ALGUNS PERSONAGENS DESTA FANFICTION SÃO DE PROPRIEDADE DE SEUS CRIADORES E NÃO HÁ INTENÇÃO DAS AUTORAS EM LUCRAREM COM SUAS IMAGENS. ESTA HISTÓRIA DESTINA-SE SOMENTE À DIVERSÃO DOS FÃS. AUTORAS : ALEXANDRA MORGILLI E SILVIA PENHALBEL E-MAILS : ariel_55@hotmail.com e silviascifinews@bol.com.br NOTAS : ESTA FIC É MAIS UMA AVENTURA DO GRUPO AZUL CELESTE, ESCRITA DEPOIS DE MUITA INSISTÊNCIA DAS AMIGAS E LEITORES QUE NOS COBRAVAM UMA NOVA AVENTURA DAS TERRORISTAS. ADVERTIMOS QUE NÃO HÁ PARTICIPAÇÃO DE MULDER OU SCULLY NESTA FIC MAS A MITOLOGIA DE ARQUIVO X ESTÁ DIRETAMENTE LIGADA À HISTÓRIA. AGRADECEMOS MAIS UMA VEZ ÀS NOSSAS AMIGAS, KÉSSIA, CLAUDIA E CLARISSA POR EMPRESTAREM SEUS NOMES PARA AS MENINAS DO GRUPO. ALGUMAS PIADAS E INSINUAÇÕES SÃO ABSOLUTAMENTE PARTICULARES MAS ACREDITAMOS QUE NÃO IRÃO COMPROMETER O BOM ENTENDIMENTO DA HISTÓRIA. DIVIRTAM-SE. SIL E ALE "A ANTE SALA DO INFERNO" PARIS, CAFÉ DA BASTILHA 15/11 8:00 a.m. A manhã estava ensolarada, apesar do frio, e tudo parecia estranhamente claro, tornando os óculos escuros tão necessários quanto convenientes. A luz em Paris definitivamente não era a mesma que chegava aos olhos humanos no resto do mundo. Não, aquela cidade tinha algo que fazia a luz tornar-se diferente...Talvez ali fosse o único lugar onde lhe faltasse um dos componentes do espectro, ou talvez onde houvesse um a mais... Pensou em conseguir um prisma assim que chegasse ao hotel, logo mais, para testar sua teoria... _ Não, não...Céus, quanta bobagem..._ refutou os devaneios em voz alta, sem perceber que era observada com atenção pela pessoa com quem dividia a mesa. _ Que é que você tá resmungando aí, Ale? Estava pensando em quê?_ o sorriso matreiro da outra revelava a expectativa de quem já se preparava para ouvir uma das muitas divagações sem sentido, mas engraçadas, da amiga. _ Pensava na luz... _ Ê...papo de "Luz"....você nunca foi dessas conversas religiosas, Ale! Resolveu encontrar o "caminho"? hehe... _ Não Kes! Não essa "Luz"...eu estava pensando em luz mesmo, em como a luz do sol parece diferente aqui... dá um tom diferente às pessoas, ao calçamento das ruas...reparou? _ Viaja aí! "Pôxa", eu estou é entediada...não consigo ficar aqui parada esperando...está me dando um desespero danado... _ Calma, daqui a pouco elas chegam e explicam tudo para nós. E por falar em 'cansar de esperar', cadê aquela mocinha? Ela foi fazer o que, sozinha lá na galeria? _ Ih...vai começar a vigilância...Sei lá o que ela foi fazer! Ela disse que chegava em tempo, então relaxa! _ Tá...tem razão. Eu acho que exagero às vezes. _ Olha lá a baixinha...Não falei que ela chegava logo? A garota aproximou-se da mesa com ar traquina e um sorriso._ E aí, crianças? Cheguei antes das nossas amigas? Se eu soubesse tinha demorado mais! Agora vou ter de ficar escutando vocês duas reclamarem do atraso e tal... _ Não vai ser preciso...lá vêm as duas. E as caras não estão para boas notícias. As atenções se voltaram para as duas mulheres que se aproximavam da mesa, com expressões mais sérias do que esperavam suas companheiras. _ Meninas, já tomaram o café da manhã? Ou esperaram por nós?_ Claudia foi a primeira a dizer alguma coisa. _ Se a Ale tomar mais um café, EU morro de úlcera!! Gente, vamos cortar a enrolação... Esse chamado de última hora no meio de uma "folga" não está me cheirando nada bem. O que foi que aconteceu? _ Está certo, Kes. Então vamos parar de "enrolar" e ir direto ao ponto._ a líder do grupo tomou a iniciativa de tornar a conversa séria._ Temos outra missão. _ "Tá" de brincadeira, né??? Cara, depois dessa última você nos prometeu uns dias de mar e festa... está lembrada, Claudinha?? _ É isso mesmo, Claudia. O combinado foi que sumiríamos por uns tempos... De que adianta a gente se arriscar tanto se não sobra tempo para aproveitar o dinheiro que recebemos?? As duas mais jovens foram as primeiras a protestar, mas logo foram acompanhadas nas queixas... _ As meninas têm razão. Tínhamos um trato. Acredito que você deve ter algum motivo muito forte e que vai nos explicar, não é? _ Ale tentava acalmar os ânimos, enquanto buscava com um olhar de espanto encontrar algum sinal na até então calada Sil. _ Calma, gente. A Claudia tem sim um motivo e vai explicar, se vocês pararem de reclamar e escutarem um pouco! _ Sil não estava confortável com a situação e alguma coisa a estava preocupando. Era visível pela expressão de seus olhos... _ Posso falar? As crianças e sua "Bá" já terminaram a choradeira? Pois bem, garotas. Quero lembrá-las de que não somos um "clube de literatura". Isso aqui é um grupo com objetivos claros e prioridades estabelecidas por mim. Uma missão nos foi designada e eu a aceitei, apesar das "férias" das mocinhas. Vamos deixar uma coisa bem clara: não vou admitir esse tipo de questionamentos quanto à minha autoridade aqui! Quem quiser mudar as regras do jogo, vai ter de me provar que é capaz de me substituir no comando... alguém quer tentar? O ar ficou espesso...a troca de olhares assustados tomou o lugar das palavras e ninguém ousou dizer nada. Depois de fitar pausadamente cada uma das mulheres à sua frente, Claudia retomou a conversa, já com um ar mais tranqüilo, de quem dava por encerrada a discussão sobre autoridade... _ Muito bem. Sil e Ale, vocês estão dispensadas. Essa missão vai envolver apenas a Clá e a Kes. _ Como assim dispensadas?????_ Do que você está..._ antes que pudesse dizer algo que complicasse ainda mais sua situação, Ale foi imediatamente interrompida por Sil, que a fez levantar-se da mesa e acompanhá-la para longe dali. Da mesa, da posição em que estava sentada, Kes seguiu com os olhos as duas amigas que se distanciaram até pararem a uma distância razoável, mas ainda visíveis por entre o arvoredo da pequena praça que se ladeava o Café . Ela não podia ouvir o que diziam, mas Sil parecia tentar explicar algo a outra, que pelo que Kes conhecia dela, demonstrava com o gesticular exagerado que não estava gostando nada da conversa... _Posso ter sua atenção, Kes?_ percebendo que ela estava mais atenta ao que acontecia na praça do que ali na mesa, Claudia buscou o celular e apertou uma das teclas de atalho. _ Sil, eu disse para tirar a Ale daqui. Agora_ Desligou e encarou novamente as meninas. _ Fala Claudia, estamos ouvindo..._ Clá achou melhor quebrar o clima e ouvir logo o que a outra tinha a dizer. _ Obrigada... Essa missão é importante em muitos sentidos. Pelo objetivo em si e pelos meios que vamos utilizar. Será a primeira missão em que vocês trabalharão totalmente isoladas de nós. O alvo em questão é alguém com quem nós três já nos confrontamos antes e qualquer contato conosco pode significar perigo imediato para vocês, então estarão por conta própria até a conclusão da missão. Vocês terão de se infiltrar na organização e eliminar o alvo. As instruções detalhadas estão no quarto de hotel reservado para vocês no Savoia, em Roma, de onde vocês seguirão para o local do trabalho. Daqui vocês vão imediatamente para o aeroporto e não haverá comunicações entre nós até que seja seguro. Alguma pergunta? Kes tinha milhões de perguntas. Sua cabeça girava. Aliás, como ela podia saber se tinha dúvidas, se só conheceria o teor da missão quando chegasse a Roma e consequentemente já estivesse sem contato com o grupo? Que tipo de brincadeira insana era aquela? Pensou em dizer que estava fora da jogada e sair andando, mas sabia que essa não era uma opção disponível. Limitou-se a olhar em direção a Clá, que permanecia com a mesma expressão imutável desde o início da conversa . Ou ela enganava muito bem, ou não tinha nenhuma dúvida... _ Podemos nos despedir da Ale e da Sil, pelo menos?_ foi a única coisa que Kes ousou dizer... _ Não. A partir de agora a missão já começou. Sigam para o aeroporto. É com vocês agora, garotas. Aproveitem para me provar que não precisam mais de "babás"..._ Terminou a frase, deixou as duas passagens de avião e uma nota de vinte francos sobre a mesa para pagar os cafés e saiu, sem maiores explicações. As duas ficaram quietas ainda por alguns minutos, antes que Kes tomasse a iniciativa de falar: _ Pô... Dá para me explicar o que foi tudo isso que aconteceu aqui nos últimos minutos? Eu só posso estar na minha cama, dormindo e tendo um pesadelo. Me diz que não é real, por favor!! _ Bom. Primeiro eu sugiro que você relaxe. Inspire, expire, inspire, expire..._ ela disse isso com uma cara séria, capaz de impressionar qualquer um que não a conhecesse... _ Pára de brincar Clá! Cara, você é fogo... _ não conseguiu evitar um sorriso_ Tá, vou me controlar... _ Kes, falando sério agora...se eu entendi o que aconteceu aqui, parece que é uma forma de teste. Não esperava passar por isso dessa forma. Achei que um dia receberíamos uma missão só nossa e que junto viriam milhões de recomendações e tal... mas nunca imaginei que seríamos simplesmente informadas assim, sem mal ter tempo de...de nada! E a Ale também não estava sabendo de nada. Não consegui descobrir nem se a Sil estava concordando ou não com isso tudo... Cara, que sinistro! _ Você acha que a gente deve fazer o quê? _ Oras, vamos pegar o avião para Roma e descobrir no que é que estamos nos metendo....Afinal, somos profissionais, certo? _ Somos? _ Acho que vamos descobrir logo... PARIS. HOTEL DU LOUVRE - QUARTO 43 12:44 p.m. O quarto estava escuro, mas uma silhueta podia ser vista parada diante da janela, sentada junto à mesinha do telefone, esperando... O toque do telefone provocou-lhe um sobressalto. _'Pontual, como sempre'_ , pensou antes de atender. _ Alô. _ No mesmo lugar, mesmo horário, dentro de dois dias. _ Não é preciso. Outro encontro significa correr um risco desnecessário. _ Não quero sua avaliação. Apenas esteja lá, Cláudia. A linha ficou silenciosa e ela entendeu que não estava no controle. Não dessa vez. Não ainda... HOTEL DU LOUVRE - QUARTO 41 12:50 p.m. Enquanto Ale jogava suas coisas desordenadamente dentro da mala, Sil tentava sem sucesso arrazoar com ela sobre o motivo de terem sido ambas excluídas da nova missão. _ Eu não entendo. Não adianta Sil. Você pode explicar em quantos idiomas quiser, para mim esta história não cola! _ Meu Deus, como você é teimosa, Ale!! E que mala é essa? _ A única que eu tenho. Você sabe que eu uso sempre a mesma. _ Não se faça de desentendida. Quero saber para onde você vai. _ Quer saber, é? Pois use a sua imaginação! A mesma que você usou para me contar essa história cheia de furos!