ATENÇÃO: Arquivo X (The X-Files?) pertence a Fox Network e seu criador Chris Carter. Não há intenção de se obter lucro com essa história, que se destina unicamente a diversão dos fãs. Autora: Jennifer Fearnsaille (saille@ig.com.br) Home Page: http://www.danadeavalon.hpg.com.br Sinopse: História baseada em fatos reais ocorridos e pesquisados no sul do Brasil: lendas sobre o ouro que anda e fenômenos ufológicos podem estar interligados. "BRILHANTE" Rodovia Interestadual de Iowa 05:15 PM Mulder e Scully dentro do carro, Mulder dirigindo, Scully com um mapa na mão. SCULLY: _ Pelo mapa não há sinais de quaisquer pontos onde atividades de mineração ou escavações possam estar ocorrendo. MULDER: _ Eu disse que não era o caso... SCULLY: _ Mesmo assim o fato de não constar no mapa não nos garante que operações clandestinas não ocorram num local como este, uma ampla área de vegetação densa e pouco habitada... MULDER: _ Scully, se fosse apenas por "não constar no mapa" eu não teria dúvida alguma de que o ocorrido fosse um simples caso de mineração clandestina. Os lugares mais "quentes" deste país não constam em mapa, a Área 51... SCULLY: _ A casa do Papai Noel... MULDER: _(ignorando a interrupção)...acontece que eu chequei com o geólogo do FBI que confirmou os laudos de seis fontes diferentes, de empresas particulares a órgãos do governo, de que não há NADA, absolutamente NADA aqui neste município que possa ser explorado, escavado, minerado, extraído ou aproveitado de qualquer forma conhecida. SCULLY: _ Um município chamado Brilhante, um nome tão sugestivo que estranhamente parece não estar sugerindo nada à sua mente normalmente tão fértil... MULDER: _ (olha sério prá ela) O nome do município é Brilhante por causa do riozinho estreito e comprido que atravessa toda a região: o rio Brilhante. SCULLY: _ E não poderia haver algo de valor nesse rio que causasse o brilho que originou o nome? Esse município não é muito antigo, talvez os moradores nativos, índios por exemplo, soubessem de tesouros que os habitantes atuais ignoram. MULDER: _ Os índios nativos desta região, que não eram muitos, foram pouco a pouco migrando para o oeste, para além das montanhas Coyote onde, dizia-se, poderia haver ouro a ser encontrado ou pelo menos vastas plantações de maçãs que garantiriam emprego e alimento. SCULLY: _ (sem argumentos, mantendo a custo a dignidade) E o geólogo porventura disse por que o rio brilha? MULDER: _( Já se divertindo com a cara dela) O sol, Scully, quando bate na superfície da água, reflete raios... Scully olha prá ele irada. MULDER: _ Estou brincando (divertido)! É sílica, areia, Scully. SCULLY: _ Sei que sílica é areia, Mulder (brava). MULDER: _ (Disfarçando o riso) Valioso talvez para o Bill Gates, mas acho que ele tem bastante de onde vem, além do mais, se ele pretendesse contrabandear areia o local mais indicado seria o Egito e não um rio que em alguns pontos você pode ter um dos pés em cada margem. SCULLY: _(cansada de passar por burra e disposta a dar um basta na supremacia do parceiro, ataca usando todo o seu cinismo) Ok, então só nos resta aceitar a sua não menos brilhante teoria. Nem sei porque estamos viajando há horas! Lá mesmo do porão do FBI eu poderia ter feito meu relatório sobre o caso e entregue ao Skinner explicando que um fazendeiro e seu filho de 19 anos desapareceram por obra do misterioso "ouro que anda" na região do rio Brilhante. Pode-se deduzir que uma mutação alterou a estrutura do precioso metal tornando-o animado e dotado de vontades nômades. O mineral ambulante que volita por entre as copas das árvores em busca de um novo repouso subterrâneo e que quando encontra, enfia-se afoito terra adentro causando uma explosão de calor ouvida pelos moradores mais próximos. Algo mais a acrescentar no relatório, agente Mulder? MULDER: _(com cara de vítima) Quando chegarmos lá e tivermos conversado com os familiares e testemunhas e você já tiver tido a oportunidade de ver, ouvir