Aí está a 4a parte. Blinded by white light Parte 4 Feedback: agentkaren@arquivo-x.com XXXXXXXXXXXXX O metrô estava cheio. Ela sentou-se e ouviu uma voz melodiosa vindo do alto- falante "Cuidado, estamos fechando as portas. Próxima parada Binghanton Crossing" Ela observava as pessoas nos carros. Umas pareciam relaxadas e felizes conversando ou lendo, outras pareciam estressadas. Ela imaginava se ela parecia tão deprimida e arrasada como se sentia. Ela procurou na sua bolsa até que encontrou o diário. Que presente maravilhoso. Jóias e perfumes eram bons mas ela nunca recebera nada tão significativo quanto isso. Mulder tinha uma habilidade sobrenatural para conhece-la, para saber o que o coração dela precisava. Ela abriu a capa e tocou a fina página de papel. Não fazem mais papel como esse hoje. Tudo é eletrônico. Havia algo escrito na Segunda página. Ela fez um som tão estranho que o homem ao seu lado olhou-a curioso. A escrita estava em tinta preta. A letra era pequena e angular e ela sabia que era de Mulder mesmo nunca tendo visto a escrita dele. Com medo misturado a excitação ela leu o que estava escrito ali. Desejando. Eu desejo sua boca, sua voz seu cabelo. Silencioso e faminto eu rondo pelas ruas Pão não me alimenta, apenas me transtorna todos os dias. Eu procuro por seus passos. Eu estou faminto pela sua risada macia, Suas mãos da cor da colheita selvagem Faminto pelas sua pálidas unhas Eu quero devorar sua pele como a uma amêndoa. Eu quero comer os raios de sol que flutuam sobre seu corpo adorável, O seu nariz soberano na face arrogante, Eu quero comer a sombra fulgás dos seus cílios. E continuar faminto, sentindo o crepúsculo Procurando por você, pelo seu coração quente Como um puma no árido Quitratue. Pablo Neruda Não há razão, nem desculpa para o nosso amor, Dana mas está inegavelmente aqui. Nós fizemos nossa escolha, pretendemos honrá-la. Mas isso não muda como me sinto e suspeito que o mesmo vale para você. A noite que passamos juntos irá continuar brilhando ma minha memória pelo resto da minha vida. Com amor, M. Fevereiro,2004. Ela terminou de ler o poema, fechou o livro e olhou para cima fixando os olhos no túnel de concreto por onde passavam depressa. "O nariz soberano na sua face arrogante" ela sorriu tocando seu nariz. Mulder, eu não sabia que estava tão solitária até te encontrar. "Estamos nos aproximando de Morningside Heights. Por favor, ande cuidadosamente sobre a plataforma." A brilhante e cheia estação do metrô a sobressaltou os sentidos quando deixou o trem. Ela esbarrou num senhor e depois em um a lata de lixo. Eu tenho que sair daqui. Ela andou o mais rápido que podia passando pela multidão de pessoas e crianças. Quando chegou a escada, sentiu uma onda de náusea a invadir, pontos brilhantes na sua vista. Não. De novo não. Ela correu para chegar ao banheiro a tempo. Era tarde demais. Ela provocou numa lixeira próxima ao banheiro. A vergonha tomou conta dela quando via os passantes a olharem. Ao levantar a cabeça da lata, viu um rosto familiar. "Merda" Evan gritou "Você está bem, Dana?" ela balançou a cabeça negativamente enquanto a enxaqueca aumentava. Ele a conduziu até uma cadeira e disse "Eu volto já." Dana tentava respirar fundo de olhos fechados enquanto a dor tomava conta dela. Evan voltou com uns guardanapos de papel e uma garrafa de água. Ela pegou a garrafa e tentou abrir mas seus dedos fracos não conseguiram. Ela gritou em frustração. Seu salvador removeu a tampa e devolveu a garrafa para ela. Ela tomou um longo gole querendo livrar-se do gosto do vômito presente na sua boca. "Você comeu algo que lhe fez mal?" ela negou e viu que Evan estava diferente da última vez que o vira. O cabelo dele era de estilo afro vermelho com vários fios e tranças. "Uma enxaqueca" ela sacudiu os ombros "Acontece algumas vezes." "Vou levá-la para casa." dizendo isso ajudou-a a se levantar. Os dois quarteirões até o apartamento parecia uma eternidade. Seu estômago doía e sua cabeça latejava. Evan acompanhava seus passos com os braços ao redor dela para apoiá-la. No elevador, ela encostou-se na parede e quase implorou para não ouvir a música clássica que tocava no ambiente. Ele a levou até a porta do apartamento "Espero que fique bem logo". "Obrigada por me socorrer" ela disse apertando a mão dele e beijando-o no rosto só para ver a expressão embaraçada dele. "Eu ainda não tive tempo de procurar por seu amigo. Vou fazer isso assim que possível" "Não se preocupe" Mulder se foi agora. Ela nunca mais o veria. O que aconteceu no seu escritório hoje deixou isso bem claro. A porta se abriu e John apareceu já vestido com suas roupas de casa. Ele empalideceu ao ver Dana "Você está bem?" Antes de responder, ela sentiu a náusea aparecer de novo e correu para o banheiro. No caminho, ouviu Evan explicando sobre a enxaqueca e o ocorrido na estação do metrô. Ela saiu do banheiro com seu Migranex nas mãos. "outra, hein? Quando foi a última? John perguntou com Julia pendurada nas suas costas. "Há alguns dias atrás" ela tirou a blusa e jogou no chão. Normalmente ela colocaria a roupa no cesto mas a dor era tanta que não se importava. John deu a ela um pijama. "Prometa que vai procurar seu médico pela