Título: Annie (parte 1) Autora: Lucy Mattos Spoiler: O arco mitológico da série, embora ele tenha sido... hum, "violado" por mim. Sumário: Quando Scully toma uma decisão importante por conta própria, seu relacionamento com Mulder começa a desmoronar. Mas agora eles têm uma filha adolescente, que tem problemas para lidar com a separação dos pais. Classificação: MSR Palavra-chave: Angst Faixa etária: R, para palavras ofensivas. Distribuição: Em qualquer site legal, desde que mantenham meu nome como autora. Me avisar também seria de grande consideração! :-P Feedback: Será muito bem recebido. Preciso saber se vocês gostam destas bobagens que eu escrevo. Prometo responder a todos! Mandem para writing_machine@bol.com.br ou lucymattos@hotmail.com. Disclaimers: Fox Mulder, Dana Scully, Skinner, Maggie Scully, Teena Mulder, Canceroso, Pistoleiros Solitários e Gibson Praise, citados nesta história são de propriedade de Chris Carter e da Fox, não me pertencem e são usados sem fins lucrativos e sem a intenção de violar o direito de seus criadores. Já Annie Faith Mulder é minha criação e não deve ser usada sem autorização prévia. Em relação às letras de música, 'Playboy mommy' e 'I know you too well', foram usadas sem autorização prévia de Tori Amos e Gloria Estefan, também sem fins lucrativos. Notas da autora: Não se deixe levar pelo título desta fic. É uma espécie de continuação de "Uma nova vida" só que bem mais complexa e maior. Espero que minha primeira tentativa de fic mitológica seja bem recebida! ;-). Em relação à cronologia desta fic, é um pouco diferente da cronologia da série. Vamos apenas imaginar que tanto Mulder quanto Scully têm 45 anos, ok? Tentei acompanhar o tempo da série e não gostei (Scully estaria com 53 anos e Mulder com 55!!), por isso criei o meu próprio tempo. Mas não levem isso muito a sério. Agradecimentos: À Lilly, Melissa (Carol), que ouviram pacientemente minhas idéias malucas cada vez que elas surgiam; às minhas beta readers (meninas, sem vocês eu não seria nada!), que liam a confusão que eu escrevia e me davam sugestões. Vocês me ajudaram (e muito!) no parto desta criança, obrigada! "Porque eu te conheço tão bem, você me conhece por inteiro Você não pode me contar suas mentiras, eu te conheço tão bem, Ninguém te conhece melhor que eu E é tão fácil notar, quando você desvia o olhar Que você está escondendo alguma coisa, Eu te conheço tão bem..." (Glória Estefan--I Know you too well) Annie (Parte 1) 19 DE ABRIL 10:20 PM Mulder estava sentado na sala, olhando pela janela as estrelas e a lua que brilhavam no céu azul escuro. A sala estava totalmente imersa na escuridão, mas seus olhos já haviam se acostumado com o escuro, de modo que ele conseguia perceber os contornos dos objetos e móveis da sala. Nem precisava, afinal ele já havia passado mais tempo ali do que podia imaginar ou contar e era o suficiente para se movimentar até de olhos fechados. Ele estava ali há algum tempo, não queria, não conseguia voltar para o quarto e deitar-se na mesma cama onde ela estava deitada. Mulder nunca pensou que seria capaz de, um dia, sentir isso por Scully, depois de tantos anos. Esta sensação estranha que o impelia de entrar naquele quarto, do desejo de tocá-la, ouvir sua voz ou sequer olhar para ela. A sua atitude fora a gota d'água, o suficiente para que ele resolvesse que a melhor saída para evitar que ele a odiasse fosse uma separação. Talvez fosse apenas temporária, talvez não. Onde, afinal, havia ficado aqueles momentos tão doces que ele costumava dividir com ela? Mulder queria saber onde, ao menos, procurar, queria uma referência, uma pista, um sinal que as coisas ficariam bem de novo. Mas ele nem ao menos sentia esta esperança dentro dele. Scully estava no quarto pensando nas palavras que Mulder lhe dissera no começo da noite. Entre outras coisas, ele a chamara de egoísta. Ela sentia-se mal, sua cabeça doía de tanto reprimir as lágrimas, que agora molhavam o travesseiro. Sentia-se uma péssima mãe, péssima mulher, não conseguia conversar com sua filha e nem ser honesta com seu marido. Ou quase marido. Mulder e Scully estavam morando juntos há quase treze anos, mas não haviam se casado. Muita coisa havia mudado durante todos esses anos, Mulder havia amadurecido e seguia uma carreira estável, bem longe do FBI. Ele agora dava aulas na Universidade e tinha um consultório no centro da cidade. Scully continuava no FBI, e agora lecionava na Academia à noite e trabalhava num laboratório durante o dia. E eles podiam dar uma vida confortável à sua filha e viajar durante as férias de julho. A única coisa que realmente incomodava Scully era seu relacionamento com Annie, que não era metade do que ela imaginou que seria. Annie preferia conversar e contar seus problemas para Mulder e era muito mais próxima a ele. Ela havia crescido ouvindo as histórias de seus pais durante o período em que trabalharam no Arquivo-X e achava tudo muito fantástico para ser real. Scully havia deixado o seu ceticismo para a filha, que sempre ficava na dúvida se as histórias eram reais ou não, se tudo não passava de alucinação da cabeça de seu pai. Scully apenas observava. Mas o relacionamento com Annie nem sempre fora tão distante para Scully. Quando ela era pequena, por volta de dois ou quatro anos, Annie gostava de dormir no colo de Scully, ouvindo histórias de príncipes e princesas e contando as pequenas aventuras da escola e as descobertas de seu mundo infantil. Nesta época Annie já era bastante parecida com a mãe, e tinha traços de Emily também. Mulder evitava tocar neste assunto, mas ele sabia que Scully também pensava assim. Desde então Annie ficara cada vez mais parecida com Scully e Mulder ainda hoje se surpreende com a semelhança física e a incompatibilidade de gênios entre as duas. Seria mais difícil a convivência quando Annie descobrisse o motivo da separação de seus pais e Scully temia perder a filha, apesar de ter certeza de que Mulder nunca iria pedir a guarda da menina na justiça, mas por escolha própria de Annie. