Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Mistério/ Drama Spoilers: Duane Barry ; Ascensão; Por um Fio; Lembranças Finais; Elegia; Em Busca da Verdade( parte 1 e 2); Tithonus. Nome do fan fiction: Um anjo triste perto de mim Resumo: Os agentes Mulder e Scully deparam-se com duas situações distintas, uma em que Mulder procurará pela solução de um caso, e outra em que Scully terá de fazer uma escolha, ambas possuem conexão entre si. Um anjo triste perto de mim Olhou as horas no relógio que trazia ao pulso, os ponteiros marcavam três horas da tarde, porém parecia muito mais tarde, o céu estava nebuloso, encoberto por nuvens escuras e carregadas de eletrostática, o dia estava ameaçador, relâmpagos precedidos por trovões despontavam no horizonte cinzento. Entraram por um caminho de terra e folhas secas, que possuía em suas margens frondosas árvores, estas chacoalhavam com violência devido ao vento gélido e cortante que soprava naquele lugar, o silêncio que habitava aquelas colinas era sepulcral, sendo rompido apenas pelo assobio sombrio da ventania, pelo farfalhar das folhagens das copas e pelo ruído de galhos quebrando conforme os agentes do FBI pisavam no chão. Depois de andarem alguns metros, saíram do caminho de terra escura e batida, seguindo para a quadra que procuravam. Enquanto o agente de olhos amazônicos seguia as sinalizações em busca do que havia ido encontrar, sua parceira ruiva vinha logo atrás, acompanhando-o. Possuía uma feição contrariada. - É aqui! - disse o agente parando de repente, e apontando para o túmulo cuja lápide possuía uma inscrição e um nome: Mathew Bacon. Taran...tarararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora __________________________________________________ Cemitério de Washington 3:20 p.m. O agente Fox Mulder lançou um olhar enigmático para a parceira, preparando-se para profanar o túmulo com a pá, que trazia à mão. - Vamos descobrir se o nosso "amigo" é um fantasma nada camarada ou uma farsa - Mulder tirou o sobretudo e o paletó, entregando-os à Scully, depois ergueu as mangas da camisa. - Mulder, nem preciso lhe dizer que isto vai contra as normas do FBI, e que precisaríamos de um mandado para exumar este corpo que aí está enterrado - encarou-o com uma expressão reprovadora. - Scully, não há tempo para formalidades, há um "fantasma" por aí que já matou uma pessoa, e deixou outra no hospital em estado grave, e a única testemunha do crime afirma Ter sido Mathew Bacon, mas este como você mesma sabe se encontra morto e enterrado há pelo menos cinco meses, pelo menos é isso que querem que nós acreditemos, então, vamos "tirar esta história a limpo"! - Mulder pegou a pá, mas antes de enterrá-la no chão... - Mesmo assim, eu preferiria um mandado, não é certo violar um túmulo desse modo. - Acha que eu também não preferiria um mandado? Acha que gosto de romper com as normas do Bureau? - fitou-a com seus olhos verdes. - Me responda você, Mulder - enfrentou-o desafiante. - Scully, sabe muito bem que tentei pedir um mandado, mas a família deste ...deste "fantasma" - apontou para o túmulo - Nos impediu de fazer a exumação, sabe por quê? Porque eles sabem, são cúmplices, e eu vou provar que não há nada de sobrenatural, de arquivo-x neste caso - voltou as costas para a parceira, pondo-se a cavar o túmulo. Scully balançou negativamente a cabeça, aspirando o ar limpo e fresco da colina, do cemitério desta, possuindo ele uma mistura de aromas, dentre eles o de terra, de pinheiros e de outras árvores, de arruda, rosas, outras plantas e flores, ou seja, cheiro de morte, de cemitério. O tempo foi passando, o céu ficara mais escuro, uma tempestade era iminente, mas limitava-se a ameaçar com trovões estrondosos e relâmpagos, do que se manifestar com a chuva propriamente dita. A agente acomodara-se num tronco de árvore caído, que estava próximo ao túmulo do suposto fantasma. Mulder já havia sumido dentro do buraco que cavara e continuava cavando em busca do caixão. Scully poderia até tê-lo acompanhado, mas não tomaria parte na escavação, mesmo porque se quisesse só havia uma pá, e ela não estaria disposta a disputá-la com seu parceiro, ele que fizesse o trabalho árduo. Scully tentava ler a pasta parda que estava aberta sobre seu colo, mas o vento dificultava a leitura, pois ele brincava com as páginas, folheando-as, a agente não conseguia dominá-las, nem seu cabelo que era jogado de um lado a outro pelo ar revolto. Uma golfada de ar frio atingiu-lhe o corpo, a face pálida, provocando um calafrio a percorrer-lhe toda a espinha. Além do sibilar do vento a romper o silêncio mortal, havia uma música, a mulher ruiva interrompeu a concentração que estava voltada ao documento em suas mãos e aguçou os ouvidos, a música era melodiosa, parecia um lamento, um choro, Scully procurou com os olhos dentre os túmulos a origem daquela música, nada viu, ergueu-se do tronco em que estava sentada, chegando próxima ao buraco onde Mulder se encontrava. - Mulder, está ouvindo? - O que, Scully? - perguntou enquanto erguia o rosto para vê- la melhor. - Esta música - respondeu sem olhar para ele, ainda procurava pela origem dela. - Que música? Não estou ouvindo nada - Mulder voltou sua atenção para o buraco, a pá batera em algo maciço - Scully, o