Título: Bastante Autora: Alice J. Foster (Fe) Disclaimer: Não são meus. Classificação: shipper, talvez um pouco de angst, não sei. Tentei moderar no açúcar. Feedback: Please!!! alice_j_foster@hotmail.com Dedicatória: como não podia ser diferente, às minhas irmãs ADAS. Essa está indo sem beta pois a terminei 2 horas antes do prazo final do III Desafio. *-*-* - Mulder, onde diabos você estava com a cabeça? Scully andava na frente com Mulder alguns passos atrás. Ela estava aparentemente incomodada por alguma coisa. Ele lutava para colocar uma jaqueta. - Scully, eu fiquei 18 horas nessa cadeia, será que você poderia esperar até chegarmos em casa para discutirmos isso? Ela olhou fixamente para ele. Ele parecia exausto. Mas ela não sentia pena dele, só não continuou com o questionamento ali pois ELES poderiam estar escutando e ela mesma estava cansada depois de não ter dormido por quase três dias. Eles chegaram ao prédio dele, ou melhor, deles, já que ela estava quase morando com ele nos últimos meses. Parou em frente ao prédio e esperou que Mulder saísse do carro. - Você não vem? - Achei que você não quisesse que eu fosse com você. Ao menos foi essa impressão que eu tive depois que você sumiu há quatro dias sem me dar explicações. - Podemos subir, por favor? E poderemos terminar essa conversa depois. Ela fez um barulho de irritação e ele apenas fechou os olhos. Por que ela tinha que ser tão inflexível? Enquanto isso Scully pensava como ele poderia parecer não ter nenhuma consideração por ela ás vezes. Durante os últimos meses, desde que eles passaram a explorar esse novo lado do relacionamento dele, ela tinha visto ainda mais facetas de Fox Mulder. Ela amava todas. Mas muitas a enfureciam profundamente. Ela sabia que ele jamais mudaria. Homens como Mulder nunca mudam. Mas ela jamais se cansaria de tentar. Pelo menos enquanto ele não pusesse pelo menos um pouco de juízo naquela cabeça dele. Ela relutantemente desceu do carro e eles andaram juntos até o prédio. Mulder abriu a porta e ela entrou primeiro. Ele foi tirando a roupa e entrando num banho, enquanto ela se ocupava fazendo um chá. Ela estava sentada na mesa da cozinha e observava ao seu redor. Todas as mudanças no apartamento dele. Poderia até ser chamado de "lar" agora. Ela olhou para os armários que estavam até um pouco limpos e para o pequeno armário que servia como dispensa, e que, ultimamente, vivia cheio. Scully se sentia em casa ali. Um velho ditado dizia que Casa é onde o coração está. E o dela certamente estava ali. Depois de tanto tempo dançando em volta do assunto, eles tinham finalmente quebrado os muros emocionais, um por um. Ainda restavam muitos a serem quebrados, mas como Mulder disse a ela, se eles quebrassem todos de uma vez, o que eles fariam o resto da vida? Mas o coração dela sempre sofria pelas suas próprias escolhas. Era ele que passava apertos, como o dos últimos dias. É sempre ele que teme receber o tão temido telefonema ou receber a tão horrenda notícia. Viver com Mulder não seria fácil e ela sabia isso desde o começo. Talvez não o fato de viver com ele em si, mas só o fato de estar perto dele. Trabalhar com ele. Scully estava tão absorta em seus pensamentos que não perceber Mulder sair do banheiro e entrar na cozinha. - Cadê o meu chá? - Você não gosta de fazer as coisas sozinho? Faça seu próprio chá. - disse ela amargamente. Mulder sentiu as palavras como facas afiadas, mas não poderia reclamar. - Eu não gosto de fazer as coisas sozinhos. Mas ás vezes é necessário. Para protegê-la. - Você não precisa me proteger. Eu sei me cuidar sozinha. Também fui à Academia do FBI e recebi o mesmo treinamento que você. - Eu sei disso. - ele respirou fundo. Ela não iria ceder tão cedo. - Mas você precisa saber que existem locais e situações perigosos demais para que eu te envolva. Eu preciso te deixar de lado ás vezes. - E quem toma essa decisão? Quem