manhã." Ele beijou a cabeça dela e ela concordou. "Descanse um pouco. Vou tentar manter Julia calma e ocupada." "A mamãe está doente? Julia perguntou. "Só um pouquinho. Vamos fazer algumas quesadillas?" depois de se trocar ela foi para a cama sentindo as drogas tomarem conta dela mas não diminuíam a dor. Sua cabeça parecia querer partir-se em mil pedaços. Respire, apenas respire. Dor, dor vá embora, volte outro dia. Chuva, chuva, vá embora e volte outro dia. Chuva, chuva, vá embora e volte outro dia. Missy e eu costumávamos cantar essa música no caminho da escola para casa. Nós gostávamos de pisar nas poças d'água até ficarmos com nossas calças ensopadas. Mamãe ficava louca mas era tão bom poder pular e deixar Missy toda encharcada e ela fazia o mesmo comigo. Chuva deslizando pelas janelas enquanto eu me enrolava no sofá, um resto de fogo na lareira, tentando ler através da dor. Esperando que as drogas fizessem efeito. Posso contar meu segredo? Na minha bolsa, há um compartimento fechado onde guardo um saco plástico com 75 pílulas para dor. Esse é meu segredo de estado. Eu não posso contar a ninguém. Quando a dor se intensificar e eu não puder mais agüentar, pego a bolsa e vou para um hotel. Me registro, pego um bom copo de vinho e uma a uma as engulo. Eu só farei isso se for necessário. Eu preciso morrer com dignidade. Eu até já escrevi minha carta para você. Deus irá me perdoar, eu sei. Eu não acredito que ele queira que eu sofra até o fim, fique cega, perca minhas funções motoras, me torne uma inútil presa a uma cama enquanto o invasor me devora por dentro. Deus não pode ser tão cruel. Eu lutarei até o fim, mas no momento em que a batalha estiver perdida, eu desistirei. Será que é como dormir? Fique comigo hoje à noite, fique comigo. De manhã você pode ir para o seu quarto e desfazer a cama como se tivesse dormido lá. Eu sei que é contra algumas regras mas fique comigo. Hey, Scully você sabia que beijar em romeno, a linguagem dos ciganos, literalmente significa comer? Se eles querem dizer 'Eu quero te beijar' eles dizem 'Eu quero comer sua face?' Eu precisava saber disso? Você sabe que fala quando dorme? Pai, o senhor nunca o conheceu, eu queria que você tivesse. Eu sei que você desaprovou minha última escolha, o rumo que decidi seguir, mas sei que você se orgulharia de mim de alguma forma. E acho que você teria aprendido a gostar dele. Ele não é nada parecido com você, mas tem a mesma força de espírito e ele me ama. Ele me ama de um jeito que Jack e Ethan nunca conseguiram, com total rendição. E eu o amo completamente observando você e a mamãe durante todos aqueles anos ensinando-me que algo assim é possível. Não é possível, não posso acreditar. O mundo não vai acabar. Elesestãovindo,elesestãovindo,elesestãovindo... Levante, levante, nós temos que correr. Temos que pegar alguns suprimentos e nos esconder e fazer o possível para sobreviver. Dois dias e duas noites e tudo termina. Você se lembra quando fugimos daquela vez? Um fim de semana em NY, desconhecidos alegres na multidão, ignorando casos pendentes comendo em bistrôs como Choucroute, bebendo muito vinho e como voltávamos cambaleando para o nosso quarto no Plaza para fazer amor. O cheiro do nosso quarto ao pedirmos rosas e café e jornal depois de acordar misturado com nosso suor e nosso amor nos lençóis. Voc6e se lembra? Eu me lembro. Perdoe-me, Pai, eu pequei. Já fazem cinco anos desde minha última confissão. Eu cometi o pecado do adultério. Eu me apaixonei por um homem que não é meu marido. Eu pequei porque eu o amo. Ele quer saber meus segredos e eu os dele. Se eu te contasse, John, você me ouviria? Porque você não pode entender que eu preciso me lembrar? Diga o ato de contrição e uma década de terços, Dana. Peça o perdão de Deus. Eu não sei se quero ser perdoada. Não sei se preciso ser perdoada. Nós ficaremos juntos na outra vida, eu prometo. Eu quero acreditar, Scully. Eu olho para a terra arruinada abaixo de mim e me pergunto porque custei tanto a acreditar. Quando acordo, estou tossindo. Eu quero que minha mãe venha até minha cama com uma colher de xarope e um bolsa de água quente. Eu quero a sopa dela de macarrão e galinha e a mão quente dela na minha testa. Não esta noite, Scully. Não há tempo. Vamos apenas nos manter aquecidos, por favor, mais uma noite, quero ver outra manhã com você. Abaixe a arma. Abaixe a arma, você é mais forte que isso. Desgraçado! Eu bato minha mão sobre a mesa com tanta força que sinto que quebrei um pequeno osso, mas a concentração deles não se dissipa. Eles estão focalizados na morte. Não se deixe ser levado, você é mais forte que isso. Oh, Deus você pode ouvir? Pode sentir isso? A terra está tremendo abaixo de nós. Segure minha mão, é isso. Eu sempre soube que morreríamos juntos. Fortes como somos, um não poderia sobreviver sem o outro. Você pode imaginar algo assim? Está chegando. Antes foi apenas um ensaio. Um ato de vandalismo. Isso é real. Nós estaremos juntos na próxima vida. Olhe, o céu, que bonito. É adorável... Segure minha mão. É isso. Nós chegamos ao fim. Parece tão íntimo. Nós terminamos juntos. A luz no seu rosto acordou Dana e ela sentiu a mão de John na sua bochecha. O que? Ela murmurou, a