentos em cujos realizadores era melhor nem se pensar. Se fosse assim, possivelmente um clone teria sido colocado em seu lugar, de modo que ninguém lhe notasse a ausência. Ainda pior era essa hipótese, pois tornava-se virtualmente impossível convencer alguém de que o outro não seria ele... Ou então, talvez... As possibilidades eram de enlouquecer! Se ele ao menos conseguisse lembrar-se de algo, qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista... Mas nada. A não ser lembranças muito antigas, sua infância ou uma determinada manhã de março de 1992, não havia nada recente de que conseguisse recordar. Logo, melhor não ficar se preocupando com essas coisas ou acabaria por enlouquecer. Já era bastante ruim ser uma barata. Pior seria tornar-se uma barata louca... E assim, ele optava por levar a vida da maneira mais branda possível, sem muitos questionamentos, além de "o que iria comer no dia seguinte". E o tempo passava. Uma bela noite, Mulder percebeu extasiado que a parceira esquecera, sobre a escrivaninha na sala, o notebook aberto e LIGADO! Uma oportunidade ímpar se oferecia a ele. Escalou a mesa na maior carreira; espantosamente, seu centro de gravidade perverso não lhe ofereceu nenhum transtorno. Pulou, praticamente, voou sobre o teclado, letra por letra, saltando com força sobre cada tecla, para deixar sua mensagem: "SOCORRO, SCULLY. ASS. MULDER". Mas, surpresa! Seu peso era insuficiente para comprimir as teclas o suficiente para registrar os toques. Pulou ainda com mais força, mas nada acontecia. Maldição! Os deuses das baratas pareciam estar contra ele desta vez. De nada adiantaram sua dança frenética, os saltos gigantescos, corrupios e carambolas que executou sobre o teclado. Ao fim de tudo, exausto e sem fôlego, a tela continuava tão limpa e branquinha quanto no momento em que começara sua desesperada ginástica. - Boooossstaaaa! - gritou a plenos pulmões, furioso, diante da inutilidade de seus esforços. Tão irritado estava que mal teve tempo de pular no tampo da escrivaninha e esconder-se por trás da tela do notebook, quando Scully apareceu na sala, de arma em punho e vasculhou a escuridão ao redor com o olhar. Mulder poderia jurar que, num dado momento, os olhos azuis da parceira encontraram os seus e que assim permaneceram, olhos nos olhos, por um breve instante. E ele teve a impressão de ler neles tanta tristeza que todos os temores que o afligiam acerca de seu desaparecimento e clones e implantes de memória fizeram-se mínimos diante da urgência em confortar o sofrimento de Scully. E teve, também, a ilusão de neles perceber um fugaz lampejo de reconhecimento ao fitá-lo. Teria ela escutado seu berro de desabafo? Seria ele capaz de alguma forma de comunicação com ela? A ilusão desfez-se quando, da porta da frente, veio o som de uma chave sendo retirada da fechadura, seguido por um sonoro palavrão e passos trôpegos pelo corredor do edifício. A ruiva encaminhou-se para porta e espiou pelo olho mágico por um momento. - Droga de bêbado! - rosnou baixinho por entre os dentes, enquanto caminhava de volta ao quarto, deixando para trás Mulder e a enorme frustração que dele se apoderara. Ainda não fora daquela vez... PARTE III - Pé Na Estrada E assim passavam-se os dias, que se convertiam em semanas e as semanas, em meses. A saudade do ar fresco, do vento, do movimento da rua ia ficando cada vez mais forte em Mulder à medida em que a sensação de confinamento aumentava. Cada vez mais ele sentia-se prisioneiro de sua nova forma e do apartamento de Scully. Passava horas grudado ao vidro da janela, olhando a vida que passava na rua, sonhando com a liberdade e esperando pelo dia em que Scully finalmente o esmagaria sob a sola de um sapato qualquer. Como um condenado no corredor da morte. Mesmo como barata, Mulder sentia-se estranhamente constrangido quando a parceira trocava de roupa no quarto diante dele. Nessas ocasiões, enfiava-se no canto mais escuro que pudesse encontrar e voltava as costas para ela até que estivesse completamente vestida. Ele era (ou fora...) um homem e apreciava mulheres nuas, claro! Porém, espreitar Scully sem roupas de um canto de seu próprio apartamento, era mais que voyeurismo, era quase um crime! Mas, naquele dia, foi diferente. Ficou desafiadoramente observando de um posto avançado na parede, por trás da cabeceira da cama, enquanto a ruiva andava de um lado para o outro pelo quarto, arrumando sua pequena bolsa de viagem. Viu quando ela tirou do armário um blazer escuro, com calças combinando, e uma blusa verde-oliva (Scully andava cismada com aquela cor, ultimamente!) e os colocou sobre a cama. Depois, remexeu na gaveta de lingerie e saiu em direção ao banheiro. Quando o barulho da água do chuveiro soou, Mulder tomou uma decisão desesperada. Correu como um louco e enfiou- se dentro da sacola de viagem aberta sobre a cama. Daquela vez, era tudo ou nada! Ia sair para ver o mundo outra vez. Encolheu-se em um cantinho, sob as dobras de uma camiseta, e esperou. Depois do que pareceu um século, ela voltou ao quarto, vestiu-se, meteu uns frascos de remédio na sacola e fechou o zíper. Outros cem milhões de anos se passaram para o ansioso Mulder, sem que nada acontecesse ou a bolsa se movesse do lugar onde estava. E se, na pressa, Scully tivesse esquecido de levar a sacola? E se ela houvesse resolvido levar a mala maior que guardava no canto do armário, em lugar daquela bolsinha minúscula? O pânico que o tomava fazia o espaço parecer-lhe cada vez menor e mais claustrofóbico. Finalmente, no entanto, a sacola se mexeu e continuou se movimentando, balançando sem parar, para cima e para baixo e para os lados. Mulder apurava os ouvidos e deliciava-se com cada som que ouvia. O clique da chave na fechadura, o "toc- toc" dos saltos de Scully nas escadas, o rangido agudo da porta do prédio, as buzinas dos carros na rua, o ronronar grave do motor de um automóvel, parado muito perto. - Aeroporto, por favor! - ordenou a voz da parceira. Estavam em um táxi! Ela iria viajar! Mulder sentiu-se tirando a sorte grande. Não sabia para onde estavam indo, mas não fazia diferença. Tudo o que importava é que viajavam juntos outra vez, como nos velhos tempos! Ainda assim, tentou descobrir para qual destino seguiriam, mas a voz no auto- falante do aeroporto anunciava milhares de vôos ao mesmo tempo. E havia o ruído ambiente e as turbinas dos aviões que decolavam... Barulho demais para seus ouvidos super sensíveis. Quando chegassem lá, onde quer que estivessem indo, ele descobriria. Repentinamente, foi assaltado pelo temor de que Scully resolvesse despachar a sacola onde ele estava. Compartimentos de bagagem não são pressurizados! A falta de oxigênio, certamente, o mataria! Já ia, uma vez mais, invocar os deuses das baratas (andava estranhamente religioso nos últimos tempos...) quando recordou-se que a parceira nunca, em sete anos de trabalho e viagens juntos, despachara sua bagagem. Alegava já ter perdido objetos de valor inestimável em malas extraviadas durante viagens aéreas. Por mais pesada que estivesse a mala ou a sacola, a ruiva sempre a carregava consigo onde quer que fosse. O polido, mas apático, "bom dia, senhora" em voz e entonação típicas de comissárias de bordo e meia dúzia de solavancos e apertões na sacola confirmaram suas suspeitas. Estava a salvo dentro do avião. O ar condicionado gélido da cabine o lançou em um estado de entorpecimento dentro da bolsa. Somente conseguiu libertar-se do torpor e coordenar pensamentos e ações novamente muito tempo depois, quando a temperatura já havia subido consideráveis vinte graus. Estava quente, muito quente. Abafado mesmo, dentro da sacola. Apurou novamente os ouvidos e conseguiu determinar que estava em um carro em movimento. Numa rodovia, podia quase jurar. Podia ouvir o "plac-plac" regular das junções do pavimento sob as rodas do automóvel. Aguçou ainda mais a audição e percebeu que havia o ruído de apenas uma respiração, uma que ele poderia reconhecer em qualquer lugar. Scully viajava sozinha. Sufocado como estava, Mulder ousou enfiar a cabeça para fora da bolsa por um pequeno vão aberto no zíper. Scully dirigia, concentrada na estrada. A sacola de viagem de onde ele saíra jazia largada no banco de trás. Destemido e curioso, ele arriscou um passeio pelo encosto do banco até o vidro traseiro. Tinha sede de paisagens. Quilômetros e quilômetros de um deserto avermelhado estendiam-se dos dois lados da estrada. Uma imensidão vazia, plana e árida esparramava-se pelo horizonte até onde a vista podia alcançar. - Boa dia, condado de Juab! São 11:00 da manhã, Utah! - berrou o locutor no rádio, emendando sua saudação com uma balada country melosa numa voz arrastada e nasalada de mulher. "Utah!", admirou-se Mulder. "O que Scully estará fazendo sozinha no meio do deserto de Utah?", ele não pôde deixar de imaginar. Mas ela já diminuía a marcha do veículo e não havia muito tempo para divagações. Mulder desceu o encosto com um pulo e meteu-se dentro de um dos bolsos do blazer da parceira, largado no banco ao lado da sacola, o abrigo mais próximo que conseguiu alcançar. Estava quente demais para que ela vestisse o casaco. Aquele era um bom esconderijo. Para seu desespero, no entanto, sentiu que o blazer se movia e que a mulher o vestia. Encolheu-se o mais que pôde no fundo do bolso e esperou pelo pior. Mas nada aconteceu. Ela parecia andar de um lado para o outro, abaixar-se e levantar-se como se procurasse algo no chão. E era apenas isso. Nada de mãos nos bolsos ou algo semelhante. O que ela tanto fazia ali parada no meio do deserto? Impaciente, Mulder, ousou esticar a cabeça para fora do esconderijo, no exato momento em que a mão de Scully enfiava um saquinho de evidências justo no bolso onde ele estava! Ele mal teve tempo de atirar-se ao fundo do bolso e encolher-se. Os dedos da parceira, segurando o plástico, roçaram suas anteninhas de barata. "Agora estou morto!", ele sentenciou, gelando. Em sua imaginação, ouvia-lhe o grito agudo quando ela tirasse a mão do bolso trazendo uma barata suspensa pelas antenas entre os dedos. Scully o atiraria longe, enojada, e, a seguir, o reduziria a mingau com o salto da bota que estava usando. E seria adeus, Fox Mulder, ex-agente do FBI, encerrando seus dias nesse mundo como barata esmigalhada no deserto de Utah... Mas ela não pareceu ter percebido o intruso em seu bolso, já que retirou a mão de lá e continuou sua investigação. O terror da morte quase certa não demorou a abandonar Mulder. Estava começando a ficar acostumado aos constantes sobressaltos de sua vida como inseto. Mais calmo, ele examinou o conteúdo do saco plástico. Areia empapada em alguma substância gosmenta. O que o fez lembrar que estava com fome. "Hora e lugar inadequados, Mulder!", pensou. Então, voltou a espiar para fora do esconderijo. Estavam em um ponto perdido no meio do nada, onde os únicos sinais de que a civilização havia um dia passado por ali eram uma rodovia deserta e uma cabine telefônica. Scully caminhou até a cabine telefônica e discou. "Por que ela não usa o celular?", Mulder se indagou. Obviamente, a meio caminho entre nada e lugar nenhum, não havia sinal de celular que chegasse. Afinal, para quê? O Coiote e o Papa- léguas não se falam mesmo! - Olá, é Scully! Bom dia! - ela disse. E acrescentou, um pouco depois, - Estou fora da cidade, em Utah! Mulder imaginou com quem ela poderia estar falando. Havia um quê de intimidade em seu tom de voz que não era comum a Scully. Além disso, era alguém que lhe cobrava explicações. Skinner? Não, não soava como Scully falando com o diretor assistente. Era outra pessoa. Esquisito... Scully continuou falando sobre um mochileiro desaparecido encontrado morto com sinais de envelhecimento exagerado nos ossos. Talvez fosse alguém do Laboratório do FBI, ele a ouviu mencionar glicoproteínas... A gosma no saquinho de evidências, provavelmente. Ela continuou dizendo algo sobre os arquivos