DISCLAIMER: OS PERSONAGENS DESTA FANFICTION PERTENCEM A SEUS CRIADORES E NÃO HÁ QUALQUER INTENÇÃO DA AUTORA EM OBTER LUCRO COM ESTA HISTÓRIA QUE DESTINA-SE SOMENTE À DIVERSÃO DOS LEITORES. AUTORA: SILVIA PENHALBEL E-MAIL: silviascifinews@bol.com.br SPOILERS : NENHUM CLASSIFICAÇÃO : MOTW AGRADECIMENTOS : À MINHA BETA LEITORA OFICIAL, ALEXANDRA MORGILLI PELA SUA VALIOSA AJUDA E PELA SUA AMIZADE INESTIMÁVEL. SINOPSE: ESTRANHAS MORTES LEVAM MULDER E SCULLY A SE ENVOLVEREM COM PESSOAS MISTERIOSAS QUE PODEM AJUDAR, MAS QUE TAMBÉM PODEM SER MUITO PERIGOSAS. A mulher penteava os cabelos em frente a um grande espelho antigo que enfeitava o espaçoso quarto decorado em estilo vitoriano. Os móveis pesados não combinavam com a delicadeza de seu corpo ou com a suavidade de seus movimentos. Mesmo assim, ela parecia completamente à vontade em seu espaço. Ele a observava já há algum tempo, escondido entre as sombras da noite. Sentira o perfume delicado de flores que exalava de seu corpo recém banhado e isso o atraíra para ela como um ímã. Agora, enquanto observava o movimento ritmado da mão que segurava a escova, ele sentia seu corpo queimar apesar do frio que fazia aquela noite. Ela percebeu a presença dele antes que ele pensasse em entrar no quarto e virou-se em direção à janela escura. Ele estava lá, dentro do quarto, lindo como um anjo. As luzes no quarto eram fracas como velas e a semi escuridão acentuava seu ar sobrenatural que, ao invés de assustá-la, a deixava ainda mais ansiosa por ele. A mulher ficou em pé e a luz do abajur às suas costas permitiu que ele enxergasse cada detalhe de seu corpo coberto pela camisola comprida. Ele sorriu e ela correu para seus braços. O jovem a cobriu de beijos famintos e, segurando sua cabeça com uma das mãos, afastou seus cabelos negros com a outra, descobrindo seu pescoço alvo e nele cravou seus caninos brancos fazendo-a gemer alto, enquanto seu corpo pequeno desfalecia nos braços que a seguravam com força. CAMINHANDO PARA A LUZ LONDRES - 01:09 a.m. O rapaz deslizava suavemente a ponta de seu indicador pelo corpo macio enquanto olhava pensativo para a escuridão além da janela do quarto. Seus pensamentos iam longe e ele sabia que não deveria estar na cama com ela. Não fora até Londres para isso, mas não resistira quando a vira de longe se penteando diante do espelho. A mulher parecia adormecida pois permanecia imóvel e de olhos fechados, mas Armand sabia que estava acordada e esperava que ele falasse primeiro. Ela poderia ler os pensamentos dele se quisesse mas nunca havia feito isso desde que estavam juntos há quase seis meses e não faria agora com certeza pois não invadia uma mente sem permissão a menos que fosse estritamente necessário para o desenvolvimento de seu trabalho. Lucy era membro da Ordem da Talamasca, uma organização sediada em Londres que tinha entre seus membros pessoas com dons especiais, como o de ler mentes. Alguns membros eram pessoas comuns, mas a maioria deles praticava magia, vodu e rituais de ocultismo. A Talamasca possuía o maior acervo do mundo de informações sobre bruxas, fenômenos paranormais e até sobre os vampiros. Claro que estas informações só eram acessíveis a membros do alto escalão. Os outros eram meramente coletores de informações e o superiores da Ordem jamais permitiam que os pesquisadores acessassem mais informações do que necessário. Lucy era uma pesquisadora e apenas sua habilidade de ler mentes não seria suficiente para garantir seu lugar privilegiado na Ordem. O que lhe dera acesso aos altos escalões da organização fora uma outra habilidade conhecida apenas por Aaron Lighter e David Talbot, dois dos mais importantes dirigentes da Talamasca : Lucy podia transportar sua alma para outros corpos. Aaron e David passaram anos estudando as capacidades de Lucy e aprendendo os rudimentos desta habilidade com ela. Lucy nunca revelara a ninguém qual sua idade verdadeira, nem quantos corpos já usara em toda sua vida. Até onde Armand sabia ela podia ser mais velha do que ele, que tinha quinhentos anos. Sem desviar os olhos de sua própria mão desenhando arabescos no corpo dela, ele começou a falar como que para si mesmo. _ Quando eu era mortal e o mestre me fazia provar seu sangue, eu imaginava se para ele, o sabor do meu sangue era tão doce quanto o dele era para mim. Depois que me tornei um vampiro, nunca encontrei ninguém, mortal ou imortal com um sangue tão doce como o dele. _ Acredito que para nós mortais, a primeira experiência de provar o sangue de um vampiro seja especial. A mão de Armand abandonou a brincadeira com o corpo de Lucy e tocou-lhe o rosto fazendo-a encará-lo. _ Você não sente falta de um homem de verdade na sua cama? Ela sorriu e este gesto a tornava ainda mais bonita e mais jovem. Armand se encantava com o amor que enxergava nos olhos escuros quando se fitavam. _ Quando você era mortal, o que preferia? Estar na cama com Marius ou com as mulheres dos bordéis de Veneza? Armand pensou por alguns instantes antes de responder. _ Eram sensações diferentes, mas sem dúvida eu ansiava muito mais pela presença do mestre ao meu lado apesar de gostar muito de estar com as mulheres. _ Comigo é a mesma coisa Armand, só que você era muito jovem e estava experimentando tudo ao mesmo tempo enquanto que eu já tive minha cota de sexo por toda uma vida e as sensações que você provoca em mim, nenhum homem de verdade, como você os chama, jamais conseguiu me fazer sentir. Seu sangue é quente e doce e quando o sinto entrando em minha boca é como se meu corpo se transformasse em fogo, é como se o mundo nascesse de novo. Meus olhos enxergam coisas que nunca haviam visto antes e eu posso escutar uma flor desabrochando e a grama do jardim crescendo. Nenhuma experiência sexual se compara a isso e você sabe do que estou falando pois também se sentia assim quando era mortal. Armand apenas concordou com a cabeça e voltou a passear os dedos pelo corpo delicado. _ Armand, tem alguma coisa que o está preocupando desde que chegou e eu quero saber o que é. O que aconteceu nos Estados Unidos? Ele suspirou e sentou-se na cama olhando-a com preocupação. _ David mandou chamá-la. Ele acredita que Raglan James esteja vivo. WASHINGTON - 7:31 a.m. Scully entrou no escritório bocejando de sono. Mulder havia ligado logo cedo, entusiasmado com um possível Arquivo X e marcara com ela antes das oito no escritório. Assim que fechou a porta do porão, Mulder sorriu para ela e sua expressão de menino travesso a fez esquecer por um segundo que estava profundamente irritada por ele tê-la acordado tão cedo. _ Bom dia Scully, adivinha o que temos aqui? _ Não faço idéia Mulder, mas conhecendo você como conheço, tenho até medo de descobrir. _ Vamos para New York. _ New York? Está brincando? Temos um ótimo escritório em New York, eles não precisam de nós por lá. Ela estava claramente contrariada, mas parecia que nada afetaria o bom-humor de Mulder. _ O escritório de lá não tem uma seção dos Arquivos X e há algum tempo estranhas mortes andam ocorrendo na cidade. Scully abriu a pasta que o parceiro lhe estendia e observou as fotos, não encontrando nada de anormal nos corpos. _ Mulder, o que há de errado com os corpos? Não noto nenhuma alteração física. _ Nada externo Scully, mas dê uma olhada nos relatórios das autópsias. O escritório ficou alguns minutos em silêncio enquanto Scully folheava os relatórios, os olhos claros se arregalando à medida que passava de uma pasta para a outra, incrédula. Até que finalmente ela decidiu falar. _ Mulder isso está errado. As autópsias indicam altíssimo estado de decomposição dos órgãos internos . Alguém deve ter se enganado nos horários das mortes. _ Não há engano Scully. A vítima mais recente caiu morta diante de dezenas de testemunhas que, inclusive, chamaram ajuda imediatamente. Justamente nesta vítima, o corpo apresentou um estado de decomposição muito mais avançado do que as outras. Estamos diante de um assassino que não deixa impressões, marcas, nada Scully, nem um fio de cabelo. Scully balançou a cabeça intrigada. _ Mulder, existem centenas de doenças degenerativas que causam este tipo de sintomas... _ Eu sei Scully mas descobri que estas vítimas não foram as únicas. Há um ano que a polícia vem encontrando corpos mortos sem causa aparente. O primeiro caso foi um enfermeiro encontrado em um beco. O legista não deu muita importância para o fato dos órgãos internos estarem em decomposição pois ninguém tinha noção de há quanto tempo ele estava morto. Mas eu encontrei outros relatórios de corpos com a mesma condição física. Só que de um ano para cá o espaço entre um corpo e outro está diminuindo e somente por isso a polícia se preocupou. Poderia ser uma epidemia de algum vírus raro... _ Mas os exames patológicos não encontraram nenhum vírus ou bactéria que oferecesse perigo... _ Por isso mesmo a polícia descartou a hipótese de uma doença contagiosa, mas pediram ajuda ao FBI por desconfiarem de um assassino serial. _ E por que nos chamaram? Acha que isso é um Arquivo X? _ No início não achei que fosse, mas agora estou começando a me interessar. O que acha de irmos dar uma olhada nestes corpos Scully? _ Adianta se eu disser que não? O parceiro sorriu para ela enquanto se levantava e pegava seu paletó _ Você vai adorar o Central Park nesta época do ano. Vamos Scully, eu prometo que levo você para passear de carruagem. Scully levantou-se torcendo o nariz. _ Odeio cheiro de cavalo, Mulder. NEW YORK - 8:28 a.m. Lucy afastou-se impaciente da frente da tela do computador. Levantou-se e deixou o pequeno escritório. Passou pela grande sala de estar alheia a toda a beleza da decoração e só parou quando chegou ao imenso jardim bem cuidado, cercado por altos muros que isolavam o local de toda a agitação que a cidade grande promovia do lado de fora. O lugar parecia saído de um conto de fadas. Lucy riu alto de seu pensamento. Talvez um conto de terror fosse mais adequado. Lembrava-se da primeira vez que pusera seus pés naquele lugar. Já era amante de Armand e estava nos Estados Unidos a trabalho para a Ordem, quando fora abordada por um homem bem vestido que a convidara a acompanhá-lo. Lucy nem mesmo tentara se defender, pois conhecia a força dos vampiros e reconhecera o homem como sendo um deles. Deixara-se levar até a presença