dor continuava na sua cabeça. "Levante-se amor, nós temos que levá-la ao médico." Ele disse com uma voz gentil. Ela balançando a cabeça como uma criança teimosa "Eu não preciso de um médico, eu sou ..." Ele a interrompeu "Você está sangrando" Ela elevou a mão ao rosto instintivamente ao seu nariz. Ao afastá-la, viu o sangue vermelho espalhado por ela. XXXXXXXXXXXXXXX Mais tarde, Dana seria incapaz de lembrar da sua viagem até a clínica de emergência. Ela apenas tinha imagens dispersas de pressionar alguns lenços sobre o nariz e tentar respirar constantemente apesar da dor insistente. Ela nem se lembrava se John e Julia estavam no carro. As coisas clarearam quando chegaram a clínica. Na sala de espera quase vazia, o enfermeiro lhe disse após um breve exame que a espera seria longa "Desculpe" ele disse pressionando seu ombro desculpando-se "mas nossa equipe está reduzida hoje e temos um ataque cardíaco, um caso de queimadura e uma overdose de drogas." Eles sentaram-se. John segurava Julia adormecida em duas cadeiras. Sua cabecinha sobre o travesseiro que o enfermeiro lhe dera. Passava das quatro da manhã e John não quis acordar nenhum dos seus amigos para ficar com Julia. Dana estava meia lerda, sentada vestida em seu pijama, ela fazia uma bola com os lenços. O sangramento parou. Não fora uma grande quantidade de sangue, apenas gotas vagarosas pingaram ao longo do caminho até a clínica. Dana não sabia porque esse sangramento a aterrorizava. Ela era médica, estava acostumada a ver sangue todo o tempo. Admita, você é uma pesquisadora, não envolvida com o cuidado direto a pacientes mas ela se lembrava de uma época que praticava patologia forense e estava sempre em contato com a morte. A dor diminuíra e ela podia pensar novamente. Mesmo que a sala de espera tivesse sido projetada para ser um ambiente calmo com um aquário, alguns brinquedos para crianças, cadeiras confortáveis em azul royal, Dana a achou depressiva. Havia um casal no canto da sala, de mãos dadas, um grito de dor ecoou no corredor e sentiu o cheiro de desinfetante hospitalar. John pediu licença e foi dar alguns telefonemas. A manhã iria ser longa na clínica e ele precisava fazer planos para Julia e rearranjar alguns compromissos. Ela imaginava se tinha ocorrido a John que este fora o lugar onde ela estivera quando sofreu os seus dois abortos. Ambas as vezes ela estava no trabalho e de repente sofrera hemorragias e foi trazida de ambulância para uma pequena sala onde o médico lhe dizia que não poderia salvar a criança. Dana acariciou o cabelo de Julia, sua sobrevivente, a única que suportou até o fim, sendo trazida ao mundo chorando devido o impacto do ar frio da sala de operação. Pelas portas de vidro, ela esperava um táxi após o seu segundo aborto, John ao seu lado. Pálida e fraca, ela entrou no carro sentindo-se fracassada por não conseguir segurar esse bebê mais uma vez. "Vai ficar tudo bem, Dana" John dizia e sorria "Nós tentaremos novamente" Tentar novamente? Ela teve que se controlar para não gritar com ele. Ela não faria isso de novo. Não deitaria numa mesa em uma sala de emergência enquanto um residente de ginecologia e obstetrícia retirava o resto do seu bebê do seu útero. Nunca mais. Seis meses depois ela estava na clínica de fertilidade para tomar outra injeção intravenosa. "Dana Scully?" Ela olhou e viu a Dra. Rebecca Hausen, a mesma que a viu passar por dois abortos e quem lhe deu as más notícias da melhor maneira possível. Será que lembrava-se dela? Ela disse "Engraçado encontrá-la aqui. Eu entendo que esteja passando por uma péssima enxaqueca." "Sim" ela disse levantando-se rápido demais que pensou que iria desmaiar. "cuidado" a médica disse segurando-a pelo braço. John voltou e sentou-se ao lado de Julia acenando para Dana. "Ela é linda" Rebecca disse com um sorriso "Fico feliz que tenha dado certo com você" Na sala de exame, a médica olhou o registro médico de Dana pelo computador e fez um exame rápido e profundo. Atualizando a ficha dela perguntou "O que você comeu ontem?" Dana esforçou-se para lembrar "Comi algumas torradas e um iogurte no café. Não almocei. Estava trabalhando e esqueci de almoçar." "E o que você bebeu?" "Hum... vejamos...uma xícara de chá inglês pela manhã e café." A médica levantou a sobrancelha "Quanto de café?" "Eu não me lembro" Dana encolheu os ombros, incapaz de lembrar a quantidade "umas quatro ou cinco xícaras talvez" "Dana" Rebecca disse suspirando "você é médica. Deveria saber que com o seu histórico de enxaquecas você pode tomar no máximo duas xícaras de café se estiver alimentando-se corretamente." "eu tenho andado muito ocupada. Precisava da energia." "Bem, sua saúde é mais importante. Você disse que seu Migranex não ajudou muito dessa vez?" "Eu tomei duas doses, mas a dor era constante mesmo depois de tomá-las. Eu dormi um pouco mas minha cabeça continua doendo." "Resistência ao Migranex já foi documentada em algumas revistas. Há uma nova droga, Madonex. Ela está sendo um sucesso nos casos mais severos de enxaqueca. Vou lhe dar uma dose mas somente depois de uma intravenosa. Você está muito desidratada." Ela estava com medo de perguntar, mas tinha que saber "E o sangramento no