Autora: Tayana Classificação: half-shipper Censura: - Spoiler: - Sinopse: A vida de Scully está por um fio, mas é apenas uma questão de escolha. Tudo que Mulder pode fazer é aguardar a decisão dela. Disclaimer: As personagens presentes nessa fanfic são de propriedade de CC, da 1013 e da Fox. Utilizados apenas com o intuito de divertir os milhões de fãs. Sem fins lucrativos. Considerações: Ainda estou aprendendo a fazer Fics. Por isso considerem maiores problemas nas situações e diálogos... Feedbacks: tay.fm@bol.com.br. Por favor, escrevam falando bem ou mal. Os e-mails são muito importantes, assim corrigimos nossos erros e aprendemos a escrever. Ao longo do caminho Subúrbio de Washington D.C. 29/09/00 – 11:21 p.m. Mulder dispara três tiros contra a fechadura da velha porta e arromba a entrada. Eles empunham suas armas e suas lanternas e entram sorrateiramente. Tudo ali cheira a mofo. Não há luz, as janelas estão lacradas, o piso e o teto estão podres. Era uma pena, a casa deveria ter sido muito bonita quando foi construída, em 1860. Pelo chão da grande sala pode-se ver jornais, velhas fotos, caixas. Mulder abaixa-se e pega um dos recortes. " 'Indícios de nave alienígena na costa chinesa.'" – ele lê e mostra a parceira. – "O que acha, Scully?" "É mais um jornalzinho sensacionalista, Mulder." – ela joga o recorte no chão. – "Olha o nome: 'Notícias Surpreendentes de 1981.'" "Não, Scully. Não falo da matéria." – ele abriu uma das caixas. – "Falo do acervo Ufológico existente nessa casa.... Olha só." – e, tirando da caixa, mostrou a parceira uma pequena maquete de um Ovni. – "Provavelmente, poderemos achar algo que nos leve a verdade. Algo ainda não esclarecido sobre a maldita conspiração. Algo que responda..." "Mulder." – ela cortou-o. – "Não acho que vamos descobrir algo de realmente útil aqui. É como se entrássemos em nosso escritório. Há muitas coisas sobre alienígenas, típicos de um colecionador, ou até mesmo de um explorador. Mas é pouco possível que esta casa tenha realmente sido habitada pelo tal cientista abduzido. E se foi, que diferença fará? Ele está morto. Morreu de uma causa natural, não foi assassinado, já fiz a autópsia... Ele não teria nada demais para nos contar se estivesse vivo além de sua experiência de abdução, que é a mesma história que ouvimos há 7 anos." "Não foi ele quem pediu para investigarmos. Creio que o tal e-mail tenha algum fundamento." – ele dizia retirando estranhos objetos de dentro das caixas. – "Olhe, parece que colecionava pedras lunares também." "Isso é ridículo, Mulder." – ela remexia entre as velharias. – "Não deveria ter lhe mostrado o e-mail. Deve ser algum tipo de brincadeira, ou..." "Ou algum tipo de verdade, Scully. Nós rastreamos o e-mail. Quem mandou teve a preocupação de impossibilitar a sua detecção. Deve ser alguém que corre risco, talvez ameaçado pelo Consórcio, acho que..." "Mulder, vamos dar uma olhada lá em cima e vamos embora. Você sabe tão bem quanto eu que isto é uma perda de tempo. Se quiser fuçar essa porcaria toda venha depois, durante o fim de semana e divirta-se. Eu ainda tenho que terminar o laudo da autópsia e entregar amanhã de manhã, assim posso aproveitar a Sexta toda para descançar." Mulder levantou-se magoado e, sem olhá-la, subiu as escadas. Era incrível como ela estava se mostrando tão indisposta para o trabalho, principalmente quando se dizia a respeito da sua busca, sua interminável busca pela verdade. Ela apontou para um dos quartos: "Vou dar uma olhada nesse." Ele entrou em outro. Realmente, havia, ali, coisas muito interessantes, mas provavelmente nada que levasse a algum lugar. Perguntava-se o por que do e- mail? Quem o teria mandado? Com que intuito? Acordou de suas divagações com um forte rangido das tábuas do chão. A casa estava podre. Olhou seu relógio. Estava ali naquele quarto há mais de 40 minutos e nem sequer havia percebido como o tempo passara rápido. Seu primeiro pensamento foi em Scully. Onde ela estaria que não o apressara ainda? Correu até o quarto ao lado e ali estava ela, ajoelhada, em frente a uma caixa, a cabeça abaixada. "Scully?" – chamou da porta. Não houve resposta. – "Scully?" – ela nem sequer moveu-se. – "Scully?" – tocou o ombro da parceira que finalmente encarou-o. Quando viu os olhos da parceira, ou do cadáver, tremeu e deu um passo atrás, em pânico. Estavam completamente negros, mas podia-se ver que era profundo, que havia algo há quilômetros de distância, dentro dos olhos dela. Não pronunciou palavra até que piscou novamente e encarou-a. "Mulder? Você está bem?" – ela perguntou levantando-se e apoiando o parceiro que parecia perder o equilíbrio. "Estou." – balbuciou após alguns segundos de tensão.- "Você está bem?" – podia ver a perfeição daqueles olhos azuis, mesmo na penumbra. "É claro que sim. Você que pareceu tonto. Olhe só o que achei." – e abaixou-se para apanhar algo dentro da caixa. Mas o que procurava não encontrou. – "Onde está? Estava em minhas mãos agora mesmo. Onde está?" – e procurava pelo chão tentando encontrar o tal objeto. "O que era, Scully?" – perguntou Mulder apreensivo. "Um medalhão. Havia um onix no centro e inscrições em volta. Ele..." "Vamos sair daqui, Scully. Você tem razão. Não há nada de útil aqui. Já é tarde, acho que preciso descançar..." – e seguiu a parceira, não sem antes voltar-se para a caixa, apontando a lanterna, certificando-se que nada havia lá e, em seguida, consultar seu relógio, constatando que apenas dois minutos haviam se passado. Georgetown - Washington D.C. 30/09/00 – 1:20 a.m. Apartamento da Agente Dana Scully Scully entrou em seu apartamento bastante confusa diante da conversa que acabara de ter com Mulder. Ele insistiu, perguntando-lhe sobre o tal medalhão. Ela pouco pôde responder. Ele parecia ter arrepios, o que deixou-a apreensiva. Perguntou o que era. "Percebeu algum lapso de tempo, quando estávamos na casa, Scully?" "Não." - ela respondeu, estranhando a pergunta. – "O que está me escondendo, Mulder?" "Nada, é só um mal pressentimento." – ele queria encerrar a conversa. A imagem dos olhos negros da parceira não saíam de sua cabeça. "Sobre o que?" – ela perguntou, forçando-o a continuar. "Tive a sensação de vê-la com os olhos negros... Como se estivesse morta..." – ele suava frio. "O que está dizendo?" – ela parecia não acreditar. Ele guardou silêncio, sabendo que ela nunca acreditaria. Ela nunca acreditava. – "Mulder, acho que precisa de férias. Está se impressionando com tudo. Mortes, Ovnis, palavras. Até a escuridão da casa fez mal a você." "Eu sei o que vi, Scully." – ele dizia convicto. "Não, Mulder. Há 4 semanas que viajamos, corremos, fazemos relatórios, você já perdeu várias noites e eu também. Estamos fracos, cansados, abalados. Escute, eu me encarrego do relatório. Levo-o a Skinner amanhã, assim você terá todo o fim de semana para colocar a cabeça no lugar.." . "Scully! Ao menos uma vez pode acreditar no que eu digo? Pode parar de achar expliacações plausíveis e assumir que algo está errado?" – ele explodia, agressivo. Ela não disse nada. Não olhou-o. Magoada, virou-se para a rua e passou a observar os carros. – "Scully... sei que alucinações são possíveis, principalmente no estado em que estamos. Mas não gosto quando duvida de algo que eu pressinto, que eu vejo ou que eu sei. Você é..." "Você se acha o dono da verdade, não?" – foi a vez dela explodir. – "Quando suas teorias estão certas eu concordo, aceito e assino em baixo, literalmente. Mas quando é a minha ciência que está certa, você não admite, não ouve. Acha que trabalho com você apenas para discordar do que diz, não é? Mostra-se arredio cada vez que apresento uma explicação para suas loucuras. Você não é mais uma criança para criar suas fantasias, viver nelas, e ainda querer levar as pessoas para dentro dela." "Falou mais uma vez a Senhora Dona da Verdade. Ainda assim acha que seus estudos levam a todas as respostas? Seus estudos não tem se mostrado úteis nos Arquivos X, a menos que precisemos de uma autópsia." – ele estava realmente magoado, e fez de tudo para feri-la, o mais fundo possível. "E acha que suas divagações nos levaram até onde? Ao fundo do poço. Os agentes mais estranhos do F.B.I.. Criam problemas, gastam dinheiro, resolvem pouco. Se acha que minha ciência não leva a nada, saiba que, se não fosse por ela, os Arquivos X estariam fechados há muito