caixão! Ela ignorara o achado dele, passeava os olhos pela colina, ainda podia ouvir a triste música, de onde viria? Seu olhar parou de repente numa imagem dentre as soberbas árvores, era um homem, um senhor muito velho, possuía o corpo miúdo, magro, frágil, seu cabelo e sua barba comprida eram brancos, trazia um chapéu à cabeça e um violino às mãos, tocando-o, tirando-lhe lindas, serenas e tristes notas, parecia um ancião, uma visão irreal, a bela e triste música misturava-se ao cantar, ao assobiar do vento. Enquanto o velho homem tocava seu violino, observava a agente, que parecia fascinada por aquela imagem, por aquela música. Mulder já abrira o caixão de madeira, confirmando o que já sabia. - Não disse, Scully, o nosso "fantasma" é uma farsa - sem haver resposta da parceira, Mulder ergueu a face em busca da amiga, esta estava com o olhar perdido, fixo em algo - Scully?! Está me ouvindo? O velho senhor estava muito longe, distante de Scully, esta percebeu que o homem parecia chorar enquanto tocava o violino, ela sentiu uma tristeza tão profunda, tão dolorosa a invadir-lhe o ser, não compreendia a razão daquele sentimento. O violinista abriu os lábios pronunciando algo que ela não ouvia, não entendia. Mulder pulou para fora da cova e seguiu o olhar de Scully, tentando ver o que tanto chamara a atenção da parceira. - O que está olhando, Scully? - perguntou enquanto olhava as árvores para as quais a mulher de olhos celestiais possuía a atenção voltada - Scully? - Hum? - Scully voltou a face para o parceiro. - O que há com você? - Aquele homem - voltou o rosto novamente em direção às árvores, mas o ancião não mais estava lá. - Que homem? - Ele estava lá agora mesmo perto daquelas árvores - apontou a direção - Ele quem estava tocando aquela música com o violino - a música já havia cessado. - Eu não ouvi música alguma - fitou os olhos assombrados da colega - Você está se sentindo bem, Scully? - perguntou preocupado. - Sim, estou - franziu a testa pensativa, balançando levemente a cabeça como que para afastar os próprios pensamentos, aquele homem devia ser alguém que veio visitar um ente, um amigo querido, e prestar-lhe uma homenagem com aquela música. - Scully, o nosso "fantasma" é um homem de carne e osso - disse apontando para o caixão aberto e cheio de pedras. O agente mal falara e o céu despencou numa tempestade trovejante, as gotas de água, de fúria, caíram com impetuosidade sobre o solo sagrado, resguardo do sono eterno daqueles que lá repousavam, nem houve tempo para Mulder e Scully protegerem-se da chuva, ambos ficaram encharcados, sendo vítimas do temporal e da ventania gritante. _______________________________________________________ Apartamento de Dana Scully 11:00 a.m. Caminhou a passadas largas e rápidas por um corredor até parar em frente a uma porta, apertando a campainha, não houve resposta, tocou o botão com maior insistência, nada, então tirou um molho de chaves do bolso, escolhendo uma dentre elas, quando se preparava para inserir a chave na fechadura da porta, esta se abriu. - Scully, fiquei preocupado - falou o agente aliviado ao ver a parceira. - Acordei agora, Mulder, devia Ter ligado para avisar que não ia trabalhar hoje, mas não consegui, me desculpe - a mulher de cabelos rubis estava vestida com um roupão branco, possuía a face mais pálida do que lhe era comum. - Você não está bem, Scully. Como está se sentindo? - perguntou enquanto entrava no apartamento, dirigindo-se à sala. - Vou me sentir melhor, só preciso descansar - fechou a porta, indo sentar-se em um sofá de frente para a poltrona em que o agente se acomodara. - Deve Ter sido a chuva de ontem - fitou-a - Eu liguei para cá, para o seu celular, ninguém atendia, não é normal você se atrasar ou faltar no trabalho sem avisar, fiquei preocupado. - Eu ouvi o telefone tocar e o celular, mas não consegui, não tive coragem de atendê-los - falou pausadamente, de modo baixo, estava muito abatida. - Desculpe por tirá-la da cama, mas precisava saber se estava bem - observou-lhe a face e os olhos brilhantes, erguendo-se do lugar em que estava, aproximando-se dela - Scully, você está febril! - exclamou depois de colocar a mão sobre a testa dela. - É só uma febre - apoiou a cabeça sobre o encosto do sofá, sentia-se fraca, sem forças. - Onde tem um termômetro? Não vou deixá-la assim, você está muito quente. - Mulder, não é nada, sei o que digo, sou médica - seus olhos ardiam, pesavam, queria muito poder fechá-los - Precisa ir trabalhar, estou bem, pode ir. - Não vou conseguir trabalhar deixando você assim, Scully - fitou-a nos olhos - Onde fica o termômetro? - Ele está sobre o criado-mudo do meu quarto - respondeu por fim, sabia que não adiantaria discutir com o parceiro, além de não Ter ânimo para isso. O agente de olhos verdes voltou do quarto com o termômetro, colocando-o na boca de Scully, sentando-se em seguida ao seu lado. Depois de alguns minutos, Mulder tirou gentilmente o termômetro dos lábios da amiga para ler- lhe a temperatura. - Mulder, não precisa se preocupar, estou bem, sério - sua voz possuía um tom cansado, como se fizesse um enorme esforço para falar. - Não, não está - olhou-a demoradamente com uma expressão preocupada - Precisa de um médico, vou levá-la agora mesmo para o hospital. - Não