Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, e as personagens do filme "Stigmata" pertencem aos seus criadores e produtores, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Mistério/ Suspense/ Drama. Nome da fan fiction: A Revolta da Fé Spoilers: Revelações; O Serafim. Resumo: Crossover entre Arquivo-X e o filme Stigmata. Os agentes Mulder e Scully envolvem-se numa atmosfera de terror e medo em que descobrem que quanto mais se aproximam de Deus, mais expostos ficam às visões do mal e ao tormento de seus próprios demônios. Obs.: Há muitas passagens escritas semelhantes, senão idênticas, às de Stigmata, mas o fato de não ter assistido a este filme, não implica de forma alguma no entendimento desta fan fiction. A Revolta da Fé Belo Quinto, Sudeste do Brasil 1998 Ao longe em meio aos morros, uma penumbra destacava-se sob o tom dourado e púrpura do céu nas várias nuanças do entardecer, a sombra delineava a forma de uma igreja, no interior desta a uma tênue luz de vela, um homem aparentando 60 anos, tendo o corpo magro coberto por vestimentas de monge, possuía um pergaminho, amarelado pelo tempo, aberto aos seus olhos. Lia o conteúdo do documento frágil e corroído, cujas palavras estavam num alfabeto e numa língua estranhos, traduzindo a mensagem expressa nele numa folha em branco, na qual escrevia: "Jesus disse que o reino de Deus está em você". Logo em seguida, largou a caneta sobre o papel, pegando um rosário, e de modo delicado e cerimonioso enrolou-o na mão, levando-o à testa para rezar silenciosamente. _____________________________________________________________________ _ O sol brilhava insuportavelmente no céu azul, castigando a região árida e seca com seu incessante calor. Uma névoa de poeira era erguida do chão de terra vermelha, conforme uma multidão se dirigia a um portal de entrada numa muralha de pedras, que levava a um pátio onde residia uma rústica construção, a igreja da vila. Na torre desta, o sino começou a tocar um som insistente, ecoando para além dos limites do muro, alcançando a massa de fiéis que carregava estatuetas de santos, anjos ou arcanjos, dentre as pessoas havia aleijados e cegos que buscavam milagres ou um conforto da alma. Uma procissão acontecia, homens carregavam uma imensa cruz com a imagem de Cristo crucificado, sendo eles acompanhados por várias mulheres envoltas por tecidos alvos, imaculados, brancos, trazendo panos a enrolar as cabeças, escondendo os cabelos, e velas acesas seguras nas mãos. Completando aquele ritual, crianças vestidas de anjo caminhavam ao lado dos mais velhos, e todos unidos entoavam cantos religiosos. Em meio àquele cenário harmonioso, uma imagem se destoava daquilo tudo, um homem de pele pálida, cabelos curtos e muito negros, usando óculos escuros que lhe ocultavam o celeste profundo dos olhos, passava por entre as pessoas na multidão, admirado com aquela demonstração de fé. Ao alcançar a porta do prédio simplório, transpondo-a, deteve-se a observar o interior da igreja, que estava repleto de fiéis; uma tímida luminosidade proveniente das velas incandescentes, espalhadas por entre as pessoas, juntamente com raios furtivos de luz que se infiltravam pelas frestas das paredes e pelos vitrais, emprestavam uma atmosfera sacra, monástica e espiritual ao local imerso na escuridão. O homem seguiu para o altar, onde um jovem de batina se encontrava postado, seus passos ecoaram secos pelo assoalho. Apresentou-se, num português latinizado, ao jovem padre como investigador do Vaticano, perguntando, em seguida, pelo encarregado da paróquia. - Padre Almeida - respondeu enquanto lançava um olhar em direção ao altar, o homem acompanhou o movimento do outro, vislumbrando um caixão aberto, dentro um velho padre repousava num sono ininterrupto, com as mãos unidas sobre o peito, em uma delas, um rosário enrolado sobre os dedos, na outra, uma antiga foto, em preto e branco, amarrotada. Desviou sua atenção para o real motivo de sua ida para lá, uma estátua de pedra sólida em branco sobre um pedestal, na base deste havia flores em todos tons e perfumes, com várias velas acesas em homenagem à imagem. A estátua de traços delicados retratava a imagem de Nossa Senhora, de seus olhos brotavam e escorriam lágrimas de sangue, que maculavam o branco da face da Santa, os fios de sangue que traçavam caminhos vermelhos terminavam próximos ao queixo, gotejando sobre o alvo busto da imagem, manchando-o. Um vento inesperado e repentino soprou dentro da capela, apagando sob o pedestal as chamas das velas acesas, um silêncio instalou-se por alguns instantes até ser brutalmente rompido pelo barulho de inúmeras pombas, que levantaram vôo de trás da estátua de Nossa Senhora por sobre os romeiros, mulheres e homens se benzeram assustados enquanto as penas brancas das aves deslizavam num suave balé pelo ar até tocarem o chão. No fundo da igreja, na parede atrás do altar havia a imagem desenhada de Jesus Cristo com uma pomba a sobrevoar-lhe a cabeça. Num repente, as velas apagadas pelo vento, acenderam-se inexplicavelmente aos olhos de todos os presentes, o homem recém chegado observou aqueles acontecimentos surpreso. - A estátua começou a chorar no dia em que Padre Almeida morreu - começou o jovem padre - As pombas voltaram e Nossa Senhora chorou desde então. - As lágrimas de Nossa Senhora são as lágrimas de Cristo - gritou uma senhora. Enquanto o investigador enviado pelo Vaticano conversava com o jovem padre, analisando a validade das lágrimas de sangue da estátua, um menino aproximou-se do caixão, surrupiando o rosário das mãos do falecido padre retirou-se despercebido da igreja. Vendendo, em seguida, a peça a uma turista estrangeira que passeava pela feira de artesanatos, em busca de objetos como recordações da região. Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora _____________________________________________________________________ _ Washington D.C. 2000 Uma fita amarela de isolamento cercava a igreja católica São Bartolomeu, despertando a curiosidade das pessoas que lá se encontravam atraídas pelo entra e sai de policiais e principalmente pela desgraça alheia ainda desconhecida delas, portanto estavam ansiosas para se deliciarem com a tragédia oculta naquele templo religioso, tornando desse modo suas vidas insignificantes e vazias mais emocionantes. Os agentes Mulder e Scully passaram pela fita depois de se identificarem aos policiais, alcançando a escadaria da igreja, onde um homem veio recebê-los. - Vocês devem ser os agentes Mulder e Scully - esticou a mão para cumprimentá-los - Sou o delegado Dean Rupert, o encarregado do caso. - Qual é o caso? - perguntou Mulder. - Soube que vocês têm experiência em casos de natureza ritualística, então resolvi chamar o FBI antes mesmo de iniciar qualquer investigação logo que vi o crime - coçou a testa nervoso - Não quero a imprensa caindo em cima da gente e nem que isso se repita novamente, quero o desgraçado que cometeu tal atrocidade o quanto antes possível. - Quem era a vítima? - pronunciou-se Scully. - Foi identificada como Sarah Besinger, encontrada pelo padre Paul Ryder lá pelas 7h da manhã. - Vamos ver a vítima - o agente alto precipitou-se pelas escadas. - Agente Mulder - interrompeu-o Rupert. - O quê? - estacou nos degraus, voltando-se para ele. - A vítima havia sido dada como desaparecida há 2 dias e tinha... apenas 6 anos - engoliu em seco. O agente fez um leve aceno de cabeça compreendendo e seguiu em frente acompanhado pela parceira e pelo jovem delegado. Entraram na igreja, um grupo de peritos andava de um lado a outro, medindo, vasculhando cada perímetro do local, em busca de digitais e vestígios invisíveis que viessem a delatar o responsável. Rupert guiou os agentes até o altar, onde se encontrava à sua frente, no chão, um pequeno volume coberto por um plástico preto, indício da morte. Agachou-se próximo ao corpo, erguendo o plástico, todos ficaram por alguns momentos em silêncio como em sinal de luto por aquela criança franzina, pequena, seu rosto era de uma palidez mortal, o cabelo encaracolado e dourado esparramava-se ao redor da cabeça como uma coroa, uma auréola. O pequenino corpo estava esticado sob o altar com os braços abertos e as pernas unidas. Scully manteve sua máscara de frieza e profissionalismo, por mais que aquela visão em seu interior a revoltasse. Vestiu as luvas brancas, evitando olhar o rosto da criança desviou sua atenção para os pulsos envoltos por esparadrapos manchados de sangue. - Os pulsos foram perfurados - disse ela depois de tirar os esparadrapos de um dos braços e examinar uma das feridas. - A posição e os ferimentos remetem à crucificação de Cristo - manifestou-se o parceiro, desenhando no ar com o dedo uma cruz imaginária sobre o corpo da criança. - Já interrogaram o padre? - Scully cobriu novamente a vítima. - Ainda não, ele estava muito nervoso, se quiserem interrogá-lo agora, o padre está na sacristia. - Mulder, vou para o necrotério, quero fazer a autópsia. - Vou providenciar a remoção do corpo - retirou-se o delegado, deixando os agentes a sós. Scully observou o delegado se afastar, depois de pé, frente ao altar, deixou seus grandes olhos azuis vagarem pelo plástico preto até erguerem-se para a imagem de Cristo crucificado, que estava pendurada na parede atrás do altar. Deteve-se a observar cada detalhe da imagem esculpida em madeira, cada ferida, buscando compreender se possível a morte precoce da inocência, dos sonhos daquela criança. - Scully - chamou-a o parceiro. - Hum? - voltou a face para vê-lo. - Você estava tão longe - fitou os olhos celestes da amiga com os seus preocupados. - Mulder, encontro você mais tarde - ignorou-o sem perceber, afastando-se dele em direção à saída. O homem de olhos verdes ficou a observá-la até vê-la cruzar a porta e desaparecer. Sentia que aquele caso de algum modo abalaria Scully, assim como tudo que envolvia sua fé, suas crenças diretamente ou não. Houvera alguns casos com os quais se depararam com o elemento religioso, em que ele se tornara o cético e ela, a crente, como o do garoto dos estigmas e o das quadrigêmeas, os serafins. Mulder deixou aqueles pensamentos de lado, indo juntar-se ao delegado que já havia tomado as providências necessárias à remoção do corpo para o necrotério. Dirigiram-se à sacristia, onde encontraram um senhor por volta de 70 anos, vestido em sua batina, a altura e a magreza acompanhadas da velhice faziam-no curvar a coluna na cadeira em que estava acomodado. O policial que lhe fazia companhia, estendeu-lhe um copo d'água. - Padre Ryder, este é o agente Mulder do FBI - apresentou-os Rupert logo que entraram na pequena sala - Como está se sentindo? - Melhor, obrigado - estendeu a mão magra, de veias azuladas a tremular para repousar o copo, que segurava, sobre uma mesinha ao seu lado - Sei que devem Ter muitas perguntas para me fazer, agora já me sinto em condições de respondê-las, meus filhos. Mulder puxou uma cadeira, sentando-se próximo ao senhor de cabelo branco. - Padre Ryder, conte com o maior número de detalhes possíveis, que o senhor se lembrar, o que aconteceu antes de encontrar o corpo - pediu Mulder em um tom suave, macio, como a falar com uma criança. - Eu levantei quando o despertador tocou às 6h, fiz as minhas orações e as minhas tarefas, então quando deu 7h fui preparar a igreja para abri-la, foi aí que... - não conseguiu completar, tirou os óculos e passou a mão pelos olhos úmidos, respirou profundamente para prosseguir - Eu... eu vi aquela criança, a pequena Sarah, que batizei quando ainda era uma recém-nascida... - Conhecia a criança?! - Fiz o batizado, a primeira comunhão e o casamento de sua mãe, conheço a família dela há mais de 30 anos - não pôde evitar das lágrimas deslizarem silenciosas de seus olhos tristes - Durante os dois dias em que esteve desaparecida, sua mãe Laura e eu rezamos ao Nosso Senhor para protegê-la e devolvê-la à sua família sã e salva, não entendo como algo tão terrível pode acontecer, minha vida religiosa não me preparou para ver aquela vida tão brutalmente roubada - levou as duas mãos ao rosto, escondendo-o juntamente com os soluços. Ficaram todos em silêncio esperando o velho padre acalmar-se. - O senhor está bem, padre? Acha que pode continuar? - colocou Rupert a mão sobre o ombro do religioso num gesto de conforto. - Quero continuar, meu filho - ergueu o rosto - Se eu puder ajudar, então quero falar. - O senhor não lembra nada de incomum que tenha acontecido durante a noite? - o agente ajeitou-se na cadeira. - Não percebi nada de incomum, nenhum barulho, nada - respondeu numa voz rouca - Tranquei todas as portas e janelas dessa igreja, tenho certeza, não entendo como quem fez aquilo conseguiu entrar. - Agente Mulder, verificamos todas as entradas desse prédio, não houve nenhum sinal de arrombamento, realmente não havia por onde o criminoso pudesse entrar a não ser que tivesse a chave - esclareceu o delegado. - Alguém além do senhor possui a chave desse lugar? - Não, cuido dessa paróquia sozinho, ela está sob minha responsabilidade há 40 anos. - Já que o senhor conhece a família de Sarah Besinger há tantos anos, sabe me dizer se os Besinger possuíam qualquer tipo de inimizade que pudesse resultar no rapto e na morte da filha deles? - Mulder observava aquele homem perplexo pelas atrocidades de que era capaz um ser humano. - Não, não sei lhe dizer, mas Laura vem muito à Igreja se confessar e conversar comigo, e nunca mencionou qualquer coisa parecida - possuía a cabeça baixa - Mas quem poderia fazer mal a uma família sempre tão correta, religiosa, pacífica? Para quê fazer tamanho mal levando-lhe a pequena Sarah? Que culpa possui uma criança? - as lágrimas vieram aos olhos claros e singelos do triste senhor com tamanha intensidade que não pôde evitar de derramá-las. _____________________________________________________________________ _ Necrotério de Quântico 5:30 p.m. Mulder seguiu por um corredor, abrindo uma das portas, que levava a uma sala, avistou a parceira com uma prancheta nas mãos, concentrada na leitura dos papéis dos exames. - E então?