DISCLAIMER: Vocês já sabem essa baboseira toda de não ganhar dinheiro com os personagens e blá, blá, blá certo? Ótimo, então vamos ao que interessa. AUTORAS: ALEXANDRA MORGILLI (ariel_55@hotmail.com) e SILVIA PENHALBEL (silviascifinews@bol.com.br) SINOPSE: MAIS UMA AVENTURA DO AZUL CELESTE. A CONTINUAÇÃO TÃO ESPERADA DE "OS CAMINHOS DE DANTE". CATEGORIA : DRAMA, ANGST. AGRADECIMENTO: COMO SEMPRE ÁS NOSSAS AMIGAS QUE INSPIRARAM AS PERSONAGENS MAIS INCRÍVEIS DESTE UNIVERSO PARALELO QUE NASCEU QUASE SEM QUERER. AGRADECIMENTO ESPECIAL: À NOSSA QUERIDA SELMA, A SKY, QUE FOI RESPONSÁVEL POR ACRESCENTAR UM TRECHO MARAVILHOSO À NOSSA HISTÓRIA. SELMA, VOCÊ É INCRÍVEL AMIGA, OBRIGADA! CARONTE Centro Médico de Roma 30 de Dezembro 2:20 p.m. A sala tinha paredes pintadas de um tom de verde muito claro, que quase causava sono. Devia ser alguma proposta para espantar a tensão que alguns diagnósticos às vezes traziam consigo. Mas, olhando atentamente, era possível perceber que dividindo a parede do fundo e serpenteando do piso até o teto, havia uma linha muito fina, uma rachadura quase imperceptível, que maculava de forma reconfortante a fria impassividade daquela cor, como se os tijolos e a argamassa embaixo dela quisessem gritar e lembrar que já haviam testemunhado várias histórias como a sua e que a aparência de paz ali era falsa, como ela imaginava. Lentamente, seu olhar passou da parede para o homem impecavelmente vestido de branco sentado a sua frente, que finalmente terminava sua explanação, com um evidente desconforto mal camuflado na expressão serena. Um instante de quietude absoluta se seguiu, até que ela resolveu falar, cumprindo o papel que era esperado dela, mesmo que a vontade fosse simplesmente de sair andando pela porta por onde entrara e esquecer aquele absurdo. _ Tem absoluta certeza, Dr.? _ Infelizmente, sim. _ Quanto tempo? _ Um ano, meses. Não posso ser preciso, tudo vai depender de como se der o tratamento... _ E se eu não fizer tratamento nenhum? _ Como assim? _ O tratamento em si, é debilitante, não é? _ É, mas... _ E no final das contas, não vai surtir grande diferença, não é? _ Veja bem _ o homem estava visivelmente incomodado com a situação _ com o tratamento, podemos ter uma expectativa maior... _ Não vou trocar minha dignidade por um mês a mais de vida inconsciente, Dr. _ Não é o momento para fechar questão sobre isso. Quero que pense e volte para conversarmos com calma, certo? Prometa que vai voltar. _ Certo, mas isso fica entre nós, combinado? Não vai contar nada a ninguém, nem sob tortura. E eu estou falando sério quando uso a palavra "tortura", Dr., acredite... _ Será exatamente como deseja._ enquanto falava, o homem escrevia uma receita._ Essa medicação só vai ajudar com as dores de cabeça. Procure ter um pouco de tranqüilidade nos próximos dias, certo? _ É, talvez eu peça um período de licença no trabalho... Até breve, então. _ apertou a mão do médico, virou-se e respirou mais fundo antes de abrir a porta e sair. Lá fora, ansiosas, quatro mulheres andavam de um lado para outro. Assim que saiu da sala, foi logo cercada por todas, que exigiam explicações imediatas. _ Muito bem, pode ir contando tudo. O que foi que aconteceu? O que é que você tem?_ Kes disparava perguntas sem parar. _ Não sei porque não deixou que entrássemos com você. Evitaria ter de repetir tudo o que o médico disse! _ Calma, gente, calma! Está tudo absolutamente bem comigo. Os exames não encontraram nada de anormal e eu estou saudável, como deveria estar na minha idade. Aparentemente, tive uma reação ao estresse intenso a que nos submetemos nos últimos dias. Sempre achei que estivesse imune a isso, mas acho que ter a Kes envolvida pessoalmente dessa vez foi um pouco demais para mim..._ a expressão era confiante e tranqüila _ A única recomendação foi um pouco de descanso e tranqüilidade. Esse médico deve achar que sou professora primária ou algo assim, igualmente enlouquecedor._ concluiu e ficou feliz ao perceber que as outras pareciam aliviadas. Entretanto, quando seus olhos se cruzaram com os da líder, sentiu que nem todas estavam satisfeitas com sua história. Claudia a fitava dentro dos olhos, como se pudesse ver através deles. Desconfortável, desviou o olhar e saiu, seguida pelas amigas que agora conversavam animadas. Roma- Edifício Fontana de Trevi Mesma noite A mulher atendeu a campainha ao primeiro toque. Aguardava ansiosa a chegada da outra, que passou pela porta com cara de susto, sem entender o motivo do chamado urgente. _ O que foi, Claudia? Você me tira de casa no meio da madrugada, quer me matar de susto? _ Aquele médico... Eu voltei lá hoje a tarde. _ Ah, então não tinha esquecido nada no restaurante... _ Não, não tinha. Eu tive uma boa conversa com ele. _ Não acredito que ele violou o sigilo entre médico e paciente! _ Ele até tentou mantê-lo, é um bom médico. Mas eu estava um pouco impaciente e médicos não gostam de buracos de bala, principalmente neles mesmos. _ Está me dizendo que sacou uma arma para o médico da Ale?! _ O Dr. está bem, não é com ele que temos de nos preocupar... _ Claudia estava séria demais. Pior que isso, parecia profundamente triste. _ O que foi, Claudia? Você está começando a me angustiar... _ Ela mentiu para nós. Não foi estresse. _ dizendo isso, Claudia colocou sobre a mesa da cozinha um envelope com a ficha médica e os exames realizados no hospital. _ Sente-se e dê uma olhada nisso. Sil leu todos os papéis e sua expressão foi tornando-se mais pesada a cada linha que lia. _ Meses..._ estava engasgada _ Ela recusou tratamento? Como assim? _ Você conhece aquela mula teimosa...Pelo que entendi, os resultados seriam paliativos, apenas mais algum tempo, só isso, mas o tratamento seria em si, debilitante. _ Temos de fazer alguma coisa...não podemos ... não podemos apenas aceitar isso assim! _ Sil, algumas coisas estão além da nossa capacidade...Eu sinto tanto quanto você, mas... _ Não! De jeito nenhum. Eu não vou aceitar isso, deve haver um tratamento, alguma coisa que possamos fazer! Eu preciso pensar._ Sil apanhou o envelope com todos os dados e saiu, sem se despedir. Claudia sentou-se pesadamente na poltrona defronte a janela e seu olhar se perdeu na distância, guiado pelas lembranças de anos atrás... Sibéria - local desconhecido Campo de treinamento 1985 _ Como está se sentindo? _ Estou bem, mas meus pés estão congelando. _ Tome, vista isso. _ a garota de olhos verdes tirou de dentro do grosso casaco um pequeno par de botas, novas, com o interior revestido por uma camada de pele de carneiro. _ Vamos, calce logo, são do seu número. _ Como você conseguiu isso, Claudia? _ a outra, um pouco mais jovem, de cabelos e olhos escuros, calçou as botas novas rapidamente, deixando de lado as velhas, que haviam definitivamente se acabado na semana anterior, no duro treinamento de campo. _ Negociei algumas informações. Não se preocupe, nada que vá nos colocar em encrencas. Pelo menos não numa das grandes. _ sorriu com um ar gaiato_ Confortável? Não quero que você congele. Não antes de conseguirmos sair deste maldito lugar. Agora, que tal darmos uma olhada no grupo de recrutas que acabou de chegar ao campo? _ De onde vieram estes? _ Rússia. Mais uma leva de pequenos ursinhos comunistas _ Claudia sorria, divertida, enquanto caminhavam juntas pelas ruelas cheias de gelo do campo, em busca do alojamento dos recrutas _ Sempre tão pequenos... _ Você é muito sentimental, Sil. Sabe como esses russos são difíceis, teimosos como mulas, não venha defendê-los agora. _Ah não... Lá vem o Comandante Gorovich...meu Deus..._ Sil já temia pelo pior. A mera visão daquele sujeito a fazia tremer e a lembrança dos piores dias de sua vida se tornava vívida em sua mente. _ Calma Sil, controle-se. Claudia tinha ganas de matar o maldito, mas não era o momento. O homem baixo, uniformizado e de cara cínica, andava na direção delas, com a clara intenção de interceptá-las. Parou e encarou-as por um instante, antes de disparar uma ordem: _ Camaradas, acompanhem-me. Agora! Aquele homem era o motivo para continuarem vivas todos os dias: sobreviveriam a ele a qualquer custo, haviam jurado a si mesmas. Sem titubear, as duas o seguiram até a porta do alojamento dos novatos Dentro do alojamento, um grupo de dez jovens de rostos assustados as encaravam atentamente, enquanto o comandante esbravejava seu infame discurso de recepção. _ Esse é o meu campo e eu sou o seu comandante. Estão aqui porque foram recrutados para fazer parte do grupo que garantirá a existência da URSS. É claro, somente se sobreviverem ao treinamento... Cada um de vocês será designado a um supervisor veterano, para os treinamentos de campo. Falhem e eles pegam cadeia junto com vocês. Tentem fugir e eles serão executados junto com vocês. Isso os ajudará a entenderem o significado de um grupo unido. Por hora é só. As camaradas Pretori e Krane vão cuidar de algumas anotações e posteriores designações de vocês. _ terminou, com o ar raivoso que lhe era característico e voltou-se para elas _ Depois, apresente-se ao meu escritório, Pretori. Finalmente livres dele, as duas garotas se entreolharam e depois examinaram atentamente o grupo a sua frente. Crianças entre 12 e 14 anos, no máximo. Algumas ainda usavam pijamas por baixo dos pesados casacos e gorros de pele, indicando que haviam sido tiradas de casa no meio da noite. Sil riu para si mesma ao perceber que Claudia tinha razão: assim vestidos, pareciam pequenos ursos. _ Muito bem, alguém aqui fala outro idioma, além do Russo?_ Perguntou num tom um tanto seco e aguardou até que dois dessem um passo a frente e informassem que falavam também o francês._ Ótimo, vocês dois vão facilitar o contato com os outros agentes do campo. Fiquem a minha direita. _ Claudia já fizera isso muitas vezes, agia com naturalidade. _ Hei! Vocês dois aí, vão ficar colados como se fossem gêmeos siameses ? Separem-se, vamos! Os dois jovens continuaram onde estavam, estáticos, apavorados. _ Que foi? Não ouviram o que ela disse? _ Sil odiava fazer isso, mas era necessário. Lembrava-se de quando ela mesma chegara ao campo. Seriam dias difíceis, era melhor que isso ficasse claro logo de cara... _ Por favor, senhora. Deixe-os. Dimitri e Olga são irmãos e Olga está muito assustada..._ uma das outras crianças dera um passo a frente, falando num tom de voz baixo e um tanto tímido. Os olhos castanhos claros destacavam-se no rosto muito branco, as bochechas vermelhas por causa do frio intenso. Usava um gorro e casaco típicos dos habitantes das pequenas cidades do norte. Claudia a examinou detidamente. Gostava do leve traço de ousadia, ainda que o medo também fosse evidente. _ Como é seu nome, camarada? _ Alexandra... Alexandra Romanov. _ Nossa! Escolheu um nome muito perigoso ...e muito comprido também! _ Claudia assumira um tom mais relaxado _ Vamos mudar para Alex! Pensando bem, melhor não...esse nome não faz bem para o caráter. Então, será apenas Ale... Muito bem, camarada defensora dos fracos... explique ao Dimitri e a Olga que as coisas aqui não vão ser fáceis e que a vida dos seus tutores dependerá de que vocês deixem de ser crianças. Então, melhor não permitir que o comandante perceba o que os apavora, ou estarão perdidos. _ seu tom havia sido humano pela primeira vez desde que entrara naquele alojamento. Depois, voltou-se para Sil _ Bom, você termina de separar esses pirralhos? Vou ver o que é que o Comandante quer . Aproveita e escolhe qual dos pequenos ateus vai ficar por nossa conta. Que tal a russinha czarista ali? Parece inteligente, até conseguiu falar comigo respeitosamente, mesmo com evidente vontade de me matar. Gostei. _ Claudia fechou o casaco e saiu para a enfrentar a neve e o comandante. ROMA 31 de dezembro - 01:22 a.m. Ale acordou assustada e por um segundo sentiu-se estúpida por manter sua arma guardada dentro de uma gaveta distante da cama , mas logo depois reconheceu a silhueta delineada contra a luz. _ Sil? Que susto!! Aconteceu alguma coisa? _ Precisamos conversar. _ Agora? São quatro da manhã, não dá para esperar o dia clarear? _ Agora, Ale, no meu apartamento. Não quero acordar as meninas. Sem esperar resposta, ela saiu, deixando a amiga ainda sonolenta e intrigada com a urgência da visita. Cinco minutos depois, Ale entrava no apartamento de Sil. O lugar parecia uma casinha de bonecas com poucos móveis, todos em tons de rosa e azul claro. Ale olhou em volta e sorriu. Como sempre, pensou o que levava alguém com uma vida tão perigosa a ter um apartamento decorado de forma tão delicada, quase infantil. Talvez houvesse um motivo nem um pouco aparente, talvez tivesse sido a maneira que a amiga encontrara para atenuar as cenas que presenciavam com freqüência e que, na maioria das vezes, eram tingidas com tons muito fortes de vermelho . Ela fechou a porta e se aproximou da outra, que estava virada de costas, olhando para a rua