Titulo: Às vezes Autora: Meggie Feedback: wm3@uol.com.br Disclaimer: Não são meus, não vou lucrar, etc. e tal. Classificação: Shipper melodramática, acho que isso deve Ter alguma influencia daquelas novelas mexicanas que eu assistia na infância, Carrossel e coisas do gênero, não liguem, ainda vão descobrir como a TV pode estragar o cérebro. Spoiler: Essa fic se passa depois do episódio da Sexta Temporada, "Dirija" PS: Poesias ocasionais no decorrer do período também não me pertencem, são em sua maioria de Manuel Bandeira, mas acho que deve haver uma do Cassimiro de Abreu. NOTA: Camila ( Pinheiro) eu não consegui responder a sua mensagem, mulher. Sinto muito, me envie de novo seu e-mail, que o meu PC não está conseguindo mandar de volta. É uma que você me mandou há um bocado de tempo. Thanks. ÀS VEZES By Meggie Às vezes, você não se pergunta para que tanta dor? Qual o sentido de todas as lágrimas que você já derramou na vida? Por que, de no meio da noite, seus olhos abertos e ardentes, não conseguirem enxergar o motivo de você estar ali, simplesmente vivo? A falta de lógica da existência quase não me incomoda mais. Deixei de pensar nisso, simplesmente. Meu coração parecia querer superar as leis da gravidade e escorrer pelas veias, até cair ao chão. Por isso, adotei a ignorância como grande virtude e passei a viver como os loucos, como o tresloucado que todos acharam que eu era. Todos menos ela. Por isso tenho de deixá-la. Ela me conhece. Ela não vai permitir que eu me enclausure na tão benéfica e merecida ignorância. Vou embora, por mim. Por que em minha vida não foram muitas as coisas que fiz ao meu favor. E o que isso me trouxe? Trouxe dor. Tudo o que a vida me trouxe. E nada mais. Por isso vou embora pra Pasárgada, pois lá sou amigo do rei, terei a mulher que eu quero, na cama que escolherei. Vou me embora para Pasárgada, pois lá a vida é uma aventura, de tal modo inconseqüente, que Joana, a louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente, da nora que nunca tive. Vou-me embora pra Pasárgada. E vou deixá-la. Por que meu coração não fica feliz com a decisão? Será que de tão acostumado com o sofrimento ele se esqueceu de como se sorri? Será? Por que pensar na boa vida que terei longe da verdade não causa o prazer esperado? Eu não entendo. Não entendo. Por que eu nunca entendo nada? Nunca entendo o que ela quer me dizer! E ela quer me dizer tanto. Eu sei, eu sinto. Mas não compreendo o que seus olhos azuis insistem em gritar e em pedir silenciosamente...Eu não consigo ver. Não consigo ler. Eu não entendo porque o tempo se encarrega de massacrar todos nossos sonhos. E a esperança...perdi-a em algum lugar, esquecida entre o horror e a coragem, numa esquina, por aí. Apenas quero fugir desse mundo que meio empurraram para mim, meio inventei para viver. Esse mundo horrível. Gosto da infância. Acho justo que eu me crie uma síndrome de Peter Pan e seja criança para sempre. Sem responsabilidades. Como é doce a juventude quando a vida de ninguém está em suas mãos. Quando o coração de ninguém pode ser esmagado por um ato seu. Quando ninguém é machucado só por ser seu amigo. Agora vou ser criança. Ah, que saudade que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. Saudades daquelas tardes fagueiras, debaixo das laranjeiras, correndo entre os bananais. Vou ser criança em Pasárgada. Ou talvez mergulhar num daqueles livros deliciosos que não falam de medo nem de conspiração, do tipo em que o mocinho sempre vença e fique com a garota depois de matar todos os piratas. Quero um livro bobo e romântico para não Ter que usar o cérebro e pensar que os heróis não vencem nunca. Como os heróis são falsos e idiotas, eles não existem, eles são fracassados. Eles perdem, eles só sabem perder. Mas nesse livro