Aprendi com a madrugada By Meggie Eles não me pertencem, nunca me pertenceram. Classificação: Shipper Dedico essa fic a Lizzie, que me pediu para escrevê-la. Disse-me que eu podia. Obrigada, Lizzie, te amo. Estou triste, tão triste com o fim. Já chorei horrores. Não terminou como eu quis que terminasse, então estou escrevendo isso, com o objetivo de um 'closure'. É o Mulder, fazendo um balanço das coisas, da vida. Tem mais notas no final. Feedback para mariaanita@msn.com ( o e-mail é diferente mas o objetivo é o mesmo) APRENDI COM A MADRUGADA Aprendi com a madrugada. Coisas doces e simples. Ferocidades. O pequeno toque do medo. Aprendi com sua solitária escuridão o exato tamanho de minha casa, os sons da cidade quando todos dormem. As luzes dos carros deslocados, vagando pelo asfalto, ou simplesmente a do poste, brilhando eterna e vadia, lá fora. Aprendi com a madrugada a extensão crua de todos meus pequenos atos, como soam altos meus passos no chão, o meu respirar, meu remexer no sofá e ainda assim, ninguém ouve. Ninguém acorda. Aprendi bastante mantendo os olhos bem abertos. Aprendi a fumar. Seminu, na cama, uma musica insistente e profunda preenchendo o vazio, acendia um cigarro e observava a fumaça. Parecia poético. Eu, como eu parecia poético. Um menino triste, um jovem deitado, sozinho, seminu, fumando. Pena não haver ninguém, nunca, lá, para apreciar a musica, a beleza de meus pequenos atos, da minha solidão. Pena não haver alguém para decifrar meus sinais, toda a simbologia que criei. Aprendi com a madrugada que ela quebra toda a poesia. Mesmo depois, mesmo quando eu dividia minha nudez, minhas introspecções noturnas, ainda assim a madrugada destruía a poesia. Como eu tinha charme e ninguém nunca viu. Eu daria o mundo por alguém que entendesse. Eu daria meu mundo. Ele é escuro e os dias não se distinguem das noites, ele é cruel e há monstros na rua, mas eu o daria, para quem o quisesse, qualquer um que descobrisse um modo de entrar. E então protegeria esse alguém com todo meu amor. Ninguém o amaria mais do que eu. Eu lhe ensinaria os velados caminhos da noite. Eu ensinaria tudo que aprendi com a madrugada para qualquer um. Qualquer um que perguntasse, se interessasse, quisesse saber. Para qualquer um que adivinhasse a poesia por trás dos meus pequenos gestos. Ninguém nunca quis saber, porém, e eu permaneci em meu quarto escuro e vazio, cheio de Picassos, Monets e Rembrandts e ninguém para ver. Não me entenda mal, eu amei. De verdade e de mentira. Chorei. Fui cretino e fui culpado. Amei Jennie. Amei Lucy. Amei Phoebe. Amei Janet. Amei Diana. Amei todas e nas madrugadas eu lhes imploraria com olhos para que entendessem, para que dividissem comigo o maravilhoso mundo que criei. Não o mundo escuro e frio em que eu vivia e que era meu, mas o que eu tinha guardado no peito para aquela alma especial. Aquela que entenderia, mas nenhuma delas soube. Nenhuma delas quis. Às vezes, a ironia azeda da vida mancha meu sangue puro. Nunca eu poderia ter sabido que justamente Ela entenderia. Justamente ela lançaria seus incríveis olhos em mim e dissecaria com precisão anatômica minha alma. Como fui bobo e cego. Como o amor. Criamos laços invisíveis e eu nem percebi. Criamos laços eternos, e sem querer eu dividi com Scully todos os meus universos. Uns que eu nem sabia que tinha. Uns que eu inventei só pra ela. Deixei de fumar. Meus pesadelos eram a poesia das minhas noites. Como continuei poético mesmo depois da juventude. Eu, homem, atormentado, inquieto, suado, louco. Eu, perseguido pelos meus sonhos, pelo meu passado. Scully foi à única que viu, sem que eu quisesse mostrar, minha tendência de dramatização. Scully foi à única que viu meus sentimentos expostos e crus, nus, dilacerados. Scully foi à única que viu meu eu poético, que entendeu. Como era bom ligar para ela de