Autora: Tayana Classificação: shipper Censura: 16 Spoiler: - Sinopse: Um caso apresenta-se aos agentes durante um período conflituoso. Scully descobre que tem outro caminho a seguir. Não sabe, realmente se precisa do parceiro. Ele não sabe se pode ficar sem ela. O ceticismo de Scully é posto à prova e os sentimentos dela também. Obs.: Aos que entendem de magia, das Tradições, e dos rituais, peço que considerem o assassinato que cometi com a história no que se refere às tradições das bruxas. Fiz a coisa de modo à encaixar na fic. É tudo baseado no livro Brida de Paulo Coelho, sem desrespeitar os devidos direitos autorais. Foi só pra inspiração. Disclaimer: As personagens presentes nessa fanfic são de propriedade de CC, da 1013 e da Fox Network. Utilizados apenas com o intuito de divertir os milhões de fãs. Sem fins lucrativos. Feedbacks: tay.fm@bol.com.br. Por favor, é minha sétima fic e nunca recebi um e-mail. Preciso saber se escrevo tão mal assim. Escrevam falando o que quiserem, ou apenas para manter um contato e bater uns papos A Mágica das Vidas Os olhos azuis perscrutavam toda a extensão da floresta que se abria à sua frente. Corria sem rumo e mancava cada vez mais. Os latidos vinham de um ponto que ela não mais podia definir. Estava perdida naquele emaranhado de árvores desfolhadas pelo inverno. A longa saia negra atrapalhava seus movimentos e um galho foi o suficiente para derrubá-la. Já não podia mais levantar-se. Gemeu, pois o corte do tornozelo estava cada vez maior. Levantou a saia. O corte estava aberto até quase a batata da perna. Rasgou um pedaço da longa capa negra e amarrou-o ao ferimento. O frio intenso começou a congelar-lhe. Ela perdia o domínio sobre seu corpo e sua mente. Ajeitou-se, sentada, apoiada a um tronco. Cubriu a cabeça com o capuz da capa e ajeitou os longos cachos ruivos. Precisava destrair- se. Não podia lembrar das últimas horas, pois aquilo a enfraqueceria. Precisava de força, mas já não tinha de onde tirá-la. Achou melhor não continuar enganando-se. Permitiu que o corpo e a mente agissem como o de uma pesssoa normal. "Ao menos uma vez." – ela pensou. Deitou e ficou observando o vapor que saía de sua boca e perdia-se na noite escura e gélida. A Voz a fez tremer: "Chegou a hora, Amih." – ela fechou os olhos tentando distrair-se. "Não há porque fugir. Você sabe que é assim." – a outra Voz prosseguiu a tortura. "Você vai morrer. Morra com honra." – a terceira Voz completou. Ela levantou-se, fazendo um imenso esforço, e caminhou até onde sua alma a levou: uma clareira. "Todas as florestas são iguais. Basta conhecer uma e deixar que sua alma a guie por todas que encontrar. Sempre há uma clareira. Assim também é com os homens." – ela lembrou-se das sábias palavras. Lá sentou-se, pois não podia ajoelhar, e iniciou uma reza cantada. Só parou quando ouviu os latidos muito próximos. Abriu os olhos. Encarou os soldados na entrada da clareira. "Bruxa maldita!" – eles gritaram ao avistá-la. Ela fechou os olhos e sentiu a dor lancinante tomar seu peito, quando a pólvora penetrou em seu corpo e levou-lhe a vida. Não conteve o último grito: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "Ah..." – Scully gemeu e levantou-se bruscamente. Levou a mão ao peito instintivamente. Não havia nenhum ferimento. Levou-a ao tornozelo. Nada, também. Certificou-se de que estava em seu quarto. Voltou a respirar. Deitou-se, devagar. "Só mais um pesadelo, Dana." – tentou convencer-se. Levou a mão ao relógio e verificou a hora: 6:17 a.m.. Resolveu esperar o horário de ir para o Bureau na cama. Estava extremamente cansada. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "O que houve, Scully?" – Mulder perguntou assim que ela adentrou a sala do porão. "Nada." – ela balbuciou irritada. "Nunca se atrasa." – Mulder completou, apontando a porta e apanhando seu sobretudo. "Acordei durante a noite e acabei desligando o despertador. Perdi a hora." – ela explicou, seguindo-o. "Outro pesadelo?" – ele perguntou. "É." – ela evitou o assuntou. - "Onde vamos?" "Skinner tem algo importante para nós." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "Agentes, é um caso delicado." – o Diretor Assistente passou a pasta à Scully. – "A República da Irlanda pediu ajuda aos Estados Unidos para resolução de catorze desaparecimentos." "Irlanda, senhor?" – Scully perguntou. "Sim. República Irlandesa. O Eire. A polícia e o serviço especial de lá não conseguiram resolver nada. Pediram apoio aos E.U.A. e, por questões diplomáticas, o F.B.I. foi desiguinado para a ajuda internacional. Agora o caso está em nossas mãos." "Que tipo de desaparecimentos, senhor?" – Mulder perguntou, dirigindo um sorriso inigmático à parceira. "Sequestros terroristas, provavelmente, Agente Mulder. Ninguém falou em abduções." – Skinner cortou os pensamentos do Agente. "O Exército Republicano Irlandês, senhor?" – Scully perguntou, contendo um sorriso que se formara após notar a expressão desgostosa de Mulder. "Não. Ou melhor, é pouco provável. Para ser mais exato, foram catorze mulheres que desapareceram. Entre elas, católicas e protestantes. O IRA não assumiu a autoria dos crimes. Aconteceu há cinco dias, exatamente. Sete mulheres numa noite, sete na outra. Em dois dias seguidos. Nenhuma pista. Ninguém viu nada. Não pediram resgate. Por isso precisam de ajuda. Não há um ponto de partida. Eu creio que vocês dois possam descobrir algo, trabalhando em conjunto com a polícia irlandesa." – Skinner notou a troca de olhares. Aguardou. "Já marcaram as passagens?" – Mulder perguntou. "Pro fim da tarde... Bom trabalho, agentes." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx A noite sobre o Atlântico era calma e limpa. Ainda faltavam algumas horas para chegarem à Ilha Irlandesa. O vôo silencioso, provocava uma sonolência que corroía Scully, mas ela evitava dormir. Não queria ter outro pesadelo. Fitou o parceiro que dormia na poltrona ao lado. Sorriu, sem perceber, analisando o rosto bonito e relaxado. Ficou algum tempo desejando aquela boca. Finalmente, as pálpebras pesaram e ela teve que render-se ao cansaço. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx As correntes cingiam-lhe o pulso a ponto de formigar as mãos. Percorria os corredores escuros e mofados, arrastada por dois soldados. Chegaram a uma escada em caracol e subiram. Percorreram mais corredores. Uma pequena porta abriu-se. Ela respirou profundamente ao notar o que se apresentava à sua frente. Uma multidão de nobres, ao verem-na, iniciaram as vaias e as maldições. Ela ergueu o queixo em sinal de orgulho e prosseguiu até o balcão. À sua frente, bispos, padres, seminaristas. "Proteja-me, Mãe." – ela susurrou. "Ajoelhe-se."- o bispo iniciou. Ela manteve-se estática, encarando o Conselho. – "Ajoelhe- se!" – e diante da falta de reação da mulher, o soldado bateu com o cabo de uma lança em seus joelhos, fazendo-a arquear e, finalmente, ajoelhar-se de dor. – "Tu estás aqui, no Tribunal do Santo Ofício, condenada por heresia e bruxarias. Tu renegaste teu Pai e renegaste a Santa Madre Igreja. Serás punida, pois no Reino do Pai não há lugar para hereges e infiéis. Expulsaremos o diabo dos domínios do Pai. Tu, como mensageira do Anjo Negro, arderás no fogo do inferno." – a sentença foi acompanhada de gritos e imprecações dirigidos à "bruxa", que manteve-se em silêncio, cabeça erguida. – "Tu terás o direito de pedir perdão e confessar-se, para que, arrependida, honre o corpo que Deus lhe deu. Pois não há alma que se possa salvar em ti. A Santa Madre Igreja está aqui para ouvir teu arrependimento." – e todos calaram-se esperando a confissão da feiticeira. "Eu, de nada me arrependo, pois respeito todas as formas de crença. Vós estais aqui apenas para demonstrar o poder de vossa instituição, não para conduzir o povo à Luz Divina. Tudo o que faço é desenvolver a ponte que me liga ao invisível, à Luz. Não me arrependo de buscar a Força Divina por meus próprios caminhos, uma vez que vossos caminhos são feitos de trocas de favores e privilégios. Eu não pedirei perdão por ter sido livre. Não pedirei perdão por ter buscado o Divino. Não pedirei perdão por não me subjugar à essa religião de punições e não de Amor." – e repentinamente, uma mão desceu sobre sua face, derrubando-a. "Cale-se, herege!" – o bispo soltava fogo pelos olhos. – "Preparem a fogueira para essa maldita!" E Amih foi arrastada novamente pelos corredores mofentos no subsolo do castelo de pedras e atirada, com violência, contra a parede rochosa de sua cela, desmaiando. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "Scully? Acorda. Vamos aterrisar." – Mulder a sacudia levemente. "O que?" – ela acordou atordoada, levando a mão a cabeça. Notou que estava no avião e não numa cela de pedras. Forçou um sorriso quando o parceiro perguntou se estava tudo bem. Arrumou a poltrona e preparou para o pouso no Aeroporto Internacional de Dublin, capital da República Irlandesa. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "É tudo o que temos, Agente Scully." – o delegado de polícia de Dublin lhe entregava uma pasta. – "São fotos das mulheres, alguns dados, como idade, endereço, fisionomia e o depoimento das famílias." "É pouco, Delegado Rowling." – Scully estava séria, preocupada com o caso que se apresentava, ao contrário de Mulder, que parecia muito calmo e distraído com o mapa irlandês. – "Sem nenhum tipo de pista, não teremos por onde começar." "Eu sei, Agente. Tentamos de tudo, já. Foi por isso que recorremos à ajuda internacional. Já não sabemos o que fazer e as famílias estão desesperadas." – ele parecia realmente preocupado. – "A senhora entende..." "Senhorita." – ela corrigiu. O policial, sem-graça, dirigiu um leve olhar a Mulder e, antes que fizesse qualquer pergunta, Scully esclareceu. "Somos parceiros." – ela respondeu evitando o olhar de Mulder que nem sequer se moveu. Parecia absorto, estudando o mapa de rodovias. "Desculpe" – o policial falou, sentindo-se mal. Continuou: – "Bem, como eu dizia, é muito importante achá-las. Esse tipo de atentado pode acarretar em represálias por parte de grupos terroristas, ou do próprio IRA, ou ainda da Inglaterra. Evitamos confusões, entende?" – ela sacudiu levemente a cabeça, assentindo. – "Podemos contribuir com tudo que necessitarem. Carros, armas, munições, pessoal de apoio, qualquer tipo de equipamento e despesas extras, como hotel, alimentação, roupa. Mas, infelizmente, não temos pistas ou indícios que colaborem com a resolução dos crimes." "Nós reuniremos o material e estudaremos, por hoje, o melhor caminho a ser tomado. Eu ligo a noite e o ponho a par de tudo. Arranje um hotel e carro para nós, por favor." – ela concluiu, puxando Mulder pelo braço. "Já temos tudo arrumado. Há um carro alugado na garagem. O policial Currie os levará até lá." – e fez um sinal para o guarda parado na porta. – "Muito obrigado, agentes." – Scully acenou e saiu acompanhada por Mulder. "Não parece interessado no caso, Mulder." – ela estava visivelmente irritada. "O que acha de almoçarmos um bom prato de massas, Scully? Estou morrendo de fome." – ele disse, entrando no carro. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "Ainda acho que são abduções, Scully." – Mulder disse, jogando os poucos dados do caso sobre o colo dela, sentada na outra ponta da cama dele. Ela baixou as fotos das vítimas, no auge de sua irritação. "Escute, Mulder. Trabalhamos um dia inteiro e tudo o que você disse foi essa maldita frase. Não ajudou em nada. Droga, também estou cansada, mas não chegaremos a lugar nenhum se continuarmos achando que tudo são abduções." "Tem uma teoria melhor?" – ele parecia querer testá-la. "Tenho. Qualquer teoria é melhor que sua paranóia. Há dezenas de hipóteses. Um serial killer, maníaco sexual, pois só sequestrou mulheres, rico, pois não pediu resgate, sem uma crença religiosa que possa influenciar nos seus atos, uma vez que sequestrou católicas e protestantes. Nenhuma ligação com o IRA..." – ela expôs, apontando as informações dos sequestros digitadas em poucas folhas. "É uma hipótese, Scully." – ele disse levantando-se. "E qual é a sua?" – ela perguntou contendo o stress que a estava descontrolando. "Não sei ainda. Mas eu vou esquecer as abduções, certo?" – ele sorriu para ela, desarmando-a. Ela desviou o olhar para as fotos. – "Acho que só progrediremos se formos investigar. Tomaremos os depoimentos das famílias de novo e vasculharemos as casas e as regiões em busca de alguma pista. Saímos amanhã cedo, ok?" – ela levantou-se zangada e dirigiu-se para a porta: "Boa-noite, Mulder" – e bateu a porta atrás de si. Ele ficou olhando para a porta, sério. Nos últimos dias ela vinha se tornando insuportável. De péssimo humor, agindo com ele como nunca havia agido. Mas era impossível dizer isso a ela sem provocar outra discussão. O que pioraria o estado dela. Era tão difícil decobrir os sentimentos dela. Parecia um caramujo em sua concha. Uma borboleta em seu casulo. Uma estrela antes de sua explosão. Um dia ela libertaria-se e ele estaria ao seu lado e saberia o que está guardado dentro daquela muralha de rochas. Incrível como era forte. E aquilo o preocupava. E não sabia porque. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Acordou ouvindo os gritos. A cabeça girava. A pancada havia provocado uma imensa dor. O frio era intenso. Ela demorou para concentrar-se naquilo que a havia despertado. Quando entendeu o que estava acontecendo, dependurou-se na grade, no alto da cela, tentando enxergar o pátio externo ao castelo. A multidão enfurecida gritava vivas pelas morte da bruxa. Louvava Deus aos berros. Ela assistia a tudo horrorizada. Logo, a moça de longos cabelos loiros foi amarrada a um mastro, sobre uma pilha de lenha. O bispo mandou a população calar-se e iniciou seu discurso. Amih ouvia perfeitamente de sua sela. Dali, também podia ver a amiga condenada. "Estamos aqui reunidos, em nome do Nosso Senhor Todo Poderoso para banir o mal da Terra. Eliminemos o diabo do corpo dessa infeliz. Tu terás a chance de arrepender-se, infiel. Peça perdão por tuas heresias ao Pai. Renegue teu paganismo. Assuma que tu és o diabo que tomou o corpo de uma pobre mulher. E então poderás morrer sem dor, sem demora." – o carrasco passou a corda pelo pescoço da mulher preparando-se para enforcá-la caso confessasse e pedisse perdão. Esta era a maneira, rápida e indolor, de morte. De onde estava, Amih chorou desesperada, imaginando o conflito e o tormento que tomava a alma de sua Discípula. Renegar suas crenças para não ser torturada, ou honrar a Tradição e morrer lentamente, sentindo o fogo na carne? Mas, não conteve um sorriso orgulhoso, quando a amiga iniciou um canto triste, quase uma reza, invocando os Mestres e os Espíritos. A população, assustada com o ritual da bruxa, ordenou, aos berros, a morte da pagã. "Queimem a Bruxa! Acendam o fogo! Expulsem o diabo de perto de nós! Impessa o ritual de invocação!" – e, em poucos minutos, os carrascos reuniram- se em torno da fogueira, preparando-se para acendê-la. "O Tribunal do Santo Ofício condena esta mulher. Queimem-na!" – o bispo ordenou. "Kawwi!" – Amih gritou desesperada, tentando arrancar as barras de ferro que a separavam de sua Discípula. – "Kawwi!" – mas a gritaria insurdecedora impedia Kawwi de ouvir a Mestra ainda presa. Mas Amih podia ouvir perfeitamente o canto melodioso e triste que Kawwi entoava. Contendo o choro, desceu da janela em que estava agarrada, antes que ateassem fogo às lenhas. E ajoelhou-se no centro de sua cela, tocou o solo com a testa e, nessa posição, cantou acompanhando a melodia que partia do centro da enorme fogueira. Um grito desesperado partiu das labaredas finalizando o canto e ela acompanhou-o, sentindo a mesma dor que sua Discípula sentia. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Scully acordou suada apesar do intenso frio. Tremia lembrando-se de cada detalhe de seu pesadelo. No segundo seguinte tudo desapareceu. Respirou profundamente. Mulder adentrou o quarto chamando por ela, desesperado, empunhando sua pistola. Percebeu a palidez no rosto dela. "O que houve?" – apontava a pistola para todos os lados. "Nada, Mulder." – ela tremeu balançando a cabeça. "Como nada? Você gritou. Eu ouvi do meu quarto." – ele aproximou-se para medir a temperatura dela. Não tinha febre. "Foi só um pesadelo." – ela gaguejava e não queria olhar para ele. "Outro, Scully? O que está havendo? Não quer conversar?" – ele deixou a arma sobre o criado-mudo e sentou-se na beira da cama. "Não é nada." – ela afirmou, mas não pôde dominar o choro. Poucas vezes havia se sentido tão mal, com tanto medo. "Ah, Scully..." – ele abraçou-a, protetor, preocupado com o que ela vinha sonhando há uma semana. Ela não conseguia mais dormir. Talvez por isso estivesse com o humor tão alterado. – "É melhor me contar. Porque não diz o que está te incomodando? Talvez eu possa te ajudar?" Ela foi dominando o choro aos poucos. Os braços fortes de Mulder a envolvendo lhe davam uma sensação de segurança. Era só com ele. "Eu não sei o que é. Não consigo me lembrar. Mas todos me provocam dor, cansaço, desespero. Eu posso sentir o que eu sonho. Mas não me lembro o que é." Ele ajeitou os travesseiros sob ela e sentou-se no tapete ao lado da cama, acariciando a mão pequena e delicada que segurava a dele com força. Ela logo dormiu pesado. Aquela sensação de medo invadiu-o. Ela não era tão forte como deixava transparecer. Logo, não era tão auto-suficiente. Assim como ele precisava dela, ela também precisava dele. Queria poder sentir isso plenamente, mas havia a terrível muralha. E era isso que o amedrontava. Se um precisava do outro, então, porque uma barreira tão grande? O que machucava tanto a pequena mulher a sua frente, que fosse capaz de impedí-la de sentir o amor entre eles? xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Durante dois dias, os agentes percorreram a República Irlandesa, tomando o depoimento das famílias das sequestradas. Muito pouco conseguiram, ainda mais porque a cada dia, Scully acordava mais abatida, dominada pelos pesadelos que atormentavam suas noites. E, assim, o caso pouco rendia. Numa manhã estavam com as informações reunidas sobre uma mesa de hotel na vila de Mullingar, a oeste de Dublin. Mulder, novamente, estudava o mapa irlandês. "Idades entre 17 e 31 anos. Duas mulheres moravam em Dublin, uma na cidade de Wateford, e onze espalhadas por vilas irlandesas, ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste. Não podemos esquecer que ainda falta uma família a ser investigada." – Scully falava, ao mesmo tempo que lia os relatórios, em disparada, sem prestar atenção aos movimentos de Mulder. – "Nenhuma delas tinha inimigos, ou já tinham sofrido ameaças. Nunca haviam desaparecido, a não ser uma que fugiu de casa quando criança e uma que mentiu pra mãe que ia para um acampamento e passou uns dias em Dublin. Ou seja, nada de importante. As famílias não acrescentaram nada. Estão tão perdidas quanto nós. Estes dias rodando pela a Irlanda, em pleno inverno, não acrescentaram nada ao caso. Eu ainda acho..." – não concluiu ao perceber que Mulder não havia prestado atenção em nada do que dissera. – "Mulder?" – irritou-se: - "Mulder!?" "Eu ouvi tudo, Scully. Traz a pasta aqui." – e estendeu o mapa sobre a cama. – "Dita pra mim quais foram as localidades dos desaparecimentos." "Pra que, Mulder?" – ela não estava entendendo nada. "Dita, Scully." – ele apanhou uma caneta vermelha. Ela deu de ombros e começou a ditar. " Dois desaparecimentos em Dublin, um na vila de Drogheda, um na vila de Sligo, um na vila de Kilala, um em Westport, um em Galway, um em Ennis, um em Limerick, um na cidade de Waterford, um em Wexford, um na vila Lugnaquilla, um aqui em Mullingar e um numa pequena vila às margens do Grand Canyon." – finalizou esperando a reação do parceiro que rabiscava o mapa. "Bingo!" – ele sorriu radiante. "O que descobriu?" – ela aproximou-se estudando o mapa todo traçado. "Olhe, Scully." – a apontou o desenho que se formara. – "Uma espiral. Vê? Parte de Dublin, circunda o país, e converge para o Grand Canyon. É lá que elas estão." "Realmente, é uma espiral. Mas pode não querer dizer nada." – ela disse desenhando o espiral mentalmente. Ele sorriu, como se já esperasse pela observação dela. "Mas pode querer dizer alguma coisa." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Chegaram ao entardecer à vila do Grand Canyon. O frio era intenso e uma fina névoa descia sobre o vilarejo de quase quinhentos habitantes. Dirigiram-se à casa da senhora Grift, mãe da desaparecida mais nova, a de dezessete anos. A senhora atendeu-os e foi muito gentil, chorou bastante durante o depoimento informal, dizendo que queria a filha de volta, pois a menina era tudo o que ela tinha. A senhora perguntou se eles tinham filhos e Mulder previu a próxima frase da velha. "Então não sabem o que é perder a minha menina." – disse em tom choroso e desesperado. Mulder não quis encarar a parceira. Imaginou a dor que a corroía. Emily lhe passou pela cabeça. Achou melhor finalizar aquela conversa infrutífera. "Bem senhora, se não tem mais nada a acrescentar, nós nos retiramos. Faremos o possível para achar Melanie. Obrigada por sua colaboração." Scully levantou-se rapidamente e saiu pelo jardim. Antes que o parceiro pudesse seguí-la, a velha reteve-o. "Acho que tenho algo a contar, que não disse a polícia. Tenho medo de acharem que sou culpada." – Mulder interrompeu-a. "Se tem algo a dizer, é melhor que diga. Nada vai lhe acontecer se não for realmente culpada." "Dois dias antes de minha filha sumir, nós tivemos uma discussão. Ela sempre foi muito minha amiga. Mas vinha se recusando a abrir-se comigo. Não queria ir às missas, evitava entrar na igreja. Eu queria saber o que estava acontecendo e ela disse que não poderia me contar ainda, pois eu não a entenderia. Eu obriguei-a a me contar. Ela disse que fazia parte de um grupo e por isso vinha sumindo certos dias do mês. Eu perguntei se era uma seita do diabo e ela riu e disse que não. Que era o oposto. Eu achei que pudessem ser encontros jovens, de católicos, por isso não a importunei. Mas quando ela sumiu eu tive certeza que tinha algo a ver com o tal grupo." – a mulher chorou . – "Mas não