tempo, por falta de conclusão e explicação dos casos." Foi em meio a essa discussão que ela desceu do carro em frente ao seu prédio e só parou quando entrou em casa. Algo havia acontecido. Ela havia dito coisas que não queria, coisas que não pensara jamais em dizer, coisas que nem sequer sentia. Mas a atmosfera de ódio que criou-se no carro fê-la disparar insultos contra seu parceiro. Fê-la magoá-lo sem realmente querer. Fê-la feri-lo com todas as palavras que possuia. Sem perdão e sem raciocínio. Tinha vontade de chorar, de ligar para ele e pedir que ele a perdoasse... Lembrou-se, então, das palavras dele. Ela não queria ter dito tudo aquilo, mas ele sim. Falou com raiva, respondendo, a altura, as grosserias da parceira. Ele havia sido sincero e falara o que sentia. Arrependia-se, e estava profundamente magoada, ferida. Não pediria perdão, mas também não o perdoaria, apesar de todo o tormento que pressionava-lhe o peito. Entrou em seu banho quente. A noite fria caíra bruscamente e ela sentia dores pelo corpo e na cabeça. À medida que tomava seu banho as dores pioraram, as pernas tremiam e ela logo desabou no chão do box, as lágrimas escorrendo dos olhos. Tudo rodava. Ela arrastou-se até a porta do banheiro. Precisava urgentemente de ajuda, mas a voz mal saía-lhe da garganta. Alcançou o quarto deixando para trás um rastro de água. Esticou as mãos para o telefone. Não podia levantar-se. Tateou e encontrou o botão da memória. Apertou e empurrou o fone para o chão. Deitou-se. Uma forte febre consumía-lhe por dentro. Não podia abrir os olhos que ardiam. Seu corpo todo tremia. Apoiou a cabeça no fone e escutou chamar. Os toques pareciam infinitos. Atenderam. Era a secretária eletrônica. Ouvia a voz de Mulder cada vez mais longe. Não podia desistir agora. Ouviu o sinal. "Mulder... eu preciso de ajuda.... rápido.. at..." – desmaiou antes que pudesse completar a frase. Alexandria – Washington D.C. 30/09/00 – 3:50 a.m. Apartamento do Agente Fox Mulder A bebida subiu-lhe rapidamente quando estava no bar do Casey e assim pôde esquecer as loucuras ditas no carro à Scully. Era imperdoável. Não queria ter dito nada daquilo à pessoa mais importante de sua vida. E agora, ela, provavelmente, dormia com um ódio terrível daquele homem que desgraçou-a por sete longos anos. Estava claro o que ela pensava. Ele era louco, infantil, inconsequente e estúpido. Ela também havia dito muitas coisas. E o que ela dissera, era o que ela realmente sentia. Perguntava-se como podiam ter chegado àquele ponto. Era como se uma atmosfera de ódio houvesse se formado. Mas ele nunca a odiara, pelo contrário... Então como podia ter dito todas aquelas loucuras. Imperdoável. Mas quando chegou em casa o álcool de suas veias já havia se evaporado e a imagem da mulher encarando-o magoada fê-lo odiar-se novamente. Ligou a secretária e foi até a cozinha buscar mais uma cerveja. Recados de Frohike, pedindo que ele passasse lá para conhecer um novo programa de computação, Skinner, que pedia urgência no relatório, e, na terceira mensagem, não pôde ouvir pois estava remexendo a geladeira. Voltou à sala. Rebobinou a fita e escutou a última mensagem "Mulder... eu preciso de ajuda.... rápido.. at..." A cerveja caiu de suas mãos quando percebeu que era a voz de Scully. Retrocedeu a fita, novamente. "Mulder... eu preciso de ajuda.... rápido.. at..." Jogou o saco de sementes de girassol sobre o sofá e, apanhando as chaves do carro, saiu como estava, sem camisa e completamente sóbrio. Georgetown – Washington D.C. 30/09/00 – 4:08 a.m. Apartamento da Agente Dana Scully. Dirigindo feito louco pelas ruas da capital, Mulder chegou em 15 minutos à casa da parceira e subiu em desespero. Vendo o apartamento vazio, correu até o quarto, guiado pelo barulho do chuveiro. Achou-a estirada ao lado da cama, nua, desacordada. Recolheu-a do chão e colocou-a sobre a cama. Há quanto tempo ela estaria ali? O que havia acontecido? Apanhou um roupão no banheiro, enrolou-a e colocou-a no banco detrás do seu carro, seguindo para o hospital. Ela foi internada ssim que chegou e ele recebeu uma camisa para poder ficar no hospital. Não pôde dar muitas informações, tudo que disse foi que achou-a assim. Quando amanheceu um jovem médico veio até ele. "É o marido da senhorita Dana Scully?" – perguntou, amável. "Não..." – ele constrangeu-se – "Somos parceiros. Agentes do F.B.I.." – procurou a insígnia mas lembrou de tê-la deixado em casa. – "Saí as pressas, não trouxe a I.D.." "Então, por favor, preencha uma ficha com os dados dela e do Bureau. E a família? Mora aqui?" "Eu... eu me reponsabilizo por ela. Meu nome é Mulder. Agente Mulder." "Certo..." – o médico preencheu uma ficha. – "Não sabe se ela entrou em contato com algum gás ou algo do gênero?" "Não... O que é que ela tem?" "Bem, o que pudemos constatar é que ela foi envenenada, os sintomas são todos de envenenamento. Mas não há vestígio de nenhuma substância. Talvez ela tenha inalado algo. Mas mesmo assim, os testes não acusam nada. Ela respira com ajuda de aparelhos, mas deve ser por pouco tempo." "Mas está acordada?" – perguntou pressentindo o pior. "Bem..." – o médico respirou profundamente. – "Está em coma." Mulder sentiu seu mundo desabar. Ela talvez estivesse assim por sua culpa... Não, uma discussão não levava pessoas ao coma, por envenenamento. Algo sério havia acontecido. Ligou para Skinner e comunicou o acontecido. Em seguida foi até o apartamento da amiga e revistou-o. Não havia nada suspeito. Lembrou-se da casa que haviam ido no dia anterior. Foi depois que saíram de lá que Scully demonstrou mudança de humor, provavelmente era algo na casa. Lembrou-se da terrível cena dos olhos negros e profundos. Pegou seu carro e dirigiu-se ao subúrbio de Washington. Junto com mais 8 agentes, Mulder revirou todo o local, removendo todas as tranqueiras que haviam ali e levando-as para estudo e análise. Quando vasculhavam o andar de cima, mais precisamente o quarto que Scully tinha estado, Mulder encontrou o estranho medalhão que a parceira havia mencionado. Sem tocá-lo, vestiu as luvas e colocou-o em um saco plástico. Frohike, Byers e Langly reuniram-se em torno da peça, analisando-a. "É antiga, Mulder. Centenas de anos, talvez até alguns milhares." – Byers falou. "A pedra no centro é um onix da Birmânia." – Langly completou. "E a inscrição está sendo decifrada pelo nosso leitor ótico. Venha ver." – Frohike chamou- o. "As trevas descerão sobre ti. Teus males e aflições consumiram-te. Teu único desejo será a morte." "Otimista quem escreveu isso aí, não?" – brincou Langly. "Isso é um tipo de profecia." – Mulder sentenciou. "É um verso conhecido, Mulder. Acho que li um livro. Algo assim como "Os sonhos da vida" ou "A vida dos sonhos"." – Byers lembrou-se "Veja se acha isso pra mim. Creio que tem algo a ver com o estado de Scully." Hospital geral de Washington – Washington D.C. 30/09/00 – 8:12 p.m. Mulder passara o dia na sala de espera lendo o livro que Byers achara. Eram poesias sobre a loucura e a efemeridade da vida. Era um livro curto e chatíssimo, mas continha a frase presente no medalhão. Leu-a de todas as maneiras possíveis. De trás para frente, montando anagramas, traduzindo para outras línguas. Só parou quando Margareth chegou, acompanhada de Bill Jr.. Ela dirigiu-lhe um olhar e ele dirigiu-lhe outro em resposta. Somente isso, pois Bill já tinha feito menção de agredir Mulder. Depois de 2h, mãe e filho voltaram. Bill ignorou-o e foi embora, Margareth sentou-se calmamente ao lado de Fox. "Como está, Mulder?" "Bem... Mas não sei o que aconteceu. Não sei o que pode tê-la levado a esse estado. Não estávamos juntos. Tudo o que ela fez foi deixar um pedido de socorro na minha secretária..." – ele parecia querer chorar. "Já a viu?" – ela perguntou encarando-o. "Não, não permitiram." "Pois vá vê-la. Eu deixei ordens para que você entrasse." – e retribuiu o sorriso de agradecimento do agente. "Obrigado." – ele apanhou as mãos de Meg. "Não se culpe de nada, filho." – ela levantou-se e seguiu para a saída. Os aparelhos respiratórios haviam sido retirados. Ela respirava por si mesma. Mas continuava em coma. Ele se aproximou da cama da parceira e sentou em uma cadeira ao seu lado. "Sinto muito, Scully." - ele respirava profundamente. – "Não sei o que provocou isso, não sei o que está acontecendo, não sei se pode me ouvir... Quero pedir desculpas pelo que disse ontem." – isso parecia extremamente difícil para ele. – "Nada do que disse é verdade, nunca poderia manter minha busca sem você, sem a sua determinação, sem o seu caráter, sem o seu cientificismo." – ele parou por um longo tempo. – "Talvez não acredite, mas... notou algo estranho enquanto discutiamos no carro?" – ele esperou a resposta. – "Era como se algo nos levasse a dizer e fazer coisas que não queríamos." – ele arrependeu-se. – "Bem não sei quanto a você, mas o que eu disse ontem não era verdade, não queria te magoar. Será que era algo ligado ao tal medalhão? Eu o achei. Os Pistoleiros estão analizando-o. Quem sabe descubro algo." Q.G. dos Pistoleiros Solitários. 