escura. _ Sil, o que aconteceu? É alguma coisa com a Claudia? Com as meninas? Antes que a amiga respondesse, Ale viu os papéis espalhados na mesinha de centro, o logotipo do hospital no envelope indicando que Sil já sabia a verdade sobre seu estado de saúde. Sentou-se numa das cadeiras de estofado azul e fechou os olhos. Ouviu a outra se aproximar e sentar-se no sofá à sua frente. _ Você não devia ter feito isso... e eu não quero falar sobre esse assunto, Sil. _ Mas eu quero. Eu não acredito que você não vai ao menos procurar uma outra opinião médica. Ou então tentar um tratamento, mesmo que alternativo. _ Não há erro neste diagnóstico Sil. Não existe falso positivo ou falso negativo, quando ele é fechado é ponto final. Esta doença trabalha assim, chega, consome você, mata e pronto, acabou. _ Eu não acredito nisso e não acredito que você está desistindo de lutar. _ Não estou desistindo de nada, apenas não quero fazer um tratamento que vai tirar de mim a pouca dignidade que ainda me resta e que não vai surtir efeito! _ Você tem de acreditar em algo, que droga!! _ Acredito, Sil. Acredito na medicina, mas ela tem limites. _ Ale... _ Não, Sil, eu não quero discutir com você, não insista nesse assunto. Será que é muito difícil para você entender que eu quero apenas viver o tempo que me resta, em paz? _ Difícil? É impossível! Como você pode encarar isso tudo desse jeito? Ale, pelo amor de Deus, você não pode simplesmente aceitar isso! _ Claro que posso Sil, eu vou morrer e ponto final. Todos vamos morrer um dia. O olhar de Sil repousou cuidadosa e ternamente sobre a companheira. Sabia que ela temia a morte, sabia que a possibilidade do nada absoluto a deixava apavorada porque acreditava sinceramente que esse era o fim e a idéia de deixar para trás tudo o que ainda poderia ser vivido parecia pesada demais para ela. Mas conhecia aquela garota, sabia que mais do que o medo de perder a vida, ela temia ver morrer suas convicções e isso a mataria muito antes de parar de respirar. Era preciso pisar com cuidado neste terreno se quisesse que Ale aceitasse ao menos a possibilidade de algum tratamento fora dos padrões científicos nos quais ela colocava sua fé. Ale parecia acompanhar e até ler os pensamento da amiga, mas deixou que ela continuasse, ainda que fosse apenas para deixá-la confortável, para que se sentisse forte. _ A vida não é só isso. Existem momentos em que precisamos buscar amparo em outras coisas... sei que você está com medo...por que não admite isso? Se ao menos você acreditasse em Deus... talvez isso pudesse tornar o medo suportável... _ Sil, às vezes você me espanta. _ Ale a interrompeu acidamente, uma vez que sabia aonde aquela conversa iria terminar _ Tem noção de quem sou eu? De quem somos nós? Concordo que vivemos no nosso mundo e sei que gostamos umas das outras sem parar para tentar nos enquadrar nos conceitos morais do resto da humanidade, mas quer você queira, quer não, somos assassinas! _ continuou, contrariada _ Então, me faça um favor: peça ao seu Deus para ir cuidar de crianças órfãs. Talvez algumas delas o sejam por minha causa. Sil não conseguiu impedir que seus olhos ficassem úmidos. Afinal de contas, estavam juntas há tanto tempo, que parecia impossível não imaginá-la ao seu lado por longos anos, quando envelhecessem e pudessem finalmente cuidar de suas vidas sem que o medo e as lembranças as perseguissem. Sim, eram assassinas, ganhavam para sacrificar pessoas, mas Sil sempre vira seu trabalho como uma maneira de conseguir justiça por outros meios. As pessoas que perseguiam faziam parte do lado ruim da humanidade, pessoas que não temiam prejudicar, magoar , ferir ou matar pessoas inocentes. Era contra essa gente que ela lutava. Claro que não raras eram as vezes em que inocentes morriam por causa de suas ações, mas ela ainda tentava ver nisso um mal necessário, algo que precisava ser feito para que outras pessoas pudessem respirar em paz. Não questionava isso junto à sua fé inabalável. Moisés mesmo aconselhara a usar a lei da Torá. "Olho por olho, dente por dente", dizia para si mesma e via aí a justificativa para as atitudes que tomava. Sentindo-se magoada de certa forma e sem argumentos para rebater a inflexibilidade da amiga, Sil balançou a cabeça inconformada. _ Você não sabe o que diz. Está magoada, não é o melhor momento para traçar definições. Mas precisa lutar Ale, não pode simplesmente sentar-se e esperar a vida passar. _ Por que não? Nunca lhe ocorreu que talvez eu queira fazer justamente isso, sentar e deixar a vida passar? Sil levantou-se, as emoções se misturando em seu rosto, tristeza, angústia, raiva... _ Você é teimosa, irritante e eu tenho vontade de te matar eu mesma! _ Sou. Sou teimosa sim. E esse é um assunto pessoal, será que você não entende? Me deixe em paz, por favor! Sempre fiz o possível para respeitar as coisas em que vocês acreditam, sempre me contive para não magoar ninguém, para não parecer sempre a do contra. Encarei até essa história toda de naves e aliens, sem questionar, porque queria a Kes de volta, sã e salva, mas agora é diferente. É de mim que estamos falando, é a minha maneira de ver o mundo que está em jogo e eu não vou me vender para o desespero, Sil... Não me peça isso, por favor. Você não gostaria de conviver com a pessoa que eu me tornaria depois, acredite em mim. _ Você não pode desistir, eu não vou deixar você desistir! Ale suspirou e fechou os olhos. As últimas palavras de Sil a levaram de volta anos no passado, para um dia gelado de inverno. Seu rosto sangrava através dos cortes feitos pelo gelo que cobria o chão. As lágrimas de raiva e dor congelavam em sua face machucada. Ficara deitada no chão até que sentira um par de mãos levantá- la com força, colocando-a de joelhos. A voz de Sil soou rouca e raivosa em seus ouvidos. "você não vai desistir, eu não vou deixar você desistir". De alguma maneira, a força de vontade de Sil a atingira e ela se pusera em pé, o sangue congelado no rosto, os olhos exibindo uma determinação que nem ela mesma imaginava que tinha. Terminara o treinamento aquele dia com a sensação de que vencera mais do que uma etapa, vencera um batalha contra si mesma e seus medos e o orgulho que havia visto no rosto de sua amiga fora a melhor recompensa que poderia ter recebido. Mas naquele momento, tantos anos depois, sentada diante de Sil, ela não conseguia mais encontrar forças para lutar. Estava cansada de viver lutando. Sil estava chorando. Estava magoada, inconformada, sentia que perderia a discussão e todo o esforço que fizera até ali. Não podia insistir mais. _ Baixinha, olha aqui para mim, vai. Para de chorar. Escuta...eu ainda estou aqui, ainda sou eu, então pare de chorar. Fique tranqüila, para que eu possa ficar tranqüila também, certo? _ Posso, ao menos, rezar? Ale sorriu, vencida pela fé incansável da amiga. _ Pode, Sil. Claro que pode. Agora vamos para aquela sua cozinha abandonada, ver se o fogão ainda funciona e fazer um chá para você e um café para mim, porque ainda está para nascer quem me faça gostar de chá... Que tal? A conversa seguiu por outros rumos, até que viram o sol finalmente surgir, varrendo da manhã todas sombras. Todas, exceto uma, uma sombra triste e dissimulada, que parecia ter se misturado aos seus olhares. Dois dias depois Fim de tarde Clá olhava para o nada, enquanto Kes tentava se recuperar da notícia, visivelmente transtornada. Claudia respirou fundo, numa tentativa de controlar o tremor na voz e poder terminar de relatar os detalhes do que ela e Sil haviam descoberto. _ A Sil voltou ao hospital e conseguiu conversar com mais calma do que eu com o médico...Não há esperanças. Sil colocou uma folha de papel colorida sobre a mesa. _ A enfermeira me entregou este papel, existe um grupo de apoio para esta doença que usa tratamentos alternativos... A Ale jamais vai concordar com isso, mas eu pensei em conversarmos com esse pessoal e nos informarmos. _ Ela não vai aceitar nenhum tratamento alternativo, Sil. Você consegue imaginar a Ale fazendo Ioga ou tomando Florais de Bach? _ Eu sei Clá, mas eu não vou desistir de encontrar um tratamento que ao menos dê a ela um pouco de conforto... Clá andava pela cozinha, nervosa. _ Isso tudo parece tão absurdo que tenho vontade de rir. Kes levantou a cabeça, o olhos úmidos de lágrimas. _ Eu não posso acreditar nisso, não consigo. _ Melhor se recomporem. Eu prometi a ela que não contaria nada a vocês, então vão ter de agir com normalidade. Não perceberam que eram observadas há alguns minutos. Ale chegara da rua e estava parada junto à entrada da cozinha, ouvindo em silêncio. Era tudo o que ela não queria que acontecesse, não queria que as meninas soubessem, não queria que nada mudasse... _ Claro, claro...vamos agir com normalidade...como se essa situação tivesse alguma coisa de normal..._ Clá tentava não ser irônica, mas era impossível. Diante da cena que se desenrolava ali, Ale achou por bem sair e entrar em casa novamente, anunciando sua chegada. Assim daria tempo a elas para agirem com a tal "normalidade". Esperou alguns minutos antes de retornar. _ A campainha tocou?_ Kes não sabia se ouvira realmente a campainha, estava se sentindo mal, não queria saber de visitas. _ Tocou... mas quem será?_ irritada, Claudia levantou-se para atender_ Já avisei que esse porteiro dorminhoco ainda vai deixar a Interpol entrar aqui... Ale? _ Oi...é que eu...perdi as chaves. Ainda bem que vocês estão todas aqui, achei que ia ter de chamar um chaveiro, ou ter de atirar na fechadura, o que não seria nada bom para nossa fama de boas condôminas... _ Ale entrou, carregando um pacote com pães e duas garrafas de vinho._ Que é que há? Reunião de família? E nem me avisaram... Ainda bem que eu trouxe algumas coisinhas para comer . _ É...nós...nós estávamos papeando e contando velhas histórias. Matando o tempo, só isso..._ Sil estava embaraçada. _ Matando o tempo? Hum... E quanto vão receber por isso? _ diante do silêncio que se seguiu, sentiu-se obrigada a explicar_ calma gente, piada de mercenária... tá foi sem graça, mas não precisam ficar com essas caras de enterro! Afinal, ninguém morreu... não é? Sil entendera a ironia, aquele era um sinal para que a conversa seguisse para outros rumos. A amiga sabia o que se passava ali e não queria que aquilo continuasse e estava lhe dizendo isso, da única maneira que conhecia, escondendo-se atrás do sarcasmo. _ Não, Ale, ninguém morreu... _ Vamos preparar uns sanduíches, Kes _ Clá tratou de fazer algo, para por fim a tensão que se formara no ar _ Bom, se não se importam, vou arrumar umas coisas enquanto vocês gentilmente preparam a comida. Me chamem, ok? _ Claro, Ale... sem cebolas, certo? _ Certo! Ale afastou-se e elas ficaram sozinhas novamente e permaneceram alguns minutos em silencio. _ As chaves...estão no chaveiro do carro, que ela acabou de deixar no aparador. _ Eu sei... foi só uma desculpa para não ser confrontada com o assunto... está com medo, sempre age assim quando está com medo... _ Medo? _ Medo de morrer. A voz de Sil era apenas um sussurro, lembrava-se de quando Ale confrontara a morte pela primeira vez. FRONTEIRA UNIÃO SOVIÉTICA / TURQUIA 1986 O cheiro de pólvora do disparo certeiro misturava-se ao cheiro de sangue e ela sentia seu estômago contorcer-se, a sensação de náusea chegando ao limite. O homem ainda mantinha Sil na mira e Ale não sabia se fitava o rosto impassível da amiga sob ameaça ou o de Claudia, no chão, ferida segundos antes pelo primeiro disparo do sujeito. Agora, a arma apontada para a cabeça de sua parceira já dizia tudo, ainda que ela não entendesse as palavras raivosas que saiam da boca de seu inimigo. _ Atira nele, agora!