o Cowboy não seria derrotado. Porque eu queria assim e estava muito cansado da realidade. Vou ser criança e ler livros em Pasárgada. E vai ser assim eternamente, até que a morte venha e leve-me da futilidade da vida que decidi tomar. Feliz do homem que no final de tudo, em seu leito triste de solidão, pode dizer com hipócrita amargura...O que não tenho e desejo é o que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros, perdi-os...Tive amores, esqueci-os...Mas no maior desespero, rezei, ganhei essa prece. Vi terras da minha terra, por outras terras andei. Mas o que ficou marcado, no meu olhar fatigado, foram terras que inventei. Gosto muito de crianças: Não tive um filho meu. Um filho!...Não foi de jeito...Mas trago dentro do peito meu filho que não nasceu. Não faço versos de Guerra, não faço porque não sei. Mas num torpedo suicida, darei de bem grado a vida, na luta que não lutei! E como eu vinha levando minha existência eu não poderia dizer nada daquilo, eu não viveria o suficiente para nada daquilo. Não que a idéia da morte me incomode realmente...No momento parece quase um bálsamo, vai ser o fim de uma pessoa inútil. Nada mais nada menos. Eu apenas quero fazer com que esse resto de tempo que me resta seja usado totalmente em fazer nada. Fazer nada de bom. Não lutar, não chorar, não nada. Só mergulhar no mundo bom dos sonhos. Não os sonhos que costumo ter, que me acordam no meio da madrugada com uma dor tão profunda no peito que às vezes acho que não consigo suportar. Não esses sonhos. Por isso vou deixa-la. Porque Scully me puxa para o real. Ela e seus olhos azuis são a ancora que me mantêm no chão, e agora tudo que eu quero é voar. Voar para tão longe daqueles braços quanto é possível ir, pois vou faze-la sofrer como faço a todos. Porque eu sou o mais cretino de todos os cretinos e não consigo fazer ninguém feliz. Por isso vou embora. Enclausurar-me na cegueira da ignorância que sempre repudiei. Decidido estou, mas inconformado, ainda. Ressentido. Terei que deixar todos os meus entes mais queridos ( que na verdade são representados por três formas supostamente humanóides denominados Pistoleiros Solitários, e uma garota ruiva) Às vezes pensar assim dói. Só que eu não iria pensar mais. Estava cansado, tão cansado. Levantei-me, ainda tonto de tantas idéias. Cambaleante e bêbado. Um Clown shakesperiano pronto para seu ato final antes de, enfim, encerrar o espetáculo. Pobre de mim, eu era só um Pierrot apaixonado. Apaixonado por uma Columbina que seria sempre de Arlequim. E mesmo que fosse minha eu provavelmente não conseguiria mante-la por muito tempo. Por isso era melhor ir embora. Era melhor por em pratica todas aquelas boas idéias de paz. Minha vida foi um carnaval tão triste, um carnaval que não brinquei. E agora eu me sentia pronto para abandonar a festa e entregar-me aos sonhos que não sonhei. Mas antes, vou ligar para Columbina e dizer a ela que foi a única a quem amei. E amei mais do que tudo e por isso eu precisava ir. Columbina, adeus, adeus. Eu te amo tanto, não vês a lágrima que escorre eterna por meu rosto pálido de palhaço? Adeus, adeus. Mas antes, você precisa saber. Você precisa saber e então vai me deixar ir. Vai permitir que eu me liberte de todo esse peso morto que é meu corpo. O idiota de meu corpo que prende a minha alma e nunca permite que ela possa voar. Mas agora tudo vai ficar bem. Você vai ver, Columbina, eu vou libertar nós dois. "Oi, Scully, sou eu" "Mulder, aconteceu alguma coisa? São quase três..." "Scully, eu te amo tanto" Silêncio do outro lado. A respiração dela parou em algum lugar entre o pulmão e a garganta. Mas não vou dar tempo para que fale. Ela só tem que saber e então, tudo estará terminado. " Pena que a vida não quis que ficássemos bem, mas não se