- tentou chamar a atenção da parceira que não percebera sua entrada. - Hum? - voltou-se para ele - Saíram os resultados dos exames que mandei fazer - balançou a prancheta aos olhos dele. - O que conseguiu? - aproximou-se da mulher ruiva, ficando de frente a ela. - Sarah Besinger morreu vítima das feridas, de hemorragia. Mulder, essa criança teve os pulsos perfurados por pregos, encontrei vestígios de ferro oxidado, de ferrugem - fitou-o revoltada - E o pior é que quem fez isso, não aplicou qualquer tipo de sedativo ou anestésico, pregou os pulsos da vítima com ela consciente, não encontrei qualquer indício de drogas na circulação sangüínea ou outro tipo de violência - suspirou - Deus, isso é por demais cruel, a dor que deve Ter sentido aquela criança. - Vamos pegar quem fez isso, Scully. Não se preocupe. - O que me preocupa é não saber se esta será a única vítima - enrugou a testa. - Acredita que estamos lidando com o início de uma série, com um serial killer? - Não sei, não podemos Ter certeza até aparecer um segundo corpo nas mesmas condições, e isso é o que eu não quero - desviou os olhos celestes de Mulder para a mesa agora vazia da sala de autópsias - Se ainda tivéssemos alguma pista, mas quem fez o trabalho, o fez de modo a não deixar nada de comprometedor no corpo da vítima que viesse a denunciar o seu responsável. - Terminou tudo por aqui? Balançou desanimada a cabeça em sinal de positivo. - Vamos falar com os pais da vítima, no caminho eu lhe conto o que consegui - caminhou em direção à porta e parou à espera da amiga. Seguiram juntos para o carro, a mulher ruiva acomodou-se no banco do carona, Mulder deu a partida no automóvel, quando já em movimento resolveu pôr a par das informações sua parceira. - O padre Ryder, um homem de 75 anos, conhecia a vítima e a família dela desde que assumiu a responsabilidade pela Igreja São Bartolomeu há mais de 30 anos, sabia do desaparecimento da criança, parece que a mãe dela, Laura Besinger, tem no padre Ryder um confessor e um amigo, ele quem fez seu batizado e o da filha, além da primeira comunhão e do casamento dela, é uma fervorosa católica praticante - parou o carro frente ao sinal vermelho - Não houve nenhum esclarecimento relativo à entrada que o assassino se utilizou para deixar o corpo dentro da igreja, sendo que todas as entradas e saídas estavam bem trancadas, sem qualquer sinal de arrombamento. - O assassino poderia Ter a chave. - Talvez - atravessou o cruzamento ao sinal verde do semáforo - O padre Ryder disse ser o único a possuir as chaves da igreja e a ser o responsável por ela. - Então, temos nele um suspeito - observou sem muita convicção Scully - Mas não seria difícil uma pessoa qualquer entrar numa igreja e estando o padre ocupado com a missa por exemplo, pegar as chaves do aposento dele e copiá-las, seria muito simples. - Tem razão, mas não qualquer pessoa - olhou-a de soslaio rapidamente e continuou - Estava pesquisando alguns dados, procurando por informações no FBI enquanto você fazia a autópsia, e pude perceber que a casa dos Besinger se localiza num bairro muito distante de onde se encontra a Igreja São Bartolomeu, sendo que há no caminho da residência até a igreja do padre Ryder pelo menos 5 igrejas católicas, muito mais próximas dos Besinger, havendo uma no próprio bairro deles. - Quem cometeu aquele crime não escolheu a São Bartolomeu por acaso, conhecia os hábitos deles - disse adivinhando os pensamentos do parceiro - Acredita que possa haver alguém que queira se vingar da família? - Tudo é possível, tanto melhor se for assim, porque daí não precisaremos nos preocupar com o fato de estarmos lidando com um assassino em série e com a possibilidade de encontrarmos outros crimes semelhantes. _____________________________________________________________________ _ Residência dos Besinger 6:05 p.m. A campainha soou estridente, uma mulher jovem veio atender os agentes. - Pois não? - perguntou, possuía os olhos avermelhados. - Somos os agentes Mulder e Scully do FBI - mostraram-lhe as insígnias - Estamos investigando o caso de Sarah Besinger. - Sou a tia dela - estendeu-lhes a mão - Por favor, queiram entrar, vou chamar meu irmão. Guiou os agentes até a sala de estar, deixando-os logo em seguida, e voltando um pouco depois acompanhada por um homem alto, abatido, de olhos muito verdes. - Sou William Besinger, pai de... Sarah - apresentou-se, esforçando-se para ocultar a emoção em suas palavras. - Somos os responsáveis pelas investigações do crime, sabemos que ainda é tudo muito recente, mas precisamos fazer algumas perguntas - explicou Mulder. - Sei... claro...sentem-se por favor - indicou-lhes o sofá - Mas minha esposa não está em condições de responder a qualquer pergunta que seja, tivemos que sedá-la para que pudesse se acalmar. - Não vamos nos demorar. Seremos rápidos. - Obrigado. - O senhor e a sua esposa conhecem alguém que tivesse o interesse de prejudicá-los? - Não que eu saiba, sempre tivemos boas relações com nossos vizinhos, colegas de trabalho, amigos, não acredito que haja alguém entre nós capaz de tamanha... - engoliu as lágrimas. - Sua filha desapareceu de onde? - Ela estava brincando no parque, Laura se distraiu conversando com as mães de outras crianças quando ela desapareceu - passou as mãos pelo rosto, esfregando os olhos. Scully observava o rosto de William Besinger, descobrindo em seus traços os de Sarah cujo pequenino corpo havia autopsiado. - Onde fica este parque? - Há dois quarteirões daqui, sempre a levávamos lá para brincar - não pôde evitar dos olhos ficarem úmidos, e de uma lágrima lhe fugir sorrateira de um deles, deslizando pela sua face pálida. A mulher ruiva calada apenas ouvia, sem nada perguntar, seus olhos azuis discretamente dançavam pela sala de estar, percebendo os objetos que simbolizavam a fé daquela família: dois quadros de pinturas religiosas, num deles Virgem Maria com o menino Jesus no colo estava representada, no outro, uma cópia da Santa Ceia de Michelângelo; sobre um móvel de madeira escura repousava uma bíblia aberta com um rosário, e acima dela, pendurada na parede, uma cruz. Voltou sua atenção para o homem sentado na poltrona à sua frente, o verde de seus olhos parecia mais intenso com as lágrimas, os cílios molhados e curvos emprestavam-lhe um ar delicado, quase feminino. Chorava meio envergonhado. - Me dêem licença, já volto - ergueu-se de seu lugar, desaparecendo por trás de uma das portas da sala. Mulder e Scully permaneceram em silêncio, sem trocar qualquer palavra, à espera de William. - Desculpem o meu estado, é muito difícil para mim - voltou, sentando-se novamente. - O senhor e sua esposa sempre freqüentaram a igreja? - Sim, nossas famílias sempre foram muito católicas. Eu mesmo conheci Laura numa missa de Domingo. - Por que freqüentam a igreja São Bartolomeu se há outras igrejas católicas mais próximas de sua residência? - Mulder já sabia a resposta. - Laura cresceu freqüentando aquela igreja, eu também, temos um apego todo especial por aquele lugar e pelo Padre Paul que a dirige, temos neles a verdadeira Casa e Mensageiro de Deus. - Obrigado, senhor Besinger - Mulder ergueu-se do sofá acompanhado pela parceira - Qualquer coisa que venha a se lembrar, nos informe - estendeu-lhe um cartão. - Por favor, encontrem quem tirou a minha garotinha. - Faremos o possível para encontrar o responsável. - Quero o impossível. Os agentes seguiram para o carro. Scully permaneceu silenciosa, Mulder resolveu interromper as reflexões da amiga enquanto dirigia até a casa dela. - Scully - chamou-a, observando-a pelo canto dos olhos, ela estava com a cabeça voltada para a janela, a noite já caíra, tudo lá fora passava rápido numa mistura de luzes e escuridão - Scully, está me ouvindo? - Estou - não se voltou para fitá-lo. - Você permaneceu calada durante o tempo todo da conversa com William Besinger, o que aconteceu? - Não havia o que perguntar, você já estava fazendo as perguntas - respondeu simplesmente. - Vamos ver o que temos até agora: a família de Sarah Besinger é extremamente religiosa, e quem cometeu o homicídio, conhecia os hábitos da família, o fato de freqüentarem a Igreja São Bartolomeu, de levarem a filha ao parque; William Besinger afirmou não possuir inimizades; a vítima foi deixada sob o altar da igreja com feridas nos pulsos numa posição que remetia à crucificação de Cristo... - Jesus foi crucificado para pagar pelos pecados dos homens, da humanidade - interrompeu-o Scully. - E se quem matou Sarah quisesse fazê-la pagar pelos pecados dos pais? - fitou-a por alguns instantes enquanto estacionava o sedan cinzento frente ao prédio em que a parceira morava. - Mulder, a autópsia e tudo mais foi muito desgastante, amanhã continuamos, já é tarde - abriu a porta do carro - Seria bom procurarmos saber as pessoas do circulo de amizades dos Besinger que freqüentam a igreja deles e também o parque em que levavam a filha, pois não vejo mais por onde prosseguir nesse caso - suspirou exausta. - Amanhã veremos tudo com mais clareza, Scully, não se preocupe - fitou-a nos olhos azuis tão seus conhecidos - Boa noite. - Até amanhã - voltou as costas para o parceiro, entrando em seu prédio. _____________________________________________________________________ _ Georgetown 7:30 p.m. A porta abriu-se, permitindo a entrada da mulher ruiva, seus passos ecoavam pelo chão enquanto alcançava o interruptor para iluminar a sala. Pegara as cartas que trazia à mão na sua caixa de correio antes de se dirigir ao seu apartamento. Observou-as uma a uma, a maioria não passava de contas, mas dentre elas havia uma de sua mãe, uma de envelope grande e pardo, rasgou-o, pegou a carta e leu-a, Meggie estava passando uns dias na Pensilvânia, na casa de uma amiga, dizia estar bem, aproveitando muito a companhia e a cidade, havia comprado um objeto para Scully numa feira de artigos e peças religiosos que ela lhe mandava dentro do envelope, a agente virou o envelope pardo, pegando o presente de sua mãe, era um rosário de madeira, enrolou-o entre os dedos e ficou a olhá-lo, balançando-o num suave mover de sua mão, mas o sorriso em seus lábios desfez-se repentinamente, seu semblante tornou-se sério, arremessando longe o objeto que foi cair no chão frio. Colocou as cartas sobre uma mesa, segurando a cabeça com as duas mãos e respirando fundo, precisava de um bom banho e uma boa noite de sono. _____________________________________________________________________ _ Igreja São Miguel Arcanjo 8:30 a.m. Scully protegida em seu sobretudo preto do frio adentrou a igreja, e antes que alcançasse o altar, o parceiro veio ao seu encontro. - Que bom que recebeu logo o meu recado. - Outra criança? - tentou lançar um olhar para trás de Mulder, onde um plástico preto estendia-se no chão, mas a altura e o corpo do agente impossibilitavam tal visão. Mulder balançou levemente a cabeça em sinal de positivo como resposta à pergunta de Scully. - Quem era a vítima? - Michael Anderson Reeve, 7 anos, seus pais deram queixa de seu desaparecimento ontem pela manhã - apoiou uma de suas mãos suavemente nas costas da amiga, guiando-a com ele ao altar - Estamos lidando, sem dúvida, com um assassino em série. Pararam diante do volume coberto no chão frente ao altar, a cena repetia-se novamente, Scully podia deslumbrá-la sem mesmo levantar o plástico preto. - Veja - agachou-se o agente, revelando o corpo para ela - A mesma disposição do outro corpo, os esparadrapos cobrindo as feridas dos pulsos - indicava com o dedo enquanto falava. A mulher de olhos celestes não o escutava, estava imersa no estudo meticuloso daquela face infantil tão pálida devido à morte que a adornava. Deteve-se a observar os traços delicados e femininos da vítima, pensando na pouca ou nenhuma diferença na fisionomia de meninos e meninas quando crianças. Os lábios estavam arroxeados, os olhos fechados, os cabelos negros a lhe caírem em revoltadas madeixas pelo rosto, parecia dormir profundamente, mas infelizmente não passava de um sono sem fim e sem sonhos. Via aquela cena sem compreender tamanha perversidade humana, aquilo precisava ter um fim o quanto antes, quantos inocentes haveriam de morrer até conseguirem capturar o responsável? Não queria pensar, evitava tais pensamentos na esperança de que não haveria mais mortes. O agente de olhos verdes parou suas observações, fitando a parceira que não mais olhava o corpo sobre o chão, mas os desenhos na parede atrás do altar, em que Nossa Senhora estava representada com o menino Jesus no colo. - Por que crianças? Por simbolizarem a inocência, a pureza, a alma imaculada das corrupções humanas? - murmurou Scully para si mesma. Mulder permaneceu calado, deslizando seus olhos pela face pálida da agente, não conseguia definir-lhe a expressão, decifrar-lhe a alma naquele momento. - Quem encontrou o corpo? - dirigiu-se ao homem alto, lançando-lhe seus grandes olhos azuis. - O padre Paolo Francesco, história muito semelhante a do padre Paul Ryder. - Não encontraram nenhum lugar por onde o assassino pudesse ter entrado? - Não - mordeu o lábio inferior pensativo por alguns instantes - Ainda não tive tempo para interrogar adequadamente o padre Francesco, seria bom você ir a São Bartolomeu e saber se o padre Ryder além de uma história em comum com o padre Francesco, também possui um passado com ele, eu tentarei descobrir algo por aqui. - Depois da São Bartolomeu, irei para Quântico fazer a autópsia. - Certo. Encontro você mais tarde. Os dois se separaram, cada qual com seus pensamentos e obrigações referentes às investigações. _____________________________________________________________________ _ Igreja São Bartolomeu 9:40 a.m. A agente ruiva estacionou o sedan prateado que dirigia, a passos firmes seguiu para o interior da igreja, não se via mais nenhum vestígio dos acontecimentos do dia anterior, nenhuma faixa amarela de isolamento, nem grupos de peritos e policiais, muito menos o plástico preto a cobrir a morte da inocência, o tempo e a vida corriam, não parando mais que um instante para lamentar os fatos e seguir em frente, esquecendo-se de tudo no segundo após as lamúrias. O padre Ryder realizava uma missa, esta era em homenagem a pequena Sarah pelo que pôde perceber nas palavras dele. Sentou-se num dos últimos bancos da igreja, à espera do fim da missa, não havia mais do que meia dúzia de fiéis assistindo ao velho religioso, talvez as poucas pessoas que lá se encontravam deviam-se ao horário e ao dia da semana. Scully abandonou-se às suas reflexões, deixando seus pensamentos alçarem livres pelas altas colunas que se erguiam do chão de piso liso e lustroso, por cada canto daquele templo religioso. Pensou encontrar naquele local paz quando lá entrara, mas se enganara, pois foi morte o que encontrou, revolta, raiva, aquele lugar começou a incomodá-la, sufocá-la. Onde estaria a paz, o conforto que costumava encontrar para sua alma angustiada em refúgios como aquele? Depois de muito tempo afastada de sua fé, de suas crenças nos primeiros anos de trabalho com Mulder, conseguira resgatá-las quando estava se recuperando do seu câncer, e pensava depois daquela experiência possui-las fortes e inabaláveis, mas o que estava acontecendo? Oras, os filhos têm todo o direito de se revoltarem com seus pais de vez em quando, por que ela não poderia se revoltar com o seu Deus? Talvez estivesse atribuindo a sua impotência frente à morte daquelas crianças a esta entidade divina a que chamava Deus e na qual acreditava. Sentia-se desamparada, perdida, aterrorizava-a a idéia de encontrar outra criança morta, e depois outra, e...balançou a cabeça bruscamente, para jogar tais pensamentos o mais distante que pudesse. Queria culpar seu Deus por tais mortes, mas seria muito simplista contestar-lhe a existência apenas afirmando que a miséria, as atrocidades e a fome existentes no mundo seriam provas concretas da não existência de tal Ser. Um suave bater de porta despertou-a de suas reflexões, era o padre Ryder, os poucos fiéis que ali estavam já haviam saído sem que percebesse, o velho senhor aproximou-se de Scully. - Olá, filha, sei o porquê de estar aqui - sorriu-lhe ternamente, exprimindo paz com simples gesto. Scully franziu as sobrancelhas, observando aquele rosto tão envelhecido e simpático. - Veio buscar respostas... - Sim?! Como sabe? Realmente preciso fazer algumas perguntas ao senhor. - Mas a única coisa que posso oferecer-lhe são palavras para conforta-lhe o espírito e os meus ouvidos para ouvi-la, pois as respostas que procura eu também procuro, e creio que um dos motivos de estarmos aqui na Terra é para procurá-las, nossas vidas se resumem a uma constante busca. Scully percebeu o engano, o padre não sabia do motivo real de sua presença lá, ele falava de fé, ela de um crime, apreciou as palavras sábias dele, mas não estava lá para isso, foi direto ao assunto. - Padre Ryder, sou agente do FBI, Dana Scully - levantou-se do banco, mostrando-lhe a insígnia - Vim falar sobre a morte de Sarah Besinger, as respostas que procuro são outras. - Ah...me desculpe - uma sombra triste pousou sobre seu cativante rosto - Me é difícil acreditar que o dia de ontem realmente tenha acontecido, parece tão distante, um pesadelo. - Compreendo - Scully voltou a se sentar, o padre a imitou, acomodando-se ao seu lado - Sinto ter que dizer que aconteceu novamente. - Deus! Outra criança? - levou uma das mãos à boca estarrecido. A mulher ruiva fez um leve movimento de cabeça afirmando. - Por que isso? - É o que estamos tentando descobrir - fez uma pausa antes de prosseguir - O senhor conhece o padre Paolo Francesco? - Não consigo lembrar de nenhum Francesco - respondeu depois de pensar um pouco - Mas já estou muito velho, a minha memória pode me pregar algumas peças - calou-se por alguns segundos - A outra criança foi encontrada na igreja desse padre? - Sim, o senhor conhece