é necessário. - Claro que é necessário, você está com quase quarenta graus de temperatura, pode ter uma convulsão - ergueu-se do sofá. - Preciso apenas descansar, já tomei um antibiótico - seus olhos resistiam intensamente ao sono com muito esforço, desejava que Mulder fosse embora para poder fechá-los de vez, não queria que o amigo se preocupasse. Uma corrente de ar gélido atingiu o corpo de Scully, fazendo- a tremer, Mulder percebeu. - O que está sentindo, Scully? - agachou-se até ela. - Frio...muito...frio... - encolheu-se. - Vou levá-la agora mesmo para ver um médico! - Não, não preciso de cuidados e preocupações! - Scully, você está doente, não precisa se fazer de forte para mim! - aumentou um pouco o tom da voz. - Está ouvindo a música? - fitou-o nos olhos. - Que música? - encarou-a sem entender. - A música triste do violino...- Scully não mais olhava para o parceiro, mas para algo além dele, era a imagem do velho senhor com o violino - Ele está aqui. Mulder seguiu o olhar da parceira, virando-se, não viu nada, devia estar delirando devido à febre, voltou-se para ela, Scully havia fechado os olhos, o amigo tocou-lhe a testa, uma expressão de terror tomou-lhe a face. - Scully? Scully! - desesperou-se, a fronte dela estava gélida. _______________________________________________________ Hospital Memorial de Washington 3:25 p.m. Um homem elegantemente trajado, com um paletó e um sobretudo preto, ergueu-se da cadeira em que estava acomodado ao perceber o médico se aproximar, este possuía uma expressão séria, preocupada. - Como ela está? Está bem, não é? - perguntou o homem de sobretudo, com um olhar angustiante, apreensivo, temia a resposta. - A paciente Dana Scully - iniciou o médico enquanto lia uma prancheta que trazia à mão - Conseguimos estabilizar a temperatura dela... - Ela está viva - suspirou aliviado enquanto passava as mãos nervosamente pelos cabelos - Está bem? - Receio que não, a paciente se encontra em um grave estágio de coma, um coma profundo em que o paciente deixa de reagir aos estímulos externos, entrando em um estado vegetativo, em um estado mórbido de sonolência profunda, de inconsciência, caracterizado pela perda das atividades cerebrais superiores. - Não pode ser, me recuso a acreditar, há algumas horas ela estava conversando perfeitamente, como do nada ela pôde entrar em coma? - Mulder alterou o tom da voz, o terror e o medo haviam-lhe tomado o peito, as feições. - Talvez a causa seja neurológica, o que me preocupa, mas só terei certeza do diagnóstico depois que a paciente for submetida a uma tomografia e a alguns outros exames. Mulder largou o corpo sobre a cadeira, apoiando a cabeça sobre as mãos, vieram-lhe à mente lembranças de quando quase a tinha perdido, queria esquecê- las, mas os acontecimentos atuais reavivaram-nas, temia pela mulher de cabelos rubis, temia por ele mesmo, pois sem ela, não haveria o porquê de continuar, de existir. _______________________________________________________ - Abra os olhos - uma voz longínqua e calma tentava despertá- la. Seus olhos abriram-se vagarosamente, acostumando-se com a claridade que os incomodara num primeiro momento, quando os abriu por completo, percebeu que estava em pé num campo de lírios, observou ao redor e nada viu, a não ser campos repletos daquela singela flor que se perdiam em todas as direções, voltou a face para o céu, surpreendendo-se com o intenso azul guarnecido de chumaços alvos, as nuvens. Uma sensação de paz e liberdade tomaram-na completamente. Onde estaria? Que lugar seria aquele? - A morada da sua paz - a mesma voz que a despertara, respondera a uma pergunta muda, a um pensamento dela. Scully voltou o rosto em direção àquela voz, vislumbrando o velho senhor que já vira antes. Não sentia na presença dele uma ameaça, mas uma profunda paz. - Quem é você? - Olhe! - apontou para algo atrás dela. Ela se virou, deparando-se não com os campos de lírios, mas com a visão de uma colina verdejante ornamentada por vários, inúmeros túmulos com suas lápides. Quando se deu conta que não estava mais nas belas campinas floridas, mas em um silencioso cemitério. - Quem é você? - perguntou novamente para o ancião, já sabendo a resposta. - Uma das faces da morte - começou a tocar uma música triste, porém tão bela em seu violino, a mulher ruiva notou que o homem chorava enquanto arrancava aquele lamento do instrumento musical. - Por que chora? - não compreendia o porquê das lágrimas, Seria a música? - Venha, segure a minha mão - disse depois de cessar a música, estendendo a sua mão magra, com veias azuladas e salientes - Não tenha medo. Segurou meio hesitante a mão pálida do velho senhor. - Não se preocupe, a escolha não é minha, é sua, você que se decidirá - disse o homem - Vamos. A visão de Scully escureceu. _______________________________________________________ Washington, D.C. Quartel General do FBI 8:30 a.m. Skinner ajeitou os óculos sobre o nariz enquanto o agente Mulder se sentava à sua frente. - Como a agente Scully está? - perguntou preocupado. - Continua em coma, sem responder a qualquer estímulo externo - respondeu o homem de olhos verdes, estava visivelmente abatido. - Encontraram a causa? - Ainda não, farão alguns exames para poder diagnosticá-la - respirou fundo - Já avisei a Senhora Scully. - Acha que pode ser...o câncer que voltou? - encarou-o. - Não sei, mas é melhor que não, senão o Canceroso saberá do que realmente sou capaz!