_ Sil estava dando uma ordem. Suas mãos tremiam ao segurar a arma e ela não conseguia se mover. Em meio à sua angustia, percebeu que Sil avaliava as possibilidades de uma reação. O pânico a dominou quando imaginou-se sozinha com aquele homem, naquele depósito abandonado. Sentia-se paralisada, mas no momento em que o inimigo esboçou um sorriso vitorioso, deixando claro que ia disparar contra Sil, ela puxou o gatilho quase às cegas e o cheiro horrível de morte encheu o ar novamente. Por um instante, teve certeza de que tinha acertado sua companheira, mas a voz de Sil a despertou do estupor que tomara conta de seu corpo. _ Ale! Depressa! Precisamos levá-la para onde os outros estão ou vamos perdê-la. _ A culpa foi minha, eu estraguei tudo... Sil parou por um segundo e fitou-a, assustada. _ Como estragou? Você nos salvou garota, aquele cara ia nos fritar e você acabou com ele. _ Ele nos pegou desprevenidas porque eu não estava concentrada. _ Pois então aprenda algo disso tudo e, da próxima vez, não se distraia, entendeu? Ale olhava assustada para a jovem à sua frente. _ Sil, você não sentiu... Não teve medo de morrer? A amiga riu, mas Ale pôde perceber o brilho de tristeza no olhar dela. _ A morte é um privilégio ao qual eu não tenho direito, Ale. E você vai descobrir da pior maneira, que um dia, você não vai mais ter medo dela, pelo contrário, você vai desejá-la ardentemente mas ela não vai querer levá-la. _ Acho que não, Sil. Nunca vou me acostumar com a idéia da morte. Posso aprender a conviver com ela, mas nunca vai deixar de ser uma inimiga...nunca. _ Vamos, temos de levar a Claudia, antes que seja tarde demais. Um dia conversaremos sobre isso. Um dia. Roma 06 de janeiro 10:45 a.m. A semana havia sido cheia de atividades, quase o suficiente para que acreditassem que tudo era como antes. Um contrato curto na própria Itália, para interceptação de uma mala diplomática, havia rendido três dias de ação sutil e complexa, do tipo que elas mais gostavam. Depois, teriam uns dias de calmaria, mas ainda haviam alguns detalhes finais a resolver e Sil ficara encarregada dos pagamentos dos contatos. "Nunca falhe com seus contatos" era um dos lemas mais sérios do Azul Celeste. Intrigada com a dificuldade de contatar a parceira, Ale colocou o fone no gancho e saiu, descendo as escadas até o andar de baixo, parando em frente à entrada do apartamento de Sil. O telefone já estava ocupado há algum tempo, Sil não atendia a porta e nem ao menos respondia aos chamados insistentes que ela fazia, há alguns minutos. Sentindo que definitivamente havia algo errado, usou suas cópias das chaves do apartamento para entrar. Encontrou a outra no chão, chorando, o fone caído ao seu lado. Ale o colocou no ouvido e a voz angustiada de Paty, seu contato em Washington, pôde ser ouvida. _ Sil, você está me ouvindo? Sil! _ Paty , é a Ale. O que aconteceu? _ Ale, eu estava falando com a Sil...contei a ela que a agente Scully entrou em contato, encontraram o agente Mulder... Conforme a voz do outro lado da linha repetia as mesmas palavras que Sil ouvira, Ale empalidecia, a dor em sua cabeça aumentando consideravelmente. Desligou o telefone sem se despedir e puxou Sil para seus braços, segurando-a como se fosse um bebê. As outras não demoraram a entrar e todas pararam assustadas com a cena que presenciavam. Ale fitou as amigas com seriedade. _ Encontraram o Escoteiro... morto. Vôo 1121 06 de janeiro 22:02 O avião sobrevoava o oceano, ao menos era o que o mapa que aparecia na tela dizia. Lá fora a escuridão tomava conta da noite. Claudia tinha a sensação de que nunca mais sentiria calor novamente. Um frio insidioso se acomodava em seu peito. As coisas estavam acontecendo rápido demais. As meninas haviam preferido ficar para cuidar de Ale até que elas retornassem de Washington, mas a ameaça do recente diagnóstico era uma constante preocupação, que não podia ser apagada. Olhou de soslaio para a amiga sentada ao seu lado. Sil tinha os olhos fechados, mas ela sabia que estava acordada, conhecia-a bem demais. _ Ao menos essa droga não está balançando muito... Sil não respondeu, mas acenou com a cabeça concordando. Bom, já era alguma coisa. _ Você falou com a Scully? Desta vez a amiga abriu os olhos, porém não a encarou. _ Falei, o enterro será amanhã à tarde e parece que o chefe deles estará lá, eu não vou poder me aproximar, seria arriscado. Claudia concordou analisando com cuidado o tom de voz e as reações de Sil. Sabia que aquela calma aparente não era real, a amiga estava morrendo por dentro mas, desde o caso da Argélia, elas haviam perdido sua ponte de comunicação e Claudia não sabia como se aproximar novamente de Sil. Precisavam resolver este assunto antes de qualquer coisa. _ Sil, sei que o momento não é dos melhores, mas precisamos conversar. _ Estou cansada Claudia, podemos deixar isso ... _ Não, não vou mais adiar nada, precisamos conversar e vai ser agora. Sil suspirou e a encarou. _ Tudo bem, se você quer assim... Sil permaneceu em silêncio, esperando. Sem coragem de continuar encarando a amiga, Claudia começou a falar baixinho, como que para si mesma. _ Sabe, na Sibéria, quando você me contou que... sobre o Alex e que estavam envolvidos, eu fiquei com raiva de você, com ciúmes. Eu nem tinha nada com ele, mas mesmo assim fiquei com ciúmes, me senti mal... Sil não respondeu, não esperava que Claudia iniciasse a conversa delas com algo tão antigo e Claudia sentiu-se mais à vontade para continuar falando. _ Depois, quando eu estava com ele, eu podia ver nos seus olhos que você estava feliz de verdade por mim. E quando ele nos traiu naquela missão em Israel, eu só me agüentei em pé porque você estava ao meu lado, porque você assumiu a culpa daquela confusão junto comigo. Foi a maior prova de amizade que eu poderia ter recebido depois do que eu tinha feito a você naquele deserto. Sil balançou a cabeça e Claudia sabia que ela estava segurando as lágrimas. _ Lembra quando eu contei a você sobre o meu pai? Sobre o que eu fiz? Eu nunca contei aquilo a ninguém, só você sabe. Eu nunca confiei em ninguém como confio em você._ Claudia concluiu, séria. _ Então por que não me disse que aquela mulher, a tal Marita sei lá o que, estava chantageando você? Por que deixou que as meninas se arriscassem no meio daqueles malucos lá na Argélia? Você não confiou em mim naquela ocasião. _ Eu não sei o que deu em mim. Acho que a possibilidade dos israelenses tomarem conhecimento do conteúdo daquele relatório me deixou sem ação. Eu comecei a agir como uma amadora idiota, vencida por uma chantagem barata. Achei que conseguiria resolver tudo, eu nunca quis colocá-las em perigo, Sil. A voz dela falhou e ela fechou os olhos, vencida pela angústia. Sentiu a amiga rodear seus ombros e puxá-la para um abraço. O alívio foi tão grande que ela se sentiu como se voltasse a respirar novamente, depois de quase sufocar. Claudia finalmente pôde sentir que a única pessoa que ela poderia chamar de irmã, estava novamente com ela. Algum tempo se passou assim, até que retomassem a conversa, mais tranqüilas. Sil, agora, terminava de contar a Claudia sua conversa com Alex no aeroporto em Washington. _ Ele não pediu absolutamente nada em troca? Falavam muito baixo pois o avião estava em silêncio, com a maioria dos passageiros dormindo. Sil balançou a cabeça sem encarar Claudia, estava aliviada por poder novamente contar com sua confidente _ Nada, mas disse que seria a última vez. Se eu o procurar novamente terei que pagar seu preço. _ Sil, você se arriscou demais. _ Claudia, a Scully estava grávida, sozinha, acha mesmo que eu iria deixar as coisas do jeito que estavam? _ Não, você sempre quer ajudar todo mundo à sua volta não é? Mesmo que isso prejudique você. _ Eu sei que foi insensato, mas eu não sabia mais o que fazer. _ E no final eles o devolveram morto... Sil engoliu em seco, contendo as lágrimas que ameaçavam recomeçar a cair. _ Você não imagina como foi duro quando a Paty me contou hoje cedo. Só conseguia pensar na Scully sozinha, com aquele bebê...foi horrível. _ Você vai tentar contato com o Alex? _ Não, ele não me prometeu que devolveria Mulder, apenas que tentaria. Não posso cobrar nada dele. _ Indulgente como sempre. Sabe, se eu não a conhecesse tão bem, diria que você gosta daquele rato safado. Sil deu um sorriso triste. _ Eu gosto dele, você sabe disso. E ele gosta de mim, daquele jeito estranho que ele tem de gostar das pessoas. _ Eu deveria socar você por ter tentado fazer um trato com ele. _ E eu deveria ter socado você por ter feito um trato com aquela chantagista loira, portanto estamos quites. As duas sorriram, a camaradagem antiga retornando com força total entre elas. Sil olhou para o relógio. _ Ainda temos um bom tempo pela frente até chegarmos a Washington. Você trouxe os papéis que aquele médico nos mandou? Claudia apenas mostrou a pasta preta em suas mãos. _ Muito bem, que tal usarmos esse tempo para verificá-los? Assim não perdemos tempo e podemos aproveitar essa triste viagem a Washington para procurar um destes especialistas indicados... Claudia tinha certeza de que a amiga tentava se ocupar para não pensar no que a esperava em Washington. Só que ela mesma ainda temia o que teriam pela frente quando voltassem a Roma. A realidade podia estar sendo adiada, mas não por muito tempo _ Não pense nisso agora, Sil. Uma dor de cada vez, amiga. Eu sei o quanto o Escoteiro era importante para você. Dê um tempo para seus pensamentos se acalmarem, se despedirem... é preciso, Sil. Depois cuidamos da Ale. Prometo, vamos fazer tudo o que você achar que devemos. Sil a ouvia, tentando sinceramente manter-se no presente, mas sua mente vagava por uma noite fria do passado... a noite em que reencontrara Mulder, depois de cinco anos separados. WASHINGTON 1987 O homem alto, com olhar de menino, parecia perdido em suas próprias lembranças. Ele mal podia acreditar em seus olhos. Aproximou-se devagar e tocou o rosto delicado, sorrindo e murmurando o nome dela. _ Não uso mais esse nome há muito tempo, Escoteiro. Ele olhou-a interrogativamente e ela sorriu. _ Todos me chamam de Sil. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, outras duas jovens se aproximaram um pouco desconfiadas e Sil as apresentou: _ Meninas, este é Fox Mulder, um velho e querido amigo. Escoteiro, estas são Claudia e Ale. _ Devo supor que vocês também não têm sobrenome? _ Na verdade temos uma dúzia deles, quer escolher um? Os olhos verdes de Claudia percorriam o corpo do agente sem nenhum pudor e o sarcasmo evidente em suas palavras o deixaram um pouco desconcertado, mas antes que qualquer um deles voltasse a falar, Sil tomou conta da situação. _ Precisamos conversar... _ Ah, claro, querem sentar? _ Elas não podem ficar. Nos vemos mais tarde, Claudia A jovem de olhos claros fitou a amiga, seu olhar dizendo explicitamente que tivesse cuidado e, depois de um segundo, afastou-se com a outra. Eles sentaram-se e pediram algo para beber, enquanto ele, animado, contava a ela sobre sua entrada no FBI e sua recente designação para a seção de Crimes Violentos. Quando ela começou a contar sobre si mesma a ele, num tom menos alegre que o dele, viu o rosto bonito se contorcer em uma expressão de desconforto. Algum tempo depois, quando ela concluiu, ele estava visivelmente abalado. _ Espera. Acho que não estou entendendo muito bem... A incredulidade era clara, mas Sil não sabia se era porque ele acreditava ou não no que ela lhe contara. _ Mercenária, Escoteiro. É isso o que estou tentando dizer... _ Meu Deus...eu não acredito nisso... Sil, em que você se transformou... _ Não me julgue ... é mais complicado do que você imagina. _ Sil, isso não é brincadeira. Não pode ser sério... você tem idéia de que está confessando crimes a um agente federal? _ Achei que estava fazendo confidências a um amigo, alguém em quem confio, para quem posso ser verdadeira... _ Mas... por quê? Por que você escolheu ficar neste caminho? Entendi isso tudo que você me contou... certo, isso tudo foi uma crueldade do acaso, mas você podia sair, pode parar agora... _ Tudo foi acontecendo tão vertiginosamente fora do meu controle, meu amigo... Não tive muitas opções, simplesmente busquei sobreviver a tudo o que a vida parecia ter reservado para mim... e quando vi, não havia mais o caminho de volta. A trilha estava apagada, as portas fechadas. Você sabe que não há realmente volta. Ele balançava a cabeça, incrédulo com o que escutava. _ Escoteiro, não fique tão chocado, a vida as vezes tomas rumos diferentes daqueles que achamos únicos. E, de certa forma, eu estou feliz, creia-me. Achei meu lugar no mundo, como dizem. _ Cristo, eu não acredito nisso. _ Acredite, é a verdade. Após alguns segundos de silêncio entre eles, ele acrescentou. _ Você era uma menina...agora tornou-se uma assassina..._ ele estava triste, em seus olhos podia-se ver brilhar a chama da culpa. Sua mente fervia, tentando descobrir o quanto ele mesmo era responsável pelo que ouvia...Se ele tivesse feito algo diferente, se não tivesse sido egoísta... _ Não faça isso com você mesmo, Escoteiro. _ ela sabia o que significava aquele olhar, sabia que caminhos perigosos os pensamentos de Mulder percorriam agora _ Não há culpados, apenas escolhas. E as minhas, eu mesma fiz. Não todas, admito, mas talvez a mais importante delas. Escolhi sobreviver. O resto, são conseqüências... Ela suspirou e prendeu os olhos verdes, perdidos em tristeza, nos seus. _ Não contei isso a você para torturá-lo, só para dividir, para me sentir eu mesma novamente, completa. Contei porque eu queria muito ver você mas preciso deixar claro que eu mudei, não sou mais aquela garota que conheceu há cinco anos. Porque... preciso da sua ajuda e não quero enganá-lo._ ela parou por um instante e o fitou _ Porque eu quero estar com você esta noite e quero que você saiba exatamente com quem você estará...se quiser... Mulder respirou fundo, assustado por ela ser tão direta, tão sincera. Naqueles olhos escuros, que esperavam dele uma reação, não havia mais sinais da menina que conhecera. Nem mágoas, nem