de Marius, o vampiro que fora o mestre de Armand e que o transformara. Sentada no banco do jardim, recebendo ao calor do sol em seu rosto, os olhos fechados, ela ainda podia ouvir a voz de Marius ecoando em seus ouvidos : _ Afaste-se dele, ou irá se arrepender. Não sentira medo, muito pelo contrário. Uma estranha excitação tomou conta de seu corpo enquanto enfrentava aquele ser de uma beleza fascinante e um poder indescritível. Podia sentir a raiva que o fazia tremer e o poderoso autocontrole dele que o impedia de rasgar sua garganta naquele instante. Mesmo sabendo que estava errado continuar ao lado de Armand, algo dentro dela recusava-se a se render. Ela o enfrentara sem medo mas ainda podia sentir os dedos frios que apertaram sua garganta devagar, fazendo-a sufocar. Lucy se defendera com um ataque psíquico para o qual ele não estava preparado, mas, mesmo tendo conseguido que ele a soltasse não havia sido rápida o suficiente para desviar-se do golpe seguinte, que quebrara seu nariz. A luta terminou com a chegada de Armand que conseguiu impedir seu mestre de continuar com aquela loucura. Ela ficara sentada no chão, a cabeça abaixada e olhos fechados, sentindo seu sangue escorrer para os ladrilhos que rodeavam o jardim, escutando as vozes alteradas dos vampiros como vindas de um sonho. _ Você realmente me odeia mestre, pois sempre tenta destruir aqueles que amo. _ Estou tentando poupá-lo. _ Me poupar de quê? Você sabe não sou mais uma criança indefesa, não preciso de proteção. O que o deixa mesmo furioso é eu não obedecer mais suas ordens. _ Armand, ela é da Talamasca. Ela é uma feiticeira... _ Que não pode ser atingida por você nem por ninguém. Ela já é imortal e por isso você não poderá seduzi-la com a promessa de vida eterna. Se a matar, a alma dela irá para outro corpo no mesmo instante. Não pode atingi-la e com isso não pode me atingir também. Que tal a sensação de não estar no comando? Por um segundo, Lucy achou que Marius atacaria Armand, mas ele não o fez. Ficou parado, imóvel como uma estátua, observando enquanto Armand a levantava nos braços e a levava para dentro da mansão para curá-la com seu sangue. Depois daquele dia, ela voltara várias vezes a New York e à casa de Marius. Nunca mais nenhum deles havia mencionado o incidente e o vampiro sempre a tratava com educação e até com respeito. Marius mantinha a despensa abastecida e o aquecimento sempre ligado no inverno apenas para o conforto dela. De sua parte, adorava a mansão e não permitia que as lembranças daquela primeira noite lá a perturbassem. Os outros vampiros evitavam se aproximar pois desconfiavam dos membros da Ordem, com exceção de David Talbot, que havia sido seu superior na Talamasca quando era mortal. Passavam horas conversando naquele mesmo banco do jardim e seu antigo chefe tinha lhe dado acesso a informações da Ordem que nem mesmo Aaron Lighter conhecia. Por isso mesmo, quando Armand lhe falara sobre Raglan James ela se aprontara em poucos minutos e viera com ele para os Estados Unidos ajudar a localizar o ex -membro da Ordem que podia, como ela, transportar sua alma para outros corpos. James usara este poder para tentar roubar o corpo de um vampiro, Lestat de Lioncourt, um dos mais poderosos e perigosos. Ele quase obtivera sucesso e, se não fosse a ajuda de David, Lestat jamais teria conseguido seu corpo de volta. Nesta confusão de trocas de corpos, David havia perdido o seu para James mas, felizmente, conhecia os rudimentos deste tipo de magia, já que havia aprendido com Lucy e conseguira entrar no antigo corpo de James, um corpo bem mais jovem do que o seu. Este artifício permitira manter sua alma intacta. Fora este jovem David Talbot que Lestat havia transformado em vampiro. Um rapaz de 26 anos com a experiência de vida de um homem de 72. Era impressionante para Lucy reconhecer a personalidade de David, um requintado cavalheiro inglês, em um lindo jovem de traços indianos. Finalmente, abrindo os olhos para a claridade da manhã, Lucy abandonou o jardim voltando para o escritório e, sentando-se diante da tela do computador, voltou à leitura do dossiê que pegara dos Arquivos do FBI sobre um de seus agentes. Ao lado das letras pequenas, uma foto mostrava o rosto bonito de Fox Mulder. NEW YORK – 11:27 a.m. A luz forte do sol feriu seus olhos quando ele saiu da penumbra fria do necrotério para a rua movimentada. Mulder colocou os óculos escuros e começou a caminhar para a estação do metrô. Distraído em seus pensamentos, não notou a mulher de longos cabelos negros que o seguia de perto. Lucy estava impressionada com a velocidade dos pensamentos do homem que caminhava à sua frente. O agente do FBI era incrivelmente inteligente e perspicaz. Segundo as informações que conseguira sobre ele, o agente não desistiria até encontrar o assassino. Mas Mulder não sabia que corria o risco de perder seu corpo para Raglan James caso se encontrasse frente a frente com ele. E uma alma despreparada, como a de praticamente todos os mortais, jamais conseguiria se fixar novamente em outro corpo, ficaria perdida para sempre, vagando em meio a tantas outras, sem nunca saber o lhe acontecera. Quando Armand a procurara em Londres ,duvidara que James estivesse vivo mas depois de pesquisar as mortes misteriosas em NY, concluíra que eram mesmo obra de James. Depois de investigar o histórico de Fox Mulder, soube que poderia contar com a ajuda dele para levar seus amigos até James e destruí-lo definitivamente. O único problema seria a parceira do agente. Lucy percebera que ela era completamente céptica e seria um grande problema envolvê-la neste caso principalmente se fosse necessário expor as identidades dos vampiros aos agentes. Mas ela decidiu que pensaria nisso depois. Seguiu-o até o metrô e sentou-se a uma distância segura dele enquanto sondava sua mente e quando a sentiu relaxar por um segundo, enviou as imagens a ele. Mulder estava preocupado com o caso que tinha nas mãos. Ele desconfiava de algo sobrenatural mas Scully insistia no contrário. Mas sua parceira não conseguia explicar o motivo dos corpos das vítimas estarem em estado avançado de decomposição enquanto as mortes haviam ocorrido há poucas horas. Todos os testes bacteriológicos haviam dado negativos e Scully começara a insistir em um assassino com conhecimento de drogas que estariam sendo injetadas nos corpos e não pretendia deixar o necrotério até descobrir se havia algum vestígio de qualquer substância diferente no último corpo encontrado. Mulder sentia que havia algo estranho pois havia confirmado que mortes semelhantes já vinham acontecendo em New York há pelo menos um ano. Só que as vítimas eram mendigos, ladrões, sem - teto e outros moradores das ruas que a polícia muitas vezes preferia esquecer a ter que lidar com a burocracia que os indigentes causavam com suas mortes inconvenientes. Ele respirou fundo e tentou relaxar um pouco. Desde sua designação para este caso que ele não dormia direito pois ficara cinco dias investigando documentos até decidir vir para NY com Scully e o balanço ritmado do metrô o deixava sonolento. Ele estava quase cochilando quando se viu em um outro lugar que não o banco onde estava sentado. Era o quarto de alguém, uma mulher a julgar pela decoração. Havia duas pessoas deitadas na grande cama alta, cercada por cortinas transparentes. Ele sentiu seu corpo se aproximando da cama. Um homem e uma mulher se beijavam com paixão e ele viu no pulso esquerdo da mulher uma pulseira de pérolas muito brancas com uma cruz de prata pendurada no fecho. Quando eles se separaram ele pôde ver seus rostos e notou que as bocas de ambos estavam manchadas de sangue. Mulder afastou-se do casal não sem antes ver os pequenos caninos pontiagudos na boca do rapaz, que não devia ter mais que dezesseis anos. Com um grito ele voltou à realidade chamando a atenção dos poucos passageiros que estavam no vagão àquela hora. Constrangido, ele abaixou a cabeça intrigado com o sonho que parecera tão real. Segundos depois, o metrô parou na estação do Central Park e uma mulher levantou-se para sair passando à sua frente. Mulder, de cabeça baixa, viu a pulseira de pérolas no pulso esquerdo dela e, levantando o rosto, percebeu assustado que era a mulher de seu sonho. Sem pensar, levantou-se apressado e seguiu-a. Mas quando estava a um passo de ultrapassar a porta do vagão, esta se fechou com violência. Mulder notou imediatamente que apenas a sua porta havia fechado e que a mulher se virara e o observava sorrindo. Ele permaneceu com o olhar preso ao dela até que o vagão começou a se mover e continuou sua viagem deixando-a parada, apenas observando e chegando à conclusão que Fox Mulder poderia realmente ajudá-la e a seus amigos a encontrarem o ladrão de corpos. NECROTÉRIO MUNICIPAL – 12:15 p.m. Scully suspirou enquanto retirava impaciente a máscara que cobria seu rosto. Este caso a estava irritando e desgastando demais. Mulder insistia em um Arquivo X mas ela acreditava que, descartando - se a hipótese de uma epidemia, havia um assassino e este tinha algum conhecimento de química ou medicina e o estava usando para deteriorar os corpos daquela maneira. Mulder investigara o caso sozinho durante dias e suas teorias começavam a irritá-la. O último corpo encontrado era de um homem aparentemente morto há semanas, mas testemunhas afirmaram que a vítima caminhava pelas ruas do Harlem minutos antes de cair morto em um beco. Os exames mostraram deterioração dos órgãos internos e da pele. Era como se a vítima estivesse se decompondo aos poucos. Mesmo com evidências tão estranhas, Scully insistia que havia uma explicação lógica para aquilo tudo. E nada do que Mulder dissesse iria convencê-la do contrário. Ela decidiu sair e comer alguma coisa enquanto esperava os resultados dos exames toxicológicos que solicitara. Suspirando, recebeu satisfeita os raios de sol no rosto enquanto caminhava entre as pessoas a caminho da lanchonete mais próxima, imaginando se Mulder teria algum progresso na pesquisa que estava fazendo para traçar o perfil do assassino. RUA 43, ESQUINA COM AVENIDA DAS AMÉRICAS 1:22 p.m. Mulder acabava de entrar no saguão do hotel quando o recepcionista o chamou agitado. Havia um recado urgente para ele. Desdobrando o papel, uma letra nitidamente feminina pedia que