e quem sabe até apalpar algum tipo de prova, talvez esteja pronta a ouvir a minha teoria. Até lá guardarei minhas idéias para manter distância do seu sarcasmo. RESIDÊNCIA DOS CARPENTERS BRILHANTE 07:38 PM Uma sala confortável, tipicamente country. A sra. Carpenter chora tentando explicar aos agentes o que aconteceu. Dois de seus filhos, um alto, louro e um mais baixo, moreno dão detalhes (os três têm bastante sotaque): SRA. CARPENTER: _(entre lágrimas de preocupação, mas percebe-se que é uma mulher forte) A gente pensa que essas lendas são tudo bobagem, mas numa hora dessa nem sabe o que pensar e parece que é a única explicação que se pode encontrar... JEFF( o moreno ): _ Eu tenho certeza que o que aconteceu com eles tem arguma coisa que ver com o oro que anda, eu sei... Scully, sentada no sofá, olha para as mãos. Mulder, encostado no braço de uma poltrona, fez todas as perguntas que podia e agora ouve entusiasmado as respostas. Percebe-se que o interesse dele conquistou a confiança da família, que faz questão de não esconder nada, pelo contrário, até contam fatos desnecessários. SRA. CARPENTER: _ No ano passado, quando a vaca abortou o bezerro quase no fim da gestação, meu marido bem que disse que devia ter sido susto do "oro que anda", que na certa ela devia de ter visto o oro mudando de lugar. Eu não acreditei, disse que era besteira, mas três dias depois os filho do lenhador da parte lá de baixo do rio, acharo a cratera onde dissero que o oro tinha saído... Scully olha para o teto desconsolada. MULDER: _ Mas nenhum de vocês viu o sr. Carpenter e o irmão de vocês indo pra direção onde viram o ouro brilhar, viram? JEFF: _ Não, senhor, nenhum de nós viu. FRANK: _ Tudo o que a gente sabe é que o pai e o mano foram seguir o rastro da bola de fogo que subia morro acima e que o pai achava, como muita gente por aqui, que era esses negócio de disco voador. Scully faz uma cara de incrédula para Mulder, como se finalmente começasse a entender porque eles estão ali. Ele faz que não vê. FRANK: _ O Johnny não acreditava que era e foi co' pai pra prová que devia de sê outra coisa. MULDER: _ Com que frequência essas bolas de fogo aparecem por aqui? JEFF: _ Ah, sempre... vez em quando alguém diz que viu... SCULLY: _ O que seu irmão Johnny achava que era? FRANK: _ Ele pensava que não era essas coisa mas a gente também não sabe o que ele achava que era não, dona. Cê sabe, Jeff? JEFF: _ Sei não. O Johnny não era muito de conversar, sabe? Né, mãe? SRA. CARPENTER: _ É... ele tava sempre junto do meu marido. Eu pensava às vezes que podia ser arguma explosão de gente encrencada ca polícia, sei lá, por isso não queria que ele nem que o menino fosse atrás disso. Podia ter bandido envolvido, sei lá. Na minha opinião o que a gente não conhece pode ser perigoso, então, é melhor não mexer. SCULLY: _ Algum de vocês tem idéia do motivo pelo qual alguém explodiria lá em cima? Algo valioso? Todos balançam negativamente a cabeça. SRA. CARPENTER: _ Antigamente, lá pra baixo do rio costumava aparecer um carro roubado, uma quadrilha costumava trazê porque aqui é bem distante. Eu desconfio, às veiz, que essa mesma quadrilha ou outra tá explodindo lá no mato fechado prá escondê os carro. Os filhos olham pra velha como se ela estivesse delirando... JEFF: _ Tá louca, mãe? Escondê carro lá em cima? Tem lugar não! - ele fala depressa, atropelando as palavras. FRANK: _ Isso não tem cabimento, se eles quisesse escondê carro lá em cima, pra que ia explodir o mato? Pra acabá co' a vegetação que é justamente o que esconderia os carro? E outra, como eles ia chegá lá em cima se não tem caminho mal pra gente andá, quanto mais pra rodá veículo?... JEFF: _ Nóis chamamo ocêis porque tão dizendo que se for esse negócio de OVNI, eles podi tê levado o pai e o mano embora e nóis queremo sabê como é que nóis faiz prá tê eles de volta. Mulder olha com pena para o rapaz. Scully intervem: SCULLY: _ Amanhã nós iremos subir o morro e