madrugada, mesmo só pra dizer oi as duas da manhã e assim deixá-la saber que a minha culpa, as minhas dores, meus fantasmas não me permitiam dormir. Como era estranho e perfeito confiar a ela às minhas lagrimas. Como fui bom ator, poeta fingidor, como diria Pessoa, que fingiu tão completamente que acreditou ser dor, a dor que deveras sentia. Como eu fui fantástico. Montei meu próprio mundo de ilusões, minha terra do nunca, meu país das maravilhas. Meu castelo de cartas, disco voador de areia. Eu criei mitos e dividi todos com minha melhor amiga. Ela sabia. Ela sabia antes de mim, ela sempre soube. Eram apenas mitos. Eles não eram verdade, mas doíam como se fossem. E ela sabia, ela sentia como doíam minhas feridas abertas. Scully não foi minha musa, ela foi minha platéia. Ela me deu apoio quando fui bem, me criticou quando fui mal, me fez crescer. Dolorosamente, desesperadamente, ela me fez crescer. Eu me mataria por ela, eu mataria por ela. Eu tinha todas essas ilusões românticas. Eu passaria noites, semanas acordado, pensando nela, em seu cheiro de baunilha, seu corpo suave. Eu passaria o resto de minha vida idealizando seus contornos, morrendo por suas lagrimas, me libertando em minhas ilusões. Eu criei um mundo onde eu era herói. Um mundo tão bom que inúmeras pessoas acreditaram em minhas encenações, eu inclusive. Mas não Scully, não ela. Ela me sabia, tão melhor que eu mesmo. E quando fui forçado a ver a realidade, quando meu castelo de cartas caiu, e as ondas apagaram meu brinquedo de areia eram suas mãos suaves que me levantaram. Que me mostraram a realidade. Ainda choro pelos mundos que perdi. Mas agora eu sei a verdade. Eu sei. As coisas que aprendi com a madrugada eram mentira. As coisas que importavam, Scully me ensinou. Eu pensei que era Fausto, até um Mefistófeles eu possuía. Pensei que fosse Tristão, eu tinha uma linda Isolda. Ou talvez Arthur, eu possuía minha tavola redonda. Como me enganei em todas as minhas suposições. Como é alta a queda das escadas do romantismo. Fui um louco apaixonado, eu queria que alguém notasse, mas na verdade, não permitia que ninguém chegasse muito perto para me ver. Pois quando vissem alguém poderia perceber, que eu era poético e falso. Eu era ainda menino, como dores muito adultas e reais. Responsabilidades muito pesadas. Como tive sorte de ser percebido por braços caridosos. Abraço quente e macio. Por minha Scully. Muito tempo se passou desde os dias em que eu fumava sozinho no quarto, não tenho mais quinze anos. Tenho o dobro, o triplo, tenho anos-luz de caminho que percorri desde aqueles tempos longínquos. Evolui. Tive bons professores. Hoje olho para trás, para meu passado e sangro. Fui inútil. Eu me pergunto e pergunto. Como fui inútil. E o pior, como acreditei que estava sendo útil. Eu arrastei vidas em meus sonhos vãos. A única coisa que me consola além da razão é saber que não Scully. Eu nunca enganei Scully. Ela sempre soube que eu era inútil. Que minha busca era inútil. Que eu não era um herói. Que eu era um poço de ilusões. Ela viu além dos meus mundos e da minha cortina de fumaça e ainda assim, ainda assim, ela viu poesia suficiente em mim para continuar ao meu lado. Para me suportar, e consolar a dor das quedas de meus degraus. Meus amigos morreram. Meu filho, não sei onde está. Não tenho mais pais, irmã, trabalho. Tenho dores e saudades. Foi o caminho que escolhi pensando que era o certo, pensando que chegaria em algum lugar além desse enorme muro no qual me deparei. Fui cheio das boas intenções, mas dizem que esse é o tijolo da estrada para o inferno. Estou no inferno. Eu pavimentei o meu caminho. Eu arrastei tolos comigo. Eu feri pessoas. Pessoas que eu amava. Mas não Scully. Eu ainda não entendo o que Scully viu em mim. Eu não entendo como ela pode traçar o mesmo caminho que eu sabendo onde daria. Eu