a igreja São Miguel Arcanjo? - O nome não me é estranho, já ouvi falar, mas nunca a visitei, fica praticamente do outro lado da cidade - o velho padre possuía um rosário enrolado nas mãos pálidas e de veias salientes azuladas. - Seria de muita importância que o senhor se lembrasse com certeza se conhece ou não o padre Paolo Francesco. - Assim de repente, eu não consigo lembrar - falou com sinceridade o padre, torturado por não poder responder aquela pergunta. - Se o senhor vier a se lembrar de algo, de qualquer coisa que seja, entre em contato comigo - entregou-lhe um número de telefone. O velho senhor meneou a cabeça. Antes que Scully transpassasse a porta depois de abri-la, o padre chamou-a. - Senhorita Scully - ela virou a cabeça para vê-lo - Deus olha por todos nós, mas Ele nos concedeu o livre-arbítrio, e não pode interceder por nós em nossas escolhas e ações, temos de arcar com as conseqüências de nossa liberdade. Scully lançou-lhe um sorriso educado e retirou-se. _____________________________________________________________________ _ Apartamento de Scully 7:30 p.m. Com o pequeno corpo encolhido e mergulhado a um canto da banheira, Scully abraçava as pernas com a face oculta entre os braços, passara quase a tarde toda realizando a autópsia da última vítima, outra criança, fechou os olhos com força como se pudesse apagar aquele dia e todos os anteriores. Naquele momento o que mais desejava era o silêncio, a escuridão, a solidão, queria se divorciar do mundo, permanecer no esquecimento. Tudo lhe parecia insuportável, putrifico nos homens, a humanidade neles há muito já havia sido extinta, sepultada em meio às suas ações brutalizadas. Quase podia sentir o odor fétido da carne morta dos inocentes infestando o ar, difundindo-se pela terra e incrustando-se em suas narinas. Todo seu ser imergia numa onda de ira, de revolta por sua impotência, por si mesma, por não ter podido ajudar aquelas crianças. Nem a água morna banhando sua pele lhe apaziguava o espírito revolto, pois a imagem daqueles inocentes estava impressa em sua mente assim como ferro em brasa a marcar-lhe a pele. Respirou profundamente, fechando os olhos e deixando o corpo relaxar, a mente descansar, esvaziar-se das preocupações do trabalho. ___________________________________________________________________ Uma multidão de pessoas corria desesperadamente, todos fugiam, homens, mulheres, crianças e velhos, todos pareciam temer com tamanho horror o que deixavam para trás, temiam até mesmo olhar para atrás, onde se podia ver algumas pessoas cansadas e resignadas esperando que um Ser como uma onda gigante viesse, varrendo-lhes da Terra, arrematando- lhes a vida, transformando seus corpos em sangue, tinham medo, muito medo, mas não possuíam mais forças para correr, e Ele vinha feroz, vingador, alastrando um tapete vermelho por onde passava, Scully olhou para os lados enquanto corria buscando aqueles que lhe eram queridos, seu coração aflito acalmou-se ao perceber o irmão Bill, a esposa e o filho dele, e logo depois a sua mãe que corria ao lado de seu pai, o capitão, e de Melissa com Emily no colo, mas faltava alguém, vira todos seus amigos, conhecidos e familiares passando-a e correndo à sua frente. Nem mesmo um Exército composto por todos os exércitos do mundo deteriam tal entidade, nem mesmo a mais potente das armas atômicas, todos O temiam, ela também, mas queria deter o passo para poder olhar para trás e procurar alguém, sabia que se ousasse fazer isso não mais poderia prosseguir, seu corpo ficaria ali mesmo onde parasse, desmanchado em sangue. Doía-lhe tanto sentir que estava deixando alguém muito importante para trás, ela não sabia explicar o porquê, mas sentia que a salvação estava nas águas claras do mar, e tinham todos que alcançar a praia e entrar no mar, ali estariam seguros e ela poderia então, olhar para trás. Seu terror maior nem era perder a vida, mas ver aqueles que amava morrerem, sofrerem sem um pingo de misericórdia, suas pernas já doíam, podia ver os pais com os filhos nos colos cansados cambalearem e ficarem para trás com um grito agonizante, pois Ele vinha como um Deus vingador, ninguém sabia como era seu rosto, se é que possuía um, só aqueles que ficavam para trás podiam vê-lo antes de seu fim executado por Ele. Suas pernas doíam, a dor por falta de ar já lhe tomava o corpo, a boca e a garganta arranhavam de tão secas, o coração batia descontroladamente, não podia parar, não podia. Para alívio de seu desespero enxergou à sua frente um pedaço de azul translúcido, era água, forçou-se a correr mais e pulou com tudo dentro das águas cuja cor não era azul, mas vermelha, não estava no mar, e sim, num rio de sangue. Era o fim, porém ficou feliz ao perceber seu amigo Mulder correr lá na frente junto com sua família, estavam a salvos, isto já era o bastante para ela, então virou-se para trás, o seu fim, finalmente veria o rosto daquele que chamava Deus e... ___________________________________________________________________ Um barulho estridente despertou-a do sono, acordou sobressaltada dentro da banheira, constatou com alívio que tudo não passara de um pesadelo, devia ser Mulder, ergueu o rosto em direção à porta, mas não estava disposta a sair de seu banho para falar-lhe no telefone. O aparelho insistiu mais algumas vezes até ser atendido pela secretária eletrônica onde Mulder deixou uma mensagem gravada: "Scully, passei no necrotério, mas você já tinha saído, estou indo para aí". A mulher ruiva sabia que não tardaria a chegada de seu amigo e parceiro, se pudesse adiar aquele dia era o que faria, não queria ver Mulder, ele a fazia lembrar do trabalho, do caso que investigavam, e tudo o que queria era poder esquecer, apenas esquecer. Fechou os olhos, deslizando o corpo pela banheira, prendeu a respiração e mergulhou a cabeça na água, bolhas pequeninas fugiam-lhe pelo nariz, os cabelos ruivos flutuavam livres sobre o líquido translúcido, o silêncio e o melodioso murmurar da água inundavam-lhe o espírito de uma deliciosa sensação de paz, desejou passar o resto de sua existência embalada naquele manto isento de dor, de som, de tristes recordações. Quando tornou a voltar à superfície para respirar, assustou-se com um pássaro, uma pomba, que entrou voando em seu banheiro pela janela, fazendo grande estardalhaço. A ave empoleirou-se no porta-toalhas, deixando penas a dançarem no ar até tocarem o piso gélido, Scully pegou uma de sobre as águas plácidas da banheira, e ficou a acariciá-la com os olhos, quando teve seu corpo jogado para o fundo da banheira por uma força invisível, confusa com o que estava acontecendo, começou a debater-se desesperada em busca de oxigênio, as águas serenas tornaram-se violentas, esparramando-se aos montes pelo chão, quando Scully pensava alcançar a superfície, logo em seguida era jogada pelo invisível no fundo, não conseguia ver seu adversário e isso a aterrorizava. Não conseguia entender o que a atacava, mas não tinha tempo para isso, estava se afogando e em suas tentativas para gritar por socorro, mais água engolia. Conseguindo finalmente atingir a superfície, respirou com pressa e dificuldade, sentia o corpo exausto, dolorido pela luta com o nada. Ficou aliviada por perceber o fim daquela situação estranha, mal pôs-se a pensar nos acontecimentos, uma dor lancinante, insuportável percorreu-lhe o corpo e lançou-lhe novamente para o fundo das águas. Seus punhos pareciam estar sendo pregados pelo invisível, sentia com uma intensidade aterrorizante cada golpe, cada martelada a afundar-lhe os pregos na carne, e a cada golpe de martelo, uma imagem desdobrava-se aos seus olhos celestes, a imagem de Cristo com os pulsos a serem brutalmente pregados na cruz, ela também estava sendo crucificada, não possuía forças para se erguer da banheira, para gritar, resistir. Entregou-se à dor, à inconsciência, às águas agitadas que transbordavam pela banheira, inundando o chão do banheiro. Seu corpo tornou-se inerte, entregando-se ao abandono das águas agora tranqüilas, a dor não fora imaginária, e sim, assustadoramente real, a prova concreta era os seus punhos abertos, onde um pendia inanimado para fora da banheira, manchando o piso do sangue que lhe gotejava ininterruptamente, dentro da banheira desfalecida, o seu delicado corpo era envolto por um manto vermelho e líquido de sangue e água. Um tinir da campainha era o único ruído a romper o silêncio sepulcral que se instalara naquele apartamento. Mulder acabara de chegar, sabia que a parceira estava em casa, pois vira fugidia por baixo da porta a luminosidade proveniente das luzes acesas na sala. Tocou novamente o botão estridente da campainha, como Scully se demorava a atendê-lo, presumiu que talvez estivesse tomando banho, então sem qualquer constrangimento depois de tantos anos juntos, pegou uma chave do apartamento da parceira que possuía em seu chaveiro, e entrou na sala, trancando a porta atrás de si. Seguiu pelo corredor chamando por Scully, parou frente à porta do banheiro mal fechada, notando grande quantidade de água a escorrer por baixo da porta para o corredor, detendo um pouco mais o olhar percebeu um tom avermelhado, preocupado abriu a porta do banheiro sem hesitar, entrando e deparando-se com uma cena que lhe suspendeu a respiração e acelerou-lhe o coração, correu para a banheira, apavorado com a visão de Scully inconsciente, com os pulsos a sangrarem, a pele assustadoramente pálida, os lábios da boca e as unhas arroxeadas, pousou dois dedos no pescoço gélido dela, respirou aliviado por constatar que ainda vivia, mas não menos desesperado, pegou seu celular e ligou para o 911 enquanto abria os armários no banheiro procurando por algo para estancar o sangue da amiga, encontrando algumas toalhas apressou-se a enrolar os pulsos dela, amarrá-los, não conseguia pensar no que estava acontecendo, a única coisa que desejava era Scully viva, passou um de seus braços por baixo dos joelhos dela e o outro pelas costas extremamente pálidas, erguendo seu corpo nu e leve da água tingida de sangue carregou-a para o quarto onde envolveu-a num roupão branco que tantas vezes a vira usar, ela estava gelada, abraçou-a fortemente numa tentativa de não deixar a vida dela se esvair com o sangue que já tingia as toalhas amarradas em seu pulso, pois não seria só a vida dela. - Agüenta firme, Scully - sussurrou-lhe aos ouvidos - A ambulância está vindo, fique comigo, por favor - sua voz saiu rouca - O que você fez? - não pôde evitar de algumas lágrimas deslizarem silenciosas pela sua face. ___________________________________________________________________ Hospital de Georgetown 9:00 p.m. Scully vinha inconsciente sobre uma maca empurrada por paramédicos e seguida por um Mulder totalmente transtornado, corriam com a mulher ruiva para o fim de um corredor iluminado onde ficava a sala de emergência. Ao transpassarem a porta, uma enfermeira barrou a passagem do homem de olhos verdes, pedindo para que ele esperasse no corredor. Mulder ficou prostrado próximo à porta que ficou entreaberta quando a enfermeira correu ao chamado de um médico no interior da emergência. Ele não conseguia assimilar tudo que estava acontecendo, parecia-lhe algo irreal, um pesadelo. Repetia-se sem parar como se orasse "Scully, fique comigo, fique comigo", mas isto não o acalmava, deixava-o mais desesperado ao pensar na possibilidade dela não ficar com ele, o sangue em sua camisa e em suas mãos só agravavam o seu terror interior. Dentro da sala, um médico gritava para ligarem o aparelho que media os batimentos cardíacos de Scully.. - Batimentos irregulares - constatou. - Pressão muito alta, .... - falou a enfermeira. Mulder ouvia as palavras com clareza, podia ver pela fenda da porta todo o procedimento, aquilo o torturava. Um alarme dos aparelhos soou, assustando-o. Scully levantou-se de súbito, gritou com tamanha dor como se sua pele estivesse sendo rasgada sem qualquer anestesia, e caiu logo em seguida semimorta. A linha dos batimentos tornou-se uma reta, sem qualquer indício de pulsação. - Estamos perdendo-a - gritou o médico - Preparar desfibrilador e gel. O homem alto não ouvia, nem via mais nada, agachara-se no corredor, tapando os ouvidos com as mãos e apertando bem firme os olhos, como se com isso pudesse evitar o pior, aquilo não podia estar acontecendo, não, ela não podia deixá-lo, ela ia viver, gritava para si mesmo em meio às lágrimas, ao choro sem qualquer pudor em esconder seus sentimentos. Quando o médico se preparava para descarregar uma carga no peito de Scully, ela acordou, abrindo os grandes olhos azuis, e a linha reta começou a desenhar regularmente os batimentos dela sem qualquer interferência médica. - Onde estou? - olhou confusa para o médico que a fitava preocupado. - Está num hospital. Como se sente? - pegou-lhe um dos pulsos para ver o ferimento. - Não sei, bem - disse ainda meio desnorteada. Quando o médico ergueu o curativo de um dos braços, o sangue começou a esguichar, o ferimento fora profundo. A enfermeira saiu para o corredor e vendo o homem grande sentado no chão, chorando feito criança, agachou-se até ele, tocando-lhe o ombro. - Ela está viva, está bem - falou numa voz suave. Aquelas palavras foram o suficiente para trazer-lhe aos lábios o sorriso mais sincero que aquela enfermeira já vira, e muitas outras lágrimas aos olhos do grande Mulder. - Obrigado - foi a única palavra que conseguira dizer em meio à sua comoção. ___________________________________________________________________ 10:30 p.m. Depois de examinada e tratada com os procedimentos médicos necessários, Scully foi transferida para um quarto, onde vestida em roupas hospitalares, deitada numa cama, ouvia o médico que a recebera na emergência. - Teve sorte pelos ferimentos não terem pego alguma artéria, foi por pouco. O homem de olhos verdes estava calado no quarto, apoiado no batente da porta observando-os. - Senhorita Scully, gostaria que permanecesse pelo menos 24h no hospital para observação - continuou o experiente médico. - Não, eu me sinto bem, quero receber alta hoje e voltar para minha casa - falou incomodada com o silêncio do parceiro que a assistia naquele estado vulnerável. - Sei que é médica e entende a minha preocupação, então passe pelo menos a noite aqui - insistiu. - Por ser médica mesmo que afirmo estar bem e em condições de voltar para minha casa agora - encarou-o irredutível em sua resolução. - Mas, antes de liberá-la gostaria que falasse com uma psicóloga da ala de psiquiatria do hospital, vou mandar chamá-la - quando se preparava para sair, Scully o deteve com a sua voz. - Não preciso falar com psicóloga alguma, eu não fiz isso - esticou os braços, passando os olhos do médico para o parceiro que ouvia tudo calado, sem mesmo fitá-la - Mulder... Quando ela mencionou o seu nome com um pedido de ajuda oculto, Mulder resolveu falar: - Doutor Cage, sou psicólogo e amigo da paciente, talvez ela se sinta mais à vontade em falar comigo - dirigiu-se ao doutor - Será que podemos pular os procedimentos e a burocracia do hospital? - Certo, agente Mulder, mas eu não me responsabilizo por nada que venha a acontecer quando vocês traspassarem a porta deste hospital - respondeu rispidamente, retirando-se em seguida, deixando os dois sozinhos. Mulder encostou a porta do quarto e permaneceu de costas para a parceira por alguns segundos, pensando, olhando para o chão, até se voltar para ela e encará-la. - Por que fez isso? - apontou para os pulsos enfaixados dela, fixando os olhos azuis dela nos seus. - Mulder, eu jamais faria isso, nunca cometeria suicídio - olhou-o indignada por tal pergunta. - Então, como você me explica isso, Scully? - aproximou-se dela, sentando-se na beirada da cama e tocando-lhe as mãos, possuía uma expressão séria no rosto. - Não sei, estou confusa, eu estava no banho e de repente acordo num hospital, não sei o que dizer - as palavras saíam convictas de sua sinceridade. Scully baixou os olhos, fugindo da expressão dolorida do