preocupe, cansei de ser o palhaço, o peão, de ser sempre o Pierrot, cansei de te amar, Scully. E de sofrer. E de pensar. Cansei de tudo, cansei dessa vida que levamos, essa vida tão sofrida, desse rosa de Hiroshima...Quero passar a vida a toa atoa, e poder dizer com orgulho que nada fiz. Eu quero ser vazio, Scully, porque as pessoas vazias não sofrem. Mas não tem como ser vazio com você. Por isso de agora em diante, eu não vou te amar mais. Eu só queria que você soubesse que ninguém no mundo te amou mais do que eu. Adeus." "Mulder...MULDER..." Mas eu não queria saber, não, eu não queria saber de mais nada. Só precisava chegar a minha cama e cair no sono dos bons, dos justos e dos eternos palhaços, que passaram a vida só para alegrar os outros e viveram tão infelizes. A cama. Eu só precisava chegar até a cama e dormir. Deixei o telefone fora do gancho, minha vida pendurada em uma linha ocupada. Rastejei até o meu quarto e cai macio no colchão, para o meu sono tão merecido. Tão sem sonhos. " Mulder, acorda!" Não, não, eu quero dormir. "Mulder, levanta agora. Seu idiota, o que você pensa que está fazendo?" Senti mãos macias e tão pequenas puxarem meus braços com força espantosa. Mas eu só queria dormir, parecia que eu havia acabado de me deitar... "Scully, vai embora" Eu sussurrei, tão baixo, tão baixo. Ela estava chorando. Por que ela estava chorando? Tudo ficaria bem, eu estava indo embora. " Mulder, levanta, por favor" A voz dela estava chorando. Aquilo estava enchendo de novo meu coração. Minha alma idiota de Pierrot. Não! Eu precisava ficar vazio. "Vai embora, Scully, eu preciso dormir...Eu só preciso dormir e tudo vai ficar bem."...Repeti, pensei, não estou certo. "Mulder, Mulder, me escuta" Ela estava implorando. Ela estava gritando. As lágrimas dela caíam em meu rosto como já haviam caído outras vezes. Mas daquela vez eu não iria ouvir. "Mulder, por favor, não faz isso comigo de novo." Fazer o que? Eu só queria o bem dela. Só o bem dela. Não se preocupe, Scully, você vai ser feliz agora. "Mulder, eu te amo também, não desiste agora." Ela me amava? Não, ela não me amava. Como se pode amar alguém não fez nada além de lhe trazer sofrimento? Como se pode amar alguém que parece tão incapaz de ser feliz? Não se pode amar alguém que não pode ser feliz. Não, Scully não me amava, por que ela estava dizendo que amava? Ela não precisava dizer, aquilo iria encher meu peito de novo. Ele já estava agora tão vazio. Quase todo vazio, só restava ainda algum amor por ela e talvez a tristeza imensa de estar fazendo-a chorar. De novo. " Não chore" Eu pedi. Eu, deitado na cama, só de pijama, sentindo no corpo aquele torpor infantil que só vem com as almas vazias, desistentes, suicidas que se matam sem porque. Aquele torpor dos bêbados, drogados, dos Pierrots que cansaram de sofrer. Talvez eu houvesse perdido todos os meus ossos, todas as minhas vontades, talvez eu só estivesse finalmente morrendo, talvez se eu fechasse os olhos a imagem dela fosse embora. E os soluços femininos me pedindo para ficar não encontrassem morada nos meus ouvidos. Então, de repente, Scully parou. Parou de gritar, de me bater, de chorar. Senti seu corpo deitar-se ao meu lado, seus dedos entrelaçando-se entre meus fios castanhos. "Então vamos desistir juntos" Aquilo estava errado. Aquilo estava muito, muito errado...Desistir, não ela não podia desistir. Como Scully podia se quer pensar em abandonar a vida? Abandonar a verdade? Como ela podia pensar nisso? Eu estava fazendo por mim, para me isolar e me entorpecer, talvez quem sabe viver feliz como todos os esquizofrênicos, mas ela não. Ela não podia fazer aquilo. Era traição. Ela não podia me trair, não ela. "Scully, o que você está fazendo? Scully, Scully...Não desiste, levanta...Scully, por