Eles não me pertencem, nem estou lucrando com essa fic Titulo: A noite das agonias Autora: Meggie Resumo: As coisas fogem do controle Nota 1: Camila Pinheiro, de novo, girl, não tem quem faça meu computador te responder. Você não tem outro e-mail? Nota 2: Essa fic saiu do meu controle também e ficou totalmente sem nexo. Nota 3: Dedicada com todo carinho e saudades para Lizzie, que era culpada pelo meu estado de espírito quando comecei a escreve-la. ( Todas aquelas idéias sobre a Scully e o Doggett me deixaram pouco pensantes, você entende, né, amor?) E para Camila, para quem eu nunca consigo responder os feeds ( Mas amo todos ?) - Todas as minhas fics, sem exceção, vão para Terry, até que eu consiga escrever uma só pra ela _ A noite das Agonias By Meggie "Você não pode morrer, não pode" E havia no seu grito um desespero rouco, um choque advindo do mais puro horror, que era o vislumbre do desamparo completo. Porque seu amor por ela era o amor egoísta de uma criança. Não o amor pela figura que ela representava mas pela segurança, o conforto, o carinho que lhe trazia. O que seria dele sem sua companhia diária? Não preocupava-o realmente o que seria dela com a morte, mas o que restaria dele, para ele, se ela se fosse. Era o amor dos velhos casais, que não estão ligados pelo sexo ou pela paixão exuberante da juventude, era o amor das almas acostumadas e a vontade com a presença uma da outra, e que a sua falta o deixaria eternamente vazio, solitário e incompleto. O amor que não exigia nada do outro justamente por já Ter exigido e recebido tudo que podia, seu espirito. O amor na sua forma mais sublime não por ser abnegado, mas por ser completa e eternamente dependente de sua presença. Um amor quase doentio, que era ao mesmo tempo a força e a maior das fraquezas daqueles seres. Porque ele precisava dela, como um filho precisa da mãe, precisava do seu conforto e de seus cuidados, da sua atenção e aprovação. Precisava de forma mesquinha e narcisista, que não admitia que ela tivesse outras vontades, outra vida, a não ser em torno dele. E em troca, daria a ela todo seu coração, todo seu ser. Era inteiro dela, completamente entregue, confiante em suas mãos. Ela precisava dele, como a mãe precisa de um filho, num amor completamente irracional por não se Ter nada de volta além de trabalho, despesas e o mais fiel e incondicional amor. O amor infantil e o maternal se encontravam naquelas duas almas complexas e carentes das mais diversas formas de afeição. E um amor bruto e opressor se formava, um que renegava todas as outras formas de amar e faziam deles pessoas estranhas e sombrias, que gostavam-se de forma nauseante. Era uma relação de mutualismo e parasitismo ao mesmo tempo, que podava, sugava e persistia, pois eram ambos incapazes de se desentrelaçarem. Duas pessoas perdidas em mares bravios que encontram-se no meio de seus desesperos íntimos um bálsamo, uma tábua de salvação. E que perceberam, embora tarde demais, que se afundassem levariam junto consigo o outro. Inevitavelmente. E talvez por se amarem daquela forma tão doente, fosse um amor tão puro, tão bruto, que qualquer outro parecia ofuscado por sua beleza crua. Uma beleza dos homens rudes do campo, que justamente por serem tão rústicos e naturais, são a personificação do belo. Nada havia de superficial ou supérfluo naquele precisar. Era contido e poucas vezes demonstrado, mas latente e inegável. Era incompreensível a todos aqueles que o observava e o desejava rotular. Por que ele não pertencia a nenhuma classe de amor. Era um sentimento por vezes quase fraterno, em sua delicadeza, em sua meiguice e compreensão, e