X, sobre pesquisar velhos casos e outras coisas mais, mas a atenção de Mulder já havia sido desviada por um ônibus que passava pela estrada. De onde para onde poderia estar indo aquele ônibus? Aquela estrada não parecia ser do tipo onde houvesse muitos passageiros... Scully também pareceu interessar-se pelo veículo, pois desligou o telefone e entrou no carro. - Lá vamos nós outra vez! - comemorou Mulder alegremente, enquanto a parceira arrancava com o automóvel. Ele enfiou-se novamente dentro do bolso. O risco de ser encontrado por ela ali, dentro carro, era grande. Por garantia, Mulder decidiu que, embora fosse um posto de observação, sua localização naquele bolso não era das mais seguras. Precisava de um abrigo melhor. Com suas mandíbulas fortes e afiadas, conseguiu rapidamente cortar uma minúscula fenda no tecido que separava o bolso do forro do casaco. Embora, aparentemente, pequeno demais para seu corpo largo e ovalado, Mulder se fez prevalecer das vantagens de ter um exo-esqueleto flexível e dobrou-se e contorceu-se até atravessar o buraquinho com facilidade sem alargá-lo um milímetro que fosse. Queria perguntar a Scully do que tratava aquela investigação. Ouvira tão pouco do que ela falara ao telefone... Sentia falta de conversar sobre os casos com ela... Ok! Geralmente, acabavam discutindo. Mas Mulder sabia que ela, tanto quanto ele, considerava aquelas argumentações estimulantes e, em geral, ambos divertiam-se bastante com aqueles seus joguinhos de palavras. Rodaram por um tempo até que ela finalmente parou e saltou do automóvel. Pela conversa que entreouviu entre a parceira e um homem desconhecido, Mulder concluiu que deviam estar em um posto de gasolina fajuto no meio daquele imenso nada. Não arriscava sair de seu esconderijo para confirmar suas suspeitas. Além disso, a fome imensa que sentia o deixava enfraquecido. Seu estômago vazio roncava tanto e tão alto que ele não ouviu o restante da conversa entre Scully e o atendente do posto nem o momento em que ela ligou outra vez o carro e recomeçou a rodar. Somente o "cof-cof-cof-puf..." do motor engasgando e apagando conseguiu arrancá-lo de seu transe de fome. Scully ainda insistiu, girando a chave na ignição uma, duas, três vezes, mas o motor não dava sinais de vida. Mulder sentiu quando ela desembarcou do automóvel e começou a andar. Nesse instante, agradeceu aos deuses das baratas pela fato de ter-se escondido no blazer. Não tivesse se atrevido a deixar a segurança da sacola, iria com certeza perder a ação. A ruiva andou por um bom tempo, até que decidiu tirar o casaco e jogá-lo sobre os ombros. Isso deu a Mulder a oportunidade de esticar a cabeça para fora do bolso e espiar a paisagem desértica cortada por uma estradinha de terra batida. O sol a pino estava abrasador. Nenhum sinal de civilização a não ser os postes telefônicos perfilados nas margens da estrada. Aos poucos, foram surgindo uma dúzia de casas agrupadas numa pequena comunidade com cara de fim de mundo. Não havia ninguém do lado de fora, a não ser ele, Scully e o atendente idiota do posto de gasolina. Ela bufava quando dirigiu-se ao homem. - Ei! Você colocou algo em meu tanque que fez o motor pifar! - sua voz soava furiosamente controlada. - Como? - fez o homem, obviamente fingindo. - Onde está aquele latão de gasolina? Eu gostaria de vê-lo, por favor. - ela rosnou, enquanto saía caminhando. O atendente nervoso a seguia de perto. Mulder achou por bem voltar ao seu esconderijo. - Água! - ele a ouviu gritar. - Não tem nem cheiro de gasolina aqui... - ela continuou furiosa. - Isso, Scully! - comemorou Mulder, aplaudindo com suas anteninhas. - Coma o fígado desse safado! - incentivou enquanto ela andava, batendo os pés com força na terra e esbravejando com o homem. - Vou usar seu telefone. - ordenou a ruiva. - Eu não tenho telefone... - gaguejou o homem. - Mas há um na casa do Sr. Milsap, ali adiante... Sem mais uma palavra, Scully virou as costas ao idiota e subiu a rua. Pelo barulho de seus passos na areia e a maneira brusca como expirava, Mulder podia afirmar com segurança que ela estava para lá de furiosa. Ele sabia bem o quanto ela podia ser perigosa naquele estado de espírito. Encolheu-se bem no fundo do forro onde se escondia, imaginando que trágico destino seria o seu se fosse encontrado por uma Scully zangada como aquela. A súbita amenizada na temperatura e na claridade e o "tac- tac" característico dos saltos dos sapatos de Scully num piso de madeira denunciaram que ela havia chegado à tal casa onde havia o telefone. - Olá? - chamou. - Sr. Milsap? - Posso ajudá-la? - soou uma voz masculina, cujo tom, apesar de gentil, fez acender uma luz de alerta na cabeça de Mulder. - Espero que sim... Meu carro enguiçou e eu... pensei que talvez pudesse usar seu telefone. - disse Scully, um pouco mais calma. - Claro! Aqui está! - respondeu o homem numa voz que era só sorrisos. E dissimulação, para os ouvidos desconfiados de Mulder. Talvez o tal Milsap fosse um bom velhinho como sua voz inicialmente queria fazê-lo parecer. Talvez fosse a fome impressionante que fizesse Mulder ouvir fingimento e dissimulação por toda parte. Talvez estivesse virando uma barata paranóica... - Está mudo... - Scully soava desapontada. - A maldita companhia telefônica está modernizando as linhas. Deve estar sendo consertado logo. - Quando? - bufou, irritada, a ruiva. - Dez minutos... Duas horas... Quem sabe? Mas seja bem vinda a esperar aqui. - dizia a voz sempre simpática do homem. - Posso dar-lhe um quarto, se quiser... Minha casa é uma pensão. - aos ouvidos de Mulder, a interpretação do velhinho gentil e bonzinho fazia jus a um Oscar. - Qual é, Scully? - sussurrou a barata para sua parceira. - Você vai se deixar enganar por este farsante? - O que diabos está acontecendo aqui? - a ruiva estava novamente furiosa. - Tenho a nítida impressão de que alguém não quer que eu vá embora! - Isso, Scully! Arrase com ele! - incentivava Mulder de seu esconderijo, enquanto ela saía da casa outra vez. O calor era tão forte que obrigou Mulder a encolher-se mais ainda. Um calafrio percorreu o corpo de Scully. - São dezoito milhas até a rodovia e mais vinte até Sugarville... - gritou o homem, enquanto Scully caminhava decidida pela estradinha de terra. - Você não vai querer andar tudo isso... O calor era intenso demais. O chão de terra batida irradiava ondas de calor que davam a impressão de que tudo até um metro de altura do solo estava distorcido. O forro do casaco parecia um forno. - É... O homem deve ter razão, Scully. - disse Mulder, como se ela o ouvisse. - É muito longe... e está tão quente aqui fora... - a fome, que o enfraquecia, fazia com que seus ouvidos zumbissem e a cabeça rodasse. - Por favor, senhora... - a voz de Scully soava cada vez mais distante. - Preciso de ajuda... - Eu também... - falou Mulder antes de perder a consciência. PARTE IV - O Prisioneiro de Zenda "Ooohmmmm..." Um zunzum de vozes baixo e constante invadiu os ouvidos de Mulder. Sua audição super sensível distinguia umas poucas palavras aqui e ali naquele canto ou ladainha. Falavam de Deus e de anjos e do Escolhido. Ok! Ele havia morrido e fora para o paraíso das baratas. Sim, porque, enquanto barata, nada fizera para merecer menos que o paraíso. Além de tudo, morrera de fome, ainda sentia os ecos da inanição em seu estômago. Entretanto, não queria abrir os olhos. Não gostava da idéia de estar morto, com Scully precisando tanto dele lá na Terra... O simples pensamento em Scully provocou uma completa explosão sensorial em Mulder. O aroma de seus cabelos tomou conta de seu olfato, o som de sua respiração e mesmo das batidas compassadas de seu coração chegou forte a seus ouvidos. Ele apertava os olhos com força e choramingava, "Não quero morrer, não quero morrer..." E, então, o paraíso foi sacudido por um terremoto. - Ei! Não há terremotos no paraíso, eu acho... - disse a si mesmo, forçando-se a abrir os olhos. E lá estava ele, no forro do casaco de Scully, de onde não havia saído o dia inteiro. Que bom! Estava vivo! E novamente seu estômago roncava alto, implorando por comida. Que droga! Ainda tinha fome! Precisava achar algo para comer rápido, antes que toda aquela estória sobre morte e paraíso se tornasse realidade. Concentrou-se. A respiração de Scully era calma e pausada. Ela dormia. Mulder ousou, então, sair do abrigo. O blazer estava jogado sobre uma velha cama de ferro aos pés de Scully que cochilava recostada em sua cabeceira, a arma na mão. Mulder concluiu que estavam na casa de Milsap e que o telefone não havia sido consertado. Mesmo adormecida, Scully tinha um ar triste e cansado. O que não era de surpreender, dado o tanto que ela havia sido obrigada a andar sob o sol escaldante naquele dia. Cuidadosamente, Mulder desceu da cama e foi à caça. Estava tão zonzo de fome que seu centro de gravidade móvel botava a perder toda a prática adquirida com o tempo passado naquela nova forma e lhe pregava peças, deslocando-se em ziguezague pelo corpo ovalado. O quarto não era mesmo nenhum exemplo de limpeza, o que levava a crer que não deveria ser difícil haver algo comestível perdido em algum canto. Dito e feito. Não muito distante do ponto onde alcançou o chão, sob a cabeceira da cama, havia generosos restos de batatas fritas e biscoitos amanteigados. Um banquete como qual Mulder matou a fome de séculos de restos light do apartamento da parceira. Saciado, decidiu investigar um pouco. Tratava-se, de fato, de algum tipo de pensão, sobre isto Milsap não estava mentindo. Havia restos os mais variados pelos cantos e sob os móveis. Biscoitos, lenços Kleenex sujos, camisinhas usadas... Provavelmente a pior espelunca onde ele e Scully já haviam passado a noite. E eles eram exímios conhecedores de espeluncas por todo o interior do país... As frestas do assoalho de madeira dificultavam um pouco sua caminhada. Por uma delas, tão larga que Mulder quase caiu, pôde observar de onde vinha a ladainha que o despertara. No quarto, logo abaixo do que estavam, havia duas dúzias de pessoas, com velas e candeeiros nas mãos, ajoelhadas em torno de uma cama, rezando. Sobre a cama, jazia um rapaz forte, mas com aspecto doentio. Tinha os cabelos grudados de suor e as feições muito pálidas e contraídas como se sofresse grande dor. Da cabeceira, um compenetrado Milsap parecia coordenar as orações, quase que em transe. Muito estranho! Um ranger de molas causou um sobressalto em Mulder. Scully acordara e olhava fixamente para o exato ponto onde ele estava. Apesar de estar bastante escuro naquele canto, ele teve a certeza de que ela o enxergava nitidamente. Quis correr, mas algo o impedia, uma moleza nas perninhas minúsculas. Não conseguia fazer nada a não ser fitar os grandes olhos azuis e esperar pela chinelada fatal. Tampouco Scully fazia outra coisa que não fosse simplesmente fitá-lo nos olhos. E, outra vez mais, ele teve a impressão de ler no azul do olhar da parceira um flash de reconhecimento e compaixão. E depois tristeza, uma enorme tristeza dominou todo seu semblante. O coração de Mulder batia forte e descompassado e não era de medo. Tinha as pernas bambas e seus olhos pareciam presos aos dela. - Sou eu, Scully! Mulder! - ele queria gritar. Mas ela não entenderia. Mulder teve a impressão de ver o brilho furtivo de uma lágrima no canto do olho dela. Queria aproximar-se da cama, envolvê-la nos braços, confortá-la. Mas não tinha ilusões. Era somente um inseto repulsivo e o máximo que conseguiria arrancar de Scully seria um grito ou um pisão. Um momento depois, a mágica pareceu desfazer-se. Scully olhou em direção à janela e fungou e deu de ombros levemente. Então, ajeitou o travesseiro onde estava recostada e apertou a arma entre os dedos e esperou. Não muito tempo depois, havia adormecido outra vez. Mulder sentiu-se tão vazio, tão sem esperanças que se deixou ficar onde estava, imóvel, largado. Não queria voltar ao forro do casaco. Não