_ ditas as últimas palavras, fechou a mala, conferiu seus documentos e tomou a direção da porta, disposta a sair dali imediatamente. _ Não faça isso, Ale. _ Sil assumiu um tom mais sério. _ Você está me dando um aviso, Sil? Eu fico aqui e obedeço ou você vai fazer o quê? Me dar um tiro? _ Não. Eu estou pedindo. Em nome da nossa amizade. Você me magoa com esse sarcasmo...E deixe de ser exagerada. Você sabe que eu nunca faria nada contra você, nem permitiria que as meninas corressem perigo. _ Sei mesmo? Eu não sei mais nada, Sil. Depois dessa palhaçada eu não sei nem mais quem é você ou o que você pretende. Mas vou descobrir. Disso eu tenho certeza. Agora, por favor, se realmente ainda existe algum respeito pela nossa amizade...deixe-me ir ou não falhe ao tentar me impedir! Certa de que enfrentar tanta teimosia num momento de raiva era uma atitude tola, Sil agiu com cautela e recuou, deixando livre o caminho da rua, que a outra ganhou sem olhar para trás. Na rua, a luz do sol a fez parar por um instante, para que pudesse localizar-se. A visão que tinha da rua parecia uma fotografia vista de cabeça para baixo..._'Droga...ainda bem que não estou dirigindo, ou ia ficar rodando por esta maldita cidade eternamente'_ Esperou mais um pouco e respirou profundamente, enquanto via a cena encaixar-se lentamente no lugar e aceitava do porteiro do hotel ajuda com a mala e o táxi. Sabia que, um dia, um desses lapsos ainda ia acontecer num momento crucial e que isso talvez fosse perigoso, mas no momento não tinha tempo para isso. Dentro do táxi, já recuperada, concentrou seus pensamentos nos passos que daria para tentar descobrir o paradeiro das meninas. PARIS - EMBAIXADA DA ARGÉLIA 17/11 A sala de móveis escuros e tapetes com delicados desenhos floridos tinha, nas cortinas fechadas, o amparo ideal para o clima de segredo que ali se estabelecera. Atrás da mesa, um homem grisalho, usando óculos numa grossa armação de casco de tartaruga, tamborilava os dedos sobre uma pilha de documentos, visivelmente ansioso, enquanto ouvia atentamente o que era dito pela mulher que permanecia próxima à janela, atenta aos movimentos lá embaixo na calçada. _ Ela não irá. Você não pode exercer um poder exagerado sobre ela, é perigoso demais. Tudo tem limite. _ Irá sim, eu garanto. Já lhe disse que a operação está totalmente sobre controle. Quando o presidente Jean Luc se sentir absolutamente seguro, daremos o golpe final e você assume o poder, com o amparo das tropas guerrilheiras de Bresson. _ Se ele desconfiar que sabotamos a segurança da capital, sou um homem morto... _ Se você ousar me trair, também, Drumound...só que eu vou garantir que o processo seja bem doloroso..._ a mulher assumiu um tom sinistro, que ele sabia muito bem o que significava_ O presidente está tranqüilo, sentindo-se absolutamente seguro, porque sabe que o Azul Celeste nunca falhou...até agora. _ Como você tem tanta certeza de que ela cumprirá o combinado? _ Temos nossos trunfos, mas isso não importa para você. Relaxe e termine seus planos para governar a nova Argélia..."renascida". Agora, tenho um último encontro com nossa "amiga"...só para garantir que as coisas continuam como eu quero. ROMA, EDIFÍCIO FONTANA DI TREVI 17/11 – 9:00 a.m. Abriu a porta com a esperança inútil de encontrar alguém em casa. A decepção foi evidente, apesar de já saber que encontrar o apartamento vazio era o mais provável. Estava dois dias atrás e neste período não descobrira nenhuma pista quanto ao destino seguido pelas duas, exceto que passariam por Roma antes de seguir para a fatídica missão. Então, voltara para casa. Deixou a mala no meio da sala, sem se preocupar com os protestos habituais quanto à sua bagunça. Hoje não os escutaria. Como que por reflexo, abriu as portas dos quartos e checou cada um. O aspecto era o mesmo do dia em que saíram rumo as férias na França. Kes, novamente, deixara para arrumar a bagunça depois...Olhou mais uma vez para a bicicleta que a outra insistia em manter dentro do quarto apesar de nunca a ter usado, e prometeu que nunca mais implicaria com ela por causa disso. Em seu quarto, apanhou o baú onde guardava seus papéis pessoais e tirou de dentro dele agendas, cadernos, mapas e pedaços de papel de todo tipo e preparou-se para repassar todas as suas anotações sobre as operações dos últimos anos . Se essa nova missão tinha ligação com algo que já fizera no passado, começaria procurando por ali. Tinha de encontrar alguma pista. Precisava pensar. O silêncio no apartamento vazio era inóspito, mas era exatamente disso que precisava agora. Tempo e silêncio, para que suas idéias tomassem forma e pudesse decidir a melhor maneira de agir. Nunca gostou de pensar junto com ninguém. Repetia, de maneira quase ranzinza, que não era um "Borg" e não tinha mente coletiva. Tinha idéias sozinha. Depois, quase sempre, submetia suas idéias a avaliação das outras e as discutia sem restrições, mas nunca conseguiu elaborar nenhum pensamento útil em grupo... Só que, agora, tinha paz demais naquele apartamento. PORTO DE ALEXANDRIA – EGITO 17/11 A área da alfândega do porto destinada ao desembarque de passageiros era apertada e relativamente mal iluminada e mais lembrava uma repartição pública abandonada. O homem fardado que verificava a documentação dos passageiros era cuidadoso nos gestos, mas tinha um rosto difícil de decifrar. Não sorria, nem tinha cara de zangado. Simplesmente inexpressivo. Não que isso importasse, mas na total falta do que ver ali, naquela fila interminável, Clá tentava distrair-se analisando o homem. _ Documentos_ _ Sim senhor._ Distraíra-se a ponto de tomar um susto quando chegou sua vez de passar por ele... _ Turismo? _ Trabalho. _ Destino? _ Memphis. Somos de um grupo especial de escavação. Eu sou perita em explosões controladas em zonas arqueológicas e minha companheira de viagem é a especialista em sismografia. Temos uma cópia do contrato de trabalho aqui._ Apresentando os documentos, tentava manter uma expressão indiferente e calma, embora questionasse para si mesma o quanto sua história era convincente...'de onde saíra a idéia de um disfarce tão técnico?!' Kes limitou-se a sorrir e entregar a ele seus documentos. Depois de examinar detidamente os passaportes e demais documentos apresentados, o homem esboçou o primeiro sorriso daquela tarde, que tinha, por assim dizer, um toque mordaz. _ Sejam bem vindas à terra dos Faraós. ESTAÇÃO DE TRENS DE PARIS 18/11 2:55 a.m. Entre as plataformas desertas, os trilhos traziam o som dos últimos trens da madrugada, empenhados em recolher e dar destino aos poucos que se arriscavam ainda na escuridão fria de Paris. No fim da plataforma central, junto a um cartaz publicitário de cigarros americanos, um par de olhos verdes vigiava por trás dos discretos óculos de aros redondos todos os que se moviam em sua direção. Até que avistou a loura alta e elegante que caminhava displicente entre os transeuntes. A mulher sentou-se ao seu lado e começou a folhear uma revista de moda enquanto falava em voz baixa. _ Espero que esteja correndo tudo conforme combinamos. Com um suspiro impaciente ela se virou na direção da loura. _ Se bem me lembro, eu não decidi nada nesta história, você passou as ordens e, se quer saber, elas estão sendo cumpridas conforme seus desejos. Para saber disso, você não precisava ter marcado outro encontro comigo. Claudia levantou-se profundamente irritada e deu alguns passos. Sentia-se sufocada ao lado daquela mulher. Desde a primeira vez que se encontrara com ela, Claudia sentia-se terrivelmente mal. Não apenas pelo que estava sendo obrigada a fazer, mas também pela sensação de perigo iminente que sentia enquanto estavam próximas. A loura levantou-se e parou bem próxima da mulher que parecia mais interessada nos armários vermelhos encostados na parede à sua frente. Claudia sentiu uma onda de náusea ao escutar a voz da mulher tão perto de seu ouvido. _ Eu apenas queria ter certeza de que você entendeu direito os termos de nosso pequeno acordo. Claudia virou-se furiosa encarando a outra com a expressão carregada de ódio. _ Eu entendi muito bem os termos, bem até demais. _ Então, assim que a missão for completada, você receberá os originais dos documentos. Mas não se esqueça, as condições devem ser totalmente cumpridas ou então, a embaixada israelense vai receber um dossiê bem interessante. Claudia não retrucou, voltou novamente as costas para a mulher e apertava as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ainda de costas, ela escutou os saltos dos sapatos altos se afastando. Permaneceu alguns minutos de olhos fechados, respirando lentamente, tentando recuperar o sangue frio. Desde o primeiro telefonema daquela maldita, ela não dormia ou comia direito. A certeza de ter sido traída a deixava arrasada. Só existiam duas pessoas vivas que sabiam os detalhes daquele dossiê e Claudia preferia morrer antes de sequer cogitar que Sil revelaria alguma coisa a alguém. Portanto só restava uma pessoa. Desta, ela esperava qualquer coisa, mas não tivera tempo nem condições psicológicas de investigar o paradeiro do miserável. Nem mesmo conseguira verificar a identidade da mulher loura que, em poucos dias, poderia destruir sua vida de maneira tão completa e absoluta. ROMA. EDIFÍCIO FONTANA DI TREVI 18/11 Sil entrou usando a cópia da chave que tinha consigo para situações de emergência. Ale só podia ter ido para casa e ela esperava poder encontrá- la para que pudessem por fim a todos os desentendimentos que estavam acontecendo aqueles dias. Entrou com cautela, porque não queria ser confundida com um invasor qualquer e acabar levando um tiro da outra. Acendeu as luzes e tomou um susto com o que viu: a sala estava tomada por papéis espalhados e latas vazias de Coca-cola . Com certeza Ale estivera por ali, pesquisando velhos documentos e traçando um plano e ela obviamente chegara tarde demais. Sobre a mesa, um mapa trazia um lugar assinalado: Argélia. Um bilhete terminava de juntar as peças : Sil, Sei que você é teimosa e vai tentar contornar as coisas, vindo atrás de mim. Como não estou aqui para ouvi-la, você não tem escolha além de sentar-se confortavelmente e ler