tristeza. Só viu neles desejo. Um desejo que ele também estava sentindo, que incomodava sua consciência, travando uma batalha para conter seu corpo, mas ele sabia quem perderia a batalha. Então, sem tentar dizer mais nada, deixou o dinheiro das bebidas em cima da mesa e levantou-se, estendendo gentilmente a mão aberta, que ela segurou com força. A noite estava fria...disso ela se lembrava muito bem, mesmo tanto tempo depois. Ainda podia sentir sua mão aquecida, protegida pela dele, quando saíram daquele bar. Naquela noite, perdoaram-se. Cada um a si mesmo. ROMA 06 DE JANEIRO 11:12 P.M. Na cozinha do ultimo andar do "Fontana di Trevi", Clá e Kes tentavam desastradamente preparar um suco de frutas exóticas, um composto de "reconhecidas qualidades terapêuticas"... pelo menos era o que dizia o folheto. _ Isso não vai dar certo. _ Cala a boca Kes, prepara logo esse negócio. _ Meninas? Que diabos vocês tanto futricam nessa cozinha? _ a voz de Ale soou impaciente, vinda da sala._ Faz meia hora que vocês estão fazendo um café! Eu disse que eu mesma faria, mas vocês resolveram ter esse ataque súbito de gentileza...e cadê o café?? _ Calma pô, é que a gente tá fazendo um suquinho também! _ Clá respondeu rápido. _ A Ale vai matar a gente._ Kes falava baixo. _ Se isso ajuda a relaxar, ela não vai ter como matar a gente... Enquanto falava, a garota misturava cuidadosamente os ingredientes de acordo com a receita que haviam anotado na reunião do grupo de apoio. A mistura estava ficando com uma cor bem pouco convidativa e Clá olhava com suspeita, imaginando que, com tudo o que elas haviam colocado ali, o gosto não deveria ser dos melhores. Mas como Sil havia dito, elas precisavam se agarrar a alguma coisa, qualquer fio de esperança era suficiente para acalmar seus medos. Clá se lembrava bem de como Ale tinha o poder de acalmá-las nas horas ruins, mas também de aterrorizá-las... AEROPORTO DE ROMA CINCO ANOS ATRÁS Tudo seria muito rápido, como sempre. O alvo já fora escolhido. Sempre escolhiam pessoas com as mesmas características e, científico ou não, o método havia dado certo até aquele dia. "Só até aquele dia", diriam elas, muito tempo depois. Consistia basicamente em encontrar alguém de ar sossegado e muito distraído, esse tipo de gente que parece estar sempre em outro mundo. E até aquele momento, corria tudo muito bem. Atraída pelo cheiro inebriante de um bom café, a vítima escolhida naquela tarde pousara distraidamente no chão a pequena e convidativa mala de couro marrom, que prometia pelo menos alguns itens de valor em seu interior. Afinal. turistas sempre carregavam máquinas fotográficas e outras coisinhas vendáveis. Um pedido de informação em espanhol feito pela moça alta, um pequeno esbarrão da outra mais baixa que lhe derrubou o café nas roupas e no segundo seguinte a mulher olhava, com ar desconsolado, para a direção em que corriam, com sua bagagem, as duas pequenas larápias. Algum tempo depois, as duas conferiam o resultado da coleta daquela tarde. A respiração de Kes era ruidosa e o tom de sua voz denotava todo o pavor que ela estava sentindo. _ Meu Deus Clá, o que é isso? As duas estavam ajoelhadas no chão do banheiro vazio, olhando estarrecidas para a maleta que haviam acabado de roubar. Aberta, ela deixava à mostra, explosivos plásticos, armas especiais de cerâmica e uma estranha aparelhagem eletrônica que Clá achou vagamente parecida com um rádio, mas algo lhe dizia que aquilo tudo não era algo tão inocente assim. _ Kes, feche isso, vamos jogar na lixeira e dar o fora daqui, depressa. Mas, antes que elas pudessem esboçar qualquer movimento, haviam três mulheres paradas diante delas, uma delas tinha uma inconfundível mancha de café no sobretudo e Clá sentiu um arrepio de medo quando fitou os olhos dela. Seria difícil sair dali, já que elas bloqueavam a passagem. Sem maiores hostilidades, uma delas, de olhos verdes impassíveis que pareciam pequenos atras dos óculos de aros redondos, apenas indicou, com um gesto, a presença de uma arma dentro do bolso do casaco. O gesto seguinte, Clá concluiu, indicava que deveriam seguí-las em silencio, o que só foi confirmado pelo sonoro "shiiiiiu", linguagem universal, que recebeu quando tentou se explicar. Caladas, as duas seguiram a mulher de olhos verdes, acompanhadas pela vítima daquela tarde, que agora trocara o jeito distraído e tranqüilo por um olhar assassino e a outra, a única que parecia ter um resquício de alma ali. Quando saíram do banheiro, um policial as parou. Ele presenciara o roubo e Clá sentiu um alívio intenso, a cadeia parecia ser uma opção melhor do que aquelas mulheres. Mas sua esperança se esvaiu em seguida quando a dona da mala sorriu docemente e dirigiu-se ao policial. _ Asseguro-lhe senhor policial, foi apenas um mal entendido. As meninas estão conosco, vão nos ajudar com a mala e nos mostrar a sua bela Roma. Agradecemos sua preocupação... Kes olhou para a amiga, o pânico estampado nos olhos, mas Clá não podia fazer nada. O policial assentiu e continuou seu caminho, levando com ele as esperanças das duas pequenas ladras. Foram levadas para um carro e atravessaram a cidade em silêncio, ouvindo as três mulheres conversarem em um idioma desconhecido. Kes apertou seu braço com força e falou com a voz trêmula: _ Clá, elas são russas... elas vão nos matar, vão nos jogar no Volga! _ Kes, para de falar bobagem, o Volga fica muito longe! Se elas forem nos jogar em um rio, vai ser no Tevere. _ Ah bom, agora me sinto bem melhor! Odeio você... _ Calem a boca, as duas! As meninas pularam literalmente no banco do carro com o susto. A voz ríspida falara com elas em espanhol o que significava que estavam em desvantagem, pois ambas mal falavam italiano, além de sua língua natal. As três continuaram conversando e Clá teria achado muita graça do diálogo se entendesse o que elas falavam. _ Estão apavoradas.. _ É bom, vamos assustá-las um pouco, assim elas aprendem a não se meterem com quem não conhecem. _ Ale, não seja rabugenta, elas são crianças ainda. _ Eu também era quando você me aterrorizou por semanas lá na Sibéria. _ E agora ela vai se vingar nas espanholinhas ali atrás. Coitadas, elas mal falam italiano, estão achando que vamos matá-las. _ E o que vamos fazer com elas? _ Treiná-las? _ Tá maluca Sil? São duas molecas de ruas, ladras de quinta categoria. _ Nós também éramos, Claudia. _ Éramos ladras de primeira, nunca fomos apanhadas. _ Exceto por aquela gente que trabalhava para o Embaixador americano e pelos russos. _ O que você acha Ale? A Sil está delirando? Ale não respondeu, mas já estava com o ar distraído novamente, a expressão tranqüila. Ainda sentia-se um tanto idiota por ter sido roubada em pleno aeroporto, por duas meninas, mas tinha de admitir, elas tinham talento. Observava atentamente as duas garotas apavoradas e já imaginava um plano de treinamento adequado para aquelas duas criaturinhas ousadas. _ O café? _ Ale surgira na porta, com um ar intrigado, mas gaiato. _ Você toma café demais! Vamos experimentar outra coisa, fizemos um suco fantástico e queremos que você faça o papel de cobaia. Que tal? _ Garotas...vocês estão bem? O que é que está acontecendo aqui e que vocês não querem me contar? _ ela olhou os papéis sobre a bancada e reconheceu o nome do grupo de apoio que imprimira aquelas receitas._ Hum. Então é isso._ esboçou um ar de contrariedade _ Sentem-se um pouco, acho que precisamos conversar. _ É, tá certo. Precisamos mesmo conversar. Só que quem vai ouvir um pouco é você, Ale. _ Kes assumira um tom mais sério _ Por favor, deixa eu falar primeiro, só para variar. Depois você diz o que quiser, chama tudo isso de bobagem, não tem problema. _ Certo Kes. Estou quieta como uma pedra. _ Acabamos de voltar para casa, depois dessa loucura toda da qual me lembro muito pouco e não tenho explicações para quase nada! Foi uma experiência muito ruim. Sei o que é sentir medo da morte, Ale, acredite em mim. Mas sei também o que eu não senti lá : medo de ser abandonada. A certeza de que vocês chegariam me manteve viva, porque não há nada mais tranquilizador, não há remédio maior para a dor do que saber que alguém se importa._ Kes parecia ter o dobro da sua idade, sua voz tinha uma segurança incontestável. _ Nós nos importamos, Ale. Só queríamos que soubesse... _ Clá completou. _ Eu nunca duvidei disso, minhas queridas. Estejam certas. _ seu semblante estava tranqüilo _ Mas há horas em que algumas coisas se tornam mais importantes que outras, em que é preciso fazer escolhas. Não pensem que desisti, não é isso. Apenas escolhi o caminho que me pareceu mais lógico, mais racional. Preciso de algum tempo e disposição, na mesma proporção, para fazer certas coisas que são importantes para mim. Quero que fiquem calmas e tenham certeza de que eu sei o quanto vocês se importam e isso é o bastante para mim._ Houve um instante de pausa silenciosa, antes que ela recomeçasse em outro tom _ Agora...vamos experimentar essa coisa que vocês prepararam? Só tomo se vocês tomarem também e, nada de cara feia... RALEIGH 07 DE JANEIRO 2:20 P.M. O enterro foi rápido e simples, os outros já haviam ido embora., apenas Skinner permanecia ao lado de Scully. Elas se aproximaram e o Diretor assistente tocou o braço de Scully para avisá-la. A agente se virou e seu autocontrole quase se foi completamente quando Sil a abraçou. Ficaram as duas chorando juntas enquanto Claudia se afastava com Skinner até o carro dele. _ Como ela está? Os dois se encaram e sorriram de leve quando fizeram a pergunta ao mesmo tempo. Claudia se adiantou. _ Ela está muito mal. Não fala sobre o assunto mas eu a conheço bem demais, está arrasada. _ Scully é muito forte, mas sei que ela perdeu parte de si mesma com a morte de Mulder... queria tanto poder fazer algo...Sinto-me culpado..._ o homem estava dando vazão a pensamentos que tentava suportar, mas que estranhamente tornavam- se pronunciáveis na presença daquela mulher. _ Não se culpe, Walter. Sei que você vai cuidar dela, vai protegê-la para que esse bebê nasça bem. Você também perdeu um amigo, lembra-se? Não se culpe e não se impeça de lamentar a perda deste amigo Skinner apenas acenou e desviou os olhos da mulher à sua frente. Claudia parecia poder ler sua alma e isso o constrangia, mas também o instigava. Ele estava triste demais por Mulder e por Scully e sabia que ela sentia-se da mesma maneira por causa da amiga. Claudia estava angustiada, sentia-se impotente, não gostava de ter de admitir que não havia como ajudar a amiga, que o que acontecera não poderia ser revertido. Seu olhar foi do rosto de Skinner para as duas mulheres paradas ao lado do túmulo e novamente para o rosto sério à sua frente. Ele queria dizer algo, ela sabia... _ Claudia...eu...nem sei o que dizer...não há muito que possamos fazer e... tudo isso acontecendo... não me sinto nada bem e acho que você também, talvez... talvez esteja se sentindo como eu..._ o homem suspirou e olhou em volta, o silencio se descortinava por toda parte_ Quero caminhar um pouco. Você me acompanha?