se encontrassem no Museu de História Natural às 3 da tarde com indicações precisas sobre qual das exposições ele deveria visitar e aguardar. O agente pensou por alguns instantes e a imagem da mulher do metrô veio à sua mente. Era ela com certeza. Discou rapidamente para o número de Scully. _ Scully. _ Sou eu, venha agora mesmo para o hotel, precisamos encontrar alguém. _ Mulder, estou esperando os resultados do laboratório e... _ Venha já Scully, estou com um pressentimento de que será um encontro interessante. Sem esperar resposta desligou e subiu para seu quarto para se trocar e esperar a parceira. A lembrança de seu estranho sonho o deixava intrigado e agitado. Se fosse mesmo a tal mulher ele tinha muitas perguntas a fazer, além disso, algo em seu íntimo lhe dizia que ela poderia ter relação com as estranhas mortes que estavam investigando. E dificilmente seu instinto o enganava. MUSEU DE HISTÓRIA NATURAL 3:21 p.m. Os agentes haviam chegado cedo e andado pelo Museu até encontrarem a exposição que apresentava a evolução do homem. Era em uma ala separada e os agentes pagaram o ingresso para entrar como turistas comuns. Já estavam há 10 minutos em frente às imagens pré-históricas e ninguém ainda se aproximara para fazer contato. Scully acabou se distraindo observando os detalhes perfeitos de uma das cenas e assustou-se quando Mulder segurou seu braço com força. Ao olhar para o parceiro, notou que ele estava assustado e intrigada chamou-o baixinho. _ Mulder, está tudo bem? Ele pareceu sair de um transe e ainda segurando o braço dela caminhou devagar na direção de uma mulher parada alguns passos adiante. O que Scully não entendia, era como Mulder sabia que ela era o contato. Mulder tinha certeza de que a pessoa que o contatara era a mulher do metrô, mas não estava preparado para o impacto que sentiu quando se viu frente a frente com ela. Ela acenou com a cabeça para os dois, sem deixar de sorrir. Scully percebeu que havia algo errado com seu parceiro mas esperou para ver o que aconteceria. Mas Mulder não disse nada , parecendo estar um pouco alheio ao que acontecia ao redor, concentrado apenas na mulher que sorria para eles e falava com uma voz suave e hipnótica. _ Sou Lucy Lars, é um prazer conhecê-los agentes. Espero que possamos nos ajudar mutuamente neste caso tão desagradável das mortes inexplicáveis. _ O que acha que pode fazer por nós senhorita Lars? E como soube do caso se a polícia não liberou informações para nenhum meio de comunicação? Scully não disfarçava a desconfiança mas Lucy não pareceu se incomodar com isso. _ Posso dar-lhes um dossiê do assassino que procuram, mas aviso que não será fácil capturá-lo. Diante do olhar interrogativo de Scully ela pediu que ambos a acompanhassem e começaram a caminhar em direção à saída enquanto Lucy expunha alguns fatos aos agentes. _ Eu trabalho para uma ordem de detetives mediúnicos chamada Talamasca. Operamos secretamente por motivos óbvios. Estudamos fenômenos paranormais, de feitiçaria, magia negra, vodu, lendas, mitos, fenômenos sobrenaturais, aparições de espíritos, possessões... _Realizam exorcismos também, senhorita? Scully não conseguiu evitar a ironia mas para sua surpresa ela não se ofendeu. _ Sei que é uma cientista agente Scully. Eu também sou embora não vá concordar com meus métodos. Quando recebi a notícia de que o autor destes assassinatos poderia ser um ex -membro da Ordem, verifiquei quem eram os responsáveis pela investigação e creia-me senhorita, sei que não será fácil para você aceitar tudo o vai ver daqui para frente. Scully a olhou intrigada com suas palavras, mas ela voltou sua atenção para Mulder, que parecia estar adorando toda aquela situação absurda. _ Senhorita Lars, em que a Talamasca pode nos ajudar a capturar este homem que afirma saber quem é? _ James trabalhou com a Ordem por algum tempo. Tempo suficiente para acessar algumas informações secretas que ele utilizou em proveito próprio. Pensávamos que ele havia morrido há um ano mas agora eu tenho certeza de que é ele o autor de todas as mortes. _ E por que as mortes? Conhece os motivos dele? _ Sobrevivência agente Mulder, James está matando para continuar vivo. _ Como assim? _ Ele precisa dos corpos para viver. James é o que chamamos de Ladrão de Corpos. Scully já estava perdendo a paciência. _ Senhorita, não quer que acreditemos nisso quer? Este assassino é um louco, provavelmente alguém com profundos conhecimentos em química que está injetando algum tipo de droga no organismo destes pobres coitados que se tornam suas vítimas. _ Encontrou algum vestígio de drogas ou bactérias que possam causar a decomposição dos corpos em algum deles agente Scully? _ Não, não encontrei mas uma droga poderia ter sido absorvida pelo corpo e... _ Agente Scully, de quantas provas negativas vai precisar para começar a admitir que este caso tem algo sobrenatural? Scully balançou a cabeça contrariada. Era verdade que estivera pensando exatamente o que Lucy dissera mas não iria admitir, muito menos na frente de Mulder. _ Aonde está nos levando senhorita? Mulder já estava curioso e ansioso para descobrir mais sobre aquela estranha mulher e as pessoas para quem trabalhava. _Estou hospedada com alguns amigos e lá poderei mostrar a vocês as informações referentes a James. Talvez isso ajude a agente Scully a aceitar com mais facilidade o que estou lhes contando. Scully pretendia recusar a oferta mas Mulder dava mostras de que a seguiria até o inferno, pois sua curiosidade já estava elevada ao nível máximo, o que fazia com que seus olhos verdes brilhassem de excitação e expectativa. Com um suspiro resignado ela seguiu o parceiro para fora do Museu. CENTRAL PARK 5:11 p.m. O homem cambaleava pelas alamedas rodeadas de árvores que ficavam na parte mais afastada do parque. Durante o dia era perigoso caminhar entre as pessoas pois o corpo que usava já começava a mostrar sinais de decomposição e ele não queria chamar nenhuma atenção desnecessária. Precisava chegar rapidamente a um esconderijo onde pudesse descansar até conseguir encontrar outro corpo para habitar enquanto aguardava sua vítima final. Ele ainda se lembrava de como Lestat quase o havia destruído há um ano. Lestat não hesitara em matar o corpo de David Talbot que James roubara no momento em que fora expulso do corpo do vampiro. Teria realmente morrido se aquele enfermeiro não houvesse entrado em seu quarto exatamente no instante em que seu espírito abandonava o corpo moribundo que o abrigava. O pobre rapaz sequer teve chance de gritar. Em segundos, James estava no corpo jovem e forte do enfermeiro e deixava o hospital com um sorriso de triunfo nos lábios. Porém, depois de algumas semanas, ele havia percebido algo errado com aquele abrigo. Ele enfraquecia a olhos vistos. Até que James precisara roubar outro corpo, o de um bêbado que estava caído em um beco. Mas, havia acontecido o mesmo com o corpo do bêbado, obrigando-o a procurar outra vítima depois de algumas semanas. Demorara seis meses até que ele descobrisse o que havia acontecido. Ele passara um bom tempo usando um corpo imortal, o do Vampiro Lestat de Lioncourt e talvez isso houvesse provocado alguma mudança em sua energia psíquica tornando seu espírito incompatível com os corpos mortais. E o pior era que, a medida que o tempo passava, os corpos usados por ele se deterioravam com maior velocidade e James desconfiava que logo a polícia começaria a dar atenção ao caso se é que já não estava fazendo isso em segredo. James estremeceu de ódio ao se lembrar de como Lestat o derrotara ajudado por David Talbot, o superior geral da Ordem da Talamasca. Mas ele se vingaria dos dois, e seria logo. Encolhendo-se encostado a uma grande pedra rodeada por árvores, ele preparou-se para esperar sua próxima vítima, a última vítima mortal. Esta noite ele estaria no corpo de um vampiro e sua vingança contra Lestat de Lioncourt e David Talbot, acalentada por um ano inteiro, seria finalmente levada a cabo. RUA 52 6:03 p.m. A grande sala de estar era aconchegante e ricamente decorada. Uma espaçosa varanda dava para um bem cuidado jardim onde os últimos raios de sol emprestavam suas cores alaranjadas criando um ar sobrenatural em toda aquela beleza. Scully tentava assimilar as informações que Lucy passava sobre Raglan James, mas era tudo tão fantástico que ela já começava a questionar a sanidade mental da mulher. _ Meu superior na Ordem, David Talbot derrotou James há quase um ano mas parece que ele conseguiu um outro corpo para habitar antes que aquele em que estava morresse. _ Mas e a decomposição dos corpos? Isso aconteceu na primeira vez? _ Não. James usou três corpos diferentes que não sofreram absolutamente nenhuma reação às trocas. Acredito que algo tenha mudado na essência de seu espírito. De alguma forma, sua energia está muito forte para os corpos que ele está usando e por isso a decomposição acontece. Agora James vai precisar encontrar um corpo que não se deteriore e sabemos onde ele vai procurar. _ Isso não é possível! Scully estava indignada com o que ouvia e mais ainda com Mulder por estar dando crédito àquela mulher. _ Mesmo que isso fosse possível, ele jamais vai conseguir um corpo que resista à presença de seu...sua... energia ou o que quer que seja. Vai continuar matando sem parar. E vai cometer um erro, então o pegaremos. _Agente Scully, se você chegar perto de James será morta quando ele roubar seu corpo. Sua alma se perderá pois a âncora que a mantém presa à terra estará com outra alma dentro dela, compreende isso? _ Senhorita Lars, mesmo que eu acreditasse nisso, não há um corpo que ele possa roubar para viver em segurança. Lucy suspirou e fechou os olhos antes de continuar. _ Agente Scully, existem seres que habitam nosso mundo que têm corpos imortais. Corpos que se regeneram com uma velocidade espantosa. São seres que não podem morrer e James sabe quem são. Ele vai tentar roubar um desses corpos. _ Eu não acredito nisso! E não acredito que você esteja dando ouvidos à essa mulher Mulder. Isso passa dos limites de tudo o que já vimos. Scully havia se levantado exaltada e Lucy levantou-se também. _ Ah, agente Scully, você acredita sim. Você já viu coisas demais para continuar negando sua crença. Você diz que não acredita apenas para se proteger de si mesma, de