favor" "Você não quer morrer, Mulder? Podemos fazer isso juntos" "Eu não quero morrer, Scully. Eu só quero que a dor passe." Nossos olhos se encontraram, se trancaram, se aqueceram. Droga, eu já estava quase vazio, quase murcho, quase estupidamente ignorante. Por que ela precisava Ter chegado tão rápido? Por que ela precisava saber sempre o que fazer para ser minha amiga e me mostrar a verdade? "Vai passar, vai passar..." "Agora, pode até ser, mas quanto tempo vai demorar até que volte de novo? Uma semana, um mês? Não importa quanto tempo, Scully, vai voltar. Eu sou tão sem sentido, tão inútil, você não precisa de mim, ninguém precisa, porque eu não faço nada certo mesmo. Às pessoas podem até não morrer por minha causa, Scully, mas eu nunca consigo livra-las disso." "Aquele homem não morreu por sua causa." "Eu sei, mas eu não consegui salva-lo. Eu não consegui salvar Samanta, não consegui salvar você." " Não estava em suas mãos. E você me salvou, sim, tantas e tantas vezes." Mas eu sabia que ela estava errada. IOXIOXIOXIOXIO Mulder parecia triste. Eu queria tanto fazer algo por ele, mas só de ver sua expressão depois do homem pela qual a vida ele lutara para salvar estar tão morto como todos os outros, depois daquela expressão, eu soube que ele não me deixaria entrar. Não agora pelo menos. Por isso esperei. E esperei. Voltamos para casa, mas ele não me chamou. Não falou comigo. Manteve apenas aquela expressão tão triste e desalentada, aquela expressão que machucava tanto o meu peito. E eu não podia fazer nada. Perguntei se ele estava bem...Sim, estou ótimo...Se queria alguma coisa...Não, estou bem assim...Tem certeza?...Tenho...Então eu desisti. Desisti achando que, talvez, não fosse o melhor a se fazer. Talvez eu só devesse ficar lá com ele e segurar seus dedos nos meus. Só que meu corpo parecia tão pesado, tão cansado, meus pés doíam e as costas encontravam-se incapazes de sustentar meu peso mais um segundo sequer. Quem sabe se eu não estivesse me sentindo assim tão mal eu houvesse percebido todo horror, toda a amargura deitada nos olhos verdes. Mas eu também estava tão cansada. Fui para casa, mergulhei em um banho quente de horas, até a água esfriar e meus dedos ficarem enrugados. E reencostei-me merecidamente entre os lençóis... mas não dormi. Os olhos dele, a alma dele, gritando e gritando, gritando de dor e inutilidade, gritando algo que eu não entendi bem o que. A alma dele não me deixou dormir. Preguei os olhos no teto e repassei todo o caso, todos os casos, toda minha vida, estava assim, estava assim há muito tempo quando o telefone tocou. Meus instintos deviam estar bêbados e idiotas porque eu fiquei feliz com o som. Mulder me deixaria ficar, me permitiria ouvi-lo. Finalmente. Eu atendi com as frases de sempre, para que ele soubesse que estava tudo bem e que eu ainda era a mesma, a Scully em quem ele podia confiar. Mas ele não percebeu, ele estava tão estranho. "Scully, eu te amo tanto." Sei que parei de respirar e de viver naquele momento. Não fiquei feliz. Aquela não era uma declaração de amor. Era uma carta de renúncia. Um discurso de adeus. Eram suas últimas palavras. Fiquei tão desesperada, tão sozinha, tão irritada com ele. O que diabos Mulder pensava que estava fazendo? Me matando do coração? Meu cérebro gritou para que eu levantasse e corresse para o apartamento dele, mas suas próximas palavras me pararam. Ecoariam nos meus ouvidos por toda a eternidade e provavelmente um pouco mais. "Pena que a vida não quis que ficássemos bem, mas não se preocupe, cansei de ser o palhaço, o peão, de ser sempre o Pierrot, cansei de te amar, Scully. E de sofrer. E de pensar. Cansei de tudo, cansei dessa vida que levamos, essa vida tão sofrida, dessa rosa de Hiroshima...Quero passar a vida a toa