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X 19 DE ABRIL 07:47 PM Scully entrou na casa de sua mãe com a chave extra que ela lhe dera há algum tempo atrás. Maggie não havia chegado ainda e a casa estava totalmente escura, com exceção da luz do corredor e da varanda que sempre ficavam acesas. Ela andou por todos os cômodos, sem ter uma direção certa, e terminou sentando-se no sofá da sala, encolhendo-se num canto. Ela deixou as lágrimas correrem pelo seu rosto, que escondeu entre as mãos para abafar os soluços. Ficou ali por uns quinze minutos antes de ouvir o barulho da porta se abrindo e Maggie entrando em casa. Ela viu o vulto de Scully sentada no escuro da sala. "Dana? É você, minha filha?" Maggie aproximou-se de Scully na escuridão e acendeu a luz para vê-la melhor. O que ela viu quando a claridade invadiu a sala foi sua filha encolhida no sofá, com os braços em torno de si mesma e o rosto vermelho e coberto por lágrimas. Scully sentiu vontade de sair correndo, mas não havia mais para onde correr. "Sou eu sim, mamãe." Maggie sentou-se ao lado de Scully e acariciou seus cabelos. "O que houve, querida, porque está chorando? Aconteceu alguma coisa com você? Com Fox?" Ela balançou a cabeça concordando e mais lágrimas desceram pelo seu rosto. "Cadê a Annie?" "Está com a neta da minha vizinha, elas são amigas. O que aconteceu?" "Mulder vai me deixar, mamãe." Maggie puxou a filha para perto de si e a abraçou. Vê-la desse jeito, tão assustada e tão vulnerável, partia seu coração. "Às vezes é bom desabafar, sabia? Quem sabe eu não possa ajudar a resolver seus problemas?" "Meu problema está em casa, me odiando por ser a mulher mais insensível do mundo." Ela disse, com a voz baixa e embargada por lágrimas. "O que houve?" "Eu menti pra ele. Eu devia ter contado tudo, mas não tive coragem e agora eu não sei o que fazer..." Scully abraçou a mãe, soluçando. Maggie passou a mão pelo rosto da filha, enxugando as lágrimas e deixou-a desabafar. "Sabe, uma vez eu também briguei feio com seu pai. Quase nos separamos, mas percebi que faltava mesmo era uma boa conversa entre nós. Às vezes o problema é que vocês não ouvem o que o outro tem a dizer." "Passei dez anos inteiros só ouvindo, acho que já chega. Ele tem que entender minhas motivações" "Não seja tão rígida, Dana, dê uma chance a ele e a si mesma!" Dana ficou pensativa por uns instantes. De repente sentiu as lágrimas descendo de novo pelo seu rosto, estava chorando outra vez. "Eu não quero que Mulder me deixe... não sei se iria agüentar..." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X 17 DE FEVEREIRO, DOIS MESES ANTES. 05:43 PM Scully caminhava pelo estacionamento absorta em seus pensamentos e distraída, enquanto procurava as chaves do carro. Só reparou que havia um homem parado em frente ao seu carro quando olhou para frente. "Boa tarde senhorita Scully. Ou você prefere Srª Mulder?" O homem, aquele velho conhecido de Mulder e Scully, acendeu um cigarro e o levou até os lábios, dando uma tragada demorada. Scully parou em frente a ele. "O que você quer? Pensei que você tivesse morrido de câncer há muito tempo." "Ora, e você acha que este chip, o mesmo que você tem na nuca, serve pra que?" Scully levou, instintivamente, a mão à nuca, sentindo o chip que estava ali há muitos anos, sem que ela sequer se lembrasse dele. Apenas nas noites em que tinha pesadelos, ou que sentia alguma dor ela se lembrava deste pedaço de metal que lhe garantia a vida. Ela continuou olhando o homem, que fumava em silêncio, com um sorriso nos lábios. "Você está bem. Esses anos com Mulder lhe fizeram muito bem. E o tempo também foi generoso com você." "Se você só queria me ver, conseguiu o que queria. Agora me deixe em paz que eu tenho coisas pra fazer." Scully virou-se para abrir a porta do carro. "Como vai a jovem Annie? Ela está cada vez mais parecida com você, se eu não conhecesse bem você eu diria que ela é um clone." Ela voltou-se e olhou assustada para ele. "Você está vigiando a minha família?" perguntou, aumentando o tom da voz. "Sempre, Scully, minha querida. Eu sempre soube e sempre vou saber o que você e seu parceiro têm feito. E, é claro, não poderia deixar de conhecer a garotinha que finalmente uniu vocês dois." Todo esse tempo e Scully achava que estava livre dos olhos do Canceroso, mas ele continuava, das sombras, observando sua vida de perto. Um tremor passou por ela pensando no perigo que sua filha havia corrido e ainda corre. "O que você quer de mim?" Ele deu outra tragada antes de responder, e jogou a fumaça para o alto. Scully estava começando a se irritar com a atitude deste homem, que parecia imortal e que sempre estava espreitando sua vida. "Preciso de um favor seu. Um favor muito importante, tanto pra mim quanto pra sua filha." "O que é? Seja o que for, deixe Annie de fora." "Isso é impossível, Scully, uma vez que ela está envolvida." A essa altura Scully já havia desistido de entrar no carro e ir embora. Queria saber o que era tão importante para ele a ponto de ser abordada dessa maneira em um lugar tão público. "Eu não quero saber de favores com você. E quero você bem longe de mim e da minha casa." O homem deu uma risada, ironizando Scully. Como se dissesse o quanto era ingênuo para ela pedir uma coisa como essa. "Vamos para um lugar mais calmo, para eu poder explicar o que quero de você." Disse, estendendo o braço em sua direção. Ela deu um passo para trás, se afastando dele. "Fale aqui mesmo." "Scully, eu nunca menti pra você. Sempre disse a verdade e tratei você com respeito. Por favor, venha comigo." Ela relutou alguns instantes, ponderando o que ele disse. Resolveu que iria arriscar, estava curiosa para saber o que o Canceroso queria de tão importante dela, depois de tantos anos. "Tudo bem, mas tem que ser rápido. Eu preciso ir pra casa." "Não se preocupe, você vai ter tempo de sobra para ir pra casa fazer o jantar. Só vou precisar de alguns minutos." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X SÁBADO, 17 DE ABRIL 01:32 AM Scully entrou apressada na sala, rindo, seguida por Mulder. Ela se escondeu atrás do sofá e ele foi atrás dela, que corria para que ele não a pegasse. Suas gargalhadas ecoavam no silêncio da madrugada, unidas às de Mulder, que a perseguia por todos os cômodos da casa escura. "Scully!" Cada vez que ele chegava perto dela, Scully dava um grito, rindo e fugindo para outro cômodo. "Não, pára com isso!" Finalmente ele a encurralou no vão da porta, entre a sala e a cozinha, seus braços de cada lado de seu corpo, prendendo-a contra a parede. Scully ria, ofegante. "Vou continuar a fazer cócegas..." ele ameaçou, com um sorriso nos lábios. "Não!" Ela gritou, rindo de antecipação, tentando fugir dele. "Você vai acordar a Annie..." "Bem, então ela vai ver os pais fazendo sexo na sala..." "Mulder!" Mulder olhava para ela, sorrindo como um bobo, vendo a sua alegria, rindo feliz como uma criança de suas brincadeiras e pela sensação antecipada de seus dedos fazendo cócegas em sua barriga. "Não, Mulder! Não, pára com isso..." ela falou, sacudindo-se de um lado para o outro evitando o contato do rosto dele, que descia em direção a sua barriga. "Então me dê um beijo". Ele falou, seu rosto bem próximo ao dela. Ela balançou a cabeça, negando. Estava divertida esta brincadeira com ele, desde que haviam saído do restaurante onde foram jantar com Skinner e a namorada. Mulder estava enlouquecendo com os toques que Scully discretamente lhe dava, por debaixo da mesa. "Scully, você vai me fazer implorar?" "Vou... as melhores coisas são as mais difíceis, Mulder." Ele tentou capturar os lábios dela com os seus, mas ela virava o rosto, fugindo dele. Seu corpo pressionado ao dela estava fazendo sua ereção crescer, e ela sabia, mas queria provocá-lo mais um pouquinho. Finalmente ele conseguiu beijá-la, acariciando seus cabelos enquanto o fazia. Scully tentava não rir e deixou suas mãos escorregarem pelas costas de Mulder, pousando sobre seu traseiro, que ela apertou. "Scully!" ele sussurrou, surpreendido "Será que eu vou ter que amarrar você?" "Ah, de novo não!" Ela reclamou, seus lábios passeando pelo pescoço de seu parceiro."Você acha que Skinner percebeu alguma coisa?" "Eu espero que não. Você tem que parar de fazer essas coisas em público, principalmente na frente dos nossos velhos conhecidos." Ele começou a desabotoar a blusa de Scully com uma das mãos, enquanto a outra ainda estava sobre os cabelos dela. "Você está ficando muito rebelde, mocinha..." Ela riu, seu peito vibrando contra o de Mulder, que não conseguia se manter sério ao ouvir a risada dela. "Mulder, a Annie pode vir aqui..." "Ela não é mais uma criança e sabe que o papai é completamente apaixonado pela mamãe" A risada diminuiu e se transformou em um lindo sorriso. "Ela vai gostar de saber o quanto estas palavras fazem a mamãe feliz depois de tantos anos..." "Você continua linda, Scully... e quando eu olho para Annie e vejo você... é estranho, às vezes, ver dois pares de olhos tão iguais me olhando, o tom de voz tão parecido..." Scully sorriu. Seus olhos brilhavam e ela parecia irradiar uma luz interior através deles. Mulder ficou alguns instantes olhando-a, com um leve sorriso. "Vamos voltar pro quarto?" "Vamos ficar aqui na cozinha mesmo? Eu comprei uma cobertura de chocolate que eu queria muito experimentar..." Scully tentou disfarçar o sorriso e foi até a geladeira, pegando a tal cobertura. "Gostei da idéia da cobertura. Mas vamos fazer isso lá no quarto, eu não vou ter moral com a minha filha se ela me vir gemendo sobre essa mesa." Mulder também sorriu, imaginando a cena. Scully se afastou dele e correu até o quarto, seguida por ele, que fechou a porta com um estrondo. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X DOMINGO SEGUINTE - 18 DE ABRIL 09:06 AM Domingo na casa de Mulder e Scully sempre era um dia que começava preguiçoso. Todos acordavam tarde, menos Annie, que saía para andar de patins com as meninas que moravam na vizinhança. Logo que se mudaram para aquela rua e Annie fez amizade com as outras crianças, Scully sentiu-se apreensiva, mas Mulder a convenceu de que nada adiantaria manter a filha presa dentro de casa. Se até aquele dia Annie nunca fora abduzida ou ameaçada, não seria agora. Ela sabia que ele falava essas coisas apenas para deixá-la mais tranqüila, porque nem ele e muito menos ela acreditavam que Annie estaria totalmente segura e livre de ameaças. E assim era quase todos os domingos. Quando Mulder e Scully acordavam Annie já estava na rua há muito tempo. E só voltava na hora do almoço. Isso dava aos dois algumas horas de privacidade para fazer coisas que criticavam em Annie, como tomar café na cama e ver TV até tarde ou até mesmo comer a pizza do dia anterior como café da manhã. Scully enlouquecia quando Annie fazia isso. Ela nunca poderia deixar a filha saber que eles faziam exatamente isso quando ela não estava por perto. Mas o passatempo favorito de Mulder nas manhãs de domingo era ficar na cama, conversando com Scully, era um dos poucos momentos que eles tinham para saber o que o outro tinha feito durante a semana, ou comentar alguma futilidade. Era uma espécie de ritual para os dois. Não naquele dia. Scully acordara cedo e fingia dormir quando Mulder resolveu levantar. Ela ainda não havia falado para Mulder do acordo que fizera com o Canceroso, no fundo estava com medo de lhe contar. Dana Scully, médica e ex-agente do FBI estava com medo de Mulder. Não, na verdade não era de Mulder, e sim da reação que ele viria ter quando ouvisse o que ela tinha a lhe dizer. Ela ouviu o barulho da água no banheiro enquanto Mulder tomava banho e pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Mulder havia planejado passar a tarde na casa dos Pistoleiros Solitários e ver um jogo de basquete. Ela havia combinado com Annie que a levaria ao cinema, mas não pretendia fazer isso. Precisava falar com Mulder, contar a ele o motivo de sua angústia e o que se passara com ela nos últimos dois meses. Scully não sabia como ele iria reagir, mas tentava se preparar para uma reação agressiva. Mulder continuava atencioso e gentil com ela, embora dedicasse a maior parte de seu tempo livre a Annie. Não que isso lhe incomodasse, pelo contrário, ultimamente o que ela menos queria era que Mulder prestasse atenção nela. Ficaria mais fácil fingir que estava tudo bem. Toda sua vida ela passou fingindo que estava bem. Mesmo morando com Mulder por mais de dez anos ela ainda se flagrava fingindo que estava bem emocionalmente, mesmo quando sua carreira a estressava ou brigava com Annie. Mas no que envolvia a filha eles sempre mantiveram um diálogo aberto. Scully aprendera também a ser mais sincera com Mulder, a dividir seus problemas, ao invés de dizer que tudo sempre estava bem. Nem ele acreditava mais quando ela dizia isso. A relação de confiança entre eles também estava mais sólida, e a relacionamento amoroso entre eles era apenas uma extensão da amizade entre eles. Mulder saiu do banheiro com a tolha enrolada na cintura e viu que Scully estava com os olhos abertos e uma expressão séria no rosto, ela sorriu quando seus olhares se cruzaram e sentou-se na cama. "Vai sair agora?" "Daqui a pouco. Você quer almoçar em algum lugar, ou vamos cozinhar alguma coisa?" "Vamos pedir pelo telefone, daqui a pouco Annie vai chegar e eu não quero fazer nada