as vezes bravo, rouco, vermelho em sua paixão contida, em seus corpos, desejos, hormônios adormecidos de pessoas tão lindas, tão próximas e absolutamente incapazes de se aproximarem ainda mais. Pois eles queriam-se como querem os jovens, os amantes, insaciavelmente imaturos e prontos. Ao mesmo tempo, eram incapazes de qualquer ato abusivamente sexual. Seria um incesto. Um pecado. Uma violação contra todas as outras suas formas de amar. Formas que acabavam perdendo para as mais primitivas delas. A maternal e a filial eram mais fortes neles nos momentos críticos, e quando a solidão batia forte de não Ter jeito e o desespero sucumbia as ilusões, então todo o resto ficava esquecido. A amizade, a paixão, a fraternidade, o companheirismo, para dar lugar ao egoísmo verde de seus espíritos que queriam sobreviver e dependiam tanto um do outro para isso. E havia naquilo algo muito próximo do ódio, algo que suscitava rompantes de rebeldia e ira um contra o outro. Que os fazia se magoarem e agirem como amantes despeitados, procurando em atitudes ciumentas e diabólicas ferirem-se. Mas depois voltariam aquele mesmo estado de antes, quase inconscientes de toda aquela gama de emoções, sentimentos que deixavam sob controle até que em um dia qualquer de março, ou nos ventos outonais de setembro tudo viesse a tona novamente, para mostrar a suas almas que eram elas companheiras milenares, que seus corpos tão humanos e imperfeitos não eram capazes de suportar todo aquele saber. Por isso, sua consciência estava perdida e encontrava-se ele em um momento de supremo êxtase doloroso. Totalmente envolvido na pior forma de dor. O sofrimento que sabe exatamente o inferno que lhe aguarda e o espirito que sabe- se incapaz de suporta-lo. Por isso ele repetiu, entregue em seus soluços desencontrados. "Você não pode morrer, não pode." E só a idéia de que ela cogitara isso trazia a ele um ódio profundo, entrelaçado como terror absoluto de que ficaria sozinho. Muitas vezes tivera ela perto da morte e ele experimentara muitos tipos de desesperos. Mas pela primeira vez ele acreditara realmente que a perderia. E de que aquilo era inevitável. E o fatalismo da situação ao invés de trazer-lhe conforto, causava-lhe revolta e o mais incrível tipo de magoa. Pois naquele momento não estava em suas mãos nem nas dela o futuro de suas vidas. Estava nas mãos de seres que ele não conseguia compreender e que vinham lhe dizer que ela agora morreria e que não havia nada que ele fizesse ou dissesse que fosse evitar isso. Ela abriu os olhos devagar, tentando fazer o mundo entrar em foco, voltando de um sono pesado e sem sonhos. "Mulder, o que foi?" Mas ele continuava imerso em sua angustia, chorando e pedindo que ela não morresse, por favor. Pedindo para todos os Deuses que conhecia mas não acreditava, pedindo para qualquer um. Ele não a ouviu. "Mulder, Mulder" Havia desespero na voz dela. Confusão e dor. Puxou-o pelo braço, pela camisa que estava avessada por Ter sido vestida no mais negro terror. Ele olhou-a de forma ferida, ao mesmo tempo desculpando-se, morrendo, preocupando-se. Acusando-a de algo que Scully não compreendia. "Não morra!" – Um sussurro intimo de uma criança para seu único porto continuar seguro. "Não morra, não morra" Ele estava completamente histérico, como a mulher nunca havia visto. Mas não teve medo pois ele não lhe machucaria. "Eu não vou morrer" Tocou seu ombro com suavidade " Eu não vou morrer nunca" Seu tom era pura nuvem. Naquele instante teria lhe dito absolutamente qualquer coisa, desde que o acalmasse. A respiração de Mulder foi voltando ao ritmo normal, enquanto encarava