Título: Aprendendo a Perdoar Autora: Alice J. Foster (Fe) Disclaimer: Não são meus. São do CC, 1013, FOX, etc. (Sure, fine, whatever...) Resumo: O que fazer quando a pessoa que você mais ama lhe causa um dos maiores sofrimentos de sua vida? Spoilers: !!!REQUIEM!!! Feedback: Please! Eu imploro! alice_j_foster@hotmail.com Classificação: Shipper Censura: PG-13 (por aí...) Dedicatória: Dedico essa fanfic à autora de fanfics, Sky. Tia, você é demais! *-*-* 7 de julho de 2001 Apartamento de Scully "Olho agora para seu rosto e vejo que fiz uma besteira - -" Scully afagava os cabelos de sua companhia com afeto e amor. "-- de certa forma, estava errada. Não acredito que estava errada em me sentir como me senti, mas hoje, neste momento, acho que poderia ter tomado uma posição diferente, mais flexível, mais compreensiva. Eu sinto muito. Sei que isto afeta você também, mas eu não sei onde estava com a cabeça. Eu sei que estava magoada, mas isso foi demais. Eu sei que eu mesma não disse tanto, mas também sei que ações falaram mais que palavras e não me orgulho de minhas ações." As palavras de Scully foram interrompidas por um choro intenso de sua companhia. Ela se dirigiu a ele e o pegou no colo. "Sinto muito, William. Eu sei que você está sofrendo pelas minhas ações e de seu pai. Eu vou tentar consertar a situação. Juro que vou." *-*-* 17 de março de 2001 Hospital Naval Bethesda Scully tentava correr, mas sua barriga a impedia. "Scully, vá com calma. Ele não vai sumir do hospital." "Eu quero vê-lo." Skinner cuidadosamente segurou o braço dela e a parou. "Você tem que saber como ele está. Ele está em coma. Ele está com fios ligados a seu rosto --" "Skinner, corta tudo isso e me deixa vê-lo, por favor. Eu sou médica, eu posso agüentar, eu tenho que vê-lo." Skinner abaixou a cabeça num gesto de derrota. "Está bem. Entre. Eu vou até a cafeteria trazer algo para você comer." Ele tentava dar apoio a ela com palavras. "Em cinco minutos eu estarei de volta." Scully mal escutou as palavras. Ela se dirigiu ao quarto de Mulder. Ela havia sido transferido para um quarto privado depois de Skinner passar horas pedindo pelo mesmo. Ela se aproximou do quarto 1013 e entrou. Uma cortina impedia Scully de ver mais que uma forma humana deitada numa cama de hospital. Ela se aproximou mais da cortina e a puxou de lado, revelando Mulder. Scully fechou os olhos como em prece profunda e respirou fundo. Ele não tinha um balão de oxigênio, mas ainda haviam tubos por todos os lados. Scully pensava consigo mesma. Ela afagava a barriga como se tentasse comunicar a seu filho que seu pai voltara. A criança se movimentou um pouco, ajeitando-se contra a cérvix dela e Scully se sentiu satisfeita, centrando-se novamente no homem a sua frente. Tomando mais dois passos na direção de Mulder, Scully conseguiu finalmente tocá-lo. Ela movimentou uma mecha do cabelo dele que insistia em cair sobre sua testa. "Onde você estava? Por que demorou tanto?" Falou ela quase que para si mesma. No mesmo instante Skinner bateu à porta e entrou junto com um médico e um copo de leite para Scully. "Eu trouxe o doutor George para explicar-lhe melhor a situação de Mulder." "Ótimo." Scully aceitou o copo de leite de Skinner e agradeceu-lhe. Desde que Mulder desaparecera, Skinner fizera questão de perguntar à Scully sobre a gravidez, sempre trazia alimentos para ela quando ela trabalhava até tarde. Mas agora Scully não conseguia pensar em comer ou beber. Ela só conseguia pensar na forma repousando naquela cama de hospital. "Dra. Scully? Eu sou o Dr. George, vim informar-lhe sobre a condição de