nariz?" "Sangramentos no nariz não são comuns em casos de enxaqueca, mas podem ocorrer. Um pressão maior nos seus vasos capilares...Vejo pela sua ficha que o Dr. Young nunca fez uma tomografia. Faz idéia porque? "Ele disse que a minha enxaqueca era tão comum que não valia a pena me expor a testes." Dra Haglen riu "A medicina social, mas eu provavelmente teria feito o mesmo. Sou capaz de apostar meu pagamento da semana que a sua enxaqueca foi causada por consumo exagerado de café, pouco sono e stress." Stress era uma palavra para definir a última semana na vida de Dana. "Eu vou providenciar para que a enfermeira venha aplicar a intravenosa e você irá descansar por mais de uma hora enquanto se reidrata. Depois, iremos para o andar de cima realizar o teste. Eu não quero lhe dar nenhum anestésico pois ele a deixara sonolenta. Acha que pode suportar a dor um pouco mais?" "Já não está tão ruim quanto antes." "Ótimo" Rebecca disse e saiu da sala. Dana estava deitada na cama e ao redor ouvia os barulhos da clínica. As gotas de soro entrando pela sua veia na mão esquerda, o bipe dos monitores e o sistema de altofalantes anunciando "Dr. Patel apresente-se na radiologia. Dr. Patel na radiologia. Quanto mais ficava ansiosa, a dor aumentava. Ela tentava se controlar. Respire devagar, calmamente dizia a si mesma. Ela tentou se lembrar do confuso sonho que teve esta noite mas estava além do seu alcance, como a letra de uma velha canção que se lembrava parcialmente. Pense em algo bom, ela disse a si mesma, uma lembrança agradável não fragmentos que provoquem sofrimento. Dana fechou os olhos esperando por algo bom. Pela primeira vez, funcionou. Ela respirou fundo e se lembrou. Os pratos estavam na lava-louças, os restos do peru e das outras coisas guardadas em vasilhas de tupperware. Tara e Sally colocaram os seus casacos e foram dar uma volta no quarteirão e fofocar um pouco. Os homens pegaram seus pedaços de torta e foram para a sala assistir o jogo. A julgar pela gritaria, os Redskins estavam ganhando. A mãe dela trouxe a garrafa de Bayle's e colocou um pouco no café delas. Estavam sentadas na grande mesa da cozinha, o lugar de tantas refeições na infância. Maggie olhou-a de um jeito que dizia a Dana que elas teriam uma conversa séria. "Fale-me sobre ele." Sua mãe disse tomando um pouco do café. Ela sorriu "Eu já falei" "Querida, anunciar a novidade que vocês agora formam um casal cinco segundos depois de chegar não é a mesma coisa que falar dele para mim" Ela percebeu como a mãe dela estava bonita no seu vestido azul safira, seu cabelo ondulado. Durante aqueles anos horríveis quando Melissa e seu pai morreram, Dana foi seqüestrada e esteve muito doente, Maggie adquiriu um olhar assustado e cansado. Agora seu rosto está brilhante e bonito, ela está contente por estar cercada pelas pessoas que ela ama no dia de Ação de Graças. Dana cortava uma fatia de torta de maçã "O que você quer saber, mãe? Você conhece ele quase pelo mesmo tempo que eu." "Claro que o conheço, eu gosto dele. Mas quase toda vez que estive com ele foram momentos de crise. Eu quero saber como ele é com você agora que estão juntos?" ganhando tempo comendo a torta, Dana pensava no que dizer a sua mãe. Ela não queria dizer a mãe como acordara na manhã seguinte na Vineyard depois da primeira noite deles juntos. Sua cabeça sobre o peito dele sentindo o cheiro dele após a noite em que fizeram amor, percebendo que ela sempre soubera como seria esse cheiro. Não queria dizer à mãe como poderiam ser tão carinhosos um com o outro. Era muito pessoal. Dana descobriu que por trás do cinismo deles cada um tinha uma profunda admiração e respeito pelo outro. Ela não queria dizer o quanto se sentis viva nesse último mês. Ela se viu vestindo roupas mais claras, usando sapato alto, cantando no caminho para o trabalho canções dos anos 80. De alguma maneira, ela sentia que tinha mais energia para continuar a luta. Ela não queria contar que aprendera que ser a mulher dele não afetara a parceria deles. Ela estava preocupada com isso, destruir o yin e yang que fazia da sua parceria um sucesso. Principalmente, ela não queria dizer que mesmo estando felicíssima com a união deles, ela tinha medo de que sofressem mais tarde as conseqüências do fato. Ela aprendera que a felicidade é passageira. "Eu não sei o que dizer, mãe" ela finalmente respondeu brincando com a colher "Eu só estou feliz com ele. É tudo" "Bem, como mãe, é meu dever perguntar vocês planejam um casamento próximo?" ela reclamou "Mãe, nós nem discutimos isso. Quer dizer, falamos mas nada concreto. Nós temos tanto por fazer, tanto a aprender, antes de dar esse passo importante." "Você já não é tão novinha assim, querida." Ela revirou os olhos como uma adolescente teimosa. "Eu quero vê-la na frente do padre McCue com o meu véu. Eu sonho com isso desde que você e Missy nasceram." Dana tocou a mão da sua mãe "Eu sei, mãe. Mas não sei se isso irá acontecer. Primeiro, ele não é católico. E depois, eu acho que ficaria meio ridículo para uma mulher na minha idade vestir um véu. Eu tenho 30 anos, não sou uma virgem de 20." Maggie elevou a mão "Eu não preciso ouvir isso, Dana" Dana admirou-se "Mãe, você dificilmente podia