parceiro, e nisso notou a camisa branca dele manchada de sangue, de seu sangue, aproximou sua mão vagarosamente até tocar com as pontas de seus alvos dedos as manchas vermelhas no peito do parceiro. - Obrigada por... me salvar a vida - murmurou. Ele segurou com exagerada delicadeza a mão pequena e pálida que o tocava, Scully voltou a face para ele, seus olhos se encontraram. - Você não acredita em mim. - Scully... - balbuciou ele - Eu acredito que realmente esteja sendo sincera, mas você poderia ter cometido tais ferimentos sem ter consciência do que fazia - parou, observando a reação da amiga. Ela ergueu uma de suas sobrancelhas, atitude tão conhecida de Mulder. - Ouça, há uma espécie de psicose, de doença que a pessoa se auto infringe, que ela se machuca propositadamente, se queima com pontas de cigarro ou se corta mas sem ter consciência do que está fazendo. - Por que eu faria isso? - As pessoas que se auto mutilam, às vezes é para exteriorizar algum tipo de culpa que sentem, e se machucarem é a punição que encontram para suas culpas, elas costumam não se lembrar de suas ações e nem sentir dor durante o momento em que estão se auto infringindo objetos cortantes - fitou-a preocupado. - Acha que eu me sinto culpada por alguma coisa e queira descontar isso no meu corpo inconscientemente? - seu rosto estava bem próximo do dele. - Não sei. Você que tem que responder a esta pergunta - fitou-a profundamente nos olhos a espera de uma resposta. - Mulder, eu não sei como explicar o que aconteceu, só sei que não poderia ter sido eu, pense comigo, os ferimentos foram profundos, provocados por algum objeto cortante e afiado que atravessou os meus pulsos, saindo do outro lado, se eu tivesse utilizado uma gilete para cortá-los, ainda teria condições de me utilizar da mão com o pulso cortado para cortar o outro, mas como poderia eu me utilizar de uma mão inutilizada pelo machucado profundo no pulso, sendo que o objeto o atravessou, para fazer o mesmo com o outro? Não possuiria força, nem condições para isso, a dor seria insuportável - concluiu em sua racionalidade. - Scully, as pessoas que se auto infringem não sentem dor quando estão se ferindo, é inconsciente, como se não pertencessem ao corpo que maltratam, não importa o quanto a mão estivesse inutilizada ou a dor insuportável porque você simplesmente não sentiria nada - soltou uma respiração pesada. - Você encontrou algum objeto no meu banheiro com o qual eu pudesse ter me machucado? - olhou-o incrédula. - Como eu poderia pensar nisso quando você estava lá se esvaindo em sangue, Scully? Não tinha cabeça para nada mais que não fosse você! - sua voz saiu trêmula, abaixou os olhos úmidos. - Mulder, por favor, não quero mais falar no que aconteceu - ela possuía um medo irracional em relação aos acontecimentos, não queria mais pensar neles, temia fazê-lo, queria apenas esquecer, tudo estava ainda muito confuso para ela. - Como não? É preciso. - Não, Mulder. Isso acaba aqui - finalizou. Ele sabia que não adiantaria discutir com ela, tudo ainda era muito recente, depois quando ela se sentisse melhor e mais segura retomaria o assunto. - Mulder, eu gostaria de ir para minha casa, não quero ficar aqui - falou num tom baixo, cansado. - Vou telefonar para sua mãe para que não passe a noite sozinha... - Não, não quero preocupá-la, além do mais ela está em Pittsburgh, na Pensilvânia, viajando. Eu só gostaria que você me deixasse em casa, estou bem. - Não vou deixá-la sozinha. - Estou me sentindo muito bem, nem dor sinto. - Você não está bem, se não quer passar a noite no hospital, então terá que me agüentar no seu apartamento, você não tem muitas opções - ergueu-se da cama, taxativo no que dizia. ___________________________________________________________________ 1:00 a.m. Scully já em seu apartamento, no quarto, vestiu o seu pijama azul marinho, calça e blusa de cetim, depois lembrando-se de Mulder na sala, foi até seu guarda-roupa, pegando uma camiseta grande que costumava usar como camisola e um conjunto de lençóis limpos. O homem de olhos verdes estava sentado no sofá, segurando a cabeça pensativo, quando ouviu a porta do quarto de Scully se abrindo e os passos dela pelo corredor, ele reconhecia os passos dela até mesmo sem os saltos de seus sapatos, percebeu que ela se deteve, um silêncio voltou a imperar ao seu redor, preocupado, ergueu-se do sofá, dirigindo-se para o corredor, deparando-se com sua parceira parada frente à porta aberta do banheiro. Ela passeava os enormes olhos celestes pelo banheiro, ainda não o tinha visto, havia água misturada ao seu sangue na banheira e no chão, era difícil para ela acreditar no que tinha acontecido, então, tentava evitar de pensar no assunto. Sentiu alguém segurar-lhe os ombros, era Mulder. - Scully, por favor, vai dormir - puxou com uma das mãos a maçaneta da porta do banheiro, fechando-a - Precisa descansar. - Eu queria ver, ter certeza... - caminhou para a sala, colocando a pilha de tecidos que trazia ao colo no sofá - Mulder, não precisa fazer isso, você já fez demais, vá para casa, esse sofá não é confortável. - Eu quero fazer isso, e nada que eu faça nunca será o bastante para..., bom, além do mais eu adoro sofás - sorriu para tranqüiliza-la. - Eu trouxe essa camiseta para você, não tenho nenhuma outra roupa minha que lhe sirva - estendeu para ele a camiseta branca com um urso estampado e um suave perfume de amaciante. - Obrigado - tirou a camisa ensangüentada, vestindo a camiseta da parceira - Como fiquei com este ursinho? - perguntou com um sorriso, apontando para o desenho no seu peito. - A camiseta ficou justa, mas é melhor que você use por esta noite para não passar frio, vou pegar algumas cobertas e um travesseiro para você. - Deixe que eu pegue, não pode ficar fazendo esforço com as mãos, está doendo? - Não, o ferimento não pegou nenhum nervo ou artéria por isso posso mexer os dedos e a mão sem qualquer problema - ficou olhando para os pulsos enfaixados como se os examinasse. - Mesmo assim é melhor não abusar, onde ficam as coisas? - Há um travesseiro e várias cobertas num baú no meu quarto. Mulder seguiu para o quarto de Scully, vestido na camiseta justa e curta demais para ele com um inebriante perfume. A mulher de cabelos ruivos começou a estender os lençóis sobre o sofá, preocupada com o conforto do parceiro. - Scully, deixe isso aí, eu vou ficar bem - aproximou-se dela, largando o travesseiro e os cobertores no sofá, guiando-a em seguida para o quarto. Fez com que ela se deitasse na cama, e cobriu-a. - Agora, descanse, está precisando de algo? - fitou-a nos olhos. - Não, obrigada - parecia aspirar o ar à sua volta - Está sentindo um cheiro de flores? - Deve ser o meu perfume irresistível - brincou. Ela sorriu. - Boa noite, Scully. - Boa noite, Mulder. ___________________________________________________________________ 6:30 a.m. Alguns raios de sol já começavam a se insinuar pelas cortinas da janela da sala, o sofá mal comportava o corpo estirado sobre ele, Mulder dormia um sono pesado, cansado, envolto por cobertas e abraçado ao travesseiro, mas mesmo a sua exaustão não o impediu de perceber os ruídos vindos da cozinha. Abriu os olhos vagarosamente, reconhecendo o lugar onde se encontrava, esfregou o rosto, espreguiçando-se e tomando coragem para se levantar, pois o perfume e a maciez dos lençóis e das cobertas eram extremamente convidativos para a preguiça que sentia se espalhar por seu corpo. Um aroma de café vindo da cozinha animou-o a se erguer e a se sentar no sofá, a fim de despertar de todo de sua letargia. Mal se colocara de pé, dando uns dois passos em direção à cozinha e fora paralisado por uma dor, soltando um gemido sufocado, tirou o pé de sobre aquilo que o havia machucado ao pisar no chão descalço, era um rosário cujas contas o feriram. Inclinou-se, pegando entre os dedos o objeto, um dos símbolos da fé da parceira. - Bom dia, Mulder - Scully apareceu frente à passagem da cozinha para a sala - Vou pegar café para você. - Como está se sentindo? - perguntou ele, ela já havia desaparecido por trás da porta. - Estou bem, obrigada - respondeu vindo com uma caneca de café chiando de quente. - Encontrei isso no chão - balançou o rosário aos olhos de Scully, que deixou a caneca cair no mesmo instante, estilhaçando-a e deixando o líquido quente esparramar-se pelo chão. - Scully - correu para ela que parecia desmaiar. - Tudo bem, Mulder, só perdi o equilíbrio - falou recompondo-se. - Você não está bem, Scully - e reparando nas roupas formais da parceira continuou num tom repreensivo - Aonde você vai? - sabia a resposta. - Trabalhar - voltou as costas para ele, seguindo para cozinha - Venha, Mulder, estou fazendo torrada e tem suco de laranja dentro da validade. - Não, você não vai trabalhar, vai ficar em casa descansando - contornou o local no chão com café derramado e pedaços de porcelana - Não se preocupe com o trabalho, eu falo com o Skinner sobre... - Não, Mulder - interrompeu-o - Por favor, gostaria que o que aconteceu ficasse só entre nós dois, não quero que ninguém mais saiba. - Está bem, Scully, eu explicarei ao Skinner que você está com uma gripe e ficará afastada por alguns dias... - Não vou ficar em casa, vou trabalhar, estou muito bem para isso - encarou-o decidida - Não aconteceu nada demais, estou ótima. - Não aconteceu nada demais? - aumentou consideravelmente o tom de sua voz, sentindo o sangue a lhe chegar ao rosto - Você quase morreu! Perdeu muito sangue, devia ainda estar no hospital! - Mulder, queira você ou não, eu vou trabalhar - suspirou já cansada daquela discussão - Agradeço a sua preocupação, tudo que você tem feito por mim, mas na minha vida quem manda sou eu! - Certo! Não digo mais nada - começou a calçar os sapatos irritado com a teimosia da parceira - Vou para o meu apartamento tomar um banho - tirou a camiseta de Scully, vestiu sua camisa suja de sangue, pegou o paletó sobre o sofá e se dirigiu para a porta - Vejo você no FBI - disse por fim, saindo e batendo a porta atrás de si. A pálida agente ruiva ficou imóvel, silenciosa, observando-o até que desaparecesse por trás da porta, queria poder dizer que estava com medo, que não queria ficar sozinha em casa, e que o trabalho a distrairia dos acontecimentos da noite anterior, ela queria que ele não fosse, que não a deixasse sozinha novamente com seus pensamentos sombrios, confusos, a única coisa que teria de fazer era pedir para ele ficar, mas ela se calou. ___________________________________________________________________ 8:05 a.m. Ao entrar na sala dos arquivos-x, Scully deparou-se com o parceiro entretido numa pasta de documentos relativos ao caso que investigavam. Mulder percebeu os passos secos ecoando pelo corredor até silenciarem próximo a ele, mas não ergueu o rosto, continuou atento à pasta. - Mulder - iniciou Scully, sentando-se numa cadeira frente a ele - Eu trouxe o relatório da autópsia de Michael Reeve, também morreu vítima de hemorragia em decorrência das feridas nos pulsos, encontrei vestígios de ferrugem nos ferimentos, assim como na primeira vítima. Fez uma pausa, esperando que o parceiro voltasse a atenção para ela, mas como ele continuasse com os olhos baixos nos papéis, sem lê-los, Scully prosseguiu: - Falei com o padre Ryder, o nome do padre Francesco não lhe parecia familiar, não se lembrava de nenhum Francesco e nunca freqüentara a igreja de São Miguel Arcanjo - fitou-o - Não consegui nada de singular que viesse a acrescentar algo ao rumo de nossas investigações e você? Como foi o depoimento do padre Paolo Francesco? - O depoimento dele se confunde muito com o do padre Ryder, são muito semelhantes, a família de Michael Reeve também é uma fervorosa praticante do catolicismo assim como a família Besinger e freqüentava a igreja de São Miguel com o filho - levantou a face para encarar a amiga - Francesco não conhece Ryder segundo me disse, procurei por alguma ligação entre eles, mas não encontrei. - Procurou os pais da vítima? Fez em resposta um leve aceno positivo com a cabeça. - Verificou se eles tinham qualquer ligação com o padre Ryder e sua igreja, ou mesmo com a família Besinger? - fixou seus olhos celestes no rosto do parceiro, podia sentir que sua presença ali o contrariava, posto que queria que ela ficasse em casa repousando. - Sim, mas não consegui nada - fechou a pasta sobre a mesa, encarando-a novamente - Que se trata do mesmo assassino isso é certo, pois as semelhanças entre os dois casos não deixam dúvidas, e ele conhecia os hábitos tanto dos Besinger como dos Reeve, Michael sumira no caminho para escola, que fica há um quarteirão de sua casa, por isso mesmo ia sozinho. Creio que o assassino já tem em mente o número de suas vítimas e quais serão, porque não as escolhe aleatoriamente, ele as seleciona segundo suas motivações e deve levar algum tempo até estudar os hábitos religiosos e rotineiros das famílias das vítimas, e o intervalo entre a morte de Sarah Besinger e de Michael Reeve foi muito pequeno para que o assassino tivesse tempo de selecionar e estudar os Reeve, logo pressupõe-se que já o havia escolhido antes mesmo de cometer o primeiro homicídio de que temos conhecimento, o de Sarah. - Mas o assassino poderia não necessariamente estudar os hábitos deles, mas conhecê- los por fazer parte das relações de amizades dos Besinger e dos Reeve. - Não acho que o serial-killer faça parte do círculo de amizades, mas também não duvido que talvez seja um conhecido deles. - Há muitas igrejas católicas nesta cidade, há milhares de católicos devotos e com crianças, como prever o local e a vítima que o assassino já tenha escolhido? - soltou um suspiro de desânimo. - Desde o aparecimento do corpo de Michael Reeve, pedi para o delegado Dean Rupert me manter informado sobre o desaparecimento de qualquer criança que venha a ocorrer na cidade, dessa forma se alguma criança desaparecer após este período, e preencher os requisitos do assassino, possuindo uma família religiosa e freqüentadora de igreja, através dos pais da vítima podemos saber com antecedência o local onde o corpo será deixado, posto que será a igreja que freqüentam, e dessa maneira podemos montar um cerco, um flagrante ao seqüestrador. - É preciso não esperar um outro homicídio, mas evitá-lo. - Mas se não conseguirmos detê-lo em sua próxima tentativa, é uma possibilidade a se considerar - passou a mão pelo queixo pensativo - Sinto que algo está nos escapando, além da ligação pelas semelhanças dos dois casos, creio que talvez possa existir uma ligação entre as famílias ou entre os dois padres, que eles desconheçam ou não se lembram. Ergueu o corpo alto e esguio da cadeira, pegando seu terno sobre esta e a pasta sobre a mesa. - Vamos falar novamente com o padre Ryder, quem sabe a foto de Francesco não o faça se lembrar de algo - dirigiu-se à porta, aguardando a parceira. Scully continuou sentada, com os olhos parados sobre a pasta parda que trazia ao colo, depois desviou-os para os pulsos bem cobertos pelas mangas compridas do tailleur que vestia. - Scully?! Tudo bem? - Mulder aproximou-se dela pelas costas, apoiando uma de suas mãos sobre o ombro da amiga. - Só estava pensando - voltou-se para ele, levantando-se e saindo pela porta acompanhada pelo parceiro. ___________________________________________________________________ Mulder estacionou o sedan cinza próximo ao meio-fio na rua movimentada, a agente ruiva saiu do automóvel para a calçada, fechando a porta do lado do carona e esperando o parceiro, que se inclinava para pegar a pasta com documentos no banco de trás. O homem alto quando puxou a pasta desajeitadamente do fundo do carro, algumas folhas soltas vieram a se espalhar pelo chão atrás dos bancos, o agente soltou um palavrão, então saiu do banco de motorista, ergueu-o e começou a recolher os papéis caídos. Scully possuía a atenção voltada para a fluência de pessoas que atravessavam a rua de um lado a outro após a sinalização verde para os pedestres, quando o farol