_ dizendo isso, estendeu a mão direita em sua direção. A mão dela tocou a dele e eles seguiram quietos, pela alameda. Passos curtos, lentos, apenas sentindo que não estavam sozinhos e que não eram feitos de ferro, nem tinham sempre de resistir a tudo. Juntos, sentiam-se humanos, apenas. APARTAMENTO DE DANA SCULLY 5:21 P.M. As três estavam sentadas em silêncio na sala do apartamento de Scully. Nenhuma delas parecia querer falar, até que Sil forçou a agente a encará-la. _ Scully, você vai ficar bem, aqui sozinha? _ Claro, eu ficarei bem... _ Não é o que parece. Scully parecia distante, quase anestesiada. _ Nós demoramos tanto para chegar aqui... o bebê... apenas para perdermos Mulder dessa maneira... Agora nada parece fazer sentido...Durante todos esses anos, ele foi tudo o que eu tive...meu amigo, minha força...não fosse por esse milagre _ ela acariciou lentamente o ventre, como se não enxergasse mais nada ao redor _ difícil, tão doloroso continuar sozinha... _ Você não está sozinha, nem seu filho. A voz de Claudia era determinada e Scully olhou para a mulher sentada à sua frente, que tinha um traço de coragem inabalável. _ Nós não costumamos desamparar os amigos, Scully. E você nos ajudou muito quando precisamos. _ Vocês também me ajudaram. _ E vamos continuar ajudando, no que você ou o seu bebê precisarem. Scully fitou as duas mulheres enternecida. A dor ainda estava lá e estaria por muito tempo, aquele que lhe dava a sensação de nunca estar sozinha não estava mais lá, porém ao menos ela sabia que havia pessoas com as quais poderia contar. _ Venham, vou fazer um café_ Scully achou melhor ocupar-se com algo prático. _ A Sil não toma café, não deixe ela chegar perto do pó ou vamos ser envenenadas. As três sorriram e, enquanto Scully ia para a cozinha com Claudia, Sil ficou sozinha na sala. Impossível não se sentir triste, por mais que quisesse fazer Scully reagir, ela mesma estava em ruínas... A voz de Claudia a trouxe de volta à realidade. _ Sil, venha aqui, você precisa ouvir isso! Claudia parecia muito interessada no que Scully contava. Sil levantou-se e juntou-se às duas na cozinha e, conforme a agente falava, a esperança que a movia e que vinha sendo posta à prova tão duramente nos últimos tempos começou a se renovar. Poucas horas depois, estavam a caminho de Roma. Nos olhos, um vestígio de esperança. ROMA EDIFICIO FONTANA DI TREVI 08 DE JANEIRO 10:55 A.M. Todas estavam nervosas, falando mais alto do que o normal. _ Como assim, "sumiu"? a Ale não é tão pequena que consiga desaparecer de suas vistas Kes. Sil e Claudia haviam entrado em casa há apenas alguns minutos e tinham encontrado Clá e Kes muito preocupadas. Ale havia desaparecido. Faltavam roupas e objetos pessoais em seu armário e elas haviam tentado todos os seus contatos na Europa e nenhum deles havia falado com Ale naqueles dias. Agora Claudia confrontava as duas jovens com a expressão zangada. Clá olhou para a líder, que cobrava uma resposta delas e não conseguiu dizer nada. _ Vocês duas deveriam tê-la vigiado melhor. _ Sil, ela nos treinou lembra? Ninguém pode vencer a Ale nesse negócio de dissimulação. Nós nem desconfiamos que ela pretendia sumir sem deixar vestígios. _ Tentou o celular? _ Tentei... tá na caixa, desde o dia em que o demos a ela...aquela criatura nunca o usou. Nem sei como ela aceita o rádio nas missões. Nunca vi tanta teimosia. _ Meninas, Claudia, calma, não vamos chegar a lugar algum desse jeito. Além disso, ela não deve ter ido longe, se foi, eu imagino onde ela pode estar. _ Acha que ela foi procurar a família? Nessas horas... _ Nunca! Mas o que tem mais próximo disso? As três olharam para a amiga e seus rostos se iluminaram. Clá e Kes falaram ao mesmo tempo:_ Igor! Sil concordou com a cabeça, enquanto pegava o telefone para ligar para seu contato em Moscou e tentar descobrir onde encontrar o Russo. Enquanto isso, Claudia resolveu explicar às outras porque precisavam achar Ale com tanta urgência. _ Sentem-se meninas, precisamos conversar sobre algo que descobrimos em Washington. É algo muito importante e, por isso, vamos cancelar todos os contratos que temos, imediatamente. _ Cancelar? _ Por quê? _ Porque precisamos concentrar todos os nossos esforços em encontrar um homem, alguém que Scully garantiu, pode salvar a vida de Ale. Um homem chamado Jeremiah Smith... Noroeste da Rússia Arredores de Petrozavodsk 12 DE JANEIRO Dirigia numa velocidade confortável, que lhe permitia admirar a paisagem que estendia-se ao seu redor, sob o sol tímido do amanhecer russo. A estrada seguia livre e o frio era intenso. O noroeste da Rússia era belíssimo, principalmente ali, na região da Karelia, onde a vista do alto revelava uma vastidão de colinas baixas, salpicadas de lagos incontáveis e pequenos povoados que surgiam entre bosques de pinheiros, que agora abandonavam seus mantos de neve e voltavam a expor o verde de suas folhas. Mesmo no começo da primavera, aquela região era sempre dominada pelos ventos frios que sopravam do Ártico, varrendo vales e tornando gélidos alguns corações. Mas não era assim que se sentia ali. Pelo contrário, aquele caminho parecia fazer com que seu sangue voltasse a circular com intensidade e o cheiro da vegetação que ladeava a estrada era o cheiro das lembranças de alguns dos melhores dias de sua vida. Dias em que pensou que tudo seria diferente, em que imaginou que podia mudar. _ "Bobagem..." _ Tudo agora, afinal, parecia bobagem... todas as causas pareciam pequenas demais, todas as aventuras soavam vazias. Dizem que nas horas difíceis tudo o que se quer é estar em casa. Mas que casa? A casa da família que um dia colocou ideais acima dos sentimentos? O apartamento em Roma, para onde voltava depois de cada missão cumprida? Casa... a casa que deixara para trás, quando Igor lhe propôs que abandonasse tudo? Confusão...será que a confusão que tomava sua mente era mais um dos malditos sintomas? _"Chega...pare de pensar...concentre-se na estrada."_ O carro continuou por entre lagos e bosques e vez por outra ela avistava cabanas de pescadores, vazias, que aguardavam seus habitantes de verão. Algumas horas depois, deixava para trás a última cidade, Petrozavodsk, onde almoçara e comprara algumas coisas, antes de vencer os quilômetros finais em direção a Paanajarvi, onde havia uma pequena casa isolada no meio dum bosque. E um homem e seu cão. Ao entardecer, finalmente avistou o ultimo trecho da viagem. O caminho de pedras contornava o lago e seguia em direção ao conjunto mais denso de pinheiros, desaparecendo entre eles até chegar a uma casa de telhado bastante inclinado, próprio para as grandes nevascas do inverno. Deixou o carro distante uns cem metros da entrada e tirou do porta malas só um pequeno pacote. Depois pediria ajuda com as malas. No portão baixo, de madeira, testou as chaves, apenas para constatar que ainda serviam, como imaginara. Sorriu e abriu o pacote, tirando dele um brinquedo de pelúcia marrom. Estava ansiosa para rever o pequeno filhote que um dia trouxera para aquela casa, numa manhã de verão, como presente para Igor e para ela mesma, claro. _ Czar? Menino? Onde está você?_ entrou chamando, em expectativa. Dois passos adiante, encontrou quem procurava: Quieto, sentado sobre as patas traseiras, a cabeça inclinada, um enorme cão branco de nariz negro a encarava fixamente. Por um segundo ela recuou. Já fazia algum tempo afinal, talvez ele não a reconhecesse. Subitamente, os poucos passos que agora a separavam do portão pareceram uma distância enorme e intransponível. Não teria muita escolha, senão tentar o reconhecimento. Segurou o ursinho e aproximou-se do cão, devagar. Ele não se moveu, apenas farejou o ar várias vezes, com um semblante indecifrável, até que finalmente deitou-se, quieto, apoiando o focinho sobre as patas da frente. Definitivamente, ele se lembrava. Mas a recepção nada efusiva também deixava claro que estava "magoado", pelo abandono. _ Hei, seu vira latas grande e fofo...vai me castigar por ter deixado você? Vamos, deixe de bancar o difícil...olhe o que eu trouxe para você...Vamos, garoto, venha buscar! Desconfiado, levantou-se e já era possível perceber um leve abanar da cauda. No próximo instante, depois de um último momento de hesitação, já saltava animado, tentando abocanhar o presente que ela trouxera para ele. _ Muito bem, menino, muito bem! Pronto, é seu, você merece! Alertada pela bagunça na entrada da casa, uma mulher idosa apareceu, trazendo uma vassoura nas mãos como quem segurava uma arma. _ Mas quem...Oh, mas não é possível! Srta. Romanov?!?_ a mulher soltou imediatamente a "arma" e a abraçou emocionada. _ Eu mesma, minha querida Ivanova. Como está você? Tem cuidado bem dos meus dois russos teimosos? _ O Sr. Igor não para em casa, sempre viajando, trabalhando, trabalhando. E esse ai está cada vez mais rabugento, acho que não gosta de ficar sozinho comigo tanto tempo... _ Mas aposto que você os está mimando com aquela comida maravilhosa que só você sabe preparar! Vamos, quero conversar e tomar um bom café. E eu preparo dessa vez, enquanto você me conta como anda a vida por aqui. Nada de correria, prometo. Tenho todo o tempo do mundo e quero rever uma série de coisas e passar o tempo, enquanto esperamos o Igor voltar de viagem ._ foram para dentro da casa, conversando animadas. Segundos depois, a porta foi aberta novamente _ Czar, vem! _ o cão não esperou um segundo chamado e entrou na casa levando consigo o ursinho, já parcialmente destruído... Logo depois, a fumaça da lareira acesa subiu densa pela chaminé da pequena casa isolada no meio da estepe, enquanto a conversa e o cheiro de café embalavam o sono do grande cão branco, que dormia seguro e tranqüilo aos pés de sua dona. PAANAJARVI 17 DE JANEIRO Os dias se passavam e a sensação de finalmente estar em casa quase se tornava real. Igor havia voltado, mas ela não contara nada a ele, tinha esperanças de que pudesse ter deixado todos os problemas em Roma... mas, repentinamente o toque do telefone no meio da noite punha fim aos seus planos. Enquanto brincava com as orelhas sedosas de Czar, que parecia de novo um filhote, Ale observava Igor ao telefone. Ele falava baixo, não permitindo que ela escutasse, mas pelo rosto dele ela sabia que falava com Sil. Assim que desligou, ele juntou-se à ela no sofá macio. Deu um suspiro e passou as mãos pelos próprios cabelos antes de começar a falar, o que significava que estava tenso. _ O contato de vocês me colocou numa linha segura, era a Sil... Ela não respondeu. _ Vai me contar? _ Sobre o quê? Ele novamente suspirou. _ Ale, você chegou aqui sem aviso, eu a encontrei naquele lago com a mesma expressão que vi há anos atrás quando você me contou sobre sua família... _ Isso foi há muito tempo... _ Mas você não mudou tanto assim. Não imagina como me fez feliz saber que você havia voltado, achei que finalmente tivesse abandonado tudo, mas você se recolheu, tenta agir como se tudo estivesse bem, porém eu te conheço...não...não tente me interromper. Eu conheço a menina assustada escondida nesta roupagem adulta e voluntariosa, sei que você está no limite, pelo amor de Deus ou de quem quer que você acredite, pela nossa amizade, confie em mim. Se eu não puder te ajudar, pelo menos estarei aqui. _ Você já sabe que eu vou morrer _ ela respondeu asperamente _ O que mais quer saber? Se está doendo? Se eu estou apavorada? Se posso lidar com isso sozinha ? Eu já lidei com coisas piores do que esta, Igor e a morte já não me assusta como antes... Ele levantou-se e tomou-a pelos ombros. _ Nada mais te assusta ? E como será quando a doença começar a dominar seu corpo? Como será quando você não puder mais fazer as coisas por si mesma?_ a voz dele tornou-se mais amarga _ Como será quando eu não puder mais ouvir seu riso? O que vai acontecer quando você não tiver mais forças para continuar sozinha? Se isso não te assusta, a mim apavora. Eu viverei bem longe de você se souber que está tudo bem, mas não assim. Não seja egoísta, Ale, não nos exclua da sua dor, do seu medo, não se afaste de nós. Somos seus amigos, eu sei o que elas passaram por você naquele campo. Os olhos dela brilhavam, seus dedos estavam trêmulos quando tocaram a face dele. Vários minutos foram consumidos pelo silêncio até que ela apoiou a cabeça no ombro dele, deixando-se envolver pelo seu abraço e, finalmente, se permitiu chorar. Sim, tinha muito medo e lembrava-se claramente do que suas parceiras haviam passado com ela... SIBÉRIA 1985 _ Levante-se! O comando rude não foi obedecido e Ale assistia horrorizada o sangue da amiga tingir de vermelho a neve que cobria o pátio de treinamento. Seu movimento em direção à jovem caída foi impedido pelo ruído da arma sendo engatilhada. O oficial tinha a arma apontada para sua cabeça e sua voz era apenas um murmúrio entre dentes: _ Não se atreva. Ela permaneceu parada, tremendo de raiva, enquanto Gorovich se aproximava de Sil e a chutava na altura das costelas, arrancando um gemido de dor da jovem quase inconsciente. Sil estava pagando por seu erro. Como veterana, era sua responsabilidade se o recruta sob seus cuidados falhasse e, embora Claudia também fosse responsável por Ale, Gorovich tinha um prazer mórbido em castigar Sil. A voz do comandante soou cortante no vento frio que os rodeava. _ Eu mandei levantar, agora! Sil apoiou as mãos na neve e levantou a cabeça. Seu rosto e as roupas estavam manchados com o sangue que escorrida de seu nariz e do supercílio, machucados pelos golpes do comandante. Num último esforço ela se colocou em pé, oscilando sobre seu peso. O comandante atacou a garota mais uma vez. Ela conseguiu evitar o primeiro golpe mas não estava mais em condições de lutar. Tremendo de raiva, com lágrimas escorrendo em seu rosto, Ale foi obrigada a assistir imóvel, junto com os outros, Gorovich arrastar Sil até o largo tonel de madeira onde se aplicava o pior castigo do campo e mergulhar a jovem lá dentro, segurando metade de seu corpo afundado na água gelada. Sil se debatia tentando se soltar mas não tinha forças para tanto. Ale podia sentir o gosto de seu próprio sangue em sua boca mas não conseguia deixar de morder o lábio inferior em um esforço para não gritar de ódio e desespero. Não ousava tirar os olhos da cena aterrorizante que presenciava mas podia ouvir os gritos de Claudia, segura pelos braços de dois dos guardas mais fortes do campo e, embora não entendesse a língua que ela falava, sabia que Gorovich devia estar sendo amaldiçoado em todas as suas gerações. Depois do que pareceu uma eternidade, ele trouxe a jovem de volta à tona. Sil ainda se debatia e soluçava e recebeu o castigo mais duas vezes antes de Gorovich jogá-la no chão sem cerimônias e se afastar, deixando