seu--" ele olhou na ficha de Mulder. "Parceiro." Scully disse sem querer dar muitas explicações. "Bem, seu parceiro foi encontrado há seis dias num carro abandonado na estrada. Ele foi trazido para cá ainda consciente, mas ficou inconsciente dentro de duas horas. Desde então ele tem alternado entre consciência e inconsciência. Ele não conseguia falar em seus períodos conscientes no começo, ele ficava agitado, violento. Algum tempo depois ele começou a falar. Ele perguntou por Scully, e nada mais. Há três dias ele não tem um período consciente. Levamos algum tempo procurando na lista telefônica alguma informação e achamos seu número, porém só conseguíamos a secretária eletrônica." "Eu estava fora da cidade em um caso." "De qualquer maneira, nós tiramos as digitais dele há algum tempo, mas os resultados nunca voltaram. Pensamos que ele fosse algum mendigo por algum tempo, mas depois vimos que não era o caso." "Certo. Eu gostaria de tirar sangue para alguns exames laboratoriais." "Já fizemos um hemograma completo, assim como uma tomografia e raios X. Ele não apresenta nada de errado. Ele pode acordar a qualquer instante." "Nenhum exame que o senhor possa ter feito poderia acusar o que eu procuro." Scully replicou com seu olhar voltado para seu parceiro. "Certo, vou chamar uma enfermeira." "Obrigada." O médico saiu do quarto e Scully voltou-se para Skinner, que tinha ouvido tudo em silêncio. "Eles são tão originais, não? Sinto um clima de deja vu." "Eu não acho que as pessoas que levaram Mulder foram as mesmas que levaram você, Scully." "Eu sei. Mas o Modus Operandi é tão parecido que chega a ser ridículo." Scully disse sarcasticamente, segurando as lágrimas que teimavam a vir, deixando seus olhos pesados. "Você estava em condições mais graves. Ele irá agüentar, Scully." "Eu espero. Eu espero, não conseguirei viver sabendo que ele finalmente voltou para mim para morrer. Ele não pode morrer assim. Um guerreiro tem que morrer num campo de batalha, não numa cama de hospital. E isso Mulder sempre foi, senhor. Um guerreiro. Alguém para proteger a Verdade a qualquer custo. Para protegê-la desse homens que tentam denegri-la. Ele não pode morrer. Ele não pode. Não agora que nós dois temos um motivo a mais para viver." Skinner engoliu em seco o desabafo de Scully e tentou achar algo para dizer. Mas tudo que ele pode conseguir foi "Você sabe que você é uma guerreira ao lado dele, não sabe? Porque não há satisfação em conseguir uma vitória em uma batalha se você não tem com quem dividi- la, com quem comemorá-la." Scully nada respondeu. Não que ela não valorizasse o que Skinner lhe dissera, mas sua concentração estava dirigida demais ao homem inconsciente à sua frente para ela pensar em uma resposta. Ela novamente acariciou o rosto de Mulder. Sua pele estava mais áspera, assim como deveria estar seu espírito. Mulder não respondia ao toque, apenas dormia, não o sono dos calmos, mas o sono daqueles que não tem coragem para desistir nem para continuar. *-*-* 20 de março de 2001 Scully chegou ao quarto de hospital para sua visita diária e foi até Mulder. Os médicos não deixaram-na ficar todas as noites lá, apenas a primeira. Ela sabia que ela poderia conseguir ficar lá o quanto tempo ela desejasse, se ela quisesse, mas dormir numa cadeira não era o prospecto dela de felicidade noturna, e seu nervo ciático concordava com ela. Ao invés disso ela saía quase de madrugada e voltava logo depois do sol começar a raiar sobre a capital do país. Ela, com muito esforço, curvou-se e depositou um beijo sobre a testa de Mulder e acariciou-lhe a face esquerda. "Agora