- esfregou os olhos cansado, pois passara a madrugada no hospital. - Melhor ir para casa, não está em condições de trabalhar hoje, agente Mulder. - Não, preciso trabalhar, manter a minha mente ocupada, continuar as investigações do caso Mathew Bacon, ele não está morto. - Como pode afirmar isso? Há provas? - Há, mas preciso me utilizar de meios legais para consegui- las. - Que meios? - Preciso de um mandado para a exumação de um corpo que não existe, porque a morte dele foi uma farsa. - Então, consiga o mandado - Skinner deu a reunião por encerrada - Me mantenha informado sobre o estado de saúde da agente Scully. - Sim, senhor - ergueu-se da cadeira, dirigindo-se à porta. _______________________________________________________ Residência dos Snow 10:00 a.m. O agente estacionou o carro num bairro residencial, caminhando em seguida a uma casa, depois de atravessar o jardim desta, colocou-se em frente à porta, apertando a campainha ao lado. - O que quer? - perguntou o homem que abrira a porta. - Michael Snow? - Sim, sou eu. Quem é você? - Agente Fox Mulder do FBI - mostrou a insígnia - Fui encarregado das investigações quanto ao homicídio de seu cunhado e a tentativa de assassinato de sua irmã, Sarah Mellinger. - Já falei para a polícia tudo que sabia. - Preciso que me conte o que viu novamente. - Entre - deu passagem para o agente, indicando uma poltrona na sala para ele se acomodar - Já prenderam o velho do Mathew Bacon? - Tem certeza de que o homem que viu era ele? - Absoluta! - Sabia que Mathew Bacon morreu há pelo menos cinco meses? - A polícia me falou, mas eu tenho certeza do que vi, deve haver algum engano porque eu vi o velho Mathew, e ele estava bem vivo! E se ele tivesse morrido, acho que eu saberia pelo meu cunhado, apesar que Albert comentou mais de uma vez que o velhote aquietara-se, achava que ele estava doente. - Me conte o que viu naquela noite. - Fui levar umas coisas para a minha irmã Sarah que a minha mãe pedira para levar, e eu tinha que falar com o Albert mesmo, então quando cheguei lá, a porta estava aberta, atravessei a sala, não tinha ninguém, fui para a cozinha, e vi o Mathew agachado perto dos...- passou a mão pelo rosto nervoso - A Sarah e o Albert estavam caídos no chão, havia sangue para tudo quanto era lado, eu gritei e saí correndo para buscar ajuda. - De onde conhecia Mathew Bacon? - Oras, ele é vizinho da minha irmã, quero dizer, foi, nem sei mais, agora que estão dizendo que ele morreu. - Sua irmã e cunhado se davam bem com ele? - Para falar a verdade nem sei, mas o velhote tirava às vezes o Albert do sério com aquela mesma música. - Como assim? - Tinha vezes que o velho Mathew tirava o dia só para tocar uma mesma música naquela droga de violino, tudo bem que uma, duas vezes até que vai, afinal ele tocava bem, mas o dia inteiro, sei lá quantas vezes por semana, haja paciência! - Violino? Você falou "violino"? - veio à mente de Mulder a imagem de Scully. - Sim, tenho de admitir que as vezes que o ouvi tocar, não pude deixar de admirá-lo, pois a música era tão triste, tão bela, que até para um insensível como eu, era difícil não se emocionar. Mulder ficara pensativo, seus pensamentos divagavam dentre as lembranças. - Agente Mulder, tudo bem? - Michael percebera a distração do homem de olhos verdes. - Obrigado, senhor Snow - levantou-se - Qualquer coisa que venha a se lembrar, mantenha-me informado - entregou um cartão para o outro. O agente caminhou em direção ao carro enquanto refletia: Não pode ser, não havia um corpo naquela cova, eu mesmo vi, onde estaria o corpo? Onde estaria Mathew Bacon? Estaria mesmo vivo? Estaria morto? Ah, Scully, por favor, volte...quero acreditar que seja apenas uma coincidência. _______________________________________________________ Um homem corria meio trôpego pelos entulhos com uma criança nos braços, olhava para trás enquanto fugia de algo, a menina que estava no colo, possuía a face suja e marcada pelos caminhos das lágrimas. A escuridão dissipara-se dos olhos azuis de Scully, permitindo-a ver aquelas duas feições, sentia-se como uma espectadora a assistir a um filme. - Quem são? Do que estão fugindo? - Scully perguntou para o ancião ao seu lado, não conseguia ver do que o homem fugia. - Vire-se para o outro lado e verá - sua voz era impassível, indiferente. Ela se virou, deparando-se com uma cena de atrocidade, não porque mostrasse corpos mutilados, empilhados como lixo, mas sim, por revelar as expressões de medo, de dor e revolta que estavam estampadas nas faces daqueles que ainda continuavam vivos. - O que choca, senhorita, não é o grotesco, como corpos esquartejados, mutilados, mas o aterrorizante é o sofrimento nos rostos - depois de falar, o velho senhor pôs-se a tocar o violino. Scully voltou-se novamente para ver o homem e a criança que fugiam, mas o que viu foi uma imagem familiar, uma cicatriz na história da humanidade, uma criança vietnamita corria nua com as queimaduras a mostra pelo corpo e o pavor estampado em sua face tão distorcida pelo medo. - Devido a esta imagem, como a senhorita mesma deve saber, que foi de impacto