esse monte de papéis que deixei para trás, em busca de uma pista. Considere essa pequena dificuldade apenas como uma maneira de ganhar algum tempo enquanto você se convence a me ajudar a trazer as meninas de volta. Sei que há algo errado. Nunca agimos dessa maneira antes, por que agora? Por que mandar as meninas sozinhas, para uma missão praticamente sem volta, na Argélia? Sil, nós nunca tivemos nenhuma missão na Argélia, não existe isso de "nos reconhecerem" lá! Eu não sei o que está fazendo a Claudia agir assim, mas vou descobrir. Leia e pondere. Quando você me achar, espero já ter mais informações. E espero que não seja tarde demais . Ale Sentindo um certo medo de que as coisas estivessem realmente tomando rumos desastrosos, e uma vontade enorme de esganar a amiga sarcástica, Sil sentou-se e pacientemente começou a examinar um por um todos os papéis que encontrou pela sala. No meio daquela enorme bagunça e de coisas que ela nem sabia que alguém guardara, foi juntando as pistas deixadas pela outra. Encontrou primeiro cópias de listagens de todas as ligações feitas nas últimas semanas dos quartos de hotel onde estavam hospedadas na França e dos telefones celulares de todas elas. Algumas estavam assinaladas. Anotações, feitas com a letra quase indecifrável da amiga, indicavam que algumas chamadas foram feitas do celular da própria Sil para um número no cais francês. De lá, as ligações eram redirecionadas para outro número: a embaixada argelina! O rastreamento das ligações recebidas no quarto de hotel revelava, além deste mesmo número, outros pertencentes a embaixada e uma ligação feita diretamente da Argélia. Sentia-se confusa. Às vezes descuidava-se do celular e Claudia era quem teria mais chances de utilizá-lo...ela sabia que não fizera estas ligações e estava assustada pela idéia de que sua amiga as tivesse feito... Horas depois, tinha encontrado muitos outros documentos interessantes, como registros de missões anteriores, e que traziam em destaque todos os nomes que poderiam estar envolvidos com o governo argelino e em notas a lápis, seu possível paradeiro atual. Algumas cópias de matérias de jornais retratavam o horror da guerra civil na Argélia, onde um massacre estava em andamento. Havia ainda uma cópia de recibo de saque, da conta corrente de Kes, numa agência nas imediações do porto de Nápoles, na Itália e várias listagens de passageiros. Numa delas estavam grifados os nomes "Bete" e "Nina"... Sil sorriu da ingenuidade das meninas, que viajaram sob nomes falsos tão familiares para Ale. O número de informações que Ale conseguira era suficiente para que Sil entendesse que havia mesmo algo muito errado nesta história mas ainda precisava ter certeza de algumas coisas, antes de tomar uma atitude. ROMA - APARTAMENTO DA LÍDER DO AZUL CELESTE 19/11 A sala estava impecavelmente arrumada. Havia chegado de madrugada e iniciara a sempre adiada faxina até cair de exaustão e não conseguir pensar em mais nada. Não podia deixar aqueles documentos chegarem à embaixada israelense, mas não pretendia de maneira nenhuma que as meninas morressem por isso. Enquanto as mãos trabalhavam eliminando cada grão de poeira do lugar, sua mente fervilhava de idéias e possibilidades que não se encaixavam em um plano ordenado. Acostumara-se demais a ter Ale e Sil ao seu lado nas organizações das missões. Sentia falta das maneiras aparentemente tão diferentes de como cada uma delas analisava a mesma situação e de como isso facilitava a ação do grupo. Àquela altura dos acontecimentos, já sentia falta até dos resmungos da Ale e da mania de Sil achar tudo simples. Acabava de fechar a janela, isolando o apartamento do constante burburinho que vinha da fonte repleta de turistas dia e noite, quando uma batida suave a alertou que Sil estava do outro lado. Com um suspiro cansado abriu a porta e viu sua própria angústia refletida no rosto da amiga de tantos anos. Sil entrou devagar, respirando fundo antes de iniciar seu ataque. Não poderia deixar as emoções a dominarem. Precisava resolver aquele impasse de qualquer jeito, antes que fosse tarde demais. Havia descoberto coisas assustadoras sobre a missão que Claudia dera para as meninas e precisava de respostas._ Nós nunca estivemos em missão na Argélia. Por que não estamos lá com as meninas?_ perguntou, finalmente. Os olhos claros de Claudia brilharam perigosos quando ela respondeu. _ Você andou investigando pelas minhas costas? Sil não desviou o olhar _ Você mentiu para mim. Você me disse que era só um teste para as meninas, que não haveriam riscos e eu descubro que elas estão em um campo de guerrilheiros no meio da Argélia, com a missão de eliminar um homem que pode matar as duas com os olhos fechados. Não me venha com essa história de sentimentos feridos, você mentiu! Por um segundo, pareceu a Sil ter visto um vestígio de emoção nos olhos verdes da amiga, mas logo eles estavam novamente frios e ameaçadores. _ Está contestando minha autoridade neste grupo? _ Não estou contestando você como líder Claudia, sabe disso. Eu quero saber o que aconteceu, quem é essa pessoa de quem você recebeu ligações? Por que usou meu celular para ligar para a Embaixada da Argélia? O que está acontecendo? _ Eu não quero falar sobre isso. _ Mas precisa! Você tem consciência de que talvez tenha mandado aquelas duas garotas para a morte? São duas pessoas que fazem parte da nossa vida e espera que eu e a Ale simplesmente aceitemos a situação, sem discutir? Não somos assim, você nunca foi assim. Se tivermos que morrer, morreremos juntas! Não foi sempre assim? Você não tinha o direito de fazer isso... Claudia não respondeu, virou-se de costas para a amiga e fixou o olhar no horizonte além da janela. _ Alguém a está obrigando a agir assim não está? O que é Claudia? Chantagem? Quem a está chantageando? Me conta amiga, você sabe que pode confiar em mim, em todas nós. _ Sil, por favor, saia, eu quero ficar sozinha. _ Não vou sair assim. Eu preciso saber o que está acontecendo. Você precisa me contar. _ Não, não preciso. E não vou contar. É um assunto meu, diz respeito apenas a mim. Foi uma decisão de comando e se você pretende contestar minhas ordens ou minha liderança fique à vontade, podemos decidir isso agora mesmo se desejar. _ Eu não quero sua posição no grupo Claudia...quero que seja honesta comigo, como sempre foi, apenas isso. _ Sil, eu não vou pedir de novo, saia agora. Ela percebeu que Claudia não falaria. Com um suspiro cansado e um brilho triste no olhar, Sil acenou com a cabeça enquanto se dirigia para a porta. _ Tudo bem Claudia, será como você quiser. Mas não espere que eu fique do seu lado. Não desta vez, não quando as vidas das meninas estão em jogo. Se alguma coisa acontecer a elas por culpa do seu orgulho idiota, eu não vou perdoar você. Saiu pela porta sem olhar para trás, enquanto Claudia mantinha seus olhos verdes fixos em algum lugar além da imagem emoldurada pela vidraça da janela. Apesar da emoção e da vontade de abrir o jogo e pedir ajuda a amiga, sua mente estava trabalhando de maneira rápida e lúcida. Tinha muito o que fazer nas próximas horas e não podia distrair-se. A aposta já fora feita e o preço a pagar era muito grande. Não havia tempo para hesitação. Não havia tempo para lamentar...apenas para agir! HOTEL BERGER – ARGÉLIA 20/11 Seus olhos se cruzaram assim que ela entrou no saguão do pequeno hotel, mas nenhuma das duas deu qualquer sinal que indicasse se conhecerem. Ale passou pela mulher sentada na poltrona velha e gasta e seguiu para o elevador. Quando as portas se abriram, Sil entrou atrás dela em silêncio. Nenhuma palavra foi trocada entre as duas mulheres até a porta do quarto ser trancada. _ Devo supor que verificou minhas anotações. A outra apenas acenou concordando. _ E então? Descobriu alguma coisa? Espero não ter tomado muito do seu tempo... Sil acenou novamente. _ Sil, o que aconteceu? Você nunca fica sem palavras._ de novo, o maldito sarcasmo no ar. Ela demorou alguns segundos para responder e quando o fez, Ale notou que os olhos escuros estavam cheios de lágrimas. _ Ela mentiu para mim. Verifiquei todos os funcionários da Embaixada mas nenhum nome me despertou a menor lembrança. Se é alguém do passado dela, está usando nome falso. Ale, eu não sei o que fazer, está acontecendo alguma coisa com a Claudia e ela não quer me contar. Ela sempre confiou em mim, por que isso agora? _ Nenhuma explicação, nada? Ale viu a outra negar com a cabeça baixa. _ Ela não quis conversar, estava firme em tratar tudo como uma decisão de comando e sem envolvimento pessoal. Eu desisti de perder mais tempo com ela nestas condições. Precisamos tirar as meninas do campo primeiro. _ Então, devo concluir que você está comigo. Sil olhou a amiga nos olhos e Ale viu a tão conhecida determinação que a movia em sua missões. _ Claro que estou com você. Vamos tirar as meninas daquele lugar antes que algo aconteça com elas. Depois, vamos resolver as coisas com a Claudia. Tenho certeza de que algo a ameaça e vou descobrir o que é, por bem ou por mal. ARGÉLIA PROVÍNCIA DE ABDU ZIDU 20/11 Kes enxugou o suor da testa enquanto se posicionava, atenta ao menor movimento de seu adversário. Em meio à fumaça dos cigarros e os gritos dos homens bêbados que a rodeavam e ao gigante que ela enfrentava, já não conseguia distinguir a figura pequena de Clá, mas não podia se distrair. 