seus próprios medos. A voz de Lucy era baixa e suave e Scully ouvia assustada as palavras que estavam sempre em sua mente serem ditas pela mulher parada à sua frente. Desta vez não podia ser coincidência, aquela mulher lia seus pensamentos mais secretos e os colocava em palavras. Por um instante entrou em pânico imaginando o que mais ela teria visto em sua mente e corou quando percebeu que Lucy sorria maliciosa para ela. Nesse momento Scully percebeu que havia mais alguém na sala com eles. Um homem alto e loiro aproximou-se e Lucy apresentou-o como seu anfitrião, Marius Romanus. Mulder impressionou-se menos com a mão extremamente gelada que apertava a sua do que com os hipnóticos olhos azuis que o fitavam com calma. Scully estava tão impressionada com a presença poderosa do homem à sua frente que sequer notou outras quatro pessoas que entravam na sala que já começava a mergulhar na escuridão. As luzes foram acesas não se sabe por quem e Marius apresentou os outros aos dois agentes. Scully reconheceu o nome de David Talbot mas assustou-se por ele ser tão jovem e ter sido o superior de Lucy na Ordem. O outro homem loiro, Lestat de Lioncourt inclinou-se galantemente em sua direção e beijou-lhe a mão com seus lábios frios. Santino não aproximou-se dos agentes quando o apresentaram limitando-se a inclinar a cabeça. Tinha cabelos e olhos escuros e não parecia contente com as visitas. O último a ser apresentado foi um jovem de cabelos acobreados que deveria ter dezesseis ou dezessete anos e que Scully confundiu com uma menina no primeiro momento. Mas Mulder reconheceu nas feições perfeitas de Armand, o rapaz que vira em seu estranho sonho no metrô. Ele aproximou-se de Lucy e a beijou com a displicência e arrogância dos jovens, ignorando o olhar chocado de Scully e a expressão desaprovadora de Marius. A mão delicada de Lucy afastou Armand enquanto a voz de David Talbot pedia a atenção dos agentes. _ Agente Mulder, suas referências nos fazem crer que poderemos confiar no senhor para nos ajudar a localizar Raglan James. _ Por que querem localizar este homem? Ele é um assassino, deviam deixar a polícia se encarregar dele. _ Mas o senhor já deve ter percebido que ele não é um assassino comum. Se fosse, não teriam chamado os Arquivos X para este caso não concorda? Mulder acenou com a cabeça, não completamente convencido. _ E mesmo porque, para James deixar de ser uma ameaça sua alma precisa ser destruída. Mulder balançou a cabeça inconformado. _ Sr. Talbot não posso concordar com isso. Esse homem é um assassino e precisa ser apanhado mas não podem fazer justiça com as próprias mãos. _ Agente Mulder, eu garanto que não vamos colocar nossas mãos nele. Além disso, a justiça comum jamais vai conseguir detê-lo. Mesmo você e sua parceira precisam ter muito cuidado. Você tem exatamente o perfil físico que atrai James e jamais conseguiria rechaçar um ataque psíquico dele. _Então o que espera que façamos, Sr. Talbot? _Acho que poderiam começar lendo algumas informações que temos sobre James. Pode levá-los à biblioteca Lucy? Os agentes se levantaram para seguir Lucy que não soltara a mão de Armand em nenhum momento e Scully notou que os outros deixavam a sala e se dirigiam para o jardim. Na verdade, David Talbot parecia ansioso para deixá-los e ela não entendia porque. Com um suspiro cansado ela caminhava até a biblioteca da casa imaginando que surpresas ainda teria naquela que prometia ser uma longa noite. 8:28 p.m. David respirou aliviado quando saiu para o ar noturno do jardim. A presença dos mortais na sala o haviam deixado faminto. David era um vampiro recém nascido e o cheiro do sangue fresco ainda tinha o poder de descontrolá-lo. O estranho era que, quando estava com Lucy, ele conseguia controlar-se relativamente bem. Mas com os dois agentes federais...David não saberia dizer qual dos dois o havia perturbado mais. Lestat e Santino perceberam na hora o que acontecia e o vampiro louro abraçou o amigo pelos ombros sorrindo. _ Não se constranja David. Eu quase agarrei aquela ruivinha linda pelo pescoço quando entrei na sala. Ser acordado pelo cheiro de sangue tão próximo daquele jeito é um pouco perturbador, mesmo para nós, que não necessitamos mais de alimento. O vampiro balançou a cabeça mas não respondeu. Lestat o puxou em direção à rua, seguido de Santino que logo desapareceu nas sombras sem nenhum ruído. _ Vamos caçar David. Não temos o privilégio de Armand, que tem aquela linda feiticeira à disposição de suas vontades. Talbot sorriu apesar da preocupação que o assolava há dias desde que descobrira que James estava vivo pois sabia que ele buscaria vingança contra aqueles que o haviam derrotado : Lestat e o próprio David. Quando chamara Lucy, já estava a par do envolvimento do FBI e por isso precisava da interferência da Talamasca para conseguir informações sobre os agentes encarregados do caso. Lucy garantira que Fox Mulder poderia ajudá-los e David confiava no julgamento de sua pupila. Só não estava certos das conseqüências que esta estranha aliança causaria. CENTRAL PARK 11:27 p.m. O rapaz atlético caminhava tranqüilamente pela escuridão, aparentemente distraído. Ele sabia que estava próximo, muito próximo de seu objetivo. Com um pouco de sorte, um deles o encontraria e ele estaria mais perto de sua liberdade. Sim, seria livre mas somente depois de se vingar de Lestat e David, não abria mão disso. Com um sorriso maldoso no rosto jovem, Raglan James continuou caminhando displicentemente pelas alamedas escuras do parque. 0:00 a.m. Scully caminhava pelo jardim tendo apenas a luz da lua cheia a iluminar o caminho de ladrilhos. Havia decidido caminhar um pouco para se acalmar pois tinha certeza de que enlouqueceria se continuasse no escritório com Mulder. As informações que haviam lido na tela do computador a deixaram atônita de irritada. Ela estava quase convencida de que esta Ordem da Talamasca era composta por dúzias de clones aperfeiçoados de seu parceiro. Ela não podia acreditar que o assassino que estavam procurando era um feiticeiro que podia entrar e sair de corpos a seu bel prazer e pior, que estava procurando corpo imortal para habitar. Alguém ali andava assistindo seriados de ficção demais e ela não pretendia ficar nem mais um segundo naquele lugar. Mas Mulder recusava-se a ouvi-la, correndo as páginas dos arquivos com uma avidez impressionante. Distraída, ela só percebeu que haviam outras pessoas no jardim quando escutou as vozes sussurrantes de Lucy e Armand que logo silenciaram. Estacou de repente e pensou em sair imediatamente dali mas seus olhos ficaram pregados na cena que se desenrolava a poucos passos dela. O casal beijava-se com paixão e por um instante, em sua mente, Scully se imaginou no lugar de Lucy nos braços daquele adolescente magnífico. O pensamento a desconcertou e a agente começou a caminhar de costas sem tirar os olhos dos dois. Seu corpo colidiu com uma parede de pedra fria e ela gritou mas sua boca já estava coberta pela mão de Lestat. _ Formam um lindo casal, não acha ruivinha? Ele falava baixo bem próximo a seu ouvido fazendo-a arrepiar-se com a proximidade dele. A mão do homem afastou-se apenas o suficiente para a agente conseguir sussurrar. _ Ele é apenas uma criança. Lestat riu ainda segurando-a bem próxima a si _ Sim, é verdade. Uma criança adorável. Os beijos de Armand são capazes de nos levar às alturas. Você deveria experimentá- los. Scully não disfarçou o choque ao compreender o sentido das palavras de Lestat. Desvencilhando-se dele, correu de volta para o escritório assustando Mulder com sua entrada intempestiva. _ Scully, o que foi? _ Nada Mulder. Por favor vamos embora daqui. Não vamos conseguir nada de útil continuando nesta casa. Não podemos continuar com isso. Estamos perdendo tempo enquanto o assassino pode estar matando mais alguém neste exato momento. _ Scully, estes arquivos são fantásticos! Você leu isso? Eles têm provas de que vampiros existem e estão entre nós. Seres com mais de cinco mil anos Scully! Você tem idéia do quanto esta informação é valiosa? _ Mulder, isso tudo é fantasia! Daria um excelente livro de ficção, apenas isso. Eles não citam nomes ou endereços citam? Claro que não, simplesmente porque eles não têm. Vampiros não existem. Seres imortais que bebem sangue, isso é folclore e você sabe disso. Mulder não respondeu mas ela viu os olhos verdes brilhando determinados. Ele realmente acreditava. Impaciente ela começou a levantar a voz. _ Mulder, você deveria estar preocupado em procurar esse assassino. Ou no mínimo preocupado em onde estão os pais desse garoto Armand, que obviamente é amante de uma mulher que poderia ser mãe dele. E sabe-se Deus se não é também destes homens todos que não sabemos de onde vieram nem quem são. Mulder a olhou espantado demonstrando que, realmente, não havia percebido a situação. Na verdade, ele se lembrava da visão que tivera no metrô mas haviam tantas informações incríveis nos arquivos que Lucy abrira para ele, que o agente acabara se esquecendo das implicações do que vira. _ Scully, tenho certeza de que se falar com a senhorita Lars... _ E o que acha que ela vai dizer? Mulder , este garoto precisa ser protegido das pessoas que podem fazer-lhe algum mal e nós somos agentes federais. Nosso dever é protege–lo. "Você deveria ter estado lá" Scully virou-se assustada ao ouvir a voz de Armand mas não havia ninguém no aposento além dela e Mulder. _ Você deveria ter estado lá agente Scully. Desta vez a voz estava às suas costas e ela quase gritou de susto quando viu Armand ao seu lado. Os olhos castanhos estavam avermelhados e ela demorou alguns segundos para perceber que eram lágrimas. Lágrimas de sangue que ameaçavam rolar pelo rosto perfeito. _ Você, que está tão preocupada com minha integridade física e moral, agente Scully, deveria ter estado lá quando os tártaros me seqüestraram de meu pai nas planícies Russas e me venderam aos turcos. Deveria ter estado naquele navio, quando aqueles traficantes de escravos abusaram de uma criança indefesa e assustada. Hoje, eu não preciso mais que ninguém me proteja. Na verdade, vocês mortais é que precisam ser protegidos contra mim. Eu sou a ameaça agora. Enquanto falava, ele avançava devagar em direção à Scully. Mulder se levantara ao perceber que