eu vim só dar oi. Eu vou até o quartel dos Pistoleiros e volto na parte da tarde." Ela explicou para Mulder e saiu do quarto. *-*-* 09:15am QG dos Pistoleiros Solitários "O que descobriram?" Scully foi logo perguntando ao entrar no QG dos Pistoleiros Solitários. "Sente-se aqui. Você não pode ficar em pé muito tempo." Byers disse e logo Frohike empurrava um banquinho embaixo de Scully, fazendo com que ela se sentasse. "Certo, agora vamos direto ao ponto, o que vocês descobriram?" Os três se entreolharam num olhar de cumplicidade e começaram. "Não pudemos identificar no sangue de Mulder a mesma substância que encontramos em seu sangue há sete anos." "E isso é bom?" "Considerando que aquilo estava lhe envenenando, sim. Mas a notícia ruim é que não conseguimos identificar uma proteína no sangue dele. Ela não se encaixa em nada que já vimos." "Uma proteína?" "Na verdade duas. Algumas células do corpo dele possuem um material genético formado por seis proteínas. Não todo o sangue dele, apenas um tipo de célula que encontramos." "Mas isso é prova do que estivemos procurando todo esse tempo." "Mas não acaba aí, Scully. Quando observamos essa célula hoje de manhã, haviam milhares delas. Não há mais nenhuma nas amostras restantes. Elas sumiram." "Mas isso é impossível! A--a biologia dessas células-- a morfologia-- o hemograma-- isso não é possível!" Scully colocou a mão na cabeça enquanto seu cérebro tentava funcionar mais rápido do que ele mesmo suportava. "Os exames no hospital podem ter sido manipulados, sabemos disso. E se uma pessoa não soubesse pelo que procurar, provavelmente não descobriria o que descobrimos." Scully se sentia frustrada e novamente enganada. "Certo. Eu vou voltar ao hospital." "Como ele está?" "Igual. Sem mudanças. Ele pode acordar a qualquer minuto, como pode ficar desse jeito pelo resto da vida. Só espero não ter que tomar a decisão que pediram à minha família para tomar." Os Pistoleiros apenas concordaram enquanto ela se dirigia à porta. "Obrigada, garotos. Vocês têm sido muito importantes para mim." "Não se preocupe, Scully. Só queremos ver o Mulder e o bebê bem." *-*-* 12:30pm "Dra. Scully, Dra. Scully!?" Uma enfermeira gritava ao ver Scully saindo do elevador. "Venha, ele está acordando!" "O que?" "Ele está acordando! Venha!" Scully apressou o passo para o quarto de Mulder. Ao chegar, ela viu o médico e mais três enfermeiros no quarto. Eles impediam que ela visse a cama de Mulder. Ela foi se aproximando e tentando afastar os enfermeiros do caminho. Foi então que ela o viu. Ele sentado na cama, vários travesseiros suportando-o, enquanto o médico checava a pressão sangüínea dele. Ele olhou para ela e depois para a barriga dela. Ela sorriu e logo depois ele abriu um sorriso também. Era a visão mais bonita que Scully tinha em muito tempo. Os olhos deles se encontraram e logo o médico e os enfermeiros os deixaram a sós. "Bem-vindo de volta." "Obrigado. Como ele está?" Perguntou Mulder. Scully estranhou a pergunta, mas não estava em posição de questioná-lo. Ela foi calmamente até ele, seu coração batendo descompassadamente, seus passos lentos e incertos. Mas a incerteza acabou quando ela o alcançou. Quando a pequena infinita distância fora percorrida. Ela abriu os braços e o abraçou. Ele a abraçou de volta. Mulder sentiu as lágrimas quentes em suas costas e logo começou a sentir os tremores que vinham do peito dela, os soluços e longas respirações. Scully não tinha se permitido chorar até aquele momento. Tinha prometido a si mesma, a Mulder e ao filho que esperava que só choraria no momento em que o encontrasse