tinha o direito de ficar perto de Scully. Estava resolvido a terminar sua existência como uma barata solitária. Havia desperdiçado todas as oportunidades que a vida lhe oferecera para dizer às pessoas que realmente importavam o quanto significavam para ele e agora estava claro que não haveria mais outras chances. Merecia ser borrifado com todo o inseticida do mundo. Merecia ser esmagado contra as tábuas do chão até ser reduzido a uma massa abjeta. Na verdade, o desejava, naquele exato momento. Porém, por alguma razão que apenas os deuses das baratas poderiam explicar, viu-se compelido a rastejar de volta à cama, arrastando pesadamente atrás de si seu centro de gravidade. Bamboleava e tombava para um lado e para o outro, como se as forças faltassem às suas pernas. Mas seguia adiante, mesmo sem saber porquê. Um século depois, o dia clareava do lado de fora, conseguiu chegar ao topo da cama. Num rasgo de insanidade, Mulder escalou a sola das botas de Scully, postando-se na ponta de um de seus pés. Ela dormia, ainda recostada na cabeceira da cama, as mãos pousadas na arma em seu colo. Ele a observou por alguns instantes, a boca entreaberta, a cabeça ligeiramente tombada para frente, um raio alaranjado do sol nascente emprestando reflexos incandescentes aos cabelos ruivos. Era tão raro vê-la assim relaxada, tranqüila, a guarda abaixada, despida da máscara de impassibilidade. Era bela, tão bela... Mulder sentia que precisava dizer a ela tudo o que trazia entalado no peito por oito longos anos. Já não havia muito o que perder, portanto resolveu arriscar tudo o que ainda possuía, sua própria vida. Atreveu-se a descer das botinas e percorrer todo o caminho desde a ponta de seus pés até seu ombro direito, atravessando toda extensão das pernas estendidas sobre a cama, subindo pelo abdômen e pelo peito que moviam-se lentamente no compasso de sua respiração, até alcançar seu destino. Durante todo o percurso, sabia-se um alvo fácil, tinha plena consciência do horrendo destino que sua ousadia podia lhe custar. Mas não hesitou, vencendo bravamente as rugas do tecido, as curvas e inclinações do corpo adormecido. Talvez, em seu subconsciente, ansiasse por aquele desfecho, que Scully acordasse e tornasse real o pesadelo constante de um fim indigno que o assombrava. Talvez fosse exatamente isso o que buscava. Mas não foi o que obteve. Ela continuou adormecida e ele galgou seu ombro corajosamente. Daquele ângulo, sentiu-se como já havia se sentido diversas vezes antes, pequenino e insignificante diante dela. Mas o que antes era uma impressão causada pela postura da parceira, naquele instante era uma dura realidade. Ele era um minúsculo inseto e ela, uma gigante adormecida com o poder de esmagá-lo até a morte com apenas um dedo. Mas nada disso vinha ao caso, não naquele instante. Precisava dizer o que sentia. Mesmo que ela não compreendesse. - Olha, Scully... tenho tanto a dizer... - começou. - Como eu gostaria que você pudesse entender o que digo... - Escolher as palavras certas nunca fora sua especialidade. - Em todo esse tempo em que estamos juntos... e mesmo antes... nunca houve alguém que... que significasse tanto para mim quanto você... - gaguejava, suspirava, falava por metáforas. Era tão difícil... - Você foi, com certeza, a primeira... e a única pessoa em quem tive completa confiança. Não desde o primeiro momento, é verdade... mas, naquela noite, no Oregon... quando você entrou no meu quarto no meio da noite... apavorada por causa de umas picadas de mosquito... - a lembrança o fez sorrir consigo mesmo. - Foi diferente... Não se pode deixar de confiar em alguém que se apavora com mosquitos... Em meio ao sono, Scully sorriu, também. Como se entendesse. Aquilo encheu Mulder de coragem para prosseguir. Ela estava ouvindo! E compreendia! - Se algumas vezes escondi coisas de você... quero que saiba que não foi por falta de confiança... mas para poupá-la do sofrimento... Me destrói por dentro vê-la sofrer, Scully. E já causei tanto sofrimento a você... Sua abdução... Melissa... o câncer... Emily... a impossibilidade de ser mãe... - se baratas tivessem canais lacrimais, Mulder estaria com os olhos rasos d'água naquele instante. - Queria que você me perdoasse, Scully... Por tudo o que fiz e disse... e não fiz e não disse... - um nó se formara em sua garganta, dificultando ainda mais o fluxo das palavras. - Preciso de seu perdão... de sua amizade... Preciso tanto de você, Scully... O semblante adormecido da ruiva adquiriu uma expressão terna e suave, quase tristonha. - Porque... tem uma coisa que preciso dizer a tempos... mas não sei muito bem como... No sono, a sobrancelha da mulher arqueou-se inquisitiva, compelindo Mulder a prosseguir. - É tão difícil quando a gente cala um sentimento desses por tanto tempo... É como se as palavras enferrujassem na garganta... - ele respirou fundo, tomando coragem para continuar. - É que eu... eu.. eu amo você! - disse de súbito, no exato momento em que fortes pancadas sacudiram a porta. Scully despertou assustada, erguendo a arma e a apontando para a porta. Mulder, sacudido pelo despertar agitado da parceira, teve que segurar-se com toda força de suas patinhas no tecido da camisa para não cair. Estava definitivamente frito agora! Milhas e milhas o separavam da segurança de seu abrigo no bolso do casaco. "Bem feito, Mulder! Agora vai se dar mal.", disse a si mesmo com ironia. Mas uma idéia louca acudiu sua cabeça quando a parceira caminhou para a porta. Como uma flecha, ele enfiou-se por trás da gola da camisa verde oliva que ela vestia, desaparecendo de vista. - Doutora, é uma emergência. - a voz de Milsap soava assustada. - Há um homem lá embaixo que precisa de ajuda. Mulder precisava agarrar-se com toda força para manter-se firme em seu novo esconderijo. Cada movimento da ruiva resultava num desafio para que mantivesse o controle sobre seu traiçoeiro centro de gravidade. Ele mal conseguia prestar atenção à conversa entre Scully e os outros. - Precisamos levá-lo a um hospital. - ela dizia, provavelmente referindo-se ao rapaz doente que Mulder vira na noite anterior. - Acredito que o telefone ainda não esteja funcionando... E ninguém por aqui tem um carro? - Não. - respondeu uma voz feminina desconhecida. - Podemos mandar alguém a pé até a rodovia para pedir ajuda. - sugeriu Milsap. - Enquanto isso, por favor, ajude-o. - acrescentou a mulher estranha. Ao examinar o doente, porém, Scully começou a mover-se um pouco demais para o precário equilíbrio do parceiro. Foram tantos os abaixa-e-levanta a sacudirem a camisa que, num dado momento, ele deixou escorregarem por entre as patas as minúsculas dobras de tecido onde se firmava e acabou por cair esparramado no chão, atrás da ruiva. Por sorte, sua queda não foi percebida nem por Scully nem pela mulher gorda com cara de má que zanzava em volta da cama. Por ainda mais sorte, não foi esmagado por uma das solas de sapato desavisadas que perambulavam pelo quarto. A proteção que os deuses das baratas lhe conferiram espontaneamente durante todo o tempo em que esteve desamparado naquele chão foi enorme. Quando, enfim, conseguiu recuperar o controle dos movimentos, tratou de correr o mais rápido que pôde para o abrigo oferecido pela cama. Somente então pôde voltar a dedicar sua atenção ao que acontecia naquele quarto. A gorda havia deixado o cômodo e o doente recobrara a consciência. - A ferida em suas costas, - dizia Scully, - parece ser o ponto de entrada de algum tipo de parasita que se alojou ao longo de sua espinha... - Quer dizer que estou morrendo? - indagou o doente em voz débil. - Vai morrer... se não o tratarmos adequadamente. - Scully soava fria como uma maldita médica. Por que os médicos tinham de ser tão insensíveis? Por que insistiam em tratar seus pacientes como se não passassem de baratas? - E essa gente parece não querer deixá-lo partir. Acho mesmo que eles colocaram essa coisa em você. Nenhuma palavra deixou os lábios do rapaz após uma afirmação tão grave como aquela. Aquilo parecia estranho demais a Mulder, fazia acender uma porção de luzes de alerta em sua cabeça. Mas Scully continuava falando, alheia aos sinais de perigo. - Não tenho idéia do porquê eles o fizeram, se fazem parte de alguma seita religiosa bizarra... - ela dizia. - O fato é que mataram a última pessoa que estava nas mesmas condições que você e temo que irão matá-lo também. - acrescentou. - Isso não é maneira de se falar com uma possível futura vítima de assassinato, Scully! - espinhou-se Mulder. - Não foi assim que ensinaram na academia... Cadê sua psicologia? - protestava. Mas a tal possível vítima reagiu de modo ainda mais inadequado, se isso lá era possível. - O que você está dizendo é difícil de engolir. - foi a resposta do rapaz, agora com uma voz bem mais forte que em sua fala anterior. Nenhum sinal de desespero. Nada de gritos ou lágrimas. Era como se ele já soubesse de tudo antecipadamente e aceitasse as possibilidades como certezas. Um milhão de luzes vermelhas e sirenes de perigo pipocaram na mente de Mulder. - É um engodo, Scully! Cuidado! - Mulder gritava, tentando alertar a parceira. - Eles estão todos juntos nisso. Milsap, a gorda, esse cara aí na cama... - O que você vai fazer? - perguntou o farsante doente. - Vou tentar nos tirar daqui... - ela respondeu. - Deve haver algum meio de transporte escondido por aí... - Scully, cuidado! Preste atenção! É a você que eles querem, não percebe? Eu sei... eu sinto... - em seu desespero, Mulder chegou a sair de baixo da cama e parar a um centímetro das pontas dos sapatos da ruiva, gritando nervosamente. Mas ela não o ouvia. Scully andou até a janela e a abriu. Em seguida, pareceu lembrar-se de algo e voltou até a cama. - Você sabe usar uma arma? - ela perguntou ao rapaz, tirando sua pistola do coldre e a entregando a ele. - Você está louca, Scully? - Mulder protestava. Não podia crer no que ouvia. - Não faça isso. Ele não é confiável. - em seu desespero, ele escalou o peito do sapato de Scully e agarrou-se com força à barra de sua calça, como se não quisesse deixá-la prosseguir. - Não posso deixá-la ir sozinha... Vou com você! - Volto já! - disse a ruiva, enquanto pulava a janela. Mulder, agarrado à barra de sua calça, não resistiu, porém, à série de sacolejos bruscos da perna da parceira durante esse movimento e acabou por ser atirado longe, de volta ao quarto. Um momento depois, uma batida foi ouvida na porta e Milsap e a mulher gorda estavam de volta. - Onde ela foi? - indagou a mulher. - Ela disse que estou morrendo. - respondeu o rapaz em voz firme. Milsap e a gorda entreolharam-se significativamente. - Precisamos de outra troca. - acrescentou o doente, ao ser ajudado a erguer-se da cama pela dupla. Sentindo-se o mais impotente dos insetos, Mulder deixou-se ficar onde havia caído, enquanto os três saíam do quarto. O fosse lá o que fosse que o rapaz carregava em seu corpo precisava de um novo hospedeiro e aqueles loucos haviam escolhido Scully! Pior do que saber o que estava para acontecer, era a sensação de não poder fazer absolutamente nada para impedi-los. Mulder queria poder transformar-se num daqueles gigantescos e ameaçadores insetos dos filmes de sci- fi e avançar sobre aqueles lunáticos agitando as patas e brandindo as mandíbulas até fazê-los correr aterrorizados. Mas qual nada! Era apenas uma baratinha insignificante e Scully, sua Scully, estava lá fora, desarmada, indefesa, completamente à mercê daquele bando de fanáticos religiosos. PARTE V - No Calor da Noite Um milhão de anos se passaram para um Mulder consumido pelo desespero e escondido no chão sujo e poeirento sob a cama de um quarto de uma pensão decadente em um lugarejo perdido entre nada e lugar nenhum no meio do deserto de Utah. Ele apurava os ouvidos, tentava se fazer valer de seus superpoderes de barata, de sua audição ultra aguçada para captar algum sinal de Scully. Mas tudo o que conseguia