atoa, e poder dizer com orgulho que nada fiz. Eu quero ser vazio, Scully, porque as pessoas vazias não sofrem. Mas não tem como ser vazio com você. Por isso de agora em diante, eu não vou te amar mais. Eu só queria que você soubesse que ninguém no mundo te amou mais do que eu. Adeus." MULDER! Mulder, seu idiota, cretino, estúpido, e todos os outros palavrões que não consigo me lembrar agora, não faz isso comigo! Ele estava me deixando, ele estava mesmo me deixando! E eu nem sabia porque. Ou melhor, sabia, sabia sim. Eu devia Ter adivinhado há muito tempo, as coisas estavam se acumulando dentro dele há muito mais tempo do que só aquele caso. Aquela era uma guerra que não precisava mais que uma bola de neve para ser declarada. Mulder estava lutando consigo mesmo há muitos, muitos séculos. Eu só queria que não fosse tarde demais. Eu só queria ainda poder fazer alguma coisa. Não calcei sapatos, nem chinelo, não troquei de roupa nem peguei os documentos do carro, eu apenas corri o máximo que pude, terrivelmente consciente de que o relógio andava muito mais rápido que eu . Não me preocupei em bater, sabia que ele não atenderia. Usei a chave que fica junto com as do carro e entrei. Tudo estava escuro e cheirava abandono, acho que comecei a chorar antes de chegar ao quarto, acho que nem percebi. Eu só sabia que algo estava muito errado, eu só sabia que mataria Mulder por estar fazendo aquilo. Eu o mataria por estar sendo tão fraco agora, ele não podia ser fraco. Não ele. Não assim. Encontrei-o deitado de bruços. Os olhos fechados, respirava pesadamente. Parecia dormir, mas eu sabia que era muito mais que isso. "Mulder, acorda!" Acho que ele me mandou embora. Ele achou mesmo que eu iria? Eu estava realmente brava, realmente triste, realmente desesperada. "Mulder, levanta agora. Seu idiota, o que você pensa que está fazendo?" Eu queria só sacudi-lo até que toda aquela apatia saísse de seu corpo. Eu queria, se possível, ver até as ondas negras saindo de seu corpo. Minhas mãos se encravaram firmes na carne macia de seus braços. Com certeza ficaria marca, mas eu precisava que marcassem. "Scully, vai embora" Ele sussurrou, tão baixo, tão baixo. Eu quase quebrei, quase caí, só então percebi que estava mesmo chorando. O que estava acontecendo ali? Por favor, será que alguém poderia por o mundo de cabeça para cima de novo? " Mulder, levanta, por favor" Eu estava implorando. Eu, que nunca pedia, estava implorando. Estava chorando, estava dizendo por favor, por favor. "Vai embora, Scully, eu preciso dormir...Eu só preciso dormir e tudo vai ficar bem" Ficar bem? Dormir? Não, ele não podia dormir. Ele tinha dito coisas demais, mostrado coisas demais para ir simplesmente dormir. "Mulder, Mulder, me escuta" Eu estava gritando de novo. Eram três horas da manhã e os vizinhos deveriam estar ficando nervosos, mas naquele momento nada importava. Eu achei que ele fosse morrer. Ele ainda estava de bruços. "Mulder, por favor, não faz isso comigo de novo." Eu deitei a cabeça nas costas dele. "Mulder, eu te amo também, não desiste agora." Eu tinha dito. O maior de meus segredos, a maior das minhas verdades, as palavras que eu não queria confessar nem para mim. Eu as havia dito sem nenhuma hesitação, quase sem perceber, simplesmente dito. Elas era tão verdadeiras que eu só conseguia soluçar ainda mais. Aquilo estava ficando ridículo. " Não chore" Ele pediu. Ele pediu com voz tão suave e sofrida que obedeci. Que parei de chorar, que parei assim como ele. Deitei-me a seu lado, com as mãos suavemente nos cabelos castanhos. Dois podiam jogar aquele jogo. "Então vamos desistir juntos" Ele abriu os olhos. Pela primeira vez em muito tempo eu vi medo desenhados lá. Muito medo e confusão. "Scully, o que você está fazendo? Scully, Scully...Não