internacional, deu-se o fim da Guerra no Vietnã, lamento que tenha sido preciso uma criança sofrer queimaduras tão graves e sair correndo das bombas, gritando de dor e pavor para que o mundo pressionasse o governo dos EUA a retirar seus exércitos - falou com ressentimento e ironia enquanto segurava o violino silencioso nas mãos. - Por que está me mostrando tudo isso? - a mulher de cabelos rubis possuía os olhos brilhantes e avermelhados. - Estas imagens não são algo que queiramos guardar ou lembrar mas, que é preciso para lembrarmos as atrocidades de que o homem é capaz e para refletirmos quanto as nossas ações e as dos seres humanos. - Ainda não entendo, sei de tudo isso, por que quer me mostrar as tristezas que sei existir? - Sabe? Veja! - indicou uma direção com o indicador. Dirigiu sua atenção para o local indicado, vislumbrando um homem conhecido, tendo o corpo envolto por panos simples, usando um óculos de aro frágil e fino, possuía a pele escura, a cabeça lisa, era uma figura magra, mas tão forte em sua essência. Caminhava dentre a multidão de pessoas. - Reconhece? - Sim, Mahatma Gandhi - respondeu num sussurro admirada pela imagem. - A Grande Alma, aquele que conseguiu a independência da Índia, do seu povo do domínio britânico, utilizando-se de meios não violentos, uma luta sem armas - fez uma pausa - Admirado por todas as nacionalidades e credos, chamado também de a consciência do mundo, mas isso tudo é tão sem sentido. - Por que diz isso? - Veja por si mesma. Voltou a face para a multidão de indianos, vendo o corpo de Mahatma caindo, morrendo. - Como é fácil tirar uma vida, como é fácil matar a nossa consciência, não acha, senhorita? O mundo está perdido, para que continuar? - Não se deve desistir de lutar, de melhorar, Ghandi não desistiu - seus olhos estavam úmidos. - Não somos Ghandi! Veja aquelas expressões cadavéricas, com os olhos saltados das órbitas, profundos sulcos nas faces, aquelas pessoas, aqueles homens e crianças estão minguando a cada segundo que passa, e não é só por causa das guerras civis e da fome que os assolam - a cena havia se deslocado da Índia para um país africano, a Etiópia - Também temos nossa parcela de culpa, todos somos culpados, olhe aquela criança que suga o seio de sua mãe em busca de leite, mas ela está seca, está morta. - Pare!!! Não quero mais ver nada! - dessa vez lágrimas deslizavam pela face de Scully. - Vamos voltar, venha, me dê sua mão. Tudo escureceu novamente. _______________________________________________________ Residência dos Bacon 1:00 p.m. A mulher de cabelos acinzentados, e algumas mechas prateadas, caminhou até a porta cuja campainha tocara estridente, abrindo-a e deparando-se com um homem alto, de olhos amazônicos. - Sou agente Fox Mulder do FBI, preciso fazer algumas perguntas sobre o senhor Mathew Bacon - mostrou a insígnia - É a filha dele? - Sim, sou Amanda Bacon, entre por favor. Já acomodados em confortáveis poltronas na sala de estar que possuía uma decoração antiga e um odor envelhecido, o agente resolveu dar início às perguntas. - Senhora Bacon, sabe que seu pai foi acusado de atacar os vizinhos ao lado, Sarah e Albert Mellinger... - O que é um absurdo! Pois, meu pai está morto e enterrado! - exclamou a mulher de uns cinqüenta anos, visivelmente revoltada. - Uma testemunha afirma tê-lo visto na cena do crime. - É uma blasfêmia contra a memória de meu pai, ele morreu há cinco meses depois de um ataque cardíaco, como podem querer jogar a culpa em cima de um morto? - Então, se ele está morto porque a senhora e a sua família estão tão relutantes em não autorizar a exumação do corpo de Mathew Bacon? - Meu pai era uma pessoa decente, muito boa, apesar de ser triste, jamais faria mal a qualquer um que fosse. - Seu pai era triste por que? Tinha depressão? - Ele sempre foi um pessimista, um desenganado com o mundo, o que o prendia à vida, era minha mãe, mas ela se foi, e a tristeza que já existia se intensificara - suspirou meio triste - Meu pai se dizia uma pessoa infeliz, porque o mundo era infeliz, não temia a morte, parecia até buscá-la nas músicas tristes que tocava no violino. Mulder ficara calado, apenas ouvindo e observando a senhora à sua frente. - Quando mamãe falecera há dois anos, pensei que papai se mataria, mas não, ele passou a amaldiçoar cada dia de sua vida, maldisse deus, porque ainda estava vivo sofrendo num lugar sem salvação, engraçado. - O que é engraçado? - Papai dizia que quando morresse, se tornaria um anjo, e ajudaria aqueles que como ele, também desacreditavam na vida, no mundo, nas pessoas, a descansarem de tudo, a encontrarem a sua paz. Papai perdera praticamente a razão depois que mamãe morrera, onde já se viu, ser um anjo, só se fosse um anjo triste - forçou um sorriso. - Talvez ele achasse que estava ajudando Albert Mellinger... - O que quer dizer? Meu pai está morto, se é preciso autorizar a tal exumação para que deixem a memória e a honra dele em paz, então, irei autorizar para verem que ele está lá, morto e enterrado, estou cansada de responder as mesmas perguntas, não posso mais, vou autorizar - ergueu-se da poltrona, finalizando o assunto. _______________________________________________________ Cemitério de Washington 4:00 p.m. Havia quatro homens ao redor da