ouvir eram as marteladas surdas de seu próprio coração, batendo como um louco, em agonia. Fora isso, apenas o silêncio da noite que caía. Quando, por fim, algo aconteceu para quebrar a inquietante monotonia da espera, a porta escancarou-se e ele viu Milsap e o atendente do posto trazendo Scully, sustentada pelos braços, para o quarto. Mulder não pôde ver-lhe rosto. A cabeça estava tombada sobre o peito, os cabelos ruivos cobriam-lhe a face. Os pés não se moviam, arrastados atrás do corpo inerte. Desacordada. Talvez morta. Os homens a colocaram sobre a cama e ela gemeu alto. Mulder respirou, aliviado. Andaram em torno da cama por algum tempo e, depois, afastaram-se. Milsap e os outros olhava para a mulher estendida na cama como que em adoração, as mãos postas em oração. - Malditos! - bradava Mulder debaixo da cama, agitando as patinhas como se quisesse bater neles. Sobre a cama, Scully gemia e ofegava, como se fosse presa de grande dor. Cada gemido gutural que ela emitia doía em Mulder como uma facada. - O que vocês colocaram, em mim? - ela gritava, dolorosamente. - Vou pegá-los a todos, seus bastardos... - ameaçava impotente. - Não. Você vai nos amar. - replicava Milsap, as mãos sempre postas em oração. - Vai nos proteger, nos ensinar a não ter inveja... Mas eu a invejo tanto... Em breve, vai ser uma só com Ele... - dizia com êxtase nas palavras. - Ele? - grunhia a ruiva. - Essa coisa em minhas costas é um Ele? - ela gritou dolorosamente, remexendo-se e fazendo rangerem as molas da cama. - Por favor! É uma coisa maravilhosa para você... - contemporizava suavemente Milsap. - O último homem não era um tabernáculo adequado... Uma raiva surda dominava Mulder. Tabernáculo? Queria acabar com aquele Milsap e seus amaldiçoados seguidores. Delirava em ser um gigante e esmagá-los a todos, em ter uma arma carregada de balas para tão somente descarregá-la sobre aqueles lunáticos. E em poder levar Scully dali para algum lugar onde ela pudesse ser tratada adequadamente. - Socorro! Socorro! - gritou Scully, quando os faróis de um automóvel iluminaram a janela. Mas a gorda, de alguma forma, a fez calar. E saiu do quarto acompanhada por Milsap. Cego de angústia, Mulder deixou seu esconderijo e escalou o pé da cama até o colchão, sem perceber que o atendente idiota do posto de gasolina permanecera no quarto, vigiando Scully. - Malditos, malditos, malditos! - gritou a plenos pulmões ao ver Scully deitada, braços e pernas abertos e atados aos ferros da cama, a barriga de encontro ao colchão. Havia uma ferida circular na base de sua espinha e algo movia-se ao longo dela, por sob a pele. Todo seu corpo, coberto por uma fina camada de suor, refletia o brilho amarelado dos lampiões. Um lenço enfiado em sua boca a impedia de gritar. Ela começou a espernear como uma louca, quase esmagando Mulder que caminhava sobre o colchão, até que conseguiu atingir com um dos pés um lampião colocado numa mesa baixa ao pé da cama. O homem, que espiava pela janela o que quer que estivesse se passando na rua, teve de lutar rapidamente para impedir que as chamas se alastrassem. Enfim, o atendente obteve sucesso e, embora Mulder não o tivesse notado, tinha agora o olhar fixo naquela atrevida barata parada a poucos centímetros de onde repousava o "tabernáculo d'Ele". Pura heresia! Talvez por causa de sua tão grande preocupação com a baratinha herética, ele não tivesse notado a entrada do homem de cabelos louros no quarto. - Ei... - soou a voz do estranho, atraindo a atenção tanto de Mulder quanto do atendente pateta que se voltou para receber um fortíssimo soco do outro e cair inconsciente. - O que diabos...? Agente Scully! O estranho conhecia Scully! Com uma expressão entre preocupada e carinhosa, ele retirou o lenço que tampava a boca da ruiva. - Agente Doggett! Me tire daqui! E Scully o conhecia! Doggett? Mulder não se lembrava de conhecer ninguém com esse nome no Bureau. Quem seria aquele Doggett? - Você pode andar? - perguntou o homem, enquanto desatava os nós que prendiam Scully. Antes que Doggett alcançasse os pés de Scully, Mulder tratou de agarrar-se às calças dela com toda a força de suas patinhas e mais o quanto pôde aplicar da força de suas mandíbulas sem rasgar o tecido. - Não sei... - respondeu a ruiva entre gemidos. Prontamente, Doggett a tomou nos braços, erguendo-a com facilidade da cama. Mulder não conseguia ver muito do que se passava, concentrado que estava em manter-se firme em seu posto. Tudo o que podia afirmar era que haviam deixado a casa de Milsap e caminhavam pelas sombras de uma noite escura, seguindo instruções esparsas de Scully. Ela parecia sentir muita dor, emitindo grunhidos sofridos de vez em quando. Às vezes, de relance, Mulder podia entrever as feições de Doggett e sua expressão era atenta e gentil. Seus olhos tinham um brilho diferente quando olhava para Scully, um brilho que não agradava Mulder em absoluto. A barata paranóica voltava à cena... Entraram em uma espécie de celeiro, onde, surpresa, estava o ônibus que haviam visto na estrada no dia anterior. Uma vez em seu interior, Doggett instalou Scully em um dos bancos da frente e agachou-se sob a barra de direção, manipulando um aglomerado de fios. De onde estava, Mulder podia observá-lo mexendo nos muitos fios com intimidade e confiança. Era um homem cujas linhas de expressão muito marcadas sugeriam estar na segunda metade dos quarenta. Os cabelos louros cortados rentes à cabeça ressaltavam um par de orelhas avantajadas. Sua expressão era o que normalmente poderia ser enquadrado como "típico tira de Nova York", rígida e sem emoções, do gênero prendo-e- arrebento. Exceto quando olhava para Scully. Nessas horas, as feições se suavizavam, as rugas tornavam-se menos profundas, parecia quase humano, completa transformação. Quem poderia ser aquele agente Doggett, surgido em meio ao nada, qual um cavaleiro de armadura cintilante para resgatar a princesa Scully em apuros? Não, Mulder não gostava do homem. - Pode fazer uma ligação direta? - soou a voz sofrida de Scully. - Posso fazer ligação direta? - Doggett ironizou confiante. - Em sessenta segundos. Quem diabos poderia ser aquele cara? Sua atitude, sua arrogância e auto-suficiência, seu jeito incômodo de olhar Scully... Tudo nele desagradava Mulder profundamente. Tinha ciúmes! Mas ciúmes de quê? Em seu relacionamento com Scully, não havia espaço para ciúmes. "Que relacionamento, Mulder? E, por acaso, o que você tem com Scully pode ser chamado de relacionamento? Caia na real, bolas!" Suas divagações sentimentalóides foram interrompidas por um gemido alto da parceira. - Agente Scully... Fale comigo! - Doggett falou assustado. - Você tem que tirar isso fora. Corte! - a mulher tinha a respiração entrecortada. Sua voz estava surpreendentemente aguda. - Oooh! Está indo para o meu cérebro... Mulder precisava ver o que estava acontecendo. Sem pensar, escalou a perna da calça da parceira e depois a parede ao lado do banco. E a visão que teve o surpreendeu e desesperou. A criatura movia-se debaixo da pele de Scully em direção a sua cabeça. Em agonia, ela tentava impedir-lhe o avanço, apertando o pescoço com as mãos. Doggett, parado ao lado do banco, olhava atônito os movimentos da coisa pelas costas da mulher. - Tire essa coisa de mim... Agora! - gritou a ruiva. Mas Doggett continuava paralisado, o canivete aberto na mão. As mãos de Scully apertavam com força as ferragens do ônibus, os nós dos dedos claramente desenhados contra a pele retesada. - Droga, Doggett! Faça o que ela está pedindo! - berrou Mulder para o homem. Milsap e seus seguidores já haviam invadido o celeiro e tentavam entrar no ônibus, quando Doggett, finalmente, fez uma incisão na pele na base do pescoço da mulher e de lá retirou um verme esbranquiçado. Era comprido e repulsivo e contorcia-se tentando escapulir das mãos do agente. Os fanáticos já haviam quebrado os vidros das janelas e entravam no coletivo, ameaçadores, portando facões e ancinhos e... armas de fogo. - Mate esta coisa, seu idiota! - gritou Mulder. - Só assim eles vão parar. Como que atendendo ao comando de Mulder, Doggett atirou a criatura no fundo do ônibus e sobre ela descarregou três tiros, apontando, a seguir, a arma para Milsap. Mas o outro já não era mais combativo, devastado que estava diante do corpo sem vida d'Ele... Mulder voltou o olhar para Scully que parecia prestes a desmaiar, extremamente pálida, a pele perolada por um suor frio. - Ela precisa de cuidados! - gritou para Doggett. - Faça alguma coisa! O agente, depois de guardar a pistola no coldre, envolveu Scully em seu paletó e a ergueu nos braços, atravessando o bando de fanáticos, agora silenciosos e resignados. Mulder mal teve tempo de se atirar de onde estava, agarrando-se à manga do paletó de Doggett, para não ser deixado ali. Com sacrifício, conseguiu escalar o tecido até atingir uma posição de onde podia ver o rosto exangue da parceira e a expressão apreensiva de Doggett. As luzes dos carros de polícia rapidamente iluminaram a névoa baixa que envolvia a estradinha. Doggett dirigiu-se a um dos automóveis parados, depositando Scully gentilmente no banco traseiro, onde acomodou-se também. - Para o hospital, rápido! - ordenou ao policial. Mulder, que aproveitara a distração do agente para esconder- se em um dos bolsos de seu paletó, observava a mulher desacordada, a cabeça pendendo mole sobre o encosto do banco. Uma mecha dos cabelos ruivos deslizava de um lado para o outro sobre sua face de acordo com o balanço do automóvel. - Tire suas mãos imundas dela, seu orelhudo! - ralhou Mulder furioso, quando Doggett delicadamente ajeitou a mecha de cabelos vermelhos para o lado. - E esses olhos compridos, também. Senão parto sua cara ao meio... - ele definitivamente não gostava daquele camarada. O que se seguiu, depois que chegaram ao hospital, foi confuso demais para um Mulder que não podia atrever-se a colocar a cabeça para fora do bolso onde estava. A fome imensa de um dia inteiro sem comer o deixava meio zonzo. Tudo o que conseguiu saber com certeza foi que Scully estava bem e fora de perigo. Em algum momento, em sua confusão, percebeu que os sacolejos e trambolhões pelos quais o paletó vinha passando haviam cessado. Podia ouvir o ronco do motor de um automóvel. Ousou espiar o lado de fora e percebeu que estava outra vez mais no banco traseiro de um carro e que, ao lado, também sobre o banco, estava a sacola de viagem de Scully. Com um agradecimento silencioso aos deuses das baratas, voltou à segurança da bolsa pela mesma fresta no zíper pela qual havia saído dois dias antes. Encontrou um abrigo confiável em um canto da sacola e lá se deixou ficar, faminto, apático, enfraquecido, à espera da morte, mais uma vez. Porém, para sua surpresa, e decepção talvez, foi despertado, não fazia a mínima idéia de quanto tempo depois, pelos movimentos das mãos de Scully desfazendo a mala. Encolheu-se, esgueirou-se, escondeu-se e, quando ela, enfim, guardou a sacola no armário, Mulder pôde voltar ao seu abrigo sob a mesinha de cabeceira e à sua velha rotina de baratinha doméstica. PARTE VI - Sonata de Outono Durante os dias que se seguiram, Fox Mulder dedicou-se com afinco a empanturrar-se de tudo o quanto pudesse comer. Nas horas vagas entre as refeições, usava de suas habilidades de barata para grudar-se ao vidro da janela, observando a vida que passava lá fora. Olhava o céu azul sem nuvens e as folhas que amarelavam e caíam das árvores. Imaginava o sopro frio da brisa em seu rosto e os cheiros do outono em suas narinas e o canto dos pássaros em seus ouvidos. Sempre gostara da melancolia característica do outono, daquela certeza de que, após o inverno tristonho e sombrio, aguardava a radiante primavera. Mas os últimos tempos para Mulder, estavam sendo como um longo tenebroso inverno e não havia perspectiva de que a primavera jamais ocorreria novamente. Sentia-se um condenado no corredor da morte, uma vítima