procuraremos todas as pistas possíveis. Vamos descobrir o que aconteceu com eles. SRA. CARPENTER: _ Arrumamos os quartos de hóspedes para vocês. Se precisarem de arguma coisa é só chamá. Amanhã de manhã a chave do jipe e da camionete o Frank e o Jeff dá procêis, e se quisere um dos dois acompanhá ocêis até o morro. Num tem hotéis aqui perto mas garanto que a janta é boa e a água pro banho é quente. Nóis tá contente que veio arguém do governo escuitá nóis, por que nóis pensamos que ninguém ia dá bola nem acreditá em nóis. SCULLY: _ Nós que agradecemos a sua hospitalidade e faremos o que for preciso para encontrar seu marido e seu filho, sra. Carpenter. QUARTO DE HÓSPEDES DE SCULLY 11:23 PM Scully abre a porta. Mulder entra. Ela está vestindo um robe. MULDER: _ Confortável, agente Scully? SCULLY: _ Sim. Uma autêntica e aconchegante casa de campo. Pena que tenhamos vindo em tão má hora. MULDER: _ Me deu pena do Jeff... Você vê, Scully, gente simples, de boa fé, não sabem com o que estão mexendo. Não tive coragem de dizer a ele que se o pai e o irmão foram abduzidos não há nada que possam fazer para trazê-los de volta. SCULLY: _ Que história é essa de discos voadores, Mulder? Você me trouxe aqui outra vez sem me dar as devidas explicações! MULDER: _ Essa é a primeira vez que te trago aqui, Scully. SCULLY: _ Não se faça de besta, Mulder. Por que não disse logo que esse caso envolvia OVNIS? MULDER: _(provocando) Será por que você estava tão meiga no carro hoje à tarde? SCULLY: _ Mulder... MULDER: _Você sempre fica estressada quando viajjamos, Scully, então eu achei melhor não abusar da sua doçura e esperar que chegássemos e você pudesse tomar um banho, jantar e, é claro, obter algumas provas básicas. SCULLY: _ E que provas básicas você julga que eu obtive? MULDER: _ Depoimentos, Scully, o princípio de tudo. (Ele parece filosofar calmo e trânquilo, se divertindo com a irritação dela) A forma pela qual traçamos uma estratégia de investigação... SCULLY: _ Mulder, vá para o seu quarto irritar as paredes! Me deixe dormir que amanhã tenho muito o que fazer e você muito que me explicar. MULDER: _ Que mania de me expulsar do seu quarto, Scully! Eu já tomei banho, estou cheirosinho, olha só ( a abraça de encontro ao peito, brincando, mas tentando uma aproximação)... SCULLY: _ (sem olhar pra ele, tentando mudar de assunto) É, está sim, mas eu tenho que dormir. Temos muito o que fazer amanhã. MULDER: _ (fala docemente, olhando nos olhos dela) Scully, depois... (frisa bem essa palavra) DEPOIS... eu deixo você dormir. SCULLY: _ ( olha prá baixo, rindo, tentando aliviar a tensão) Não, Mulder, AGORA, eu vou dormir. MULDER: _ (ele a solta, suspira e vai para a porta, mas antes diz: ) Durma agora enquanto pode, Scully, porque depois do casamento, eu juro, vai dormir bem pouco. MORRO DO BRILHANTE 09:40 AM Mulder e Scully subindo o morro; chegam ao topo. A vegetação é densa. MULDER: _ ...há relatos semelhantes em outros países, no sul do Brasil, principalmente. As pessoas geralmente se referem a uma bola de fogo que descreve movimentos lentos e circulares no ar ou um pequeno disco brilhante que decepa e queima os galhos das copas das árvores por onde passa. Hoje em dia, muitos associam as apareições a OVNIS por causa dos movimentos aparentemente inteligentes das bolas de fogo, ou esferas brilhantes, mas antes da popularização dos fenômenos ufológicos, a gente simples que mora nos locais onde esses fatos costumam ser relatados associam o fenômeno às lendas sobre a virtude do ouro. É uma crença antiga a de que o ouro seja um metal sagrado, que só é encontrado quando deseja sê-lo e por pessoas escolhidas. Alguns dizem que um guardião muda o ouro de lugar à noite para evitar que ele seja encontrado por pessoas gananciosas. Essas lendas dizem que ouro, ao mudar de lugar, toma a forma de uma bola de fogo. SCULLY: _ Mas você mesmo disse que não há ouro por aqui. MULDER: _ E você acha que eu vim pra cá baseado em