cova aberta, dois deles puxavam o caixão maciço do buraco, o agente observava tudo acompanhado pelo legista encarregado que estava ao seu lado. Mulder sabia que não havia corpo algum, mas para chegar a esta conclusão, havia se utilizado de meios nada ortodoxos, violado o túmulo sem permissão. Agora, tendo um mandado, apenas legalizaria o que já sabia, possuindo uma prova de que não há um corpo, dando margem a especulações, sendo uma delas a de que Mathew Bacon não estaria morto e seria o possível responsável pelo crime. Depois que o caixão foi posto sobre a superfície, o médico legista ordenou: - Vamos levá-lo para o necrotério de Quântico. - Acho que não será preciso, agente Byron, só precisamos nos certificar de que não há um corpo aí dentro - Mulder apontou para o caixão - Vamos abri- lo aqui mesmo. - Agente Mulder, isso vai contra as normas do Bureau, precisamos de um local adequado - ajeitou nervosamente os óculos sobre o nariz - E como pode Ter certeza de que não há um corpo aí? - Eu assumo a total responsabilidade, agente Byron - Mulder ignorara a pergunta do legista, voltando-se para os outros dois homens - Abram a tampa, vamos ver o nosso "fantasma". Os homens obedeceram, deslacraram o caixão, abrindo-lhe a tampa, um odor de carniça alastrou-se pelo local, Mulder aproximou-se para ver melhor. - Como? Impossível! - um corpo em estado de putrefação encontrava-se no caixão - Fechem a tampa - virou-se para o agente Byron - Quero que se certifique se este corpo é realmente de Mathew Bacon. _______________________________________________________ Hospital Memorial de Washington 6:00 p.m. O agente percorreu um corredor branco e bem iluminado, entrando em um quarto, olhou ao redor, a cama estava vazia, não havia ninguém lá, sentiu o peito comprimir-se, saiu apressado pelo corredor em direção à recepção. - Por favor, onde está a paciente Dana Scully do quarto 21? - perguntou nervoso à recepcionista. - Fox? - uma voz familiar chamou a atenção de Mulder. - Senhora Scully, onde ela está? - perguntou enquanto se aproximava dela. - Não se preocupe, o médico a levou para fazer alguns exames. - Houve alguma mudança no estado clínico dela? - perguntou visivelmente preocupado. A senhora Scully limitou-se a menear a cabeça negativamente. - Faz tempo que a levaram? - Faz - respondeu enquanto se sentava numa das cadeiras do corredor. Mulder acompanhou a senhora Scully, sentando-se ao seu lado. - Já fizeram a tomografia e alguns outros exames de manhã - falou olhando para as mãos. - Descobriram algo? - Mulder tinha medo da resposta, temia que o câncer tivesse voltado. - Não, o médico disse que os exames não apontaram nenhuma causa aparente, nem mesmo a tomografia, está tão intrigado quanto eu, não entendo, cheguei a pensar que fosse o câncer que tivesse retornado, mas não, não consigo entender o estado de minha filha, Dana estava tão bem, de repente sou avisada de que está em coma e não sabem a causa, não entendo - balançou a cabeça consternada. Mulder também não conseguia compreender, porém estava aliviado em saber que o câncer não voltara, tinha de haver uma causa para o estado de Scully, de repente um pensamento do agente encheu-o de terror: E se a causa estivesse além do alcance da ciência, da medicina? Será que Scully realmente vira Mathew Bacon? Será que a música triste da qual ela falara era a música da morte? A música do violino de Bacon? Já havia tido estes pensamentos quando conversara com Michael Snow, e que vieram a se intensificar após a visita à senhora Amanda Bacon, mas tentava afastá-los, e se Mathew Bacon estivesse realmente morto, não conseguia compreender como aquele corpo havia ido parar lá. Pensou se tratar de uma fraude, que a morte fora armada para conseguir o dinheiro do seguro, que ele mesmo verificara se tratar de uma quantia exorbitante, mas enganara-se, aquilo não era um caso comum, era um arquivo-x, e temia que aquele caso tivesse alguma conexão com o estado da parceira. O toque do celular despertou o agente de olhos amazônicos de suas divagações, pediu licença para a senhora Scully que também estava reflexiva, indo atender o aparelho. - Mulder. - Agente Mulder, é o Skinner, fui informado de que a vítima Sarah Mellinger saiu do coma. - Obrigado, senhor. Vou agora mesmo tentar esclarecer este caso. - Mantenha-me informado. - Sim, senhor - desligou o celular. _______________________________________________________ 7:00 p.m. Um homem trajando um jaleco branco acompanhou o agente até o quarto em que a vítima Sarah Mellinger se encontrava. - Senhora Mellinger, este é o agente Fox Mulder de que lhe falei - apontou para o homem ao seu lado - Ele veio aqui para fazer algumas perguntas. A mulher de cabelos escuros e olhos caramelos repentinamente desatou a chorar. - Senhora Mellinger, não precisa responder a nenhuma pergunta se achar que não está bem, que não está preparada - o médico utilizou- se de um tom calmo, reconfortante. - Não, eu quero, eu preciso falar...