pensar que...." "Uma mãe sempre tem esperança" ela disse pegando nas mãos de Dana. Então sua mãe a surpreendeu "Porém, ele é um homem muito charmoso, se eu fosse você eu provavelmente não resistiria também" Ela tinha que rir, pensando que no fim foi ela que tomou a iniciativa. Foi ela que o beijou na praia e guiou-o até a casa e até o quarto sussurrando ao ouvido dele que o queria agora, aqui, dentro dela. Ela podia até se esforçar e ouvir o som da cama quando eles moviam-se juntos. "Você é terrível" ela disse ainda rindo. Por fim, sentiu que elas não eram mais mãe e filha e sim, duas mulheres que eram amigas. Maggie apertou a mão dela e sorriu. Dana abriu os olhos e enxugou as pequenas lágrimas do rosto. Sua mãe. Ela podia ver sua mãe agora, o rosto adorável de Maggie. Ela podia ver os olhos de Maggie através do rosto de Julia. Parecia um presente raro e precioso. Ela ainda não se lembrava do rosto ou do nome do seu amante, mas por um momento mesmo com a dor ela buscou o amor que compartilharam e o amor que sentia pela sua mãe. Agora, ela tinha uma história para contar a Julia sobre sua avó. Uma enfermeira entrou "Nós vamos desamarra-la e levá-la para o andar de cima." Quando passava pela sala de espera, viu John dormindo e Julia não estava mais lá. Meghan deve Ter vindo apanhá-la para levá-la a creche. Dana deitou-se no tubo, prendendo a respiração enquanto lutava contra a claustrofobia. Nos últimos anos, ela foi submetida a vários tipos de procedimentos e testes, mas nenhum deles provocou tanto medo nela como esse. Meu cérebro, meu cérebro, pensou, que diabos está acontecendo com o meu cérebro? O maquinário fez um barulho e começou a funcionar. O coração dela disparou. Por favor, que não seja câncer, que não seja um tumor. Porque estou pensando em câncer no cérebro agora? O exame terminou e ela saiu do tubo suspirando de alívio. Dana estava sentada no mesmo quarto quando alguém trouxe uma bandeja com um copo grande de suco de maçã e uma tigela de aveia "A dra. Hagen quer que você coma." Ela comeu vagarosamente, o ato de mastigar doía a sua cabeça. Ao terminar o café, a doutora voltou e puxou no computador as fotos em 3D da cabeça de Dana. Dana endireitou-se para ver a tela mas sem os seus óculos ou as lentes ela não podia ver todos os detalhes. Rebecca sentou-se "Tudo parece bem, Dana. Eu não vi nenhum crescimento anormal que justificasse o sangramento ou a enxaqueca." O alívio percorreu todo o seu corpo. "Mas eu encontrei algo interessante." Ela deu alguns clics para mostrar o pescoço de Dana A sensação de alívio subitamente desapareceu. A doutora apontou para a base do crânio de Dana na junção da cabeça e do pescoço. Ela não podia enxergar o que a doutora apontava. "Há um corpo estranho pequeno bem aqui." "Um corpo estranho?" "Parece ser metálico, a julgar pela ressonância. Eu não acho que seja algo com que se preocupar. Provavelmente é algum detrito resultante da luta pela sobrevivência contra os invasores. Eu já vi coisas em pacientes que nem eles desconfiavam que podiam Ter." Elevando a mão a nuca "Você acha que pode ser removido?" "Não é má idéia" ela disse " mas não hoje. Você já sofreu demais por um dia. Eu sugiro que consulte seu médico e cuide disso depois." Dana suspirou. Ela ficaria bem. "Como está o mau estar agora?" "Está melhor, mas ainda dói." Rebecca foi até o armário e tirou uma caixa pequena "Magonex é um inalador. Quero que você tome apenas uma dose. É muito forte." Dana inalou. O gosto era pior que o outro remédio. A médica tinha uma expressão séria no rosto "Dana, eu sei que você é médica e sabe tudo o que eu vou dizer a você mas eu acho que médicos inclusive eu, são os piores pacientes" Ela riu admitindo ser verdade. "uma enxaqueca geralmente é o seu corpo dizendo que está sobre um grande stress. Você precisa dormir mais, comer melhor e reduzir seu nível de stress. Não me importo se você vai correr, fazer yoga, uma massagem semanal, mas você tem que se cuidar." "Eu irei" Dana disse. "Agora, vá pra casa e durma um pouco. Eu não quero que trabalhe amanhã." "Mas eu tenho...." "Eu não quero ouvir isso. Qualquer compromisso que tiver, cancele. Você trabalha com médicos, eles entenderão. Passe o dia na banheira ou deitada no sofá lendo" Dana ficou tão grogue que a médica teve que puxar uma cadeira de rodas para ela. Na sala de espera, ela abriu um largo sorriso para John que estava bebendo café. Ele beijou-a na bochecha e perguntou "Você vai ficar bem?" "Eu estou bem" respondeu. Quando o táxi parou, ela inclinou-se para ele. Ele tocou-a na bochecha "Por que você está sorrindo? São as drogas?" Os olhos dela já estavam fechando "Eu me lembrei da minha mãe, John. Eu fecho os olhos e vejo o rosto dela." John apenas disse "Oh" Ela adormeceu no carro e a última coisa que se lembrava era de acordar em casa na sua cama. Eram 6 da noite e já estava escuro. A dor desapareceu. Ela queria festejar por estar livre da dor e sentir-se bem sem nenhum efeito colateral das drogas. Estava aliviada e faminta. Ela tomou um banho e depois de estar vestida com um velho jeans e uma camisa de gola alta preta, dirigiu-se para a cozinha e devorou um iogurte, um pouco da pasta que sobrara e bebeu um