qual teoria? SCULLY: _ Mas pelo o que você disse os relatos descrevem esferas de menos de 1 metro de diâmetro; não é um tanto pequeno para uma nave espacial? MULDER: _ ( responde sério ) Não estou falando de naves espaciais, mas de instrumentos de sondagem extraterrestre. SCULLY: _ Pilotadas por extraterrestes lilliputianos? MULDER: _ Creio que sejam teleguiadas. SCULLY: _ Oh, sim, claro! Esqueci-me que aeromodelismo é uma tecnologia alienígena. MULDER: _ Que tal me brindar com sua brilhante explicação científica? SCULLY: _ Não é preciso recorrer à Ciência para explicar o que provavelmente deve estar acontecendo por aqui. Bastaria um xerife mais eficiente e poderíamos ter ficado em Washington cuidando da nossa vida. MULDER: _ O que está sugerindo? SCULLY: _ Acho que a sra. Carpenter tocou no fio da meada quando falou dos carros roubados. Acredito que o sr. Carpenter e o filho possam ter encontrado o esconderijo da quadrilha por acaso e por isso temo que tenham sido executados para não revelarem o que descobriram. MULDER: _ Mas você viu o que Frank e Jeff disseram. Não há como chegar com um veículo aqui. SCULLY: _ Mulder, você percebeu como aqueles dois foram rápidos em tentar desviar nossa atenção das hipóteses que a mãe estava levantando? MULDER: _ Sim, também desconfiei que eles estavam escondendo algo, mas de qualquer forma, se a hipótese não é viável, não vejo por que perder tempo com ela! Scully se altera. SCULLY: _ Mulder, acho inacreditável VOCÊ me falar em hipóteses inviáveis! Mulder cai em si. MULDER: _ Desculpe... tem razão. Não estou deixando você terminar sua suposição. Por favor, me diga o que está pensando. SCULLY: _ (mais calma) A sra. Carpenter apenas tem uma desconfiança que não pode provar, mas os filhos são jovens, devem andar por tudo aqui e com certeza sabem se existe alguma atividade ilícita na região e quem está envolvido. O irmão desaparecido, Johnny, com certeza sabia e deve ter sido isso que ele apostou com o pai. Acredito que eles estejam com medo da quadrilha e não tocam no assunto diretamente para evitar represálias. Acho que não deram queixa de sequestro para evitar um confronto direto, preferindo chamar o FBI com essa história esfarrapada porque sabiam que uma investigação traria à tona a verdade sem que eles tivessem que assumir o risco de uma denúncia. Aquele Frank parece bobo, mas eu acho que é bem esperto para ter pensado nisso. Acho que ele orientou o Jeff, que parece mais ingênuo. E foi por isso que ele mencionou aquela história de "o que nóis tem que fazê pra trazê eles de volta". Na ingenuidade dele deve ter pensado em algum tipo de resgate. MULDER: _ (sério) Essa sua teoria, Scully, está muito bem elaborada. Mas, me diga, como os carros chegaram aqui? SCULLY: _ Mulder, há cerca de 10, 12 anos atrás, uma de minhas tias morava numa cidade próxima 60 km daqui e eu me lembro que o tráfico ilegal de madeira foi descoberto abrangendo um raio de mais de 100 km nessa região. Os traficantes escavavam enormes valas no alto dos morros e lá escondiam milhares de toras de madeira. A polícia florestal encontrou um galpão com vários helicópteros militares capazes de transportar a longa distância 5 troncos amarrados a cada um deles. Esses helicópteros são negros e silenciosos, ideais para um serviço clandestino noturno. MULDER: _ (pensando seriamente no que ela diz) Precisamos ir até a cidade averiguar o histórico da região, mas já que estamos aqui, vamos dar uma olhada pra ver se encontramos alguma coisa. 