01/10/00 – 1:32 a.m. Os Pistoleiros identificaram o autor do livro, Mark Glowen, e estabeleceram contato com ele. Morava em Nova York. Era um senhor de 89 anos de idade. Quando atendeu ao telefonema foi extremamente rude, afinal era mais de uma hora da manhã. Mulder não importou-se. "Bem, senhor. É a respeito de seu livro de poesias "A vida dos sonhos". "O que é que tem?" – o velho perguntou grosseiramente. "É sobre a passagem "As trevas descerão sobre ti. Teus males e aflições consumiram-te. Teu único desejo será a morte." - mas antes que pudesse completar a frase o Sr. Glowen perguntou com voz trêmula: "Achou o medalhão?" – Mulder sorriu: "Achei, sim senhor." "Alguém tocou-o?..." – perguntou e afirmou ao mesmo tempo. "Sim... Pode me ajudar?" – Mulder não saía de seu assombro. "Me dê seu endereço e telefone. Estou indo praí." Às seis e meia da manhã uma senhor pequeno e magro reunia-se a Mulder em seu apartamento e punha-se a explicar a estranha profecia a cerca do medalhão. "É antiquíssimo, entalhado no século II antes de Cristo, pertencia a uma tribo bárbara, ao norte da Inglaterra, dizimada pelos exércitos de César. Os deuses bárbaros enfureceram-se com a desobediência de uma mulher e a fraqueza de um homem. Então um poder maléfico foi concentrado no medalhão, e as palavras que prometiam as trevas teriam o poder de levar, quem quer que o tocasse, à morte. Não sem antes sofrer os horrores da escuridão. Durante 3 séculos o medalhão cumpriu seu propósito, levando o terror às pessoas simples e aos reis e rainhas. Nem a igreja escapou da maldição. Então ele perdeu-se no tempo e no espaço. E nunca mais ouviu-se falar das desgraças prometidas por ele. Foi quando, há 40 anos, entrei para um grupo de magia branca. Era interessante, sempre tive uma sensibilidade muito grande com as forças. Lá eu conheci Anna. Ela era francesa, de família rica e tradicional. Também sensível como eu. Ela contou-nos sobre o medalhão e sobre sua busca incansável por aquele instrumento de magia negra. Ela queria destruí-lo, pois teve 4 gerações de sua família perdida para a maldição. Mas ele encontrou-a primeiro e destruiu-a primeiro... duas semanas antes de nosso casamento. Ela sofreu horrores antes de ir. Mas graças a nossa sensibilidade, ela me ensinou como diminuir os efeitos, mas não foi o sufuciente para salvá-la. Quando ela morreu, a busca dela tornou-se a minha. Mas, novamente o maldito medalhão perdeu-se no tempo e no espaço. Ela vinha aos meus sonhos para ajudar-me na nossa busca." – Glowen estava muito emocionado, e Mulder também, ao ouví-lo dizer "nossa busca". Era algo muito famíliar para ele e Scully. Mark continuou. – "Foi assim que eu resolvi colocar a passagem em um de meus livros, para ver se alguém me procuraria, alguém que conhecesse o medalhão, alguém que o entendesse e pudesse destruí-lo. E depois de 35 anos de espera e estudos, você apareceu..." "Eu encontrei-o numa casa, antes de ontem, no subúrbio de Washington, ou melhor, minha parceira encontrou-o, ou como o senhor disse, ele encontrou- a. Nós fazíamos uma vistoria procurando outro tipo de material, sobre Ovnis, por exemplo. Foi quando deixei Scully, minha parceira, em um dos quartos e fui verificar outro. Perdi a noção do tempo e quando me dei conta havia se passado 40 minutos. Fui até ela, chamei-a ela não respondeu. Toquei o ombro dela e quando ela me olhou eu vi seus olhos negros, mortos, profundos..." – Mulder parou diante da emoção do velho. – "Algum problema, senhor?" "Sei exatamente o que viu... Anna tinha os olhos verdes como folhas e de repente eram negros como o onix do medalhão. Ela já tinha sido atingida pela profecia..." – Mulder estremeceu e engoliu em seco. Seria possível que Scully morresse como a esposa de Mark? Não haveria cura para esse mal? Mulder continuou seu relato, transbordando de dúvidas e medos. "Foi só por um segundo. Ela estava bem, levantou-se, falando do medalhão, procurou-o mas não achou. Então fomos embora. No carro nós brigamos, como nunca haviamos feito, odiávamos um ao outro, falei coisas que não devia. Ela também. Durante a madrugada, eu não estava, ela deixou um recado, um pedido de socorro em minha secretária eletrônica. Cheguei ao apartamento dela e ela estava ao lado do telefone, desacordada, nua, o chuveiro ainda estava ligado. Acho que ela se arrastou do banheiro ao quarto. No hospital disseram que ela havia sido envenenada por um gás e estava em coma. É tudo o que eu sei. "Eu já entendi tudo. Preciso vê-la." Hospital geral de Washington – Washington D.C. 01/10/00 – 10:58 a.m. O Sr. Glowen estava ali, parado, a olhá-la, há mais de 40 minutos. Recusou-se a aproximar- se e parecia não querer tocá-la. Tinha um olhar triste e por várias vezes uma lágrima escorreu por seu rosto. Então ele retirou-se sem dizer uma palavra, apenas fazendo sinal para eu acompanhá-lo. Chegamos a uma igreja que ele me indicou, quase na saída de Washington para Baltimore, ele só abriu a boca, quando nos sentamos em um dos bancos da imensa igreja. "Aqui estamos protegidos. Ninguém deve tocar aquele medalhão. Sua força continua gigantesca." – Mulder assentiu, ancioso. – "Quando Anna morreu," - o velho continuou. – "eu me aprofundei nos estudos sobre magia branca e tantas outras coisas que pudessem remediar o efeito da maldição. Consegui muita coisa, mas não tudo. Sua amiga tem uma vida difícil. Não lhe falta dinheiro, não lhe falta trabalho, não lhe falta inteligência e nem beleza. Mas há coisas muito mais essenciais, que uma mulher na idade dela precisa e não tem. Ela tem medos, dúvidas, desejos, raiva, sonhos impossíveis, pesadelos." – e vendo a expressão aflita de Mulder, o velho perguntou-lhe: - "Me diga Agente Mulder: se tivesse a oportunidade de jogar toda a sua vida pro alto, seus problemas, seus aborrecimentos, suas frustrações, e pudesse levar uma vida completamente diferente, cheia de paz, amor, luz, mas tendo que abandonar tudo e todos que possui. O que escolheria?" – Mulder estremeceu, começava a entender o que o velho dizia. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Não respondeu. Mark continuou. – "Quando uma pessoa entra em coma, dezenas de pessoas que a amam, a cercam e põe-se a confortá-la, apoiá- la, ouví-la e aconselhá-la. É o que está acontecendo com Scully. Pude ver ali no quarto, quantos espíritos de luz estão acompanhando-a..." – Mulder finalmente permitiu a lágrimas. O velho sensibilizou-se. – "Chore o que tiver para chorar agora. Ela precisará de sua força. Bem, eles estão ao lado dela, mas a maldição impede-os de alcançarem-na. Enquanto a força do medalhão pairar sobre ela, seu corpo enfraquecerá e sua alma definhará e ela encontrará o fim em meio as trevas." "E o que pode fazer por ela?" – Mulder entrava em desespero. "Acalme-se. Preste atenção. Eu posso tentar anular o bloqueio imposto pelo medalhão, desse modo os espíritos poderão conferenciar com sua amiga. O que não poderei fazer é trazê-la de volta a vida..." – e antes que conclui-se, Mulder levantou-se bruscamente. "Não pode trazê-la a vida? Em que é útil, então? Acha que o simples fato de..." "Sente-se! Não desrespeite o local que está! Scully não desrespeitaria..." – Mulder sentou- se vagarosamente. "Como sabe?" "Pude ver a fé que a preenche. Isso talvez possa salvá-la." – um silêncio pairou sobre a igreja. – "A escolha de voltar a vida é dela, não é sua. Se eu conseguir libertá-la do bloqueio ela passará por uma fase, onde decidirá qual o caminho que quer tomar. Se ela quer ir para a Luz, ou se prefere ficar na Terra e enfrentar um mundo cruel." – e aguardou a resposta de Mulder. "O que precisamos fazer para liberá-la