toma a decisão de me deixar de lado? De me excluir quando bem entender? Você? - ela apontou para ele. - Não acha que deveria ao menos discutir comigo antes de tomar qualquer decisão? Eu estou aqui, não? Dividindo minha vida com você, vivendo dia após dia ao seu lado. Achei que nós fôssemos parceiros, mas você vem e faz algo que diz completamente o contrário. - Você não entende. - disse ele simplesmente - Não entendo? Então me explique. - Ela cruzou os braços como que esperando uma resposta. Enquanto em muitas vezes ele achava essa postura sexy, essa não era um das vezes. Ele estava achando aquela conversa cansativa. Eles já tinham tido-a várias vezes e tê-la novamente depois dos últimos dias estava se tornando quase que impossível para ele. - Não podemos discutir isso outro dia, Scully? - Outro dia? Quando? Quando você me abandonar de novo em busca de provas, correndo para Deus sabe aonde e quase me matando de preocupação? Dessa vez foi uma ligação da polícia, Mulder. Da próxima vez pode ser de um hospital ou de um necrotério. - Nós podemos morrer a qualquer instante, Scully. Não somos imortais. - Mas eu preferiria saber que você não morreu por uma causa perdida. Ou talvez até por um causa verdadeira e importante, mas numa morte estúpida e sem-sentido. Mulder desviou o olhar dela. Não conseguia encará-la. - Scully, acho que nosso relacionamento pessoal está interferindo com seu julgamento. - Não acredito nisso, Mulder. Acho que você também não. Só quer arranjar uma desculpa para essa briga. Mas por outro lado, talvez esteja certo. Talvez devêssemos dar um tempo. Ficar um tempo longe um do outro. Skinner já te deixou em suspensão por duas semanas sem pagamento. Eu vou ver se tiro umas férias. Deus sabe que tenho férias acumuladas para um verão inteiro. Mas por enquanto quero relaxar numa cabana da família. - ela foi até a sala e pegou uma mala no armário. Então ela caminhou até o quarto e colocou algumas roupas dentro da pequena mala. - Tem certeza de que quer ir, Scully? - Sim. Eu ligarei no caminho para Skinner. Tenho certeza de que ele não será contra e quando eu voltar eu assino os papéis. Devo ficar fora no máximo 15 dias. - Ela pegou um papel de anotações que ele mantinha perto do telefone e escreveu algo. - Este é o endereço e telefone da cabana. Ligue caso haja alguma emergência. - Certo. Com isso ela saiu porta afora, deixando Mulder ainda tentando entender o que tinha acontecido nos últimos minutos. Como ela tinha tomado a decisão tão rapidamente de ir para a cabana? Ela precisava tanto assim se afastar dele? *-*-* Scully chegou à cabana depois de uma viagem de três horas de carro. Ao chegar ela abriu as janelas apesar do frio e deixou a casa fechada ventilar um pouco. Checou para ver se precisava ir até a cidade comprar algo. A cabana era bem simples. Dois quartos, sala com uma lareira rústica, banheiro com uma banheira antiga e uma cozinha com fogão à lenha. Scully não quis pensar em cozinhar e tinha parado no caminho para comprar lenha para a lareira e comida enlatada. A cabana trazia boas memórias de sua infância. Depois que seu pai morrera, quase ninguém a visitava. Charlie tinha vindo umas duas vezes e Bill umas quatro. Ela sempre achava que estava ocupada demais. Ela não conseguia compreender o que acontecera no apartamento de Mulder. Só entendia que precisava estar longe dele por algum tempo. Só não sabia se 15 dias seriam pouco ou muito. Ela fechou as janelas quando começou a escurecer. A temperatura caiu rapidamente e ela se enrolou num cobertor que estava sobre o sofá. Estava com muita poeira, mas ela não se importou, apenas sentou-se em frente á lareira esperando o calor do fogo aumentar a temperatura na sala. Ela deitou-se e ficou olhando para o teto, que possuía uma pequena clarabóia, de onde podia-se ver as estrelas. Ela ficou olhando para elas deitada no chão e não percebeu que adormecera ali até