quarto do suco de frutas da Julia. O apartamento estava silencioso e ela se perguntava onde estariam John e Julia. Ela dirigiu-se para a sala e ouviu uma pequena tosse. Dana procurou pelo interruptor de luz e assustou-se ao ver John sentado no sofá. Examinando seu rosto viu que tinha a barba por fazer e seus olhos estavam vermelhos. No colo dele, o diário que Mulder lhe dera de aniversário. Ela esquecera de respirar. Ele levantou a cabeça e olhou-a diretamente nos olhos. Quando finalmente falou, sua voz era calma mas tinha um misto de raiva e dor. "Quem é ele, Dana?" XXXXXXXXXXXXXXX Era uma vez uma mulher chamada Dana que estava parada na frente do espelho no dia do seu casamento. Ela deu um passo para trás a fim de se ver melhor através do vidro. Dos seus sapatos finos ao majestoso vestido longo e branco e dos brincos de pérola, ela era uma linda noiva. Radiante. Ela não tinha porque não achar que seu casamento seria perfeito. Ela acreditava no casamento com a mesma certeza de que a Terra era redonda e girava ao redor do sol. Naquele dia, Dana acreditava em palavras como amor, honra, cuidar e para sempre. Dana acreditava em contos de fadas. John Rosen era seu príncipe e ela sua princesa e o casamento deles duraria. Eles seriam felizes para sempre. Sim, naquele dia ela acreditava em todas essas coisas. Parecia tão simples. Eles se conheceram e escolheram-se um ao outro literalmente em um salão repleto de pessoas. A primeira vez que ela beijou John pensou "Agora eu não precisarei ficar mais sozinha". O profundo vazio que sentira desde que acordara naquela Clínica num mundo totalmente novo seria substituído pela vontade de pertencer a alguém. Ela não acordaria no meio da noite, procurando por ar e se perguntando quem era ela afinal. Uma vez, ela acreditara em contos de fadas. Ela sentou-se na cadeira atrás dela, sentia cada músculo do corpo desfalecer. Apenas um barulho irritante no seu cérebro- oh não, oh não, oh não... "O que você está fazendo com isso?" ela disse olhando para a sua mão diretamente para a aliança de ouro no seu dedo. Os olhos de John brilhavam quando ele colocou aquela aliança no dedo dela. "Com este anel, eu te desposo." Ele dissera com uma voz alegre. Ele tocou o diário "Eu fui até sua bolsa pegar o Madorex no caso de você precisar." Ela não podia pensar em nada para dizer. Não podia ficar com raiva por ele invadir sua privacidade. "Quem é ele?" ele disse novamente, sua voz quase um suspiro. Dana não podia, não iria olhar para ele. Ela não queria ver a expressão nua de dor e confusão no rosto dele. Sim, confusão. Nunca ocorrera a John que ela poderia perder-se. "Por favor Dana. Eu tenho que saber." Não, você não tem. Nós precisamos revirar essa fita e apagar os últimos cinco minutos e continuar. Com o tempo, eu esquecerei Mulder e viveremos nossa vida como antes. Nós podemos dar um irmão ou irmã para Julia e vê- los crescer e prosperar. Mas você não quer saber, John. Ele tinha que saber, pensou, Dana entendia isso. Se a situação fosse ao contrário, ela gostaria de saber. John precisava saber a dolorosa verdade. Levou um tempo até ela achar sua voz que saía instável "Você não o conhece. Eu o conheci logo depois que você partiu." "Foi rápido.." Ela balançou a cabeça afirmativamente. "Claro, é assim que você age, não é? Quero dizer, também não demorou muito comigo." Dana deixou suas mãos descansarem no seu colo. Ele não queria realmente dizer aquilo, ela pensou. Era a sua raiva que falava e ele tinha o direito de expressá-la. Dessa vez, a voz de John estava mais branda "Por quê?" "Eu não sei." Ela balançou a cabeça. Dana ouvira ele bater seu pé no carpete. Ela ouvira ele dizer "Eu não sei" repentino suas palavras. "Isso é tudo que você tem a dizer sobre porque você me traiu e ao nosso casamento?" Ela olhou. Ele estava de costas parado na janela observando as luzes da cidade. Sua boca estava seca "John" ela disse "Eu não tenho uma boa razão para explicar. Eu o conheci e foi tão...poderoso. Eu nunca senti nada assim antes." Quando ele virou-se ela capturou a expressão no rosto dele e desejou Ter escolhido as palavras de maneira mais sensata. "Nunca, uh? Você o ama ou foi apenas um lance? " Mentir seria tão fácil. Ela poderia dizer que fora apenas um caso conseqüência de uma noite que bebera demais. Eles poderiam sobreviver a isso mais ou menos intactos. Levaria algum tempo até que John a perdoasse, mas ele a perdoaria. Mas amar outro homem, isso é imperdoável. Mentir ou não, essa é a questão... Dana estava cansada de desonestidade, cansada do gosto das mentiras que diria a John na sua boca. Ela o olhou. Seus olhos se encontraram. Eu costumava adorar esses olhos castanhos incondicionalmente, pensou. "Sim" seu coração acelerado "Eu o amo". A expressão "ele parecia arrasado" ela ouvira algumas vezes mas nunca vira alguém parecer arrasado até dizer ao seu marido que amava outro homem. Sua linda face estava branca e viu seus ombros cederem às suas palavras. Ele sentou-se, pasmo como se tivesse recebido um golpe na cabeça. Foi a vez de John olhar para suas mãos "Por que, Dana? Eu tentei tanto te fazer feliz. Ser o melhor marido que você pudesse querer." "Eu sei disso" ela disse docemente. A