da maldição?" – ele ainda chorava e respirava profundamente. "Primeiro tem que tirá-la do hospital, é um ambiente carregado, não posso trabalhar lá." "Mas ela está em coma, e se sofrer complicações médicas?" "O mal dela não está no corpo, está na alma. E a alma não morre porque desligou-se de aparelhos. A alma definha sob o mal que a cerca e pressiona." – Mulder baixou a cabeça e guardou as frases em seu coração. Prometeu que livraria Scully de seu padecimento. Mark explanou. – "Levaremos ela a um lugar em que eu possa trabalhar sem nenhuma interrupção, sem nada, nem ninguém por perto. Um sítio, uma casa, uma igreja abandonada, seria o ideal. Ninguém deve saber." "Eu conheço um local. Há duas horas de Washington, em direção às montanhas. É uma velha igreja." "Ótimo, me diga onde é, eu o esperarei lá." "Não, é melhor o senhor ir quando pegarmos Scully, é..." "Não. Diga onde é. Você irá pegá-la sozinho. Eu tenho que ir antes ao local, prepará-lo para o confronto de forças." – Mulder, estranhando a atitude do velho, preferiu não contrariá-lo e explicou-lhe como chegar lá. Hospital geral de Washington – Washington D.C. 01/10/00 – 5:31 p.m. Com a ajuda dos Pistoleiros, que disfarçaram-se de médicos, Mulder invadiu o quarto de Scully, desligou os aparelhos, colocou-a em uma maca e cubriu-lhe com uma lençol como se fosse um cadáver. Byers, em seu melhor traje de doutor, conduziu-a pelos corredores, até o elevador, onde colocou-a em uma cadeira de rodas aos cuidados de Langly que levou-a até o carro de Mulder, deitando-a no banco de trás. Frohike arrancou pelo estacionamento e dirigiu-se para o Q.G., certificando-se de que não havia sido descoberto. Mulder chegou logo em seguida e partiu, levando-a para os arredores de Washington. Já eram oito horas da noite quando o carro prateado chegou à igreja. Podia-se ver a iluminação de velas em seu interior. Mulder pegou a parceira nos braços, enrolando-a com seu sobretudo. Mark estava sentado de frente para o pequeno altar, onde ordenou que Scully fosse posta. Mulder deitou-a com cuidado e aconchegou- a ao sobretudo, depositou- lhe um beijo na testa e com um profundo suspiro, lembrando-se das palavras do Sr. Glowen de que nada nem ninguém poderia estar no local, fez menção de retirar-se. O velho chamou-o. "É você quem conduzirá Scully enquanto ela estiver na Terra." – Mulder voltou-se sem entender a frase. "Como disse?" "Fique. Você quem realizará o ritual." – e sorriu ao ver a expressão de surpresa do agente. – "Mas para isso terá que ter fé. Terá que acreditar no que irá fazer. Precisa encarar como a salvação dela e não como uma brincadeira de loucos." – Mulder assentiu e aproximou-se dela. – "Pegue essas pedras que eu coloquei sobre o degrau. Coloque-as com o ápice voltado para cima. A primeira na testa dela, a segunda entre os seios, a terceira na altura do estômago, a quarta sobre o umbigo. Agora saia de perto e concentre-se. A força sairá bruscamente de dentro dela, e tentará atingí-lo. Fique sob a cruz e peça a proteção que puder pedir a quem tua crença mandar. Se a força do medalhão invadir-lhe perderemos você e ela." "E você?" – Mulder perguntou já sob a cruz. "Preocupe-se somente com você e com ela. De maneira alguma perca a concentração. O barulho que escutará não deve desviá-lo." O velho desenhou um círculo de sal a volta de Mulder e entregou-lhe uma pequena medalhinha com um pentagrama dentro de uma esfera de vidro. "Concentre-se." Ele ajoelhou-se a poucos metros do altar, acendeu velas em torno de si e suspendeu, no alto de sua cabeça, uma grande pedra branca, em forma de pirâmide, que apontava diretamente para um rombo no telhado e deixava ver o céu sem lua e sem estrelas, coberto com algumas nuvas negras. Mulder fechou os olhos e concentrou-se, aos poucos deixava de ouvir a voz de Mark que rezava e cantava coisas ininteligíveis. O silêncio durou muito tempo até que Mulder sentiu um leve tremor. A voz do velho, rezava cada vez mais alto, e o chão tremia cada vez mais. Ele podia escutar o choro agoniado de Scully. Quis abrir os olhos, mas sabia que não podia perder a concentração. Os sons tornavam-se cada vez mais perturbadores e a terra tremia sem trégua. De repente, Scully gritou, num misto de pavor, dor, desespero. Um grito contínuo, agudo, louco. Mulder sentiu-se perfurar por aquele pedido de socorro, mas não cedeu a tentação de abrir os olhos. Aos poucos o grito foi se tornando grave e virou um choro lamurioso, que acompanhava o mesmo ritmo dos cantos de Mark. Mulder perdeu a noção do tempo e só acordou com os raios de sol que batiam em seu rosto, entrando pelo buraco do telhado. Mark lavava a testa de Dana Scully com um ungüento verde. Como se cuidasse de uma criança, ele cantava cantigas de ninar. Havia um gostoso aroma de incenso floral no ambiente e a paz acalentava o sono pesado da agente. Mulder aproximou-se. "Está viva?" "Depende do que considera vida." "Ela está viva?" – Mulder parecia cada vez mais nervoso. Mark encarou-o e indicou o banco, onde sentaram-se. "Ela agora está congregando com os espíritos. Essa conversa dá-se por meio de sonhos. Neles ela irá resolver o que fará. Se voltará a viver, ou se seguirá para um outro mundo." "E quanto tempo leva essa fase?" – Mulder tinha vontade de chorar, novamente. "Pode levar algumas horas, se os conflitos forem poucos. Pode levar meses se a alma estiver muito atormentada. Ela tem que sonhar tudo o que estiver atormentando-a, assim ela pode resolver suas angústias e, ou deixar este plano sem deixar problemas para trás, ou voltar para este plano com a resposta para suas agonias. Ela sonhará, agora." "E o que eu posso fazer para ajudá-la?" "Nada. Por enquanto essa jornada é dela, e ela caminhará sozinha para sua decisão." Mulder então deitou-se aos pés do altar e ficou ali ruminando seus pensamentos, olhando pela falha do telhado. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxx Ela mergulhava já há algum tempo. Sob seu corpo, corais. Sobre sua cabeça, as águas transparentes de um Oceano Infinito, filtravam os raios de sol. Os peixes, de milhões de cores, dançavam um balé harmônico. Era como se estivesse em sua casa, tudo lhe era familiar, tudo ali fazia parte dela. Passou os dedos sobre o dorso do gigantesco tubarão-baleia. Montou-o. Nadava vagarosamente e, ali podia sentir cada molécula de água que batia em seu rosto, agitava seus cabelos, contornava seu corpo. Era perfeito. Então fechou os olhos e deixou-se levar, abraçada a grande nadadeira. Era grande, forte... e doce. Lembrou-se de Moby Dick. Sorriu. O pai lhe era uma grande e bela lembrança. Ali ela sabia o quanto o mar fazia parte de sua alma. Talvez devesse mudar-se para a praia. Uma pequena casa de madeira, uma varanda fresca de frente para uma enseada deserta, cercada de rochas e altas montanhas. Mas, ali, seria, inevitavelmente, sozinha. A perspectiva fez-lhe tremer. Sozinha! Antes de abrir os olhos, pôde perceber que os espasmos não eram provocados por suas divagações, era, sim, a água, que gelava-lhe os ossos. Gelava-lhe o espírito. Diante de suas vistas, viu formar-se um precipício negro e o tubarão dirigia-se para lá. A velocidade da água a invadir-lhe boca e nariz estava sufocando-a. Soltou-se do animal e nadou com determinação, buscando a superfície, enquanto acompanhava a tragetória do ser rumo ao inferno. Quando pensou que seus pulmões explodiriam, alcançou o ar. Respirou profundamente, sem abrir os olhos, e foi bruscamente afundada. Subiu. À sua frente o mar revolto estourava em imensas ondas que afogavam-na. Os raios cortavam o céu de trevas e demônios dançavam a sua frente. Os trovões eram insurdecedores. Tampou os ouvidos e gritou. Mas ninguém lhe salvaria. Ele ainda estava terrivelmente decepcionado. Afundou. Engasgou-se. Voltou à superfície. "Papai!" gritava. Afogou-se. Percebeu que não era o sal do mar que ardia-lhe a garganta. Era o sal de suas lágrimas. Os demônios puxavam-na para baixo."Papai!" pensava em desespero. Bateu contra algo sólido. Agarrou-se e rastejou. Finalmente encontrava a praia. Afastou-se do mar revolto, mas podia ver o pai, em seu navio, bradando palavras ininteligíveis e expulsando os demônios. Ela aplaudiu o pai, que, depois de vencer a batalha, retornava, em seu navio, para abraçar sua caçula. Ela odiou o mar e lançou punhados de areia contra as águas que agora estavam