de doença terminal, aguardando a derradeira crise. Outra atividade que consumia boa parte de seus dias era passar horas tentando descobrir quem diabos poderia ser o tal Doggett e qual seu relacionamento com Scully. Havia até mesmo mandado às favas os escrúpulos. Bisbilhotava abertamente a correspondência da parceira e ficava à espreita ouvindo-lhe os telefonemas. Mas pouco conseguira descobrir a não ser que ele próprio, Fox Mulder, clone ou não, parecia ter sumido do mapa. Não havia mais telefonemas no meio da madrugada ou visitas fora de hora. A vida de Scully tornara-se um tédio! Ao menos, ela parecia ter melhorado do que quer que a fizera passar mal e vomitar nas primeiras semanas em que Mulder fora morar em seu apartamento. Embora continuasse pálida e nitidamente angustiada, ganhara algum peso e seu rosto apresentava bochechas salientes, novamente, coisa que não acontecia desde antes de sua abdução. Aquilo, de certa forma, tranqüilizava Mulder que chegara a temer pela volta de seu câncer. Quando já se sentia novamente recuperado e forte o suficiente, ele voltou a infiltrar-se num dos bolsos da ruiva e, com ela, saiu para o mundo exterior. Sua primeira saída o conduziu direto até os porões do edifício J. Edgar Hoover, o escritório dos arquivos X. "Meu escritório", ia dizendo saudoso, quando viu, sentado em uma das mesas, com intimidade e naturalidade, o tal Doggett. - Bom dia, Agente Scully! - disse o outro com um sorriso. - Bom dia, Agente Doggett! - ela respondeu. Num segundo, o já tumultuado mundo de Mulder precipitou-se em um profundo caos. Havia perdido seu posto nos arquivos X! E o orelhudo o havia assumido em seu lugar. - Não pode ser verdade. Isso não está acontecendo! - choramingou Mulder, amargo. Mas Scully sentou-se na outra mesa, como se aquilo tudo já fosse um hábito, e começou a tediosa tarefa de preencher papelada. Do fundo do bolso, entre um soluço e outro, Mulder ouvia cada ruído provocado por Doggett. O ranger de sua cadeira, o arranhar do lápis sobre o papel, o som de sua respiração, tudo o que ele fazia chegava amplificado um milhão de vezes aos ouvidos super sensíveis da baratinha e incrementava sua irritação. Scully continuava ali, sentada, "clique-clique-clique" nas teclas do computador, completamente alheia aos sons enervantes produzidos pelo homem. "Como é que ela consegue?", Mulder imaginava. "Aquele verme nojento deve ter destruído alguns de seus neurônios...", ironizava, embora, ao mesmo tempo, não deixasse de preocupar-se. Mal sabia Mulder que o pior ainda estava por vir. A gota d'água, a afronta final. O barulho de Doggett abrindo as gavetas de seus sacrossantos arquivos X! Heresia! Profanação! Danação e fogo do inferno! Morte aos infiéis! - Tire suas patas sujas dos meus arquivos, seu orelhudo de uma figa! - gritou Mulder com toda força, dando vazão a sua ira. - Como? - Doggett perguntou intrigado a Scully. A ruiva levantou a cabeça ligeiramente. - Ahn? - fez sem entender. - O que você disse, agente Scully? - indagou Doggett, desconcertado. - Eu? - respondeu, olhando para ele espantada. - Eu não disse nada... A expressão de Doggett era de incredulidade. - Podia jurar que ouvi alguém me dizendo para tirar as mãos dos arquivos... - disse ele confuso. Depois, deu de ombros. - Devo estar imaginando coisas... Scully sacudiu a cabeça com um sutil ar de desdém e voltou a mergulhar em sua papelada. Mulder, a baratinha, no fundo do bolso, não sabia se chorava ou se ria da situação que havia criado. Ao menos, o outro parecia tê-lo ouvido, já que fechou rapidamente as gavetas e saiu da sala. Havia vencido a batalha. Mulder, no entanto, tinha consciência de que aquela era apenas uma batalha em uma guerra perdida. Apesar do choque inicial de ter um estranho remexendo no que considerava os seus arquivos, ele rapidamente percebeu o absurdo que representavam seus ciúmes. Ele, Fox Mulder, como o mundo o conhecera, não mais existia, era história. O que havia agora era John Doggett, o novo parceiro de Scully, a cargo de ajudá-la, ao que tudo indicava, com os arquivos X. Não havia o que discutir ou contra quem se revoltar. Era uma questão de aceitar as coisas como estavam ou aceitar as coisas como estavam. Ponto final. Fox Mulder, ex-agente do FBI, expert em traçar perfis de assassinos seriais, destemido caçador de alienígenas e conspirações governamentais, atual integrante da família dos Blatídeos, passara à categoria de observador mudo e passivo das ações de Dana Scully e John Doggett. Embora, talvez pudesse dar um palpite ou outro, de vez em quando. Foi nessas condições que os acompanhou durante aquele caso dos irmãos exterminadores, no qual o estranho Randall Cooper podia ver através das paredes. E assim também na investigação que os conduziu ao ferro-velho, em Indiana, que servia como depósito de resíduos tóxicos. Mulder postava-se como um mero espectador, assistindo a tudo de sua privilegiada posição no bolso de Scully. Emitindo, vez por outra, palpites e opiniões, quase sempre solenemente ignorados pelos agentes. Mas, às vezes, muito mais escassas vezes do que ele gostaria, Scully parecia ouvi-lo, repetindo as coisas que ele mesmo teria dito. E, nessas raras ocasiões, eram uma dupla novamente. De resto, seguia a vida. Mulder encarava Doggett como um mal necessário e procurava aproveitar ao máximo suas incursões ao mundo exterior, tentando divertir-se ao acompanhar a ruiva nas investigações. Mas nem sempre saía com ela. Em ocasiões demais, os dedos da parceira esbarravam em suas anteninhas de barata. E, em mais vezes do que ele gostaria de lembrar, quase havia ficado para trás quando atrevera-se a deixar a segurança de seus bolsos. Por isso, ele achava por bem nem sempre acompanhá-la. Não era conveniente arriscar-se em excesso. Outras vezes, não a acompanhava simplesmente porque uma vozinha em sua cabeça, quem sabe sua consciência ou seu anjo da guarda ou a voz da razão, lhe dizia para não ir. E ele ficava em casa, vendo a vida passando lá fora pela janela e remoendo as mágoas do pouco de que podia se recordar de sua vida. Numa dessas ocasiões em que ficara em casa, descobriu satisfeito o desavisado controle remoto da TV esquecido sobre o sofá. Nem pensou duas vezes antes de pular sobre o botão de "Liga". Surpreendentemente, o aparelho ligou-se e Mulder matou as saudades dos tempos em que passava as tardes zapeando pelos canais. Embora fosse um tanto cansativo ficar pulando de um lado para o outro sobre os botões do controle, teve uma das tardes mais agradáveis desde que assumira sua nova condição de inseto. Quando calculava faltar cerca de meia hora para o retorno de Scully, ele cuidadosamente desligou a TV e voltou ao seu esconderijo oficial sob o criado mudo. O dia seguinte amanheceu tão frio e chuvoso que pareceu a Mulder que ficar no aconchego do lar seria o melhor a fazer. Melhor ainda se o controle remoto fosse novamente esquecido no sofá. E, para seu deleite, lá estava ele, outra vez ao seu dispor. Mais zapping e diversão garantida. E assim era quase sempre que ele não saía com a parceira. Scully andava estranhamente esquecida. Além do controle remoto, freqüentemente deixado no sofá ou na mesinha, volta e meia a ruiva largava objetos fora de seus lugares ou esquecia algo em casa, retornando no meio do dia para buscar e provocando sustos homéricos na pobre baratinha. Um belo dia, Mulder assistia completamente entretido a um de seus filmes favoritos na TV, quando a porta abriu-se de repente e Scully entrou na sala como um furacão. Mulder mal conseguiu esconder-se atrás de uma das almofadas do sofá. Nem ao menos teve tempo de pensar em desligar a televisão. Mas ela pareceu não perceber o aparelho ligado, quando passou como uma flecha em direção ao quarto, batendo os pés com força no chão. Tampouco deu mostras de notá-lo, enquanto saía e puxava a porta atrás de si. Subitamente, porém, estacou, a chave suspensa no ar a meio caminho da fechadura. E franziu o cenho e entrou em casa outra vez, a passos lentos, quase hesitantes. Parou em frente à TV e ficou olhando para a tela. Muda. Perplexa. - Plan 9 From Outer Space... - murmurou finalmente, enquanto se sentava no sofá. E assim ficou. - Sabe, é uma coisa interessante quando se considera que as pessoas na Terra que podem pensar estão tão temerosas daquelas que não podem morrer... - os lábios murmuravam baixinho os diálogos do filme. Os olhos fixos na TV foram pouco a pouco ficando rasos d'água. As mãos pousadas sobre o colo amassavam os cantos de um envelope onde havia o logotipo do Parenti Medical Group. Quando uma lágrima, enfim, escapou de seus olhos azuis e rolou solitária face abaixo, ela cerrou os olhos com força e respirou profundamente. Depois, secou o rosto com as costas da mão, levantou-se e saiu, fechando vagarosamente a porta atrás de si com um longo suspiro, deixando para trás a TV ligada e um Mulder atônito, escondido atrás da almofada do sofá. Scully andava cada vez mais estranha. Algumas manhãs depois, numa daquelas em que o comportamento da ruiva estava especialmente bizarro, Mulder a acompanhou até um quarto de hotel onde um homem havia sido encontrado morto, pouco depois de chegar da Índia. Uma morte suja, todo seu sangue havia sido drenado do corpo. Não havia, no entanto, indícios de febres hemorrágicas em seu sistema ou sinais de arrombamento no quarto. - Então? O que você acha que foi, agente Scully? Hotel mal assombrado? Ataque de alienígenas? Vampiros? - provocava Doggett. Mas Scully não aceitava as provocações. - Melhor manter a mente aberta. - foi tudo o que respondeu a agente. No necrotério, Scully fazia a autópsia da vítima, Hugh Potocki. O odor forte de sangue e entranhas impregnava o ar. Mulder, enjoado com o cheiro nauseabundo, imaginava como a ruiva conseguia suportar todas aquelas autópsias nojentas e seu desagradável cheiro de morte e todo aquele sangue que respingava e se grudava nos óculos, nas luvas, nas roupas e a visão apocalíptica de vísceras e mais vísceras, fétidas e sanguinolentas... E pensar que fora ele, Fox Mulder, que recebera a alcunha de Estranho em Quantico... A necrópsia revelou grande destruição dos tecidos da cavidade abdominal. Revelou também que a hora aproximada da morte parecia, inacreditavelmente, ser anterior ao embarque do senhor Potocki no avião de Bombaim para Washington! - Quer dizer que um homem morto embarcou num avião na Índia, fez conexão em Paris, tomou um táxi em Dulles, depois registrou-se num hotel no centro da cidade e deu gorjeta ao camareiro? Com base em minha experiência, posso dizer que homens mortos não dão gorjetas, agente Scully... - ironizou Doggett. Do fundo do bolso onde estava, Mulder teve vontade de socar a cara de Doggett pelo tom jocoso. Scully, em situação normal, faria o mesmo. Mas, estranhamente, tudo o que a mulher respondeu foi: - Eu disse para manter a mente aberta, agente Doggett. "Tão improvavelmente Scully...", a baratinha não pôde deixar de pensar. Um caso intrigante, na opinião de Mulder. Principalmente pelo comportamento incomum que vinha demonstrando a parceira. Tantas possibilidades se afiguravam na mente ágil da baratinha, tantas hipóteses polêmicas que ele gostaria de debater com Scully... Mas tudo o que lhe restava era a frustração de não poder fazê-lo, de não ser ouvido ou compreendido por ela. Na manhã seguinte, foi com Scully até uma casa no subúrbio, onde um menino havia encontrado seu pai morto na sala. Antes, porém, o garoto, Quinton, alegava ter visto um estranho homenzinho sem pernas dentro de seu quarto. - Mas é o pai que me interessa. - explicou Scully a Doggett. - Ele não apresentava nenhum dos sinais de hemorragia que encontramos na outra vítima. Pelo relatório inicial do legista, sofreu algo como um aneurisma cerebral. O único detalhe dissonante no exame foram os olhos... cujos vasos sangüíneos estavam rompidos, como em Potocki. - completou ela, pensativa. - A não ser que esse seja