- sua voz saiu num sussurro. - Então, deixarei a senhora com o agente Mulder - o homem de jaleco branco retirou-se do quarto. Sarah encarou o agente depois de alguns minutos em silêncio, com os olhos repletos de lágrimas, e falou numa voz estrangulada: - Eu fui ...a culpada... - soluçava - Eu matei o Al - levou as mãos ao rosto. - Por que diz isso? O que aconteceu naquela noite? - Mulder perguntou num tom calmo como se falasse a uma criança, pois a mulher estava debilitada tanto psicológico quanto fisicamente. A mulher possuía a feição pálida de abatimento, respirou profundamente como se retirasse força, coragem do ar à sua volta para recordar a noite do acontecimento. - Eu estava na cozinha preparando o jantar, Albert chegara que nem um furacão em casa do trabalho, gritando, nervoso - seus olhos estavam isentos de qualquer expressão, perdidos em lembranças - Começamos a discutir. - Por que ele estava nervoso? Por que discutiam? - Eu...ele havia descoberto que...Ah, que vergonha, meu Deus! - O que Albert havia descoberto? - Eu estava me encontrando com...outro homem...- seus olhos caramelos brilhavam devido às lágrimas que neles pendiam - Ah, Deus, ele estava tão furioso, tão magoado... - sua voz tornou-se quase inaudível. - O que aconteceu enquanto vocês discutiam? - Ele estava tão cego de ódio que pegou uma faca, que eu estava usando para cortar a carne, de cima do balcão da cozinha, e...- fez uma pausa - ...me esfaqueou, ele não queria Ter feito aquilo, vi nos olhos dele o arrependimento, o desespero, eu caí no chão, mas antes de perder os sentidos ainda pude vê-lo...- iniciou um choro convulsivo. - O que viu, senhora Mellinger? - Eu o matei...ele pegou a faca - enquanto falava, imitava os gestos como se estivesse representando uma cena - Voltando a faca para si mesmo, segurando o cabo com as duas mãos, e enterrando-a em seu estômago, depois tirou a faca do corpo num golpe só e arremessou-a longe, em seus olhos eu pude ver lágrimas, dor, ele me amava tanto...eu o matei!!! - Isto explica apenas as digitais dos dois na arma do crime - falou num murmúrio, pensando alto. - Eu o matei, não foi, agente Mulder? _______________________________________________________ Abriu os olhos novamente, vendo os infindáveis jardins de lírios, uma sensação de paz a invadiu, porém uma tristeza profunda a atingira. Sentiu uma brisa suave a beijar-lhe a face, e com ela ouviu um lamento, a música triste do violino. - Agora, senhorita, me diga se há motivo para rir, para sorrir - o velho senhor estava atrás dela - É por tudo aquilo que viu que eu choro. - Eu morri? - perguntou calmamente. - Ainda não. - Por que a morte me escolhera, é chegada a minha vez? - encarou os olhos de um intenso azul-violeta do ancião. - Não a escolhi, a senhorita me procurou. - Eu jamais procuraria a morte - possuía uma expressão de surpresa no rosto pálido. - A senhorita, não procura descanso? Paz? - Procuro . - Então, o que é a morte senão poder finalmente fechar os olhos, descansar e encontrar paz? _______________________________________________________ 2:30 a.m. Scully estava deitada sobre a cama, cujo quarto se encontrava imerso nas sombras, na escuridão, a porta do local abriu-se lentamente, permitindo que a claridade do corredor invadisse o ambiente por poucos segundos, até fechar-se novamente. Mulder entrou vagarosamente no quarto, aproximou- se de onde a mulher de cabelos rubis repousava, observou mesmo na penumbra a face pálida e adormecida dela, sentando-se em uma cadeira ao lado do leito. Inclinou-se suavemente sobre Scully, beijando-lhe a testa e tocando-lhe as mãos com as suas. - Scully - iniciou num sussurro - Quanto mais você permanece nesta cama, neste sono sem fim, mais distante sinto você ficar, por favor, volte - encostou a cabeça na cabeceira do leito - Ninguém sabe dizer o porquê de estar assim, me sinto tão impotente em não poder fazer nada... não sei como lutar contra o que a está afastando de mim, senão eu lutaria até a exaustão... não dê ouvidos a ninguém que queira fazê-la desistir da vida, não desista, por favor...Não deixe que nenhum anjo triste a convença de que no mundo não há mais esperança... _______________________________________________________ - A senhorita já se deparou com outras faces da morte, pelo menos três vezes, e em todas conseguiu escapar, numa das vezes, um anjo disfarçado de enfermeira a ajudou a se decidir pela vida, no segundo encontro com a morte, um homem adiou a sua ida ao trazer-lhe a cura de um câncer, e por fim uma pessoa foi no seu lugar, mas agora não há nenhum anjo, nenhuma pessoa para ajudá-la, dessa vez a decisão é só sua, sem qualquer influência. - A escolha da minha morte cabe a mim? - Sim, somente a você, e eu estou aqui para convencê-la a vir comigo - fitou-a nos olhos - A senhorita tem medo de mim? - Não - respondeu segura. - Então, você não teme a morte, também não há motivo para temê-la - sorriu serenamente - A morte, senhorita, é como se você pudesse, depois de um longo dia de trabalho, fechar os olhos para todas as misérias e tristezas humanas e finalmente descansar. - Estou tão cansada, a busca que se tornou a minha vida parece não Ter fim, parece uma luta já perdida, estou tão cansada - sentiu sua voz diminuir, a tristeza inundar-lhe a alma. - Eu sei, querida, por isso vim até você - falou numa voz acalentadora, paternal - Sei que está em dúvida quanto ao fato de continuar vivendo, quanto à razão de sua existência, pois perdera a noção de si mesma, os seus objetivos e ideais, às vezes a tristeza vem não sabe de onde e se aloja em seu peito, atormentando-a com dúvidas relativas às suas escolhas, já perdeu tanto, chega de se machucar, venha comigo, não quer descansar? - Quero...