11:45 AM MULDER: _ Realmente o cenário aqui em cima está muito estranho... tem galhos quebrados demais, troncos arranhados por algum tipo de lataria... SCULLY: _ Acho que já rastreamos quase a metado do topo do morro, Mulder. MULDER: _ Não devemos estar longe de encontrarmos alguma coisa. SCULLY: _ Mulder, será que podemos parar um pouco? (respira) Estou realmente cansada... Eles pararam num círculo de árvores, o sol calmo penetrando por entre as copas. Scully senta num galho largo e baixo de uma árvores de pequena estatura. Mulder se encosta num tronco. Fica olhando prá ela. SCULLY: _ Pensei que não me daria ouvidos. Que eu teria que vasculhar o morro sozinha. MULDER: _ Sempre dou ouvidos ao que diz, Scully. Mesmo que não pareça. É que tenho a pretensão de achar que geralmente estou certo e sou muito teimoso. Mas a experiência já me mostrou que mesmo que eu tenha razão, frequentemente sua abordagem da situação tem evitado que eu cometa erros fatais de avaliação. Além do mais, eu jamais deixaria você andando por esse morro sozinha. SCULLY: _ Já sei, deve estar concluindo que realmente existe uma quadrilha de carros roubados agindo na região... mas, ( ela faz suspense)... NÃO são assaltantes comuns e SIM ladrões alienígenas que trazem os carros em discos voadores. MULDER: _ É isso que pensa de mim? SCULLY: _ (sorrindo) É uma boa maneira de juntar nossas teorias. MULDER: _ (levando na brincadeira) Poderia me dizer por que um povo que constrói discos voadores roubaria carros usados? SCULLY: _ Ora, Mulder, a resposta é óbvia: uma vez por mês, durante a lua nova, a nave-mãe vem recolher os carros que foram escondidos nas valas e os leva até Marte onde a colônia de humanos que foram abduzidos disputam no Bingo os prêmios contrabandeados. Você nunca se perguntou por que tantos carros nunca são encontrados (ela olha para ele candidamente)? MULDER: _ Eu nunca me perguntei como é que você pode ser tão cheia de graça por debaixo dessa máscara de seriedade. SCULLY: _ É porque você olha prá mim, mas não me vê (quando ela se deu conta já tinha falado). Ele responde de imediato: MULDER: _ Vejo o que você me mostra. SCULLY: _ Você vê o que você quer. Ela percebe que falou demais. Olha para o chão, mas Mulder não quer encerrar o assunto. MULDER: _ Não é verdade (ele caminha até ela). Eu sempre quero ver tudo sobre você. Saber tudo o que quiser me dizer. Só não me sinto no direito de invadir seu espaço, além do que já ocupo profissionalmente. O tanto que te devo me impede de pedir mais, de exigir qualquer coisa de você. Mas sempre fico à espera de migalhas que às vezes me deixam entrever um pouco mais de você. SCULLY: _ Parece que nos conhecemos tão bem no trabalho, mas, às vezes me pergunto se me reconheceria se soubesse quem realmente sou... MULDER: _ Sei que o trabalho exige uma postura de você e que a racionalidade faz parte do seu temperamento, mas sei que não é só isso. Sei que não há nada de frio ou insensível em você, muito pelo contrário, porque já me mostrou que existe um enorme coração aí dentro, que faz você querer resolver esse caso logo sem se importar qual teoria possa estar correta: a sua, a minha, a do xerife ou a do "ouro que anda", mas sim com o fim do sofrimento dessa família que aguarda seus entes queridos. Ela olha para ele sentindo-se calma e compreendida pela 1ª vez. Ele corre o dedo em seu rosto. MULDER: _ Eu sei, Scully, que você é assim. SCULLY: _(sorri) Eu sei que você também quer aliviar a dor e o sofrimento das pessoas e não está no FBI só para encontrar as respostas que procura. MULDER: _ (sorrindo e olhando nos olhos dela) Você vê, Scully, nós nos conhecemos muito bem porque nos reconhecemos um no outro. Durante alguns segundos eles mantém o olhar; por fim Scully abaixa a cabeça. SCULLY: _ Vamos, Mulder, vamos descobrir o que aconteceu com o sr. Carpenter e seu filho. Mulder respira fundo resignado, já esperava que Scully saísse pela tangente como sempre acontecia quando falavam sério sobre si mesmos. 12:27 PM Mulder e Scully descem um pequeno declive que leva a um segundo patamar na parte de trás do morro. Ali não há vegetação, apenas terra e folhas secas. As árvores em volta fecham o local como um círculo. Mulder abre um sorriso; o local parece obviamente o local de pouso de uma nave extraterrestre MULDER: _ Scully, (ele pergunta sem tirar o sorriso do rosto) isto não lhe parece familiar? Ela não responde. Ele procura por ela com um olhar triunfante. MULDER: _ Scully? Ele não a vê em parte alguma. Começa a preocupar-se. Grita o nome dela. Escuta um som abafado como resposta. Grita novamente e reconhece a voz dela numa resposta abafada, que não consegue localizar de onde vem. SCULLY: _ ... Mulder... estou aqui embaixo!... "Embaixo onde? Como pode estar embaixo?"