e segurava seus joelhos. Precisava Ter certeza de que ela ficaria bem. De que não derreteria em frente a seus olhos. Então começou a chorar tão sentidamente quanto era possível chorar. Procurando um consolo que nunca seria suficiente, porque ele sabia que Scully lhe mentira. Ela iria morrer. E iria deixa-lo sozinho. Mulder a odiava quase com a mesma intensidade do seu amor. A odiava e sentia-se impelido a feri-la de modo irremediável, pois assim ela precisaria dele tanto quanto ele a ela. Ela precisaria de seu conforto. Precisava fazer qualquer coisa para que ela continuasse com ele. Mesmo que a machucasse. Qualquer coisa. "Vamos embora, Scully" "Para onde?" "Não importa, venha" Ele não escutou os protestos dela. Puxou seu corpo com uma força quase brutal. Ninguém a tiraria dele. Quando tudo chegara aquele ponto, nenhum dos dois saberia dizer. Mas de repente, ambos pareciam tão doentes quanto todos os monstros que costumavam caçar. E cada um era desequilibrado de uma forma diferente e justamente por isso mantinham-se. Mas eram insanas aquelas pobres almas. Haviam sido totalmente subjugados pelos sentimentos, todo o tipo de sentimento. Não era necessário mais que uma Segunda olhada para perceber que eles haviam entrado em um ciclo vicioso e sem saída, que havia culminado ali naquela casa mórbida e estranha. Scully gritava do porão, Mulder ouvia sentindo-se ao mesmo tempo culpado e decidido. "Mulder, o que você está fazendo? Você ficou maluco?" "Mulder, me tira daqui" Mas ele não faria nada até que ambos estivessem seguros. Fora o pior sonho de sua vida, porque Mulder sabia que se tornaria realidade. Ele sabia que Scully morreria se ele não fizesse algo depressa, muito depressa. Mas ele ficara desesperado e sem saída. Ficara preso em seu mundo de escuridão e loucura do qual ela fazia parte. O mundo das pessoas que não dormem direito, não comem bem e sentem mais do que deviam. E só um pensamento inundou-lhe a mente. Ela não podia morrer. A perspectiva de uma vida sem ela não tinha perspectivas, porque acabavam-se as escolhas. Se ela partisse, ele a seguiria, se ela adoecesse, cuidaria dela, se ela se apaixonasse por outro, talvez batesse nela, e se ela morresse, não haviam escolhas. Odiava-a por Ter personificado em sua figura todos os seus sonhos de amor. Por isso colocou depressa a única camiseta que encontrou no caminho e correu para seu apartamento. Não havia mais tempo a perder. Antes, no começo, alguns anos atrás, ainda sentia-se culpado por monopoliza- la. Mas agora não mais. Agora não estava em suas mãos. Ele levou-a para aquela casa abandonada. A casa dos fantasmas do natal. Era um bom lugar. Um lugar maldito, onde novamente eles matariam ou viveriam. Onde novamente eles perderiam todo o controle. Mulder a puxava pelo braço. Scully estava quase assustada. Ele parecia mal, louco e perdido Mulder faria qualquer coisa para não sofrer mais, para não sentir o pior de todas as dores. E isso queria dizer protege-la, tranca-la no porão daquela velha casa e deixa-la sozinha lá. "Mulder, por favor, não me deixe sozinha aqui" " Eu não vou deixar, eu estou aqui, te protegendo" "Você não pode me proteger me trancando aqui, Mulder" "Posso sim, ninguém vai passar por mim, ninguém vai te matar" "Mulder, quem te disse que eu vou morrer?" "Eu não sei" "Mulder" Ela estava chorando de impaciência e frustração. "Mas você vai, se eu não fizer algo" Havia angustia nas palavras dele. E Scully soube que entendia e perdoava. Ambos eram culpados por aquela situação. Ambos eram culpados por terem se permitido chegar tão longe. Eles, Mulder e Scully, não eram almas