Armand não estava exatamente calmo mas algo lhe dizia que, apesar de ser bem mais alto que o rapaz, não era suficientemente forte para impedi-lo caso ele decidisse machucá-los. Apesar de todo seu cepticismo, Scully estava realmente assustada. Havia algo de sobrenatural em Armand e isso a impressionava. Ela começou a caminhar de costas até que sentiu seu corpo bater de encontro ao de Mulder que a abraçou mas não se moveu. Armand continuou se aproximando mas quando estava bem perto dos agentes, uma voz suave o impediu de continuar. _ Armand, chega. Eles estão do nosso lado. Precisamos nos concentrar em localizar James antes que ele encontre um de vocês. O rapaz afastou-se sem tirar os olhos molhados de sangue do rosto de Scully que estava pálida como um fantasma. Nenhum dos agentes conseguia articular uma palavra sequer. Mulder procurou um pouco de ar e conseguiu sussurrar _ Vampiros....e-eles são vampiros. Todos eles. Talbot, Marius... Armand tinha escondido a cabeça no ombro de Lucy e foi ela quem acenou confirmando. _Lestat, Santino e nosso menino aqui de quinhentos anos. Armand é mais velho que Lestat e muitos outros que não estão aqui hoje. Mas é apenas uma criança perto dos dois mil anos de Marius. Lucy segurou a cabeça de Armand com as duas mãos e beijou demoradamente os olhos dele, passando a língua suavemente pelas pálpebras molhadas de sangue ignorando as expressões chocadas dos dois agentes. O rapaz saiu sem olhar para trás e Lucy fechou a porta encarando Mulder e Scully como uma guerreira pronta para o combate. Scully sentou-se em frente ao computador e colocou a cabeça entre os braços desalentada. Ela tinha dezenas de explicações científicas para o que vira nos últimos minutos mas algo bem em seu íntimo lhe dizia que o que Armand e Lucy falaram era verdade. Ela mal ouvia o que Mulder discutia com Lucy. _ Por que me fez ver vocês dois juntos, lá no metrô? O sorriso dela, apesar de triste deixou o agente sem fôlego. _ Eu precisava saber se sua curiosidade o levaria a me seguir, mesmo sem ter idéia do que poderia lhe acontecer. Você é um homem muito imprudente agente Mulder, mas até mesmo esta característica pode ser bastante útil, algumas vezes. Ele concordou com a cabeça e voltou a se concentrar no problema com que estavam lidando. _Então este James está atrás de um deles . _ Sim, é sua única chance. _ Mas quem? Qual deles ele quer? _ Eu e David conversamos sobre isso e acreditamos que ele não tentará nada com Lestat, ou com o próprio David pois ambos já conhecem o ataque psíquico dele e sabem como se defender. Ele vai tentar pegar um dos outros. _ Ele vai tentar me pegar. A voz solene de Marius ecoou pela sala pequena como uma sentença de morte. Ele estava em pé ao lado da cadeira de Scully e sua presença era algo entre impressionante e assustadora. Principalmente porque nenhum deles havia visto ou ouvido a porta ser aberta. Lucy não parecia se impressionar com o pequeno truque do vampiro mas Mulder quase caiu sentado na cadeira atrás de si enquanto Scully emitia um grito de susto. _ É verdade, você é a opção mais lógica. Armand e Santino podem ser destruídos pela sua força e duvido que ele vai se arriscar tanto. Se ele desejasse apenas um vampiro já teria pego algum dos mais fracos. Ele deseja poder e você Marius, pode dar esse poder a ele. Marius não respondeu a mente apurada de Lucy continuava ouvindo as palavras que nem mesmo ele ousava pronunciar em voz alta. Se James dominasse o corpo do vampiro Marius iniciaria uma guerra entre os vampiros. Uma guerra em que todos sairiam perdendo. CENTRAL PARK 01:09 a.m. O vampiro caminhava displicente pela alameda escura, mas já havia sentido a presença de um humano por perto. No entanto, uma rápida sondagem na mente do rapaz indicara ser apenas um estudante em uma corrida tardia pelo parque. O costume que os vampiros tinham de somente matar marginais e bandidos não o agradava mas enquanto estivesse com o grupo de Marius, ele seguiria as condições que os outros seguiam. Mesmo por que, naquela noite em especial, ele sentia vontade de tomar o sangue de um assassino, de preferência do maldito ladrão de corpos que andava perturbando tanto a vida tranqüila que costumava levar desde que chegara a New York há quase um ano. Sua visão sobrenatural captou a presença do humano e já se preparava para desaparecer antes que os olhos mortais percebessem sua presença quando sentiu um choque elétrico passar por seu corpo. Não foi exatamente dor mas o inesperado do fato o distraiu por alguns instantes, dando tempo do rapaz se aproximar e segurá-lo pelos ombros. Seus olhos, estranhamente brilhantes, teriam assustado qualquer pessoa que não estivesse preparada mas este humano em especial, estava mais do que preparado para o vampiro. Na verdade, ele ansiava por este momento há meses. O vampiro começou a esboçar uma reação mas já era tarde demais. Outro choque sacudiu seu corpo e ele foi acometido por uma sensação de dormência nos braços e pernas enquanto sua visão se turvava por um segundo. Quando conseguiu recuperar a visão, presenciou entre chocado e horrorizado, seu corpo afastar-se pelo caminho de arbustos do parque enquanto o mortal jazia largado no chão, morto. Tarde demais, o vampiro percebeu que subestimara seu inimigo e esta falha havia custado sua imortalidade. RUA 52 01:55 a.m. Marius e Lucy haviam deixados os agentes sozinhos no pequeno escritório. Enquanto Scully mantinha o olhar perdido além da porta aberta, Mulder parecia uma criança que acabava de ganhar um doce. _ Isto é fantástico Scully! Imagine só o poder que estes seres têm! Ela finalmente pareceu sair de seu estado catatônico para murmurar _ Mulder, me tira desse lugar, eu quero ficar longe desses...dessa...eu nem mesmo sei o que eles são. _ Vampiros Scully, não percebeu? Eles não têm nada a ver com o Drácula do cinema, eles são reais e acredite se quiser, um deles é o alvo do nosso assassino. Ele viu a parceira balançar a cabeça concordando mas não sabia com o que ela estava concordando, até que ela resolveu falar. _ Mulder, eu preciso pensar. Isso tudo é irreal demais para ser verdade. O parceiro abaixou-se na sua frente e segurou suas mãos com delicadeza. _ Scully, estamos diante da confirmação de que vampiros não são ficção. Eles são poderosos e podem nos levar a este assassino. Lucy acredita poder vencê-lo e eu acredito que ela realmente possa fazer isso. Só precisamos ajudá- los a chegar ao nosso homem. Ele viu a parceira abrir a boca para responder mas nesse momento o celular tocou estridente assustando os dois. Mulder atendeu e ficou sério escutando por alguns segundos. Quando desligou, Scully tinha certeza de que tinham mais uma vítima. _ Vamos Scully, encontraram outro corpo . _ Aonde? Ele a encarou sério, os olhos verdes refletindo sua preocupação _ No Central Park, há apenas duas quadras daqui. Ele está mais perto do que poderíamos imaginar. CENTRAL PARK 2:20 a.m. Mulder observava o cadáver atentamente, tendo Lucy Lars a seu lado. Scully chegou acompanhada de um policial. _ Há um outro corpo escondido bem no meio do parque. Já está em decomposição. Mulder olhou para Lucy _ Este aqui deve ter sido a vítima mais recente. A mulher acenou afirmativamente, o semblante preocupado. Olhava ao redor como que procurando alguém. Mulder fitava o rosto do homem morto pensativo. _Alguma coisa errada Mulder? _Scully, porque James trocou de corpo tão depressa? Aparentemente, este corpo não apresenta um estado de decomposição tão avançado como os outros. E porque ficou no parque se sabia que alguém poderia encontrar a outra vítima? _ Aonde está querendo chegar Mulder? _ Acho que James pode estar no corpo de um dos vampiros neste momento. _ Concordo com você agente Mulder, eu estava pensando nisso também. _ Quem não está na mansão? _ Estão todos fora. A voz de Marius era mais assustadora quando carregada pelo vento noturno e Scully aproximou- se instintivamente de seu parceiro. _ Mas você e Armand estavam conosco lá. _ E Lestat também...Scully parou de falar quando sentiu o olhar interrogativo de Mulder sobre si. Não queria falar sobre o encontro no jardim mas Lucy não se sentia constrangida e, aparentemente sabia de seu encontro com Lestat. _ Lestat se foi logo depois que vocês conversaram no jardim e Armand saiu assim que nos deixou no escritório. Até onde sei, eles também podem ser vítimas de James. _ Então Marius é o único realmente livre de suspeitas. Lucy tinha o semblante preocupado mas evitava fitar o vampiro ao seu lado _ E o que sugere que façamos? _ Voltamos para casa agente Mulder. É para lá que irão e James estará entre eles. Caminhavam em silêncio cada um imerso em seus pensamentos mas Scully podia sentir a angústia que oprimia o peito da mulher de cabelos escuros. Lembrou-se de quantas vezes quase perdera Mulder durante suas missões e do quanto isso a desesperava e mesmo contrariada com a situação em que se encontravam, compadeceu-se de Lucy com sua preocupação por Armand. 