'Eu e minha grande boca!' Pensou, enquanto se lembrava de que apenas minutos atrás, estava sentada ao lado daquele homem enorme, tentando convencê-lo, de forma amigável e inteligente, a engajar as duas na milícia que partiria aquela madrugada para o acampamento guerrilheiro, onde estava o alvo de sua missão. Chegar a Roger Gallet não havia sido nada fácil, mas finalmente conseguiram localizá-lo, através de um amigo no Cairo que conhecia pessoalmente o temido recrutador da organização revolucionária de Bresson. Mas, como era de se esperar, Gallet não queria duas mocinhas no grupo. O conceito daquele troglodita sobre mulheres não era o que se poderia chamar de moderno. De um determinado ponto da conversa em diante, tudo acontecera de forma muito rápida. Kes havia ficado furiosa quando ele insinuara que elas deveriam voltar para casa e cuidar de suas bonecas. Havia desafiado o gigante, que se recusara a lutar com ela até que a discussão atraiu a atenção dos companheiros de Gallet, quase todos bêbados. Os homens haviam começado a gritar e ele se vira obrigado a aceitar o desafio da garota. _ Certo mocinha, se me vencer eu levo vocês duas comigo. Mas, se perder... você vai ter desejado nunca ter vindo para a Argélia. Kes engolira em seco ao imaginar o que ele teria em mente, mas havia afastado o pensamento ruim e agora concentrava-se em seu oponente. Depois de cinco minutos enfrentando o gigante, Kes começava a pensar se teria sido uma boa idéia provocar um homem tão grande e tão forte. Respirou fundo, tentando encontrar um pouco de ar naquele ambiente sufocante sem tirar os olhos do grandalhão. Sem aviso, Gallet partiu mais uma vez para cima dela, que desviou a tempo do golpe mas não conseguiu impedir que a outra mão do homem a prendesse pelo pescoço, apertando com força. Kes se debateu em pânico por um segundo, mas então a lembrança da voz suave de Sil invadiu sua mente: _ " Os maiores são, geralmente, os menos preparados para uma luta. Só sabem usar a força bruta, nunca a cabeça. Não tente competir em força com um tipo assim. Enfrente-o com sua esperteza"_ Com as palavras da amiga em mente, Kes amoleceu o corpo dando a impressão de estar perdendo a consciência. Seu oponente relaxou o aperto com um sorriso triunfante nos lábios mas, no segundo seguinte viu a jovem se libertar de suas mãos e sentiu uma dor aguda na boca do estômago, que o fez curvar-se. No mesmo instante, o punho da mulher atingiu seu queixo, derrubando-o definitivamente no chão com um estrondo. No instante seguinte, a bota de Kes estava pressionando a garganta de Gallet, fazendo com que o bar mergulhasse em um silêncio mortal. Um dos homens, o segundo em comando de Gallet, pegou uma arma, mas na mesma hora o cano frio de uma sig sauer foi pressionado contra sua nuca, obrigando-o a abandoná-la no balcão. _ Muito bem cavalheiros, a brincadeira acabou._ A voz de Clá soou cortante no ambiente, dando o espetáculo por encerrado. Kes não se moveu, até que Gallet, resignado, garantiu com voz rouca que ambas estavam no grupo. O homem se levantou encarando as duas jovens com uma expressão de puro ódio, mas estendeu a mão para Kes, selando o acordo. As duas mulheres encaminharam-se para a saída do bar sem ver a arma que era apontada para suas costas. A mão de Gallet impediu seu segundo em comando de puxar o gatilho. O homem olhou para seu comandante interrogativamente. _ Eu dei a minha palavra. Além disso, as garotas são boas, podem ser úteis. Dando a discussão por encerrada, Gallet bateu com força no balcão, pedindo mais uma cerveja. HOTEL BERGER 22/11 O silêncio no quarto do hotel só era quebrado pelo ruído das folhas de papel sendo manuseadas. Latas de Coca-cola e caixinhas de suco de laranja se misturavam aos mapas e papéis rabiscados. Nomes de informantes, telefones e e-mails dos contatos do Azul Celeste enchiam as folhas cobertas de anotações e endereços. Os dois dias sem dormir ou comer direito já estavam cobrando seus efeitos nas duas mulheres, mas ambas sabiam que não podiam se dar ao luxo de descansar enquanto não localizassem o paradeiro das amigas. _ Achei! Tem de ser isso!_ a foto tirada pelo satélite da defesa americana não mostrava mais que uma clareira e alguns pontinhos, numa região muito próxima a capital argelina. _ Graças a Deus, me mostra logo! _ Calma Sil, tá bem aqui. Vê essa mancha mais clara? É um desmatamento recente, que não aparece nas fotos da mesma área, datadas de um mês atrás. O desenho do perímetro é típico de uma fortificação militar. Esses pontos aqui, me parecem torres de observação ou algo assim. Acho que ninguém se aproxima de lá sem ser notado. _ Nós não somos "ninguém", Ale. Vamos buscar as meninas e dar um fim naquele bando de fanáticos malucos. Enquanto falava, Sil copiava rapidamente as coordenadas da localização do acampamento. Ale pegou o telefone e marcou um encontro com o contato delas na Argélia, conseguido através de um amigo comum. Com o rapaz, conseguiriam o equipamento e as armas necessárias. ARGÉLIA VALE DE GHARK 22/11 " O calor era algo que já beirava o limite do que considerava suportável. Parou por um instante e encarou o sol, que dominava o céu como um ser onipresente e impiedoso. No horizonte, nem uma única nuvem para oferecer esperanças..."_ Enquanto caminhava, descrevia sua própria visão do infortúnio de maneira dramática, tentando distrair-se de alguma forma, afinal _ Qualquer dia escrevo um romance... _ Kes, será que esses caras nunca ouviram falar de carros? Estamos andando há dois dias! _ É triste..._ foi tudo o que Kes conseguiu responder. _ Nossa! Não está nem reclamando mais? Agora você está me preocupando... _ "Tô" morrendo... _ "Kessita La Rosa" em cena! Cara, você também adora um drama! _ Pô...será que esse acampamento ainda tá muito longe? Ai que fome... _ Eita..."tá maus" mesmo... agüenta ai, que eu vou sondar umas informações. Afastando-se um pouco de Kes, a mulher mais baixa desapareceu no meio dos muitos guerrilheiros fardados que caminhavam num grande bloco, não muito ordenado. Algum tempo depois, apertando o passo, ela alcançou novamente a amiga. _ Boas notícias! Estamos quase lá. _ Quem disse isso para você? _ O Nick. _ Nick? Quem é esse cara? _ O cara mais bonitinho desse bando enorme aí de trás. Cheguei lá, joguei uma conversa e o garotão me deu uma aula sobre o deserto, a distância e a localização do acampamento principal e, obviamente, uma cantada... _ Ui...agora quero ver você se livrar dele... _ Me livrar dele? Tá doida???? Hehehe... Calma, Kes. Brincadeira...Não esquenta, eu não vou me meter em encrencas. Na boa! _ Sei...Quer dizer que estamos quase lá? Mais meia hora, certo? _ Não. Mais dois dias. _ ... ARGÉLIA 24/11 Atrás de um último e aparentemente interminável morro, finalmente avistaram o acampamento. Uma imensidão de pequenas barracas espalhava-se por onde se olhasse. A operação era muito maior do que imaginavam...Três torres de vigilância sobressaíam- se entre as barracas, num arranjo geométrico interessante. Na parte oeste do acampamento, uma área cercada abrigava quatro barracões, dois deles fortemente vigiados. O grupo foi integrado ao resto da milícia rapidamente, recebendo a designação de barracas e permissão para descansar da jornada exaustiva. Depois, reuniriam-se para ouvir o líder. Talvez fosse a oportunidade que buscavam para eliminá-lo. O único problema, seria sair com vida dali, depois de atacar o 'guru' de tanta gente. _E agora, "Srta. Profissional"? Como é que vamos resolver a parada? _Bom, eu sugiro que você vá até o alvo e o convide para jantar. Aí, envenenamos o espaguete, ou usamos almôndegas explosivas . Num primeiro instante, Kes permaneceu em silêncio, séria, apenas observando a companheira e a si mesma. Jogadas no chão da barraca, o estado de ambas era, no mínimo, lastimável. Estavam ali no meio do nada, sozinhas com centenas de homens armados, absolutamente fanáticos, com a simples pretensão de assassinar o líder do movimento! _ que merda, Clá!_ em seguida, simplesmente começou a rir, sem conseguir parar. O riso contagiou a outra, que permanecera em expectativa depois da piada infame, aguardando sua reação. Depois do ataque de riso, que durou alguns bons minutos, perceberam que precisavam dormir e recuperar a capacidade de raciocínio antes de mais nada. Qualquer esforço naquele momento seria inútil e possivelmente desastroso. Descansariam primeiro. Depois, traçariam um plano. PARIS 24/11 A mulher loura observava o movimento da rua, aparentemente distraída, mas falou antes mesmo que ele desse sinais de sua presença. _ Está atrasado. _ Você é que está adiantada. Onde está o relatório? Ela estendeu a mão enluvada e entregou os papéis que rapidamente desapareceram dentro do pesado casaco de frio. O homem virou-se para ir embora, mas a mão dela o impediu. _ Estou com saudades de você.. _ Engraçado como só sente saudades de mim quando posso ser útil. Não sentiu minha falta enquanto eu apodrecia naquela prisão maldita? _ Ele não pôde evitar a ironia em sua voz _ Alex, você sabe que eu não tive escolha. Mas agora não precisamos mais nos preocupar. O projeto vai recomeçar. Em poucos dias, tudo voltará a ser como antes, com uma única diferença: nós dois estaremos à frente do projeto. _ Você consegue ser mais louca que ele. Só falta começar a fumar aqueles Morleys fedorentos. _ Esqueça os mortos. Nós estamos vivos e vamos ter o que é nosso. Assim que provarmos aos colonizadores que temos algo que interessa a eles, que temos como dar a eles aquilo pelo que esperam há tantos anos. Alex olhou para ela com desejo nos olhos. E não pôde deixar de pensar que talvez, naquele instante, fossem os dois seres humanos de menor caráter sobre a Terra. ACAMPAMENTO GUERRILHEIRO 26/11 – 7:17 p.m. Três minutos depois que o aviso do jantar soara, as duas mulheres esgueiravam-se entre as barracas vazias em direção ao barracão mais afastado, onde os guardas permaneciam em vigília mas naquele momento, sentados em caixotes diante da porta da frente e comendo enquanto contavam piadas em francês. Sem perder tempo, elas rodearam os homens e entraram por uma pequena porta nos fundos. O cadeado não foi problema para Kes, acostumada a fechaduras bem mais complicadas. _ Aberto. Vai na frente, eu dou cobertura._ Enquanto Clá entrava no maldito galpão, do qual tentavam aproximar-se há dois dias, Kes tentava certificar-se de que ninguém as estivesse vendo, antes de seguir o mesmo trajeto da outra. Dos quatro barracões que haviam no local, dois deles eram inacessíveis aos guerrilheiros, mas não às duas integrantes do Azul Celeste, pelo menos não por muito tempo. Kes havia conseguido acesso a um deles e descobrira o que parecia ser um ser um centro de operações táticas, equipado com equipamentos de rastreamento aéreo e dois computadores. Não houvera tempo para uma investigação mais acurada, mas tinha sido suficiente por enquanto. O outro barracão, ao qual chegavam finalmente, sempre fora o mais vigiado, e elas sabiam que seria o fim se alguém as descobrisse lá. Dentro do lugar, mesmo com a pouca luz que conseguia passar pelas frestas das paredes de madeira, puderam ver que havia uma grande quantidade de caixotes empilhados. Em silêncio, começaram a caminhar entre eles. Procurando por armas especiais ou algo que justificasse tanta segurança, Clá conseguiu forçar um pouco uma das tábuas de um caixote. No mesmo momento em que ela fez isso, uma abelha aparentemente muito zangada saiu de dentro dele, sendo rapidamente esmagada por Kes. _ Eita, que violência! _ Odeio abelhas... _ É? Melhor sair daqui então, porque parece que ela não está sozinha... Sinta a vibração nesses caixotes..._dizendo isso, posicionou as mãos de encontro à superfície áspera de outro caixote, que vibrava como se seu conteúdo pudesse perceber suas presenças ali e se agitasse mais com isso. _ Estranho...o que esses caras estariam fazendo com abelhas no meio da selva? Vai me dizer agora que erramos e nos engajamos num grupo de apicultores fanáticos? _ Cara...acho que é algo bem mais sinistro... De repente, me veio uma lembrança de algo que li sobre a segunda guerra mundial...Já ouviu falar das bombas de peste bubônica que o Japão testou sobre a China invadida? _ Aquelas cheias de pulgas contaminadas? Aquilo foi horrível! Hei, você não acha que essas abelhas...Meu Deus!!!!