ficou vermelho para estes, ela reparou do outro lado na calçada duas crianças pequenas que vinham em direção à rua sem observar o sinal, a agente olhou para o lado notando um caminhão, elas não iriam parar, passariam na frente dos carros, do caminhão, tentou gritar, mas sua voz não saiu, sem pensar em mais nada correu para a rua, em frente aos veículos para deter as duas crianças, várias brecadas bruscas e uma confusão de buzinas atraíram Mulder, que ao perceber sua parceira se jogar na rua movimentada e estar indo de encontro a um caminhão de carga, saiu em disparada para ela, aquela imagem fizera-o empalidecer, podia sentir o coração pulsar-lhe com violência na garganta, desesperado pensando na possibilidade de não chegar a tempo para impedir o impacto do cargueiro com o frágil corpo de sua parceira, até que parou, cantando os pneus, quase tocando com sua lataria a mulher ruiva, que vendo o caminhão prestes a atropelá-la ficara atônita, estática no lugar, Mulder veio correndo, agarrando-a pelos ombros e levando-a para calçada. - Você se machucou? Está bem? - derramava uma torrente de perguntas sobre ela, enquanto a examinava superficialmente para se certificar de que não possuía nenhum ferimento - O que você estava fazendo, Scully? - Havia duas crianças aqui nesta calçada e... - passeou os olhos em torno de si procurando por elas - Estavam aqui...juro...iam ser atropeladas - balbuciou confusa - Eu as vi... precisava impedir... - fitou os olhos do parceiro - Não estou louca, Mulder, eu vi, sei que vi...elas eram...pareciam...eu... - Tudo bem, Scully - abraçou o corpo pequeno e trêmulo tentando acalmá-la, pois estava muito perturbada e nervosa, ele ainda podia sentir sob o peito o bater sem ritmo de seu coração devido ao susto que ela lhe causara, relembrando o acontecimento, apertou-a mais em seus braços como para se certificar de que ela estava segura, realmente ali com ele - Vou levá- la para casa. - Não! - afastou-se bruscamente dele - Foi só um engano, um susto, mas agora está tudo bem, temos trabalho a fazer. - Scully - segurou-a pelos ombros, fixando os grandes olhos azuis nos seus verdes - Nós sabemos que nada está bem, e que você não está sendo sincera comigo nem com você mesma. - Por favor, não quero falar sobre isso, não é hora, nem lugar - quando ia se virar, Mulder segurou sua mão, fazendo-a encará-lo novamente. - Você não irá fugir, voltaremos a falar desse assunto. Ela suspirou resignada. - Do que tem medo, Scully? O que está escondendo de mim? - Nem eu mesma sei - deu as costas para o parceiro, caminhando em direção à igreja São Bartolomeu. Quando entraram no local sacro, perceberam este vazio, silencioso, nem mesmo o padre Ryder ali se encontrava. - Deve estar na sacristia, vou procurá-lo - disse Mulder. - Vou esperar aqui - Scully sentou-se num dos bancos da igreja, fixando o olhar nas imagens religiosas do altar. O agente observou-a em silêncio por alguns segundos e seguiu para a sacristia. A mulher ruiva começou a sentir-se incomodada naquele ambiente que inspirava espiritualidade, uma sensação indistinta, constituída de uma mistura de sentimentos como medo, opressão, raiva, revolta, invadia-a. Mulder ao despontar por uma das entradas laterais do interior da igreja acompanhado pelo padre Ryder, Scully ergueu-se bruscamente de seu lugar, caminhando a passos firmes para o velho religioso, e antes que este pudesse proferir qualquer palavra, a agente avançou sobre ele, arrancando-lhe com violência o rosário que ele trazia ao pescoço, depois o segurou pela gola da batina e perguntou-lhe numa voz que parecia não lhe pertencer: - Conhece o padre Andrew Kiernan? - fitava o religioso com uma expressão sombria, exigindo uma resposta; Mulder assistia àquela cena meio assombrado, sem compreender. - Não, minha filha - olhava-a apavorado, podia sentir a pressão dos dedos dela a apertarem-lhe a gola da roupa relaxarem, soltando-o. Num repente, as portas do templo religioso bateram-se com força, fechando-se estrondosamente, e sem haver qualquer abertura por onde uma corrente de ar pudesse entrar, uma ventania violenta começou a soprar no interior da igreja, Mulder e o frágil padre foram arrastados para o chão pela força do vento, Scully ao contrário foi erguida no ar com os braços abertos, e suas costas começaram a ser açoitadas pelo invisível, os gritos que soltava a cada golpe a fustigar-lhe a carne eram agonizantes, Mulder tentava desesperadamente levantar-se para salvar a amiga, mas o vento, que não passava de ar em movimento, parecia mais com pesos de aço a prenderem-no no assoalho lustroso, a sua única atitude era gritar, pois seu corpo estava imobilizado. - Scully!!!!! - berrava angustiado em sua impotência para agir. Mulder podia ver o corpo pequeno da parceira a ser arremessado para frente a cada novo golpe do invisível e voltar a posição inicial, era possível ouvir o barulho de açoites cortando o ar até atingir as costas da mulher ruiva, culminando com gritos torturantes. O tom claro da roupa de Scully tornava visível as manchas de sangue que começavam a tingir-lhe as costas, sob o tecido intacto ela sentia as feridas abertas em carne viva, e o invisível a rasgar- lhe impiedosamente a pele com açoites. O homem de olhos verdes travava intensa luta com a ventania gritante que o impedia de agir, a cada golpe no corpo pálido da amiga era um também no seu espírito, torturava-o ver a dor de Scully, quase podia sentir o sofrimento dela, ele estava com os dentes cerrados fazendo um esforço sobre-humano para libertar-se e correr para ela. Tão rápido como começou a tormenta, também desapareceu, o corpo delicado erguido no ar foi ao chão, Mulder lançou-se sobre ele. - Scully, por favor, fale comigo - passou a mão pela face pálida de Scully que possuía os olhos fechados. Ela se movimentou, ajeitando o corpo em posição fetal, segurando os joelhos, contorcendo-se de dor e gemendo. - Padre Ryder, chame uma ambulância! - gritou para o religioso, que já de pé, assistia a tudo meio incrédulo, e Mulder voltando-se para ela - Vai ficar tudo bem, Scully - passou a mão pelos cabelos ruivos dela, temendo tocar em qualquer parte de seu corpo ferido e sensível. ___________________________________________________________________ Hospital de Washington 10:15 a.m. Enquanto a pálida agente ruiva estava num dos quartos do hospital sendo atendida, tendo suas feridas limpas com algodão banhado em anti-séptico e suas costas com inumeráveis cortes profundos sendo suturadas, Mulder caminhava inquieto no corredor iluminado do lado de fora do quarto, tentava assimilar os últimos acontecimentos da igreja, Scully dissera um nome: Andrew Kiernan, na verdade alguém dissera por sua boca, pois não era a voz de sua parceira, não era ela e mesmo assim era o seu corpo o machucado, o castigado pela dor, não permitiria que aquilo voltasse a acontecer, estava com medo, medo por ela e por si mesmo, como impedir o que a havia atingido? O que foi que ele viu? O invisível a açoitá-la? E como impedi-lo? Quem era Andrew Kiernan? Talvez ele possuísse a resposta para o que aconteceu com Scully, para o que vinha ocorrendo nos últimos dias. Quando Scully fora deixada sozinha no quarto após ser medicada, Mulder entrou para vê-la. - Como está se sentindo? - aproximou-se dela, que estava deitada de lado por causa dos ferimentos nas costas, segurando as mãos dela nas suas. - Cansada, com o corpo dolorido como se eu tivesse levado uma surra - sua voz era baixa, quase um sussurro. - Você realmente levou uma surra, não se lembra de nada? - fitou-a surpreso. - Só lembro que estava sentada num banco da igreja esperando você e o padre Ryder, e depois caída no chão, com as costas queimando de dor e você tentando falar comigo - ergueu os grandes olhos interrogativos para ele - O que aconteceu lá, Mulder? Quem me atacou? Quem me deixou inconsciente? Permaneceu o agente calado, com olhar vago, pensativo, refletindo a melhor maneira de explicar a ela o que acontecera. - Mulder? - chamou-o, possuía a testa franzida, com aspecto preocupado. - Scully - iniciou numa voz macia - A pergunta não é quem, mas o que a machucou? - Como assim, Mulder? - ergueu uma das sobrancelhas. - Você foi atacada pelo invisível, de repente uma ventania começou a soprar dentro da igreja, eu e o padre Ryder fomos jogados no chão e não conseguíamos nos levantar, o vento era muito forte - percebia a expressão de incredulidade na face da parceira, mas não se intimidou, continuou - O seu corpo foi erguido do chão, ficando parado no ar, e alguma coisa começou a açoitar-lhe o corpo, era possível ouvir o barulho de algo como um chicote, um açoite batendo nas suas costas, foi terrível, Scully - disse as últimas palavras num murmúrio. Ela o encarava com ar cético. - Scully, eu estava lá, vi o que aconteceu, não me olhe desse jeito, isto não é uma brincadeira, é bem real, o padre Ryder pode confirmar, ele também estava lá. - Mulder, sinceramente não sei o que dizer. - Você não acredita em mim, não é? - Eu... não sei - a estória que ele contara a fez lembrar dos pulsos perfurados, impulsivamente os ergueu, observando-os. Mulder percebeu a distração dela. - Scully, o que você não me contou? - Hum? - Os pulsos, o que aconteceu ontem no seu apartamento, no banheiro, tem ligação com os ferimentos nas suas costas. O que houve ontem? - Sei tanto quanto você, Mulder - desviou seus olhos dos dele, abaixando-os - Não quero lembrar o que aconteceu ontem, não quero saber o que houve hoje na igreja e nem mais falar neste assunto, não quero entender, apenas esquecer, por favor, Mulder. - Por quê, Scully? Por que está fugindo? - Porque... eu.. tenho...tenho medo - passou uma das mãos nervosamente pelos fios ruivos - Tenho medo do que vi, na verdade, do que não vi - permaneceu com a cabeça baixa, sem encarar o amigo. - Scully, eu estou aqui - apertou as mãos dela nas suas - Por que não me disse que estava com medo? Não confia em mim o suficiente para me pedir ajuda? - Confio, mas... - não pôde evitar dos olhos ficarem marejados de lágrimas, por mais forte que fosse estava apavorada - ...eu não queria acreditar... - Acreditar em quê? - obrigou-a a encará-lo, segurando-lhe a face pálida e trazendo-a para junto dele, à vista de seus olhos esverdeados. - Ontem, algo, uma força, não sei dizer, me empurrava para o fundo da banheira, tentando me afogar, foi desesperante, Mulder, não conseguia respirar, depois a dor e a inconsciência - passou a mão pelo rosto, secando-o - Eu achei que evitando falar sobre isso, tentando esquecer, talvez este medo que sinto passasse. - E passou? - Não - tentava desviar o olhar do dele - Não sabe o quanto é difícil para eu admitir que tenho medo, que estou com medo, principalmente para você. - Para mim? Por quê? - Não sei, mas tenho medo do que aconteceu ontem, porque aquilo me é estranho, desconhecido, assustador, forças invisíveis atacando ou castigo de... - não completou. - De? - Hoje, quando atravessei na frente dos carros era para impedir que duas crianças fossem atropeladas, lembra? - Como poderia esquecer?! - As duas crianças eram Sarah e Michael, eu os vi, será que estou ficando louca, Mulder? - sua voz saiu baixa. - Scully, me ouça com atenção, estes eventos estranhos que aconteceram a você devem ter ligação com as mortes das crianças, não estamos tratando apenas de homicídios em série, mas também de um arquivo-x, as feridas nos seus punhos e nas suas costas são dois dos cinco estigmas de Cristo, e os ferimentos das crianças também remetiam a uma de suas chagas. - Mulder, por que eu? - Talvez a sua fé a aproxime das vítimas. - E se isso não acabar por aqui? - olhou-o séria. - Não entendi. - Ainda faltam três estigmas até completar os cinco. - Eu... eu não vou permitir - falou num tom seguro, muito contrário do que sentia. - Como vamos impedir? - sorriu da convicção dele. - Não sei ainda, mas há alguém que pode saber. - Quem? - Andrew Kiernan, este nome lhe é familiar? Balançou negativamente a cabeça. - Ele deve possuir a resposta. - Quem é ele? - Não sei, mas vou descobrir - calou-se de repente, observando o rosto abatido da amiga - Foi você quem mencionou este nome, Andrew Kiernan, enquanto sofria aquele terrível ataque na igreja. - Mulder, sabe o quanto é difícil para eu aceitar o que está dizendo, não quero que se precipite nos seus julgamentos...eu mesma não tenho nitidez do que aconteceu comigo na banheira, talvez alguém tenha entrado em meu apartamento e tentado me matar, o fato de eu não ter visto quem me afogava, não significa que seja o homem invisível... - sorriu. - Não brinque, Scully - sua expressão era extremamente séria. - Mulder, posso lhe garantir que as feridas abertas nos punhos daquelas crianças não foram resultado de forças invisíveis, foi usado um instrumento pontiagudo de ferro, encontrei nos ferimentos vestígios de ferro oxidado. - Mas quem lhe garante que esta força invisível não possa ter se utilizado deste instrumento para matar as vítimas? - tentava vencer a qualquer custo a racionalidade dela. - Esta força invisível teria a precaução de enrolar os pulsos das vítimas com esparadrapos para que o sangue não deixasse um rastro pelo local? - serviu-se de um tom irônico. - Eu não entendo como você consegue fazer minhas teorias parecerem tão ridículas - aproximou seu rosto do dela - Mas algo que você jamais poderá questionar com a sua racionalidade é o que eu vi naquela igreja. Ela permaneceu calada. - Scully, não faz muito tempo que você disse que uma força invisível a havia atacado na banheira e agora vem contradizer sua estória com seu ceticismo, procurando explicações racionais, não tente se enganar, esconder a verdade de si mesma - falou irritado. - Mulder, o meu ceticismo e a minha racionalidade são os únicos meios que possuo para me manter sã, para enfrentar os meus medos, então, não tente me tirar isso. - Do que você tem medo? De aceitar a existência do que a ciência ignora? - Tenho medo do que não compreendo, estou com medo de Deus - as últimas palavras foram recebidas com surpresa pelo homem alto. - Tudo vai ficar bem, Scully - envolveu-a com os seus braços o pequeno corpo dela, trazendo-a ao encontro de seu peito - Você vai ficar descansando e fazer mais alguns exames para se certificar de que está tudo bem, enquanto isso eu vou procurar informações referentes a Andrew Kiernan, depois volto para lhe buscar, não vou deixá-la sozinha - afastou-a, pousando os lábios num suave beijo em sua testa - Confie em mim, tudo vai ficar bem. O agente ergueu-se da cama, lançando um último olhar para a parceira antes de sair do quarto. Scully permaneceu silenciosa, reflexiva, por que havia dito aquelas coisas para Mulder? Por que dissera temer Deus? Sabia por mais que tentasse explicar seus ferimentos por meios plausíveis que aquilo estava além da compreensão lógica e racional, sabia, mas não queria declarar em voz alta, tinha medo, o que estava acontecendo com ela? Estigmas? Ela? Por quê? Claro que tinha conhecimento de pessoas que levavam os estigmas de Cristo, feridas que a ciência não conseguia explicar, que apareciam nos estigmatizados sem estes terem provocado ou se machucado. Estas chagas eram atribuídas a Deus pelos religiosos, que acreditavam que aqueles que as carregavam eram os escolhidos Dele, mas aquelas crianças não foram escolhidas por Ele, seus ferimentos foram provocados por alguém, sendo mortas de forma brutal. E ela? Onde estavam os vestígios de ferro oxidado em seu sangue? Os esparadrapos a envolverem os seus punhos? Os instrumentos que dilaceraram seus punhos e suas costas? Por que ainda vivia? Quem assim desejara? Uma confusão de perguntas, de dúvidas explodiam em sua cabeça, queria parar de pensar, temia encontrar as respostas. ___________________________________________________________________ 6:00 p.m. - Como passou a tarde? - perguntou logo ao entrar no quarto. - Fiz alguns testes de rotina, tomografia, exame de sangue. - Encontraram alguma coisa errada? - olhou-a