agora." Mulder vestiu a calça e uma camisa e sentou-se ao lado de Scully, inclinando-se para beijar seus lábios. "Você acordou tarde. Está cansada?" "Um pouco, foi uma semana terrível na Academia. Estou treinando um monitor pra me ajudar, mas ele é pior do que eu pensava." "Não se fabricam mais Fox Mulders como antes" Mulder disse, com um sorriso nos lábios. Ela sorriu também, mas um sorriso triste. "O que houve com você, está estranha..." "Cansada, Mulder, cansada. Eu preciso de férias, quero viajar com você pra bem longe de Washington, longe do meu trabalho, longe do seu trabalho e longe desta casa um pouco. Eu quero pegar sol, tomar banho de mar, sentir um pouco de calor, pra variar." "Ah, se você quer sentir calor, porque não me disse antes? Eu faço você derreter agora..." Mulder disse, inclinando-se para beija-la e procurando com as mãos os botões da blusa do pijama dela. "Hoje não. Eu quero tomar um banho, trocar de roupa e fazer alguma coisa útil." Disse, afastando-se dele. "Já que você mencionou... já reparou como aquele jardim está um lixo?" "Porque você não arruma ele?" "Vou sair, já combinei com o Frohike desde a semana passada. Arrume você." "Vou sair com Annie." "Então fica pra semana que vem." Disse, levantando-se. Mulder penteava os cabelos enquanto falava. "Annie estava conversando com aquele rapaz de novo, lá fora. Eu vi pela janela." "Deixe a menina em paz, deve ser um namoradinho da escola." "Ela é muito nova pra namorar, só tem quatorze anos." "Quase quinze. Está mais que certa em namorar. Espere só até ela descobrir que o papai fica vigiando a filhinha pela janela." "Eu tenho que zelar pela minha filha. Eu não quero que ela conheça um idiota qualquer que a deixe grávida e que suma depois." "Pelo amor de deus, Mulder! Você fala como se Annie fosse uma garota inconseqüente. Você mesmo não explicou para ela quando ela quis saber aquelas coisas sobre sexo? Eu me lembro que ela nem queria falar sobre isso comigo. Eu não consigo entender isso, minha filha não quer conversar sobre sexo comigo porque fica com vergonha, mas quando tem uma dúvida vai perguntar pro pai..." Mulder sorriu orgulhoso e se olhou no espelho mais uma vez. Ele tentou esconder os fios brancos em seus cabelos com o pente. "Deve ser porque a primeira vez que ela perguntou como ela nasceu você mandou ela 'perguntar pro papai'. Ela se acostumou." Scully fez um bico. "Como você queria que eu reagisse? Nenhuma criança de seis anos havia me perguntado uma coisa dessas antes. E eu deveria ter contado a história da cegonha." Mulder riu. "Já estou saindo. Qualquer coisa me ligue, ok?" "Ok. Divirta-se, mande lembranças aos pistoleiros." "Tudo bem." Mulder inclinou-se para beija-la rapidamente e se surpreendeu quando ela o puxou e o beijou longamente, procurando a língua dele com a sua. Foi um beijo longo, apaixonado. "Calma, Scully, eu volto pra casa!" Os dois riram e Mulder saiu. Scully continuou na cama por mais alguns minutos antes de se levantar. Cuidar do jardim antes de sair com Annie não iria fazer mal. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X "Mamãe? Aonde nós vamos?" Annie olhava curiosa para Scully, que sequer desviava o olhar da estrada. Na verdade Annie duvidava se Scully ao menos tivesse ouvido o que ela falava. Elas voltavam do cinema do shopping, onde passaram a tarde. Annie trazia consigo algumas sacolas de roupas que ela cismava que estavam na moda, mas que Scully simplesmente não conseguia gostar. Eram saias muito curtas ou blusas muito decotadas, mas se isso a fazia feliz, enfim, tudo bem. "Mamãe?" ela repetiu. "O que foi, Annie." Ela olhou para Scully, que não demonstrava qualquer interesse em falar e desistiu. "Nada. Não é nada." Annie observava sem entender muito bem o que acontecia com sua mãe. Ela nunca conseguia entender mesmo. Ela passou as mãos pelos longos cabelos ruivos e se olhou no espelho. Todos diziam que ela parecia um clone de sua mãe, mas ela não achava isso. Annie era, de fato, fisicamente idêntica a Scully, tinha os mesmos olhos e lábios, mas sentia-se muito mais próxima a Mulder, cuja personalidade se assemelhava muito mais à sua. Annie Faith Mulder era o pequeno milagre que Mulder e Scully esperaram tanto e que jamais se repetiria. Ela sabia de todas as coisas que seus pais haviam passado, do sumiço de seu pai e do câncer de sua mãe e o que significava não ter o sangue verde. Annie era uma jovem absolutamente normal e saudável, com exceção de uma bronquite que lhe perseguia no inverno e que até já lhe trouxera uma crise grave que a obrigou a perder dois meses de aula. Annie planejava estudar História na faculdade e queria estudar bem longe de casa, mas sabia que seus pais nunca deixariam. Muitas vezes ela brigava e gritava com eles por causa do cuidado excessivo que eles tinham com ela. Batia a porta e passava horas sem falar com nenhum dos dois porque não entendia essa preocupação exagerada, mas ficava quieta. Annie era bastante geniosa e teimosa, uma mistura de Bill Scully com Teena Mulder, mas com a doçura de Maggie quando se acalmava. Quando tinha um pesadelo e gritava no meio da noite, e fazia Mulder correr até seu quarto, pensando que ela estava sendo abduzida. Nessas noites eles dividiam segredos e ficavam acordados uma boa parte da madrugada, quando ela ouvia seu pai contar histórias de sua mãe, de casos que eles investigavam quando ainda trabalhavam nos arquivos-x... Scully continuava dirigindo absorta em seus pensamentos, quando ouviu outra vez a voz da filha. "Mamãe?" "O que foi?" "Aonde vamos?" "Você vai passar a noite na casa da sua avó." "Porque?" "Preciso conversar com seu pai." "E porque eu não posso ficar?" "Vai ser melhor se você ficar com a vovó Scully." "Mamãe, pare de me tratar como seu tivesse oito anos. Eu já sou perfeitamente capaz de entender o que acontece." "Annie, não me faça perder a paciência. Hoje eu não estou disposta a argumentar." "Mas mamãe..." "Chega. Amanhã nós conversamos sobre isso." Scully finalizou, estacionando o carro na calçada próxima a casa de Maggie Scully. Annie saiu do carro, com sua mochila nas costas e bateu a porta. Ela deu alguns passou em direção à casa antes de ouvir a voz de Scully outra vez. "Annie?" Ela voltou-se para Scully, sem dizer nada. "Eu amo você, filha. Lembre-se disso." Annie virou-se e entrou depressa na casa. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X (R, PARA PALAVRAS OFENSIVAS) DOMINGO, 06:25 PM Scully estava sentada na mesa da cozinha quando ouviu o barulho do motor do carro de Mulder entrando na garagem. Ela bebia um chá enquanto esperava que ele voltasse da casa dos Pistoleiros Solitários. Annie ainda não estava em casa e ela sabia que sua família iria se desestruturar quando ela dissesse a Mulder o que tinha que dizer. Ela não poderia prever sua reação, porque fizera a única coisa no mundo que ela não sabia se ele poderia perdoar. Ela havia traído a confiança de Mulder e sabia disso, fora uma escolha consciente, apesar de ter sido imposta. Mulder entrou em casa e foi direto até a cozinha. Ele entrou e parou quando viu Scully sentada na mesa olhando a parede, com o olhar fixo. "O que você está fazendo aqui sozinha?" Ela olhou para ele, entre surpresa e apreensiva. "Pensando..." "Pensando? Em que?" "No que você me disse hoje cedo." "Scully, eu falo tantas coisas pra você, não faço a mínima idéia do que eu disse hoje." Ela olhou de novo para a parede e puxou a xícara de chá para perto de si. "Sobre eu estar estranha." "É, eu acho que você está com algum problema que não me contou." Scully olhou de novo para ele, que se inclinava sobre a mesa em sua direção, para ver melhor seu rosto. "Mulder, senta um pouco. Precisamos conversar." "Sobre o que?" Ela respirou fundo e passou a mão pelos cabelos. "Tem uma coisa que eu não te contei." Mulder sentou-se em frente a Scully, e lançou-lhe um olhar desconfiado. A expressão dela era muito estranha, ele não conseguia lê-la, mesmo depois de todo esse tempo. Geralmente ele era capaz de descobrir o que ela pensava ou queria só de olhá-la, mas não agora. "O que você não me contou?" "Mulder... eu sempre disse que você era a única pessoa em quem eu confiava, não é?" "É... Scully, estou ficando preocupado... aconteceu alguma coisa grave?" Ela olhou para baixo, para o chá dentro da xícara e respirou fundo. "O Canceroso me procurou há uns três ou quatro meses atrás..." "O quê?!" "Ele veio com uma conversa de que os rebeldes alienígenas haviam roubado os fetos híbridos que eles tinham guardados em seus laboratórios, assim como as amostras de DNA de abduzidos. Incluindo as nossas." "E o que você tem a ver com isso, Scully?" Mulder parecia preocupado. Ele tentava prever as palavras de Scully, mas não conseguia imaginar, ou aceitar o que sua imaginação criava para explicar a história que Scully lhe descrevia. "Ele me disse que precisava de Annie para continuar as pesquisas em busca do híbrido perfeito..." "E Gibson Praise? Eles não tinham o DNA de Gibson?" "Foi roubado. E Gibson está desaparecido. Depois de Gibson e Cassandra parece que a coisa desandou por lá, eles não foram capazes de continuar o Projeto porque o Sindicato se desfez. Mas ele me disse que não desistiu de projetar o híbrido perfeito." "Scully..." "Ele precisava de Annie para fazer isso, do DNA dela, e queria usá-la nos testes para saber o quanto ela era compatível. Mas eu disse que nunca iria deixar minha filha se submeter aqueles testes. Ele sabia muito bem disso." Mulder procurava o olhar de Scully com o seu, mas ela desviava, não o olhava diretamente nos olhos. "É muito difícil, quase impossível, encontrar uma criança cujo ambos os pais sejam imunes ao vírus alienígena, por isso um filho nosso é tão importante para eles. Então ele me fez uma proposta..." "Scully, você não vai falar o que eu estou pensando, vai?" Ela olhou diretamente nos olhos de Mulder enquanto falava, desta vez. "Se eu tivesse um bebê, e você fosse o pai, e o cedesse para o Projeto, eu teria sua palavra de que Annie estaria segura, que ela ficaria de fora destes testes. A hipótese de perdê-la me deixou desesperada e eu aceitei." "Você fez o que?" Mulder disse, num tom baixo, contendo sua raiva. "Estive grávida durante dois meses para dar o bebê ao Projeto, para que eles fizessem os testes." "Meu filho?" Ela balançou a cabeça concordando. Mulder cerrou as palmas das mãos e seu corpo se enrijeceu. Ele não acreditara no que acabara de ouvir e ficou em silêncio durante alguns instantes, ruminando as palavras de Scully. "Você teve coragem de entregar seu filho, nosso filho, pr'aquele homem, o mesmo que te enganou várias vezes no passado, por causa de uma promessa que você não sabe se ele vai cumprir?" "Ele me garantiu que..." Mulder levantou-se da cadeira e, apoiando-se na mesa em frente a Scully, inclinou-se em sua direção dando um soco na madeira. "Scully, eu não acredito que você confiou naquele homem! Ele já nos enganou, seqüestrou você, te deu um câncer que você nunca saberá se está totalmente curado! Ele nos viu quase morrer várias vezes sem ao menos mover um dedo pra evitar, como na Antártica, você lembra disso? Se fosse por ele, você já estaria morta há muitos anos! Assim como eu! E você confiou nas promessas dele de que Faith estaria salva e segura?! O que deu em você?!" Mulder foi aumentando sua voz gradativamente, de modo que na última frase ele gritava."Quando ele te procurou?" "Há uns dois meses atrás." "Dois meses?!" "Eu só achei..." "Sabe o que é mais difícil de entender, Scully? Porque você não me contou isso antes? Porque você não pediu a minha opinião antes de fazer uma coisa tão estúpida! Não envolve só você, envolve a mim e a Annie!" "Mulder... você não consegue entender? Annie corre perigo, ela é especial." "E vai continuar em perigo. Isso nunca vai mudar, você sempre soube disso. Por isso deixamos os Arquivos-X, para ter um pouco de paz e segurança para nossa filha." Mulder andou pela cozinha e depois voltou para onde estava. Ele estava furioso, e controlava o impulso de jogar os objetos da cozinha pelo chão. "Porque você não me contou, Scully! Merda, você tem que confiar em mim!! Se você não é capaz de confiar em mim para uma coisa tão importante como essa, imagino a quantidade de mentiras que você já me contou durante todos os esses anos." "Eu nunca menti pra você, Mulder." "E como eu posso saber? Confiança é a base do nosso relacionamento, é a única coisa que eu quero de você, que eu exijo, senão eu não vou ser capaz de continuar um relacionamento com você. Antes de ser minha mulher você é minha amiga, minha melhor e única amiga! Mas se você não pode ser honesta comigo, eu prefiro que acabe." "O que você está dizendo?" "Que eu não quero construir um relacionamento à base de mentiras, eu tenho que saber o que se passa com você, quero entender você. Droga, você não pode agir desse jeito, não é apenas a sua vida, não é assim há muitos anos. Você tem uma