gêmeas, eram almas puras e infelizes que se encontraram e se precisaram. Almas não irmãs, almas únicas. Uma parte de um só ser que fora separado e estava agora sofrendo, incompleto. Eram pessoas incapazes de viverem fora da redoma que haviam criado para si mesmos. Eram Adão e Eva depois de terem perdido o paraíso, jogados no mundo. Obcecados e sozinhos, egoístas. Quase imorais, quase amorais em sua forma própria de querer. Eles haviam perdido o controle há tempo demais. Vida após vida, eles perdiam o controle de seus sentimentos um pelo outro. Eles os confundiam, negavam, deturpavam. Vida após vida. Eles de desentendiam, se desequilibravam, sofriam e se amavam. Dia após dia. Eles eram o símbolo do amor de Deus pelo seu filho mais belo que o traiu. Lúcifer. E do amor de Lúcifer pelo seu criador. Eles eram a rebeldia dessa união avessa e desencontrada. Eles não viviam sem o outro não como a criança não vive sem a mãe, mas como o bem não vive sem o mal, como a luz não vive sem a escuridão, como o ódio não vive sem o amor. Um sexo sem o outro. A ternura e o amargo, o marco de todas as contradições humanas. Contradições que vinham daquele amor primeiro O amor da certeza pela rebeldia. E eles se viam, se entendiam, se desesperavam porque aqueles músculos apenas humanos não eram capazes de agüentar. Então Mulder trancou-a no porão e chorou e chorou, segurando sua arma, escutando os gritos incoerentes dela. Talvez naquela vida eles conseguissem encontrar o equilíbrio. O equilíbrio que nasce da desordem. Eram apenas crianças narcisistas, ambos crianças tristes que tem apenas um único brinquedo. Ele era o brinquedo dela, ela era o brinquedo dele. E nenhum dos dois amava nada mais no mundo inteiro, apenas um ao outro, sua única diversão. Mas ainda assim, um brinquedo. Sem sentimentos. Os pensamentos deles não importavam de verdade, o que valia era o bem que aquela companhia lhes traziam. A companhia de um boneco, lindo, inteligente, útil, indispensável, mas ainda um boneco, sempre preso a sua condição de boneco. Sentiam pelo outro também aquele tipo de amor e por isso sofriam todo tipo de dores quando descobriam, as vezes, que o outro possuíam vida tão humana quando a sua própria. E poderia se afastar deles quando bem quisessem, sem nem lhes pedir permissão. Eram seres com imensa consciência do outro, de sua presença, cheiro, cor textura, amor. Sabiam-se mais que a si mesmos, pois passavam mais tempo analisando o outro do que a si. E por saberem amavam ainda mais. Queriam com mais loucura. Sonhavam com mais vigor. Seus corpos impeliam suas mentes contraria uma a outra, gerando atrito, energia, história. E por gostarem tanto do sincronismo inevitável de suas consciências, e repelirem-se pelos pólos opostos de seus passados, eram quase pessoas normais. O que vinha a ser aquele entendimento, senão amor? Eles não sabiam classificar-se. Não conseguiam ver que o amor era muito relativo para rotula- los. O amor é ternura demais, confiança, meiguice, paixão. O amor não aceita violência, traição, covardia, dor. O amor não aceita o tempo, a rotina, as brigas eternas. O sentimento deles aceitavam tudo e resistia. Persistia, crescia e brilhava. O amor deles não era amor porque vinha da dor, do ódio, da indiferença, da inimizada, da contrariedade e oposição de seus espíritos Mas e se não era amor? Era humanidade em suas varias faces. A humanidade pura, divina e diabólica, boa e ruim, a humanidade crua de um ser que encontrava a do outro, se reconheciam e se amavam na beleza do humanismo um do outro. Mas nenhum dos dois sabiam nada daquilo e não precisavam saber. Eles apenas entendiam