2:40 a.m. David Talbot foi o primeiro a chegar e percebeu no mesmo instante que algo estava errado. _ O que aconteceu ? Lucy levantou-se da poltrona e aproximou-se de David que não deixou de notar o movimento sutil de Marius em sua direção. Olhou interrogativamente para sua antiga protegida. _ David, sei que parecerá estranho mas quero lhe fazer uma pergunta e queria que respondesse sinceramente. _ O que é Lucy? _ Você se lembra de quando decidiu abandonar de vez a Talamasca, há mais de um ano? Você me procurou e me passou todas as senhas de acesso que eram suas. _ Sim eu fiz isso mas o que tem a ver com nosso problema de hoje? _ David, antes de partir você me deu um presente, que presente foi esse? Mulder percebeu a mudança no semblante do vampiro e por um instante temeu que ele fosse o ladrão de corpos e atacasse Lucy mas a preocupação de David tinha outro motivo. _ Vocês não estão querendo me dizer que James pode ter... Meu Deus! _ David... O rapaz passou as mãos pelos cabelos genuinamente preocupado com a possibilidade de um dos companheiros estar morto e seu corpo abrigando seu odiado inimigo. Finalmente fixou os olhos esverdeados nos olhos escuros de Lucy e falou num sussurro _ Eu lhe dei o quadro de Armand, pintado por Marius que estava no cofre secreto da Talamasca junto com outras relíquias dos vampiros. Lucy fechou os olhos aliviada por David ser ele mesmo. _Graças a Deus! Mulder já tinha algo planejado em sua cabeça e havia conversado com Lucy por isso ficou satisfeito que Talbot estivesse em segurança pois poderia ajudar muito contra Raglan James. _ Sr. Talbot, Lucy nos disse que conhece os rudimentos desta...técnica que James usa para se transferir de um hospedeiro para outro. Mulder caminhava pela sala impaciente enquanto falava. _ Sim eu não tenho a experiência de James e muito menos a de Lucy mas ao menos sei me proteger de um possível ataque. _ Acha que poderia me ajudar, distraindo James para que eu possa pegá-lo de surpresa? A voz de Lucy exprimia urgência. David acenou concordando _ Mas como vamos saber qual dos vampiros é ele? _ É simples, James não sabe quem somos. Ele nem mesmo conhece Lucy. Se estiver no corpo de Armand não sabe que eles são amantes. Se for um dos outros, não sabe meu nome ou o de Scully. _ Mas James pode ler mentes. _ Eu vou bloquear as mentes dos dois, David, concentre-se em proteger a sua. Tenho certeza de que os outros farão o mesmo assim que pressentirem algo errado. _ E o que pretende fazer agente Mulder? Mulder sorriu, os olhos brilhantes de expectativa _ Eu vou jogar verde Sr. Talbot. James não vai se entregar mas os inocentes o farão. David encarou Marius e viu incrédulo aprovação no semblante dele. Pretendia contestar pois era perigoso demais deixar o mortal na linha de fogo contra James, mas foi impedido pelo ruído da chegada dos outros só captado pelos ouvidos dos imortais. Os três chegaram ao mesmo tempo e Lucy evitou o olhar de Armand. Mulder os recebeu e começou a falar sem dar tempo a nenhum deles de esboçar nenhuma reação. _ Senhores, boa noite. Gostaria que se acomodassem pois eu preciso falar com vocês. Os olhares eram de surpresa e desconfiança, mas como Marius já se acomodava em uma das poltronas, os outros fizeram o mesmo. Scully notou que Armand olhava interrogativamente para Lucy, mas a mulher a seu lado recusou- se fitar os olhos castanhos. O rapaz acabou sentando-se de frente para as duas mulheres que permaneceram em pé. Santino sentou-se ao lado de Marius e Lestat permaneceu em pé próximo a David que havia se posicionado perto da porta que dava para o jardim. De onde estava podia cruzar o olhar com Lucy e isso era tudo o que necessitavam Mulder observou por um minuto todos os presentes na sala e imaginou o que poderia acontecer se aqueles seres sobrenaturais começassem a lutar entre si. Ele e Scully estariam mortos em segundos se fossem pegos em um fogo cruzado deste tipo. Afastou os pensamentos funestos de sua mente e concentrou-se em utilizar sua habilidade de detetive para desmascarar o criminoso que estava naquela sala. James estava apreensivo. Apesar da polícia já estar envolvida no caso, ninguém ainda desconfiava dele. Suas atitudes neutras não despertavam suspeitas entre os outros mas diante daquele homem alto que falava como se os conhecesse e ele começava a se preocupar pois havia tentado ler as mentes dos três mortais naquela sala e não conseguira. E para deixar as coisas ainda piores, ele pressentia um feiticeiro. Tanto podia ser Talbot como um dos mortais, mas James tinha quase certeza de que era Talbot e que ele já desconfiava de sua presença, mas, aparentemente, não tinha noção de qual dos corpos estava usando senão já o teria atacado. Isso quase o fazia rir de prazer com a idéia de brincar de gato e rato com Talbot e seus amigos. Manteve uma expressão neutra e concentrou sua atenção no mortal bem apessoado que começava a falar. A despeito de sua coragem, Scully sentia que estava tremendo. Lucy protegia sua mente e a de Mulder de uma sondagem por parte de qualquer um dos vampiros e a agente podia notar que isso desconcertava os presentes. Até mesmo Armand olhava com desconfiança para as duas mulheres praticamente escondidas atrás de Mulder, que tomava conta da sala com a presença carismática que Scully conhecia tão bem. _ Senhores, como devem saber, estamos lidando com um assassino perigoso. E ele já está entre nós. Nesta sala. Como Mulder esperava, nenhum dos vampiros esboçou nenhuma reação. Lucy havia dito que cada um deles tentaria entrar em contato com a mente dos outros e ao mesmo tempo bloqueariam suas próprias mentes, impedindo qualquer invasão. Segundo Lucy, Marius não podia ler a mente de Armand por ser seu criador. O mesmo acontecia entre Lestat e David. Mulder não havia entendido muito bem como isso funcionava e nem haviam tido tempo suficiente para conversarem sobre o assunto. Talvez mais tarde, se sobrevivessem ao tal ladrão de corpos, poderia conversar com calma com Lucy Lars e esclarecer as centenas de dúvidas que pipocavam em sua cabeça a respeitos destes seres impressionantes. _ Sugiro que não percam seu tempo tentando ler suas mentes ou as nossas, eu já sei quem é Raglan James e em que corpo ele está neste momento. Desta vez, o agente conseguiu se tornar alvo do interesse dos vampiros. _E será que pode se dignar a nos dizer aonde ele está, agente Mulder? As palavras de Lestat o livraram de qualquer suspeita pois James não saberia seu nome ou que era um agente. Sentiu a mão delicada de Lucy tocar seu braço e quando baixou os olhos notou que ela estava extremamente pálida. Mulder sabia que o pânico começava a dominá-la pois só restavam Armand e Santino como suspeitos. Segurou com força a mão gelada da jovem e jogou a cartada final, sabendo que, se Lucy e David falhassem, ele e Scully não teriam nenhuma chance de deixarem aquela sala com vida. _ Sim Sr. De Lioncourt, eu posso dizer onde ele está. Os olhos verdes se voltaram para Marius, que levantou-se dominando a sala com sua presença magnética. Santino e Armand também se levantaram e a risada sarcástica de Lestat foi ouvida. _ Agente Mulder, acha mesmo que aquele vermezinho asqueroso do James conseguiria dominar Marius? Eu duvido! _ Concordo com Lestat, Marius não se deixaria enganar. A voz de Santino pareceu um pouco insegura na opinião de Lucy mas ela estava mais preocupada com a possibilidade de Armand ser James. _E você Armand? Também acha impossível James vencer Marius? O jovem olhou na direção de Mulder mas seus olhos se fixaram em Lucy. _ Não, não acho impossível, você está certo, qualquer um de nós pode ser James e vocês não acreditam realmente que seja Marius. Acham que sou eu não é? Em um segundo Armand estava ao lado de Mulder e segurava Lucy pelos braços, os rostos quase colados. _ Por isso fechou sua mente para mim? Por que acreditava que eu era James? Eu aceito a desconfiança de qualquer um Lucy, menos a sua. _ Já sabemos que não é você, Armand. A única coisa que James não poderia saber a seu respeito era sobre seu relacionamento com Lucy. E fui eu quem pediu a ela que não se aproximasse de você. _ Enquanto falava, Mulder sutilmente tirava Scully de perto dos vampiros pois Santino, que na verdade era Raglan James, estava tentando se afastar quando a mão de Marius o impediu. _ Aonde pretende ir James? Acreditou realmente que poderia caminhar entre nós sem ser descoberto? O vampiro se libertou com um safanão e afastou-se até o centro da sala. Lestat esboçou um movimento em sua direção mas foi impedido por David. _Vocês não podem me vencer. Se destruírem o corpo deste vampiro posso tomar outro, e outro, posso fazer isso indefinidamente. _ Acha que vamos deixar você impune depois de sabermos o que fez com Santino? James virou-se em direção a David com uma expressão irônica no rosto. _ Ora, ora, Talbot, você não parece insatisfeito com seu novo corpo. _ Mas eu tive a sorte de conseguir este corpo, Santino não teve esta chance, teve? _ Seu amigo já havia vivido tempo suficiente, além do mais, duvido que vocês vampiros, seres egoístas como são, sintam falta dele como querem fazer parecer que sentem. Você está certo Sr. agente federal, meu alvo era Marius mas seria muito perigoso. Santino sempre esteve nas sombras, seria fácil desaparecer e viver eternamente livre. _ Você não conseguiria passar despercebido. É muito burro, James. A começar por ter voltado para cá. Não vai escapar desta vez. _ Ah, não? E quem vai me impedir Lestat, você? Talbot? Gostaria de vê-los tentando. James desafiava seus inimigos a tentar detê-lo. Foi quando ele percebeu algo estranho no ar. Seus olhos se arregalaram quando ele notou que os agentes federais deitavam com cuidado, um corpo no sofá. Tarde demais ele descobriu a verdade. Seu algoz se escondia sob a inocente fragilidade feminina. A jovem amante de Armand, era o feiticeiro que ele pressentira o tempo todo e não David Talbot. Um segundo antes de receber o violento ataque psíquico dela, ele pôde vislumbrar o corpo de David desfalecendo nos braços de Lestat e compreendeu, finalmente, que estava perdido. Scully jamais havia presenciado algo tão assustador. O homem que eles chamavam de Raglan James e que, supostamente usava o corpo de Santino, começou a se contorcer e a gritar embora nada nem ninguém o tocasse. Ele caiu de joelhos e emitiu um grito de pânico que a fez gelar de medo. Mas ele estava enfraquecendo e começava a se render à força superior de Lucy e David que o prendiam entre eles através de suas mentes enquanto usavam seus poderes mentais para destruírem a alma do assassino. Mas quando tudo parecia ter terminado, James ergueu o corpo poderoso que abrigava sua alma e lançou-se em direção a Lucy que estava indefesa, estendida no sofá, inconsciente. Instintivamente, Mulder se colocou na frente do homem enlouquecido e os dois foram ao chão com o impacto. Mulder tentou segurá-lo mas sentiu as unhas cortarem sua garganta e o sangue quente começou a escorrer por seu pescoço. James foi arrancado de cima do agente por Marius que o atirou contra a parede. O corpo escorregou devagar ficando finalmente imóvel, sem vida. Por um segundo ninguém se moveu. A cena era dantesca demais, caótica demais. Então Scully correu para junto de Mulder mas Armand havia sido mais rápido e já apoiava a cabeça do agente em seu braço. O sangue não parava de escorrer e, ao examiná-lo, Scully percebeu horrorizada que havia uma veia cortada. _ Precisamos de uma ambulância depressa! Ele não vai resistir! _ Ninguém sai daqui ruivinha. Lestat estava em pé ao lado deles e Scully levantando-se, o