_ Kes limpou as mãos nas roupas, como que por reflexo, desejando nunca ter tocado naquela abelha. _ Não sei exatamente que tipo de arma biológica pode estar envolvida aqui, mas pode significar que a vida de milhares de pessoas está em risco. Eles não jogariam tão pesado se não fosse algo realmente grande. Isso não é um golpe pelo poder... é um massacre programado! _ Então vamos pôr fim a esta porcaria toda, agora! Eu vi explosivos suficientes no outro barracão para tirar isso aqui do mapa definitivamente. _ Vamos transformar isso aqui numa celebração antecipada do ano novo. Mas não agora. Conseguiremos os explosivos e amanhã, momentos antes de levantar acampamento rumo a Argel, para encontrarmos Bresson , mandamos tudo pelos ares. Não podemos falhar Kes. Não são mais só as nossas vidas que estão em jogo. ACAMPAMENTO GUERRILHEIRO 27/11 – 1:55 a.m. O lugar parecia deserto e sossegado . Apenas daqui e dali podiam-se ouvir algumas conversas esparsas, que vinham de algumas barracas onde nem todos dormiam. _ Kes... _ Hã... _ Está dormindo? _ Estou. _ Então tá. _ Fala logo, pô!! Não está vendo que já me acordou? _ Não estou vendo nada, está muito escuro aqui...hehe. É que eu estava pensando ...Esses caras acreditam mesmo nisso? _ Se não acreditam, enganam bem. _ Não é estranho o que as pessoas fazem para defender aquilo em que acreditam? Kes, esses caras falam de liberdade e paz, mas para isso estão dispostos a cometerem um verdadeiro genocídio ! _ É...e nós acreditamos que eles estão errados e por isso vamos acabar com eles. É um ciclo. É humano, afinal. Eu suponho. Sei lá. _ Por que é que o ser humano insiste em impor padrões, separações? Tudo é motivo : religião, raça, idéias, medos... As mesmas coisas que unem pessoas, fazem com que essas pessoas unidas se disponham a matar e morrer para provar que seu grupo está certo e livrar o mundo da opinião errada, não importando a dor, a vergonha ou sofrimento que vão causar.E será que nós não estamos fazendo a mesma coisa ? Um mal, para evitar um mal que julgamos maior? O silêncio voltou a dominar a escuridão mais uma vez... Agora mais carregado de sentido e dúvidas. _ Clá?? Dormiu? _ Não. Estou pensando. _ Vixe! Não força muito que pode fazer mal, hehehe. _ Estava pensando na nossa casa. _ Saudades das paredes, " Srta. Independente"? _ Engraçadinha. É que...é esquisito estar numa missão sem as três. Estou sentindo falta até do mal humor da Claudia. _ Eu também. Eu agora queria estar em casa, ouvindo um bom cd, estou com saudades do Ivan. _ Bom, se você se sentir melhor, eu posso cantar! _ Não! Por favor não faça isso! _ Ah! Só uma musiquinha, vai! Lembra daquela que a gente ouviu lá naquele país que não tinha tango? Aquela do "Bom xi bom"... _ Clá, você vai dormir fora da barraca já, já!!!! De repente, foram surpreendidas por dois vultos, que invadiram a barraca e as impediram de atirar por uma fração de segundo. _ Calma, calma!!! Somos nós! Quer me matar ? Baixa já essa arma!_ Ale estava assustada com a visão de suas companheiras armadas. _ Sil, Ale! O que vocês estão fazendo aqui? Achei que não devíamos nos comunicar...Que diabos! Quase atirei em vocês! _ Eu vi... Agora chega de conversa, vamos sair daqui, rápido! _ Calma aí! Nós ainda não terminamos a missão! Esse doido vai atacar a capital amanhã, nós temos de impedi-lo! _ Kes tentava explicar em vão o destino traçado por elas para a missão, enquanto Ale e Sil, sem parecer ouvir, as faziam sair da barraca às pressas! _ Hei, hei...que droga é essa! Primeiro mandam a gente vir, sem explicar nada, depois mandam parar do mesmo jeito? Vocês enlouqueceram? Caraca, olha aí, o que vocês estão pensando que nós somos? _ Juro que vou atirar em você, Clá, se não parar de falar e se mexer mais rápido que um raio para fora daqui! Que porcaria! Com quem essas duas aprenderam a ser tão teimosas? _ Como se você não soubesse, não é Ale?! Meninas, vamos sair daqui. No caminho explicamos tudo para vocês. As duas recolheram suas mochilas, onde estavam armas e pertences pessoais e saíram seguindo as companheiras, rumo à mata densa que cercava o acampamento. Caminharam apressadas por dentre galhos caídos e cipós, no terreno macio e lamacento da floresta tropical por mais de uma hora, antes de, finalmente, fazerem a primeira parada para descansar. _ Agora chega! Eu não dou nem mais um passo sem uma explicação para estarmos abandonando a missão. Aquele cara é um pirado e eu não vou embora deixando a vida de um monte de inocentes nas mãos dele!_ Kes estava irredutível. _ É isso mesmo. Ou vocês se explicam, ou eu vou voltar para lá agora e terminar o que planejamos! _ Não existe missão, garota! Nunca existiu! _ Ale finalmente disse o que estava engasgado há tanto tempo._ Vocês foram mandadas para uma droga de missão suicida! A Claudia nunca pretendeu que vocês concluíssem o trabalho, ela foi contratada para falhar! O atentado contra o líder guerrilheiro foi contratado por um comparsa dele, ligado ao próprio governo da Argélia. Enquanto o presidente se sentia seguro com o fim iminente do líder da guerrilha, o traidor planejava tomar o poder . Vocês não foram enviadas para ter sucesso. Sinto muito, a Claudia nos traiu. _ Não, você não pode estar falando sério...ela não...ela não faria isso, Sil! _ Eu estou tão confusa e chocada quanto vocês meninas, mas infelizmente, Ale está certa. Ao que tudo indica, ela aceitou essa missão com a obrigação de falhar e por isso mandou vocês sozinhas. Não sei o que dizer. _ Eu sei! E sei como. Ela não perde por esperar! _ E onde ela está agora? Como vocês descobriram tudo? _ Como nós descobrimos é uma longa história, coisa que pede um café e um lugar seguro e seco. O paradeiro da Claudia é desconhecido. Depois que a Sil a confrontou em Roma, ela desapareceu e não tivemos mais notícias. _ Pois podem parar de me procurar! _ Claudia, de arma em punho, fitava as quatro mulheres que, com caras de espanto, imediatamente sacaram suas armas e a colocaram na mira. _ Cara, isso aqui tá parecendo um piquenique! Vai chegar mais alguém ou acabaram as surpresas da noite?_ Clá nunca resistiria a uma piada, por mais tenso que o momento se apresentasse... _ Calma, meninas, vamos esclarecer isso tudo... _ Esclarecer? Você não acha que é um pouco tarde para isso? Você as mandou para uma missão suicida, você tentou matá-las! E agora chega aqui querendo esclarecer as coisas?_ O leve tremor da arma na mão de Ale era um reflexo da ansiedade e do nervosismo acumulados durante dias de tensão. _ Ale, você está certa, mas precisamos conversar... Abaixa esta arma. Claudia, por favor..._ Sil tentava manter a calma e estava assustada com a reação de Ale. _ Eu concordo, baixa isso antes que você me mate e passe o resto da vida se arrependendo, Ale._ dizendo isso, Claudia colocou sua arma no chão e a chutou para perto de Sil, que a recolheu imediatamente. Depois de hesitar ainda por alguns instantes, Ale baixou a arma, mas não livrou-se dela como a outra fizera_ Muito bem, "chefe". Vai falar logo ou vai nos enrolar e enganar por muito tempo ainda? _ Ale, calma, deixa ela falar. Claudia manteve o tom moderado e sério. Sabia que precisava esclarecer tudo e recuperar sua equipe naquele momento, ou as coisas nunca voltariam ao normal. _ Em primeiro lugar, eu jamais deixaria que algo acontecesse a vocês duas. _ Então porque nos mandou para cá se sabia que iríamos falhar? _ Chantagem._ A voz de Sil estava carregada de rancor. _Você foi chantageada. Claudia assentiu, diante do olhar magoado de Sil. _ Meu Deus Claudia! Eu implorei para que você me contasse o que estava acontecendo! Eu te dei todas as chances do mundo de me deixar ajudar. Você não confiou em mim... _ Não confiou em nenhuma de nós, preferiu mandar as meninas para esta missão suicida e tentar salvá-las sozinha. _ Eu tomei uma decisão. A que julguei mais adequada. Precisava fazer com que aqueles sujos acreditassem que eu faria o jogo deles, enquanto ganhava tempo para descobrir quem eram e acabar com essa história toda. Vocês só tinham de seguir minhas ordens, em vez de questioná-las e transformar tudo isso num problema maior ainda. _ Seguir ordens? Você achou que podia resolver tudo sozinha e decidiu que não precisava de nós e eu tenho de seguir ordens? _ Ale, calma, não vamos chegar a lugar nenhum se começarmos a brigar. Ale respirou fundo e não respondeu. _ Não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Eu só queria proteger vocês, só isso. _ Nos mandando para este fim de mundo, cheio de abelhas contaminadas e lunáticos? Belo jeito de se preocupar com a gente, muito obrigada! _ Clá, deixa ela falar... _ Abelhas contaminadas? Do que é que vocês estão falando? Esse atentado não deveria envolver nenhum tipo de arma biológica. Deveria ser apenas um golpe político, com o mínimo comprometimento de civis. Enquanto o presidente Jean Luc considerava-se seguro por ter nos contratado para eliminar o líder guerrilheiro que ameaçava seu governo, um cúmplice da guerrilha dentro do próprio governo afastaria o presidente e assumiria o poder, com o respaldo das tropas guerrilheiras, sem que fosse necessário nenhum conflito. Eu nunca correria o risco se soubesse... _ Que beleza! Além de ser chantageada, a nossa grande líder também foi enganada. O que mais falta nos acontecer? Vejamos, tem que ser algo ainda mais insano do que esses últimos dias, que tal uma invasão alienígena? _ Chega, Ale. Você não sabe nunca a hora de parar? _ Sil estava disposta a trazer suas companheiras de volta a razão e para isso, não hesitaria em usar de autoridade._ As coisas já estão claras e devem ser encerradas por aqui. A Claudia tomou uma decisão de comando. Foi uma decisão equivocada porque se baseou em hipóteses e não em fatos. Fatos como o nosso apoio, com o qual nunca deveria deixar de contar. Agora é tarde para retroceder. O Azul Celeste nunca falhou e não vai falhar dessa vez. Temos de impedir que essas abelhas ou seja lá o que cheguem à capital. Depois, damos cabo desses chantagistas, sejam eles quem forem. E, pelo que sei de você, Claudia, acho que já sei de quem estamos falando: Alex Krycek._ as duas trocaram olhares de cumplicidade, o que só deu a Sil a certeza que precisava para agir._ Estamos juntas? Uma seqüência de olhares contrariados se seguiu. Ninguém ali gostava de dar o braço a torcer, mas Sil estava certa. O tempo corria contra a população de Argel e elas não podiam ficar ali sendo teimosas por muito tempo. _ Vamos agir. Depois conversamos com calma, ok? _ Ale deu o sinal de trégua que Sil esperava. _ É, acho que está quase tudo claro, só me diz uma coisa Claudia: quer dizer que mandar nós duas sozinhas para uma missão é ter certeza de que não dará certo?