e pudesse olhar nos olhos dele, saber que ele estava bem. Queria derramar lágrimas de felicidade, não de tristeza, solidão. Após um longo tempo eles se separaram e ela beijou-lhe a testa, enquanto ele se abaixava para colocar a cabeça sobre barriga dela. Scully esperava alguma surpresa e até descrença por parte de Mulder em relação à gravidez, mas ele não apresentara nenhum dos dois. Mas ela não estava em condição de julgar isso. Ela queria apenas sentir o toque dele, a maneira como as mãos dele pareciam envolver completamente toda a barriga dela. Ela beijou o cabelo dele enquanto ele acariciava a barriga dela com o rosto. "Estou feliz de ter voltado, Scully. Não via a hora." Scully nada respondeu. Não tinha mais respostas que pudessem ser ditas, apenas que pudessem ser demonstradas fisicamente. Ela colocou a mão sobre o queixo de Mulder e fez com que ele olhasse para ela. Ela então desceu seus lábios de encontro aos dele, provocando um toque suave e eletrizante ao mesmo tempo. E assim eles continuaram, na esperança de que as dificuldades pudessem esperar um pouco mais para agirem e pudessem ter um pouco de sossego. Talvez ambos sentiam que aquela era a calmaria antes da tempestade. *-*-* 31 de março Apartamento de Scully 08:35 am Scully acordou com beijos. Não os beijos apaixonados que ela se acostumara a receber de manhã antes de Mulder ser levado, mas beijos suaves sobre sua barriga. Ela escutou Mulder cantarolar um pouco para seu filho e depois começar uma conversa com a criança ainda não-nascida. "Não consigo parar de pensar em você. Acabei de ter um sonho onde morávamos em uma casa com um balanço e você ficava brincando o tempo todo. Eu e sua mãe o empurrávamos e vivíamos felizes. Eu sei que eu jamais poderia te dar uma vida dessa, não com a vida que sua mãe e eu levamos, mas eu prometo que eu farei o melhor. Eu prometo que eu tentarei que você seja feliz, que você tenha uma infância mais feliz que a minha." Scully engoliu em seco e esperou, mas Mulder, aparentemente, ainda achava que ela dormia. "Por algumas vezes, enquanto eu estava longe, eu tive dúvida da escolha que fiz. Mas ao ver o sorriso de felicidade de sua mãe, o jeito como ela fala de você, vejo que tomei a decisão certa. Vejo que esses meses valeram a pena." Com isso os olhos de Scully abriram-se rapidamente. Ela sentou-se na cama e olhou para Mulder com um olhar interrogante. "Do que você está falando, Mulder?" "Achei que você estivesse dormindo." "Eu estava, mas acordei e agora eu quero saber do que está falando. O que quer dizer com 'esse meses valeram a pena'? Que escolha foi essa que você fez?" "Eu queria conversar com você sobre isso depois que ele nascesse." "Sobre 'isso' o que? Do que você está falando, Mulder?" Ele não olhava nos olhos dela. "Podemos conversar sobre isso depois, Scully?" "Não, Mulder. Nós vamos conversar sobre isso agora. Me explique neste exato momento sobre o que você está falando." Mulder continuava olhando para a parede. "Mulder, você já sabia o que ia acontecer?" Ele ficou mudo por algum tempo. "Você fez algum tipo de acordo, Mulder? Responde, Mulder." Scully já estava ficando irritada. "Eu não sabia exatamente, mas eu precisei fazer isso." "Não, Mulder. Você precisa de oxigênio e água. Você fez isso porquê você quis." "Não, Scully. A única coisa que eu preciso é você." Eles se olharam nos olhos. Mulder viu algo nos olhos de Scully que nunca vira antes. Uma espécie de sentimento de traição com raiva. "Então aprenda a não precisar. Por favor, vá embora." A voz de ambos era trêmula. Mulder levantou-se da cama e colocou uma calça