calmas. Mas diante da agressão, o mar enfureceu-se e lançou- se contra ela, que, habilmente, correu praia a fora. Então, o oceano descontou sua fúria no grande navio da marinha americana e levou-o à pique. Dana chorava na praia. Ele nunca a perdoaria. Ele nunca se orgulharia. Sentiu um toque em seu ombro. "Starbuck?!" – disse o Capitão em sua farda branca e impecável. Ela olhou-o cheia de culpa. – "Já tem 12 anos. Tem que medir suas atitudes e assumir seus atos." "Desculpe..." "Não peça desculpas. Não me magoou. Fez o que julgava ser certo. Agiu como seu coração mandou. Lutou pela sua sobrevivência. Buscou a sua verdade. Eu busquei a minha. Encontrei-a na marinha, no mar, em Margareth, em seus irmãos, em você. E quando dei-me conta, vi que tinha em minhas mãos, pequenos seres que já estavam prontos para as suas próprias vidas. Você é um deles, Dana." "Mas não queria que eu entrasse para o F.B.I...." "Não queria que corresse riscos. A medicina daria-lhe um consultório, um marido, filhos, estabilidade, dineiro e paz. Mas hoje eu sei que sua verdade não estaria aí. Você só a encontraria no F.B.I.. Mesmo que você só a descubra quando sua vida estiver no fim." "Não está magoado?" "Já lhe disse que não, Starbuck. Concentre-se em sua busca e deixe que seu velho pai a está olhando, protegendo e guiando, enquanto navego nesse Oceano Sem Fim." E então o céu abriu-se e deu passagem aos raios de sol que refletiram-se nas lágrimas que escorriam pelo rosto da menina ruiva que dava o último abraço em seu pai. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Igreja do Coração de Jesus – arredores de Washington Local exato desconhecido. 03/10/00 – 6:54 a.m. O dia anterior tinha sido exaustivo. Logo que amanheceu, Mulder postou-se aos pés de sua parceira e ficou ali, sem mover-se, pensando, remoendo suas culpas e seu passado, enquanto Mark passou o dia fora, disse ele, caminhando. Quando a noite caiu e o velho voltou, o agente foi a Washington comprar comida, mas pouco comeu e nada dormiu. Postou-se novamente ao lado de Scully e passou a noite a observá-la. Ela respirava normalmente, parecia dormir e nada mais. Não se mexia, não produzia sons, nada. Por vezes o parceiro tocava-a e acariciava-a, na intenção de vê-la responder aos estímulos. Mas era em vão. O dia amanhecia novamente e ela permanecia inerte. Mulder passou a pressionar Mark. "Ela não se mexe, não reage... O que está havendo?" "Eu lhe avisei que seria assim." "Não estou perguntando isso. Responda a minha pergunta." "Ela está sonhando. A vida dela está se resolvendo." "E quando ela estará pronta para decidir se vai ou se fica?" "Ela está pronta. Desde que terminei o ritual, antes de ontem, ela está montando, em um outro plano, cenários e acontecimentos que influenciam em sua decisão. Mas isso pode levar dias. Só nos resta esperar." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Ela descia a encosta gramada. O salto alto dificultava a operação. A lanterna e a automática na mão direita impediam-na de agarrar-se aos galhos. As pedras soltas fizeram-na perder o equilíbrio, rolando por mais de 4 metros, até atingir o chão. Levantou-se tateando atrás da lanterna e da arma. Achou a pistola mas a lanterna havia sumido. Não haveria problema. Uma imensa lua cheia iluminava a extensa plantação de pinheiros que surgia a sua frente. Ela deveria estar ali. Empunhou sua automática e correu em direção a mata. Depois de alguns minutos de caminhada chegou a uma clareira. Avistou-a. Aproximou-se. Apontou a arma. "F.B.I.! Não se mexa! Levante-se, vagarosamente." Mas para sua surpresa a sombra branca nem sequer moveu-se. "Não me ouviu? Lavante-se! Eu tenho uma arma apontada para você. Não tente nada!" Novamente, aquela estranha mulher permaneceu estática. Dana aproximou-se e tocou seu ombro. Ela virou-se sorrindo. "Melissa?..." – Scully tremia de pavor. "Olá, Dana. Senta." – ela parecia calma e serena. "Melissa?..." – ela estava aterrada com a visão. "Eu estendi um lençol. Senta. Sei que não gosta de sujar suas roupas." – e indicava o pano sobre a grama com uma das mãos, enquanto, com a outra, manipulava um incenso. "O que está fazendo aqui?" "Sou eu quem deveria fazer essa pergunta. Porque está aqui?" "Eu e Mulder estamos perseguindo uma assassina." "Ah.... Mulder também está aqui?" "Foi pelo outro lado, desceu para perto do rio. Eu resolvi procurar por aqui." "Hum... ele está bem?" "Aonde quer chegar com essas perguntas, Melissa?" "Aonde VOCÊ quer chegar com suas respostas?..." "O que está dizendo? Você não poderia estar aqui. Eu me lembro de quando foi assassinada." "Então você pode concluir que estamos em um lugar diferente, não? Um lugar onde eu e você podemos estar juntas, quebrando todas as regras da sua ciência." "Você fala igualzinho Mulder." "É sobre ele que eu quero falar." "Mulder?" "Exatamente. Sobre o qual você nunca quis falar." "Melissa, eu estou no meio de um caso. Não tenho tempo para conversar agora." "Dana. Fique sentada. É hora de abrir os olhos. Perceber que o trabalho a está consumindo e está impedindo-a de viver uma vida." "Eu sei disso. Eu disse dezenas de vezes a Mulder que quero uma vida normal, que estou cansada de correr atrás das suas loucuras, perdendo minha vida... Mas ele não me ouve." "Então porque, simplesmente, não pede demissão do Bureau e vai seguir outra carreira, casa-se, adota uma criança?" – Scully não tinha resposta. Calou-se, de cabeça baixa. – "Porque não diz a Mulder: "Estou indo embora, viver minha vida. Boa sorte pra você, nessa sua caçada maluca"?" – ela continuava em silêncio. – "Porque não pode, não é? Porque, apesar de reclamar, não consegue se imaginar vivendo outra situação." "A única coisa que não posso dizer é que não respeito a busca dele. Eu respeito e sigo-a, pois tornou-se minha busca, desde que fui abduzida e você foi morta." "Não... Eu estou aqui, Dana. Eu não sou seu motivo de luta. Eu morri pois era minha hora, e você nada tem a ver com isso. Pode se ressentir, pode se culpar, mas tudo o que está fazendo é pura, e simplesmente, para se martirizar. Se você quisesse, se você pudesse, assumiria o real motivo de sua busca." "E qual é?" "É você quem tem que responder. Mas me diga uma coisa. Porque é que não pode abandonar o F.B.I.?" – ela demorou a responder. "É meu trabalho, Melissa." "Há dezenas de empregos para você em todo o mundo. Não é esse o motivo." "Ora... Não posso simplesmente abandonar tudo. Jogar sete anos pro alto, centenas de perguntas sem respostas, uma verdade distante." "Mas porque não?" "Porque não posso." "Por que não, Dana?" "Não posso virar as costas para Mulder no meio do caminho, não posso deixá-lo sozinho, entregue a sua luta. Ele é obstinado, obcecado. Esquece-se de si próprio. Ele precisa de mim para trazê-lo a Terra, a vida, a realidade. Preciso ajudá-lo a encontrar a sua verdade. Sua vida. Ele não pode fazer isso sozinho. Nem com outra pessoa." – Melissa sorria candidamente: "Mulder?..." "É... Mulder... Aonde quer chegar, Melissa?" "Você já chegou onde você queria chegar. Você não muda sua vida por causa de Mulder..." "Não é verdade... Não é assim, ele é meu parceiro, precisa de mim, eu..." "E você precisa dele." "Eu não quero mais falar sobre isso, Melissa." "Dana! Você não está aqui, conversando com sua irmã, você está conversando consigo mesma. Eu só estou aqui para lhe guiar. Não estou aqui para arrancar-lhe nada. É você mesma quem deve colocar pra fora o que sente, o que pensa, o que quer. Mas nunca pôde fazer isso sozinha. Então eu vim ajudá-la. Só quero te escutar. Diga. Fale o que tiver para falar. Aqui, você estará se ouvindo. E eu também." – Scully permaneceu em silêncio durante muito tempo. Doía-lhe pôr para fora seus sentimentos. Melissa resolveu ajudá-la. – "Mulder descobriu o paradeiro da irmã?" "Samantha está morta." "Samantha é uma linda criança." "O que está dizendo?" "Quando descobriram que ela estava morta, o que foi que fizeram?" "Mulder ficou muito abatido. Ele ainda tinha esperanças de encontrá-la viva. Mas ao menos libertou-se. Agora pode buscar outras verdades. Coisas que o afastem da solidão. Talvez uma família, ele está mais só do que nunca. Teena era toda a família que ele tinha. Foi horrível fazer a autópsia dela." "Fez a autópsia dela?" "Fiz. Mulder me pediu. Era questão de confiança." "Ele confia muito em você, não?" "Confia, agora