filha, você tem a mim! Você não pensou no que eu sentiria, no que Faith sentiria? Que espécie de mãe é você capaz de abdicar do próprio filho?" Scully não conseguiu mais conter as lágrimas que ela tentava impedir de descerem. As palavras de Mulder a machucavam, a faziam sentir-se mesquinha e egoísta. "Mulder... eu queria que você entendesse os meus motivos. É muito mais difícil pra mim tudo isso, foi difícil deixar o outro bebê, mas eu não tinha escolha." "Eu sei que você sente que tem mais responsabilidade sobre Faith porque ela cresceu dentro de você. Sei também que você transfere a angústia de ter perdido a Emily para ela, mas Faith também é minha filha, pelo amor de Deus! Só porque você é a mãe não quer dizer que eu a ame menos e ser o pai não significa ter menos responsabilidade sobre ela! Eu estive lá durante toda a merda do tempo, e se não estive mais você sabe muito bem porque, por conta do mesmo homem que agora lhe faz promessas e você acredita como uma idiota!" "Pára de gritar comigo, Mulder. Você fala como se eu fosse a mulher mais fria do mundo, como se eu não tivesse sentimentos." "Ah, e quem é a mulher que esconde os sentimentos e que finge não se abalar por nada? Hein, Scully? Quanto tempo eu demorei até conseguir tirar de você uma emoção verdadeira? Quem disse que só confiava em mim e em mais ninguém? Não é uma dicotomia, Scully? Você guarda esse tipo de segredo de mim. Agora quem não confia mais em você sou eu." "Mulder..." "Pra mim chega. Eu vou sair daqui, não tenho mais nada pra falar com você." Mulder voltou-se para a mesa, pegou as chaves e foi até a porta, saindo depressa e sem olhar pra trás. Scully sentou-se outra vez e bebeu o que restava de seu chá, sentindo as lágrimas descendo pelo seu rosto. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX QUARTA-FEIRA, 21 DE ABRIL 07:20 AM Já era o terceiro dia seguido que Mulder não falava Scully. Ele ainda estava muito magoado e não queria conversar. Durante o café da manhã ele ficou sentado na mesa da cozinha lendo o jornal, sem ao menos conversar com Annie, como ele sempre fazia. "Mulder, você vem jantar em casa hoje?" "Acho que não." Ele respondeu, sem levantar o rosto do jornal. Annie olhou para ele, depois para Scully. "Vamos, pai. Está na hora." Mulder se levantou, pegou suas coisas e foi para o carro esperar a filha. Annie estava confusa e sentia-se excluída. Ela queria saber o que acontecia com seus pais, mas não tinha a coragem para perguntar. "O que está acontecendo?" Annie finalmente perguntou, quando eles pararam em um sinal de trânsito. "Do que você está falando?" "Você sabe do que estou falando, pai. Porque você está bravo com a mamãe? Por que vocês não falam comigo?" "Faith, é uma história complicada pra você entender, agora não é..." "Papai, não comece com essa história. Eu já sou adulta o suficiente pra entender essas coisas. E eu quero saber o que acontece, droga!" Mulder estacionou o carro próximo ao meio-fio e desligou o motor. Virou-se para a filha e respirou fundo. "Eu já lhe falei sobre o Sindicato, que nos perseguia na época em que eu e Scully trabalhávamos no Arquivo-X?" "Algumas vezes. Você me falou daquele homem que fuma e que fez a mamãe ter câncer." "E ficar estéril. Você sabe que depois da abdução ela teve câncer e perdeu os óvulos, de modo que ela não podia mais ter filhos. Quando ela soube disso, ela ficou arrasada. Claro, ela nunca vai admitir isso, mas eu sei que ela ficou." "E o que isso tem a ver." "Há um tempo atrás eu fui submetido há uns testes em Tunguska, na Rússia, para a elaboração de uma vacina mais forte contra o óleo negro. Scully também recebeu essa vacina quando foi picada por uma abelha que carregava o vírus." Annie ergueu as sobrancelhas e olhou para Mulder, incrédula. Ele sorriu. "Sabe, quando você faz isso fica igualzinha a ela. Do mesmo jeito de quando eu a conheci." Annie sorriu. Ela ouvira dezenas de histórias de seus pais e sempre duvidava se eram verdade ou não. Ela achava divertido quando Mulder contava essas histórias na frente de Scully, que acreditava mas fingia não acreditar. "E o que tem essa vacina?" "Segundo eles, eram a única salvação contra uma invasão alienígena, apenas aqueles que fossem imunes ao vírus poderiam se salvar. Parece meio apocalíptico, mas é isso mesmo. Como eu e sua mãe temos essa vacina no organismo, você também está protegida. Você é uma espécie de super-criança" Annie fez uma careta ao ouvir isso. "Tá bom, uma super adolescente." "E daí?" "Mesmo assim você ainda não é totalmente imune ao vírus alienígena, talvez porque você tenha mais genes da sua mãe, isso eu ainda não entendi direito. Mas um filho meu e da Scully teria chances muito maiores do que qualquer outra criança de ser imune, entende o que eu quero dizer? É uma questão de como o código genético é formado." "Estou ficando confusa" "Se seu código genético fosse alterado e você recebesse DNA alienígena, você seria totalmente imune. Mas Scully nunca concordaria que você fosse submetida às experiências genéticas, ela sabe muito bem o quanto isso é horrível. Até onde ela me contou, ou até onde eu a obriguei a me contar, ela se ofereceu de cobaia para estas experiências." Annie começava a entender as atitudes estranhas de sua mãe. Mesmo assim, toda essa história ainda não fazia sentido. "Mas... e é por isso que você ficou tão bravo com ela?" "Também. Faith, sua mãe engravidou para dar continuidade às experiências e entregou o bebê ao Sindicato. Entendeu agora? Meu filho e seu irmão. Ela não tinha o direito de fazer isso, não sem ao menos me consultar antes. E se Scully não é capaz de confiar em mim para tomar uma decisão tão importante, então não podemos continuar vivendo juntos." Annie abriu a boca para falar, mas não disse nada. Ficou olhando a expressão angustiada de Mulder. Estava óbvio que ele amava Scully mais do que tudo nesse mundo e estava muito magoado por deixa-la. Mas ficar com ela seria muito pior e desgastante. "Vocês vão de separar?" Ela disse, com a voz chorosa. "Talvez um dia eu me arrependa desta atitude, mas se eu continuar morando naquela casa vai ser muito pior. Eu preciso ficar longe dela um tempo." Ela balançou a cabeça, concordando. Os carros na rua passavam por eles em alta velocidade. Annie olhou para frente e falou, sem virar o rosto para Mulder. "Porque ela fez isso?" "Para proteger você. Mas não é essa a questão, o que me incomoda é o fato de ela ter mentido pra mim e de ter acreditado numa mentira." Os dois ficaram em silêncio por mais alguns minutos. O frio parecia aumentar dentro do carro. "Papai, eu quero ir morar com você." "Não. É melhor você ficar com ela, eu não quero que Scully fique sozinha. E ela iria ficar arrasada se você a deixasse também." "Mas eu não quero ficar lá sem você." "Annie..." ele disse, num tom mais áspero. "Faça o que eu estou dizendo." "Tudo bem. Mas você não vai poder me obrigar a estar feliz naquela casa. E quem me garante que ela também não vai me entregar para estas experiências" "Eu sei que ela não vai" "E você sabia também que ela nunca mentiria pra você." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X Mulder deixou Annie na porta da escola e foi para o trabalho. Ele teria duas aulas pela manhã e já estava atrasado quando deixou a filha na porta da escola. Annie esperou o pai se afastar e seu carro sumir na rua antes de se virar para o outro lado e caminhar para o outro lado da rua, bem longe da escola. Ela não queria assistir a aula, queria ficar sozinha com seus pensamentos e tentar entender o que acontecia, organizar os pensamentos e as informações que acabara de receber. "Annie? Annie, aonde você vai?" uma voz gritou. Ela virou-se e viu Hannah, sua amiga, vindo na sua direção. "Aonde você vai?" "Eu não sei ainda. Quero ficar sozinha, Hannah, sai daqui." "Mas as provas estão chegando, você precisa estudar Física." "Não enche, Hannah" Annie andava depressa, seguida pela outra menina, na direção oposta a da escola. "O que aconteceu? Você está bem?" "Não. Droga, me deixa sozinha, vai pra aula!" Hannah parou e Annie continuou andando, sem direção certa, até um ponto de ônibus. Ela entrou no primeiro que passou e sentou-se. Seus pensamentos estavam confusos, com todas as coisas que ela ouvira de Mulder, não sabia direito o que pensar. Não sabia se odiava Scully pela traição a Mulder, ou se sentia orgulhava dela pela coragem de fazer um pacto com o inimigo para protegê-la. Annie abraçou a mochila e abafou um soluço. Não iria se permitir chorar, não na frente das outras pessoas no ônibus, mesmo sendo desconhecidas. Ela era tão igual a Scully e ao mesmo tempo tão diferente! Igual ao ponto de se mostrar forte para todos, mantendo a armadura estóica que ela fazia questão de exibir, mas diferente de forma a se abrir totalmente a Mulder, sem receios. Annie adorava seu pai, confiava nele de olhos fechados e sem titubear. Quando o ônibus chegou ao ponto final, Annie desceu e andou sem rumo. Andou por duas horas seguidas, não se lembrava de ter andado tanto em sua vida inteira mas não tinha vontade de parar. Andou até um parque que ela nunca tinha visto antes e entrou, caminhando por entre as árvores e procurou um banco perto de uns brinquedos onde crianças brincavam distraídas e felizes. Annie observava a alegria do pequeno mundo colorido e cheio de fantasia no qual elas viviam. Ela pensava em quando sua vida também era assim, há poucos dias atrás, quando o passado de seus pais não voltara a fazer parte de suas vidas. O que mais a incomodava era o fato de seu pai sair de casa, ir morar em outro lugar. Mais crianças chegavam para brincar e logo haviam quase vinte, espalhadas pelo lugar, correndo e rindo. Algumas mães as observavam de longe e outras participavam das brincadeiras com elas. Em suas memórias mais antigas Annie se lembrava desta cena, seu pai participando e sua mãe apenas olhando. Scully era, na verdade, uma espectadora da vida da filha, enquanto Mulder era coadjuvante. Isso a irritava. Porque sua mãe não era sua amiga, como a mãe de Hannah, por exemplo? Porque ela fazia questão de evitar longas conversas sobre inseguranças e medos que elas sentiam? Na maioria das vezes ele conhecia Scully pela visão de Mulder, pelas explicações que ele dava sobre seus gestos. "Sua mãe não consegue lidar com esses assuntos, Faith. Ela nunca vai admitir que tem medo de alguma coisa." "Mas porque? Qual o problema, ela também é humana, e tem medo. Ela deve ter medo de admitir que tem medo" fora a conclusão que ela chegara. Annie sentia-se culpada. Fora por ela que Scully mentira para Mulder e se submetera àquelas experiências, porque a amava. Então ela era a culpada da separação de seus pais. Eles estariam juntos de qualquer forma se não tivesse nascido, embora ouvisse quase diariamente de Mulder o quanto ela era importante e o milagre que era seu nascimento, de uma mulher que não tinha mais óvulos. Mas, se ela não tinha mais óvulos, como conseguira engravidar? Certas dúvidas não lhe saíam da cabeça, martelando sem parar e tirando sua paz. A manhã passara sem ser notada. Annie ainda estava no mesmo lugar e as crianças já haviam saído. Ela não queria ir pra casa, para a casa de sua avó, onde ficava todas as tardes depois que saía da escola, até que seu pai fosse buscá-la. Ela saiu do parque e procurou um caminho de volta, mas não necessariamente para sua casa. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X 'Então meu bebê chegou Antes que eu descobrisse a magia De como mantê-la feliz Eu nunca fui a fantasia que você queria que eu fosse Mas não seja tão dura comigo, garotinha, Porque você tem uma mãe corajosa Mas quando você disser a eles o meu nome E quando você quiser atravessar aquela ponte sozinha Garotinha, eles não irão te fazer mal Porque eles conhecem A coragem da sua mãe' (Tori Amos-Playboy Mommy) QUINTA-FEIRA, 22 DE ABRIL 08:40 PM Annie entrou no quarto de Scully e viu que ela arrumava algumas coisas dentro uma mala. Ela se aproximou lentamente e deixou-se perceber por Scully, que continuava indo e vindo colocando e tirando coisas de dentro da mala. Annie ficou parada próxima a cama, observando os gestos daquela pessoa tão idêntica a ela, mas mesmo tempo tão desconhecida. Annie percebeu que não sabia tanta coisa assim sobre Scully, nem sequer entendia porque ela não havia assumido o nome do marido e porque ainda o chamava pelo sobrenome. Mulder dizia que se não fosse assim, eles não iriam morar juntos, que era uma cláusula do contrato. Agora ela via a angústia de Scully, mas não podia fazer nada a respeito, e muito menos se sentia à vontade para conversar com ela. "Mamãe?" "O que foi?" Ela perguntou, sem parar o que fazia. "O que você está fazendo?" "Guardando umas coisas do seu pai." E continuou a ir e vir pelo quarto. "Você e o papai vão se separar?" Scully parou no meio do caminho e olhou para o chão. Seus cabelos estavam sobre o rosto e ela tentava segurar a vontade de