jeans e uma camiseta. "Nós precisamos conversar, Scully. Nós precisamos discutir o que está acontecendo." "Eu não tenho mais nada para falar com você, Mulder. Você passou três meses sem mim, você viu o quanto foi difícil. Você tem idéia do que é passar seis meses? Seis meses sem saber se você está vivo ou morto, bem ou doente, precisando de alguma coisa, de mim?" "Eu sinto muito." "Sei que sente. Agora vá, por favor. Eu preciso estar sozinha. Eu preciso resolver algumas coisas." A voz dela era quase imperceptível. Ele pegou algumas coisas e foi embora. Alguns minutos depois Scully levantou-se e começou a arrumar as malas. Quarenta minutos depois ela pegava a estrada na direção do Maine. *-*-* 08 de abril Quartel do FBI "Pode entrar." Kimberly acompanhou Scully até a sala de Skinner. "Senhor, posso falar-lhe um minuto?" "Sim, Agente Scully." O tom formal de Skinner deu arrepios em Scully. "O senhor sabe onde está Mulder?" "Você deveria saber." "Sim, deveria, mas não sei. Voltei hoje do Maine e não o encontrei. Já tentei o celular e o apartamento e não o acho." "O agente Mulder pediu transferência." Scully não pôde acreditar em seus ouvidos por alguns instantes. "Como?" "O agente Mulder pediu transferência há dois dias. Ele foi relocado para um escritório na Filadélfia temporariamente." Scully ainda não conseguia encontrar as palavras. Ela não podia imaginar porquê aquilo estava acontecendo. Claro, ela precisava se afastar de Mulder, mas ela só queria esclarecer um pouco sua mente. Não esperava por isso. "Ele lhe procurou por diversos dias, mas ninguém pôde lhe encontrar. Acho que ele deduziu que você queria ficar longe dele. Eu quase não aceitei o pedido de transferência dele, mas sofri pressão de alguém influente para que ele fosse transferido para lá." "Ele simplesmente abandonou tudo? Os Arquivos X? Eles são a vida dele." "Parece que ele quer começar um projeto similar na Pensilvânia." Scully encarou Skinner por alguns instantes. Ela fechou os olhos e colocou a mão sobre eles. Quando ela os abriu de novo, Skinner notou que ele tinha novamente adquirido a postura profissional e impecável que sempre usara quando necessária. "Quando eu voltar da licença-maternidade devo assumir que serei relocada?" "Não. Se você quiser, pode continuar nos Arquivos X." "Ótimo. Muito obrigado, senhor." Ela não esperou Skinner dispensá-la, apenas levantou e saiu. *-*-* 07 de julho de 2001 Apartamento de Scully Scully tentava acalmar a criança que estava a todo vapor. O choro já incomodava os ouvidos dela e dos vizinhos. Ela já tinha tentado de tudo. Ele não tinha fome, não precisava trocar a fralda, nada. E mesmo assim William não parava. Scully odiava admitir que talvez soubesse o que seu filho precisava. *-*-* Filadélfia, Pensilvânia 09 de julho Scully procurou o número do conjunto residencial e encontrou. Ela desceu do carro e retirou William na cadeirinha para carros e o carregou até a porta do prédio. O vizinho vendo a situação dela, segurou a porta, poupando-lhe o trabalho de interfonar antes de subir. Scully bateu suavemente à porta. Já tinha ligado anteriormente para o escritório e certificara-se de que ele não fora trabalhar. "Quem é?" ela escutou uma voz de dentro do apartamento perguntar. "Sou eu." Ela respondeu simplesmente. Ela escutou um estrondo lá dentro e esperou vários minutos até que a porta fosse aberta. Nenhum dos dois disse nada por vários instantes, ela ficou parada do lado de fora do apartamento e ele do lado de dentro. Eles se entreolharam por uma eternidade até que Mulder desviou o olhar dele para a cadeirinha onde William