mais ainda, já que sou tudo o que tem." "Acho bonita a relação de vocês. A parceria, primeiro, a amizade, depois. Um carinho, uma cumplicidade, um sentimento mútuo." "É... uma amizade." – ela falava melancolicamente. "De sua parte..." "Não.... dos dois. Bem... ele não permite mais nada. Sempre tão obcecado, tão centrado em sua luta. Deixa tudo que o cerca de lado. Vestindo aquela máscara de sarcasmo. Ele me vê sim, somente como amiga." "E se você contasse a ele seus sentimentos?" "Se eu contasse o perderia. Não acho que é recíproco, não acho que ele seria capaz de me amar como o amo." "E se ele lhe jurasse amor? Se lhe contasse sobre seus sentimentos? Se lhe pedisse para findar sua solidão? Para seguí-lo, cada vez mais, em suas buscas? Para compartilhar de sua vida a cada segundo?" – as perguntas fizeram Dana chorar. Nunca saberia. Ele nunca diria. Ela nunca daria o primeiro passo, pois não admitiria saber que seus sentimentos não eram compartilhados. "Ele nunca fará isso." Melissa fechou os olhos e pareceu rezar por um longo tempo. Scully observava-a. Então levantou-se, beijou a testa da irmã caçula e saiu andando em direção aos pinheiros. A agente chamou-a. Ela não se virou. Antes de chegar a mata, uma forte luz formou-se. Scully podia destinguir silhuetas coloridas ao longe. Uma adolescente correu até Melissa. Conversavam animadamente. Melissa assentiu. Virou-se para Scully. "Se quiser vir, venha. Mas pense bem." Scully baixou a cabeça e pensou durante muito tempo. Finalmente levantou-se, acenou para a irmã e deixou a floresta. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Mulder acordou com um gemido. O velho estava com as mãos sobre a cabeça da parceira. Ela gemia chorosa. Era madrugada do dia 4 de outubro. Mark não esperou os questionamentos de Mulder. "Ela está no meio de sua decisão. Isso está provocando dor em sua alma." Ele correu as mãos sobre o rosto suado da parceira. "Como sabe?" "Me avisaram. Alguém que a ama, ouviu suas súplicas e dúvidas e veio comunicar-me." "Fala com mortos?" – o velho irritou-se com a ironia da pergunta. "Não acredita? Não tem fé?" – e Mulder notou seu erro. "Desculpe. Continue." "Ela precisa de ajuda. É sua vez de interceder pela vida de Scully." "Minha vez?" "Exatamente. Ajude-a na decisão dela. Venha cá." – e apanhando a mão de Mulder colocou a sobre as mãos de Scully. – "Converse com ela. Ela pode sentí-lo. Precisam integrar-se. Deixe sua alma sentí-la, deixe seus pensamentos conversarem com a mente dela, deixe seu coração bater no mesmo ritmo que o dela." Mulder tocou a mão da parceira. Pensava: "Scully, farei tudo por você. Prometo que usarei de todos os recursos para salvá-la. Tentarei trazê-la de volta a vida. E se voltar irei ajudá-la a enfrentar seus problemas, suas frustrações, seus temores..." – tudo que podia ver era o rosto da parceira, e a escuridão que os cercava. Tudo ao redor perdia a cor, a profundidade e o sentido. Eram só ele e ela. - "Tenho sido egoísta, não? Obriguei-lhe a lutar por algo que não lhe pertence, por verdades que não são suas e você perdeu sete anos de sua vida, que poderia ter sido de sucessos, ao meu lado. Eu nem sequer lhe agradeci devidamente, nunca lhe deixei saber o quanto é importante para mim, o quanto é importante para que eu continue vivendo. Se morrer, eu me pergunto até onde consiguirei ir, onde irei parar, o que vou me tornar. Tornei sua vida um mar de dúvidas, sem perspectivas, sem futuro, sem saúde, sem filhos. Nunca retribuí o bem que me fez... que me faz. Ao contrário. Dei-lhe momentos terríveis. Me sinto culpado a cada minuto." Ele pode ouvir a voz do velho em algum lugar muito longe: "Deixe-a saber dos bons sentimentos que lhes pertencem, ou não quererá voltar." Mulder continuou aquela estranha comunicação com sua parceira: "Você sabe o quanto é difícil falar de sentimentos para mim. O quanto é difícil entender o que sinto. Há tantos anos sinto algo inexplicável, algo que nunca me pertenceu, mas que a sete anos vem fazendo parte de cada átomo de meu corpo. É algo assim como necessidade, carinho, sonho, loucura, ciúme, desejo, dor. No começo aparecia a cada vez que eu te via. Eu me assustava. Já tinha conhecido muitas mulheres. Nenhuma fez isso comigo. Depois era cada vez que eu a tocava, a sentia, a via. E depois, cada vez que pensava em você, cada vez que a tocava, a sentia, a via. Eu já não me controlava diante da sua voz, do seu cheiro, dos seus sons, dos seus olhares. Mas o que mais me consumia era medo. Não sei se de assumir meus sentimentos ou de perdê-la. Eu queria me controlar, conseguia, aparentemente. Mas cada passo que dava, cada molécula de oxigênio que eu inspirava, cada batida do meu coração, cada pensamento, cada palavra... eram somente por você. Eu, então, descobri que era amor. Por isso não me deixe agora que eu descobri do que sou feito. Sou feito de você. E se você se for, eu também irei." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Ela sentiu um arrepio correr-lhe o corpo. As imagens estavam desfocadas, os sons ininteligíveis. O grande homem ruivo tocou seu braço. "É sua vez, Dana." Ela encarou o pai, chefe da comunidade, envolto na grossa pela de urso, ruivo dos olhos azulados. Procurou pela mãe. Ela estava ali, ao lado do pai, sorrindo-lhe, apesar de ter morrido há mais de dez anos. Ela era assim, sensível, inteligente e poderosa, por isso governava o povo ao lado de seu pai. Mesmo sendo jovem, as quase 1200 mulheres da tribo rendiam-lhe homenagens, respeitavam-lhe e amavam-lhe. Os 1300 homens da tribo também amavam-lhe, mas ela evitava contato com qualquer um deles. Em seus transes, soube pela mãe e pela irmã já morta, que o amor levaria, a todo seu povo, a desgraça. Por isso jurou jamais pertencer a um homem, jurou jamais permitir que os sentimentos falassem mais alto que sua sabedoria e seu conhecimento. E construiu, em torno de si, uma muralha de grossas pedras, como a que cercava a cidade. Mas, ainda assim, todos podiam tê-la. Ela, ainda assim, dava- se de corpo e alma ao seu trabalho, a sua missão. Cuidava dos doentes, comandava as mulheres, coordenava os rituais, guardava a paz que os deuses enviavam às Terras do Norte, respondia às perguntas que brotavam do coração do povo. Era, simplesmente, adorada. Levantou-se e fitou seu povo. Nas grossas peles, nos panos rudes de suas roupas, com seus calçados de couro, sua pele clara, seus cabelos vermelhos, amarelos e brancos, seus olhos astutos, assim eles a esperavam. Queriam sua decisão. O que fazer? Como agir? O que seria de mulheres e crianças? Mas, mais que respostas, queriam, principalmente, sua benção. "O ataque romano é certo. Estão acampados há 3 dias, cercando-nos, esperando nossa redenção. Como disse meu pai, lutaremos, até que o último deles morra. Ou até que o último de nós morra. O combate nos dará a honra de viver e morrer com dignidade. Os planos de guerra foram perfeitamente traçados pelos comandantes e, a mim, cabe as mulheres e crianças. Como somos todos a mesma família, compete a todos nossa decisão, tomada no Conselho Feminino. 25 de nossas mulheres levarão todas a s crianças para a floresta, e, caso nenhum de nós vá buscá-los em 4 dias, seguirão para o mar. Às mulheres que ficam caberá o papel de cozinhar, atender aos feridos, realizar os rituais de guerra e proteger o templo." O silêncio pesou sobre o grande galpão. A morte era certa. O medo uma constante. "Sei o que sentem, porque também sinto. A força romana é grande. Mas a terra é nossa e nossos deuses hão de proteger-nos contra a desgraça." Diante de sua força, todos ali reunidos, gritaram seu nome e palavras de ordem contra os malditos romanos. Ela fez o sinal para iniciar o ritual de graças e todos ajoelharam-se, ela inclusive, o que causou espanto. Ela rezou: "A partir de agora somos um só corpo e um só espírito e cada um carrega uma parte de nossa honra em seu peito. Essa honra não pode ser ferida pela adaga romana, apenas por nossa própria covardia e traição. Lutemos por nós mesmos. Lutemos por nossas família. Lutemos por nossa terra. Lutemos pelos deuses. Eles hão de nos guiar, para a vitória ou para a desgraça." Ele dormia placidamente, envolto em uma grossa manta vermelha. O frio era terrível, até mesmo durante o dia. Preocupava-se com os soldados. Acostumados ao clima romano, aos desertos, às costas africanas. Agora