- ele pensa e então olha à sua esquerda, um pouco mais adiante de onde vira Scully pela última vez; já dentro do círculo de terra e folhas avista um buraco. Aproxima-se e, ao chegar bem perto, quase ele é quem cai no buraco ao pisar e não encontrar apoio para os pés. Ele cai prá trás. Ouve a voz de Scully: SCULLY: _ Mulder, estou aqui embaixo! Então ele percebe que não pisara em terra e folhas e sim numa lona marrom coberta de terra e folhas. Com cuidado começa a puxá-la pelas bordas. Avista Scully no fundo. MULDER: _ Você está bem? SCULLY: _ Sim, acho que não quebrei nada. Mulder, está cheio de carros aqui embaixo! MULDER: _ Carros?! SCULLY: _ É, e todos em bom estado. Com exceção do retrovisor de um que eu quebrei quando caí. A cara de decepção de Mulder só não era maior porque havia encontrado sua parceira e constatado que ela estava bem. Ele começou lentamente a retirar toda a lona que cobria o enorme buraco de aproximadamente 5 metros de altura como um chão falso e havia por volta de uma dúzia de carros no local. MULDER: _ É, Scully, você tinha razão. Todos os bons carros roubados da região devem estar aqui. Nesse momento ele avistou um pequeno movimento do lado oposto ao que ele e Scully estavam. MULDER: _ Scully, abaixe-se! FBI, mãos ao alto! - Gritou Mulder de arma em punho. Com as mãos para cima, duas cabeças apareceram devagar por trás de um Ford marrom – Quem são vocês? SR. CARPENTER: _ Sou John Carpenter e esse é meu filho Johnny. Caímos aqui hás três dias. Pensei que vocês fossem da quadrilha de carros. Os Carpenters contaram aos agentes que viram luzes no alto do morro e resolveram de uma vez descobrir o que era, mas caíram no buraco e temiam serem descobertos e eliminados pelos assaltantes. Johnny disse ter ouvido um barulho semelhante ao de hélices baixo que ele supunha, como Scully, serem helicópteros silenciosos. Mulder ligou para a polícia do seu celular e logo uma equipe de resgate e salvamento estava lá, além de helicópteros do exército para a retirada dos carros. Pai e filho estavam bem apesar do frio e de uns poucos cortes e hematomas causados pela queda. Os irmãos Carpenters concordaram em contar à polícia sobre a quadrilha da qual sua mãe desconfiara e revelaram ter encontrado dinamite no rancho de um rapaz que conheciam e suspeitavam fazer parte da quadrilha. No fundo do buraco Scully achou vários cartuchos detonados. A polícia prendeu os suspeitos para interrogatório. No fim do dia ainda restavam 3 carros no fundo do buraco, mas como estava escurecendo e todos precisavam descansar, a polícia resolveu continuar com o resgate dos carros pela manhã. Scully, que havia passado a tarde inteira procurando sinais que pudessem identificar e incriminar os suspeitos, não via a hora de sair dali. Mulder, porém, inconformado com as supostas luzes que o sr. Carpenter alegara ter visto e com as declarações do velho de que "apesar de tudo, alguma coisa envolvendo discos voadores nesse morro tem", resolveu passar a noite no local para ver se encontrava o que na verdade estivera procurando. Apesar de contrariada, Scully decidiu permanecer com Mulder no local. A equipe de resgate deixou com eles alguns alimentos e cobertores e partiu para retornar pela manhã. 