estava. Mulder perguntou a Scully com o olhar se poderia vê-lo e ela consentiu. Ele abriu passagem para ela e ela entrou no apartamento. Era uma completa bagunça, bem menor do que o apartamento dele de Washington - se isso era possível - somente um sofá e uma TV na sala, sem estantes, nada. Ela podia ver um quarto sem cama, caixas e caixas de arquivos e uma mesa de jantar pequena, para quatro pessoas. Ela nem se atreveu a olhar a cozinha. "Precisamos conversar." "Achei que você não queria conversar." Ele retornou num tom semi-irônico. "Agora eu quero." Replicou ela irritada. "Primeiro posso vê-lo?" Ele apontou para William. Ele estava coberto com um cobertorzinho e Mulder só conseguia ver a touquinha amarela. Scully colocou a cadeirinha sobre a mesa de jantar e Mulder estava ao lado dela em milisegundos. Ela retirou o cobertor e William acordou no mesmo instante. "Como ele está?" "Está bem. Está quase com três meses." "Os Pistoleiros me ligaram quando ele nasceu." Scully apenas concordou com a cabeça. Ela nunca teria imaginado que seria tão difícil o parto sem Mulder ao lado dela. De certa maneira, teria magoado-a menos se ele ainda estivesse desaparecido, a saber que ele estava próximo e não fora até o hospital. "Ele é lindo." Mulder disse quase suspirando. "É sim. Parece com você." Com isso o garoto abriu os olhos e olhou para ambos, interessando-se rapidamente em Mulder e no nariz dele, o qual ele começou a apertar. A criança tinha poucos cabelos castanhos, olhos azuis. Mulder via nos olhos de William o olhar de Scully. E adorava esse fato. "E então, o que você quer?" "Eu disse. Precisamos conversar." "Poderíamos conversar por telefone. Por que veio até aqui?" "Desculpe-me, está esperando alguém? Se estiver nós podemos ir embora." Scully disse sarcasticamente. Cobrindo William novamente. Mulder a impediu. "Espere, não foi isso que quis dizer." Ele pusera a mão sobre a dela para impedi-la e o toque tornara-se eletrizante, até que ambos retiraram suas mãos rapidamente. "Posso segurá-lo?" "Claro." Mulder soltou o "cinto" da cadeirinha e trouxe William para seus braços. O bebê foi sem reclamar e logo se aconchegou no peito de Mulder. Mulder trajava camiseta cinza e uma calça jeans preta. Scully foi até ele colocou uma fralda de pano sobre a camiseta dele. A mão dela acabou roçando no braço dele e logo ambos estavam vermelhos. Ela não se moveu dessa vez e Mulder - cuidando para que William não ficasse desconfortável, - inclinou-se para beijá-la. O nariz dele tocou o dela e os lábios deles estavam a milímetros um do outro quando ela se afastou. "Eu não vim aqui para isso, Mulder. Nós precisamos conversar. William precisa de você." Ela queria dizer 'eu preciso de você também', mas ela não poderia admitir essa fraqueza agora. Mulder apenas voltou sua atenção para William, pois ele sabia que naquele ponto, ela estava mais irritada consigo mesma do que com ele. Ele sentou-se numa das cadeiras da sala e Scully sentou-se em outra. Eles ficaram assim por muito tempo, Mulder falando coisas ininteligíveis para o bebê e Scully apenas observando os dois. William começou a chorar e Mulder não conseguia fazê-lo parar. "Ele está com fome. Você quer tentar dar a mamadeira?" "Posso???" Scully apenas sorriu e foi até a sacola em que guardava mamadeira. "Eu preciso esquentar, posso usar sua cozinha?" "Fique à vontade." Mulder disse, sua concentração em William. Mulder sabia que Scully ainda estava magoada, assim como ele, que se sentiu abandonado quando ela não lhe dera ouvidos e enxotara-o de sua casa. Ele sabia que as circunstâncias ao redor