apenas o primeiro estágio... - murmurou Mulder do bolso. - A não ser que esse seja apenas o primeiro estágio... - repetiu Scully, voltando as costas e deixando para trás um boquiaberto Doggett. E, um pouco depois, estavam Scully e Mulder, escondido no fundo do bolso de seu avental cirúrgico, outra vez no necrotério. "Mais cheiro de sangue e entranhas...", pensava Mulder desanimado e já enjoado, enquanto Scully fazia as incisões de praxe no abdômen intumescido do cadáver. Inesperadamente, algo começou a mover-se na barriga da vítima. Espantada, Scully tropeçou no carrinho de instrumentos atrás dela e foi ao chão com ele. - O que é... ? - interrompeu-se Mulder, assustado ao ver uma pequena mão projetando-se para fora do corpo sobre a mesa de autópsia. Mas Scully movimentava-se para trás, em busca de sua arma caída em algum lugar, e ele não pôde ver a quem ou o que pertencia aquela mão. Quando, enfim, a parceira encontrou a pistola, a coisa já havia sumido, deixando atrás de si um rastro de sangue e marcas de mãos pelo chão. De arma em punho, Scully escancarou a porta fechada atrás da qual o rastro desaparecia. - Cuidado, Scully! - alertou Mulder cauteloso. Mas, dentro do cômodo, não havia nada além de altas prateleiras lotadas de produtos químicos e outros suprimentos do necrotério. Um depósito. Nenhum sinal do dono daquela misteriosa mãozinha... Era como se tivesse desaparecido no ar. O cérebro de Mulder trabalhava freneticamente, dissecando possibilidades, formulando e refutando hipóteses. Era tão mais fácil quando havia o ceticismo de Scully para servir de contraponto às suas teorias malucas... Agora, Mulder tinha de tentar, ele mesmo, raciocinar como a parceira e apresentar contraprovas que desbancassem suas idéias mais alucinadas. Era tão difícil... Ia de encontro a todos os seus princípios. Mas aqueles eram dias estranhos. "Mantenha a mente aberta...", ressoava a voz de Scully em seus pensamentos. De súbito, em meio a todas aquelas loucas teorias que vinha examinando e reexaminando durante toda a manhã, uma pareceu a Mulder suficientemente absurda e, ao mesmo tempo, factível o bastante. Místicos indianos... Potocki havia vindo da Índia... Mestres ascéticos e seus incríveis poderes. - Chuck Burks, Scully! Converse com Chuck Burks! - sugeriu Mulder, suplicando aos deuses das baratas para que a parceira o ouvisse. Ela, no entanto, continuou sentada em sua cadeira, batucando nas teclas de seu computador, rabiscando anotações em uma folha de papel. Frustração foi o que ele sentiu. Uma avassaladora frustração por ser uma reles barata. Cerca de meia hora depois, porém, a porta do escritório rangeu ao se abrir. - Boa tarde! - soou uma hesitante voz masculina que pareceu vagamente conhecida a Mulder. - Chuck! Seja bem vindo. - respondeu a ruiva, erguendo-se da cadeira. - Chuck Burks... - murmurou Mulder para si mesmo, agradecendo intimamente aos deuses das baratas por mais aquela graça. - Recebi seu email e trouxe um material que gostaria de lhe mostrar. - continuou o homem. E falou a uma interessada Scully e a um cético Doggett sobre faquires indianos e seus poderes extraordinários. E sobre mestres Sidhi e sua habilidade de controlar a mente para manipular a realidade. Mas Doggett não acreditava e, consequentemente, não compreendia. Scully, no entanto, para total surpresa de Mulder, ouvia atentamente tudo o que Burks tinha a dizer, conduzindo a conversação com perguntas que o próprio Mulder faria. Definitivamente bizarro o comportamento da ruiva, como se ela tentasse ver os fatos pelos olhos do parceiro, compreendê-los através de sua lógica particular, agir como ele próprio agiria. Na final da tarde do dia seguinte, outra pessoa apareceu morta. A mãe de Trevor, colega de escola de Quinton, o outro garoto. Afogada na piscina, nos fundos de sua casa. Até aí, nada ligava sua morte aos crimes anteriores. Seus olhos, porém, apresentavam os mesmos sinais de hemorragia observados nas outras vítimas. - Eu vi os olhos. Mas sou capaz de apostar que nada rastejou para dentro do corpo dessa mulher. - ironizava Doggett. - Não sei como dizer... mas acredito que você esteja vendo apenas aquilo que quer ver, agente Scully. - Você está questionando minha integridade? - perguntou Scully visivelmente contrariada. Como o tal John Doggett ousava questionar a integridade de Scully? - Acabe com ele, Scully. - incentivava a baratinha do fundo do bolso. - Não. O que estou questionando é toda essa droga de caso. Seu dito expert, as evidências que você prefere ignorar. O fato do rumo de sua investigação não estar nos conduzindo a nenhum padrão ou motivação e de estarmos tão longe de pegar um assassino quanto estávamos quando começamos... - seu tom misturava raiva e desânimo. A profunda ruga em sua testa atestava sua frustração. Scully suspirou e deu de ombros. Seu olhar era o mesmo que Mulder já havia dirigido a ela em ocasiões semelhantes inúmeras vezes em seus anos de trabalho juntos. - Eu pedi que você mantivesse a mente aberta. - ela respondeu simplesmente. Aquele comportamento da ruiva era tudo por que Mulder ansiara durante os muitos anos de sua parceria. Sempre desejara que ela acreditasse, que fosse capaz de ver as possibilidades cientificamente inexplicáveis dos fatos. Agora, no entanto, o modo como ela agia o apavorava. Porque contrariava a natureza cética e puramente racional de Scully. Porque ele nada poderia fazer para protegê-la das possíveis conseqüências de sua súbita mudança de paradigma. "Cuidado com que você deseja", havia, um dia, lhe prevenido um certo gênio. "Porque pode se tornar realidade..." Um ruído no fundo do quintal atraiu a atenção dos agentes. Era Trevor. - Ele esteve aqui. O-o homenzinho... eu o vi. - gaguejava assustado. - Ele me seguiu... E estava na escola, também... e, depois, não era mais ele, mas o zelador. Não sei explicar. Tive medo. As palavras do menino fizeram algum sentido para Mulder. - As crianças são capazes de ver as coisas com olhos muito distintos dos adultos. Acredite no garoto, Scully. - sugeriu em voz alta. O que se sucedeu, a partir de então, foi muito rápido e confuso demais, mesmo para a mente veloz de Mulder. Scully conseguiu um mandado de prisão para Burrard, o zelador. No entanto, gastou horas em uma sala vazia na delegacia de polícia, falando sozinha como se tentasse interrogar alguém. Mas não havia ninguém lá! Ao menos para os olhos de Mulder. Depois, desistiu do interrogatório, dizendo a Doggett que não fazia sentido tentar interrogar um homem mudo e saiu. De que homem ela falava? Em seguida, lá estava ela na casa de Trevor, querendo falar-lhe. E, no momento seguinte, estava na escola. Corria de uma lado para o outro como uma louca. Mulder temia por sua sanidade. Tentava dizer-lhe para ser simplesmente Scully outra vez, para deixar de lado sua tentativa de ver o que não via e agir como outra pessoa e ser quem não era. Mas foi o que ocorreu depois que surpreendeu Mulder mais profundamente. Scully encontrou Trevor, em uma sala da escola. Avançando ameaçador na direção do menino, estava um homem pequeno de traços vagamente orientais. Havia algo de assustador em sua aparência e não era o fato de não ter pernas e deslocar-se, impulsionado pelas mãos, sobre uma pequena plataforma com rodinhas. Tampouco era seu aspecto sujo e andrajoso como o de um mendigo. - Graças a Deus! - exclamou Scully, estranhamente aliviada diante da cena. O homem sem pernas voltou-se e retomou o movimento, dessa vez na direção de Scully. - Faça alguma coisa! - o tom de Quinton era desesperado. - É ele! É o homenzinho! - gritava, acenando na direção dele freneticamente. Os olhos do homenzinho! Era isso. Em seus olhos, Mulder viu raiva, sede de vingança, tanta maldade que foi capaz de gelar o sangue da baratinha. - Quem? Trevor? - Scully indagou atônita. E Mulder compreendeu o que a parceira tinha diante dos olhos. Para ela, aquele que avançava em sua direção era o garoto Trevor. Era essa a realidade que o homenzinho queria que Scully enxergasse. Seus truques paranormais, no entanto, não eram capazes de afetar Mulder. Ou porque ele fosse uma barata. Ou porque tivesse a mente aberta por natureza. Ao contrário de Scully, que tentava ser quem não era. - Não se deixe enganar pelo que vê, Scully. Acredite no garoto! - disse-lhe Mulder. Ainda que não visse o homenzinho, a ruiva apontou sua arma na direção dele. O místico ainda seguia em direção à mulher. - Detenha-o! Atire nele! - gritou o garoto apavorado. - Não posso... - respondeu ela, trêmula. O homenzinho continuava avançando sobre Scully como a própria personificação do mal. - Atire nele, Scully! Atire! Pelo amor de Deus. - berrou Mulder desesperado, odiando-se por nada poder fazer face à situação. Talvez Scully o houvesse escutado, talvez tivesse visto a centelha de ódio que faiscou nos olhos do faquir. O fato é que disparou sua arma contra ele. E depois, ficou olhando o corpo estendido no chão, trêmula, incapaz de impedir o fluxo das lágrimas. - Matei um garotinho... Eu matei uma criança... - repetia insistentemente para si mesma, as lágrimas correndo abundantes por sua face, despertando em Mulder um louco desejo de poder confortá-la. - A boa notícia é que você está errada. - Doggett tentou tranqüilizá-la. - Mas foi o que eu vi. Você imagina como é não poder confiar em seus próprios olhos? - havia angústia em sua voz. - Por que atirou, então? - indagou. Uma ruga profunda franziu a testa do agente. Ela se calou por um longo instante. Fechou os olhos como se buscasse a resposta no fundo de sua alma. Quando os abriu novamente, havia neles uma profunda tristeza, uma incontestável frustração consigo mesma. Soltou um longo suspiro. E Mulder entendeu que sabia a resposta, antes mesmo que ela a transformasse em palavras. - Porque percebi que era isso o que Mulder faria. - respondeu num murmúrio. - Porque era assim que ele encarava as coisas... sem julgamento e sem preconceito... com uma largueza mental da qual simplesmente não sou capaz... Cada uma de suas palavras, cada lágrima que corria de seus olhos cravava-se como uma punhalada no peito da baratinha, o fazia sentir-se imensamente culpado por suas insistentes tentativas de mudar a parceira, de querer fazer dela um reflexo dele próprio. - Seja você mesma, Scully. - ele suspirou, enfim. - Seja o que você tem de melhor, o que me encanta em você. Simplesmente você. PARTE VII - O Inverno de Nossa Desesperança Mulder ia apenas levando a vida, um dia depois do outro, num desânimo sem fim. Por vezes, considerava seriamente entrar sorrateiro em um dos bolsos de Scully outra vez e sair clandestino com ela. Mas a sensação de impotência que o tomara durante aquele malfadado caso no Utah ou diante do homenzinho sem pernas o fazia reconsiderar e optar por ficar quieto em casa. "Atenha-se a sua insignificância, baratinha.", dizia a si mesmo desconsolado sempre que ouvia a porta fechar-se atrás da ruiva que saía para mais um dia de trabalho. "O que os olhos não vêem, o coração não sente...", considerava em tom de sermão, quando imaginava Scully perseguindo e sendo perseguida por lunáticos, conspiradores e outros espíritos do mal. E, de repente, era inverno lá fora. O vento frio soprava brancos flocos que se ajuntavam numa camada de neve suja e acinzentada nas calçadas. Os poucos loucos que se aventuravam a caminhar pela rua passavam apressados, a cabeça baixa contra o peito para enfrentar o vento, as mãos enterradas nos bolsos dos pesados casacos. De sua janela, Mulder os observava desolado, tentando se lembrar como era ter um nariz congelando ao vento frio e mãos para enfiar nos bolsos. Nostalgias de barata... Scully parecia terrivelmente abatida naquela manhã. Aliás, estava terrivelmente abatida desde quando chegara, na noite anterior. Tivera uma noite difícil, Mulder a ouvira remexer- se na cama vezes sem conta, soluçara e murmurara coisas ininteligíveis durante o sono agitado. E, quando