18:52 PM Enquanto lanchavam, Scully perguntou: SCULLY: _ O que acha que vai encontrar, Mulder? MULDER: _ Não sei exatamente mas, (aponta para o relógio de pulso digital, desses que têm vários incrementos) esse relógio está acusando radiação ligeiramente acima do nível normal desde que alcançamos o topo do morro. Scully começa a rir. SCULLY: _ Não acredito que você leva à sério um mecanismo tão sem precisão como esse, Mulder. Se houvesse radiação fora do normal por aqui, a equipe de resgate teria percebido e além do mais, o que poderia causar a radiação por aqui? Mulder responde meio ofendido. MULDER: _ A equipe de resgate não trouxe aparelhos apropriados para medir a radiação porque não esperavam encontrar nada aqui além de carros roubados. Sei que o relógio não é preciso, mas até hoje o mostrador nunca se alterou. Se justamente aqui, onde o sr. Carpenter afirma ter visto luzes e ter seus sentidos alterados, além de todos os relatos sobre o "ouro que anda" nessa região, então, justamente AQUI esse mostrador se altera pela 1ª vez, não custa checar até amanhã, afinal assim que o sol raiar e a equipe de resgate retornar terão acabado de vez as minhas chances de provar a teoria do sr. Carpenter de que a lenda do "ouro que anda" seja na verdade um fenômeno ufológico. Scully suspira. 10:13 PM A noite avança enquanto os dois, hora conversam, hora procuram o que fazer no meio daquele buraco; Scully examina vestígios dos chassis dos automóveis; Mulder ainda tenta avistar alguma prova de que as lendas do lugar possam ter fundamento. 01:17 AM Scully estava exausta. Após a meia-noite a temperatura começou a cair mais e mais. Há cerca de 40 minutos atrás Mulder parara de rodear o buraco inteiro, mapeando-o em busca de variações de radiação no mostrador do seu relógio de pulso. Ela sabia em seu interior, daquela forma que não sabia explicar como, mas apenas intuía em sua alma, aquilo que seu parceiro sentia. Ela sabia que ele havia desistido; não de sua crença, de forma alguma; mas havia reconhecido que daquela vez, naquele lugar, ele não tinha um ponto seguro para se basear, nem os meios necessários de averiguação. Talvez numa outra vez, ali mesmo em outra chance, ou em outra ocasião num outro lugar, ele tivesse maiores oportunidades de encontrar o que realmente estava procurando. Mas por agora... Mulder não era burro e até mesmo sua teimosia tinha limites quando esbarrava nos fatos concretos que ela tantas vezes lhe oferecia e que ele, como convidado em banquete desconhecido, num primeiro momento relutava em se servir, para depois, provado e aprovado o sabor, fartar-se sem medidas. Ele era assim, e agora, sentado no alto de um Renault tão negro quanto a noite em que estava mergulhado, ele olhava para as estrelas, se perguntando, talvez, ela imaginava, quando viria uma nova oportunidade. Aquela era a vida de seu parceiro, ela sabia disso e também da frustração que ele sentia em momentos como aquele e por isso, deixara de incomodá-lo com teorias desde que ele resolveu ficar ali naquele buraco uma noite toda. Ela estava ficando com muito frio e sonolenta e resolveu que o melhor a fazer era entrar num carro, se enrolar nos cobertores que a equipe de resgate deixara e dormir até o dia clarear. Ela escolheu o Mitsubishi vermelho que parecia espaçoso e confortável. Lá dentro descobriu que o aquecedor estava funcionando e logo o interior do carro ficou morno e agradável. Ela abaixou os banco e enrolou-se nos cobertores. Da janela ela podia avistar Mulder sentado em cima do Renault, no lado oposto do buraco ao que ela estava. Ele sequer a vira entrar no carro, tão absorto estava contemplando as estrelas. Às vezes essa indiferença de Mulder a magoava profundamente. Ela poderia ter saído daquele buraco há meia-hora e ele não teria percebido. Não notaria a sua ausência, ocupado demais com seu mundo interior. Olhando para o belo homem, da janela do Mitsubishi vermelho-vinho, Scully divagou novamente naqueles pensamentos que tinha todas as noites em sua cama antes de adormecer. Divagou sobre um futuro diferente para ela e seu parceiro, um futuro juntos, sem a indiferença de Mulder, sem as prioridades de sua busca, um futuro bonito nos seus sonhos... mas outra vez a divagação chegou ao fim como em todas as noites com a constatação da impossibilidade desse futuro. E mais uma vez adormeceu tristemente. 