quero que minha filha faça parte de seitas satânicas...." – e desatou em lágrimas. "Tem mais alguma informação, sra. Grift?" – e diante da negativa, Mulder saiu apressado. Mas esqueceu-se de todas as outras preocupações ao ver a parceira apoiada sobre o capô do carro, observando a rua comprida e estreita, calçada com pedras. Ela devia estar triste. Ela percebeu a aproximação do parceiro e falou: "É uma vila bonita. Deve ser bom morar aqui. Sem com que se preocupar, além do girar do mundo, das estrelas da noite, da névoa da madrugada, do nascer do sol, do correr do rio. Poder criar as crianças em paz, os cachorros. Flores. Ter um jardim para plantar rosas." – ela entrou no carro. "Não há flores, Scully. Estamos no inverno." – ambos sentiram o duplo sentido da frase dele. Ela permaneceu em silêncio. "Falta uma semana para a primavera, Mulder." – e ele ficou calado, imaginando se a frase dela também tinha uma outra conotação. Dirigiram-se para a biblioteca da cidade, ao lado da igreja, após Mulder contar o que havia descoberto à parceira. No saguão do maior prédio do vilarejo, os homens reuniam-se para discutir política, religião e amenidades, acompanhados por cachimbos e licores. Os agentes atravessaram a entrada e dirigiram-se para a antiga biblioteca. Uma moça de seus 20 anos, aproximou-se deles, com um sorriso largo no rosto. Scully achou o sorriso familiar. "Pois não? Posso ajudá-los?" – e olhava fixamente para Scully. "Sou o Agente Fox Mulder e esta é minha parceira, Dana Scully. Estamos trabalhando no caso das mulheres desaparecidas, e resolvemos consultar os livros para saber um pouco mais sobre a história do lugar." – Mulder explicou-se mostrando as insíguineas. A mulher não surpreendeu-se. Pelo contrário. Manteve o sorriso acolhedor. – "Os americanos?" – e diante da afirmativa dos agentes ela apresentou-se. – "Podem chamar-me Kawwi." – e dirigiu um olhar fixo a Scully, que manteve-se séria, bastante desconfortável. A moça desmanchou o sorriso, ligeiramente chateada e conduziu-os a uma mesa, explicando a disposição dos livros. "Estranha ela, não Scully?" – Mulder perguntou. "Não sei. Pareceu-me familiar. Talvez nos conheçamos de algum lugar. Ela também pareceu ter a mesma sensação." Alguns minutos depois, alguém chamou a moça por seu verdadeiro nome, Ellen Macking. Mulder, curioso, perguntou qual era o nome real da mulher. "É Ellen Macking, nos registros oficiais. Mas pode me chamar por Kawwi. É por esse nome que minha alma atende." – ela sorriu diretamente para Scully, que desviou o olhar. Depois de pilhas de livros, Mulder chamou a atenção da parceira, mais uma vez: "Escuta só, Scully: "...Assim, o Tribunal da Inquisição condenou à morte as bruxas irlandesas. Queimadas em praça pública, no castelo de Wicklow, exatamente 261 mulheres foram acusadas de heresias e bruxarias. O Tribunal lhes dava o direito de arrepender-se de seus pecados, pedir perdão a Deus e assim morrer enforcadas, rapidamente. Ou, então, morriam consumidas pelo fogo purificador do Divino. Mais de duzentas mulheres negarm suas heresias, pediram perdão à Deus por seus pecados e morreram estranguladas. Quase cinquenta, tiveram o seguinte procedimento: ignoraram as santas palavras dos bispos e entoaram um canto pagão, de adoração ao diabo. Desse modo a Santa Madre Igreja expulsou o diabo das terras da Irlanda...". Escrito por um padre Irlandês há cem anos. É a visão da igreja." – ele finalizou encarando o rosto concentrado da parceira. "Mais alguma coisa, Mulder?" "Tem outro, é de um estudioso de religião, que fala sobre o protestantismo e o catolicismo. Mas, no final, ele dedica um espaço às outras manifestações religiosas da Irlanda. Ele fala aqui sobre as Tradições: "...Principalmente as mulheres, reuniam-se, na Tradição da Lua, em rituais no final do inverno e do verão, preparando-se para a Iniciação, que ocorria nas florestas mágicas que acompanham o Grande Canal...". O que acha, Scully? – ele fitou o olhar perdido dela. "Acredita nisso tudo?" "Você não?" – ele surpreendeu-se com a pergunta dela. "Não sei. Nunca acreditei em bruxas. Pra mim são tão irreais quanto seus aliens. Mas é aquela velha história: Já vi coisas que não posso negar. Mas não sei o que são. Não posso provar nada. É assim que me sinto com relação com essa história. Uma sensação de que não posso negar nada disso. Me dê esse livro, eu vou lê-lo durante a noite." – ela levantou-se e dirigiu-se para a saída. Antes que Mulder seguisse, Kawwi deteve-o. "Agente Mulder?" – ela se aproximou. – "Acharam alguma coisa?" "Não, senhorita." "Caso precisem de mim, moro na última casa, antes da ponte. Uma casa de madeiras negras." "Obrigado, Kawwi." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx O livro atormentava cada vez mais a cabeça de Scully. Seus pasadelos pareciam descritos nas entrelinhas. Não tinha noção disso. Apenas sentia. O sono dominou-a antes que pudesse terminar a leitura. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx O fogo ardia lá embaixo. As casas de madeira logo viravam cinzas. Elas assistiam a tudo aquilo do alto da montanha rochosa. Eram quinze mulheres. Muitas delas choravam. Amih não. Raramente entristecia-se. Muitas vezes era capaz de passar por terríveis provações e não derramar uma única lágrima. Mas estava frágil. Tinha medo. Temia por suas Discípulas. Temia, principalmente, por Kawwi, que era sua mais antiga Discípula e logo faria parte dos ritos de Iniciação, desta vez, comandando-os. E então, tornaria-se uma Mestra, como Amih era. Kawwi aproximou-se de sua mestra, também sem chorar. O Dom dela luzia. Era uma moça especial. Forte. Amih orgulhava-se de ser sua Mestra. Era inteligente. Propagaria a tradição pelos séculos. "Amih? Estou com medo.Muito medo, desta vez." – ela colocou a mão sobre a trança longa e vermelha de sua Mestra. – "Não consigo me concentrar." "É somente a Noite Escura da vida, querida." – Amih lembrou-a do primeiro aprendizado da Tradição. Deitou a cabeça da discípula em seu colo. – "É como a Fé. Cada dia do homem é como a Noite Escura. Ninguém sabe o que acontecerá no próximo minuto, mas, mesmo assim, as pessoas caminham pra frente. Porque confiam. Porque tem Fé." Kawwi sorriu. Mas desmanchou o sorriso ao ver a expressão séria da Mestra. "Vamos descer a montanha. Eu e você. Vamos procurar um lugar para escondê-las. O Tribunal não pode pegar-nos. Ordene que todas elas fiquem aqui. Caso gritemos, elas devem fugir. Caso contrário, voltamos para buscá-las e levá- las para a floresta." – e levantou-se, vestindo o capuz negro. As duas mulheres desceram em silêncio. Quando chegaram ao pé do monte, cavaleiros surgiram de todos os lados e cercaram-nas. "Bruxas!" – gritavam, amarrando-as. Kawwi preparou-se para gritar mas levou um soco no rosto, desmaiando. Amih gritou com todas as suas forças. Assim suas discípulas saberiam do perigo iminente e fugiriam. Um soco fez seu lábios abrirem-se e sangrarem. Foi posta como uma caça sobre o lombo de um cavalo e levada para o castelo de Wicklow. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Ela acordou, mas manteve-se em silêncio, para não acordar o parceiro que dormia na cama ao lado, no único quarto que conseguiram no pequeno albergue. Sentou-se na cama, observando o fogo da lareira. Teve medo e conteve o choro. Assustou-se com a voz do parceiro. "Outro pesadelo, Scully?" – e como ela não respondia, levantou-se e aproximou-se da cama dela. – "Estava gemendo, parecia sentir dor. Logo percebi que estava tendo um pesadelo. O que houve dessa vez?" "Tinha fogo. Bateram nela e em mim." – ela não queria chorar. "Nela quem?" – ele perguntou sentando-se ao lado dela. "Não sei." – ela tremia. Ele abraçou-a, puxando-a contra seu peito. "Vamos para Dublin amanhã. Você embarcará no primeiro vôo para os Estados Unidos. Chegando lá procure um médico, um psiquiatra, peça férias. Você está cansada disso tudo." – ele determinou. "Não vou a lugar algum. Vamos resolver este caso. Depois vejo o que faço." – o tom foi tão decidido e ríspido que ele não quis discutir. Mesmo porque, sentia que precisava dela ao seu lado e sentia que ela tinha que continuar ali. Aconchegou-a ao seu peito, cubriu-a, ajeitou os travesseiros sob seu corpo e deitou o rosto sobre os cabelos macios dela, depositando pequenos beijos, protetoramente. "Dorme, Scully. Tá tudo bem." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Quando acordou, manteve-se de olhos fechados, escutando o barulho próximo a sua cabeça. Um barulho cadenciado, forte. Abriu os olhos. O coração batia num ritmo que a fez sonhar. Ainda estava deitada sobre o peito de Mulder. Era como queria acordar durante toda sua vida. Pena que nada havia acontecido entre eles para que aquela aproximação fosse real e maior. Deslizou a mão vagarosamente pelo abdôme definido. Sentiu-o contrair os músculos. Ele estava acordado. Ela fingiu que dormia. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Chegaram à floresta às onze da manhã. Começava a esquentar e o gelo já havia derretido, correndo filetes d'água em direção ao Grande Canal. Estacionaram o carro e desceram, próximos às primeiras árvores, que começavam a dar sinal de brotamento. Mulder caminhou na frente de Scully, mas parou, ao notar que ela estava ainda na entrada da mata. Ela sentiu-se, por um minuto, uma invasora. Recuou, olhando, entre assustada e inigmática, para as plantas nuas que a cercavam. Sentiu necessidade de invadir o local. Não podia fazer isso. Pediu, mentalmente, licença. Uma sensação de alívio dominou-a, como há quase duas semanas não se sentia. Percorreram um longo caminho em silêncio, sempre mantendo a vila ao Sul. Logo chegaram a uma clareira. Havia um antigo monumento de enormes pedras. "Stonehenge em miniatura, não parece?" – Muldr comentou e dirigiu-se até o outro lado da clareira até grandes carvalhos e restos de fogueiras. Scully ficou ali no centro. Sem saber o que fazer. A sensação de familiaridade a incomodava. Sabia que se quisesse lembraria-se de tudo aquilo que tentava fluir para sua mente. Usava uma força sobre-humana para dominar-se. Pouco tempo aguentou. Relaxou ao ouvir um barulho vindo das pedras. Parecia um pássaro. Aos poucos seus músculos foram cedendo e ela passou a vasculhar cada canto da clareira. "Como é que vieram parar aqui?" – perguntou, referindo-se às grandes pedras que formavam um semi-círculo ao norte. Mas Mulder estava longe demais para ouví-la. "Certas coisas estão em seu devido lugar, desde o começo dos tempos." – a Voz falou, pausadamente. Scully virou-se para trás, assustada, sacando sua arma. Girou trezentos e sessenta graus e não viu viva alma. Apontava para todos os lados. "Quem está aí?". Perguntou, já tendo certeza de que não receberia resposta. Sabia que a voz não era de Mulder. Sabia que não encontraria ninguém. A voz tinha vindo de fora dela. Mas não tinha forma. Não poderia determinar de onde veio. Não podia negá-la. Sabia o que era. Concentrou-se, tentando ouví-la de novo. Nem um só ruído, além dos poucos sons característicos da floresta. Assustou-se quando Mulder a chamou. "Claro está que houveram cultos de alguma coisa. Só não sei que tipo de culto. Há restos de fogueiras por todos os lados. Um ou outro objeto velho. Até mesmo uma colher de pau quase que totalmente queimada." – ele dirigiu-se para o carro. – "Mas podemos organizar uma busca. Mandaremos vasculhar toda a área..." – ele não concluiu, pois ela interrompeu- o agressivamente: "Nada de buscas. Não há nada aqui. Respeite um solo sagrado." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Durante todo o dia, Scully ficou na biblioteca, devorando livros sobre magia, culto e as tradições. Parecia realmente zangada com a sugestão de busca, dada por Mulder. Ele não discutiu. Algo havia de estranho. A noite, ela deitou-se e dormiu, sem jantar ou tomar um lanche, sem dizer nada. Reclusa em sua concha, remoendo pensamentos. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Levantou-se em silêncio absoluto, apanhou o sobretudo, calçou as botas, deixou a arma sobre a cômoda, pensou se pegava, ou não, as chaves do carro. Achou melhor não. Lançou um doce olhar ao homem que dormia na cama ao lado e saiu. Caminhou pelas ruas desertas em direção à floresta. Não havia lua, mas a noite não era escura. Rapidamente atingiu a clareira e sentou-se sob um dos grandes carvalhos. Uma tontura invadiu-a e tudo escureceu. Acordou com uma sensação de leveza. Ouviu uma voz familiar chamá-la. "Amih? Acorde." – a mocinha loira, dos olhos profundamente negros, acariciava seu rosto, ligeiramente trêmula. Scully abriu os olhos, fitando-a. Abriu um sorriso. "Kawwi!" – abraçou-a. "Finalmente você veio, Amih." – a moça sorria, entre lágrimas. "Eu estou muito confusa." – Scully disse. – "Quem sou eu? Porque tenho tantas memórias? O que aconteceu? Você não tinha morrido na fogueira?" "Preste atenção. Eu vou lhe explicar. O que você está vendo agora é Kawwi. Sua eterna Discípula. O corpo que está tocando é o de Ellen Macking, a moça da biblioteca. Com você acontece a mesma coisa. É a Luz de Amih, minha Mestra, que está aqui. O corpo é da agente do F.B.I.." – a menina parecia angustiada. "Como conseguiu fazer isso? Por que fez isso?" – ela começava a entender os própositos da menina. "Precisamos continuar o Ciclo, Amih. Eu preciso que você, minha Mestra, me torne uma Mestra, para eu poder propagar a Tradição. Eu encontrei seu Mestre. Fiz uma viagem, pela Ponte entre o Visível e o Invisível. Encontrei-o. Ele me ajudou a achá-la e trazê-la até aqui." "Me responda uma coisa: Aqueles sonhos que eu vinha tendo, são os acontecimentos de uma vida anterior?" – Amih parecia lembrar-se de todos os fatos com clareza. "Foram. Foi um meio que achamos para trazê-la de volta. Precisamos que você retome sua atividades, suas práticas como Mestra para não deixarmos a Tradição como um fato acontecido até a Inquisição." – Kawwi disse, ficando em silêncio em seguida, aguardando o raciocínio de sua velha amiga. "Eu posso me lembrar de tudo. Como se fosse ontem. A minha infância numa vila, há muitos séculos atrás, a minha Iniciação, meu Mestre... ele se chamava Kalvin. Eu me lembro bem, alto, dos cabelos negros, olhos grandes. Lembro de quando você chegou até mim. Uma menina de 16 anos, dizendo que se sentia diferente de todos, sabia que tinha um caminho diferente a seguir. Eu pude sentir o Dom transbordando de sua alma. Assim como Kalvin dizia que sentia o meu. Então eu reuni mais oito mulheres e meu Mestre as iniciou e eu terminei o ritual dele, sendo consagrada uma Mestra da Tradição da Lua. Então você dedicou-se aos Mistérios, reuniu algumas mulheres que tinham o Dom, e eu preparei o Ritual de Iniciação onde você seria consagrada Mestra. Mas a inquisição nos pegou. Eu e você. Nos levaram a um julgamento injusto. Queimaram-na na fogueira. Eu fugi. Estava machucada, não fui muito longe. Mataram-me. Por isso não pudemos completar o Ciclo. Torná-la uma Mestra..." "E é por isso que está aqui." – a moça estava alegre com as recordações. "Eu me lembro de tudo." – um doce sorriso estava estampado na face de Amih. Mas esse sorriso desvaneceu-se. – "Mas não posso Iniciá-la. Sinto muito." "Por que não pode?" – a menina assustou-se. "Não posso, lembro-me das regras. Tenho que ter o Dom, as práticas, saber os exercícios... Não posso." – ela estava chateada. "Pode! Não deixou de ser uma Mestra, Amih! O Dom está na alma e não no corpo. Precisa fazer isso ou a Tradição se extinguirá." "Mas não estou no meu corpo, Kawwi. Não seria tão simples. Sou apenas uma Luz, uma Memória..." Amih, por favor... Busquei você através do séculos. A cada Encarnação, a cada divisão da minha Alma, o objetivo era o mesmo: encontrá-la e propagar a Tradição. Não pode me abandonar." – a menina suplicava, aos prantos. Amih olhou-a assustada. Só havia visto a Discípula assim quando foi condenada pela Santa Inquisição. Sempre tinha sido uma pessoa dura com Kawwi, para, assim, mantê-la na linha, obediente às crenças da Tradição, mas depois de certo tempo de convívio, passou a vê-la como uma irmã mais nova, ou, até mesmo, uma filha. Perdê-la foi terrível. Pior ainda seria decepcioná-la. Kawwi prosseguiu. – "Talvez eu não tenha lhe dado nenhuma felicidade, talvez não tenha sido a Discípula que sempre sonhou... mas eu preciso terminar a minha busca, ou então toda a minha existência terá sido infrutífera. Eu sei que..." – Amih calou-a, muito séria. "Kawwi, sei que nunca demonstrei, sei que você sempre quis carinho, atenção, sei que nunca teve uma família, via em mim uma mãe, apesar de termos quase a mesma idade. Sei que sempre fui fria com você. Mas eu quero que saiba que, quando assumiu a Tradição e renegou a ordem da igreja de redimir-se de seu pecados, e entoou o Canto Sagrado na fogueira, eu me orgulhei de você, como nunca havia me orgulhado de nada, de nenhum feito meu, ou de qualquer outra Discípula. Saiba que foi você uma das maiores felicidades da minha Alma, além da minha Outra Parte." – e se abraçaram, num choro de felicidade. "Eu também me orgulho de ter aprendido tudo o que sei com você." – elas sorriram, recompondo-se. – "O que fará, Amih?" "A partir de agora, tenho consciência de tudo, posso viver as duas vidas. A de Amih e a de Dana. Voltarei aos rituais. Treinarei minhas habilidades. Talvez em poucos dias eu já esteja pronta para fazer o seu Ritual de Iniciação." – ela acariciou os longos cabelos da menina. "Obrigada, Amih..." – ficaram em silêncio algum tempo. Kawwi disse: - "Posso fazer uma pergunta?" – e, diante do aceno da Mestra, ela prosseguiu. – "E sua Outra Parte?" – ambas sorriram. Kawwi lembrou-se que quando entrou para Tradição, seu maior sonho era descobrir sua Outra Parte: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Sua primeira pergunta à Amih foi como saberia que estava diante do seu Grande Amor. Amih, armada de paciência e frieza, disse-lhe que, durante os séculos, as Almas dividiam- se e encarnavam em diferentes corpos. Por isso, duas ou mais pessoas podiam dividir a mesma memória de vidas passadas. A missão de toda pessoa era encontrar a sua Outra Parte, a outra metade de su'Alma. Todos cruzavam com ela na vida. Não havia como não encontrá-la. Era o que chamavam de "amor a primeira vista". Respondendo à pergunta, Amih disse que, quando Kawwi tivesse desenvolvido seu Dom, saberia que estava diante de seu grande amor pois veria um ponto luminoso brilhando sobre o ombro esquerdo da pessoa. Ou talvez, até mesmo, pelo brilho nos olhos. Quando a Discípula desenvolveu seu Poder, ela descobriu, em seu amigo de infância, seu Grande Amor. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "O que quer saber sobre minha "Outra Parte", minha menina?" – Amih perguntou, enquanto relembrava bons tempos. "Achou-a?" – Kawwi parecia uma menina marota. "Não sei. Não desenvolvi meus Dons. Talvez, a partir da próxima semana, eu possa saber quem é..." – ela tinha o olhar perdido no céu. "E aquele homem que estava com você na biblioteca?" – Kawwi perguntou. Dana manteve- se em silêncio, com um pequeno sorriso nos lábios. Estava próximo do amanhecer e as estrelas já desapareciam com os primeiros raios de sol. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Ela acordou tentando entender onde estava. A primeira coisa que viu foi o sobretudo negro que a envolvia. Moveu a cabeça e fitou o rosto preocupado do parceiro. O sol estava alto, brilhando no centro da cúpula azul. Ela lembrou-se da Discípula e entendeu tudo o que se passava. Chamou pelo homem que a carregava nos braços através da floresta. "Mulder..." – ela estava fraca, mas uma paz incrível a invadia. "Scully!" – ele assustou-se. Depositou-a no chão. – "Você está bem?" "Estou, não se preocupe." – ela sorria. "Passei a manhã atrás de você! Achei que tivesse sido sequestrada. O que houve?" – ele acariciava o rosto corado pelo frio. "Sai para dar um passeio durante a madrugada. Acabei dormindo por aqui, antes de amanhecer..." – e sorriu, retomando, mentalmente, a conversa com Kawwi. "Dar um passeio? Nesse frio?" – ele parecia não entender nada. – "O que está me escondendo, Scully?" "Nada. Vamos para o hotel. Eu vou explicar tudo o que aconteceu." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Scully contou toda a sua noite ao parceiro. Explicando o fundamento dos sonhos, a ligação que tinha com Ellen Macking, ou Kawwi, a partir de então, e sua missão de transformá-la em Mestra da Tradição. Mulder permaneceu um longo tempo em silêncio. Tentou ser o mais frio possível diante das revelações. "Pode ser, então, que as mulheres sequestradas tenham uma ligação com a Tradição." – ele observou, atendo-se ao caso. "É verdade, Mulder." – ela estava séria, mas serena. – "Mas pode ser que não sejam sequestros." "Realmente. Como você sumiu por livre e espontânea vontade esta noite, o mesmo pode ter acontecido a elas." – ele encarou-a no fundo dos olhos. Ela preferiu desviar o olhar e levantar-se, mudando de assunto. "Posso pedir um favor pessoal?" "Claro." – ele a olhava fixamente, muito sério. "Já lhe expliquei que tenho um trabalho a fazer. Será que poderia prosseguir com o caso?" – ela apanhou o sobretudo e abriu a porta. Mulder estranhou. Ela não abandonava os casos por nada, e agora abandonaria este por uma história maluca de bruxas e vidas passadas. Ele acenou afirmativamente e ela saiu. Ele correu até a porta: "Onde vai, Scully?" – perguntou, preocupado. "Só até a biblioteca." – ela respondeu sem virar-se. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Durante três dias, Scully leu antigos livros e escrituras que contavam a história da Tradição da Lua. Relembrou toda a teoria e releu a prática dos rituais. Quando não estava na biblioteca, estava na casa de Kawwi. Lá elas reiniciaram os rituais. Postavam-se, durante a noite, diante de uma vela que queimava todo o tempo. A vela representava os quatro elementos: a terra era o pavio; a água, a parafina; o fogo que queimava e o ar que o alimentava. Dana podia sentir a Lua em seu corpo e soube porque quando leu antigas inscrições: "...Dentro do corpo feminino, acontece o ciclo de nascimento, vida e morte, todos os meses, assim como acontece com a Lua..." Passou a praticar um exercício que desenvolvia a concentração e o Dom adormecido. Um punhal com duplo fio, em formato de labareda lhe foi dado por sua Discípula e ambas cantaram um antigo mantra, enquanto utilizavam uma colher de pau, assim como as fadas utilizavam a varinha de condão e os magos uma espada. Era assim que concentravam toda uma energia no objeto que estavam consagrando. Então, enchia um cálice com água, e refletia a imagem da Lua e de seu rosto na superfície, quebrando-a com a ajuda do punhal mágico. Quando anoitecia, postava-se sob o grande carvalho da clareira e concentrava-se. Dançava o Som do Mundo, algo que a vida das grandes cidades impedia o homem de fazer. Era tanta pressa, tantos horários e tão pouca felicidade que o Ruído do Mundo não mais podia ser escutado por aqueles que não procurassem ouví-lo. Era uma dança vagarosa, que exigia apenas disciplina. Os movimentos eram livres e conduziam o quadril, os braços, a cabeça e as pernas. Durante toda a preparação, via Mulder apenas uma vez por dia. Ele parecia estar cada vez mais magoado com a situação, mas nem tudo ela podia contar e muito pouco tempo sobrava para lhe dar atenção, ou, ao caso. Ele passou a tratá-la de uma maneira quase agressiva, acusando-a de estar escondendo coisas dele e, até mesmo, ocultando provas sobre os desaparecimentos: "Acho que perdeu a confiança em mim." – foi a primeira coisa que ele disse, despois que Kawwi deixou-os a sós, após um ritual de transe. "Eu lhe pedi para não vir aqui." – ela estava irritada. "Não me importa o que pediu. Importa que eu estou trabalhando sozinho enquanto você está fazendo Magia Negra com uma pirralha..." – ela interrompeu-o furiosa. "Não diga o que não sabe, Mulder. O que faço é Magia Branca. E Kawwi não é uma pirralha, é uma mulher madura e especial. Tem um Dom resplandecente." "Não importa o que seja. O que está acontecendo? Está me escondendo tudo. Sumiu, não volta para o hotel há três dias. Não me procura... não quer saber do caso." – ele parecia ferido. "Eu lhe expliquei no primeiro dia. Lhe disse que tinha um trabalho a fazer. Achei que tivesse compreendido. Que eu pudesse contar com seu apoio. Mas não é isso que estou vendo." "Sabe que não é nada disso, Scully. Sabe que eu concordei em ajudá-la. É por isso mesmo que estou aqui. Porque quero saber o que está se passando, quero acompanhá-la já que tem uma missão." – ele estava muito triste. Ela sentiu uma onda invadir-lhe a cabeça. Pode ver a aura azul escura brilhando em torno dele. Ela não conteve o sorriso. Estava despertando seu Dom. Levantou-se e dirigiu-se à poltrona em que ele estava. Queria tocar aquela energia melancólica que emanava dele. Estava maravilhada. Ele estranhou a aproximação e o sorriso enigmático dela. Ela tocou o peito dele. Mas o toque fez a concentração diminuir e a Luz desapareceu. – "Scully?" "Eu vi..." - ela sussurrou. "Viu o que?" – ele não estava entendendo nada, mas aliviou-se por ter amainado o clima da discussão. "Sua aura." – ela sorria feliz. – "Despertei meu Dom." – mas desmanchou o sorriso ao ver a expressão dele. – "O que há, Mulder? Não está feliz por mim?" "Não sei." – ele abaixou-se e apanhou o sobretudo. – "Se você está feliz eu estou feliz. Mas não estou gostando do preço dessa felicidade. Não estou te reconhecendo. Tenho medo do que você se tornou. Ainda mais porque não sei o que é." – e caminhou porta a fora. Ela ficou ali, estática, e toda uma vida passou diante de seus olhos. Ela correu até a estreita rua de pedras: "Mulder!" – ele virou-se sério. – "Janta comigo? Tenho umas coisas pra te contar." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Eram as últimas noites do inverno, mas o frio não diminuia. Kawwi acendeu a lareira e saiu, pois tinha um turno noturno na biblioteca. Scully recebeu o parceiro com uma macarronada. Não tinha tido tempo de fazer nada melhor e o propósito do encontro era uma conversa e não uma verdadeira refeição. Sentaram-se no sofá, observando o fogo, com um cálice de vinho nas mãos. "Eu te chamei pra te contar sobre meus últimos dias..." – ele interrompeu-a. "Scully... Só uma coisa. Não quis te pressionar. Se não puder me contar, não conte. Eu só disse tudo aquilo por preocupação, afinal, fazem três dias que não nos falamos. Eu não sei se você está bem. O caso não evolui. Eu estou um pouco perturbado com tudo isso." "Primeiro eu quero te dizer que não tenho segredos pra você, a menos que os segredos sejam sagrados, não sejam meus... Quero dizer que não espero que você concorde com o que estou fazendo. Apenas respeite. Caso não queira envolver- se com isso, eu farei o que tiver que ser feito sozinha." – ela olhava fixamente para o fogo e sentia o transe tomar-lhe. "Presta atenção, Scully. Se pecisar de mim, sabe que vou estar sempre ao seu lado. Eu não deixarei de respeitar nada do que você faça, porque você sempre respeitou a minha busca. Agora é minha vez. Você sempre me orientou, me salvou e dividiu minhas loucuras comigo. Agora é minha vez. Você sempre procurou uma verdade, pela minha felicidade. Agora é sua vez. E eu vou ajudá-la. Pode ter certeza de que além de respeitar, eu vou admirar e compreender o que você me contar." – ambos sorriram e ela deixou-se perder na sensação agradável que o vinho e o fogo lhe provocavam. Durante mais de duas horas, ela contou os mínimos detalhes de sua velha-nova missão. Ele estava emocionado. Podia, sim, compreender a obrigação dela para com o Ciclo da Vida, a propagação da Tradição. Admirou-a mais do que nunca. A conversa tornou-se cada vez mais amena e logo tudo estava explicado. Ela falava que, realmente, dentro dela, algo lhe dizia que nada daquilo era real e plausível. Mas ela sabia, ao mesmo tempo, que era, pura e simplesmente, a verdade. "Sabia que as almas se separam através dos tempos?" – ela assaltou-o com a pergunta. Prosseguiu: - "Num primeiro momento, achei que essa idéia não fosse possível..." "Não acho que seja." – ele respondeu. "Mas é. Tudo foi criado no primeiro minuto. Na criação do Universo. Depois disso mais nada se criou. Apenas sofreram transformações. Eu, você, a lenha que está queimando e as estrelas já fomos uma coisa completamente diferente. Nossos átomos já foram de um outro corpo." – permaneceram em silêncio. "Porque acreditou em tudo o que Kawwi disse? No que se baseou para poder seguir toda essa crença antiga? Você é católica, agente do F.B.I.... Não consigo entender o que operou essa mudança tão radical em você." – ele retomou o tom magoado. "Porque ninguém precisou me convencer. Kawwi não pediu para que eu acreditasse. Eu me lembrei de tudo. Era algo que não podia negar. Era como se negasse minha vida ou o meu destino. É o caminho que tenho que seguir." – ela respondeu tentando acalmá-lo. O efeito foi contrário, pois ele foi tomado por uma sensação de que seria abandonado. - "Meu Mestre me disse, quando fui iniciada, que, quando as coisas começam a acontecer e o caminho revela-se para nós, temos medo de seguir adiante. Então as pessoas preferem passar a vida inteira destruindo os caminhos que não desejam seguir, ao invés de andar pelo único que as conduziria a algum lugar." – ela olhava para ele. "É uma indireta, Scully?" "Pelo contrário." – e não completou a frase, deixando-o pensar o que bem entendesse. "Liguei para Skinner, hoje." – ele preferiu mudar de assunto. Tinha medo que ela prosseguisse com as lições de moral. – "Ele nos deu um prazo de três dias para resolver o caso, ou teremos que voltar a Washington." – ela encarou-o, mas ele fingiu não perceber a tensão dela. "Que dia é hoje, Mulder?" "Dezenove. Porque?" – ele respondeu notando o suspiro que ela soltou. Ela pensou por muito tempo. "Disse que me ajudaria... Posso contar com você amanhã?" – ela segurou a mão dele. Ele sacudiu a cabeça e levantou-se, dirigindo-se a porta. "Boa-noite, Scully." – falou ainda muito magoado. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Foi uma noite difícil para ambos. Dana estava atormentada com a falta de tempo e com a reação do parceiro diante de toda aquela dificuldade. Esperava que ele fosse muito mais compreensível. Sinceramente, não entendia o estado dele. Para Mulder foi impossível dormir. O que o atormentava era o medo de perdê-la depois de todos os anos de união. Era uma dúvida e uma apreensão. Ela parecia mais segura de si do que nunca. Parecia precisar somente da Discípula e de mais ninguém. Muito menos dele, que quase não acreditava em toda aquela história de magia e vidas passadas. Não podia negar o que ela dizia, mas também não conseguia entender onde estava o ceticismo da parceira. Ela vinha deixando de preocupar-se com ele e a relação parecia uma obrigação. Mais do que nunca precisava dela. Mais do que nunca, sentia-se dependente, porque, pela primeira vez, ele corria o risco de perdê-la por livre e espontânea vontade dela. Ele buscou-a na casa de Kawwi às dez da manhã. Ela tinha uma sacola cheia de tranqueiras nas mãos e o sobretudo entreaberto, permitindo a visão do conjunto azul marinho. A primavera estava quase começando e o frio diminuindo. O sol já estava mais quente do que de costume. Ela estava corada, como há algum tempo ele não via. Ela entrou no carro com um sorriso doce e apenas apontou: "Vê aquela montanha? Vamos até lá." Ele apanhou a sacola e acompanhou-a, durante toda a subida do monte, em silêncio. Reparou que havia um caminho de pedras que conduzia ao topo. Ao chegar lá, surpreendeu-se. Havia restado as ruínas de uma igreja medieval e grandes carvalhos que infiltravam suas raízes pelas paredes rochosas. "Vem sempre aqui?" – ele perguntou. "Vinha. Há muitos anos." – ela respondeu, serena. Tirou da sacola uma vela e acendeu-a sob os pés de uma árvore. Durante algum tempo ela ficou sob a sombra, de olhos fechados, relaxando. "O que estamos fazendo aqui, Scully?" – ele frisou o "estamos". "Eu o trouxe aqui porque preciso completar meus aprendizados. Falta algo que ainda não sei o que é. Apenas intuo. Mas eu só vou conseguir se estiver em paz. Mas não estou." – como ele não perguntou, ela prosseguiu: - "Meu problema está sendo você." – ela soltou sem coragem de encará-lo. Ele sentiu uma dor no peito mas manteve-se impassível, como se já soubesse o que estava por vir. "Quer que eu vá embora?" "Não. Isso não resolveria nada. Não é uma coisa que precisa ser feita hoje, para amanhã continuarmos com esse problema. Tem de ser definitivo." "O que está querendo dizer?" – ele perguntou ficando cada vez mais nervoso. Perguntou quase agressivo: - "Se estou te atrapalhando , vou embora. Mas se quer dizer que eu tenho sido um problema constante para você, saiba que nunca a prendi ao meu lado. Não quero que você me culpe por suas perdas. Não quero que diga que por minha culpa você não foi feliz." "Se não quer ser culpado por minha infelicidade, porque reage como vem reagindo?" – ela perguntou contendo as lágrimas. "Do que está falando?" "Eu esperava que você fosse me ajudar, que eu pudesse contar com você para desenvolver meu Dom. Achei que você fosse a pessoa mais importante da minha missão. No entanto você se nega a compartilhar disso tudo." "Você me afastou, Scully. Continua me afastando. Não consigo