o dia amanhecera, gélido e sombrio, as olheiras eram profundas sob seus olhos e a palidez de suas faces mais evidente do que nunca. Por algum motivo oculto, o traje negro que ela escolhera naquele dia pareceu a Mulder tão imensamente triste... Preto era a cor padrão dos trajes de trabalho de Scully, Mulder não conseguia saber porque. Apesar de tudo, caía-lhe sempre muito bem, fazendo-a parecer mais alta e esguia. Mas, naquela manhã, havia algo diferente com relação àquele traje negro. Talvez a maneira hesitante como ela escolhia cada peça e depois a depositava sobre a cama... E, então, a maneira deliberadamente lenta com que ela vestia cada uma delas... Como se não quisesse realmente vesti-las... Como se quisesse fugir ao que elas representavam... Foi mais forte que ele, um impulso incontrolável, uma tentação irresistível. E lá estava Mulder, uma vez mais, escondido no fundo do bolso do sobretudo da parceira, indo com ela para onde ela parecia não querer ir. O frio era tão intenso na rua que mesmo o grosso sobretudo de lã que Scully vestia era insuficiente para aquecer a pobre baratinha enregelada. E o entorpecimento ameaçava dominá-lo, quando o eco distante de uma voz o trouxe de volta à vida. - Cinzas às cinzas, pó ao pó. Um funeral! Scully fora a um funeral. Daí todo seu abatimento, toda sua hesitação! A velha curiosidade o obrigou a espiar o lado de fora. "A curiosidade matou o gato, Mulder..." Nada mais esquisito que o grupo que se reunia em torno daquela tumba. Kersh, Doggett, duas ou três caras conhecidas do Bureau... Skinner... Frohike, Byers e Langley? ... Margareth Scully? ... Frio na espinha... Foi difícil concentrar-se o suficiente para ler o que estava escrito na lápide. Era como se, de repente, sua visão ultra aguçada não mais funcionasse. As letras ganhavam vida própria e dançavam diante de seus olhos... Uma a uma foram, enfim, vagarosamente, se acalmando e parando e formando as palavras que ele tanto temia ver escritas ali: "Fox Mulder, 1961 - 2000". Era o SEU funeral... Estava assistindo a seu próprio funeral... - "Eu sou a ressurreição e a vida", disse o Senhor. "E aquele que crê em mim, embora esteja morto, ainda assim viverá, e todo aquele que vive e crê em mim, nunca há de perecer." - ecoavam distantes as palavras do pastor. De um momento para o outro, nada mais fazia sentido. As palavras não faziam sentido. As pessoas não faziam sentido. A vida não fazia sentido. Estava morto. Morto! Seu corpo sem vida descia ao túmulo dentro do caixão de madeira. Para ser sepultado na terra enregelada pelo frio do inverno. Morto! - Não posso realmente acreditar que estou aqui... - falou a voz entrecortada de Scully. "Eu também não...", disse Mulder consigo mesmo, recusando-se a crer naquilo por que estava passando. Se era seu o corpo no fundo do túmulo, o que estaria sua consciência fazendo num inseto? Triste piada de mau gosto? Uma forma deturpada de justiça poética? Uma macabra vingança dos deuses? Enlouquecera! Era isso. Andara por tanto tempo tentando penetrar em mentes insanas, passeara tão despreocupadamente à margem da loucura, que enfim fora por ela dominado. Enlouquecera, não havia outra explicação. Cerrou os olhos com força, tentando acreditar que, quando os abrisse, tudo seria como antes. Que, na pior das hipóteses, estaria trancafiado numa cela acolchoada, atado a uma camisa de força. Mas, não. Ainda sentia o vento gélido do inverno e ouvia as palavras do ministro. "E aquele que crê em mim, embora esteja morto, ainda assim viverá..." Morto era o que estava. Percebeu quando Scully ajoelhou-se à beira da cova e lançou um punhado de terra dentro dela. Sentiu como se cada um dos grãos daquela terra caísse sobre ele mesmo, o cobrindo, o sepultando. Subitamente, lhe ocorreu que, se era seu o corpo sem vida no fundo do túmulo, não havia razão para que sua consciência continuasse vivendo. Assim pensando, Mulder tentou arremessar-se para fora do bolso de Scully e para dentro da cova. Mas a ruiva levantou-se repentinamente, fazendo com que a baratinha escorregasse para o fundo do bolso. Um momento depois, sua super sensível audição de barata captou os sons do pranto manso de sua parceira. E os instintos suicidas de Mulder foram temporariamente paralisados. Ela ainda precisava dele. Simultaneamente, porém, seu aguçado olfato captou um perfume conhecido. Próximo, muito próximo. O perfume de Skinner. Scully tinha alguém. E não havia nada que um inseto pudesse fazer por ela. Mulder quis, mais uma vez, saltar do bolso para a neve fria que cobria o chão, para o esquecimento final, para a morte. Mas os inclementes deuses das baratas uma vez mais pregaram-lhe uma peça, sugando toda a força de suas perninhas. Fazendo seu cruel centro de gravidade, mais pesado do que nunca, imobilizá-lo na segurança do bolso. E a barata Mulder continuou vivendo. A partir de então, abandonou totalmente o perfil de barata paranóica que havia ostentado durante todo o tempo anterior e tornou-se simplesmente uma barata depressiva com tendências suicidas. Quis aplicar em si mesmo uma dose letal de inseticida, mas não era capaz de tirar a tampa do aerossol. Ficava rondando os pés de Scully quando ela andava pela casa, na esperança de ser pisoteado. Mas ou ela não o via ou fingia não vê-lo. Ou, quem sabe, apenas houvesse se acostumado de tal forma a sua presença que pensava naquela baratinha como um animalzinho de estimação. Mulder fazia greve de fome. Passava dias e dias a fio sem se alimentar. Mas simplesmente não morria de inanição. E acabava por se entupir de qualquer porcaria que encontrasse somente para parar de ouvir a ronqueira de seu estômago. Os deuses das baratas definitivamente haviam se voltado contra ele. Talvez apenas o tivessem esquecido... Mulder perdia horas inteiras imaginando por quanto tempo viveria uma barata. Já havia perdido as contas do tempo em que estava daquele jeito, mas calculava que alguns meses haviam se passado desde que acordara no chão da cozinha de Scully. Scully... Mulder andava tão preocupado em dar cabo de sua vida ultimamente que havia, de certa forma, negligenciado a parceira. Quando deu-se conta disso, sentiu-se tão imensamente culpado que deixou de lado outra vez suas idéias suicidas. Scully... Ela não mais acordava sobressaltada no meio da noite, como fazia antes do corpo de Mulder ser encontrado. Tampouco derramava lágrimas solitárias e escondidas, como fizera por muito tempo depois de seu sepultamento. Sua expressão era agora triste, porém conformada. Como se tudo o que restasse a ser feito fosse continuar a viver. Scully e sua imensa fé, que lhe dava forças para prosseguir. A fé num Deus que lhe permitia tanto sofrimento... Tudo em que Mulder se permitira ter fé fora seu trabalho e Scully. O primeiro não mais existia, sepultado num caixão de madeira junto com seu corpo humano. Restava-lhe somente Scully, alguém em quem acreditar, alguém por quem viver. Mulder a observava, andando pesadamente de um lado para o outro pelo quarto, colocando sobre a cama as roupas que vestiria em mais um dia de trabalho. E, como se tivesse acabado de chegar, ele se deu conta do quanto ela engordara, perdendo estranhamente as formas. De fato, mesmo em seu transe suicida, ele percebera como a freqüência das visitas do entregador de pizza aumentara naquela casa. Talvez Scully houvesse, finalmente, abandonado suas intermináveis dietas. Scully estava melhor daquele jeito, considerava a baratinha. Havia algo de diferente nela, um brilho, uma vibração, que a tornava ainda mais bela e que nem mesmo a eterna tristeza de sua expressão conseguia apagar. Uma vez mais, Mulder sentiu-se tentado a sair com ela. Ao mesmo tempo, hesitava ao recordar todos os percalços e angústias por que passara em ocasiões anteriores. Debatia-se entre os ditames impulsivos de seu coração que o impeliam a acompanhá-la e os prudentes conselhos de seu cérebro que o induziam a ficar. Ainda debelava-se no duelo entre razão e emoção, quando o telefone tocou e ela deixou o quarto para atendê-lo. Entretanto, ao observar as feições transtornadas de Scully em seu retorno ao quarto, todas as dúvidas se dissiparam imediatamente e a emoção venceu a batalha. Num descuido de Scully, que nervosa tentava atabalhoadamente terminar de se vestir, a baratinha saltou decidida para o interior de um de seus bolsos. Uma vozinha em sua cabeça lhe dizia que aquela era a coisa certa a ser feita. PARTE VII - O Despertar da Primavera Do lado de fora, os primeiros aromas da primavera indicaram a Mulder que o inverno acabara. - Talvez para a Natureza... - sussurrou consigo mesmo, amargo. - Certamente, não para mim. De qualquer forma, embebedava-se de seus aromas tanto quanto do cheiro de Scully. Ambos tinham sobre ele o mesmo efeito lenitivo, como se fossem capazes de curar as feridas que com que a vida crivava seu peito. Scully caminhava rápido, sua pulsação acelerada. Colocava e retirava as mãos dos bolsos num ritmo frenético. Algo a afligia. Então, os suaves perfumes da primavera cederam lugar ao cheiro de éter e desinfetantes e doença e morte. Estavam em um hospital. - É verdade? - indagou a ruiva nervosa. - Acalme-se. - respondeu Skinner conciliador. - Não, eu preciso vê-lo, droga! - ela insistiu, exasperada. - Scully... Você não pode. - atalhou o Diretor Assistente com decisão. Quem precisava ser visto? Quem não poderia ela ver? Por um breve momento e pelo tom da conversa, Mulder sonhou que pudesse ser a ele próprio, seu corpo humano. Que aquele que ficara lá no túmulo, sob a terra, era outro, um sósia, um clone, um engano... Um tênue lampejo de esperança que ele cuidou rapidamente de extinguir. Para evitar desilusões. Para minimizar o sofrimento. - O que eles disseram? - à beira das lágrimas, a voz de Scully falhava. - Eu PRECISO vê-lo. - Eu sei... - respondeu Doggett, tristemente. - Mas desejava que não o fizesse. Havia algo de muito grave se passando ali. A tensão de Scully, a firmeza de Skinner, o comedimento de Doggett... Outra vez a esperança reacendeu no coração de Mulder. O "bip-bip-bip" ritmado dos aparelhos de monitoração cardíaca ressoou agudo em seus ouvidos, o atraindo para fora do bolso. Ele tentava preparar-se psicologicamente para uma visão ainda mais apocalíptica que aquela de seu nome escrito numa lápide de pedra no cemitério, seu esquife descendo lentamente ao túmulo. Mas o que viu... Não saberia classificar... Sobre a cama, ligado por um sem número de tubos aos muitos aparelhos ao redor, estava ele. Seu corpo humano. Inerte, coberto de cicatrizes. Mas vivo. Vivo?! Mulder deixou-se arrastar por seu centro de gravidade de volta ao fundo do bolso e chorou. Chorou de alegria e de tristeza. Chorou de alívio e de desespero. Chorou porque simplesmente não conseguia imaginar outra coisa a ser feita além de chorar. Scully, abraçada ao corpo sobre a cama, fazia o mesmo. Mais tarde, naquele mesmo dia, quando Scully, sentada ao lado da cama, estava suficientemente absorta na observação do homem nela deitado, Mulder atreveu-se a deixar seu bolso. Cuidadosamente, desceu até o chão e atravessou o cômodo até desaparecer por trás de um móvel, na parede oposta à cama. Sabia que, em se tratando de um quarto de hospital, se fosse encontrado ali, ele, uma barata, teria um trágico fim. Mas precisava arriscar. De onde estava, conseguia uma visão privilegiada da cama e seu ocupante e da mulher sentada a seu lado. Era ele mesmo, não restavam dúvidas. Mas o que diabos haviam feito com ele? Seu rosto, seus braços e mãos estava repletos de cicatrizes e marcas. Sua vida dependia inteiramente dos inúmeros fios e tubos que o conectavam à parafernália eletrônica em volta da cama. Cada batida de seu coração era devida a um impulso de algum aparelho. Cada lento subir e descer de seu peito, ao bombear de outro. Um morto-vivo. Uma de suas mãos repousava entre as de Scully que a acariciava suavemente, olhos e ouvidos atentos a cada bip dos