02:05 AM Olhando para a lua, o agente Mulder tinha em mente apenas pontos de interrogação. Por que Scully não percebia que tudo não passara de um pretexto para trazê-la até ali e dizer que a amava? Ou será que ela percebia e não acreditava? Ou pior, sabia e se fazia de desentendida para não ter de entrar a sério nesse assunto e desencorajá- lo de vez explicando que ele não era o tipo de homem com o qual ela se envolveria num relacionamento pessoal. Como ele poderia convencê-la do contrário se esse fosse o caso? O que fazer para conquistá- la; o que ele não havia percebido ainda sobre a personalidade dela que lhe permitiria desvendar os segredos dos seus caprichos? Fazer com que ela se enamorasse dele? Sendo uma cientista tão inteligente e o conhecendo tão bem, será que ela não percebera que a história do relógio era só uma desculpa para ficarem a sós? Ele vira ali a chance perfeita, estariam seguros, com 3 carros para os proteger, a quadrilha presa e a certeza do resgate na manhã seguinte. Com a mente trânquila pelo caso solucionado, cobertores para os aquecer, alimentos e a escada do resgate para sairem do buraco quando quiserem, Mulder achou que aquele poderia ser o cenário perfeito: os dois num carro tendo somente o luar para observar; eles poderiam conversar... ele conduziria o rumo da conversa para as suas vidas pessoais e, poderia , então, confessar seu amor por ela. Mas por mais que ensaiasse seus planos sempre davam errado, como já acontecera inúmeras vezes. Quando já se conheciam tempo suficiente para ela achá- lo, talvez, um pouco menos louco, ele ligou prá ela à noite perguntando o que ela vestia; achou que seria uma (in)direta bem clara sobre suas fantasias, mas ela parecia mais interessada em dar banho no cachorro. Lembra-se de ter tentado se envolver com a Bambi só para ver se causava ciúmes nela. Quando saiu de férias ligou para Scully tentando fazê-la entender que ele pensava nela não apenas por causa do trabalho, mas ela não perdeu tempo e se envolveu com o 1º maluco que apareceu. Aquilo doeu. Não gostava de se lembrar disso. Foram poucas as vezes em que ele teve motivo para sentir ciúmes de Scully, e ele dava graças a Deus por isso, pois sabia que se houvessem muitas ocasiões ele acabaria dando vexame. A 1ª vez que ele decidiu que se declararia de uma vez por todas foi no show da Cher. Tudo estava favorável, uma alegria contagiou a cidade inteira, mas... na hora que ele a puxou para si, tirando-a para dançar, a cara de espanto de Scully foi tão grande que ele achou melhor deixar para a próxima vez. E essas próximas vezes vêm se protelando sucessivamente: hora uma abelha assassina os interrompe, hora o comportamento de Scully não lhe dá coragem de prosseguir. Quando finalmente disse que a amava, ela simplesmente não acreditou. E se conseguiu beijá-la, foi somente em seus sonhos ou no ano- novo, quando existe uma desculpa socialmente aceita como tradição. Mas não era desses beijos que ele precisava. Não de beijos de nuvens de algodão e travesseiros, inocentes, infantis. Ele precisava beijá-la como um homem beija uma mulher, densa e intensamente, cheios de desejos e pecados dos quais ele orgulhosamente jamais se envergonharia, pois tudo o que sentia por Scully era justo, certo, bom, na exata medida das necessidades de sua alma por ela. A inteligência de Dana Scully domesticara sua mente rebelde, que antes só seguia seus próprios instintos, nem sempre corretos. Sua meiguice e ternura conquistara seu coração carente de amizade e confiança como nunca em sua vida pudera encontrar. E a atração que sentia por ela estava contida, duramente contida às custas de diários sacrifícios e resignação. Mas sob pressão ele vivia, em sua eterna ânsia por ela e, cedo ou tarde, tanto sentimento explodiria. Por isso ele tentara, mais uma vez, preparar o cenário ideal para a aguardada explosão. Em vão. Pois mais uma vez falhara, sem nenhuma explicação.