da escolha que ele fizera foram erradas, mas ele jamais se arrependeria pelo nascimento dessa criança, principalmente, com ele nos seus braços como agora. Ele escutou o barulho em sua cozinha e nem se preocupou em olhar, ele confiava no que Scully estivesse fazendo. Esse era o grande problema. Confiança. Sempre fora o problema desde o começo de sua parceria com Scully, ele sabia disso. No relacionamento deles, confiança nunca foi só um palavra e sim um léxico inteiro. Scully não sabia se poderia confiar mais nele. Ele via isso nos olhos dela. Ela não conseguia entender isso? Ele vira em mais de uma ocasião a vontade dela em conceber uma criança. A causa da esterilidade dela era ter ficado ao lado dele todos esses anos, como ele não poderia fazer de tudo para devolver isso a ela? Quando eles foram para o Oregon ele cogitou por um segundo contar-lhe sobre o acordo, mas ao vê-la com aquele bebê o fez mudar de idéia. Ela teria tentado impedi-lo e fazendo-o, ELES poderiam tirar a criança deles. Mulder estava tão concentrado em seus pensamentos que não percebeu Scully voltando com a mamadeira. Ela colocou-a à frente dele e ele finalmente percebeu o retorno da presença de Scully. Mulder desajeitadamente começou a alimentar seu filho, que cessava o choro para poder se alimentar. Todos ficaram em silêncio, numa trégua não muito reconfortante. Quando Mulder acabou de alimentar William Scully estava olhando para ambos e Mulder começou a olhar para ela. Ela já havia perdido todo o peso praticamente que ela havia ganhado durante a gravidez. Ela parecia mais cansada e mais feliz ao mesmo tempo. Mas as linhas sobre os olhos dela não mentiam o fato de que ela não estava bem, por mais que Mulder soubesse que se ele perguntasse ela diria que estava. William se aconchegou no ombro de Mulder enquanto ele tentava fazer com que o bebê arrotasse. Logo o bebê terminou por completo seu trabalho e fechou os olhos em uma expressão de satisfação e cansaço. Mulder o colocou de volta em sua cadeirinha e olhou para Scully. Chegara a hora. Eles precisavam conversar, não tinha mais como adiar. "Você disse que precisava conversar." "Me desculpe o sarcasmo anteriormente, mas falando sério, não estou interrompendo algo importante?" Scully começou a arrumar suas coisas desajeitadamente. Ela se dirigiu a William e novamente Mulder a impediu. "Você nunca fugiu antes, Scully. Não creio que irá começar agora." Ela fechou os olhos e Mulder continuava segurando o braço dela. Ela abaixou a cabeça e se Mulder não estivesse prestando atenção, nem teria ouvido a voz de Scully. "Por que?" Ele perguntaria sobre o que ela estava falando se ele não soubesse exatamente o que ela queria dizer. Era uma pergunta que ele tinha se feito muitas vezes. "Olhe para ele. Ele é a resposta." "William?" ele assentiu. "Foi por ele. Foi por você." "Mas por que teve de ser daquele jeito?" "Eu não escolhi as regras, apenas concorri para poder receber o prêmio. E olhando para ele, vejo que recebi." "A que custo?" "Eu sei que o custo foi alto. Mas jamais poderia pôr preço nele. Preço em sua felicidade e, se nós nos permitirmos, nossa felicidade." "Mulder, você não imagina o quanto eu sofri." Ela tirou sua mão de perto da dele, que a segurava pelo pulso. "Eu imagino. Provavelmente quase tanto quanto eu sofri pensando se tinha feito a escolha certa." "Mas você teve uma escolha." "De certa maneira. Eu não te contei uma coisa, Scully." Ela olhou nos olhos dele como se procurando as respostas e segredos ainda não revelados. "Acho que somos especiais." Sorrindo com o ponto de interrogação que se formou