encarou furiosa. _ Eu não vou ficar aqui parada olhando meu parceiro morrer apenas para preservar um maldito segredo que você mesmo escancarou em um livro lido por milhares de pessoas! Eu vou salvá-lo com ou sem a ajuda de vocês. _ Ei, calma ruivinha! Nós vamos ajudar seu parceiro, mas do nosso jeito. Assustada com as palavras de Lestat ela olhou para o chão e percebeu que Armand tinha feito um corte em sua mão e a aproximava para encostá-la no ferimento de Mulder. Com um grito ela lançou-se em direção a eles mas as mãos frias de Lestat a seguraram impedindo-a de se mover por mais que lutasse. Seus olhos arregalados assistiram incrédulos o rapaz tocar o ferimento que sangrava em profusão espirrando sangue no ritmo dos batimentos cardíacos do homem quase inconsciente. Quase instantaneamente o sangramento cessou mas Mulder respirava com dificuldade. _ Ele está em choque. A perda de sangue foi abundante e muito rápida. Ele precisa de uma transfusão. Precisamos levá-lo a um hospital. _ A mocinha é mesmo insistente. A voz de Lestat era baixa mas todos podiam ouvi-lo. _ Você não tem mesmo idéia de quanto sangue tem nesta sala? Sangue que pode curar seu parceiro muito mais rápido do que qualquer transfusão? _ Mas qual o preço para isso? Ele se tornar um de vocês? Tenho certeza de que meu parceiro preferiria morrer. Lestat riu e ela se arrepiou ao sentir a boca do vampiro encostar em seu pescoço enquanto falava _ Ele só se tornaria um de nós se além de tomar nosso sangue, tomássemos o dele e isso não aconteceu. Além do mais, não precisamos de sua autorização ruivinha. Scully não tirava os olhos de Armand que mantinha a cabeça de Mulder em seus braços e não pôde evitar um grito de revolta quando viu o rapaz morder o lábio inferior, fazendo o sangue vermelho brotar em abundância enquanto inclinava-se em direção a seu parceiro, e cobrir a boca entreaberta com a dele. Armand sabia não haver tempo a perder pois podia ouvir o coração do homem que segurava, batendo cada vez mais devagar. Ao tocar a boca do agente, ele a sentiu mais fria que a sua própria e por um segundo temeu que fosse tarde demais. Mulder estava praticamente inconsciente. Já não conseguia escutar nada à sua volta a não ser sons desconexos. Quando James o cortara, ele imediatamente percebera que o ferimento era fatal. Havia tentado se levantar mas não conseguira. Ele ainda estava consciente quando Armand ajoelhou-se a seu lado e tocou seu ferimento com a mão ensangüentada. O corte se fechou quase que imediatamente mas ele notou que perdera muito sangue pois o frio começou a tomar conta de seu corpo e já não podia mais manter os olhos abertos que já não distinguiam nada que se movia à sua volta e, em um último lampejo de lucidez, ele lamentou nunca ter tido coragem de dizer a Scully o quanto ela era importante para ele. Foi quando Mulder sentiu algo quente entrar em sua boca. Parecia fogo líquido e no instante seguinte, ele se sentiu aquecido novamente. Por um segundo pareceu que o mundo havia deixado de existir pois nenhum som chegava a seus ouvidos mas em seguida ele abriu os olhos e viu Armand ajoelhado ao seu lado. Logo em seguida viu Scully a seu lado também, os olhos claros brilhantes de lágrimas com um alívio tão grande estampado neles que o assustou. _ Scully, você está bem? _ Estou Mulder, estou sim. A voz que ouvia estava misturada a muitas outras vozes que pareciam chegar a seus ouvidos por todos os lados, pelas janelas, pelo jardim. E quando a fitou mais detidamente, seus olhos enxergaram muito além do que ele queria ver. A pele clara parecia se mover, como se milhões de pequenos seres caminhassem sobre seu rosto e Mulder notou assustado que o que via, eram as células que cresciam e se renovavam a cada segundo sobre o rosto delicado de Scully. _ Mulder, o que foi? Ele balançou a cabeça confuso e não respondeu. Sentiu dois braços o erguendo e se viu frente a frente com Marius. O rosto do vampiro que antes lhe parecera feito de mármore agora mostrava cada detalhe dos pequeninos poros da pele até as minúsculas rugas em volta dos olhos, imperceptíveis aos olhos humanos. _ O que vocês fizeram comigo? Estava claro para todos, o pânico na voz do agente. _ Está tudo bem agente Mulder. A sensação que está sentindo passará em algumas horas. Também sentirá algo semelhante a uma crise de abstinência de drogas mas será bem leve e logo terá voltado a seu estado normal, eu garanto. Não se preocupe, não o tornamos um de nós. O alívio de Mulder era palpável quando estendeu os braços para Scully e a abraçou possessivamente encostando o queixo no alto da cabeça ruiva. _ Meu Deus Mulder, eu achei que o perderia desta vez. O parceiro não respondeu, encarava o adolescente parado à sua frente. Sabia que havia sido o sangue daquele vampiro que salvara sua vida mas estava assustado demais com as sensações que este sangue provocava em seus sentidos. Armand parecia ainda mais perfeito quando observado por sua nova visão. Agora, Mulder conseguia compreender o fascínio que o rapaz exercia nos outros vampiros. Ainda abraçado a Scully, estendeu a mão para ele. _ Você salvou minha vida, obrigado. _ Não precisa agradecer, ele teria machucado Lucy se você não o impedisse. Armand o fitava sério mas os olhos castanhos expressavam gratidão enquanto sua mão fria apertava a do agente. No segundo seguinte Armand estava abaixado ao lado do sofá enquanto Lucy voltava lentamente à consciência. David já estava de pé, provavelmente graças à sua constituição diferente, e não parecia tão afetado como a jovem que agora era amparada com tanto cuidado pelo amante. Os agentes se aproximaram do sofá e Lucy, apesar de bastante abatida, os brindou com um sorriso agradecido que os fez sorrir inconscientemente de volta. _ Agente Scully, agente Mulder, vocês nos ajudaram muito hoje, somos muito gratos pelo que fizeram. Sabemos que arriscaram suas vidas por nós e não nos deviam isso. Scully ainda estava em choque por tudo o que presenciara naquela noite e, de repente, tudo o que ela queria era ir embora daquela casa e se afastar daquelas pessoas. Ela teve a nítida impressão de que seus pensamentos haviam sido lidos por todos os vampiros na sala pois no segundo seguinte estavam sozinhos com Lucy, Armand e o corpo sem vida de Santino. A jovem levantou-se e os encarou séria. _ Vocês devem partir agora. Mulder indicou o corpo com a cabeça. _ E ele? _ Infelizmente perdemos Santino, mas James estava certo, eles não sentirão falta dele. Cuidaremos para que o corpo não cause problemas, não precisam se preocupar. Vocês realmente devem ir agora. Mulder deixou a casa relutante enquanto Scully teria corrido de lá se fosse possível. Apesar de estarem próximos ao hotel, Mulder não quis arriscar caminhar pela madrugada silenciosa. Conseguiram um taxi a alguns quarteirões e seguiram em silêncio até o hotel. Scully sentia o alívio tomar conta de si à medida que se afastavam da mansão. Mulder só falou depois que o motorista sonolento os deixou na porta do hotel e partiu cantando os pneus do carro amarelo. _ Scully, você não acha estranho que nenhum deles tenha pedido que não relatássemos o ocorrido em nossos relatórios? _ Mulder, eu não tenho coragem de escrever um décimo do que presenciei esta noite em meu relatório, não pretendo ser internada no hospício. O parceiro ainda tentou argumentar mas ela estava cansada demais e praticamente deixou-o falando sozinho enquanto se dirigia para os elevadores. 4:00 a.m. Lucy estava sentada no sofá, abraçada a Armand. Marius sentava-se de frente para eles enquanto David e Lestat permaneciam em pé. A sala estava mergulhada em silêncio enquanto a madrugada avançava inexorável para o amanhecer de um novo dia. David já começava a se sentir sonolento mas os outros três, mais velhos, já conseguiam ficar acordados até o amanhecer completo. O silêncio foi rompido pela voz bem modulada de Lestat. _ Eu irei. _ Você não Lestat, vai matá-los. _ Não vou doçura, eu prometo. _ Conheço suas promessas _ o comentário sarcástico foi acompanhado de um movimento de cabeça em direção a David, que fora transformado por Lestat contra a vontade. _ Lestat pode ir. Ele cuida da agente Scully e eu cuidarei do agente Mulder. Marius levantou-se dando a questão por encerrada. _ Isso é ótimo, uma babá. É maravilhoso saber que confiam em mim. _ Deixe de dramas Lestat e vá logo, o sol vai nascer às 6:22 hoje. Vocês não têm muito tempo. Lestat suspirou teatralmente e seguiu Marius para o jardim enquanto a sala mergulhava novamente no silêncio até que Armand formulou a pergunta que o consumia de curiosidade. _ Como vocês fizeram? David e Lucy encararam-se por alguns segundos _ Não acho que seja algo agradável de se descrever Armand. _ E eu não acho que estejam preocupados em ferir minha sensibilidade, mesmo porque não tenho nenhuma. _É muito diferente de quando matamos alguém. Destruímos um corpo mas a alma sobrevive eternamente. Destruir definitivamente uma alma é doloroso demais tanto para a vítima quanto para o algoz. Armand sentiu o corpo de Lucy estremecer em seus braços e beijou-a no alto da cabeça confortando-a. _ Dói muito. A sensação e de que todo o sofrimento do mundo passa por você no momento em que a alma do infeliz é destruída. A voz de Lucy era um sussurro e Armand estreitou o abraço. _ Esqueça isso, venha, vamos descansar um pouco antes que eu tenha que ir. _ Queria poder ficar com você... _ Eu também. Ambos sabiam que era impossível. Um vampiro, quando em transe, matava qualquer ser vivo que se aproximasse de seu corpo adormecido. Era algo que nenhum deles podia controlar. Lucy levantou-se e abraçou David. _ Obrigada David, sem você eu não teria conseguido vencê-lo. Você foi o meu pilar de apoio naquela batalha. _ Não me agradeça. Você me livrou de alguém que eu odiava e sou grato por isso. Ela apenas acenou com a cabeça e deixou a sala junto de Armand. David continuou fitando o jardim mergulhado nas sombras da madrugada, ouvindo os ruídos noturnos, vozes, sussurros, corações batendo e mentes insones trabalhando freneticamente, enquanto pensava no que os dois agentes do FBI estariam enfrentando naquele instante. Torcia para que Lestat, desta vez, obedecesse a vontade de Marius e resistisse ao desejo de transformar a bela agente ruiva em uma filha da escuridão. 