não pergunto, aceito. Eu tenho medo. Eu me sentia culpado por tê-la trazido comigo, pensei que a havia coagido. Outro dos meus erros. Ninguém coage uma Scully, muito menos eu, um tolo. Scully tinha lá seus motivos secretos e agora ela carrega suas próprias feridas. Ela as carrega com dignidade surpreendente. Minha forte. Para onde vamos agora? Para onde vamos agora que sabemos a verdade? Acho que Scully também não planejou para nós um fim tão trágico. Acho que ela pensou que conseguiríamos. Ela tinha esperança que William seria como os outros então nós seriamos como os outros e poderíamos sair desse caminho que entramos. Mas nossa estrada é sem volta e só nos resta observar a paisagem. Olho para sua figura delicada deitada na cama. Ela dorme serenamente. Tão, tão linda... Homens fantásticos a amaram. Homens muito melhores que eu. Ainda não entendo o que fiz para que ela esteja aqui comigo, agora. Nesse quarto sujo e escuro de algum motel anônimo. Fugindo como bandidos, como os criminosos que passamos anos perseguindo. Ela dorme e eu ainda posso ver as marcas de suas lagrimas. Ela sente falta de nosso pequeno, de sua família. Ela chora às vezes. Não tanto quanto seria esperado. Ela dorme como se o mundo fosse bom. Ela não sonha, nunca. Eu penso para onde sua alma vai, quando ela dorme. Agora, agora depois de tudo. Agora que não temos esperança. Eu ainda sou o romântico que era. Não se muda em dias uma alma milenar. Mas agora eu sei a verdade, e nada dói mais para os poetas do que a verdade. A dura e crua realidade. A frieza dos fatos. Meu peito sangra. Explique-me, Scully. Explique para mim a minha alma. Explique para mim a sua alma. Porque eu não entendo, amor, eu não entendo. Toco seus cabelos vermelhos com a sutileza dos ventos. Senti tanto a sua falta. Tanto que doía respirar. Senti falta dos seus lábios, da sua luz. Quando o chão se abria a meus pés, quando eu descobri a verdade você não estava lá, Scully, não estava lá para me segurar. Foi uma queda dura. Perdoe-me, porque eu também não estava lá quando você caiu de tão alto das escadas das suas ilusões. Ilusões de que poderíamos ter uma vida normal. Agora estamos juntos para juntar os pedaços. Sempre, Scully. Sempre juntos. Consola-me saber. Eu te amo. Não te disse isso muitas vezes, você sabe. Quero dizer agora. Eu te amo. Tanto, tanto. Eu queria tomar as suas dores. Eu te daria tudo. Eu pensei que pudesse te dar tudo. Mas como sempre, eu estava errado. Ainda posso te dar o meu corpo, Scully. Minha alma você já tem há muito tempo, desde o dia 1. Meu corpo você tem há pouco tempo, é seu. Tome-o. Marque-o. Se te satisfaz, é seu. Se te consola, é seu. Se é meu, é seu. Meu sorriso, meu dinheiro, minhas lagrimas, seu, tudo seu. Meu filho é seu também. Será sempre seu mesmo não estando ao alcance dos olhos. Não chore por ele, eu gostaria de dizer, mas não tenho coragem. Toco seu rosto com meus lábios. Levemente. Suas pálpebras, seu nariz, sua testa, seus cabelos. Agora eu só tenho você. Faça algo comigo, Scully. Ajude-me. Toco seus lábios, seus dentes. Vamos morrer, Scully. Sinto muito, Scully. Sinto tanto. Conte-me porque. Conte-me porque você está aqui comigo. Você não merece. Eu não te mereço. Eu fui Romeu, Scully, eu me desisti quando pensei que você estava morta. Você nunca foi Julieta, nunca. Conte-me, Scully. Você acordou, mas não abriu os olhos. Nossas bocas quentes se encontraram. Havia tanta dor num beijo tão doce. Seus braços circularam meu pescoço, me puxaram, me sugaram. Eu fiquei por cima, esmagando ferozmente seu beijo, seu queixo, seu pescoço. Toquei seus cabelos, seus seios. Suas mãos tiraram minha camisa, dedos eficientes minha calça de pijama. Estávamos tão nus, tão quentes. Eu te amo, tanto, tanto. Mas eu não digo, eu espalho meu amor pelos seus poros, todos eles. Paro, quando nos unimos. Eu