na testa de Scully, Mulder prosseguiu. "O que eu quis dizer é que nossos genes são especiais. Eu ouvi algumas coisas durante o tempo que eu estava longe e elas me fizeram pensar. Acho que se eu não tivesse escolhido isso, teriam não só me levado, como teriam levado William, pois, diferente de Emily, ele é um milagre que deveria existir. Eles teriam achado um jeito dele existir, com ou sem acordo." Ele esperou que Scully registrasse as informações que ele lhe dava. "Você se lembra de tudo?" Indagou ela calmamente, seu exterior mostrando uma calma que seu interior tentava alcançar. "Não. Mas me lembro de muita coisa. Me lembro da medicação diária, a dor causada. Mas o que permanece mais forte em minha memória, é a dor que eu sentia por estar longe de você." Ela desviou o olhar dele. Aquele olhar estava atraente demais e ela não queria se deixar levar. "Por que pediu transferência, então?" "Achei que você quisesse ficar longe de mim." "Eu quis. Por um tempo." "E não quer mais?" "Não sei o que quero." Isso silenciou a ambos. "Eu sei o que quero." Disse Mulder olhando para William dormindo. "Já perdi tempo demais da vida dele. Quero estar perto dele." Ele olhou para ela. "Quero estar perto de vocês dois." Scully nada disse, apenas virou-se ficando de costas para Mulder. Ela abaixou a cabeça e sentiu Mulder se aproximar dela. "Não sei se posso voltar a confiar em você." Confiança. Ele sabia que tudo voltaria à essa palavra. "Mas teremos de tentar. Ainda não sei dizer se considero o que você fez um erro. Ainda não sei como me sentir em relação à tudo o que aconteceu. Mas eu sei que William foi a melhor coisa que me aconteceu depois de te conhecer. Acho que um dia saberei como me sentir. Não sei se poderei voltar a confiar em você. Mas isso só o tempo nos dirá. E eu gostaria que durante esse tempo, você esteja ao meu lado. Ao nosso lado." "Eu estarei ao seu lado por quanto tempo você me quiser." Ela se virou e o abraçou. Ele colocou o queixo sobre a cabeça dela e a puxou mais fortemente contra si. Ela se ajeitou sobre o peito dele e ele beijou a testa dela. Ela retribuiu beijando-lhe o pescoço. Mulder colocou a mão na nuca dela, sentindo o local onde o implante dela se encontrava e desceu os lábios dele em encontro aos dela. "Senti sua falta." Disse ele ofegante após seus lábios se separarem. "Senti falta de sua mente perspicaz me contestando o tempo todo." "Por mais que eu odeie admitir depois de tudo o que eu descobri, eu também senti sua falta, Mulder. Não existem Arquivos X sem você. Eu senti sua falta." "Em mais de uma maneira?" "Em todas as maneiras que você possa imaginar." Eles se abraçaram novamente e William achou esse o momento exato para acordar. Scully se separou de Mulder e pegou o bebê no colo. Mulder abraçou ambos e beijou a testa de William e depois beijou levemente Scully. Ela retribuiu e depois ambos se concentraram no bebê. "Nosso milagre." Mulder sussurrou para Scully. "Nosso?" "Não importa o que disserem ou fizerem, ele é nosso. Meu e seu e de mais ninguém. Ninguém pode amá-lo como nós. Ninguém irá." "Como pode ter tanta certeza?" "Da mesma maneira que sei que ninguém irá te amar como eu te amo." Scully não respondeu, apenas puxou Mulder para si e beijou-o novamente segurando William com uma mão e Mulder com outra. Scully soube naquele instante que tinha tudo que poderia querer nas mãos, figurativa e literalmente. Ela se sentiu satisfeita. Sentiu também algo que não podia identificar, mas que por enquanto poderia ser chamado de amor. Talvez felicidade. Talvez ambos. *-*-* Feedback para: alice_j_foster@hotmail.com