apreensivo. - Não, estou bem - lançou um olhar para a pasta parda que Mulder trazia à mão - Conseguiu descobrir quem é Andrew Kiernan? - Adivinhe?! Ele também era padre - falou com entusiasmo. - Era? - ergueu uma das sobrancelhas. - Ele abandonou a batina em 98 - abriu a pasta que carregava - Kiernan representava a Igreja Católica e a Congregação para as Causas dos Santos, uma divisão do Vaticano que investiga a autenticidade dos milagres que acontecem no mundo. - O que ele faz agora? - Leciona na faculdade de Baltimore, fez doutorado em química orgânica antes de ingressar na vida religiosa. - Um cientista que virou padre? - pensou alto, surpresa com a combinação. - Amanhã irei procurá-lo... - Nós iremos - interrompeu-o. - Certo - evitou discutir com ela, além do mais não queria se afastar dela até que toda aquela situação estivesse resolvida. - Conversei com o médico, já posso sair do hospital - fitou-o - Poderia me deixar em casa? - Vou esperá-la no corredor para que você possa arrumar suas coisas. Scully meneou a cabeça concordando e Mulder se retirou em seguida. ___________________________________________________________________ O sedan estacionou no meio fio frente ao prédio de apartamentos em Georgetown, o homem alto saiu do carro, batendo a porta e dirigindo-se ao porta-malas, de onde tirou uma mala, a mulher ruiva que o acompanhava, lançou-lhe um olhar interrogativo. - Por que a mala? - já sabia a resposta. - Vou passar um tempo no seu apartamento - falou tranqüilamente. - Mas... - Não adianta, Scully, vou ficar queira ou não, nem que eu tenha de dormir no chão em frente à porta do seu apartamento, se você não me deixar entrar, o que está no seu direito - fechou o porta-malas. Ela não respondeu, seguiu calada para o apartamento, Mulder vinha atrás estranhando a falta de resistência da parceira. - Você vai me deixar ficar? - perguntou quando se encontravam frente ao apartamento. - Obrigada, Mulder - voltou repentinamente o rosto para ele, encarando-o, depois abriu a porta, entrando calada. - Quer conversar? - fitou preocupado os olhos de Scully. Ela balançou negativamente a cabeça, desaparecendo no interior do quarto para voltar logo em seguida trazendo travesseiros, lençóis e cobertores. - Pode deixar que eu arrumo - pegou dos braços dela a roupa de cama que trazia. - Se quiser tomar banho, tem toalhas limpas no armário do banheiro. - Obrigado, não se preocupe comigo, relaxe, vá descansar. - Vou preparar algo para comermos - antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela já havia sumido. ___________________________________________________________________ 8:30 a.m. Era cedo, a campainha soou estridente no interior do apartamento, o homem que arrumava umas papeladas dentro de uma pasta, deteve-se no seu trabalho e foi atender a porta. - Andrew Kiernan? - perguntaram-lhe mal havia aberto a porta. - Sim, sou eu - estudou o homem alto e a mulher ruiva que estava ao seu lado - Quem são vocês? - Agentes Mulder e Scully do FBI - mostraram suas insígnias. - O que querem? - perguntou surpreso. - Podemos entrar? - Entrem - afastou-se da porta, permitindo a passagem deles e indicando-lhes o sofá. Scully não pudera deixar de notar o quanto a palidez da face de Kiernan contrastava com os seus cabelos de um intenso tom negro. - Por que estou sendo procurado pelo FBI? - acomodou-se numa poltrona frente aos agentes. - Acreditamos que o senhor possa nos ajudar - começou Mulder. - Em quê? - franziu as espessas sobrancelhas negras que realçavam mais o azul de seus olhos. - Sabemos que o senhor foi padre... - Sim, deixei o hábito e a religião há dois anos, mas qual a importância disso? - Os nomes dos padres Paul Ryder e Paolo Francesco lhe são familiar? - Não - respondeu depois de alguns momentos de reflexão - Por favor, poderia ser claro, direto? Do que se trata? - sua voz era calma, tranqüila. - Houve dois homicídios em circunstâncias semelhantes, onde as vítimas foram deixadas nas igrejas desses padres - Mulder abriu a pasta parda que trazia ao colo, tirou duas fotos das vítimas na igreja, dispondo-as na mesa de centro entre eles. Kiernan olhou-as com uma expressão de pesar. - Esta era Sarah Besinger, 6 anos, foi encontrada nesta posição sob o altar da igreja São Bartolomeu - apontou para uma das fotos e prosseguiu indicando a outra - Este era Michael Reeve, 7 anos, foi encontrado também sob o altar, na igreja São Miguel Arcanjo na mesma posição da outra vítima como pode ver. O homem pálido, de porte altivo, tinha os olhos presos nos esparadrapos manchados de sangue que as crianças traziam ao pulso. - Como morreram? - ergueu o rosto para Mulder ansioso pela resposta. - Hemorragia em decorrência dos ferimentos nos pulsos - foi Scully quem respondeu. - O que provocou estes ferimentos? - apontou-os nas fotografias. - Algum objeto pontiagudo de ferro, não encontramos a arma do crime. - Tentaram pregar estas crianças como Cristo na cruz - sua expressão era uma mistura de horror e perplexidade - Como eu poderia ajudar? Mulder e Scully trocaram olhares. - Como chegaram a mim? Ao meu nome? Scully inclinou-se sobre a mesinha, esticando um dos braços para recolher as fotos, a manga da blusa estava meio erguida, Andrew segurou repentinamente o braço estendido de Scully, assustando-a, então, ergueu-lhe mais a manga da roupa, deixando à mostra o pulso enfaixado, depois fitou os olhos dela com os seus. - Você é... - não completou, soltou o braço da agente ruiva. - Sabe por que estamos aqui? - manifestou-se Mulder. - Tentaram machucá-la também como essas crianças? - dirigiu-se a ela, apontando as fotos ainda sobre a mesa. - A natureza dos ferimentos da agente Scully é diferente - intrometeu-se Mulder - Não foram provocados por uma pessoa, mas por uma força invisível. Scully estava calada, constrangida pelo olhar triste que Andrew lhe lançava. - Isto não lhe é estranho, não é? - insistiu Mulder, tentando desviar a atenção do ex- padre para suas perguntas. - Não, pelo contrário, me é muito familiar - sua voz era melancólica, continuou dirigindo-se a Scully - Possui outros ferimentos além dos que tem nos pulsos? - Nas costas - murmurou a mulher ruiva. - Não posso ajudá-los - levantou-se da poltrona - Tenho que sair para o trabalho daqui a pouco. - Acredito que deva haver alguma ligação entre o caso das crianças nas igrejas e os ferimentos da agente Scully, que só passou a apresentá-los quando entrou no caso, que como pude perceber a perturbou muito - Mulder colocara-se de pé, encarando a face pálida e nobre do homem à sua frente, deveria ter entre 40 e 45 anos. - O que quer que eu faça? Que evite que os estigmas e as mortes prossigam? Não possuo tal poder. - Os estigmas vão prosseguir? - Mulder preocupou-se. - Não sei, não é comum os estigmatizados apresentarem mais do que uma das feridas, as primeiras que são as dos punhos. - Já se deparou com pessoas que apresentassem mais de um estigma? Não respondeu, Andrew possuía o olhar vago, não queria tornar presente o passado, desejava esquecê-lo. - Mulder, vamos - Scully saíra do silêncio em que se havia encerrado - Não temos mais nada a fazer aqui. - Não, é preciso... - Agente Mulder, ouça sua parceira, não há mais o que fazer aqui, não posso ajudá-los, não sei como chegaram a mim, nem me interessa, apenas me deixem em paz - voltou um último olhar para Scully, abrindo a porta em seguida. - Aqui está meu número, se você se decidir a ajudar - Mulder entregou-lhe um cartão, utilizando-se do seu singular tom irônico - Vidas dependem da sua misericordiosa ajuda. Os dois agentes saíram do apartamento, desaparecendo no fim do corredor, Andrew ainda manteve a porta aberta meio em dúvida, mas com um triste olhar decidiu-se a fechá-la, não poderia fazer nada por eles, por ela. Já dentro do carro, Mulder colocou a chave na ignição, dando a partida, estava irritado. - Ele sabe de alguma coisa, eu sei, Scully, ele pode nos ajudar - lançou-lhe um rápido olhar. - Mulder, acabou, não podemos obrigá-lo a nos ajudar - seu tom era resignado. - Deve haver um jeito - franziu a testa pensativo - E se ele estiver envolvido com as mortes daquelas crianças? - indagou de si mesmo sem convicção. - Não podemos acusá-lo de nada, muito menos convencê-lo a falar alegando que uma pessoa "possuída" procurava por ele. - Vamos procurar os padres, talvez conheçam o ex-padre Andrew Kiernan - fez uma pausa, acrescentando - É um fato novo a se considerar, ele sabe de algo, viu como ficou abalado? - Ficou abalado não pelas fotos ou pelo caso que estamos investigando... - Ficou abalado ao ver seus punhos - concluiu - Disse que você era uma estigmatizada - olhou-a com o canto dos olhos enquanto dirigia. - Mulder, não estou me sentindo bem... - Como? Está sentindo dor? Alguma coisa? - seu tom era desesperado, parou o carro no acostamento. - Não se preocupe, apenas não me sinto bem para voltar àquelas igrejas, prefiro ficar em casa hoje, estou cansada - apressou-se em dizer para tranqüilizá-lo. - Não gostaria de deixá-la sozinha. - Vou ficar bem, qualquer coisa eu ligo - fitava o rosto preocupado de Mulder - Poderia me deixar em casa? - desviou os olhos dele, voltando-os para frente. - Certo - ligou o carro, colocando-o em movimento, sentia o peito comprimido, angustiado, não queria se afastar dela, Kiernan havia dito que os estigmatizados costumavam apresentar só os ferimentos dos pulsos, mas Scully apresentava dois, os das costas também, talvez parasse por aí, e se não parasse? Precisava encontrar logo quem fizera aquilo com aquelas crianças, talvez com isso conseguisse algumas respostas para o que estava acontecendo à Scully. Qual seria a ligação do caso que investigavam com os ferimentos de Scully, além de que os estigmas dela eram reais e os das vítimas, machucados que alguém provocara, pensando assim estigmatizar como Cristo aquelas crianças? ___________________________________________________________________ 4:30 p.m. Enquanto segurava equilibrando uma pasta debaixo do braço, com a mão livre tentava inserir a chave na fechadura da porta, quando uma voz soou às suas costas. - Senhor Kiernan - chamou-o. Voltou-se para a voz, deslumbrando a agente que o procurara de manhã com o seu parceiro. - Preciso falar com o senhor - aproximou-se dele. - O que eu tinha a falar, eu já falei de manhã. - Não vim falar sobre a investigação, não vim como uma agente federal, mas como uma pessoa, desarmada, quero apenas conversar - a presença e a voz de Andrew tinham o poder de acalmá-la, precisava mais do que nunca de um pouco de conforto para o espírito inquieto. Ele se manteve calado, abriu a porta e fez sinal para que Scully o acompanhasse. - Desculpe, sei que minha presença o perturba. - Não se incomode, não me perturba apenas me faz relembrar acontecimentos que gostaria de manter esquecidos, sente-se, por favor - indicou a poltrona para Scully, sentando- se ele no sofá. A agente ruiva acomodou-se, um curto silêncio pairou entre eles até Andrew rompê- lo: - Seu parceiro, agente Mulder, não é? - ela confirmou com um meneio de cabeça - Ele sabe que está aqui? - sua voz era profunda. - Não, eu tinha que vir aqui sozinha, sem ele. - Não confia nele? - Confio, mas isto é pessoal demais para mim. - A sua fé? Scully parecia surpresa com a pergunta de Kiernan. - Não se assuste, vi o seu crucifixo quando veio hoje de manhã - apontou para o pescoço dela onde o crucifixo reluzia - Os estigmatizados costumam ser pessoas muito devotas e religiosas. - Não sou tão devota assim, creio em Deus, mas há muito deixei de procurá-Lo. - Está com medo, não é? - fitou com seus olhos profundos os dela. - Estou com medo de Deus - sua voz era baixa. - Por que O teme? - Sinto que o que está acontecendo comigo é um castigo. - Castigo por qual motivo? Sente-se culpada por alguma coisa? - Estou com raiva, revoltada com a minha fé, com Ele. - Por causa daquelas crianças mortas? - Como sabe? - ergueu as sobrancelhas. - Seu parceiro havia dito que o caso a abalara e que os estigmas haviam aparecido durante as investigações, não é verdade? - Sim, ver aquelas crianças sem vida num lugar em que nas minhas inocentes idealizações e crenças eu supunha seguro por se tratar de uma igreja me revoltou, é como se Deus tivesse ficado omisso enquanto aquelas vidas eram roubadas diante Dele, Ele as abandonou. - Deus não abandona seus filhos, está sempre olhando por eles, por nós, mas não pode interferir nas nossas escolhas, nas nossas decisões, nos acontecimentos, porque Ele nos concedeu o livre-arbítrio, e interceder por nós seria atentar contra nossa liberdade, deve conhecer tão bem como eu isso. - Conheço pois fui criada nas crenças católicas desde menina, mas eu descobri que o ser humano não sabe ser livre, não sabe o que fazer com a liberdade que possui, Deus há muito tempo deveria ter nos tirado este direito, depois de tanta atrocidade que o homem cometeu em nome dessa liberdade. Deus deveria ter intercedido por aquelas duas crianças, não só por elas, mas por todas as vidas brutalmente assassinadas, não sei mais onde se encontra o Deus que eu acreditava. - Diz isso porque está revoltada, o livre-arbítrio é o bem mais precioso que o homem possui, o que o torna diferente dos outros animais - fitou-a nos olhos azuis - Talvez Deus queira que nós aprendamos a usar essa liberdade, mas sabe que para se chegar ao uso justo e sensato desse direito haverá muitos erros até acertarmos. - Tenho tantas dúvidas. - Todos temos. - A minha formação positivista, científica, sinto que está em conflito com a minha criação católica, com a minha fé, às vezes estes meus dois lados convivem harmoniosamente, mas agora não, e eu desejo neste momento que este meu lado racionalista destrua o lado religioso, esfacele a minha fé e me mostre as explicações racionais que quero ouvir. - Por que deseja isso? - Por que tenho medo deste lado que não é visível, não quero crer que estas feridas - ergueu as mangas da blusa - sejam estigmas, quero uma explicação científica, quero que isto não passe de alguma doença e que me apresentem a cura. - A senhorita se recusa a enxergar a verdade. - Talvez eu não esteja preparada para essa verdade. - O que quer de mim? - Respostas. - Quer saber o que são os estigmas? Pois vou lhe dizer o que são, pelo menos o que sei. Como você mesma deve saber quando Cristo morreu na cruz ele teve cinco ferimentos, as costas foram açoitadas, a testa lacerada com uma coroa de espinhos, os pés e as mãos pregadas, e por fim, uma lança foi-lhe enfiada de lado. Em toda a história, somente pessoas muito devotas foram atingidas dessa maneira, pelo menos assim se acreditava até que... - interrompeu-se recordando o passado. - Até que? - Esqueça, isso não vem ao caso - sua voz saiu seca sem pretender. - Por que os estigmas? - Não há explicação científica satisfatória - depois de tomar um aspecto reflexivo prosseguiu num tom baixo - Todos sofrem tanto que a dor espiritual os agride, e as visões do mal que têm são manifestadas no corpo. A igreja por outro lado considera isso um dom, um dom de Deus. Porém, quanto mais se aproximam de Deus, mais se expõem ao tormento de seus demônios. Scully permaneceu silenciosa, parecia estar encerrada em si mesma, num mundo interior em que as palavras de Andrew Kiernan ecoavam com insistência. - Você está bem? - perguntou o ex-padre tocando a mão de Scully para que voltasse à realidade. - Hum? Sim, estou - meneou a cabeça. - Vou preparar um café, aceita? - ergueu-se do sofá. - Sim, obrigada. - Já volto - Kiernan sumiu por uma das portas que levava à cozinha. A agente ruiva continuou reflexiva, acomodada em sua poltrona, seus grandes olhos azuis voltaram-se para cima, o globo ocular virou de modo que só a parte branca dos olhos ficou visível, o colorido da íris havia desaparecido. Scully levantou-se, pegou uma caneta que trazia consigo, seguiu até uma das paredes brancas da sala e começou a escrever nela Depois de alguns minutos, Kiernan voltou da cozinha segurando duas canecas de café fumegante, antes