_ Kes não escondia sua decepção pela constatação. _ Não, não é. Tive de convencê-los de que seria, mas eu nunca acreditei nisso. Sei que vocês impediriam o avanço das tropas guerrilheiras, mesmo que para isso perdessem suas vidas. Foi isso que eu vim impedir. Mas nunca tive dúvidas de que vocês conseguiriam, nunca_ A sinceridade da líder trouxe de volta alguns sorrisos ao grupo. Sem que nada precisasse ser dito, mapas e esquemas foram abertos. Todas as informações que tinham até ali foram reunidas. O Azul Celeste estava de volta...e tinha muito a fazer. PARIS 27/11 8:00 a.m. A mulher loura falava ao telefone sorrindo levemente. De onde estava, ele não podia entender todas as palavras, mas sabia que ela conversava com o principal assessor do presidente argelino e ironicamente, também seu principal inimigo. O infeliz achava que estava seguro, mal sabia ele que Argel estaria um caos no dia seguinte. Não que Alex se importasse com o que aconteceria à população, ele apenas se arrependia de ter dado armas à Marita para agir contra o Azul Celeste. Uma palavra mal colocada e revelara mais do que deveria a respeito do passado de Claudia. Era exatamente o que Marita estava precisando para disparar o gatilho de seu plano para reativar o projeto e colocar a ambos no comando. Ele sabia que, assim que não fosse mais necessário, seria eliminado e que não deveria ter envolvido o Azul Celeste nisso tudo. Elas eram espertas e descobririam sobre a colonização. Marita desligou o telefone e deixou a sala pela porta principal. Alex esgueirou-se silenciosamente até a mesa e não encontrou dificuldades em retirar os originais dos documentos que entregara a Marita. Os papéis não podiam ser copiados nem escaneados, um cuidado que a extinta KGB tinha e pelo qual ele agradecia neste momento. Com os documentos cuidadosamente guardados, abandonou a sala e preparou-se para deixar Paris. Marita ficaria furiosa e ele adorava saber que seria o motivo desta fúria. Alex sempre soube que a vingança era um prato para ser saboreado frio. ARREDORES DO ACAMPAMENTO GUERRILHEIRO TARDE DO DIA 27 _ Vocês têm certeza do que estão falando? _ Temos. Kes conseguiu dar uma olhada nos arquivos daqueles computadores e há informações muito interessantes lá. _ Então precisamos de uma cópia de tudo. Você faz isso Kes, enquanto a Clá prepara os detonadores. Vamos mandar aquelas abelhas para o inferno ainda esta noite. Ale, você dá cobertura. Enquanto vocês três cuidam disso, nós vamos cuidar de deixar o caminho livre para nossa fuga daqui. _ Ale, lembre-se : não se atrasem, não poderemos esperar. O presidente vai ser assassinado por aquele lunático. Se não aparecerem no horário marcado , teremos de partir sem vocês. _ Fica fria Claudia, estaremos lá. _ Estou gelada. Depois de tudo o que passamos, eu seria capaz de matar aquele cara com as mãos nuas. Na verdade, eu seria capaz de matar uma dúzia de pessoas com as mão nuas. Sil colocou a mão no ombro da amiga._ Relaxa Claudia, somos uma equipe novamente, deixa metade do trabalho com a gente, você pode dar conta dos outros cinqüenta por cento. Todas sorriram, mas estavam tensas. Não seria fácil mandar aquele lugar pelos ares em tão pouco tempo. Acertaram seus relógios e os detalhes finais da ação. _ Gente, chega de conversa, temos trabalho a fazer_ Claudia encerrou a conversa e separaram-se, seguindo cada uma para seu objetivo. ALGUM TEMPO DEPOIS... _ Posicionou todos os detonadores? _ Quase todos. Só falta o "especial"... _ Que especial? _ O que vai transformar isso aqui numa festa de fim de ano e garantir uma fuga perfeita para nós. _ Você tem dez minutos. Se não sairmos daqui nesse prazo, perdemos nossa carona. A Sil e a Claudia vão esperar exatamente até as 11:00 por nós na estrada leste. Depois disso elas vão continuar o plano e teremos de usar o plano B. _ Que plano B? _ Depois te explico. Vai logo! _ Ok. Contando..._ dizendo isso, saiu rapidamente em direção a torre que sustentava o reservatório de água do campo. Alcançou o topo da estrutura sem maiores dificuldades. _ Um "Bum" e tanto, sim senhora. Vamos lá, é só ligar esse fiozinho aqui, fixar o timer...ops...droga!!_ O timer lhe escorregou das mãos, indo cair entre as vigas de madeira, um patamar abaixo. Esgueirando-se entre o emaranhado de madeira e esticando ao máximo o corpo, tentou sem sucesso alcançar com a ponta dos dedos a peça perdida. O tempo diminuía rapidamente e o suor denunciava que sua calma inabalável estava por um fio. _ Droga! Que m***a!! Preciso de algo para alcançar você seu timer cretino._ Não tinha nada além de pedaços de fio e fitas fixadoras._ Ótimo. O MacGyver faria um helicóptero com isso. Talvez eu consiga um gancho._ Lá embaixo, Ale andava de um lado para outro, tentando enxergar o que a outra fazia no alto da torre e já imaginando o que fazer se realmente precisasse de um plano B. A aproximação súbita de um dos soldados da guerrilha a fez gelar. Enquanto o soldado caminhava em sua direção, engatilhou a arma na mão direita, escondendo-a atrás de si, enquanto tentava manter a calma, repetindo para si mesma que não havia como o soldado a identificar. Quando a distância entre eles finalmente chegou ao limite crítico, o soldado bateu na aba do próprio boné, em cumprimento e ela retribuiu com um aceno de cabeça. Respirou aliviada. Tinham menos de dois minutos para sair dali. _ Psiu! Clá!!! ' por que diabos ela demora tanto?' Segundos depois a outra surgiu, com um ar traquina que quase sempre significava encrencas. _ Vamos ! Está tudo certo. _ Então, que cara é essa? _ Perdi o timer do detonador, mas dei um jeito... _ Que jeito? Recuperou o timer? _ Não, eu usei um pavio. Corre Ale!!!!!!!!!! Restando então, apenas alguns instantes antes que o acampamento todo começasse a ir pelos ares, correram o mais rápido que puderam em direção à mata, onde Kes já as esperava na trilha que levava à estrada em que deveriam encontrar-se com Sil e Claudia. No lugar combinado para o encontro, nada além de uma estrada vazia. Estavam atrasadas e as outras já haviam partido para a próxima fase do plano. _ Ok, Ale. Qual é o plano B? _ Hã...Roubamos um carro e seguimos para a capital. _ Roubamos um carro? Posso saber qual? Não me parece haver muitos carros estacionados por aqui. Na verdade, não tem nenhum carro estacionado aqui! _ Então pegamos um em movimento. Kes, você fica na estrada e faz cara de inocente. Assim que um carro com esses soldados malucos parar, a gente toma o carro deles. _ Por que eu? Manda a Florzinha! _ Você é mais visível que eu, porque é mais alta...hehehe...pára de reclamar, Kes! Não se preocupe, se acontecer alguma coisa a gente está aqui prontas para correr... quero dizer, para te socorrer, hehe. Um minuto depois, dois soldados devidamente amarrados e amordaçados eram abandonados na entrada da mata, enquanto um jipe partia com as três mulheres rumo à capital. Enquanto o jipe se afastava rapidamente do acampamento, uma grande bola de fogo envolveu tudo ao redor, pondo fim a abelhas, armas e equipamentos. As instalações ardiam em chamas e soldados corriam por todos os lados, preocupados em salvar suas vidas. Seguindo a estrada enlameada, tentariam chegar a Argel a tempo de ajudar as outras a deter Bresson. O terreno difícil e as curvas não permitiam um avanço muito rápido. _ Cara, queria que a Sil estivesse aqui. _ Que foi guria? Sempre andou de carro comigo, agora vai começar a reclamar? _ Não é isso, Ale...é que você... _ Eu o que, pô? _ Nada. Esquece. _ Vou esquecer mesmo._ afinal, a maldita estrada era uma só, ela não tinha como se perder. Não por enquanto. De repente, um zunido e o pára-brisa do jipe se estilhaçou. Ale quase perdeu a direção, mas conseguiu manter o carro na trilha. _ Caraca!! Estão atirando em nós!_ Clá imediatamente abaixou- se, protegendo a cabeça, enquanto preparava-se para revidar._Cadê minha arma?_ sua expressão era de pânico. _ Droga, não trouxemos as armas, estão no carro com a Sil e a Claudia. _ Tem a minha_ Ale jogou rapidamente sua arma para Clá, mas sabia que aquelas poucas balas não ajudariam muito contra seus perseguidores, armados até os dentes e loucos de raiva._ Segurem-se, vou ter de dirigir à maneira da Sil! O jipe fazia zigue-zagues na estreita pista, tentando dificultar a pontaria dos inimigos. Se não podiam atacar, tinham de tentar defender-se, de alguma maneira. Balas passavam zunindo por elas, enquanto Clá tentava atingir um dos pneus do jipe inimigo. Depois de mais alguns quilômetros de perseguição pela pista de terra, entram no trecho urbano de Argel. Alguns veículos antigos e lentos ocupavam a pista de asfalto esburacado. Ale forçou algumas ultrapassagens de maneira bastante perigosa, num esforço para criar espaço entre elas e seus perseguidores. Clá parou de atirar, com medo de atingir algum civil, em meio à confusão das ruas argelinas. Agora, entretanto, tinham um outro problema. Se balas disparadas contra elas as motivavam a seguir em frente, a falta de familiaridade com as ruas de Argel dificultava a tarefa. Tentando não deixar transparecer o pânico causado por não saber o caminho a seguir, Ale mantinha o olhar fixo em frente, checando pelo retrovisor a distância mantida entre elas e os malditos soldados, firmes em sua intenção de alcançá-las. Quietas, Clá e Kes desejavam nunca terem se atrasado para o encontro com Claudia e Sil. Confiavam em Ale, mas ela não era a pessoa mais indicada para dirigir numa fuga, por ruas desconhecidas. Seu problema de senso de direção era famoso e as histórias de situações engraçadas acumulavam-se, criando um verdadeiro trauma em torno do assunto. Entreolharam-se, com ar de cumplicidade. _ Kes, a Ale... não?