aparelhos, a expressão tranqüila, mas concentrada. Havia esperança reluzindo em seus olhos azuis. - Você não pode fazer isso a si mesma... - disse Doggett, penalizado ao entrar no quarto. - Com que direito esse orelhudo de um figa ousa tentar afastá-la de mim? - rosnou Mulder da parede. - Você me pediu para não entrar aqui, agente Doggett. - Scully respondeu controlada. - Espero que não esteja me pedindo para sair... - Ele não se atreveria, Scully... - replicou a baratinha. - Minha preocupação é com seu bem estar, agente Scully. - acrescentou Doggett, gentilmente, ante à reação da ruiva. - Com o efeito que isso possa ter sobre você. - Você quer dizer... achar Mulder vivo? - ela perguntou irritada. Por mais que acreditasse na veracidade do interesse de John Doggett por aquilo tudo, por mais que acreditasse ler sincera preocupação em seus olhos, Mulder não pôde conter a irritação. O outro não tinha o direito de tentar intervir. Não sobre o que se passava entre Mulder e a parceira. Não sobre uma amizade de sete anos. Aquela, ali no quarto, não era simplesmente Dana Scully, agente especial do FBI. Aquela era SUA Scully. Parceira e amiga, causa e efeito. - Deixe-a em paz, Doggett. - gritou, quando já se preparava para tomar alguma atitude mais drástica. - Cuide de sua própria vida! Mas uma enfermeira interrompeu a cena, ao abrir subitamente a porta dizendo algo sem nexo sobre um tal Billy Miles. E os agentes saíram do quarto, deixando o Mulder humano e o Mulder inseto sozinhos um com o outro. Da parede, o inseto contemplava seu corpo humano tão maltratado. Havia evidentes sinais de tortura aqui e ali espalhados por todo lado. As cicatrizes em meia lua nas faces e nos pulsos, a pele pálida e levemente arroxeada... Não era definitivamente uma visão agradável de si mesmo. Que monstros seriam aqueles capazes de submeter um ser humano a tamanho sofrimento? Talvez não fossem humanos... Billy Miles... Lembrava-se do nome. Um rapaz que se dizia vítima de abdução, num caso que investigara anos antes no Oregon. Seu primeiro trabalho junto com Scully. Bons tempos... Mas o que estaria fazendo Billy ali, não sabia ao certo quanto tempo depois? Teve a impressão de que Miles poderia ser uma peça chave no mistério de seu desaparecimento, de sua estrambótica transformação. Mas tudo não passava de uma vaga sensação. Não havia lembrança alguma que pudesse corroborar aquela impressão. Maldita amnésia! E deixou-se ficar contemplando seu corpo inerte, em busca de respostas. Não havia, porém, recordação alguma. Apenas um homem torturado e semi-morto e um inseto amargurado e sem memória. Uma enfermeira entrou no quarto. Checou as leituras dos aparelhos, tomando notas em sua prancheta, com ar frio e distante. Depois, por um momento, a expressão profissional de seu rosto cedeu lugar à incredulidade. - Espantoso... - murmurou, baixinho, tocando de leve a pele arroxeada do paciente. - Disseram que o homem estava morto a três meses... Observou o corpo por mais um instante, recolocou a prancheta em seu lugar e deixou o quarto, diminuindo as luzes ao sair. Três meses? Fazia tanto tempo assim que Mulder fora ao seu próprio funeral? Havia realmente perdido a noção do tempo. Mas, se seu corpo humano estivera morto e enterrado por três meses, como se explicava que não estivesse em franca decomposição? Como se poderia possivelmente explicar os fracos sinais vitais que eram registrados pela aparelhagem de monitoração? Uma infinidade de hipóteses e teorias e idéias bizarras ocupou a mente de Mulder, absorvendo por inteiro sua atenção. Não percebeu quando a porta do quarto se abriu e um homem entrou, postando-se no canto mais sombrio do aposento, observando silenciosamente o corpo sobre o leito. Tampouco notou a entrada de um segundo homem, atraído pela porta aberta, pelo bip hipnótico dos aparelhos. - É difícil de acreditar, não é? ... - aquela voz... - Que Mulder possa um dia sair dessa cama... Aquela voz... Poderia reconhecê-la em qualquer lugar. Como reconheceria os estreitos olhos castanhos mesmo nos confins do inferno de onde nunca deveriam ter saído. - Krycek, seu rato imundo! - rosnou Mulder baixinho. - Preciso da vacina, Alex. - Walter Skinner soava inseguro. - O que devo fazer? - Ah, é simples. - respondeu Krycek com ironia. - Apenas garanta que Scully não chegue ao fim da gravidez. Skinner parecia chocado, os olhos esgazeados parecendo ainda maiores por trás das lentes dos óculos. - Você está louco! - foi tudo o que conseguiu articular. - Ela não pode ter este bebê. - arrematou o outro com simplicidade. Que bebê? Do que eles estavam falando? Scully ia ter um bebê? Como? Mulder acreditou que enlouquecia. - Todos temos uma vida em nossas mãos. Eu tenho a sua... - dizia Alex Krycek sarcástico. - Você tem a de Mulder... Scully tem a dessa criança por nascer... É uma questão de quem vale a pena ser sacrificado. - completou, saindo do quarto. A cabeça da pobre baratinha dava voltas e mais voltas sem sair do lugar. Um bebê? Scully ia ter um bebê? Mulder ainda parecia vê-la diante de si, um certo dia, num elevador do Bureau, seu olhar carregado de tristeza, confessando-lhe o quanto a fazia infeliz o fato de nunca poder vir a ter filhos. Se ele possuía um coração, coisa da qual freqüentemente duvidava, com certeza seu coração se partira em um milhão de pedaços, naquele dia. Walter Skinner não se movera do lugar desde a saída de Krycek. Parecia pregado ao chão, os braços pendendo ao longo do corpo como se as mãos pesassem toneladas, os lábios contraídos, os olhos saltando dos aparelhos para o corpo no leito e de volta aos monitores. Num supetão, Mulder compreendeu a cena que acabara de presenciar. A tal vacina a que se referia o Diretor Assistente serviria para salvá-lo! Sua vida em troca da do filho de Scully! "É uma questão de quem vale a pena ser sacrificado..." ecoava o cortante sarcasmo de Alex Krycek em seus ouvidos. "... ser sacrificado..." O sonho, o milagre de Scully. Ou seu corpo semi-decomposto. Não havia escolha a ser feita. - Mate-me! - berrou com toda a força de seus pulmões. - Mate Fox Mulder. Sacrifique-o! Numa atitude desesperada, Mulder atirou-se de onde estava na direção da cama. Não pensou sobre o que fazia. Não levou em conta seu traiçoeiro centro de gravidade. Não considerou nem mesmo os efeitos da própria gravidade. Apenas arremessou-se na direção de seu corpo morto-vivo e de Skinner. E voou! Voou literalmente. Alçou vôo pelo ar. E a sensação era absolutamente indescritível. Sentia-se tão leve, tão livre como nunca em sua vida... Flutuava no vazio pelo quarto. Aquilo era muitíssimo melhor que nos sonhos. Experimentou o controle sobre a direção de sua trajetória e, finalmente, compreendeu a razão da enorme mobilidade de seu centro de gravidade. Era ele que, deslocando-se rapidamente por seu corpo oblongo, lhe permitia manobrar com precisão e desviar o rumo de seu vôo a poucos centímetros dos obstáculos. De um lado para o outro, ia Mulder pelo cômodo, desfrutando da maravilhosa sensação do vento envolvendo seu corpo ovalado, empurrando para trás suas antenas. Ah, se tivesse descoberto antes que era uma barata voadora... Voava esquecido do porquê havia começado a fazê-lo. Não viu quando Skinner, como um alucinado, começou a arrancar os tubos e desligar os aparelhos que mantinham seu corpo vivo. Não viu quando Doggett arrombou a porta do aposento e atracou-se com o Diretor Assistente tentando impedi-lo. Não viu quando um batalhão de médicos e enfermeiras invadiu o cômodo e levou seu corpo dali. Apenas voava, para lá e para cá, para cima e para baixo, dando rasantes sobre os móveis, desviando a poucos centímetros das paredes, como se nada mais importasse. Depois, muito depois, pousou em qualquer lugar, exausto, sem fôlego, satisfeito. Completamente esquecido dos problemas e dramas do cotidiano, de sua condição de consciência viva separada de um corpo semi-morto. Arrastou-se até algum esconderijo macio e seguro e adormeceu. Feliz. E, pela primeira vez, desde sua incomum transformação em inseto, sonhou. Sonhou que era humano outra vez. Que ia, aos poucos, retomando a consciência de seu próprio corpo. Sentiu seu coração batendo forte e compassado no peito. Sentiu o sangue fluindo por suas veias, irrigando suas pernas, seus pés. Fluindo por seu pescoço e fazendo pulsar sua jugular. Sentiu seu queixo, sua boca e bochechas, seus olhos de pálpebras cerradas. Sentiu seu nariz e os cabelos crescendo em sua cabeça. Sentiu o peito subindo e descendo lentamente ao ritmo de sua respiração. E seus braços e mãos e cada um de seus dedos movendo-se. Sentiu o ar quente saindo por suas narinas e o suave murmúrio de Scully, chamando seu nome, arrepiando sua pele. Sonhou que abria os olhos vagarosamente e que, diante dele, ao lado do leito onde estava deitado, estava a parceira. Viu seus grandes olhos azuis marejados de lágrimas e seus lábios rosados contraídos como que para evitar o pranto. E ela parecia a um só tempo feliz e surpresa. E sorria e chorava. E sonhou que ela tocava seus cabelos gentilmente e repousava a cabeça cansada em seu ombro e o umedecia com as lágrimas que não mais podia conter. Sonhou que aspirava o doce perfume de seus cabelos vermelhos e que a alegre primavera havia mais uma vez vencido o sombrio inverno em sua vida. E teve a certeza que tudo poderia dar certo. EPÍLOGO Fox Mulder renasceu milagrosamente dos mortos, graças à tentativa mal sucedida de Walter Skinner de matá-lo e às cavalares doses de antibióticos administradas pela equipe médica e por Scully. Não trazia consigo lembrança alguma do período compreendido entre sua abdução e sua ressurreição. Às vezes, acordava no meio da noite de um sonho recorrente no qual ficava voando e voando por um imenso cômodo de paredes brancas. Por alguma razão inexplicável, nunca mais, pelo resto de sua vida, foi capaz de matar uma barata. De volta em casa, após deixar Mulder recuperando-se no hospital, Dana Scully encontrou o exo-esqueleto ressequido de uma barata no interior de um dos bolsos do blazer que vestia. Não sentiu nojo ou assustou-se com o achado. Tampouco seria capaz de explicar muito bem o porquê não considerou sua descoberta nem um pouco estranha. Ao contrário, ao observar de perto a baratinha seca, foi invadida por um misto de saudade e alívio. Pareceu reconhecer naquele pobre inseto morto um velho e querido amigo. Chegou mesmo a derramar uma furtiva lágrima em sua memória. Também ela nunca mais foi capaz de matar uma barata em sua vida. F I M NOTAS FINAIS: 1. Quando comecei a escrevê-la, essa fic iria ter duas ou três páginas, no máximo, e acabaria tragicamente sob a sola de um chinelinho de frufrus cor-de-rosa. Mas, mal do século, me empolguei e virou isso tudo que você, que chegou até aqui, acabou de ler. 2. A idéia (ou a culpa por ela) veio de uma frase da Modell sobre a crueldade dos autores de fanfiction: "Nós nem transformamos o Mulder em barata... ainda!" Mas a responsabilidade e a conseqüente e irrevogável culpa por essa triste peça de má literatura é inteiramente minha. Registre-se nos autos que, quanto a este particular, Claudia Modell é inocente. 3. Como e por que Fox Mulder transformou-se em barata? Como se explica a dualidade entre seu corpo humano e sua consciência de inseto? Quanto tempo vive uma barata? Esses são mistérios insolúveis comparáveis à questão "Serão as incríveis facas Ginsu capazes de cortar as indestrutíveis meias Vivarina?" 4. Essa estória pretende marcar a aposentadoria de minha caneta literária. Você gostou dessa fic? Mande um e-mail gentil para mim dizendo que sim. Você odiou essa fic? Então, me mande um e-mail bomba. Mas mande feedback, por favor. Meu endereço é bellefleur_x@hotmail.com Eu agradeço. ============================================================= O Ministério da Saúde adverte: mandar feedback não causa cáries e não engorda. =============================================================