de transpassar o limiar da porta para a sala, deteve-se diante da visão da parede cujos traços nela desenhados não lhe eram estranhos, Scully estava de costas para ele ocupada em seu trabalho com a caneta. Permaneceu estático por instantes, repassando o passado em sua mente meio estarrecido frente à cena que lhe era descortinada. Um pouco hesitante entrou na sala, colocando as canecas sobre a mesinha de centro, então, com a voz forte e sonora perguntou: - Quem é você? Padre Almeida? - O mensageiro não importa - voltou-se Scully para ele com os olhos revirados respondendo numa voz cavernosa que não lhe pertencia. - Por que você está de volta? Antes de ter respondida a sua pergunta, a mulher ruiva caiu de joelhos no chão, gritando e segurando a cabeça, sua testa sangrava, estava sendo lacerada por uma coroa de espinhos que somente Scully enxergava em suas alucinações, enquanto sentia a coroa sendo pressionada em sua cabeça, arranhando-lhe, cortando-lhe a pele pálida com seus espinhos afiados, via em flashes a imagem de Cristo coroado com os espinhos, o fluido quente e vermelho maculava a alva pele de Scully na testa, alguns fios de sangue fugiam-lhe pela face, ela gritava em seu desespero, não era a dor física que a martirizava, era a espiritual, Kiernan correu para junto dela, abraçando-a firme para que se acalmasse e parasse de se debater, quando ela gritou numa língua estranha algumas palavras para logo em seguida desfalecer nos braços do ex-padre. Andrew ergueu o pequeno corpo de Scully nos braços e levou-a para o seu quarto, deitando-a sobre a cama, o sangue estava espalhado por todo o pálido rosto da mulher ruiva. Logo que encontrou o cartão com um número de celular, que Mulder havia lhe dado na visita de manhã, correu para o telefone, discando o número. _____________________________________________________________________ __________ Igreja São Bartolomeu 6:05 p.m. Na sacristia, Mulder esperava sentado numa cadeira diante de uma mesa sobre a qual uma pasta parda estava aberta, mostrando uma foto do padre Paolo Francesco da igreja São Miguel Arcanjo, em que ocorrera o aparecimento do segundo corpo. O padre Ryder entrou na saleta trazendo consigo uma caixa, colocou-a sobre a mesa, abrindo-a. - Em meus oitenta anos de vida eu vi e conheci muita gente e muitos padres, minha memória é muito falha, talvez o rosto do padre Francesco esteja perdido em meio aos vários outros rostos de padre em minhas recordações - tirou de dentro da caixa seis pilhas grandes de fotos amarradas com fitas - Quem sabe o rosto do padre Francesco não esteja aqui. - Então, vamos ao trabalho - pegou um dos blocos de fotos retirando a fita, quando o celular tocou, então deixou as fotos de lado, atendendo o aparelho estridente. - Agente Mulder? - perguntou uma voz do outro lado da linha. - Ele mesmo. Quem é? - Andrew Kiernan. - O senhor se decidiu a dizer tudo o que sabe? - Mulder animou-se com a idéia. - Agente Mulder, estou ligando por causa de sua parceira, a agente Scully. - O que tem ela? - sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha, desaparecendo o sorriso de seus lábios. - Ela está aqui na minha casa - fez uma pausa - Aconteceu novamente, mas não se preocupe, ela está bem. - Estou indo agora para aí!!! - desligou o celular correndo em direção à saída da igreja, ignorando as perguntas do padre Ryder sobre o que havia acontecido. Logo que o agente alto entrou no carro, saiu correndo a toda velocidade, sentia-se angustiado, recriminava-se por ter deixado Scully sozinha, seu coração explodia sob o peito, a preocupação e a ansiedade em chegar logo até Scully sufocavam-no. _____________________________________________________________________ __________ 6:30 p.m. Andrew encheu uma vasilha de água, colocando-a sobre o criado-mudo do lado de sua cama, onde a agente ruiva ainda permanecia inconsciente, pegou um pano, umedecendo-o na água e passando-o no rosto de Scully, limpando com cuidado o sangue já seco e as feridas na testa. A campainha soou frenética e insistente no apartamento, era Mulder, Kiernan deixou o que estava fazendo e correu para abrir a porta para o homem impaciente, que já batia na porta com violência. - Onde ela está? - entrou no apartamento logo que Kiernan lhe abriu a porta. - Está no meu quarto, é logo no fim do corredor - apontou para o local. Mulder apressado, quase correndo, seguiu para o quarto, Kiernan acompanhou-o. Ao chegar na porta, Mulder suspendeu a respiração vendo o corpo de Scully estendido sobre a cama com o rosto todo ensangüentado, aproximou-se, agachando-se até ela, tocando-lhe os cabelos ruivos e observando com uma expressão dolorosa a pessoa que tanto admirava e compartilhava a sua existência. - Não se preocupe, agente Mulder, ela ficará bem - Kiernan não tinha confiança nas próprias palavras que dissera, mas precisava acalmar o homem alto à sua frente, aquela mulher era muito importante para ele, senão vital, pelo que podia perceber na expressão e gestos de Mulder. O homem de olhos verdes pegou o pano mergulhando-o na vasilha de água, torcendo- o e passando mais do que com cuidado, mas com carinho pela face que lhe era tão querida. Depois de limpar o sangue numa seqüência de gestos lentos e cuidadosos, numa ação silenciosa, deixando exposta a pele mais pálida do rosto de Scully, voltou-se para o ex-padre que ficara observando a cena do limiar da porta do quarto. - Como isso vai terminar? - a voz de Mulder saiu calma, mas os olhos denunciavam o seu desespero interior. - Vamos para sala, ela precisa descansar - apontou o dedo para Scully. - Quero estar aqui quando ela acordar. - Você estará, vamos para a sala - saiu do quarto. Depois de lançar um último olhar para a mulher ruiva, Mulder retirou-se para a sala. Kiernan indicou-lhe o sofá, após um breve silêncio deu início à conversa: - Agente Mulder, viu os desenhos rabiscados na parede atrás de você? - estava com os dedos entrelaçados, sério em sua posição. Mulder voltou o rosto para o lugar indicado, vislumbrando alguns traços indefiníveis feitos por caneta preta, sendo o desenho de uma ave o único elemento identificável ali. - Foi a agente Scully quem fez isso - continuou - O que você está vendo são trechos em aramaico de um pergaminho do século I encontrado próximo ao Mar Morto, nas cercanias de Jerusalém. - Como você sabe? - estava assombrado frente àquela revelação. - Já passei por isso, nada me é estranho, não preciso saber aramaico para entender o que está escrito aí - apontou para a parede. - O que está escrito? - Provavelmente o trecho: "O reino de Deus está dentro de você e à sua volta, não em prédios de madeira e pedra. Rache uma lasca de madeira e estarei lá. Levante uma pedra e me encontrará". A ave é uma pomba, representa o Espírito Santo, isso você deve saber. - O que isso tem a ver com Scully? Que pergaminho é esse? - Só possuo resposta para a segunda pergunta. Este pergaminho é um evangelho de Jesus Cristo em suas próprias palavras, em aramaico, que não é usado a mais de 1.900 anos, um dialeto que era falado na Galiléia no tempo de Jesus. - Como Scully... você disse que já tinha passado por isto, isto o quê? O que está acontecendo? - Há vários anos a Comissão dos Evangelhos foi formada para decifrar este pergaminho de que lhe falei. Dois padres, Paolo Almeida e Delmonico, que faziam parte da comissão, concluíram que era um evangelho nas palavras de Jesus Cristo, palavras de Jesus aos seus discípulos na Santa Ceia, suas instruções sobre como continuar Sua Igreja após sua morte, porém pessoas no Vaticano acreditavam que o documento poderia destruir a autoridade da Igreja Moderna. Então, o Cardeal Houseman ao receber a conclusão do evangelho das mãos de Almeida e Delmonico, mandou que eles parassem com o trabalho, cancelando a comissão. Almeida se recusou, fugindo com o documento e desaparecendo para não ser pego antes de concluir a tradução. Sendo os dois padres excomungados pela Igreja sem estarem presentes. - Por que não queriam que os padres concluíssem a tradução do pergaminho? - fitou os olhos azuis profundos de Kiernan. - Devido às palavras de Cristo: "O reino de Deus está dentro de você e à sua volta, não em prédios de madeira e pedra. Rache uma lasca de madeira e estarei lá. Levante uma pedra e me encontrará", estas palavras acabam com a autoridade da igreja, sua presença não é imprescindível, não há necessidade de uma instituição entre as pessoas e Ele, somente Deus e os homens, sem mediações, sem padres, sem igrejas. A verdadeira igreja de Cristo não está em prédios, construções suntuosas, é muito mais, vai muito além da materialidade e da temporalidade das coisas. - Mas, onde você se encaixa nesta estória? - indagou Mulder. - Vou lhe dizer - soltou um pesado suspiro por ter de rever um passado que desejaria esquecer - Em 98, eu ainda era padre, e trabalhava para a Congregação para as Causas dos Santos, uma divisão do Vaticano, que investigava os milagres ou os eventos pelo mundo considerados santificados como imagens de santos que choram ou pessoas com alguma enfermidade sem cura que voltam a se tornar sadias, dizendo-se abençoadas pelo milagre divino, cegos que voltam a ver, aleijados a andar. Eu tinha a função de investigar a autenticidade ou a fraude de tais acontecimentos quando ligados à fé. Então fui mandado para investigar no Brasil um evento que se acreditava milagroso, mas como pude constatar não havia nada ali que a ciência não pudesse explicar, e durante a minha estadia naquele país, eu soube que numa cidadezinha chamada Belo Quinto do interior do estado do Rio de Janeiro havia uma imagem de Nossa Senhora que derramava lágrimas de sangue, estando eu já no Brasil fui averiguar o fato, quando cheguei na tal cidade e na igreja em que se encontrava a imagem, o lugar estava repleto de religiosos e o padre responsável pela igreja havia morrido, sendo o seu velório naquele dia. - Quem era o padre? - Mulder intuía a resposta. - Era o padre Almeida - fitou o agente à sua frente - Eu vi o caixão, vi a Santa, o sangue brotar dos olhos e escorrer pelo busto imaculado da imagem; um padre jovem que havia me recebido na igreja, disse que a imagem de Nossa Senhora começou a chorar no dia em que o padre Almeida morrera. - Você analisou a imagem para se certificar da autenticidade das lágrimas dela? - a curiosidade fustigava o espírito inquieto de Mulder. - Não pude levar a imagem comigo, a presença dela era muito importante naquele lugar, a pedra angular da fé dos religiosos de lá, mas as amostras que colhi do sangue e algumas fotos de infravermelho que tirei da imagem me revelaram a autenticidade do que vi, a Santa era uma massa de pedra isolada, maciça, e o laboratório confirmou que o sangue era quente e humano, não houve explicação científica para justificar tal fenômeno, as lágrimas simplesmente brotavam do nada. - Onde está a semelhança com o caso de Scully? - Padre Almeida também era um estigmatizado, porém possuía somente as feridas dos pulsos, como você deve saber os cientistas descobriram que, em Roma, prendiam os pulsos, não as palmas das mãos, pois elas não agüentariam o peso do corpo - fez uma pausa, prosseguindo em seguida com um olhar vago - Quando voltei do Brasil e falei sobre a imagem com meu superior, que na época era o Cardeal Houseman, e sobre o meu interesse em voltar para Belo Quinto para investigar mais profundamente o caso, ele não me deu muita importância e me mandou um pouco depois para cá, nos Estados Unidos, mais especificamente para Pittsburgh investigar um caso em que uma garota, Frankie Paige, apresentava os estigmas de Cristo, então foi que tudo começou - soltou um suspiro pesado. - Tudo o quê? - Mulder estava ansioso. - Tudo sobre a existência desse pergaminho sobre o qual lhe falei e mesmo tudo sobre o padre Almeida; Frankie Paige também como a sua parceira escreveu isto que você vê na parede, sem nunca ter conhecido aramaico, ela também às vezes falava em aramaico, quero dizer, na verdade, não era ela - olhou meio hesitante para Mulder. - Não era ela? Quem era então? - Tenho receio em estar lhe contando tudo isso, porque não sei até onde você está achando esta estória absurda e ridícula, talvez me achando uma pessoa louca. - Kiernan, eu vi o que aconteceu com a minha parceira, sei que nenhuma ciência ou lógica é capaz de explicar, e saiba que eu já vi e passei por muita coisa que nada do que me diz parece absurdo, acredito em você, pode continuar sem receio, preciso que me diga tudo, Scully depende disso, e mais do que ela, eu. - Agente Mulder, não era Frankie Paige, era padre Almeida quem falava pela boca de Frankie quando ela entrava numa espécie de transe, ele queria de alguma maneira me revelar a existência do pergaminho e o paradeiro dele. - E quem... quem se utilizou de Scully para escrever o que está nesta parede? Padre Almeida? - sua voz saiu hesitante. - Creio que sim. - O que ele quer? Ele já não revelou a existência e o paradeiro do pergaminho? Kiernan meneou a cabeça positivamente. - Então? Por que escolheu ele Scully? Por ser ela católica, religiosa? - Por este motivo não foi, porque Frankie não era católica, não acreditava em Deus. - Era atéia? - surpreendeu-se Mulder. - Sinceramente, não sei explicar, mas pelo que se tem notícia na História somente pessoas muito devotas e religiosas apresentaram os estigmas, Frankie Paige veio a contradizer isto que se acreditava uma regra, Deus não faz distinção, quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nos expomos aos nossos próprios demônios interiores que se manifestam em agressões físicas no corpo. - Como Frankie Paige pôde se expor aos seus demônios se era atéia? - Talvez todo ateu no fundo seja tão crente quanto aquele que se diz crente, justamente por negar tanto a idéia da existência de Deus, por combatê-la, por repugnar tanto a possibilidade de um dia poder acreditar, que mais próximo se encontra de Deus, porque pior do que não acreditar, é acreditar Nele. - Quais serão os demônios de Scully? - pensou em voz alta Mulder. - Talvez o caso das crianças que vocês estão investigando. - Mas, o que tem a ver o pergaminho com isso? - indicou a parede escrita atrás de si. Kiernan não respondeu. - Onde está o pergaminho? No Vaticano? - Não, não o devolvi à igreja católica, ao Vaticano, não é do interesse dele conservar tal documento e expor a verdade nele contida, portanto resolvi manter o paradeiro deste pergaminho em segredo, assim ele estaria seguro. - Alguém mais, além de você, sabe o paradeiro dele? - Sim. Está o pergaminho sob os cuidados de uma pessoa. - Quem é? Preciso falar com esta pessoa. - Para quê? Ela sabe tanto quanto eu, nada além do que eu já lhe disse, porque tudo que ela sabe fui eu que contei a ela. - Você me arranja um encontro com esta pessoa? - Tudo bem - respondeu depois de hesitar por algum momento - Você deu sorte, agente Mulder, por ele estar passando um tempo aqui nos Estados Unidos, senão este encontro seria impossível. - Vou ver como Scully está? - ergueu-se do sofá, mas antes de ir, ainda perguntou a Kiernan - O que aconteceu com Frank Paige, ela chegou a apresentar os cinco estigmas? Kiernan encarou com seus olhos oceânicos a face do agente à sua frente em silêncio. _____________________________________________________________________ __________ Os grandes olhos azuis abriram-se vagarosamente, acostumando-se à claridade do quarto, aos poucos um rosto começou a se desanuviar à sua vista, reconheceu-o de imediato, era Mulder, algumas rugas de preocupação formavam-se na testa dele, o sorriso que sustentava nos lábios para ela era triste. - Como se sente? - Aconteceu de novo, não é? - passou a mão pela testa - Sinto minha cabeça machucada, minha testa lacerada. - Não se preocupe, as marcas na sua testa logo sumirão. - Onde está Kiernan? - perguntou depois de observar o quarto estranho em que se encontrava. - Está na sala, ele quem ligou para o meu celular avisando sobre você - fitou-a sem sorrir - Por que você