- respondeu num murmúrio, as lágrimas deslizavam tímidas pela sua face. - Este mundo está perdido, não há salvação, não há pelo que lutar, você viu a triste miséria humana, para que resistir? Só há tristeza... _______________________________________________________ - Não faça isso comigo, Scully - Mulder possuía os olhos verdes úmidos - Você não vai antes de mim! Não pode desistir, Scully, a tristeza é passageira, e sempre há esperança, não deixe que espíritos tristes, pessimistas a façam desistir como eles o fizeram - fechou os olhos por alguns segundos - Volte, senão for por você, volte pela sua família, por aqueles que a amam. A tristeza é passageira, nem tudo é para sempre, a não ser...você...para...mim. O agente passou a mão pelo rosto, secando-o. - Não dê ouvidos a ele, sei que é ele quem a está mantendo neste sono mórbido, ele é um ser triste que leva aqueles que se sentem como ele, tristes, sozinhos, perdidos, mas eu estou aqui e serei sua luz na escuridão para que não se sinta perdida, por favor, me ouça, não desista! _______________________________________________________ - Venha - estendeu a mão de veias azuladas para Scully - Segure a minha mão, venha encontrar aqueles que você ama e perdeu, venha, vamos descansar. - Não sei, eu quero tanto. - Então, venha. O que a impede? - Não posso desistir. - Não é desistir, é descansar, Ter paz. O que quer? Continuar vítima da tristeza? - A tristeza é passageira... - É o homem alto que a impede, não é? - possuía a testa franzida. - Ele precisa de mim, preciso protegê-lo, mantê-lo em sua busca. - Uma busca que não é sua! - Se tornou minha também! - Você mesma disse que era uma luta perdida. - Não, eu disse que parece uma luta perdida, não quer dizer que seja, estou cansada, triste, por isso disse aquilo, mas a tristeza passa, e eu preciso continuar, voltar por mim e por Mulder - suspirou - Sei que se eu segurar a sua mão não haverá mais volta, e por mais que você diga que não estarei desistindo, não é verdade, estarei sim, e pior, abandonando quem mais confia em mim. - Já fez a sua escolha - disse, abaixando a mão. - O senhor não sabe o quanto eu queria poder descansar, encontrar a minha paz, mas há alguém que precisa de mim para que não seja tentado pela morte assim como eu. - Senhorita, você já encontrou a sua paz e ele também - sorriu meio triste, pondo-se a tocar o violino. Antes que Scully pudesse falar, tudo escureceu. _______________________________________________________ O homem de olhos amazônicos segurou a mão pequenina de Scully, adormecendo na penumbra e no silêncio do quarto, ao lado do leito, acomodado em uma cadeira. Mulder sentiu um leve movimento, abrindo os olhos e deparando- se com a amiga ainda adormecida, um sorriso discreto surgiu em seus lábios ao perceber que a mulher de cabelos rubis segurava a sua mão, e não somente ele a dela. - Seja bem vinda - murmurou enquanto tocava a pele pálida da face dela com as pontas dos dedos, contemplando-a em seu sono não eterno, mas passageiro, pois ela reagira, voltara, e logo acordaria para prosseguirem juntos numa luta, cujo final ainda estava por ser traçado por eles, por todos. _______________________________________________________ Cemitério Estadual 3:35 p.m. Sarah Mellinger e seu irmão, Michael Snow caminharam por sobre a grama verdejante até pararem em frente a um túmulo, cuja lápide possuía o nome Albert Mellinger inscrito. - Sarah, não entendo o porquê de você querer vir aqui, este homem quase a matou - Michael apontou para o túmulo. - Errado, Mike, eu o matei, ele me amava e eu o traí - abaixou-se até o túmulo, colocando um buquê de lírios da paz sobre ele - Por que só percebemos que éramos felizes quando destruímos a nossa felicidade? - Boa pergunta, Sarah. - Sei que você não vai acreditar porque eu o traí, mas eu amava muito Albert - encarou o irmão com os olhos repletos de lágrimas. Michael olhava ao redor distraído. - O que foi, Mike? - perguntou a irmã. - Isto aqui está cheio! - Cheio? De que? - Ora, Sarah, de pessoas que vieram visitar seus mortos. - Mike, não há ninguém aqui, só nós dois. __________________________________________________ A Via Láctea (Renato Russo/ Legião Urbana) Quando tudo está perdido Sempre existe um caminho Quando tudo está perdido Sempre existe uma luz Mas não me diga isso Hoje a tristeza não é passageira Hoje fiquei com febre a tarde inteira E quando chegar a noite Cada estrela parecerá uma lágrima Queria ser como os outros E rir das desgraças da vida Ou fingir estar sempre bem Ver a leveza das coisas com humor Mas não me diga isso É só hoje e isso passa Só me deixe aqui quieto Isso passa Amanhã é um outro dia não é Eu nem sei por que me sinto assim Vem de repente, um anjo triste perto de mim E essa febre que não passa E meu sorriso sem graça Não me dê atenção Mas obrigado por pensar em mim Quando tudo está perdido Sempre existe uma luz Quando tudo está perdido Sempre existe um caminho Quando tudo está perdido Eu me sinto tão sozinho Quando tudo está perdido Não quero mais ser quem eu sou Mas não me diga isso Não me dê atenção E obrigado por pensar em mim Fim