a jovem quase desfalecida, caída no meio do gelo e da lama que rodeava o tonel de água..." _ Ao menos telefonar... A voz de Igor a trouxe de volta ao presente, mas ela balançou a cabeça irredutível. _ Eu não estou sendo egoísta Igor, ao contrário, quero poupá-las de tudo isso. Ela recusava-se a encarar o homem que andava de um lado para o outro furioso. _ Você parece criança, eu não acredito que simplesmente sumiu sem deixar ao menos um recado. _ Não era preciso, meu querido. Elas são competentes o suficiente para me encontrar até no inferno. Eu precisava de uns dias de descanso e tranqüilidade. Não se preocupe, a raiva da Sil passa rapidamente, sempre. ROMA 17 DE JANEIRO Sil colocou o fone no gancho e olhou para as amigas. _ Ela está com ele. O alívio era visível no rosto de Claudia. _ Quando fizermos contato com as meninas, logo mais, daremos as boas notícias. Por hora estou preocupada...esse homem parece nunca ter existido, Sil... As duas já vasculharam metade dos locais daquela lista e até agora nada... _ Confie em mim, Claudia. Sei que vamos encontrá-lo. Agora tenho de ir. Preciso trazê-la de volta, todo o tempo que pudermos ganhar será precioso. RÚSSIA DOIS DIAS DEPOIS Ale caminhava de um lado para outro entre as plantas do pequeno jardim, que pareciam comemorar a chegada da primavera, ignorando o tom urgente da conversa que ali se desenrolava. _ Se existe uma possibilidade, precisamos de todo o que tempo que ela puder ganhar, você entende? Nós não sabemos onde encontrar o tal cara, mas vamos procurar por cada buraco deste planeta. Ela tem que sobreviver até que o achemos! Aqui, no meio da neve, longe do hospital, você sabe que não é o melhor lugar, não é? Igor, precisa convencê-la! _ Eu? Você sabe que quando essa teimosa coloca algo na cabeça, nada a faz mudar de idéia! Ale apenas observava Sil e Igor discutindo aos gritos no meio do jardim florido. Ela acharia a cena engraçada se não se tratasse dela mesma. Na verdade estava tão desligada, que mal prestara atenção a história esquisita de Sil, que chegara da Itália agitada, dizendo ter encontrado uma esperança e que queria que ela voltasse imediatamente para lá e se enfiasse em um maldito hospital para esperar pelo "milagre". Era tudo tão estranho, parecia uma cena de filme ruim... _ Você dois podem fazer o favor de parar agora mesmo? Eu odeio que falem de mim como se eu não estivesse presente... Para seu espanto ela foi solenemente ignorada pelos dois, que continuaram a discussão sem se importar com ninguém ao redor. Ale caminhou até onde seu cachorro estava preso e soltou- o, instigando-o contra o casal que a ignorava. Ao ver o cão correndo em sua direção, Sil soltou um grito e jogou-se contra Igor que a levantou nos braços rindo. Ale sentou-se no chão, rindo também da travessura irresistível . _ Isso não tem graça, Ale, você sabe que morro de medo de cachorro! _ Ele não morde, Sil... Ale tentava controlar o ataque de riso, enquanto a amiga aninhava-se mais nos braços do russo. _ Claro que não, ele come as pessoas vivas, só isso. Pensa que eu não sei o que ele fez aos carteiros?! _ Ele é mansinho... _ Mansinho? Isso nem mesmo é um cachorro, isso é um pônei disfarçado, olha só o tamanho desse monstro! _ Ele não é um pônei, é um Kuvasz. Tá bom, tá bom, Czar, vem...aqui menino...isso, bom garoto, não pode assustar a tia Sil, ela é capaz de enfrentar um exército armado, mas não chega perto de um cachorro fofo. Sil a olhava com ar de brava, seu pavor por cachorros era algo que ela não sabia explicar, totalmente irracional. Ale sabia bem disso e, ao ver a palidez do rosto da amiga sentiu um pouco de remorso pela brincadeira e por não estar fazendo o que a outra esperava dela. Para ela era tudo muito claro, não queria correr atrás de nada, mas as outras não sossegariam enquanto não esgotassem todas as possibilidades, inclusive as mais absurdas, pelo que entendera agora. O que seria pior? Passar seus últimos dias num hospital de paredes verdinhas e dar às suas amigas a sensação de que tinham feito tudo o que podiam ou ser egoísta e ficar ali, quieta como queria, mas deixar na mente delas a eterna dúvida sobre o que poderiam ter feito? Confusão... Com um suspiro alto, puxou uma cadeira, sentou-se e tentou seu semblante mais tranqüilo. _ Ai, ai...muito bem, Sil. Conte-me de novo sobre o que a agente Scully lhe falou...sobre essa tal "possibilidade", para a qual você quer que eu ganhe tempo, fazendo o maldito tratamento e trocando minha casa por um quarto de hospital... não quero que você diga que eu sou insuportável ou que fique com a sensação de que não fez alguma coisa. Vamos, me conte desde o começo. Ivanova providenciou chá e café e a conversa seguiu num tom mais tranqüilo, noite a fora. Washington UM MÊS DEPOIS Claudia desligou o monitor com um suspiro impaciente. Um mês de buscas infrutíferas. Ela e Sil já estavam em Washington há quinze dias. Scully conseguira o acesso delas no FBI com a ajuda de Skinner e elas passavam o dia pesquisando os antigos arquivos de Mulder a respeito dos híbridos humano-alienígenas que, segundo as informações, tinham o poder de curar os humanos. Todos haviam sido eliminados pelo que Mulder chamava em seus relatórios de "Caçador de Recompensas" e que Scully identificara como o homem que seqüestrara Kes e acompanhava Marita Covarrubias quando a encontraram na festa da embaixada marroquina. Todos menos um : Jeremiah Smith fora levado pela nave alienígena na mesma noite em que Mulder fora devolvido morto. Não fosse por isso, provavelmente o agente pudesse ter sido salvo pelo sujeito. Era difícil acreditar em tudo aquilo, mas Claudia mantinha a mente aberta para qualquer possibilidade que pudesse ajudar Ale, e Sil tinha uma fé inabalável de que encontrariam esse homem. Ale concordara com muita relutância com a idéia mais do que maluca que Sil lhe apresentara. A presença de Igor fora de vital importância para a decisão dela em aceitar que as amigas procurassem pelo tal homem milagroso. Olhou no relógio e ia avisar Sil que tinham que ir. As noites eram gastas invadindo armazéns e prédios que supostamente abrigaram experiências genéticas. Até aquele dia, nenhuma pista tinha sido encontrada mas elas ainda tinham uma lista bem longa para verificar apenas em Washington e arredores. Clá estava na Califórnia e Kes na Flórida, ambas também investigando possíveis instalações secretas. Claudia imaginava que se alguém compilasse os relatórios do agente Fox Mulder, ganharia um prêmio como melhor escritor de ficção do mundo. _ Claudia... _ Já vou, Sil... _ Temos problemas... Ao se voltar para o canto onde a amiga segundos antes remexia em caixas de papelão, Claudia empalideceu. Sil estava imobilizada sob a mira de uma arma, os braços presos ao longo do corpo pelo braço de seu captor. Claudia levantou-se depressa mas foi impedida de se mover pela voz sarcástica do canalha. _ O que pretende fazer? Me atacar? Eu atiro nela antes de você conseguir dar o primeiro passo. Ela fechou os olhos e respirou fundo ao ouvir a ameaça de Alex Krycek. Sentou-se devagar para encará-lo, aparentando uma calma que não sentia. _ O FBI devia ter mais cuidado com o tipo de gente que freqüenta suas instalações. _ Digo o mesmo Anjo, você não é exatamente o modelo de cidadã que poderia estar aqui remexendo em arquivos confidenciais. _ O que você quer conosco desta vez Alex? Já estou me cansando da sua presença constante, sabia? _ Vocês continuam xeretando em coisas perigosas mocinhas. _ Coisas que são de nosso interesse. _ Seu interesse? Sua amiga foi devolvida, até Mulder foi devolvido, o que mais vocês querem com esse assunto? _ Alex, pode soltar a Sil, esse teatrinho é desnecessário. Diga logo o que quer! _ Depois que me disser o que procura. Ela hesitou mas respondeu. _ Preciso encontrar uma pessoa. _ Que pessoa? Claudia olhou para a amiga por um instante e fixou novamente os olhos de Krycek. _ Um homem chamado Jeremiah Smith. Ele estreitou os olhos curioso. _ O que vocês podem querer com ele? _ Alex, deixe-nos ir embora... Mas ele parecia não ter pressa e mantinha Sil bem perto dele. _ Sabe, começo a gostar dessa rotina de ter sempre uma de vocês bem pertinho de mim. Pena que isso só aconteça ultimamente sob a mira de uma arma, mas nem sempre foi assim, não é Sil? Ela disparou meia dúzia de palavrões em russo que só o fizeram rir. _ Você sempre aprendeu depressa pequenina mas confesso que algumas destas palavras, vindas de sua boca me deixam chocado. _ Vá para o inferno Alex! Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela. Ao vê-la tentar afastar-se ele olhou para Claudia que tremia de raiva, parada a poucos passos. _ Você a obrigou a fazer outra daquelas promessas bobas de não me deixar tocá-la? Não sabia que ainda sentia ciúmes de nós dois. Claudia respondeu em russo nos mesmos termos que Sil havia usado há pouco e Krycek parecia estar se divertindo demais com a situação. _ Ah, Anjo, você continua a mesma, sempre previsível. Sabe o que enfraquece você? Elas, a sua preciosa equipe. Dizendo isso, Krycek passou seu braço pelo pescoço de Sil, numa posição em que poderia facilmente quebrá-lo..._ Chega de carinho...vamos voltar a conversa séria..._ encarou Claudia novamente. _ Você morreria por suas amigas não é Anjo? Mas não deixaria que uma delas morresse por você. _ Alex deixe-a em paz! _ Fale Anjo, o que você quer com Jeremiah Smith? O silêncio se estendeu por alguns segundos. Krycek aumentou a pressão do braço que prendia Sil e começou a apertá-lo lentamente. Claudia a viu lutando por ar e deu um passo à frente. _ Mais um passo e ela morre, responda à minha pergunta. Vencida, a líder do Azul Celeste gritou. _ Precisamos dele para ajudar a Ale! Sil podia novamente respirar. _ Me conte tudo, Anjo. Em uma voz quase inaudível ela relatou os últimos acontecimentos. Seus olhos não deixavam a amiga que respirava com dificuldade, presa no abraço mortal daquele traidor. O rosto de Krycek assumiu várias expressões nos minutos que se seguiram, até que por fim, ele a soltou. _ Já disse tudo o que você queria, agora nos deixe ir Alex, estamos correndo contra o tempo. Ele sorriu com cinismo. _ Ah, a amizade. É tão tocante como vocês mulheres são sensíveis a essa baboseira sentimental. Então sua amiguinha inconveniente está condenada? Que pena... As duas se entreolharam assustadas e ele se aproximou de Claudia até seus rostos quase se tocarem. _ Eu poderia ajudá-las, pelos velhos tempos, mas eu já tinha avisado a Sil, que se precisassem de mim novamente, o preço seria muito caro. _ Você sabe onde ele está. Não era uma pergunta e ele aproximou-se mais. Claudia fechou os olhos tentando ignorar o calor que emanava do corpo dele. Um corpo que ela conhecia tão bem, um homem que ela odiava por sua covardia e traição. ISRAEL 15 anos atrás Tudo havia saído errado. Ela se precipitara e por causa disso, pelo menos 400 mulheres e crianças estavam mortas naquele instante. Sem contar sua equipe que ficara soterrada no desabamento do último prédio da instalação que destruíra. Apenas Sil e Alex haviam sobrevivido, além dela, é claro. Seu desespero era tamanho que há um dia não se alimentava. Sequer ousava erguer os olhos para sua amiga que caminhava silenciosa ao seu lado. Não queria ter que encarar a recriminação que ela sabia, estaria sombreando os olhos escuros de Sil. Alex continuava gentil e carinhoso. Reafirmara várias vezes que a culpa não fora dela, alguém dera o alarme e precipitara tudo. Mas Claudia não se conformava e não se perdoava. Matar mercenários e soldados era uma coisa. Matar mulheres e crianças indefesas era bem diferente. Não estavam sendo treinadas para atingir civis. Eventualmente inocentes poderiam ser atingidos em uma missão mas não naquelas proporções. Quando chegaram ao ponto de encontro, Alex deixou-as sentadas ao lado da formação rochosa e se afastou para usar o rádio e comunicar a equipe de resgate. As duas ficaram sentadas lado a lado na areia, sem se encararem até que a voz de Sil quebrou o silêncio. _Proust era um desertor... _ O quê? _ Eu disse que ele era um desertor. _ Como sabia? _ Ele me contou há algum tempo. _ E o que isso significa? _ Por que mandariam um desertor para uma missão fora do país? Claudia não respondeu, continuando a fitar o horizonte desenhado atrás do tapete de areia. Sil continuou falando como se conversasse consigo mesma. _ Dust estava lá por ter sido desmascarado como agente duplo pela CIA e deportado dos Estados Unidos; Ivarov foi acusado de traição ao regime comunista há cinco anos atrás, Carlo só sobreviveu a este ano de treinamento porque estava em nossa equipe. _ Sil, o que você está querendo dizer? Seus olhos se encontraram pela primeira vez desde a explosão na noite anterior. Claudia não viu a temida rejeição neles, apenas o brilho triste que sempre sombreava os olhos escuros da amiga desde que a