que agora que haviam se encontrado não havia como viver sem toda a sorte de sentimentos que um trazia ao companheiro, porque eram nas guerras infinitas que travavam um contra o outro que buscavam a paz que só vinha com a morte. E naquela noite, todas as almas vagando pelo sem fim do universo, todos os espíritos fizeram uma prece para aqueles dois. Para que eles não precisassem enfrentar mais uma existência tentando juntar as muitas faces do amor. Talvez Deus viesse ajudar suas criaturas. "Mulder, agora você está mesmo completamente doido" "Agora eu finalmente adquiri uma razão" "Mulder, abre essa porta, Mulder. Quando eu sair daqui eu vou te internar em um hospício" "Quando você sair daqui, Scully, vai poder fazer o que quiser comigo. Desde que seja comigo" "Mulder" " Eu estou com medo, Scully" "Medo do que?" "E se eles levarem você de novo?" "Não vão, eu prometo" "Eu tive um sonho, Scully." "Me conte" Os olhos dele estavam vermelhos e inchados, mas permaneciam alertas a qualquer movimento suspeito naquela estranha casa. Scully, do outro lado da porta, procurava um meio de faze-lo liberta-la. " Eles me disseram que você iria morrer desta vez. E era verdade." " Foi apenas uma pesadelo, Mulder, você não pode aparecer na minha casa no meio da noite, me raptar e me trancar aqui no porão dessa casa. Não pode, Mulder. Preste atenção, você está perdendo o controle." "Confie em mim. Eu não estou louco." E estranhamente, ela sabia que era verdade. "Então abra a porta." "Não posso, você vai querer ir embora" "Eu prometo que não." "Promete?" "Prometo, você confia em mim, Mulder?" "Só em você." "Abra a porta" E ele fez. Ela estava suja de poeira e lagrimas. Assustada e triste. Tão desalentada como uma criança que perdeu-se no Shopping. Mulder segurou a arma ainda mais firmemente. Nada a tiraria dele. Nada. Com a mão livre, ele pôs uma mecha ruiva atrás da orelha. Scully aproximou-se, abraçando-o pela cintura tão fortemente quanto foi capaz. "Conte-me seu sonho" "Eles iriam te matar, então outros vieram e me disseram que eu precisava fazer alguma coisa" " E você resolveu me raptar" "Não vão machucar você aqui" "Mulder, foi só um sonho. Vamos embora." "Não! Você prometeu" E apertou-a ainda mais, passando os dois braços em volta do corpo pequeno colado ao seu. "Mulder, você não está bem. Você sabia? Agora você perdeu a cabeça completamente." Mas ela ainda estava abraçando-o e Mulder concluiu que era o que importava realmente. "Quanto tempo nós vamos ficar aqui?" "O suficiente" "E quanto é isso?" "Eu não sei ainda." Ela afastou-se. Os olhos verdes do parceiro estavam inchados, pupilas tão grandes que ameaçavam invadir o branco. Talvez fosse efeito de alguma droga, racionalizou. Ou o stress de muitas noites maldormidas e anos de tensão se fazendo presente. Ela não saberia dizer. Mas se Mulder queria que ficassem ali, então assim seria. Pousou uma mão no ombro dele. "Vamos arrumar um lugar para dormir. Deve haver uma cama por aqui." Havia. No segundo andar, no segundo quarto a direita. Era uma cama grande, branca, empoeirada. Tão velha quanto o mundo. Mas Scully estava tão cansada, que não se preocupou, apenas deitou-se lá, aninhada nos braços de um homem atormentado. E dormiu. Mulder sabia que não dormiria. Não podia. Precisava vigiar. Desta vez ele estava alerta. Desta vez ninguém a tiraria dele. Abraçou-a forte, sentindo seu calor. Talvez estivesse mesmo louco. Não importava, Scully estava bem e segura. A escuridão o fez lembrar-se da outra vez que estiveram ali. Arrastando-se no chão, cobertos de sangue imaginário e de dor bem real. Talvez também estivesse lutando