ali, no outono das Terras do Norte, logo a neve chegaria, haveria baixas, César os puniria pelo fracasso. Aos leões com eles... "General..." Ele estremeceu e acordou, fitando o centurião, devidamente trajado, que se apresentava. Levantou-se e vestiu-se para a batalha. "É noite, General. Os legionários estão prontos para o combate." "Coordene o cerco à muralha, Spew. Ninguém sai. A batalha deve ser travada no campo, lá embaixo. Metade da centúria deve estar a postos para prensá- los entre as rochas dos paredões, o rio e os combatentes." "Serão esmagados como uvas." – um outro centurião entrava falando, batendo continência. – "Dizimados por nossos deuses. Bárbaros malditos." "Não atribua tudo aos deuses." – o General repreendeu-o. – "É César quem quer a morte deles. É César quem quer o medalhão de ouro e onix que eles possuem." "César, por ordem dos deuses, mandou exterminá-los." "Ora, Wirius. Bem sabe que por mim, roubaria o medalhão, e iria-me embora." "Pergunto-me como chegou a general. Não tens sede de sangue, não luta pelo Império Romano..." "Cumpro o papel que me foi designado. Cumpro pela honra de meu irmão. Mas os deuses sabem o quanto almejo uma casa nas Ilhas Gregas, esposa, filhos." "Tu és um camponês, Fox." "Talvez minha vida não esteja aqui." – ele respondeu observando a muralha bárbara ao longe. – "Talvez sim." – E sentiu a mão do centurião amigo em seu ombro. "Vamos à batalha." Quando a noite e o frio invadiram completamente o campo, a batalha começou. Pedras gigantescas voaram das catapultas romanas em direção a aldeia bárbara. Flechas incendiárias queimaram os telhados de palha das casas. Os homens ruivos atacaram os romanos e, em menos de 4 horas de batalha, o exército bárbaro foi dizimado pelos 5 mil homens de César. O General Fox assistiu à covardia, montado em seu cavalo negro, no alto da montanha. Seus olhos verdes atentaram para o fato de nenhuma mulher ou criança ter sido vista, nem na aldeia, nem no campo. Mas ao fim da batalha, os soldados invadiriam a cidadezinha e, com certeza, achariam mulheres que satisfariam, obrigatoriamente, seus desejos sexuais. Aquela era a hora da batalha em que ele se retirava para chorar, em sua tenda, a culpa e covardia humana. O que doía-lhe era ouvir o som do fogo que crepitava dentro da muralha e os "vivas" romanos pela conquista sangrenta. Quando a loucura apertava-lhe, julgava poder ouvir o grito de desespero das mulheres sendo violadas e a agressividade dos legionários que saciavam seu selvagem apetite sexual, com o consentimento de César. Quando amanheceu, Wirius invadiu a tenda do General. "Não achamos o medalhão." "Quantas baixas?" "Bem, ao final da batalha eram cerca de 1500..." – ele gaguejava. – "Mas agora são cerca de 3000." "Como?" – Fox virou-se nervoso. – "3000? É demais!" "Os Bárbaros devem ter pacto com o demônio, as..." "Cale a boca!" – ele agarrou o centurião pelo pescoço. – "Não diga sandices. Justifique-se!" "Os homens lutam horrores. Felizmente não sobrou nenhum vivo. Mataram mais de 1500 legionários no campo." "E os outros 1500?" "Bem..." – ele parecia realmente confuso. – "Foi quando muitos deles entraram na aldeia, atrás das mulheres, da comida, das riquezas. Cada um deitou- se com uma. O estranho é que não estavam reunidas. Estavam em suas casas. E era quando perdiam-se nos corpos das bárbaras que algo vinha do nada e enfiavam-lhes a adaga nas costas, matando-os, instantaneamente. As mulheres tem poderes, General." "Poderes..." – ele desdenhou. – "Elas tinham, sim, seus planos de guerra... Onde elas estão?" "Reunimos os 2000 homens que sobraram e capturamo-as. Estão acorrentadas à muralha. São quase 1000." "E o medalhão?" "Não encontramos." Fox apanhou sua capa e saiu da tenda. "General!" – ele virou-se para Wirius. – "Mataram Spew." A grande maioria das mulheres ali, atadas ao paredão, estavam sendo duramente espancadas pelos legionários, raivosos pela morte inexplicada dos companheiros. Muitas já haviam morrido. Fox saltou de seu cavalo que galopava, gritando para que os soldados parassem. Mas somente depois que ele próprio espancou um dos legionários agressivos, foi que a violência parou. "Estão loucos? Estão batendo em mulheres amarradas?" "São Bárbaras!" – gritou um legionários. "São desgraçadas, mataram dezenas de soldados." – gritou o outro. "Afastem-se! Mandei afastarem-se!" – virou-se para o centurião. – "Cabe a você, Wirius, impedir essa violência! Se as tocarem, abandono-os nessa terra gelada e nunca voltarão a Roma." Ele percorreu a muralha, acompanhado por Wirius, que levava os corpos para o campo, onde eram queimados. Ao final do dia, poucas mulheres vivas sobraram. Foram, então, levadas ao acampamento. Fox, Wirius e 10 legionários, interrogaram-nas sobre o medalhão. "Você. Como é seu nome?" "Faion." – a garota respondeu. "Me diga, Faion. Onde está o medalhão?" A menina permaneceu em silêncio, apertando os lábios. "Se nos disser, libertaremos todas vocês." – disse Wirius. – "Do contrário, mataremos." "Não direi." – foi a resposta de Faion. "Dirá!" – uma das mulheres gritou. – "Não morrerei por causa dos malditos deuses que nos tiraram tudo!" "Cale-se, Marin!" – Faion gritou. "O medalhão está em poder de nossa chefe!" – Marin gritou, dirigindo-se a Wirius. – "Dessa maldita que nos conduziu à desgraça. Ela sabe onde." Mas antes que pudesse terminar a frase, Faion acertava-lhe uma pedra na cabeça e partia para cima dela, espancando-lhe. "Traidora! Cadela!" – e Faion enrolou o pescoço de Marin com a corrente de seus pulsos, enquanto algumas mulheres ordenavam que ela parasse. Um legionário puxou, decididamente, os cabelos de Faion e passou-lhe a adaga na garganta. Marin e Faion morriam. As mulheres que gritavam para que Faion parasse, levantaram- se, apoiando uma outra mulher. "Não mate mais ninguém. É ela que vocês querem." Fox virou-se para a voz e fitou a mulher ferida que fazia um enorme esforço para levantar- se. "Não promova mais desgraça, General! Conversemos." – Dana ordenou, arfando de dor. "Levem-na para minha tenda e curem o ferimento dela." Ela dormia sobre a pele estendida no chão da tenda do General. Ele a observava, trêmulo. O rosto branco como leite, as maçãs e os lábios vermelhos de febre, os longos cabelos cor- de-fogo. O corpo sensual e bem feito sob a roupa rasgada, as pernas fortes, uma delas rasgada por um gigantesco corte que, finalmente, parara de sangrar, Perdeu-se em sonhos, quando percebeu que imensos olhos azuis fitavam-no. Mas não mostravam ódio, nem tristeza. "Como está?" – ele foi até ela e colocou as mãos sobre a testa quente. "Bem." – ela engolia em seco. Aquele homem tocava-a, como jamais havia sido tocada. – "O corte não dói mais." "Eu... preciso do medalhão." "Meu povo também." "Você não tem mais povo. Só sobrou você e algumas mulheres à beira da morte." "Mas ainda tenho honra e isso, nem que me estupre, não me tirará." "Eu não pretendo tocá-la. Tenho uma missão a cumprir, ou serei morto por César. Dou-te cobertura para fugir, assim que me entregá-lo. Não quero fazer-lhe mal. Não quero matá- la." Ela olhava fixamente nos olhos do General. O transe foi inevitável, quando ela perdeu-se naquela imensidão verde. Viu seu futuro, seu amor, sua felicidade, sua desgraça. Viu o tormento da alma e do corpo do homem a sua frente, viu seu amor, sua felicidade e sua desgraça. Estremeceu e encarou-o. "Porque não abandona esta vida?" "Não posso. É a honra de meu irmão, é para salvá-lo da desgraça eterna que vivo por ele." "Então, porque julgas que desonrarei meus irmãos, entregando- lhe o medalhão e fugindo?" Ele não tinha argumentos. Apenas olhava-a embevecido e, ao mesmo tempo, cheio de dor. Ela continuou. "Está na hora de viver sua vida, lutar pelo seu futuro, lutar por suas conquistas, e não as de seu irmão e de César." Ele permitiu as lágrimas presas por 40 anos. "Não posso mais viver, tenho a culpa dentro de mim." "Não matas por prazer. Cumpres uma obrigação. Liberte-se de sua culpa, liberte-se da obrigação que se auto-impõe. Não salvarás o mundo com seus atos de bravura, e também não o destruirá com seus atos de covardia. Procure as coisas que todo homem precisa, ao menos uma vez na vida. Amor, paz e felicidade." Eles se olharam longamente, ambos tiveram a sensação de que suas ligações atravessavam a barreira do tempo e do lógico. Eles estavam unidos onde quer que fosse. Abraçaram-se, um sentindo a solidão do outro. A noite deu-lhes a sensação de proteção e compreensão que nunca haviam tido. Ela encarou-o e deu-lhe a entender que ela cumprira sua missão. Abrira-lhe os olhos. Fez- lhe uma pergunta muda. Ele respondeu que sim, que estava pronto para a decisão dela. Ele dormiu no braços dela, temendo o caminho que ela havia escolhido trilhar. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Mulder acordou sentindo a cabeça pesar, rolou vagarosamente pelo piso de pedras da igreja. Olhou pela fresta no teto. Ia amanhecer. Levantou-se vagarosamente, temendo encontar somente um corpo, e não uma alma, sobre o altar. Para seu desespero, nem o corpo estava lá. Vasculhou com os olhos os quatro cantos da capela. Chamou, baixinho, pela parceira. "Scully?" Mas o silêncio, dentro e fora da igreja, eram aterradores. O sonho martelava em sua cabeça como se fosse um acontecimento do dia anterior. Lembrou de cada sílaba que trocaram e, por último, lembrou do olhar de despedida que ela lançou-lhe antes que ele dormisse. Percebeu que não havia nada, nenhum dos pertences de Mark, ali. "E se ele levou-a?". Estava realmente desesperado. Saiu capela afora e percebeu que o carro estava ali, onde deixara. "E Scully?". O primeiro raio de sol, vindo detrás do velho telhado, acertou a lataria do carro e brilhou em seus olhos. Ele desviou, pois cegou-lhe por um segundo. Pôde, então, ver, a 40 ou 50 metros, um amontoado de pedras, onde o sol lançava seus feixes de energia e aquecia aquela fria manhã. Aquecia também o frio coração daquele homem. "Scully?". Ela pareceu ouvir o pensamento dele e virou-se vagarosamente, sorrindo –lhe. "E se fosse uma imagem, uma miragem, um espírito, como Mark alegava poder ver?". Ele não quis aproximar-se. Quanto mais perto, mais corria o risco de perdê-la. Pediu para que ela fosse real.E que se aproximasse. E que lhe tocasse como no sonho. E que lhe dissesse que sentia por ele o mesmo que ele sentia. Ela desmanchou o sorriso e agora olhava-o temerosa. Ambos pareciam temer que o outro desaparecesse. Caminharam vagarosamente um em direção ao outro. "Scully?" "Mulder?..." – ela já dava mostras de choro. Sem importarem-se com mais nada, correram um pros braços do outro e ali ficaram, selando o encontro com o abraço mais seguro que podiam encontrar e dar. Ela apoiou-se nele, as pernas fraquejavam, não comia há dias. Não poderia ter corrido. "Como está?" – ele perguntou carinhosamente, vendo que ela não se sustentava. "Bastante fraca." – ela sorria, feliz, molhando os ombros de Mulder com suas lágrimas. Ele apanhou-a no colo e levou-a para a igreja, protegendo-a do vento frio da montanha, enrolando-a, firmemente, em seu sobretudo. Deitou-a no altar e debruçou-se. Queria dizer- lhe milhões de coisas, mas nada fluia de sua garganta. Foi ela quem quebrou o silêncio. "Obrigada por tudo." "Também me trouxe à vida, Scully." "Eu não podia abandoná-lo. Você ainda precisa de ajuda em sua busca." – não era bem o que ela queria dizer, mas precisava jurar-lhe sua vida. "Não, eu não preciso de ajuda." – ele disse olhando-a, sorrindo, enquanto enxugava as lágrimas dela com os dedos. – "Eu preciso de você, para buscar a vida que eu realmente preciso." – era ela quem levava as mãos para enxugar as lágrimas dele, agora. Ela sentou-se aconchegando-se ao colo de Mulder. "Foi tão estranho, tão confuso, não tive noção de tempo e espaço." – ela lembrou-se, então, das palavras de amor que Mulder tinha lhe dito antes que ela tomasse sua decisão. Encarou- o espantada, lembrando-se letra por letra, da declaração. – "Acho que estou ficando louca." "O que houve?" – ele parecia adivinhar os pensamentos dela e sentiu-se constrangido. Ela preferiu guardar silêncio. Sabia que não poderia ser verdade, sua consciência dizia-lhe que ele a guardava como parceiro. Mas seu coração bateu acelerado, imaginando que ele talvez tivesse dedicado-lhe as mais belas palavras de amor. Voltou a deitar-se no peito dele. Ouviu o coração dele bater num ritmo desesperado, como o dela batia. Sorriu. Confirmava suas suspeitas. Apertou-se mais ainda contra ele. Tinha uma enorme vontade de agradecê-lo de outras maneiras, mostrando-lhe tudo o que realmente sentia. Ele também apertou-a mais forte. E ficaram naquela mesma posição, ela sentindo o coração dele, ele sentindo a respiração dela, durante horas. Por nada quebrariam um momento tão maravilhoso, cheio de paz, e talvez, amor. Ele levou-a para o carro e no caminho para casa, contou-lhe tudo, ou quase tudo, o que havia acontecido nos últimos dias. Ele parecia feliz. Ela sorria olhando-o todo o tempo, escutando, embevecida, as palavras de seu amor. Washington D.C. – Georgetown 06/10/00 – 7:56 p.m. Casa da Agente Dana Scully Ela estava envolta no pesado edredon, e, ao seu lado, ele segurava a mão delicada que saía pelas cobertas. Fitava-a, lembrando-se do sonho que tivera sobre a bárbara e o general romano. Ela era igualzinha ao sonho, menos pelos cabelos longos e cacheados da mulher antiga. Como era doce o sono dela. Como era brava a luta daquela mulher que preferiu a honra de enfrentar a vida dura ao lado daquele homem, ao invés de morrer em paz, com a conciência limpa, com a sensação de obrigação cumprida. Será que ela havia sonhado o mesmo que ele? Queria repetir-lhe cada uma das palavras que havia lhe dito há dois dias atrás. Mas e se ela quisesse apenas trilhar o caminho da busca dele, apoiá- lo, estar com seu amigo... "Está aí, Mulder?" – ela sorriu ao parceiro sentado na beira da cama, ao seu lado. "Não quis acordá-la. Está melhor?" "Estou. Nada como um banho quente e uma boa alimentação." – ambos pareciam constrangidos. Ele ajeitou os cabelos revoltos dela, sobre o travesseiro. "Procurei por Mark." "Achou-o?" "Achei. Cemitério Municipal de Nova York. Morreu em 1989." "Tem certeza, Mulder?" "Tenho. Mas acredito que era ele quem estava ali, ao nosso lado." "Como, Mulder? Não quer dizer que...?" "Claro que sim. Ele, até que você se libertasse das forças do medalhão, não quis, ou não pôde, em momento algum, tocá-la. Ele disse que, enquanto você estivesse possuída, os espíritos não se aproximariam e não se proporiam a guiá-la e a aconselhá-la. Por isso ele mandou eu levá-la a igreja e pediu que eu colocasse as pedras sobre seu corpo." "Não pode ser, Mulder. Acha que esteve com espíritos?" "E você, Scully? Por que acha que passou? Quem acha que te guiou? O que foi que realmente aconteceu ao seu corpo, à sua alma naquele lugar? Quais os efeitos do medalhão? Pense! Não poderá explicar. Não poderá contestar o que eu proponho." – ela guardou silêncio e reprimiu as lágrimas. – "Quer dizer alguma coisa, Scully?" – ela sacudiu a cabeça levemente. "Foi horrível, Mulder. Meu pai conversou comigo, Melissa também. Mas é inacreditável. É inexplicável. Eu sei que não foram sonhos comuns. Eram reais. Era algo que eu não podia explicar. Só sentir. E eles me abriram os olhos pra tantas coisas... Eu me lembro de tudo como se fossem acontecimentos do dia anterior. E de repente, me dizem que eu tenho a escolha em minhas mãos. E lá era um mundo tão melhor. Eu teria todos os meus desejos realizados..." "Então porque escolheu ficar?" "Porque em todos os meus sonhos eu descobri que a vida normal, que eu deveria querer levar, não eram as vidas certas para mim. Não era onde eu encontraria a realização, a diferença, a vida, a minha vida. "Você sabe que você pode mudar sua vida. Pode ir embora, largar tudo. Ir atrás da sua verdade..." "Não, Mulder. Eu não posso." "Não há nada que a prenda aqui, Scully." "Há. Você. Não posso deixá-lo até que eu tenha certeza de que você encontrou a sua verdade." "E então você vai procurar a sua?" "Talvez, até então, eu já a tenha achado." – ela sorria ternamente. Mulder sorriu também e abraçou-a. "Talvez eu também já tenha encontrado a minha." – ele completou. Beijos não eram necessários. Sexo também não. Eles tinham certeza de que seriam um do outro eternamente, e que a verdade esperava por ambos e a encontrariam juntos. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx há algo sim que você pode fazer por você ao longo do caminho sentar à sombra do arvoredo e deixar que a vida se faça ela própria há algo sim que você pode fazer por mim pra que eu continue pelo caminho partilhar os frutos da terra que a semente se faz própria pela vida