conhecera. _Claudia, todos os recrutados para esta missão eram absolutamente descartáveis. Um calafrio percorreu a espinha da jovem de olhos claros, ela havia pensado exatamente a mesma coisa mas sua mente recusava-se a acreditar que o homem que amava faria algo deste tipo com ela. _ Acredita que ele faria isso comigo? _ Foi ele quem escolheu cada um de nós. As palavras a atingiram com a força de um tapa mas ainda assim, ela se recusava a acreditar. _ Não, ele não faria isso, não faria, entende? Nós estamos juntos, ele não me trairia, nunca... E o que ele ganharia com isso? _ Alex foi mandado para a Sibéria por suspeita de traição. _ Cala a boca Sil, não fale mais nada. _ Claudia, ele faria qualquer coisa para voltar às boas graças do alto escalão. Um erro deste tamanho vai fazer mudar muita coisa na rede de comando da KGB, ele pode ter sido enviado justamente para provocar isso! Depois, é só ele entregar os culpados e subir junto com quem se beneficiará das mudanças... _ NÃO! Elas agora estavam em pé, se encarando. Claudia segurou a amiga pelos braços e sacudiu-a com força, terminando por jogá-la na areia. Ficou parada lá, ofegante, confusa, fitando a jovem caída a seus pés. _ Você é minha melhor amiga, a única que tenho. Não faça isso comigo Sil. _O que está acontecendo aqui? Claudia virou-se depressa e caminhou em direção a Alex, que acabava de voltar. Sil levantou-se devagar, passando as mãos em suas roupas cheias de areia. Não tirava os olhos de Alex que a observava por sobre a cabeça da jovem que agora o abraçava. Depois de alguns segundos, segurou o rosto de Claudia entre as mãos e beijou-a. Quando se separaram, ele sorria. _ O que aconteceu, Anjo? Claudia não conseguiu falar e a voz de Sil cortou o silêncio do deserto como uma faca afiada. _ Por que nos escolheu para esta missão Alex? O russo a enfrentou com um sorriso de sarcasmo na boca bem feita. _ Quem lhe disse que fui eu? _ Quem comanda a operação escolhe a equipe lembra? Não sou idiota Alex, você trouxe apenas agentes dispensáveis na equipe, pessoas que não fariam falta nenhuma. Ele ficou em silêncio e por um breve instante, Sil achou que ele iria rir e dizer que ela era maluca por imaginar algo daquele tipo mas as palavras dele, embora fossem a confirmação de suas suspeitas, a chocaram. _ É verdade, nenhum de vocês faria falta, esta missão precisava falhar e eu escolhi com cuidado aqueles que viriam comigo. Uma grande porcaria seria feita, agentes seriam perdidos e eu encontraria os responsáveis e os entregaria ao comando... Alex sentiu Claudia estremecer em seus braços e tentar se afastar mas segurou-a com força contra si, impedindo-a de se mover. _ Alex, me solta... _ Não tão depressa Anjo. Você vai fazer exatamente o que eu disser. Nós vamos direto para Moscou e lá, você vai assumir a responsabilidade pelo que aconteceu. _ E o que acontece com ela se assumir a culpa? _ Nada, vocês estão em treinamento, voltam para a Sibéria. _ E você volta às boas graças dos chefões e se livra daquele inferno gelado de uma vez por todas. _ Exatamente pequenina, e se você ficar quietinha e não abrir a boca, eu consigo que você fique comigo em Moscou. Claudia ergueu os olhos para o amante, horrorizada com o que estava ouvindo. A expressão de Alex para ela foi de pura indiferença. Ele parecia mesmo, era muito interessado na resposta de Sil. O toque dos lábios dele nos seus a trouxe de volta ao presente. Com um gesto brusco afastou-se dele, sentindo nojo de si mesma por um dia ter sido tão cega de paixão que quase se destruíra por aquele homem. _ Eu não vou pagar seu preço Alex, seja ele qual for. Encontrarei este homem sem a sua ajuda. _ Não encontrará não. Ele está com gente muito astuta e sem minha informação vocês não terão como localizá-lo. Eu sei onde está o que restou do grupo envolvido com eles...com quem levou Jeremiah Smith...claro, eles não vão entregá-lo por bem, vocês vão ter fazer o trabalho sujo. Quem sabe eu tenho sorte e eles somem com todas vocês...hein? Os olhos verdes se cruzaram com os de Sil e ela entendeu a mensagem da amiga no mesmo instante. Sua voz era firme quando falou. _ Eu aceito. Pagarei o seu preço Alex. Ele se aproximou de Sil, o sorriso maldoso, indicando que aquela negociação não seria fácil, nem agradável. _ E você Sil? Você não aceitou uma oferta que lhe fiz certa vez, por que aceitaria agora? Ela respirou fundo antes de responder. _ Por que desta vez não tenho escolha Alex. É a vida da Ale que está em jogo, não vale o meu orgulho. Apenas nos diga o que quer. Ele ficou em silêncio por um instante avaliando as duas mulheres. Claudia tremia de raiva e ele saboreou o gosto da vitória sobre aquela mulher orgulhosa. Qualquer coisa que exigisse delas em troca da informação, seria um golpe muito duro em Claudia. Ele se aproximou de Sil e sussurrou algo no ouvido dela. _ Uma vida por uma vida..._ seu tom de voz fez com que Sil temesse o que estava por vir. _ em alguns dias darei a vocês a informação que desejam. Depois, mando a conta... Claudia não tinha idéia do que acabara de trocar pela vida de sua amiga... TUNÍSIA 20 DE FEVEREIRO Os cabelos da garota estavam firmemente presos pelo fone de ouvidos que impedia o barulho ensurdecedor ao redor de atrapalhar sua concentração. Mesmo assim, seus olhos se perdiam na paisagem sob seus pés, ou melhor, sob suas asas... O deserto sempre lhe parecera ter um aspecto fascinante, um toque de mistério, talvez. A cor das dunas, o movimento silencioso e constante provocado pelo vento delicado, que desloca cada grão de areia com paciência milenar, esculpindo formas efêmeras, mutáveis, que nunca serão as mesmas no instante seguinte...Claro, as vezes esse mesmo vento tinha urgência e parecia querer mover todo o deserto de uma só vez, em tempestades magnificas e assustadoras, capazes de fazer desaparecer cidades inteiras, mas isso era relativamente raro. Visto de cima, tudo parecia ainda mais bonito, mais irreal...por um minuto imaginou-se de volta no tempo, quando caravanas cruzavam as dunas contando com nada mais do que a persistência humana e a resistência dos camelos... muito provavelmente pouco mudara desde então e a única coisa que indicava a passagem do tempo era a estrada lá embaixo, que tentava romper a areia, numa luta constante dos homens para mantê-la livre das dunas. Mas o deserto é paciente e um dia vencerá... O homem já conquistou quase tudo, menos o deserto, que exige respeito e o tem. Pelo menos dos homens mais sábios... _ Muito bem, Azul Celeste, iniciando seqüência final da operação alfa. É com vocês agora! _ a voz de Claudia soou segura e decidida no rádio do helicóptero, interrompendo-lhe os devaneios. Kes então esperou que a companheira respondesse ao chamado. _ Entendido, Líder Azul, estamos seguindo o alvo._ Clá estava no comando da aeronave que acompanhava o percurso do comboio de caminhões pela estrada do deserto. Havia sido bastante complicado tomar o lugar da equipe original de escolta, mas agora estava tudo seguindo conforme os planos. Deixando o rádio, fez uma careta contrariada e chamou a atenção de Kes, que conferia num computador portátil todos os elementos da missão _ Operação alfa? Que coisa mais bestinha... O que aconteceu com os nomes das nossas missões? Se a Ale tivesse traçado esses planos, tenho certeza de estaríamos numa "operação alface" em homenagem ao verdinho que vamos resgatar, ou algo do gênero... _ Ah, Clá, não enche! Já estou nervosa o suficiente por estar fazendo isso sozinha pela primeira vez, você ainda vem implicar com o nome que eu dei para droga da missão! _ Eita...calma, que estresse! Só não faço uma manobra daquelas bem desagradáveis com esse troço, porque chamaria a atenção dos palhaços lá de baixo. Senão você ia ver como passava rapidinho a irritação da mocinha... _ É...tô tensa. Cara, é estranho estar cuidando da logística da operação...a Ale sempre fez isso... _ Mas treinou você. E a Claudia a só colocou você no lugar da Ale porque sabe que ninguém faria melhor. E afinal, deu tudo certo até aqui. _ Tirando o fato de invadirmos o hangar errado? _ É, tirando isso, claro. Mas o plano estava certo, os caras é que trocaram de helicóptero na última hora. E isso não importa, já que conseguimos do mesmo jeito. _ Azul celeste, contato estimado em seis minutos _ Entendido Líder Azul. Vamos fazer a volta e assumir a retaguarda do comboio. A aeronave fez um giro e posicionou-se cem metros atrás do último caminhão. A manobra não passou desapercebida pela segurança de terra, que imediatamente rompeu o silêncio pela freqüência normal . _ Ei, mieno, kia manovro tiu? _ Clá...acho que é com você...hehehe...Será que é um convite para jantar? _ Engraçadinha... Faremos contato visual em três minutos, Kes. Assuma posição com seu brinquedinho. Kes abriu a porta do seu lado e posicionou um lança foguetes , fazendo mira no último caminhão. _ Freneza! Kiu é komando? _ o chamado do rádio agora parecia furioso _ Só mais um minutinho...atenção...lá estão elas! Pode responder para esse cretino agora, Kes! No instante seguinte, o último caminhão tanque da fila ia pelos ares, numa grande explosão, que bloqueou a estrada com uma parede de chamas. Ao mesmo tempo, um imenso caminhão foi atravessado na estrada logo a frente do comboio, impedindo a passagem. Em seguida, seu compartimento de carga se abriu e dele saíram dois jipes. Sil dirigia um deles, Claudia o outro. Vendo-se cercados, os carros da segurança de terra pararam e deles desceram homens armados que disparavam contra o helicóptero, sem sucesso. Um a um, os outros três caminhões foram pelos ares, vítimas da pontaria certeira de Kes e do domínio impecável de Clá no controle da aeronave. O único veículo restante do comboio era um carro similar a uma van e já estava parado, cercado pelos dois jipes. Clá e Kes pousaram a aeronave perto do carro, enquanto Claudia e Sil cercavam a cabine do veículo, obrigando os ocupantes a descerem. No último banco da van, um homem de cabelos brancos assistia a tudo imóvel e obedeceu sem uma palavra quando as duas mulheres ordenaram que descesse e as acompanhasse. Entraram no helicóptero e decolaram imediatamente. Uma vez no ar, ele analisou com cuidado suas seqüestradoras. As duas jovens não aparentavam muito mais de vinte anos, mas agiam como soldados bem treinados. As outras duas, pareciam mais experientes. Jeremiah sabia que elas tinham interesse nele e sentiu-se confiante para interrogá-las. _ O que querem comigo? _ Um favor. _ E em troca deste favor você fica livre. _ Livre para quê? _ Para abrir uma clínica para doentes terminais, fundar uma seita milagrosa, sumir do mapa, o que você quiser. O homem não precisou pensar muito para se decidir. CENTRO MÉDICO DE ROMA 21 DE FEVEREIRO _ Quando aconteceu?! Por que não nos avisaram? _ Sil invadiu a área de terapia intensiva com gentileza de quem toma de assalto um forte militar. _ Quem é a senhora? Não pode entrar aqui assim! _ uma mulher de branco, talvez uma das enfermeiras, gritava irritadíssima, enquanto perseguia Sil pelos corredores da UTI. _ Pode deixar, pode deixar...eu a conheço..._ o jovem médico que já tivera um encontro anterior com Sil e outro um pouco pior com Claudia, intercedeu, segurando Sil _ Calma, calma! Está me ouvindo? Você tem de ter calma agora... _ Onde ela está? Você não entende, nós conseguimos, nós o achamos... me diga que não é tarde demais, por favor, me diga que ela está viva..._ Sil estava descontrolada, falava sem parar e o médico já começava a achar que teria de aplicar- lhe algum sedativo, antes de dizer o que tinha de dizer... _ Calma, precisamos conversar, mas você tem de parar e me ouvir, por favor. Ela respirou fundo e tentou recuperar a calma enquanto se sentava diante do médico. As outras chegaram logo em seguida e o homem lançou um olhar amedrontado quando viu a expressão de Claudia, mas obrigou-se a fitar novamente a mulher sentada à sua frente. _ Ela teve uma crise, foi preciso induzir ao coma ou ela não resistiria. O silencio pesado que se seguiu indicava o quanto aquela notícia as desalentara. _ Onde ela está doutor? _ Na UTI. Podem ir até lá, darei a ordem autorizando a entrada de vocês. O médico olhava com suspeita para o homem de cabelos brancos que acompanhava as mulheres, mas não ousou emitir nenhuma objeção. Sem uma palavra, Sil levantou-se e seguiu pelo corredor até a unidade de tratamento intensivo. Havia apenas uma enfermeira no balcão que acabava de desligar o telefone e afastou-se para deixar Sil e Claudia entrarem. Dentro da sala imaculadamente branca, as roupas negras de Igor se destacavam escandalosamente. O russo tinha a cabeça abaixada, os olhos fechados e estava imóvel diante da cama de ferro onde Ale estava, inconsciente. O ruído de um soluço abafado o despertou de seu torpor e ele virou-se para encarar as duas mulheres. Num gesto raro naquele homem tão frio, envolveu