_ Clá insinuou em tom baixo, constrangido. _ Não..._ balançando a cabeça, com expressão de desalento, Kes confirmou os temores da outra. Era quase certeza que Ale já não tinha mais a menor idéia de onde estava. _ Já não bastam esses caras aí de trás, eu ainda tenho de agüentar vocês duas com essas caras de pavor aqui dentro do carro?! Eu não estou perdida! Parem de me olhar e tentem meter uma bala neste maldito pneu!_ sentia o suor gelar, enquanto tentava garantir às meninas que tudo estava sob controle. Uma bifurcação se aproximava rapidamente e tinha de decidir que caminho seguir. O caminho da direita sumia por um túnel e o da esquerda descia abruptamente, sem permitir que se percebessem muitas coisas sobre suas condições. Tinha de decidir... _ Ale...Ale, você não pode ir pelo meio...Ale! _ Clá via crescer a sua frente o pilar de separação das pistas, enquanto o carro continuava seguindo em linha reta. Para complicar ainda mais, o outro jipe estava perigosamente próximo. Sem perder tempo, Clá disparou seu último tiro, atingindo em cheio o soldado que se preparava para disparar, a uma distancia da qual dificilmente erraria , contra Kes. Neste mesmo instante, Ale levou o carro para a direita e depois voltou bruscamente para a esquerda, arrebentando um pedaço da mureta divisora e descendo em alta velocidade a ladeira íngreme, enquanto o outro carro, que não conseguiu desviar a tempo, batia violentamente contra a entrada do túnel. Uma explosão foi ouvida. Ainda mudas, seguiram por mais alguns metros, antes que Ale finalmente parasse o carro e saísse andando. Parou a uma distância razoável, gritou alguma coisa em russo, que elas não conseguiram entender, mas que parecia ser um impropério qualquer, voltou e entrou novamente no carro. _ Agora vamos achar aquele maldito palácio. ARGEL O palácio presidencial era fortemente guardado, mas muitos dos soldados eram fiéis ao líder da guerrilha, Bresson, que entrou pela porta da frente já ovacionado como herói. Escondidas no meio do povo, Sil e Claudia observavam tudo com cuidado, esperando uma brecha para entrarem. Não foi difícil, pois o povo invadira os jardins do palácio. Entraram junto com a multidão e logo se separaram e foram para a lateral oeste, onde ficavam os aposentos particulares do presidente. Embaixo de uma sacada grande elas se preparavam para escalar a parede branca. _ Onde elas se meteram? _ Agora não importa Claudia, não temos mais tempo. Bresson vai matar o presidente Jean Luc e mesmo que as abelhas não sejam liberadas em Argel, isso vai provocar uma guerra civil que envolverá o país inteiro. Em silêncio, escalaram a parede e entraram no palácio, que já estava tomado pela desordem, com pessoas correndo por todos os lados, assustadas. Não foi difícil encontrar os aposentos luxuosos do presidente. Dois guardas jaziam mortos e as portas escancaradas permitiam antever a cena dantesca em seu interior. A esposa e a filha do governante da nação abraçavam-se aterrorizadas, enquanto o presidente se encontrava ajoelhado com a arma de Bresson encostada em sua nuca. Tudo aconteceu em uma fração de segundo. Sil atirou nos dois soldados que vigiavam as mulheres, enquanto um tiro certeiro na cabeça derrubava Bresson, que caiu sem emitir um som. Por um instante o tempo pareceu parar e ninguém se moveu. Então Sil foi até as mulheres e ajudou-as a se levantar. O presidente já estava de pé e abraçou a esposa e a filha enquanto encarava a líder do Azul Celeste com uma indagação muda em seus olhos. _ Eu sempre cumpro minha palavra senhor presidente. Eu disse que viria e estou aqui. Bresson está morto e a capital em segurança. O Sr. me garantiu que teria soldados do seu lado, mas não é o que vejo. O homem, que há instantes atrás parecia fraco e derrotado, afastou-se da família e caminhou para sua escrivaninha, discando rapidamente um número no telefone. Falou algumas palavras em francês e desligou. As instruções dadas por ele incluíam a prisão imediata de Drumound. _ Agora está tudo sob controle, senhorita. Claudia acenou com a cabeça e dirigiu-se para a porta onde Sil vigiava o movimento. _ Tem mais civis em pânico por aqui do que militares tentando dar um golpe. Se ele tem mesmo tropas aliadas chegando, essa bagunça estará acabada em minutos. _ Vigie a porta até o pessoal dele chegar, eu vou esperar as meninas na praça, assim não corremos o risco delas entrarem atirando. Quando tudo estiver sob controle, me encontre lá fora. Sil concordou e Claudia já estava se afastando quando a voz da outra a impediu de continuar. _ E o que vamos fazer com Alex e aquele maldito relatório? Claudia havia contado à amiga sobre a mulher loura e o óbvio envolvimento de Alex Krycek naquela chantagem. Sem se voltar ela balançou a cabeça _ Não sei. Penso nisso depois. Eu jamais poderia ter deixado as coisas chegarem a este ponto. ARGEL 15 MINUTOS DEPOIS A praça principal estava tomada por soldados. A confusão era enorme e no meio de tanta gente, Sil andava ansiosa de um lado para outro, sem saber se suas companheiras haviam conseguido escapar do acampamento. O palácio estava controlado novamente pelo presidente e Claudia conversava um pouco afastada, com um dos homens de Jean Luc. Um jipe apontou na entrada leste e ela imediatamente reconheceu aquelas três figuras. _ Graças a Deus, vocês estão bem...o que aconteceu? Por que demoraram tanto? As meninas entreolharam-se, mas ninguém disse nada. Ale aceitou a cumplicidade e sorriu. Sabia que elas não resistiriam por muito tempo e que logo acabariam usando o assunto para uma brincadeira, mas não se importava. Afinal, era um fato. _ É uma longa história, Sil, mas está tudo bem. O acampamento foi pelos ares, com abelhas e tudo mais. A cidade está a salvo do ataque biológico pelo menos. _ Do golpe também. Bresson está morto e acredito que Drumound vá enfrentar um julgamento nada amistoso, se conseguirem pegá-lo lá na França. Houve tempo para copiar aqueles arquivos estranhos dos computadores do campo? _ Aqui._ Kes sacou alguns disquetes e os exibiu com ar de vitória. _ Ótimo. Procure um lugar onde possamos fazer algumas cópias desses disquetes. É perigoso demais ficarmos com isso por aqui. Melhor enviarmos para alguém de nossa confiança, até que possamos entender exatamente do que se trata tudo isso. _ Ok, vamos providenciar isso então. E acho que já sei para quem enviar cada cópia_ Ale jogou a informação, esperando que Sil confirmasse os nomes. _ Bom, sugiro que uma cópia seja enviada para o único cara que pode realmente elucidar esse mistério: Mulder. Como segurança, enviamos outra para o Igor, mas, e a terceira? _ Para o Ivan._ Kes respondeu de maneira firme. _ Tem certeza de que vai arriscar a vida dele envolvendo-o em nossos negócios? _ Ele nunca vai saber do que se trata. E ninguém de nosso relacionamento conhece Ivan. _ Como eu imaginava. Afinal, em quem mais confiaríamos senão nos "nossos rapazes"?_ A idéia de citar Mulder dessa maneira era uma provocação para Sil. Ale achava que Sil tinha de resolver esse assunto devidamente um dia, em vez de ficar sempre envolvendo o agente do FBI em suas vidas, sempre que era possível. Em seguida, achou melhor parar com a provocação e fazer o que fora solicitado. Queria voltar para casa o quanto antes. Se algo ainda precisava ser esclarecido, podia ser feito da Itália mesmo. Não ficaria ali nem um minuto além do estritamente necessário para dar por encerrada aquela maldita missão. ROMA – ITÁLIA UMA SEMANA DEPOIS 18:10 p.m. _ A gente podia jantar no Alfredo. _ Lá demora muito, vamos comer no Ciao Bella, aquele garçom lindinho deve estar de serviço hoje. _ Certo, certo, eu aqui preocupada com nosso estômago e você querendo arrumar um encontro. _ Ah, Sil, depois daquela confusão na Argélia, você não acha que eu mereço? _ Ok, você venceu, eu topo, quem sabe ele não tem um amigo? E cadê a Clá? Ainda não terminou aquela partida? _ Aquilo não é uma partida, é uma troca de gentilezas. Reparou como o garotão responde a todas as jogadas dela com jogadas fáceis? Só falta vir para o outro lado da quadra para bater por ela! _ Mas é bom eles decidirem logo esse set, porque eu estou com fome. Volta lá na quadra Ale e vê se consegue interromper o interlúdio. Enquanto falava, Sil enxaguava os cabelos de olhos fechados e, de repente, estranhou o súbito silêncio da amiga. Passou as mãos no rosto tirando o excesso de água e abriu os olhos se deparando com a última pessoa no mundo que esperaria ver. Permaneceu imóvel, as mãos na nuca, a água escorrendo por suas costas enquanto Ale segurava a toalha de encontro ao corpo sem tirar os olhos do cano da arma apontado para sua cabeça. _ Confesso que sempre tive curiosidade em entrar em um vestiário feminino. Se soubesse que era tão interessante, teria feito isso antes. _ E eu sempre achei que eles desratizassem esse clube de vez em quando. Rato chantagista miserável! _ Ale parecia não entender muito bem que havia uma arma próxima demais dela. _ O que você quer Alex? Krycek deu um meio sorriso enquanto seus olhos percorriam o corpo da mulher nua. Apesar disso, Sil não parecia constrangida. Estava mesmo era furiosa com a audácia daquele bastardo. _ Você não tem medo de morrer, não é mesmo, seu filho da mãe? _ Eu não acho que você esteja em condições de falar assim comigo Sil... _ Eu não tenho medo de você Alex, não tenho medo de covardes. _ enquanto falava, Sil observava atentamente a porta de entrada do vestiário e desejava