o dia seguinte. *-*-* Mulder enquanto isso tentava se ocupar em não fazer nada. Duas semanas de suspensão e ele tinha esgotado suas pistas sobre o último caso deles, caso o qual o levara a ser preso e o obrigou a recorrer à Scully para retirá-lo da cadeia como sempre. Durante o dia ele fora até o QG dos Pistoleiros, encontrara um fonte com menos segredos a revelar que uma árvore e voltara para casa para pedir uma pizza e adormecer no sofá, coisa que ele não fazia há meses. *-*-* Os próximos dias passaram relativamente bem para Scully e ela passara os dias lendo e refletindo. Mas sua mente não conseguia chegar a lugar algum. Ela sentia uma dor estranha no peito, não física. Após alguns dias, ela percebeu o que era, mas se negava a assumir que o que sentia era falta de Mulder. Ela sentia falta da voz dele, da mente perspicaz dele, do cheiro dele e do calor do corpo dele. A parte mais difícil, era quando ela se deitava para dormir e ela sentia falta dele. Mas ela se recusava a fazer algo que mudasse a situação, preferindo apenas aproveitar suas "férias" e chegar a alguma decisão, qualquer que fosse ela. Mas no final do dia, a única decisão que ela chegava era de que ela sentia falta dele. *-*-* Mulder não estava muito melhor. Ele passava o dia jogando a bola de basquete para cima e a pegando de volta, para repetir o movimento. Ele até conseguiu achar algumas novidades sobre ufologia na internet, mas ele estava achando que seria mais fácil achar um caso para investigar no site da Disney do que pelos canais "normais" dele. Ele sentia a falta de Scully mais na parte da manhã. Ele sentia falta do peso do corpo dela sobre o dele quando ela alcançava ao lado dele para desligar o despertador e do beijo dela de manhã. Ele sentia falta dos banhos longos e preguiçosos que muitas vezes eles tomavam juntos antes de ir para o FBI. O cheiro do shampoo dela, o modo como o rosto dela ficava lindo sem maquiagem e com os cabelos molhados. Nunca dizia isso a ela. Scully se enrubescia demais ao receber elogios, principalmente físicos, então ele se limitava a dizer o que ela era bela com o olhar e com gestos. Ele sentia falta dessa expressão sem palavras entre eles. No 10º dia Mulder já estava inconsolável. Pegara o telefone diversas vezes para ligar para a cabana, mas desistia antes de discar completamente o número. Ele estava irritado e tudo o que ele queria era que ela ligasse e dissesse que estava bem. Que toda aquela briga não existira e que ela sentia a falta dele. Mas ele sabia que nunca receberia este telefonema. Ela não o perdoaria tão facilmente. Ele olhou novamente pelo já maltratado papel com o telefone da cabana e decidiu uma outra abordagem. *-*-* Scully decidira voltar mais cedo da cabana, talvez no 13º dia. ela poderia passar na casa de sua mãe e ficar alguns dias com ela. Ela vinha pedindo que Scully a visitasse por muito tempo agora e Scully achou que talvez se a distância entre ela e Mulder fosse menor, a dor também seria. Às vezes a dor chegava a ser física, penetrando por seus ossos e chegando a seu peito. Ela lia um livro no sofá quando escutou um carro na estrada lá fora. Ela achava que era alguém subindo as montanhas, mas o carro parou lá fora. Talvez precisassem de ajuda e Scully colocou um casaco pesado pis a temperatura tinha despencado nos últimos dias e foi lá fora. Ao abrir a porta levou um susto. Mulder se preparava para bater à porta e ela deu de cara com ele. - O que está fazendo aqui? - O mesmo que você, vim aproveitar minhas "férias". - Disse ele sarcástico. Ele carregava um sorriso, mas por dentro estava com medo que ela o chutasse de volta para Washington. - Novamente, o que está fazendo aqui? - Eu estava andando pela região e ouvi que haveria uma nevasca hoje á noite e vim procurar abrigo. - Mulder, não neva aqui há pelo menos 80 anos. - Deve ser um Arquivo X, Scully. Não acha que devemos investigá-lo. Ele