veio procurá-lo? Por que não me avisou? - Precisava falar com ele sozinha - desviou os olhos para baixo - Algo está acontecendo além de qualquer explicação científica possível, e eu não consigo aceitar isso, quero uma explicação racional, temo uma justificativa que saia do âmbito da ciência. O agente de olhos verdes ficou calado, esperando que ela falasse tudo que tinha a dizer, a desabafar. - Mulder, sou uma cientista que crê em Deus, sei que pode parecer algo contraditório, acha que nunca pensei sobre esta entidade como uma criação do homem para que pudesse justificar a sua própria existência e a do mundo, é confortante atribuir tudo quanto não podemos explicar e encontrar respostas a um ser poderoso, onipotente e onipresente como Deus, há pessoas que precisam acreditar numa entidade como essa para se manterem sãs em meio à realidade que vivemos, a idéia de Deus torna-se uma "bengala", um "suporte" a essas pessoas para se apoiarem, justificarem a si mesmas, as suas existências e dar uma finalidade a suas vidas, Deus é uma mentira, melhor, uma ilusão necessária, é assustador pensar que de repente estamos abandonados sem ter ninguém olhando por nós, guiando nossos passos, pensar que a morte é o fim de tudo, a perda total da consciência sem nada posterior a ela, tudo isso que digo eu o faço com a razão, com a minha visão positivista e científica, questiono a existência de Deus, me faço aquelas perguntas que não levam a lugar algum como: "Se Deus existe, quem criou Deus?"; "E quem criou o Criador de Deus?"; "E quem criou o Criador do Criador de Deus?"; e assim por diante, e como cientista eu não consigo conceber algo do nada, tudo deve ocorrer em cadeia, em lógica, eu sou como aquelas pessoas que tanto repetem uma mentira para si mesmas que ela acaba por se transformar em verdade, como é a idéia de Deus, mas se estas pessoas se sentem amparadas e felizes nesta ilusão, então, qual é o problema? Mas, para lhe ser sincera Mulder, por mais que a razão diga que Deus é uma mentira, uma ilusão confortante, meu coração assim não pensa, por mais combatido que ele seja pelo meu lado racional, ele sente a presença, a existência de um ser superior, ele crê, não exige provas, porque tudo lhe é visível, a vida se renovando, o início de um novo dia com o resplandecer da aurora, o fim com o pôr do sol, a presença Dele está em tudo que vemos e somos, assim eu sinto, mas de outro modo penso, e neste momento a razão e o coração que até então viviam em harmonia apesar de tão contrários, estão em conflito, porque eu estou com medo de Deus, não quero acreditar que o que esteja acontecendo tenha algo de sobrenatural, a idéia que eu fazia Dele deveria me confortar, mas agora me aterroriza, e eu quero uma justificativa racional para os acontecimentos para dessa maneira suprimindo Deus de meu coração, eu também suprima o medo e o terror que sinto. Tudo me é tão confuso, Mulder, tão duvidoso, a única certeza quanto a Deus é que eu não posso provar que Ele existe, e também não posso provar que Ele não existe. Creio Nele, mas não quero mais crer, tenho medo - fitou o amigo com um ar de angústia na face lívida, depois de dar vazão a tudo o que sentia, de repente sentiu-se envergonhada do que fizera, expusera-se muito a Mulder, algo que não gostava de fazer, porque não queria se mostrar a ele uma pessoa vulnerável, fraca - Esqueça tudo o que eu disse, estou nervosa, estressada com o caso que estamos investigando, por isso essa falação sem nexo, confusa e sem importância. - Scully, nada do que você diga é sem importância, principalmente quando é algo vindo de você - manteve seus olhos verdes fixos nos dela, sentiu o incomodo de Scully - Por que se sente envergonhada do que disse? Porque foi para mim que disse? Por que essa necessidade que você tem em se mostrar tão segura e inabalável a mim? Você evita se expor a mim e quando o faz se arrepende, por que isso? Eu sou seu amigo, me preocupo com você, deveria ter mais confiança em mim. - Não seja injusto, sabe que lhe confiaria a minha vida, Mulder - suspirou - Estou cansada, só quero que tudo acabe logo. - Eu também - murmurou - Vou levá-la para casa. - Não precisa, vim de carro, posso voltar sozinha - levantou-se da cama. - Não está em condições de dirigir, vou deixá-la em casa, depois eu volto para buscar o seu carro - o tom com que dissera isso não deixava espaço para as réplicas que Scully pudesse vir a fazer - Depois que estivermos na sua casa, teremos muito o que conversar, Kiernan me revelou algumas informações muito importantes que você precisa saber. Scully assentiu com um movimento de cabeça, seguindo para sala, onde Kiernan se encontrava pensativo, este percebendo ela, ergueu-se do sofá, perguntando: - Como está? - Estou bem, obrigada - fitou-lhe o azul oceânico dos olhos e depois a parede desenhada - Isto vai acabar? - Um dia vai, só não sei como. A resposta de Andrew fizera o sangue nas veias do agente Mulder gelar. - Agente Mulder - voltou sua atenção para ele - Vou tentar conseguir o encontro para amanhã, eu lhe telefono avisando. - Vou estar esperando - encarou-o com uma expressão de agradecimento - É vital para mim acabar com isso o quanto antes. - Eu compreendo - lançou um rápido olhar para a agente ruiva que fitava a parede como se já soubesse as respostas para o que via. _____________________________________________________________________ __________ 7:30 a.m. No apartamento de Scully, Mulder arrumava a gravata do terno já acomodado na mesa, enquanto a mulher ruiva acabava de servir-lhe o café. - Dessa maneira ficarei mal acostumado - sorriu para ela - Eu sinto como se fôssemos casados assim tomando o café da manhã juntos. - Várias vezes tomamos café juntos - disse levando a xícara aos lábios. - Isso não conta, quando acontecia sempre estávamos em alguma investigação, dormindo em hotéis baratos, isto é diferente - ergueu os braços mostrando a casa - Porque é o seu lar, aqui eu me sinto em casa. - Mulder - a fisionomia de Scully era séria - É difícil para eu acreditar em tudo quanto você me contou sobre a conversa com Kiernan, sobre aqueles rabiscos na parede do apartamento dele, mas mesmo assim eu quero estar presente no encontro que você irá ter com a outra pessoa que sabe sobre o pergaminho. - Tudo bem - o sorriso havia se desvanecido de seu rosto jovial - Eu não queria deixá- la sozinha enquanto vou para o FBI e depois para a igreja São Bartolomeu. - Mulder, prefiro ficar aqui, vou avisar Skinner que não voltarei ao trabalho por alguns dias alegando algum problema de saúde, o que realmente não deixa de ser verdade, não quero comparecer com todas estas marcas - mostrou os pulsos e a testa - Não quero me ver obrigada a responder perguntas cujas respostas me são ainda incertas e confusas. - Tenho medo que aconteça novamente - era visível a preocupação no semblante de Mulder. - Se tiver que acontecer, nada irá impedir, estando eu ou não sozinha, ninguém poderia fazer nada. Scully trazia no rosto pálido e aveludado uma expressão de tranqüilidade e seriedade, revelando o seu inveterado equilíbrio e autocontrole de agente do FBI, o azul dos olhos e o carmim dos lábios destacavam-se na face lívida, o que lhe emprestava um aspecto irreal, como se fosse uma pintura. - Não se preocupe comigo, Mulder - fitou-o nos olhos - Hoje, eu acordei bem, não sinto mais medo, estou resignada quanto ao que possa vir a me acontecer. - Pois, eu não, jamais poderia - franziu a testa - Por que isso? - Estou cansada de ter medo, de tentar entender o que não tem explicação, a única coisa que me resta a fazer é esperar. - Esperar o quê? - O fim. _____________________________________________________________________ __________ Igreja São Bartolomeu 8:55 a.m. O padre Paul Ryder finalizando a missa percebeu Mulder sentado em um dos bancos a sua espera, dirigiu-se ao agente: - Bom dia, senhor Mulder. Ontem o senhor saiu tão apressado, fiquei preocupado. Era algo com a senhorita Scully, não era? - Era sim, mas está tudo bem agora - levantou-se do banco - Vim para continuarmos de onde paramos ontem. - Vamos até a sacristia. Sentaram-se nas cadeiras em torno da mesa sobre a qual as pilhas de fotografias se encontravam. - Sinto muito, senhor Mulder, mas já olhei estas fotos, não encontrei nenhum padre Paolo Francesco nelas. - Eu trouxe mais duas fotos e dois nomes - abriu a pasta parda que trazia consigo, mostrando as fotos - Este é o padre Paolo Almeida, e este outro, o padre Andrew Kiernan, consegue reconhecê-los? - Os rostos não me são familiares, mas os nomes, tenho certeza de que já os ouvi antes, só não lembro de onde, talvez seja melhor vermos todas as fotos novamente. - É importante que se lembre de onde ouviu estes nomes, por quem ouviu. - Vou tentar fazer um esforço, talvez eu lembre revendo algumas fotos. _____________________________________________________________________ __________ Residência de Kiernan 9:00 a.m. Após pegar sua agenda sobre a escrivaninha, Kiernan buscou nela pelo nome desejado, pegando em seguida o telefone e discando um número de celular. Depois de alguns toques, uma voz do outro lado da linha atendeu. - Alô? - Pedro, é Andrew. - Oi, Andrew! Tudo bem? Aconteceu alguma coisa para me ligar tão cedo? - Preciso falar com você, Pedro. - Pessoalmente? - Sim. É muito importante. - O que aconteceu? Você está me deixando preocupado. - É sobre o pergaminho. - O que tem ele? Ele está bem escondido e seguro em Belo Quinto. - Está acontecendo de novo com outra pessoa o que aconteceu com Frankie Paige. Pedro permaneceu por alguns segundos em silêncio, somente sua respiração era ouvida por Kiernan. - Alô, Pedro? - Estou aqui, Andrew. - Não quero falar pelo telefone, é preferível pessoalmente e há alguém que também deseja falar com você sobre o pergaminho. - Quem? - surpreendeu-se. - Mais tarde você ficará sabendo. Pode passar aqui, na minha casa, lá pelas cinco horas da tarde, já terei voltado do trabalho? É muito importante. - Claro! Estarei aí às cinco horas sem falta, não se preocupe. - Estarei esperando. _____________________________________________________________________ __________ Igreja São Bartolomeu 10:00 a.m. Enquanto padre Ryder repassava e revia as fotografias sob os seus olhos de intenso azul-violeta era-lhe impossível não tecer comentários quanto ao local, às pessoas e à ocasião ali retratadas, as fotos mais antigas em preto e branco costumavam arrancar-lhe suspiros e saudades. Pegando uma foto colorida, onde havia ele e um padre jovem, comentou: - Esta é recente - indicou a foto para Mulder - Tirei já faz uns quatro meses, este jovem padre veio passar um mês aqui comigo realizando algumas missas e alguns sacramentos, uma pessoa muito religiosa e boa, que inspira confiança logo de imediato, os meus paroquianos e eu gostamos muito dele, precisamos de mais jovens assim para continuar o nosso trabalho com seriedade e devoção. Colocou a foto de lado, pegando outra, Mulder ouvia pacientemente os comentários, se a situação não exigisse uma rápida resolução, bem que as estórias de vida do padre Ryder lhe agradariam, mas tinha pressa. Antes de tecer qualquer outro comentário, o padre Ryder largou a foto, tomando de volta a anterior, observando-a com maior atenção, com um aspecto reflexivo nos olhos. - Senhor Mulder, agora me lembro, foi o padre Pedro quem me falou aqueles nomes - apontou o jovem de batina na fotografia. - O que ele lhe falou sobre eles? Por favor, tente se lembrar de tudo quanto ele lhe disse - estava ansioso - O padre Pedro veio de uma cidadezinha do Brasil, vivia numa paróquia que estava sob a responsabilidade do padre Almeida, ele respeitava muito este padre, dizia que era um santo porque carregava as chagas de Cristo - falou em tom de confidência - Ele me disse que a imagem de Nossa Senhora na igreja da cidadezinha começou a derramar lágrimas de sangue no dia em que o padre Almeida morrera. - E o que sabe sobre Kiernan? - Agora me lembro bem, Kiernan é um amigo dele que mora aqui em Washington, às vezes o padre Pedro ia visitá-lo. - Sabe onde está o padre Pedro? - Agora eu não sei, mas antes de ir embora o padre Pedro havia me dito que o estavam chamando no Vaticano, e ele iria para lá, mas isso já faz alguns meses. - Posso levar esta foto, padre Ryder, depois eu trago de volta? - perguntou o agente já com a foto na mão e de pé. - O senhor acha que o padre Pedro pode ter algo a ver com aquela... monstruosidade? - hesitou temendo a resposta. - Não sei, mas vou descobrir. - Mas um rapaz tão bom com as pessoas, não pode ser - balançava a cabeça desolado. _____________________________________________________________________ __________ Igreja São Miguel Arcanjo 11:15 a.m. O homem alto de olhos verdes adentrou apressado a igreja vazia, o padre Francesco que arrumava o altar, ouvindo os passos secos ecoarem pelo assoalho atrás de si, voltou-se, deparando-se com Mulder. - Bom dia, agente Mulder. Descobriram algo? - Preciso lhe fazer algumas perguntas. - Claro, farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudar. Vamos até a sacristia, é um lugar mais reservado - seguiram ambos para a saleta - Não quer se sentar? - Não, obrigado, tenho pressa - abriu uma pasta parda retirando dela a foto colorida do padre Ryder - Reconhece algum destes homens na foto? - Sim - com um sorriso pegou a foto das mãos do agente - O padre mais novo na foto é Pedro, um anjo de pessoa, passou algum tempo aqui comigo, isto foi há dois meses, todos gostavam dele, ele ia comigo fazer visitas às casas de alguns dos meus paroquianos. - Vocês também iam à casa da família de Michael Reeve? - Sim, muitas vezes - interrompeu-se, fitando o agente - Por quê? O padre Pedro... - não conseguiu terminar. - Obrigado, padre Francesco, o senhor já ajudou muito - saiu Mulder quase correndo da igreja, deixando atrás de si um padre confuso e preocupado. _____________________________________________________________________ __________ Apartamento de Scully 12:00p.m. A agente ruiva abriu a porta para um Mulder ansioso por falar. - Scully, tenho grandes notícias - puxou-a pela mão até o sofá. - Você esqueceu o seu celular. - Eu sei - sentou-se no sofá seguido de Scully - Kiernan ligou? - Ligou. Ele marcou o encontro às cinco horas no apartamento dele. - Falou mais alguma coisa sobre a pessoa que iremos encontrar? - Não. Por quê? O que descobriu? - franziu o cenho preocupada. - Olhe - abriu uma pasta, estendendo-lhe uma foto. - Quem é o padre mais novo ao lado do padre Ryder? - perguntou observando o rosto pueril e jovem na fotografia. - Padre Pedro - seus olhos verdes faiscavam diante das informações que conseguira. Scully lançou-lhe um olhar inquiridor, esperando o resto da estória que o parceiro ocultava. - Ele veio do Brasil, vivia na mesma paróquia que o padre Paolo Almeida - puxou outra foto da pasta - Este é Almeida, consegui esta foto nos arquivos do FBI. Há quatro meses o padre Pedro ficou auxiliando o padre Ryder com a igreja São Bartolomeu durante um mês, e depois foi embora alegando um chamado do Vaticano, mas na verdade foi passar um tempo na Igreja São Miguel Arcanjo com o padre Paolo Francesco, fazendo visitas às casas dos paroquianos, entre eles, a de Michael Reeve. Soube pelo padre Ryder que ele possuía um amigo em Washington. - Kiernan? - Ele mesmo - fechou a pasta, encarando a parceira - Finalmente encontramos a conexão, a peça fundamental do quebra-cabeça que faltava entre as duas igrejas e Kiernan. E às cinco horas da tarde de hoje estaremos frente a frente com o padre Pedro, o responsável pela morte daquelas crianças. - Acha que é ele a pessoa que encontraremos? - Tenho certeza disso. - Por que ele? O que o motivaria a cometer aquelas mortes? - Quantas vezes fé, religião e Deus serviram de motivo para genocídios? Milhares de vezes pelo que se tem conhecimento na história da humanidade. - Então, chegamos no final da linha, no tudo ou nada - pensou em voz alta. - Scully, tudo vai acabar bem - fitou-a nos grandes olhos azuis