desiste, levanta...Scully, por favor" "Você não quer morrer, Mulder? Podemos fazer isso juntos" "Eu não quero morrer, Scully. Eu só quero que a dor passe." Toda raiva passou, todo medo passou. Ele parecia só uma criança, só a minha criança. E era tão mais que isso. "Vai passar, vai passar..." "Agora, pode até ser, mas quanto tempo vai demorar até que volte de novo? Uma semana, um mês? Não importa quanto tempo, Scully, vai voltar. Eu sou tão sem sentido, tão inútil, você não precisa de mim, ninguém precisa, porque eu não faço nada certo mesmo. As pessoas podem até não morrer por minha causa, Scully, mas eu nunca consigo livra-las disso." "Aquele homem não morreu por sua causa." "Eu sei, mas eu não consegui salva-lo. Eu não consegui salvar Samanta, não consegui salvar você." " Não estava em suas mãos. E você me salvou, sim, tantas e tantas vezes." Eu queria tanto que ele acreditasse na verdade daquela frase, tanto que ele soubesse que era por causa dele que minha vida parecia tão boa apesar de ser horrivelmente fria. Que havia sido ele que havia me salvado mais do que de monstros, de fantasmas, de assassinos, ele havia me salvado da mediocridade, da ignorância, da cegueira em que todos parecem se enclausurar. Por que ele não conseguia entender? Por que ele estava querendo fugir disso agora? "Você está errada." "Não." "Não?" Balancei negativamente a cabeça para que ele entendesse. "Quer ouvir uma história?" –Ele disse tão fraquinho. "Quero" " Havia um mundo em que todo o dia é carnaval. E todas as pessoas parecem ser felizes. Mas existem aquelas que não gostam do carnaval e o barulho da festa irrita seus ouvidos. Para algumas pessoas a vida inteira é um grande carnaval, mas ele é apenas um palhaço idiota que não consegue se acostumar com o som da música. E o palhaço um dia encontrou alguém que conseguiu fazer a festa mais divertida, mas ele sabia que a sua companhia fazia com que ela não pudesse aproveitar. E ele não quis mais brincar, não quis mais atrapalha-la, nem quis mais tentar. Ele só queria dormir, Scully. Dormir porque assim não haveria mais barulho, nem pessoas rindo, nem pessoas chorando, nem culpa, nem nada. Só dormir. E talvez, só talvez, quando ele acordasse a festa já houvesse acabado." Eu não soube o que dizer. Talvez ele estivesse certo. Algumas pessoas não sabem dançar. Elas balançam-se em ritmo próprio, e nem por isso menos bonito. Era só por a melodia certa. "Tudo bem, pode dormir, Pierrot. Eu estou aqui para quando você acordar." E ele fechou os olhos e caiu em seu tão merecido descanso. Sem sonhos. XXXXXXXXXXXXXXXX Quando acordei, sentia-me melhor. Tão melhor que achava que a depressão da noite anterior fora só outro de meus pesadelos. Até que a vi. Estava adormecida ao lado, na cama. Estava de pijamas cinza claro. Ela havia dirigido até ali só de pijamas cinza claro. Definitivamente, minha memória não estava me traindo. Toda a realidade se apresentou bem vivida ao meus olhos. Bem, eu havia dito muita coisa...Eu estava quase bêbado e não havia aberto uma garrafa sequer de qualquer coisa alcóolica ontem... E estava me sentindo leve. Estranha, ridiculamente leve. Como se a vida fosse certa, como se eu fosse certo na vida. Levantei-me tão devagar quanto possível para não desperta-la. Café. Um café cairia bem naquele manhã. Eu quase sorri. Eu era tão ridículo. Eu havia feito realmente uma bagunça com o mundo ontem a noite. Scully deveria ter ficado louca de preocupação. Eu ficaria. Desta vez, realmente ri. Idiota, bem idiota. O cheiro de café se espalhou pelos cômodos e provavelmente acordou minha parceira. Os olhos dela estavam sonolentos, meio inchados, confusos e esperançosos. " Está tudo bem, Mulder?" Eu sorri. Algumas horas atrás tudo parecia intenso e escuro. Feroz e