chorar. Depois de tantos anos ela ainda amava Mulder e a idéia de perdê-lo destruía seu coração em milhares de pedaços. Scully sentou-se na cama, procurando esconder o rosto do olhar atento da filha, que se aproximou dela. "Seu pai precisa de um tempo pra pensar" Annie sentou-se na cama, em frente a ela e tentava fazer Scully olhá-la. "Acho que está na hora da gente conversar. Eu quero entender porque você faz as coisas do jeito que faz." Scully olhou para ela com uma interrogação no rosto. Franziu as sobrancelhas sem entender o que exatamente ela queria dizer. "Do que você está falando?" "Eu não sou mais criança, já entendo muito mais do que você acredita que eu seja capaz. Eu sei que você magoou muito o meu pai e isso me deixou muito, muito zangada com você. Você mentiu pra ele e pra mim também." "Eu não quero ouvir isso de novo. Se você está pensando em me dar um sermão, eu acho que..." "Ao mesmo tempo eu sei que você fez o que fez porque queria me proteger, mas... você não pode confiar naquele homem. Até eu sei disso, mãe." "Annie... você nunca vai entender. Não até ter filhos, o que eu espero sinceramente que você possa um dia." "Porque você não me explica? Fale comigo, você nunca conversa... ou você está cansada demais ou não se sente à vontade para falar certas coisas comigo." Scully olhou para a filha. Era mais madura do que imaginava ela fosse e sentiu orgulho dela por isso. Annie parecia mais alta também, ela estava da altura de Scully e em pouco tempo estaria mais alta. "O que você quer falar?" "É bom desabafar. Papai sempre fala isso pra mim. Ele deve dizer isso pra você também." "Ele fala." Scully respirou fundo. Falar com Annie era como se conversasse com Mulder olhando um espelho. Era uma pessoa tão igual a ela e tão parecida com Mulder nas idéias e teimosia. Felizmente ela não cismava em ir procurar a verdade lá fora e havia herdado, pelo menos, era o legado que Scully deixara. "Eu estou arrasada, Annie. Não quero que Mulder saia, mas eu não tiro a razão dele em querer sair. Não sei se vou aprender a viver sem ele de novo e não estou disposta a tentar." "Diz isso a ele." "Como se fosse adiantar..." "E se você fosse pegar o bebê de volta?" Scully olhou para Annie e viu Mulder falando. "Vai lá buscar o bebê, quanto tempo demora para terminar o processo de desenvolvimento do feto? Então, ele volta pra cá e vamos viver nós quatro, juntos." O rosto dela se iluminou com a idéia. "Você está louca? Como eu vou saber qual dos bebês é o meu?" "Eles devem ter uma identificação. Vamos, mamãe! Tenho certeza que vai dar certo!" "Annie, isso não é uma brincadeira, não é uma loja onde você se engana em uma compra e vai pegar o dinheiro de volta porque não gostou do produto. Sem falar na segurança, é quase impossível entrar num lugar como aquele..." Annie estava decepcionada. "Você não quer, não é verdade? O que você não contou, o que você está escondendo que não te deixa ir lá e consertar o que você fez?" "Pare de me acusar, já chega. Eu não quero mais falar, vai pro seu quarto." "Fale comigo, mamãe. Você só precisa falar." Scully voltou-se para a mala que estava arrumando e não deu mais atenção à Annie. Ela saiu do quarto da mãe e voltou pro seu, frustrada por não conseguir conversar com Scully, por não conseguir reunir seus pais de novo. Mas iria conseguir, mesmo que levasse tempo. E ela estava disposta e dedicar tempo e esforço nisso. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X QUINTA-FEIRA, 22 DE ABRIL 10:54 AM A campainha tocara na casa de Frohike, Byers e Langly. Aquele grupo de velhos amigos de Mulder ainda mantinha as velhas manias, como monitorar com uma câmera a entrada, usar uma dúzia de cadeados nas portas, entre outros hábitos estranhos. Byers abriu e viu a menina um pouco assustada a sua frente. "Preciso de ajuda. Você pode me fazer um favor, tio Byers?" Ele ficou parado sem ação em frente a ela alguns instantes, antes de dizer. "Entre, Annie. Vamos ver o que podemos fazer." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXX X 07:07 PM Scully estacionou o carro na porta de sua casa e entrou depressa. Ela acendeu as luzes por onde passava e gritava o nome da filha. "Annie? Annie, você está aqui? Annie?" Nada. Ela não estava em casa e nem na casa de sua avó. Tentou a agenda de telefones na gaveta da escrivaninha da filha, procurando por ordem alfabética e ligando para todos os nomes. Sem resultado. Depois de uma longa e desgastante busca via telefone, ela respirou fundo e discou para Mulder. Devia ter pensado nisso antes, talvez ela estivesse com ele. "Alô?" ele atendeu do outro lado. "Mulder, sou eu. Annie está com você?" "Não. Porque, onde ela está?" "Eu não sei, ela não estava na casa da minha mãe e não foi pra escola. Liguei pra todos os amigos dela e não consegui acha-la. Eu não sei o que fazer, Mulder." Nesta última frase ela sentiu uma lágrima descendo pelo seu rosto. "Acalme-se. Vai dar tudo certo. Ligou para Skinner e para os Pistoleiros?" "Não. Annie não sairia sem me avisar, ela nem foi à escola hoje!" "Scully, fica calma. Eu vou ligar para os Pistoleiros e você liga pro Skinner. Depois eu falo com você." Mulder desligou e discou o número dos Pistoleiros. Frohike atendeu no terceiro toque. "Fala, Mulder. Mas porque você está discando de seu antigo apartamento, Scully está fazendo greve, é?" ele deu uma risada. "Frohike, não estou de brincadeira hoje. Annie está aí com vocês?" "Ela veio aqui hoje de manhã pedindo ajuda pra fazer um trabalho de biologia sobre aborto e queria que descobríssemos uns endereços de clínicas e médicos que fizessem isso. Mas foi embora cedo, dizendo que precisava ir para casa, para não preocupar Scully. O que houve?" "Ela não está em casa, nem na casa da avó. Scully não conseguiu achá-la, ainda." "Sinto muito, parceiro, mas ela não está aqui. Se souber de algo eu te aviso." "Obrigado." "E se você precisar de alguma coisa, de ajuda, pode me chamar." "Eu acho que vou precisar mesmo, Frohike. Estou com um mau pressentimento. Tchau." E desligou. Ao mesmo tempo seu celular tocou. "Mulder, ela não está com Skinner. O que eles falaram?" Ele respirou fundo, antes de falar para Scully o que ele ouvira. "Scully, Annie sumiu. Ninguém sabe onde ela está." CONTINUA... XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Feedback, por favor!!!! Aceito sugestões sobre a história e adoraria ouvir o q vcs tem a me dizer sobre minha primeira fic mitológica. Beijinhos! Lucy Mattos