sorria tanto que ela achou impossível fechar a porta na cara dele e simplesmente largou a porta aberta deixando a ele a decisão de entrar ou ir embora. Mulder entrou, é claro. Ele fechou a porta e tirou o casaco, pendurando. Scully batia no casaco como tentando tirar alguma poeira, mas o casaco estava limpíssimo. Ela foi até a cozinha e trouxe duas xícaras de chocolate quente servindo uma a Mulder que estava sentado no sofá. Ele aceitou e resistiu à vontade de perguntar-lhe por que tinha feito chocolate quente para ele e não tinha feito chá no outro dia, mas ele ficou quieto, feliz que ele tinha cedido em uma coisa pelo menos. Ambos sentaram em silêncio observando o fogo por vários instantes. Ambos tinham sentido imensamente a falta um do outro, mas não diziam nada e nem agiam. Ao invés eles apenas deixaram tudo cair no silêncio que sempre pairava sobre eles e se sentiram aliviados parcialmente pela presença do outro. Tanto ele quanto ela sabia que quando eles estavam juntos eles eram mais fortes, quase invencíveis. Quase, talvez fosse este o problema. - Chegou à alguma conclusão, Scully? - Não sei. - 12 dias para pensar não foram suficientes? - Talvez para uma conclusão dessa, leve a vida inteira. Às vezes um breve instante. Caíram novamente no silêncio e ambos sentiram a noite chegando e se apossando do céu, sua cor mais escura, mas ambos se sentiam mais à vontade conversando sob a luz apenas da lareira. Mas mesmo se sentindo mais à vontade, trocaram poucas palavras, quase sem significado exceto para eles. - Scully? - O que, Mulder? - respondeu ela absorta em seus pensamentos. - Você acha que algum dia chegará à alguma conclusão? - Como eu disse, não sei, Mulder. - E até lá, Scully? Como nós ficamos? - Sinceramente, Mulder? Não tenho a mínima idéia. - Ajudaria se eu prometesse que nunca mais vou te abandonar? - Não prometa algo que não possa cumprir, só tornará as coisas mais difíceis e causará mais dor. - Como sabe que não vou cumprir minha promessa, Scully? - Você é como um pássaro, Mulder. Tem que ser livre para voar, fazer o que quer. Se você ficar preso, ficará infeliz logo. E sua infelicidade só tornará nossa parceria miserável. Tudo o que eu te peço é mais cuidado. Só peço que me deixe ir com você, e se isso for impossível, não me deixe no escuro. Me conte. - Não sei se posso fazer isso, Scully. - Eu sei. Mas tudo o que peço é que tente. - Acho que posso tentar isso, Scully. Eles se aproximavam no pequeno sofá e Scully se aninhou nos braços dele. Ele beijou o topo da cabeça dele e ela falava olhando, quase que hipnotizada pelo fogo. Ela moveu-se nos braços dele e beijou-o . A posição logo tornou-se desconfortável, mas nenhum deles tinha intenção de se mover tão cedo. Eles fizeram amor no tapete da sala e depois deitaram exaustos, cobertos pelo cobertor que nunca saía de perto do sofá. - Eu senti sua falta. - ele falou abertamente. - Eu também. - ela relutantemente admitiu. A cabeça dela encontrava-se sobre o peito dele e ela acariciava-lhe ali. Ele afagava-lhe os cabelos e ela sentiu o beijo dele em sua testa. Suas pernas jaziam entrelaçadas embaixo do cobertor. Era difícil saber onde um terminava e o outro começava. - O que eu disse é verdade, sabia? - Sobre o que? - Sobre a próxima ligação ser de um hospital ou de um necrotério, Mulder. Não sei se poderia agüentar. Você sabe a dor que eu sentiria? - Provavelmente quase tanto quanto eu sentiria se fosse você. - ele respondeu docemente. Ele a abraçou fortemente e a puxou mais para perto, se é que isso era possível. Ela beijou-lhe sobre o coração e sentiu o órgão pulsando sob seus lábios. Ele percorreu a extensão de suas costas com as mãos e ela estremeceu sobre ele. Scully levantou a cabeça e beijou-o novamente. Ambos sabiam que a vida não era perfeita, mas o que eles tinham teria que bastar. Pelo menos por agora. *-*-* Feedback: alice_j_foster@hotmail.com