que a partida de Clá demorasse um pouco mais. Se ela chegasse agora, as coisas poderiam se complicar. Ele apenas sorriu e fez sinal para Ale se afastar do armário de roupas que estava aberto. Aproximando-se, Krycek colocou a mão entre as roupas femininas e encontrando uma arma, colocou-a na cintura, sendo brindado com um olhar furioso da mulher que segurava a toalha como se fosse um escudo. Ale mal conseguia segurar a vontade de xingar o Rato de todos os nomes que conhecia em quatro línguas diferentes. Ele quase matara Clá no Canadá e agora quase destruíra o Azul Celeste. Krycek ordenou que Ale se vestisse e, apesar dos protestos veementes, ela foi obrigada a se trocar diante dos olhos verdes que não perderam nenhum detalhe, deixando-a totalmente desconcertada e ainda mais furiosa. Sil havia desligado o chuveiro e se enrolado na toalha. _ Alex, estou congelando. _ Precisamos conversar. _ Aqui? Desse jeito? _ Era o único modo de fazer isso longe da Claudia. _ Ah, claro. E você achou que eu lhe daria uma chance depois do que você fez? Aquela cadela loura quase acabou com nossa amizade e com as vidas da Clá e da Kes por causa de informações que você passou para ela. O que você acha que eu penso disso? _ Eu posso explicar o que aconteceu. _ Mas eu não quero saber os detalhes sórdidos do seu caso com aquela baranga, Alex, suma das nossas vidas e esqueça que nos conhecemos. _ Não posso esquecer. Vocês andam se metendo nos meus negócios e isto é muito inconveniente. _ Azar o seu, Alex. _ Sil, por favor, eu quero apenas conversar. _ Com uma arma nas nossas cabeças? _ Se eu viesse de braços abertos você me matariam. _ Sem dúvida_ Ale não resistiu a um comentário. _ Então estou certo em me prevenir. _ O que você quer ? _ Preciso saber o que descobriu na Argélia. _ Como se você não soubesse. Estragamos os seus planos com sua amiguinha, de contaminar milhares de pessoas com um vírus letal. _ Não era um vírus comum, Sil. Ele percebeu a troca de olhares das duas mulheres e notou que elas sabiam mais do que demonstravam. _ Vocês acharam os arquivos._ Não era uma pergunta._ Sil, preciso saber se vocês copiaram aqueles arquivos. Silêncio. Krycek engatilhou a arma e apontou para a cabeça de Ale. _ Sil, eu não estou brincando, eu vou atirar. _ Não fala nada para ele, Sil _ Mas Ale sabia que a amiga não arriscaria sua vida. _ Copiamos._ A voz dela era um sussurro mas estava clara a raiva contida. _ O que pretendem fazer com eles? _ Alex, eu não sou burra e nem descrente. Acredito no que eu li naqueles arquivos e sei que eles têm importância para muita gente. Já fizemos várias cópias e elas estão espalhadas pelo mundo com pessoas de nossa confiança. Nem mesmo você, com toda sua astúcia, será capaz de descobrir todas as cópias e destruí-las. _ Não quero destruí-las Sil, apenas precisava saber se acredita realmente no que encontrou. Ela prendeu os olhos verdes nos seus por um segundo antes de responder _ Acredito sim. Krycek acenou com a cabeça e baixou a arma para espanto das duas mulheres, enquanto tirava do bolso interno do casaco várias folhas de papel amassadas e estendia para Sil. _ O que é isso Alex? _ O relatório da missão em Israel. Não há cópias, você sabe disso e ela nunca vai saber o que aconteceu com estes documentos. Sil não se moveu para pegar os documentos e seus olhos se cruzaram enquanto ele se aproximava. _ Não estou fazendo isso pela Claudia, pegue antes que eu desista. Mais um segundo de hesitação e a mão gelada tocou a dele causando um tremor em ambos. _ Eu nunca vou entender por que você faz isso, Alex. _ Nem eu, Sil, nem eu. Virando-se ele caminhou para a saída mas a voz dela o fez parar. _ O que você vai querer em troca disto? Ele pareceu pensar um pouco e respondeu sem se virar. _ Guarde bem as informações que descobriu e talvez algum dia, você possa me pagar este "favor". As duas mulheres ainda permaneceram algum tempo sem ação. Definitivamente, o Rato continuava a surpreendê-las. Sem nenhuma palavra, Sil entregou as folhas para Ale e, enquanto a amiga lia boquiaberta sobre uma antiga e mal fadada missão em Israel, abriu seu armário e começou a se vestir. No instante seguinte Clá entrou porta adentro. _ O que aconteceu? Acabei de ver Alex Krycek saindo de carro pelo portão lateral do clube! Ele esteve aqui com vocês? _ Esteve... _ Fazendo o quê? _ Bom...correndo o risco de me tornar repetitiva, digamos que é uma longa história...Na verdade, nem eu entendi ainda. Vamos jantar. Assim, acho que dá para a Sil nos explicar pelo menos a parte que ela entendeu disso tudo. EDIFÍCIO FONTANA DI TREVI 18:10 p.m. O tempo corria contra ela. Seus dedos percorriam o teclado com a agilidade espantosa de quem sabe exatamente o que tem de fazer e quanto tempo tem para isso. Quando finalmente descobriu o último código e destruiu a fortaleza inimiga, soltou um breve grito de comemoração e levantou-se, indo em direção à porta, sem perder tempo sequer em desligar o computador. Depois de tão "terrível batalha", precisava de um sanduíche com urgência, ou seu estômago a mataria. Quando já imaginava se ainda encontraria tomates na geladeira, a menos de dois passos da porta, foi surpreendida pela entrada da amiga, que, com uma expressão séria demais, barrava sua passagem. _ Que foi Clá? Tá com fome também não é? Vamos, eu preparo um especial "di trevi" para você. Nada de pizza hoje! Como não houve resposta, Kes continuou seu caminho, considerando que a outra a seguiria. Sem ter como reagir, foi detida em seu intento por um golpe violento, que a lançou ao chão. Ainda atordoada e surpresa, Kes viu sem entender a figura pequena e familiar a sua frente transformar-se num sujeito alto, de traços angulosos, que a ergueu do chão sem maior dificuldade, prendendo-a pela garganta e fazendo-a sufocar. Foi a última coisa que viu, antes de desmaiar. WASHINGTON - TRÊS DIAS DEPOIS O relógio na mesa de cabeceira marcava 3:00 da madrugada. Estranhamente, sentia-se tensa, como se aguardasse algo. Durante anos acostumara-se a ser arrancada da cama em plena madrugada, para correr atrás de pistas incomuns, com seu parceiro incomum. Agora, sentia como se o telefone pudesse tocar a qualquer momento e a voz dele pudesse ecoar do outro lado da linha, no mesmo tom entusiasmado de tantas vezes. Subitamente, imaginou se sua mente não lhe pregava uma peça, ou se realmente ouvia batidas secas à porta. Levantou-se num salto e tentava vestir o roupão enquanto corria em direção à porta, atrapalhada pela ansiedade. A porta aberta revelou que sua intuição não estava totalmente errada. Não viu os olhos verdes que tanto ansiava encontrar, mas nem por isso a surpresa foi menor. _ Agente Scully, precisamos conversar_ mal conseguindo disfarçar seu desespero, a mulher de aparência séria e inconfundível cruzou a porta, seguida por três de suas companheiras, que pareciam igualmente desesperadas. _ Meu Deus, o que...o que vocês estão fazendo aqui? _ É uma longa história. Mas dá para resumir. _ Claudia sempre foi direta. Não saberia ser diferente agora. Diante do olhar espantado da mulher a quem resolvera recorrer, começou a dizer exatamente tudo o que sabia e o que queria saber _ Kes desapareceu. E, antes que você pergunte, o que pareceria bastante lógico, não foi em missão. Ela desapareceu de dentro do apartamento, em Roma. E quer saber o que mais? Não, melhor não contar. Melhor mostrar._ Dizendo isso, Claudia esperou que Ale abrisse sobre a mesa um pequeno computador portátil. _ Essa é a última imagem que temos de Kes._ Alguns comandos e um filme começou, um pouco entrecortado, aparentemente resultado de um equipamento de segurança que grava poucos quadros por segundo. Mas a imagem era bastante nítida. A primeira cena da filmagem mostrava claramente Clá entrando no prédio, às 18:06. Até aí, nada demais. A próxima seqüência, às 18:18, mostrava Clá saindo pela garagem, de carro, com Kes aparentemente cochilando no banco do passageiro. _ Não vejo onde está o problema com essas cenas... Se a Clá estava com ela, deve saber o que aconteceu, não é?_ Scully tentava ver a lógica daquilo tudo, mas desconfiava de que houvesse algo pior do que estava vendo. Sil respirou fundo, como se ela mesma precisasse entender o que ia dizer em seguida. _ Acontece que, naquela tarde, a Clá, ou pelo menos a verdadeira Clá, estava conosco, do outro lado da cidade. Saímos e chegamos juntas! Isso tudo não faz o menor sentido. E por mais que eu quisesse ignorar algumas coisas que sempre achei absurdas demais para merecerem crédito, fomos obrigadas a aceitar que algo relacionado ao estranho projeto em que Alex Krycek está envolvido, poderia ter ocasionado o seqüestro de Kes. Então, tentamos contatar Mulder da Europa, sem sucesso. Foi quando nosso contato em Washington nos avisou do desaparecimento dele. A voz de Sil sumiu com estas últimas palavras enquanto lutava contra as lágrimas. Claudia colocou a mão no ombro da amiga e encarou a agente federal. _Sem perder mais tempo, viemos para a América e agora estamos aqui, na sua sala, às 3:00 da manhã, para saber uma coisa: Precisamos saber a verdade. Apenas isso, agente Scully. Onde está Mulder? E, diabos, onde é que abelhas contaminadas, Alex Krycek e um monte de arquivos codificados se encaixam dentro disso tudo? Scully fechou os olhos por um instante e respirou profundamente. Sua mente fervilhava com as lembranças despertadas por cada uma das palavras que Claudia dissera. Principalmente as lembranças do que vinham sendo os últimos meses de sua vida. _ A Verdade... Arquivos codificados, abelhas...abduções..._ seu rosto tinha um sorriso triste e a voz, um tom irônico, que em muito lembrava a amargura que seu parceiro expressara algumas vezes _ Bem-vindas ao inferno... EPÍLOGO EM ALGUM LUGAR Dor, era a única coisa que sabia racionalizar. Sabia que estava sentindo dor, mais nada. Não sabia onde estava, nem quanto tempo se passara desde o momento em que desfalecera nas mãos do estranho que invadiu seu apartamento, o mesmo que, segundos antes, era sua amiga Clá. Lutando contra a inconsciência, abriu os olhos: uma luz branca inundava tudo, ofuscando-lhe imediatamente o olhos. Branco, branco...tudo ali era infinitamente branco... Exceto os olhos dele. Verdes ... eram olhos verdes que a encaravam, no meio do quarto branco... FIM 1