as duas mulheres em um abraço, deixando as lágrimas retidas há dias, finalmente caírem livres por seu rosto. Sil levantou os olhos e encarou-o com um sorriso esperançoso. _ Nós o encontramos Igor, ele está aqui. O russo olhou para a entrada da sala onde Clá e Kes ladeavam um homem de aparência comum, vestido com roupas simples. Por um instante ele quase sentiu vontade de rir. Não podia acreditar que aquele homem poderia fazer algo que a medicina não conseguira em anos de pesquisa. Mas Sil parecia convencida e, aparentemente convencera as amigas, pois todas tinham a mesma esperança estampada nos rostos cansados. Jeremiah aproximou-se do leito em silêncio. Depois de alguns segundos pediu em voz baixa que todos os aparelhos fossem desligados. Igor começou a protestar, mas a mão pequena de Sil já estava cumprindo a ordem. Por quase um minuto ninguém respirou na sala, enquanto as mãos de Jeremiah permaneciam imóveis sobre a cabeça de Ale. Foi quando um pequeno suspiro vindo do leito indicou que ela respirava normalmente. Jeremiah virou-se para as cinco pessoas ansiosas às suas costas. _ Ela ficará bem. Vai dormir por algum tempo mas depois acordará bem. _ A doença...? A voz de Igor estava embargada. _ Não existe mais. Nem voltará mais, não precisa se preocupar. Todos continuavam quietos, embora o desejo de acreditar fosse imenso, precisavam de provas... Jeremiah apenas observava tranqüilamente quando o médico de Ale entrou na sala. Claudia não permitiu que ele falasse nada. _ Doutor, leve-a para refazer todos os exames, precisamos que verifique qual o seu verdadeiro estado de saúde agora. O encontro com aqueles olhos verdes determinados indicou ao médico que não adiantaria retrucar. Rapidamente, ele chamou os enfermeiros que levaram Ale para realizar os exames. Naquela mesma noite todos estavam acomodados no quarto para o qual haviam transferido Ale. Já era madrugada quando o médico entrou como um furacão no quarto, a expressão incrédula em seu rosto indicando que Ale estava mesmo curada. Enquanto Clá, Kes e Igor conversavam com o médico, Sil observava a amiga que ainda dormia tranqüilamente, sua expressão pacífica, trazendo um sorriso que já há algum tempo não podia ser visto no rosto de Sil. Jeremiah aproximou-se do leito, era como se adivinhasse que aquela mulher ainda tinha algo a lhe pedir. _ Jeremiah...posso pedir mais um último favor? _ O que mais quer de mim? _ Pode fazer com que ela não se lembre de nada disso? _ Isso é tolice...não é importante... As outras olharam para Sil como se ela houvesse enlouquecido. _ Sil, é nossa chance de fazer a Ale acreditar, não entendo você... Com um gesto ela calou os protesto de Clá e fixou o olhar no homem dos milagres _ Não, não é tolice, Jeremiah...nesse caso, mais importante do que salvar a vida, é salvar a essência da nossa amiga. Eu acho que nós não poderíamos conviver com Ale, se destruirmos suas convicções sem oferecer algo palpável e lógico em troca...entende o que quero dizer? _ Entendo... Dizendo isso, ele aproximou-se por mais alguns minutos da mulher que dormia tranqüilamente . _ ...ela não vai se lembrar de nada que aconteceu desde sua crise, em dezembro. A explicação quanto ao período perdido, fica por sua conta. _ Obrigada... Pensaremos em algo, isso não será problema. Tem sua liberdade agora... _ Eu sempre estive livre, minha cara. Só vim com vocês porque achei que devia. Ela sorriu para ele. _ Precisa de algo? Dinheiro, um lugar para ficar... Ele ergueu as mãos sorrindo. _ Tenho tudo o que necessito aqui, comigo. Dizendo isso ele deixou o quarto e desapareceu pelos corredores silenciosos do hospital ROMA 02 DE MARÇO 9:30 P.M. Sil estava sentada na sala aconchegante, escutando a música suave, de olhos fechados. Estava tranqüila como há muito tempo não se sentia, agora que Ale estava bem. A única coisa complicada, dos últimos dias, havia sido conseguir provas convincentes de que um acidente, durante uma fuga desastrada ao término de uma missão, fora responsável pela amiga ter ficado em coma desde dezembro. Mas, como Ale realmente não se recordava de nada, tudo foi resolvido com a ajuda de alguns registros da tal missão, habilmente falsificados, e uma história muito bem decorada por todas elas e repetida com perfeição. Claro, o médico também fora convencido, da melhor maneira, a esquecer tudo o que vira e a devolver todo e qualquer registro sobre o caso que não combinasse com a história do acidente. Logo depois, Igor fizera questão de levá-la para a Rússia por algum tempo e nenhuma delas vira problemas nisso. Quando ela voltasse, retomariam as atividades do Azul Celeste. O ruído do celular estridente rompeu a harmonia das notas de Bach e a assustou. Levantou-se rápido, apanhou o pequeno aparelho no aparador e atendeu em italiano. Mas a voz do outro lado da linha respondeu em inglês. A ligação estava ruim mas ela identificou a voz de Dana Scully embaixo da interferência. _ Scully, o que você disse? Não estou conseguindo ouvir....droga de celular... A linha ficou muda por um instante e logo em seguida uma voz grave tomou o lugar da de Scully. _Sil? Ela demorou um segundo para assimilar a quem pertencia aquela voz... _ Quem...quem está falando? Meu Deus... Escoteiro?! WASHINGTON 04 DE MARÇO Os dedos delicados percorriam o rosto dele, já sem nenhum vestígio do que acontecera. Ele tinha os olhos fechados e seus lábios se curvavam em um meio sorriso diante da exploração quase infantil da mulher sentada a seu lado. Scully sorria observando os dois enquanto acariciava inconscientemente a barriga protuberante. _ Então, está convencida de que sou real? A mão afastou-se e ele abriu os olhos sorrindo para ela. _ É...nem sei o que dizer Escoteiro. _ Diga que chorou por mim e eu fico feliz. Ela baixou os olhos envergonhada. _ Chorei... _ Ótimo, acho que você e Scully foram as únicas. Os três riram e Sil tirou do bolso da camisa jeans um pacotinho que entregou a Scully. _ Quero que fique com isso. Scully abriu curiosa a pequena caixa e pegou em suas mãos uma corrente de ouro com um pingente em forma de anjo, também de ouro. _Foi um presente que a Claudia me deu há muitos anos. Eu não cheguei a usá-lo... Os olhos azuis de Scully encontraram os dela e a agente soube imediatamente que aquela corrente deveria ter sido do bebê de Sil, se houvesse sobrevivido. _ Ela não roubou isso, roubou? _ Claro que roubou Escoteiro. Éramos ladras, aonde você acha que a Claudia arrumaria uma corrente de ouro? _ É linda Sil, obrigada. Sil encarou a agente, a expressão de seu rosto indicando que Scully estava certa, aquela corrente deveria ter sido usada pelo filho de Mulder. _ Se seu bebê a usar, eu ficarei muito feliz. _ Vai usar, eu prometo. Sil deixou o apartamento de Scully e sentou-se no banco do passageiro do carro, ao lado de Claudia. _ Eu vou matar aquele filho da p...! _ Ainda estamos nas mãos dele lembra-se? _ Cachorro, canalha! Eu não me conformo! _ Você o conhece melhor do que ninguém Sil, acha que ele salvaria Mulder de livre e espontânea vontade? Sil respirou fundo e encarou a amiga. _ Como eu queria poder odiá-lo como você odeia... Claudia estendeu a mão e afagou os cabelos negros de Sil, um sorriso triste nos lábios. _ Você não conseguiria. Mesmo se ele houvesse feito a você o que fez a mim, você não o odiaria. Sua ligação com ele é profunda demais. Nem mesmo Mulder pode mudar isso. Sil desviou o olhar de Claudia e fitou a janela do apartamento de Scully. _ Ele deixou que o enterrassem vivo Claudia, como posso perdoar uma coisa dessas? Ela ia criar aquela criança sozinha... _ Como milhares de mulheres o fazem todos os dias. _Você está defendendo a atitude de Alex? Logo você?_ A voz de Sil tinha um toque de raiva e ironia misturados enquanto seu olhar furioso voltava a encontrar o de sua amiga. _Não Sil, estou tentando fazer você ver que ele tem os motivos dele para odiar Mulder assim como eu tenho os meus para odiar Alex e você não. Sil respirou fundo, encostando-se pesadamente no banco do carro. _ Vamos embora. Ele vai nos procurar, vai cobrar sua dívida e então eu me acertarei com ele. Sem mais nenhuma palavra, Claudia ligou o carro e partiu em direção ao aeroporto. ROMA 07 DE MARÇO Ale retornara há dois dias, sendo recebida efusivamente pelas amigas, mas já com uma pilha de planos de trabalho para organizar. Encontrou ainda pela casa resquícios da malfadada missão, da qual nada conseguia lembrar. Avaliou dezenas de vezes os papéis que encontrou e, embora não conseguisse reconhecer nenhum dos nomes listados, tinha de admitir que era a sua letra em cada um dos esquemas e plantas do tal local invadido. Havia também um recorte de jornal, com a foto do carro capotado e uma legenda idiota: "Turista teve seu carro atingido durante atentado". Turista... Logo ela! O estado do carro era assustador, difícil acreditar que saíra inteira dali... Naquela noite, na sala do apartamento, Kes e Clá aguardavam pacientemente sem interferir , enquanto Ale terminava de preparar um espaguete. No íntimo, temiam por suas vidas, já que a russa nunca fora muito hábil na cozinha... De repente, Ale entrou na sala, com ar de dúvida e alguns papéis nas mãos. _ Gente, achei esses folhetos, com umas receita esquisitas de sucos milagrosos, lá na gaveta da cozinha... um monte de absurdos. Alguém sabe o que significa?! _ Não fazemos a menor idéia, Ale. Não fazemos a menor idéia... Não são seus? _ Meus?!? Vocês estão me sacaneando, né? Posso ter perdido uma parte das minhas lembranças, mas ainda não perdi o juízo, gurias._ e voltou para a cozinha, amassando os papéis. Assim que se viram sozinhas novamente, Kes e Clá não puderam conter o riso. Era bom ter a amiga de volta, mesmo com toda a teimosia. ROMA 07 DE MARÇO - 3:21 A.M. A madrugada estava calma, não havia quase ninguém na rua, nem mesmo os eventuais turistas boêmios que costumavam ir à fonte de madrugada e lá jogar suas moedas na esperança de verem seus desejos serem realizados. O apartamento estava mergulhado num silêncio quase celestial, mas mesmo assim ela não conseguia dormir. Desde que voltara de Washington, passava as noites em claro, olhando para o teto de seu quarto, a cabeça girando com milhões de idéias passando por ela. "Quem faz pactos com o diabo, não pode reclamar do cheiro de enxofre"_ onde mesmo ouvira essa frase? Então, o som do telefone quase a derrubou da cama. _ Pronto... _ Oi doçura... _ Alex... _ Soube que o seu amiguinho está vivo. Deve estar contente, não é? _ Seu rato cretino, você sabia! _ Hei, calma...por que essa agressividade? Você devia me agradecer. Não o queria de volta? _ a voz de Alex soava insidiosa, ela podia imaginar sua expressão cínica enquanto o ouvia. _ Isso não vai ficar assim, está me ouvindo? _ Não. Não vai. Você tem toda a razão. E agora, quem vai ouvir, e bem quietinha, é você, doçura. Está na hora de pagar uma dívida, "uma vida por uma vida", lembra-se? Vocês aceitaram o meu preço..._ ele fez uma longa pausa e ela sentiu o sangue gelar em suas veias. _ Eu quero aquele bebê e você me deve... O telefone ficou mudo. Sil sabia exatamente de que bebê Alex Krycek estava falando... Caminhou pelo quarto por alguns minutos, angustiada, depois voltou ao telefone, não tinha escolha, precisava avisar a parceira. _ Claudia, o barqueiro do inferno já deu seu preço... _ O que ele pediu? Sil respirou fundo antes de responder. _ Ele quer o bebê de Scully...morto. Continua... Notas finais: Aos leitores, obrigada pelo tempo dispensado na leitura desta série de estórias. Elas existem por causa de vocês, que sempre as receberam tão bem e nos motivaram a continuar. À Selma, minha amiga, obrigada por oferecer uma visão a mais, alem da minha e a da parceira, para que essa fic chegasse a término. E, finalmente, à Silvia Helena, mãe coruja e zelosa destas personagens, obrigada pela paciência inestimável, pela maneira sempre gentil de lidar com minhas intermináveis alterações no texto e pela criatividade, que parece sempre renovar-se a cada estória. Muito obrigada, parceira, por mais esta aventura! Até a próxima, ale Mais uma vez concluímos uma aventura à quatro mãos do Azul Celeste. Felizmente as meninas do grupo têm, além da mãe coruja aqui, uma tia muito amorosa que não mede esforços para colocá-las nas mais perigosas situações e com isso me dar a chance de criar cada vez mais, histórias capazes de agradar nossos exigentes leitores. Espero que gostem de mais esta aventura, ela foi feita para vocês. Selma, deixo aqui meu agradecimento por acrescentar seu toque sempre perfeito em nossa história, uma sutileza que apenas você seria capaz de conseguir. Alê, para você não tenho palavras mas você me conhece a fundo e sabe o quanto eu adoro o desafio de escrevermos juntas sobre nosso grupo tão querido. Obrigada a você por estar sempre presente e sempre disposta a embarcar em mais uma aventura alucinante do Azul Celeste. Sil