contra monstros de faz de conta, mas o medo continuava ávido. Pungente. E lembrou-se do sonho. O pior de todos. Eles iriam invadir, não havia como lutar. E para isso a levaram. Eles a matariam. Ele não podia fazer nada. Mais nada. Parecia com todos os outros pesadelos que costumava Ter. Mas não era um pesadelo, era o futuro. Era o inferno. Seus olhos foram ardendo. Era a poeira, os ácaros. Fechou-os brevemente. E dormiu. Quando abriu os olhos, algo estava faltando. Algo muito importante. Ele estava sozinho. Ele estava sozinho na cama. Onde estava Scully? Ela não estava lá! Ela não estava. Ele havia dormido e Eles a levaram. Eles a levaram de novo. Pulou da cama, o revolver em punho. Era tudo culpa dele. Ele permitiu que a levassem. Ela iria morrer. Iriam machuca-la de novo. Outras cicatrizes para um corpo tão pequeno. Outras para um corpo já tão marcado. Scullyyyy. Me perdoa. Ele caiu nas escadas. Scully. Suas lagrimas borravam o chão. Seus gritos talvez acordassem a noite mas ele não estava ligando. Talvez nem se desse conta. Levantou-se, bêbado. "Mulder, Mulder, eu estou aqui! O que está acontecendo? O que foi?" Ela estava ali. Ela estava ali. Não a tinham levado. "Onde você estava? Onde você foi?" " Ao banheiro. Mulder, você está gritando." Os olhos dele estava muito grandes e assustados. Ele abraçou-a. O abraço frouxo de quem perdeu os ossos. Foi escorregando devagar para o chão. Logo depois Mulder desmaiou. Novamente o barulho das sirenes. As luzes vermelhas. As vozes dos enfermeiros, tão ríspidos. Tudo novamente. Conhecia a rotina. Passear de ambulância estava no programa, pelo menos três vezes por ano precisavam dar uma voltinha no carro branco. O costume nunca diminuía a dor. Não sabia como se explicariam daquela vez. Bem, Senhor, o Agente Mulder achou que eu seria raptada e resolveu me raptar ele mesmo. Então teve um choque pós-traumático e desmaiou. Mas acho que vamos ficar bem. Talvez fosse melhor pensar em outra coisa. Skinner apareceu algum tempo depois, no hospital. Mediu-a dos pés a cabeça. Não o culpava. A figura que devia estar formando era no mínimo curiosa. Pijamas azul dos Ursinhos Carinhos, descalça, coberta de poeira, teias de aranha e trilhas que denunciavam o caminho das lágrimas. Ela estava sentada em uma cadeira ao lado de seus parceiro, que dormia, sedado. Ninguém no mundo seria capaz de tira-la dali. "Agente Scully, o que houve?" Quantas vezes já havia ouvido aquela mesma frase, daquela mesma boca? Perdera as contas. Ela olhou diretamente nos olhos castanhos de seu superior. " Ainda estou tentando descobrir, senhor." Afagou distraidamente os cabelos do amigo. Skinner não entedia mesmo aqueles dois. Ficavam cada dias mais estranhos, mais presos em si mesmos. E a julgar pelos olhos de sua agente as coisas ficaram difíceis essa noite. Talvez ele não quisesse saber. A imagem ficou marcada nele para sempre. Aquela mulher ruiva, parecendo ainda menor em seu pijama de ursinhos, coberta de pó, sustentando ao mesmo tempo ela, Mulder e o mundo inteiro. Porque se ela desistisse, Mulder desistiria. E se Mulder desistisse, eles venciam. Deixou-os a sós. Seus loucos meninos. Como eles conseguiam viver daquele jeito? Estava além da compreensão. Quando Mulder abriu os olhos novamente, já era dia. Estava no hospital. Reconheceria o cheiro em qualquer lugar. O cheiro de remédios, de doença e de Scully ao seu lado. Ela estava suja, os cabelos eriçado, pegadas de lágrimas, que vinham dos olhos até o pescoço. Ela não estava sorrindo como de costume. Mas ele sorriu. Tivera um sonho, e Eles lhe disseram que estava tudo bem agora. Por enquanto. FIM