sempre paro. Sempre morro. Toda a poesia volta. Todo os meus sonhos de madrugadas de anos atrás, tudo volta quando estou assim tão perto de você. Tão perto que é impossível ir ainda mais. Eu te toco, eu te amo, eu te liberto. Eu sou seu, tão seu. Meu corpo é seu. Você sabe, você geme, você repete meu nome baixinho, sem querer... Mulder, Mulder, Mulder... Eu sei, eu sei tanto. Eu prometo, logo, tão logo. Ficamos nus e quietos em cima dos lençóis. Você toda enroscada em mim. Seus lábios em algum lugar do meu pescoço. Quando você fala é na altura suficiente apenas para eu ouvir. Um sussurro. - Desde sempre, Mulder, eu sou como sou. Eu nunca tive aquelas ilusões doces da infância. Eu nunca acreditei em Papai Noel, apesar de todos os esforços da minha mãe. Eu nunca quis me casar de branco ou esperei o príncipe encantado. Eu nunca olhei para as estrelas para procurar o pequeno príncipe. Eu nunca escrevi poesias adolescentes. Eu sempre vivi num mundo matemático. Era um mundo bom, mas faltava algo. Faltava a magia. Você me deu isso, Mulder. Todos os seus sonhos, você me deu. Você me deu sua beleza, sua poesia, seu romantismo. Sua alma tão incrivelmente linda. Você pôs cor na minha vida, você bagunçou todas as minhas equações. Me fez duvidar das minhas leis. Eu nunca vou poder te agradecer o suficiente, Mulder. Nunca. Se não fosse você, eu nunca teria vivido nenhum conto de fadas, visto nenhuma estrela, nenhum homem mariposa. Você me ensinou tudo, Mulder, todos os segredos da noite. Você me ensinou tudo que eu perdi enquanto eu dormia. Eu nem chorei. Eu entrei em choque. Eu entendi. E então, então de repente uma felicidade repentina me invadiu. EU, EU havia ensinado alguma coisa aquela mulher fantástica. Eu havia lhe dado algo. Eu parei de respirar, meu coração batendo forte nos pulmões. Olhos azuis me fitaram espantados. Sem querer, minha querida, você me libertou novamente da minha cegueira, da minha ignorância. Eu te dei algo. Agora eu sei, porque mesmo sabendo da inutilidade de nossa busca você continuou comigo no caminho. Ela sempre quis acreditar, assim como eu. A única coisa que tínhamos em comum. Nós dois sempre quisemos acreditar. Meus lábios tremiam quando toquei aos seus, novamente. Tão suavemente. - Sempre me surpreendeu que você me amasse, Mulder. Por que alguém como você me amaria? Eu quase ri. Eu, eu um tolo, porque eu a amaria? Ah, eu não era o único precisando entender. Mas agora, agora eu tinha a vida inteira para explicar a ela. Para fazê-la ver. Se ela queria castelos de ilusões, eu poderia dá-los para ela. Eu sabia construir uns lindos. Há anos eu os construía apenas para ela. O passado ainda nos dói. Nós perdemos, de certo modo. Agora outra vida iria começar. Eu e Scully estaríamos juntos. Nós construiríamos outro mundo, um aonde a realidade fosse mais branda, mas ainda assim, real. Ela colocaria os tijolos, eu os sonhos. Daria certo, éramos ótimos quando trabalhávamos juntos. Eu teria toda a eternidade para lhe contar tudo que aprendi com a madrugada. ____O Fim, mesmo ____ Eu só queria que no final, o Mulder e a Scully não pensassem que tudo foi mesmo inútil. Eu queria que eles ficassem bem. Não me importa que coisas horríveis tenham acontecido, que William não esteja mais com eles e os Pistoleiros estejam mortos. Estou triste com isso, mas me consolaria saber que eles aprenderam alguma coisa com esses anos juntos. Que eles não se arrependem. Meu final ideal não é perfeito, mas eu só queria que eles fossem felizes. Sou uma romântica, fazer o que? Contem pra mim o que vocês esperavam, meu e-mail é : mariaanita@msn.com, Antes era wm3@uol.com.br Eu parei de assinar UOL, mas não importa que se mande e-mail para o WM3 que o UOL redireciona eles para o MSN e eu os leio ( e respondo) da mesmo forma. Adeus, meus queridos (espero que ainda haja alguém ai)