voz dele estava forte novamente " Então, por que você ama outra pessoa? O que ele te dá que eu não posso de dar?" Dana voltou a ouvir as palavras que Mulder dissera naquele quarto de hotel. "Antes" ela disse "Ele me dá o Antes." John desesperou-se "Oh, Deus. Então é por isso? Tudo isso! Porque eu não quero voltar ao passado?" Dana pensou nas palavras antes de dizê-las "John, eu amei por 35 anos antes de te conhecer. Eu tinha uma vida- uma família, uma carreira, um homem que eu amava. Eu quero saber quem eu era. Não quero ser uma lousa limpa." Ele assentiu, digerindo as palavras dela. "Talvez você apenas consiga continuar, mas eu não posso. Eu pensei que era egoísta por Ter a necessidade de saber do passado, mas não mais. Eu acho que é saudável querer minhas lembranças." "E...esse outro homem sente-se do mesmo modo?" "Sim" "Se eu pudesse conversar sobre isso, eu o faria. Mas, eu não quero saber. Eu só quero continuar em frente." Esse é o nosso defeito fatal, ela pensou. "Eu sei o que você quer, mas eu não posso. Ontem, eu tive uma lembrança maravilhosa da minha mãe. Eu fiquei tão feliz porque um dia eu contaria a Julia quem era sua avó. Ela merece saber quem ela é, de onde ela veio." John nada disse, apenas sentou-se no sofá como uma concha olhando para o nada. Ela sentiu-se desesperada pelas palavras que consertariam isso. Que cobririam a ferida e tornariam tudo certo novamente. Mas, ela sabia que tais palavras não existiam. Algumas lágrimas rolavam pelo seu rosto mas ela as enxugou "Eu não o verei mais." Ela sussurrou "Eu quero recomeçar. Sei que você está furioso comigo que fiz algo terrível, e o que é pior eu sinto muito. Mas escolhi ficar e tentar mais uma vez." John continuava sem dizer nada. "Eu te amo" ela disse "Eu te amo e não quero que nosso casamento acabe. Nós temos uma filha. Temos tantos anos, tantas lembranças juntos." Ele se levantou do sofá "E se eu não quiser ser seu prêmio de consolação, Dana?" "Tudo que eu tiver que fazer para dar certo novamente, eu farei." "Eu não posso pensar sobre isso agora" ele pegou a carteira que estava sobre a mesa e colocou no bolso da calça "ë muita coisa para lidar de uma vez" ele virou-se em direção à porta. "Aonde você vai?" ela disse alarmada "Nós temos que falar sobre isso." "Eu preciso pensar" ele disse "Eu vou dar uma volta, pegar Julia na casa do Mike e da Jodie e levá-la para jantar". Ela ficou parada no meio da sala lutando contra a vontade assustadora de implorar para ele ficar. "Apenas lembre-se que eu te amo" ela disse. Ele assentiu e saiu. Ela sabia que ele não queria fazer aquilo mas bateu a porta com força quando saiu. XXXXXXXXXXXXXXX Ela tinha que sair dali. Tudo naquele apartamento era demais para ela. As fotos da vida deles juntos a faziam lembrar do fracasso que ela era, da esposa terrível que se transformara. As paredes pareciam fechar-se para esmagá-la. Assim que saiu para o corredor, Dana percebeu que não tinha para onde ir. Seus amigos, mesmo Meghan não entenderiam o que ela tinha feito. Ela não podia ver Mulder. Estava completamente sozinha. Ela encostou-se na porta e fechou os olhos. Sua respiração forte tentando não chorar. Mas as lágrimas vinham mesmo assim, partindo-a enquanto esfregava os olhos e escorregava com a força do seu choro. Se ela ainda acreditasse em Deus, ela teria rezado nesse momento. Mas era difícil acreditar no poder superior depois que o mundo acabara. Ela ouviu a porta do outro lado do corredor abrir-se e uma música barulhenta. Parecia que tentava estrangular um gato ao mesmo tempo que batiam em latas de lixo de alumínio com bastões de baseball. A voz de Evan era doce ao tocar seu ombro "Dana, você está bem?" Meu cavaleiro de armadura brilhante ela pensou enquanto chorava. Ela sacudiu a cabeça. "Outra enxaqueca?" ela sacudiu a cabeça novamente, incapaz de formar uma frase coerente. Ele a tomou pela mão e guiou-a até o seu apartamento "O que estiver errado, podemos consertar." Ela enxugou os olhos e sorriu. Ela sempre pensara em Evan como um doce mas imaturo garoto. Agora ela percebeu que ele era um homem verdadeiramente forte. Ele desligou o som e acendeu as luzes. O apartamento estava uma bagunça como sempre. Papéis espalhados por todo o lado, caixas e latas de refrigerante. No canto, estava uma jovem magra de cabelos compridos e escuros deitada de bruços usando apenas calcinha e sutiã. Ela tinha uma tatuagem de uma videira que ia do tornozelo e subia por toda a perna até a sua coxa. Evan ficou vermelho "Essa é Kitty. Não se preocupe com ela, está viajando." Ele a cobriu com uma colcha vermelha. "Ela está bem?" "Sim" ele deu de ombros "Nós fomos a uma boate ontem e ela tomou muito MZ." Ele explicou "Drogas- estritamente para amadores." Dana inclinou-se e tocou a costa da garota. Ela parecia respirar normalmente "Você não acha que ela esteja tendo uma overdose, hein?" "Nah, ela ficará bem. Só precisa dormir mais um pouco. Ela se levanta pra fazer xixi que nem uma maníaca." Ele levou-a até a cozinha. A pia estava abarrotada de pratos e lata de lixo aberta. "Desculpe pela bagunça" ele disse "A empregada não apareceu." Ela encontrou forças para rir. "Quer algo para beber? Uma cerveja?" "Eu não devo