4:24 a.m. Mulder ainda sentia os efeitos do sangue do vampiro dentro de si e soube que havia alguém em seu quarto no instante em que Marius atravessou a janela do vigésimo andar. O agente deixou o banheiro tentando aparentar uma calma que não sentia e soube que estava certo em se preocupar quando viu a expressão do homem alto parado no meio do quarto pequeno. _Não me diga que decidiram que somos perigosos demais para sua segurança e decidiram nos matar. _ Não agente Mulder, não vim aqui para matá-lo mas para fazer uma pergunta que espero, responda com sinceridade. Mulder indicou a cadeira próxima à janela e sentou-se na beirada da cama. Havia vestido shorts e camiseta depois do banho e ainda tinha os cabelos úmidos e despenteados mas a última coisa com que se preocupava no momento era com sua aparência. Marius observou o homem diante de si por alguns instantes e antes mesmo de formular a pergunta já sabia qual seria a resposta. _ Agente Mulder, pretende colocar em seu relatório todos os fatos que presenciou esta noite? O vampiro viu o agente respirar fundo antes de responder _ Eu não colocaria, mesmo se não tivesse a certeza de que seria internado no minuto seguinte que entregasse um relatório destes a meu superior. Não sei o que vou relatar mas com certeza não será o que aconteceu esta noite. _ Em meu nome e de meus amigos eu agradeço. Creio que Lucy também ficaria grata se não mencionasse a Talamasca pois seu relatório será lido por pessoas que podem passar estas informações para os superiores da Ordem que não ficariam muito satisfeitos em saber que o FBI tem conhecimento das atividades deles. _ Eu não trairia a confiança de Lucy. Não precisava vir até aqui para me dizer estas coisas. _ Eu sei que não... Os sentidos de Mulder captaram um grito vindo do quarto de Scully. Na verdade, foi um gemido e ele jamais o escutaria se seus sentidos não estivessem alterados pelo sangue que recebera. Em duas passadas ele alcançou a porta mas o vampiro já estava lá, impedindo sua passagem. Mulder ainda tentou lutar mas sabia que não tinha a mínima chance contra ele. Sentiu os dedos frios se fecharem em sua garganta como garras e sua visão se tornou turva. Quando sentiu que perderia os sentidos, o aperto cessou e Mulder percebeu que estava na cama, o corpo do vampiro imobilizando o seu. Um medo irracional tomou conta dele enquanto imaginava qual daquelas criaturas estaria com Scully neste momento e o que poderia estar acontecendo com ela. Fechou os olhos e fez uma prece silenciosa, pedindo a Deus que nada acontecesse com Scully. A voz sussurrada de Marius chegou a seus ouvidos juntamente com o sopro morno do hálito do vampiro. _ Abra os olhos. Ele obedeceu e encontrou os olhos azuis muito próximos. Era impossível se desviar deles assim como era impossível deixar de escutar a voz monocórdica que o arrastava para a inconsciência. Um segundo antes de se perder na escuridão, Mulder viu o rosto de Marius se abaixar em sua direção e uma dor aguda tomar conta de seu corpo. 4:24 a.m. Scully havia acabado seu banho e já apagara as luzes para se deitar e tentar descansar por algumas horas. Desde que chegara ao hotel, sua mente fervilhava de perguntas não respondidas. Mas ela, como cientista tinha certeza que encontraria resposta coerentes para os eventos presenciados nesta noite. Mas alguma coisa dentro dela sabia que estas respostas não significariam nada. Tudo o que ela vira e ouvira, não podia ser explicado por sua preciosa ciência e isso a desconcertava. Sentada na cama, olhava para a madrugada que avançava além da janela distraída, pensando naqueles estranhos seres que viviam às custas das vidas de outros. Levou um susto quando percebeu que Lestat estava no quarto mas não emitiu nenhum som. _ Agente Scully, é um prazer tornar a vê-la. _O que quer aqui Sr. De Lioncourt? _ Ora, acho que já nos conhecemos o suficiente para você me chamar de Lestat. Scully balançou a cabeça e ele se aproximou sorrindo sedutoramente. _ Tente, não vai doer. _ Não vejo necessidade já que não vamos mais nos encontrar. Ele riu e Scully sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo. _ O que você veio fazer aqui? O que quer comigo? _ Apenas conversar. Meus amigos estão preocupados com o que você pretende colocar em seu relatório. _ Você não acha que eu vou passar por louca escrevendo alguma coisa sobre vocês acha? Nem mesmo Mulder teria coragem de fazer isso. _Eu acredito que não farão nada que nos prejudiquem mas mesmo assim não podemos arriscar. Scully havia se levantado da cama quando ele entrara no quarto e tentava sutilmente se aproximar da porta, mas o vampiro percebeu sua intenção e quando Scully notou que os olhos dele estavam mudando de cor, correu às cegas, tentando fugir, apenas para se tornar prisioneira de braços fortes que a mantinham junto ao corpo rijo de Lestat. _ Não tão depressa ruivinha. Precisamos terminar aquela nossa conversa do jardim. _ Eu não tenho nada para conversar com você Lestat, me deixe em paz. _ Ah, já começamos a nos entender. Você me chamou de Lestat. Sabe que meu nome vindo de seus lábios parece uma oração? Scully tentou se soltar mas os braços que a envolviam pareciam de aço. _Quer se soltar? Se fosse Armand em meu lugar, lutaria com tanto empenho? Scully ficou imóvel e encarou o vampiro assustada. O que ele queria dizer com aquelas palavras? _ Não se faça de desentendida. Eu sei que você gostaria de ter estado no lugar de Lucy naquele jardim. Ele riu quando ela balançou a cabeça negando, enquanto os lindos olhos claros se enchiam de lágrimas. _ Infelizmente, ruivinha, Armand não está aqui, vai ter que se contentar com meu beijo. Lesta inclinou-se em direção aos lábios dela mas apenas os roçou de leve. Sua boca desceu até o pescoço alvo e seus dentes se cravaram na carne macia fazendo-a gemer de dor. A cabeça de Scully girava enquanto imagens perturbadoras tomavam conta de seus sentidos embriagando-a de tal maneira que perdeu completamente a noção de onde estava. A sensação de dor durou apenas um instante e logo ela sentia uma deliciosa onda de prazer tomar conta de seu corpo. O vampiro afastou o rosto e encarou-a sorrindo e, no momento em que resvalava para a inconsciência, o rosto de Mulder veio à sua mente e o medo de nunca mais vê-lo, acompanhou-a para a escuridão. 9:08 a.m. Os agentes se sentavam lado a lado no taxi, a caminho do aeroporto. Já haviam resolvido o caso bem cedo naquela manhã. Os agentes haviam concluído que não havia nenhum Arquivo X nas mortes dos indigentes e que a morte do jovem esportista no parque, na madrugada passada, havia sido mera coincidência. O caso fora encerrado rapidamente pois a polícia de New York também estava ansiosa para esquecer a questão. Mulder estava pensativo e Scully ficou preocupada. _ Mulder, está tudo bem com você? Você está tão pálido... _ Você também está pálida Scully. Há noites que não dormimos direito. Estou cansado e ando tendo sonhos estranhos. _ Estranhos como? _ Não sei explicar. Só sei que são estranhos mas não me lembro deles completamente. Scully balançou a cabeça e não respondeu. Ela se lembrava perfeitamente do último sonho que tivera. Lembrava-se também da sensação de prazer que sentira nos braços de um jovem desconhecido de cabelos louros e olhos azuis. Mas não falaria sobre isso com Mulder. Não poderia. Um grito de seu parceiro a arrancou de seu devaneio enquanto o taxi freava bruscamente. _Mulder, o que foi? Ele não respondeu. Pagou o taxi e a fez descer apressada em frente ao portão do Central Park. _Olha Scully. Mulder apontava para uma mansão em frente à entrada do parque. _ Olha o que Mulder? _ Reconhece o lugar? _ Não, não reconheço. _Esta casa, ele insistiu apontando para o imenso portão fechado _ Estivemos aqui ontem, eu me lembro. Mulder aproximou-se do portão de ferro e tentou abrí-lo mas parecia que há anos ninguém tocava nele. _ Não mora ninguém aí senhor.... A voz em suas costas o fez pular de susto. Um segurança particular olhava para os dois com desconfiança. _Ah, desculpe, somos agentes do FBI e estamos procurando os donos da casa. Depois de olhar as credenciais, ele coçou a cabeça pensando. _ Tem um jardineiro que vem todo mês cuidar do jardim mas os donos não aparecem há mais de um ano. _Mulder, esqueça isso, você deve ter sonhado com um lugar parecido. Scully conseguiu que ele a acompanhasse, depois de agradecerem ao homem que dera a informação. Caminharam em direção ao parque que, àquela hora estava cheio de pessoas passeando e brincando. _ Mulder, este caso nos estressou ao extremo. E nem mesmo era um Arquivo X. Vamos voltar para Washington e esquecer assassinatos por algum tempo. Ele concordou com a cabeça ainda intrigado por se lembrar tão claramente da casa. Pensando bem, ele se lembrava de outras coisas mas estavam vagas e não faziam sentido. Devia ter sido mesmo um sonho... Os agentes caminhavam pelo parque, esquecidos por um instante que tinham um avião para pegar. Mulder observou duas crianças brincando com um jovem sorridente, uma senhora alimentando os pombos que se aglomeravam a seus pés e uma jovem que, encostada a uma árvore, lia compenetrada. Por um instante teve a impressão de conhecer a dona daqueles cabelos negros tão bonitos que caiam pelos ombros até o livro que ela apoiava nos joelhos mas a sensação passou e ele continuou caminhando ao lado de Scully até que uma voz suave pareceu sussurrar bem perto de seus ouvidos : "Obrigada agente Mulder" Ele parou assustado e voltou-se bruscamente. Mal sentiu a mão delicada de Scully segurar a sua com força _ Mulder, o que foi? Ele não respondeu, observava as pessoas à sua volta, mas nada parecia anormal. As duas crianças continuavam jogando bola com o rapaz louro, a velha senhora ainda alimentava os pombos e a jovem encostada na árvore acabava de guardar seu livro e se levantava para ir embora. Mulder ficou ainda alguns segundos admirando o caminhar suave da jovem, cujos cabelos negros esvoaçavam ao vento conforme ela andava. Algo brilhante em seu pulso esquerdo refletia a luz do sol e, se Mulder estivesse um pouco mais próximo, teria conseguido enxergar a pequena pulseira de pérolas muito brancas com uma cruz de prata pendurada no fecho. FIM MEL E MICA: ESTA É PARA VOCÊS MATAREM AS SAUDADES DOS NOSSOS QUERIDOS VAMPIROS.