fugaz. Hoje, eu me sentia a beira da felicidade. Eu ( desculpe por me repetir) me sentia ridículo como todas as cartas de amor. E como era boa a sensação de que estávamos vivendo todos uma grande comedia. " Senta aqui, Scully" Ela parecia tão desconfiada. Tão linda. Tão, tão...era quase indescritível e com certeza, eu estava próximo de fazer uma grande bobagem . Sentou-se e coloquei uma xícara de café a sua frente. A fumaça deixava os olhos azuis mais nítidos. Ela tomou um gole devagar. Estava quente, mas é assim que são algumas das melhores coisas. " Desculpe por ontem, não por Ter dito o que eu disse, mas por Ter te preocupado. Eu estou bem agora." "Mulder, você me assusta." "Eu sei, desculpe, eu não queria Ter te assustado ontem, eu só estava meio..." " Não, você está me assustando agora." Eu não entendi. O que estava errado? "Mulder, ontem eu pensei que você estava prestes a se matar. E hoje você está com essa cara de felicidade incompreensível. Isso não é normal. Você é o psicólogo, você sabe. Mudanças bruscas de humor costumam querer dizer..." Aquela era minha Scully. " Não racionalize, Scully. Eu estou bem. Apesar de tudo, não sou nenhuma espécie de maníaco depressivo." E eu ganhei o prêmio máximo. Ela sorriu. O menor dos sorrisos. O mais tímido. Como eu adorava aquele sorriso. "Bom café" Eu sorri também. " Mulder?" "Sim?" "O que aconteceu ontem?" " Acho que eu explodi, depois me juntei novamente. É bom." "Vai acontecer de novo?" " Não, em muito, muito tempo." "Mulder?" "Sim?" "Tudo que você disse, era verdade? Era loucura? O que era tudo, Mulder?" "Pedaços, só pedaços de mim mesmo." "Eu sou um pedaço de você?" "Um pedaço bem grande." As mãos dela giravam a xícara quase nervosamente. "Quer falar sobre isso?" "Sobre meu pedaço de você?" "Não, sobre tudo." " Só se você quiser." "Mulder, dê uma resposta direta e não enrole" Tudo bem, ela merecia aquilo. " Eu estava cansado ontem. Às vezes eu penso mesmo tudo aquilo, às vezes eu fico mesmo muito triste. Às vezes eu quero dormir para sempre. Às vezes eu te amo muito. Às vezes eu queria que você não estivesse perto. Às vezes eu me odeio, às vezes eu me amo muito. Às vezes eu sou egoísta, às vezes altruísta. E às vezes fraco e às vezes forte. Às vezes eu minto e às vezes eu falo a verdade. Às vezes eu acho que não te mereço, às vezes acho que passaria minha vida toda a seu lado. Às vezes acho que quero ser seu amigo, seu irmão, seu marido, seu amante secreto. Às vezes eu acho que o mundo é péssimo, e as vezes que é um ótimo lugar, e que merece que lutemos por ele. Na maioria das vezes eu sou o Mulder que você conhece, o que te ama, que te quer, o que acredita, o de sempre. Mas às vezes, às vezes as coisas mudam. Mas logo elas mudam de novo. E não se preocupe, Scully, você sempre vai ser a minha constante." Uau, eu tinha dito aquilo tudo de uma vez, sem parar para respirar, sem parar, quase sem virgulas. Suspirei e sorri de novo. Um grande sorriso. Ela era a personificação do espanto tomando café. Eu estava orgulhoso de mim. Às vezes é bom surpreender. Além do que, ela me amava também e nós tínhamos a vida toda. A vida é um grande carnaval. Eu era um Pierrot e mesmo que não parecesse, tudo estava bem. Columbina virou a cabeça para trás e soltou uma de suas raras gargalhadas. Não era bem a resposta que eu esperava, mas eu não esperava respostas. Quando as lágrimas secaram e ela parou de rir, disse-me simplesmente. "Às vezes eu amo tanto você, Mulder." " E às vezes?" " E às vezes eu me esqueço disso, mas não por muito tempo. Não por muito tempo" Aquele foi um dia bom. Naquele dia as coisas mudaram. Foi a nossa festa do pijama, na cozinha, rindo e tomando café. E aquele dia nos amamos muito. Às vezes, é para sempre. O fim é sempre o começo de outra coisa....