ingerir álcool enquanto estiver tomando remédio para a enxaqueca." "Eu sei o que você precisa" Evan disse rindo "Chocolate quente." "Chocolate quente?" "Cura tudo. Sente-se no sofá e eu prepararei duas xícaras para nós." Ela limpou um pouco o sofá antes de sentar. Estava impressionada com o modo de vida de Evan. Bem diferente da sua vidinha ordenada. Ou como a sua vida...ela apertou a ponta do nariz para evitar o resto das lágrimas. Evan voltou com as canecas "Eu até lavei as canecas para você, pois você é uma convidada de honra. E o chocolate tem pequenos marshmallows." Ela bebeu o líquido rico e quente pensando que essa era a bebida preferida de Julia. Ela chamava os marshmallows de "mushamellas". Ele tocou o seu braço "Quer falar sobre isso?" "Não agora" ela disse colocando a caneca sobre um lugar na mesa que estava livre. "Ok." Ele concordou "que tal isso- eu andei procurando pelo seu amigo." Ela sentiu o seu coração agitar-se "Você encontrou algo?" Ele riu "Oh, eu encontrei algo sim. Venha cá..." ele se levantou e apontou para a mesa do computador levando mais uma cadeira. Enquanto ele digitava freneticamente no teclado, Dana sentou ao seu lado sentindo sua respiração rápida de ansiedade. "Foi fácil entrar. Agora que ninguém se importa com o FBI, o protocolo de segurança parece brincadeira de criança." As telas brilhavam enquanto ele acessava uma página de Recursos Humanos. Ele virou-se para ela "Então, sim eu encontrei algo. Os arquivos deles estão uma verdadeira bagunça. Muita coisa perdida, destruída eu acho. Mas ainda tem algumas informações." Ela quase gritou impaciente "Você encontrou o meu amigo?" Os olhos de Evan arregalaram-se "Não exatamente." "O que você quer dizer?" "Eu procurei pelo nome Fox Mulder e não obtive nenhuma informação nos arquivos restantes. Eu pensei que meu programa não estava funcionando até que procurei pelo seu nome." Ela apontou para o seu peito "Meu nome?" Ele digitou mais alguns comandos e um arquivo apareceu " Você estava nos arquivos de Recursos Humanos do FBI" O silêncio permaneceu como um entendimento. "Essa é uma ficha médica datada de 16 de Fevereiro de 1999 para sua companhia de seguros. Parece que você foi baleada quando fazia seu trabalho em janeiro." Isso não é possível, ela pensou e aproximou-se para checar as palavras na tela. Dana Katherine Scully na ficha. Sua data de nascimento, o número do seu Seguro Social, um endereço em Georgetown. Agente Especial Dana K. Scully. O contato pessoal em caso de emergência era Margareth Scully. Relação: mãe. Sua mão dirigiu-se para o local onde estava a cicatriz. A ficha dizia "...para pagamento de um tratamento devido a um tiro na parte inferior esquerda do abdômen... cirurgia feita no Centro Médico da Universidade de Nova York." Ela virou-se par Evan que ainda ria da sua proeza "Isso não pode ser verdade." "Precisa de mais provas?" ele puxou outro arquivo e ela esforçou-se para respirar. "Isso estava na página de Relações Públicas" Evan disse. O título da página era "Agente de Washington D.C. ganha prêmio de Patologia". Havia uma fotografia na página, inegavelmente era ela, mais nova e séria. Vestida num terno preto e uma blusa branca de pé num pódio com óculos na face aparentemente fazendo um discurso. Ela lia o texto "Agente Especial Dana Scully foi premiada com o Prêmio Harrington em Excelência Forense pela Sociedade Nacional de Mulheres em Patologia, 02 de junho de 1998." Era real. Ela piscou em frente a tela olhando fixamente para ela mesma a quase sete anos atrás. Ela não mudara muito, usava o mesmo tipo de roupa, poucas mudanças estéticas e de moda. Seu cabelo ainda hoje era feito com o mesmo tipo de bobs. "Não queria te assustar. Eu fiquei super surpreso ao te ver, também. Você tem alguma lembrança de Ter sido agente?" ela sacudiu a cabeça negativamente. Ela não tinha nenhuma. "Eu achei algumas fotos relacionadas com essa página" ele disse "Umas que não foram usadas. Quer vê-las para ver se ativam suas memórias?" "Mostre-as." Ela disse. Demorou um pouco para a página carregar "Esse servidor está meio lento." Três fotos apareceram. A primeira era dela ainda no pódio recebendo uma placa das mãos de uma mulher de cabelos grisalhos. A Segunda era dela apertando a mão de um homem alto de óculos e careca. "Alguém parece familiar?" Evan perguntou. "Não" ela disse "Desça o cursor para eu ver a última foto." Apenas um centímetro dela era visível na tela. Ela não fez um único som mas agora entendia ao ver a última foto como as pessoas podiam desmaiar ao receber notícias inesperadas. Na foto, ela segurava um copo de vinho, aparentemente na recepção após a cerimônia de premiação. Não usava mais a jaqueta preta e sorria para a camera. Ao seu lado, um homem com seu braço ao redor dela. Ele estava sorrindo como ela. Um homem alto de cabelos escuros. Lábio inferior grosso, nariz grande e olhos sonolentos. Não podia ser verdade. Era uma peça elaborada, uma travessura por parte do seu amigo. Mas ela sabia que não era. Evan não faria isso com ela. Aliás, ele nunca vira o homem da foto com ela. Ela respirou fundo, tentando assimilar as implicações daquela foto. O homem na foto com ela era inquestionavelmente Fox Mulder.