entender tudo isso." – ele estava desesperado. "Entendeu tudo errado. Eu tentei lhe explicar." – ela escondeu o rosto com as mãos. Ele estava atordoado. Abaixou-se ao lado dela e abraçou-a. "Não fique assim. Nós vamos resolver isso. Eu prometo que vou te ajudar." – ele disse, mesmo com medo da solidão. "Promete que nunca vai me deixar." - ela balbuciou com os olhos vermelhos. Ele sorriu. Parecia que ela havia lido seus pensamentos. Agradeceu por ter ouvido aquela frase. "Prometo." – e deitou-a em seu colo, contra seu peito, permanecendo em silêncio. Depois de algumas horas. O clima havia melhorado, o calor aumentado e a fome começava a atormentar. Ele não sabia ao certo o que eles estavam fazendo ali. Haviam conversado, descançado, discutido sobre o caso, sobre velhos arquivos x, sobre situações engraçadas. Ela leu alguns trechos de antigos livros que emocionou a ambos. Ela contou sobre lembranças de séculos atrás e ele maravilhou-se com a extensão da mente dela. Finalmente ela reclamou de fome. "Não trouxe nada para comermos, aí nessa sacola?" – ele perguntou, sentindo o estômago contrair-se. Ela sorriu, negando. Ele deliciou-se com o jeitinho meigo dela. – "Ok. Você venceu. Vou buscar algo pra nós na vila. Volto logo." – e, antes de virar-se para descer pelo caminho de pedras, surpreendeu-se com o gesto dela, que jogou o beijo para ele. Quando chegou ao carro, sentiu que algo, finalmente, poderia mudar entre eles. Ela ficou séria assim que ele desapareceu montanha a baixo. Posicionou algumas velas acesas a sua frente. Dançou o Ruído do Mundo e deitou-se sobre o parapeito em ruínas de uma janela. Posicionou uma pedra sobre a testa, uma entre os seios e outra sobre o umbigo. Fechou os olhos. Em segundos, entrou em um profundo transe. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Reconheceu uma grande catedral a sua frente. O deserto abria- se por todos os lados. Ouviu a voz grave de seu Mestre, logo atrás dela, mas não virou-se. "Que bom que veio, Amih." – ele abriu a grande capa negra, fazendo um gesto leve com as mãos, apontando o horizonte. – "Você está aqui para rever algo que você já tinha travado contato quando da sua consagração como Mestra. Mas se acha que esse caminho é mais fácil, por estar, apenas, revendo suas vidas, comete um grande equívoco. É nas coisas simples que encontramos a complexidade. Quando esteve aqui, pela primeira vez, eu não lhe disse duas coisas importantes. Já passou o momento de dizê-las. Você não aprendeu por si só. Então lhe falarei. A primeira é que você não deve mais conter suas emoções. Eu lhe levei pra assistir aos cavalos selvagens no campo. Lhe disse que se você os impedisse, os prendesse, eles não poderiam correr, então definhariam e morreriam. As emoções são como cavalos selvagens. Devem ser criados livres. E mais, não tente entendê-las." – ele apontou a catedral. – "Vá até lá. A segunda coisa é que você tem, ao longo de suas vidas, evitado sua felicidade e da sua Outra Parte. Lembre-se de tudo que sempre aconteceu quando você se deparava com sua outra metade. Você o amava, mas afastava-se. Ou então sacrificava-se em nome de uma fuga eterna. Isso acabou. É uma ordem." Ela entrou na catedral, caminhou ao longo da nave principal, tocando cada um dos bancos de madeira, até chegar ao altar. Não era a bíblia que estava lá. Era um livro de capa dourada. Abriu-o vagarosamente e um torpor fechou seus olhos, era um brilho dourado que cegava tudo ao redor e dentro dela. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Amih abriu os olhos, acomodou-se sobre a palha. Os gritos a incomodavam. Ela tocou o rosto do homem deitado sobre sua barriga. Ele levantou-se rapidamente. "Amih? Como está?" "Estou bem." Ele tocou a testa dela. Não havia febre. Ela não sentia dor. O ferimento não tinha estancado. O corpo tinha deixado de reagir, entregara-se a infecção. Talvez, se conseguisse tirá-la de dentro da tribo, poderia lavá-la até um druida gaulês que vivia na Gália. Ele a salvaria. Não podia perder seu amor. "Tens frio?" – ele perguntou preocupado. Ela negou. "Faça algo por mim, sim?" – ele acenou com a cabeça. Ela pediu colo. Ele carregou-a e ela apontou a montanha de rochas. Quando chegaram ao alto, ela pediu pra que ele a deixasse só. Ele relutou, mas obedeceu. Deu-lhe um longo beijo e disse que voltaria antes do anoitecer. Ela finalmente pôde entregar-se à seu futuro. As Vozes a abordaram. "Novamente, está na sua hora, Amih." "E deve honrá-la, como sempre." "Mas só deverá ir, se tiver plena certeza de que não está cometendo um erro." "Não estou." – ela respondeu. – "Mas quero que cuidem dele. Quero que não o deixem pensar, jamais, que não o amei. Sempre o amarei." "Está fugindo, mais uma vez." "Não estou. Um dia eu ei de ficar ao lado dele até o fim de minha vida." – suspirou. Sabia que não adiantava discutir com as Vozes. Elas estavam ali para guiá-la, não para convencê- la. "Está fugindo. Alguém deverá lhe ensinar, algum dia, que não és corajosa até que enfrente o medo do amor." Ela cansou-se de falar. Estava fraca. Era a hora de decidir entre ficar, e estar ao lado do seu amor, ou ir, mantendo-se uma Alma de Transformação. Não queria deixar de ser a força, a energia e a magia. O amor poderia desviar-lhe de seus caminhos. Ela deitou-se sobre uma grande pedra e fechou os olhos. Iria partir mais uma vez. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx O Mestre estava novamente sobre as dunas do deserto. Ela sentou-se ao seu lado. "O que aconteceu?" – ele perguntou. "Eu estava para morrer, mas podia fazer uma escolha. Fugi de um amor que poderia ter sido intenso. As Vozes falaram comigo." "E o que elas disseram?" "Que eu estava fugindo." "Então eu não tenho nada a lhe dizer. Apenas não se esqueça que ser uma mulher forte, também quer dizer enfrentar o amor e suas dores." "E se não quiser enfrentá-lo?" "Mais uma vez." – ele completou. "Mais uma vez." – ela concordou. "Por causa do seu egoísmo, será condenada ao pior suplício que inventamos para nós mesmos: a solidão." – ele sentenciou. Levantou-se quando o sol começava a nascer no horizonte. – "Você está pronta. Ouviu as Vozes. Agora conviverá com elas. És, novamente, uma Mestra. Inicie as meninas e torne Kawwi uma Mestra. Cumpre seu dever para com a Tradição." – ficou em silêncio. A última coisa que disse, foi: - "Mas cumpra seu dever para com a sua alma, também." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Mulder chegou com uma sacola com pães, bolos, vinho e peixe assado. Chamou por ela. Encontrou-a sobre o batente da janela. Achou que ela estivesse dormindo, mas notou as pedras sobre o corpo dela. Chamou-a. Não obteve resposta. Sentou-se sob a árvore, arrumando o lanche e esperando que ela viesse comer. Ela levantou-se 15 minutos depois e sorriu ao vê-lo. "Não sabe a fome que estou sentindo." – disse, tentando apoiar-se sobre as pernas, mas desequilibrando-se e caindo. Ele carregou-a até a árvore, preocupado com o estado dela. – "Não se preocupe. Bebi ontem, tenho o estômago vazio até o fim da tarde, e perdi muitas energias agora." "O que estava fazendo?" – ele perguntou, estranhando a beleza pálida dela. "Era uma das últimas coisas que tinha a fazer, antes do Ritual de Iniciação. Eu tinha que estabelecer contato com as Vozes. Fui até uma outra vida. Elas me guiaram, e eu pude aprender alguma coisa." "Vozes?" "Entrei em um transe. Lá, numa outra vida vida, eu tinha uma escolha a fazer. Fui covarde." – ele sorriu melancólica. – "Você estava lá." – ele assustou-se com a confissão envergonhada dela. – "Levou-me até uma alta montanha." "Era um sonho?" "Não. Era uma vida passada." "Quer dizer que já nos encontramos?" – ele estava curioso. Respeitava e acreditava em tudo o que ela vinha dizendo. "Já. E acho que essa não foi a primeira vez." "E o que acontecia?" – ele esperou pela resposta, mas ela baixou os olhos, não queria encará-lo, pois não poderia mentir-lhe, mas era covarde demais para contar-lhe a verdade. Um silêncio pesado formou-se. O vinho subiu e ela não destinguia suas próprias mãos, que brilhavam intensamente. Levantou os olhos vagarosamente. Não pôde acreditar no que via. Não soube se chorava ou se contava tudo a ele. Não soube o que dizer. Não sabia se gritava ou rezava. Não sabia se fugia ou mandava ele ir embora. O medo a consumiu. Era, realmente, muito covarde. Fixou os olhos, sem perder o transe que a dominava. Era verdade: sobre o ombro esquerdo de Mulder, brilhava, intensamente, um ponto luminoso. Fechou os olhos, levantou-se e ajuntou as coisas. "O que houve, Scully?" "Vamos embora." "Está se sentindo bem?" – ele tomou a sacola das mãos dela e desceu correndo, procurando seguir os passos rápidos da mulher. "Estou. Completei a última etapa da minha preparação. Vamos embora." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Ele deixou-a na porta da casa de Kawwi. Nenhuma palavra foi dita em todo o trajeto. Ele tinha quase certeza de que o problema estava nele. Ela desceu e perguntou se ele entraria. Ele negou. Ela respirou profundamente várias vezes, tomando coragem. "Quer dizer alguma coisa, Scully?" – ele estava muito sério. Ela acenou afirmativamente e continuou tomando coragem. Depois de algum tempo, ela prosseguiu: "Tenho uma festa hoje a noite. Quero que você seja o meu convidado." – ela estava tímida. "Festa?" "É. A Iniciação. Preciso de você lá." "Tem certeza?" – ele perguntou, entre desconfiado e aliviado. "Absoluta." "Venho buscá-la, então." "Duas horas depois do anoitecer. Mas não venha de carro, vamos a pé. Não conte a ninguém." – ela desceu. – "Traga algumas garrafas de vinho." – ela completou e dirigiu-se para o interior da casa onde a amiga a aguardava. Elas trocaram um sorriso. "Que aura é essa, Amih?" "Ouvi as Vozes..." "Que bom! E o que falta para o Ritual?" "Nada..." – trocaram um sorriso de cumplicidade. – "Ele vai." "Convidou-o?" – Kawwi perguntou. "Eu vi o ponto sobre o ombro dele." – Dana contou. "Ele é sua Outra Parte?" – a menina perguntou, em êxtase. Scully assentiu. – "E o que aconteceu? O que você fez, quando descobriu? O que foi que ele disse?" – ela perguntava excitada. "Eu não contei a ele. Não fiz nada. Apenas virei as costas e vim embora." – ela respondeu meio sem-graça. A menina fez cara feia. "Não acredito! Você descobre a sua Outra Parte e não faz nada. Não lhe deu um beijo, um abraço, sei lá?! Você, realmente, sempre foi muito esquisita com relação a essas coisas." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx A noite estava mais quente do que de costume. Ele apoiou-se ao portão e fitou-a, vindo em sua direção, com uma sacola, vestida de negro. "É a última noite de inverno." – foi o primeiro comentário dela. Ele ficou em silêncio, sorrindo, enquanto apanhava a sacola das mãos da amiga. Imaginou se a frase teria um duplo sentido. Mas não. Scully estava em sua noite. Não pensaria, nem sequer um minuto, nele. – "É um Sabbat, Mulder." "Uma autêntica festa de bruxas?" – ele perguntou surpreso. "Como as dos contos de fada." – ela parecia tão feliz que ele sentiu aquela apreensão tomar conta, mais uma vez. – "Mas um Sabbat é uma festa, antes de mais nada, e, por isso, quero vê-lo se divertir. Apenas isso. Promete?" – ela agia misteriosamente, mas ele concordou com a cabeça. – "Trouxe vinho?" "Quatro garrafas. É suficiente?" "Para nós dois é. Cada um leva o que bebe." "E quantas pessoas haverá nesse ritual?" – ele estranhou a menção aos dois, somente. "Como numa festa, Mulder, o local estará cheio." Caminharam até a entrada da floresta. Scully reteve-o pelo braço. "Peça licença para entrar, Mulder." – ela disse, fechando os olhos. "O quê?" – ele estranhou a atitude dela. "Peça licença. A floresta é dos espíritos. Nós a estamos invadindo. É uma questão de educação. Para ficarmos aí dentro em harmonia, temos que ter a permissão deles." – ela sentenciou, bastante alegre, por poder estar dividindo algo com ele. Mulder, bastante constrangido, concordou e pediu, mentalmente, licença. E, sem querer, pediu, também, que aquela fosse uma grande noite. A clareira já estava tomada por cerca de trinta pessoas. Podia-se ouvir um borburinho desconfiado. Ninguém sabia ao certo, como reagir, estando numa festa pagã, iniciando bruxas, no final do segundo milênio. Kawwi já estava lá e conduziu-a por entre as pessoas apresentando-a como Amih. Mulder manteve-se a parte, estranhando a normalidade de todas aquelas pessoas. Pareciam advogados, médicos, estudantes, donas-de-casa. Ninguém usava chapéus pontudos, vestidos com porpurina, nenhuma mulher tinha verruga no nariz e não havia nem sinal de vassouras. Aos poucos as pessoas foram distraindo-se e começando a conversar. Algumas garrafas de vinho foram abertas e começaram a circular pela clareira. Uma grande fogueira foi acesa, pois a escuridão havia tomado o lugar. Scully parecia conhecer todos, pois conversava e ria a todo o momento. Mulder aproximou-se de um grupo que já bebia há algum tempo e acabou entrando na conversa sobre internet e as bolsas de valores eletrônicas. Qual não foi sua surpresa, quando viu passar por ele, um rosto conhecido. Ele foi até a mulher, que já parecia embriagada, e puxou-a pelo braço. "Não é a senhorita Grift?" "Sou sim, o senhor deseja alguma coisa?" – ela perguntou sorrindo, retendo outra garota que a puxava para correrem até uma sacola e buscarem mais vinho. "Mora na vila do Grand Canyon?" "Como você sabe?" – ela não deixava de rir. Como ele demorava a responder, ela saiu correndo com a amiga, em direção ao outro lado da clareira, onde estava a senhora Grift, que o reconheceu e acenou. Mulder, indignado, correu até Scully e, tirando-a de uma roda, onde mais ninguém estava sóbrio, iniciou o seu discurso: "Onde pensa que estamos?" – ele perguntou furioso. "O que está dizendo, Mulder?" – ela perguntou com um enorme sorriso nos lábios, mesmo sem ter uma gota de álcool no sangue. "Já viu quem são as convidadas desta festinha?" – e diante da negativa inocente dela, ele continuou, mesmo incomodado com o olhar penetrante dela. – "São as catorze mulheres que foram sequestradas. Está claro que organizaram um ritual. Podem sacrificá-las..." – ela não deixou que ele continuasse. Levou a mão à boca dele e se aproximando muito, falou: "Primeiro: cuidado com o que diz. Deus se manifesta em tudo, mas a palavra é um de seus meios favoritos de agir. Porque a palavra é o pensamento transformado em vibração; você está colocando no ar a sua volta aquilo que antes era apenas energia. A palavra tem um poder maior que muitos rituais. Segundo: prometeu-me que divertiria-se. Isso é uma festa e eu quero vê-lo feliz. Esqueça o trabalho ao menos uma vez, certo?" – ela aproximou-se mais ainda, levando as mãos à mexa de cabelo sobre a testa, enrolando-a, vagarosamente, nos dedos e ajeitando-a. – "Por mim." – ela finalizou, lançando um último olhar ao ponto luminoso que brilhava ao lado dele e virando-se, em direção à uma roda de mulheres que já entoava canções antigas, no estilo dos Beatles. Mulder ficou, por uns minutos, atordoado. Ela havia se aproximado de tal forma que havia deixado-o transtornado. Ele teve uma vontade incrível de beijá-la. Fazer como alguns casais vaziam em alguns cantos mais escuros da clareira. Quis ir atrás dela, agarrá-la, contar-lhe sobre um estranho sonho que tinha tido na última noite, onde eles estavam juntos, fazendo amor num trigal, banhados pela luz da lua. Uma barulheira despertou-o de seu estado catatônico. Algumas pessoas dançavam em torno da fogueira, numa roda, entoando sons de músicas que lhes pareciam próprias de um Sabbat, mas na verdade eram Rolling Stones. O vinho havia embriagado quase todos. Ele resolveu deixar-se levar pela animação, bebeu bastante e entrou na brincadeira, batucando as garrafas vazias com galhos e pedras , assim como a maioria dos homens, enquanto as mulheres dançavam. Até mesmo Scully entrou na roda, batendo palmas. Nunca tinha visto a parceira tão alegre. E ela não tinha bebido nada. Ao menos não a viu com uma garrafa na mão em momento algum. E, por acaso, ele passou a festa inteira olhando para ela. A noite já estava alta, quando as pessoas começaram a cansar- se e sentar-se ao redor da fogueira, ajudando no batuque, que era Dana quem conduzia, com suas palmas. Ela acelerava o ritmo, enquanto acelerava a dança. Depois diminuia o ritmo e continha a dança. O ritmo foi se tornando cada vez mais rápido. Só haviam restado na roda, as catorze mulheres que tinham sido sequestradas, Dana e Kawwi. Um torpor, havia tomado conta de todos. Era como um transe, mas ninguém havia perdido a consciência. A cadência da música era a mesma do coração. Tanto, que, a partir de um certo momento, podia-se sentir o coração, batendo na cadência da música. Todos sabiam que não podiam fugir daquele estado. Ninguém queria perder o compasso e, por mais angustiante que fosse saber-se sem controle de suas próprias vontades, todos embarcaram naquele estranho ritual mágico. Amih podia ver a luz que emanava dos corpos ao redor da fogueira. Tanto homens quanto mulheres, brilhavam, emitindo alegria por estarem se sentindo livres. Estava chegando a hora do ritual. Seria inevitável o seu transe completo, para acompanhar os atos de Kawwi. Mas, por enquanto, queria aproveitar para observar seu amor. Rodando em torno da fogueira, ela era capaz de, cada vez que passava por ele, sentir um calor diferente, percorrer seu corpo. Esse calor foi-se intensificando. Ela percebeu que todas as mulheres que estavam na roda, tiravam seus casacos e sobretudos. Logo, elas deixariam de sentir vergonha, então tirariam toda a roupa, permitindo-se uma comunhão perfeita com o ar e a energia que as circundava. Ela também sentia o mesmo calor. Tirou o sobretudo e jogou-o para fora do círculo. Observou as mulheres que começavam a despir-se, sem perder o ritmo, girando, cantando e rodopiando. Em poucos minutos, estavam todas nuas, menos Amih. Ela tirou a blusa rápido para não enfraquecer as palmas. Em seguida a calça. E nesse momento ela bateu a última palma mais forte. E tudo tornou-se silêncio. As mulheres no círculo não se moviam , o olhar perdido no fogo. Ela fez um gesto delicado com as mãos e todas deitaram, fitando a noite. Algumas mulheres que pareciam fazer parte daquele grupo de amigos, que mal sabia o que se passava por ali, apanharam roupas nas sacolas e aproximaram-se de Dana, colocando-as a seus pés. Ela iniciou um canto suave, imitando um passáro que já se havia perdido no tempo. Ao mesmo tempo ela acenava para as pedras, que formavam o henge. Invocava os espíritos dos antepassados celtas. O s mesmos que haviam colocado aquelas gigantescas pedras ali, agora pairavam sobre a floresta. Eles abençoaram o Ritual. Em seguida, ela invocou seu Mestre, que surgiu da Luz para abençoar a Iniciação. Então uma senhora lhe entregou uma colher de pau. "O símbolo das mulheres que lutaram por igualdade. O símbolo das mulheres que foram oprimidas porque buscavam a felicidade. O símbolo das mulheres que pairam sobre nós e abençoam este sagrado ritual. Em honra daquelas que morreram nas fogueiras em nome da Tradição, pois buscavam a Luz e a Paz." – e com um gesto rápido lançou a colher na fogueira. – "Abençoe-nos Mãe." Durante muito tempo ela entoou um canto esquisito, manipulando uma faca em forma de labareda, ferindo o fogo. Colocava cristais sobre o corpo das moças e dançava a Música do Mundo. Isso durou muito tempo. Aquelas mulheres ali, estiradas, estavam viajando por suas vidas e descobrindo o quão antiga e sábia era a Tradição. Descobriam também a profundidade de suas Almas. Amih lembrou-se de sua viagem quando foi iniciada. Era algo mágico que não se esquecia, jamais.Voltou a concentrar-se. Tinha um pouco de medo de perder o controle. Ela tinha que trazê-las de volta. As mulheres que estavam afastadas do círculo, aproximaram-se, abaixaram-se, tomando os vestidos que estavam no chão e dirigiram-se, cada uma, a uma mulher que estava deitada e vestiram-nas. Amih vestiu Kawwi. Todos eram negros, mas haviam vestidos de vários modelos, sendo que alguns deles eram idênticos. Assim era para as mulheres que tinham o mesmo Dom. Depois de vestir a Discípula, ela apanhou um longo vestido que ainda estava aos seus pés e vestiu-se. Acordou a menina. "É sua vez, Kawwi." – ela disse afastando-se um pouco. A Discípula, que estava prestes a tornar-se Mestra, retirou os cristais de sobre os corpos. Recitou algumas palavras ininteligíveis. Cantou mantras, e abençou seu punhal. Era uma Mestra da Tradição agora. Acenou para Amih, emocionada. Elas trocaram um profundo abraço e Dana tocou a testa de Kawwi com o punhal, fazendo aparecer uma pequena gota de sangue e a Discípula fez um sinal sagrado com seu líquido vermelho. Amih ordenou que ela finalizasse o Ritual. Kawwi entoou um canto. Aos poucos foi diminuindo o tom e o torpor ia-se desvanecendo. Aos poucos só se ouvia o leve crepitar do fogo, quase se extinguindo. Elas acordaram vagarosamente, abraçaram-se radiantes e beijaram Dana, agradecendo-a por tudo que fizera. Abraçaram sua nova Mestra: Kawwi. Os homens e mulheres, levantaram-se aos poucos, em silêncio, dirigindo-se aos respectivos conhecidos e, apanhando suas coisas, foram embora, atordoados. Ela viu quando Mulder embrenhou-se pela floresta. Ele também devia estar confuso. Tinha sido uma noite surreal. Demorou quase uma hora, até que todos fossem embora e a clareira fosse deixada em ordem. Ela e Kawwi, que agora não lhe parecia mais uma menina, sentaram-se ao lado das brasas. "Vamos, Amih." – ela pediu, bocejando. "Não, eu fico. Ainda não completei meu caminho." – ela respondeu, entregando sua sacola a Kawwi. "Quero agradecer. Sei que mexi com sua vida, Dana. Sei que posso ter destruído muita coisa... mas era necessário." "Não destruiu nada, menina. Era o caminho que eu tinha a seguir... Que eu tenho a seguir." "Não volte para os Estados Unidos sem se despedir." – Amih acenou. – "Se é que vai mesmo voltar..." – elas trocaram um olhar e Kawwi deixou-a só. Dana deitou-se sobre a relva. Não era a primeira vez que aquele pensamento a tomava nos últimos dias. Considerava a possibilidade de ficar. Será que seria capaz? E a família? Não faria muita diferença pois estava acostumada a não ver os irmãos. Talvez a mãe quisesse vir morar com ela. Seria um sonho. Teria uma pequena casa, alguns amigos, um pequeno cachorro, uma lareira e um jardim. E o F.B.I.? Mesmo depois de tantos anos, sabia que podia abandonar o trabalho. Poderia ser médica na vila, ou na cidade mais próxima. Ganharia pouco. Sua real profissão seria ser Mestra da Tradição. Era um caminho mágico a se seguir. Nada faltaria... Ledo engano. E Mulder? Percebeu que ele não viria mais. Provavelmente estava assustado. A energia concentrada na clareira tinha sido tanta, que ele, com certeza, percebeu o brilho diferente no olhar dela e a Luz que emanava daquele corpo feminino nú, dançando sensualmente e fazendo magia em torno do fogo. Procuraria-o no dia seguinte. Levantou-se e caminhou em direção à casa da amiga. Voltou às suas divagações: E Mulder? Sabia que não poderia fugir de sua Outra Parte. Sabia que todas as pessoas tem de consumar o amor com sua metade. Mas, e se o caminho que ela tivesse que seguir fosse como em suas outras vidas, quando consumava o Amor em uma noite, duas, ou dez, e depois abandonava-o para seguir um caminho de abstinência e luta? Seria assim novamente? Com Mulder? Seria capaz de viver o amor dele por apenas uma noite e depois restarem apenas lembranças? Durante toda a sua existência tinha maltratado suas Outras Partes. Não o faria desta vez. Consultaria-o. Ele provavelmente a ajudaria. Ela sabia que se fosse para os Estados Unidos poderia sofrer imensamente, afastando-se de seu caminho na Tradição. Não sabia o que fazer. O mais difícil seria entrar nessa conversa com ele. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx O céu amanheceu nublado. Scully terminava seu café, quando a amiga saiu para a biblioteca. Ela pensava no que dizer ao parceiro, que em poucos segundos adentrou a pequena cozinha, bastante sério. "Bom-dia, Mulder." – ela forçou um sorriso. Ele acenou com a cabeça, sem responder. – "Café?" – ela ofereceu. Ele recusou. Um silêncio pesado acompanhou o final do café da manhã de Scully. Ela encarou-o, incitando-o a falar. "Skinner mandou marcarmos as passagens para amanhã a noite..." – ele não concluiu a frase. "E...?" "E..." – ele demorou um poco para completar. – "E eu quero saber se você volta comigo ou vai ficar aqui?" – ele disse, pegando-a de surpresa. Então ele sabia o que se passava pela cabeça dela. E ela não sabia o que dizer, simplesmente porque não havia se decidido. Fitou- o, cansada. "Está ocupado?" xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Andaram, lado a lado, durante mais de meia hora, em silêncio. Ela conduzia-o para um lugar que ela havia sonhado durante a noite. Seu Mestre lhe mostrou o local e ela decidiu levá-lo lá. Deveria ser um local especial para ela. Pensava em como iniciar a conversa. Não sabia por onde começar. Ele, a cada segundo de silêncio, tinha mais certeza de que ela lhe daria uma péssima resposta. Ela parecia estar tomando coragem para destruir um velho sonho dele: o de, finalmente, amarem-se. O medo e a insegurança que o tomavam sempre que ela demonstrava sua força, estavam aflorando. Ele quis fugir dali, pegar um avião, voltar a Washington e nunca mais vê-la. Sabia que se fisesse isso, nunca mais dormiria. A culpa por ter sido o destruidor de seus sonhos, seria muito grande. Era melhor que ela fosse a carrasca, assim, ele teria um motivo para esquecê-la. "Vamos sentar um pouco." – ela falou parando diante da sombra de uma árvore. Um sol fraco despontava entre as nuvens. Sentaram-se. – "O que achou da festa?" – ela achou uma boa maneira pra iniciar a conversa. Mas ele queria trapalhá- la. Olhou para ela com um olhar irônico e ficou calado, olhando, pelas frestas dos galhos, o céu. – "O que foi que você viu?" "Tudo." "Tudo o que?" "Como: tudo o que? Você colocou dezenas de pessoas em transe, dançou com um monte de mulheres e, de repente, estavam todas nuas..." – ele estava confuso e magoado mais uma vez. "Qual é o problema, Mulder?" "O que era aquilo em você?" "Aquilo o que?" "Aquela Luz azul, fogo." – ele descontrolava-se quando lembrava das imagens da noite anterior. – "Porque só você estava daquele jeito? Porque não me explicou o que iria acontecer? Achei que pudessem estar fazendo alguma coisa com você... Eu não podia me mexer. Não sabia se estava bem. Não é uma coisa normal..." – ele atropelava as palavras, nervoso. "Eu não tinha certeza do que iria acontecer. E eu não era a única que brilhava." – ela parecia feliz com o desespero dele. "Era sim..." "Você é que me via daquele jeito." – ela explicou, esperando a próxima pergunta dele. "Porque?" – ele olhou pra ela. Ela fixou um olhar doce, ingênuo, nele. Ele não soube o que fazer. Não sabia se podia interpretar aquela resposta, aquelas visões, da maneira que estava interpretando. Mudou de assunto, bruscamente: - "Não respondeu a minha pergunta: Volta ou não para Washington?" – foi a vez dela desviar o olhar. "Se estivesse no meu lugar, o que faria?" "Voltaria pra casa." – ele respondeu sem vacilar, esperando que ela seguisse o conselho dele. "E se minha casa for aqui?" "Aqui?" – ele perguntou indignado. – "O que há de casa aqui? Você nunca morou neste lugar, não sabe nada dos costumes daqui, morou toda sua vida na América, em grandes cidades, com uma vida agitada, e quer ficar?" – ela permaneceu em silêncio considerando tudo o que ela havia dito. – "Porque Scully? Porque não quer voltar?" – ela logo respondeu: "Talvez meu caminho seja a Tradição, Mulder. Talvez aqui eu seja feliz." "Impossível." – ele balbuciou, indignado. "Impossível porque?" "Ninguém pode ser feliz sabendo que vai deixar uma outra pessoa infeliz." – ele olhou-a profundamente, sem saber se tinha feito bem em ter dito aquilo. Ela ficou calada, emocionada, sabendo que ele sentia a mesma angústia que ela. "Você ficaria aqui?" – ela arriscou a pergunta. "Assim como eu sei que você iria." – ele respondeu. Ela, por sua vez, não soube como interpretar a resposta. Sim, ela sempre foi, com ele, por ele. Ele disse que faria o mesmo por ela. Cabia a ela decidir onde trilharia seu caminho e, se o faria sozinha ou acompanhada. Ela levantou a cabeça, em direção a ele. "Lembra quando lhe contei sobre a Outra Parte?" – ele concordou. – "Aquelas pessoas que estavam na clareira, ontem, eram as Outras Partes de cada uma das iniciadas." – ele continuou olhando para ela, até que entendeu o que ela dizia. Sentiu-se confuso. Durante todos esses anos ele havia temido que o amor dele não fosse correspondido. Seria possível que eles fossem tão perfeitos um para o outro? Não sabia o que fazer, e ela respeitou a confusão dele, permanecendo em silêncio. "Aquele dia, quando estávamos na igreja em ruínas, eu jurei que lhe contaria contaria algo. Você fugiu, como sempre." – ele continuou: - "Eu tinha certeza, desde que essa estranha história começou, que eu perderia você. Eu sentia você cada vez mais forte, mais independente e mais distante. Eu tinha muito medo. Até que você me pediu para que eu nunca me afastasse. Foi só isso que me permitiu dormir em paz, mesmo sabendo que você não estava ao meu lado. Mas quando eu vi você naquele Sabbat, a pessoa mais poderosa no meio de todos, com um caminho maravilhoso pela frente, eu tive certeza de que embarcaria para Washington sozinho. Por isso deixei-a lá e fui para o hotel. Porque sabia que não podia te oferecer muita coisa. Você tem o poder nas suas mãos." – ele parecia desesperado, mas não se permitia chorar. Não queria fazer chantagem emocional com ela. "Eu não quero poder nenhum. Eu só quero ser feliz." – ela respondeu tentando não chorar. "E se eu não puder fazê-la feliz?" "Pode, eu tenho certeza que pode, se você quiser." "Mas e a Tradição?" "Ela foi o meio pra nos encontrarmos. Eu posso seguí-la, mesmo a milhas de distância da Irlanda. O Dom está em mim, não na terra." – ela respondeu tendo certeza do caminho que desejava seguir. Ele não sabia o que fazer com as mãos, nem o que dizer. Abriu a boca diversas vezes sem conseguir pronunciar nada. Scully sorriu e fez-lhe uma pergunta: - "Posso lhe mostrar uma coisa?" – ele acenou que sim com a cabeça. Ela empertigou-se, passou a mão com delicadeza sobre os olhos dele, incitando-o a fechá- los. Concentrou-se, deixando fluir bastante energia pos seus braços, descarregando-a na testa dele, onde tocava. Uma visão surgiu no subconsciente de Mulder. Era um vasto campo de trigo, o sol quente fazia as espigas parecerem ouro, dançando ao sabor do vento, o céu, de um tom anil, refletia-se na superfície de uma lagoa, que desembocava num rio de corredeira. Ele viu-a sob uma árvore, chamou-a, ela virou-se e ele pôde divisar o ponto luminoso sobre o ombro esquerdo dela. Despertou vagarosamente. Ela já não o tocava mais. "Foi o mesmo sonho que tive outra noite." – ele contou, assustado. "O mesmo que eu tive essa noite." – ela concordou, sacudindo a cabeça. "Como?" – ele estava incrédulo. "Nós compartilhamos da mesma memória. Nós já fomos uma só alma." – ela lhe contou. "Fomos separados?" – ele perguntou. "Fomos divididos no começo da Vida." "Acho que não é possível voltarmos ao mesmo corpo... Mas não gostaría de me separar de você... nunca mais." – ele confessou, levando a mão ao rosto dela. "Promete que fica comigo pra sempre?" – ela pediu. "Só se você prometer." – ele sorriu puxando-a para seu colo. Abraçaram-se selando um compromisso eterno. Ficaram abraçados sobre a grama, sob a copa da árvore que brotava. Ela deitou-se no peito dele, consciente que, desta vez, não seria uma ou duas noites, seria toda a vida. "Hey, Scully. É primavera." – ele disse lembrando-se das frases ambíguas que tinham trocado há alguns dias atrás. Ela riu e levantou a cabeça, apoiando o queixo no peito dele, sendo surprendida por uma pequena flor, que havia nascido na grama e ele estendia para ela. "Não vejo uma há muito tempo." – ela disse apanhando o presente, enquanto ele a empurrava para grama, e rolava sobre ela. "Nós não nos beijamos há muito tempo..." "Nunca nos beijamos, Mulder." – ela respondeu. "Engana-se. O último foi há séculos." Ela sorriu, lembrando-se de suas vidas passadas. Ele tomou a flor das mãos dela e ajeitou-a entre os cabelos ruivos. Ela passou os braços pelo pescoço dele e, vagarosamente, deixaram seus lábios se tocarem. O que antes era carinho, despertou uma paixão ardente. O toque de línguas fazia-os estremecerem. Arfavam, buscando o corpo um do outro, o calor do sol de primavera enrubescia a pele. Os gemidos confundiam-se e logo estavam fazendo amor. Só pararam quando a noite caiu e não podiam mais ficar no campo escuro. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx "Precisamos ir." – ele avisou, tocando o braço dela. Scully separou-se do abraço que unia-a à Discípula. "Eu escrevo assim que puder." – Kawwi disse, não querendo chorar. "Eu também." – ela respirou fundo. – "Boa sorte." "Pra você também." – e entrou no carro, partindo. O carro rodou alguns quilômetros, e ela manteve-se em silêncio. Ele, em sinal de apoio, segurava com delicadeza a perna dela, só retirando a mão para trocar as marchas. "Pare, Mulder." – ela disse levando a mão à porta. Ele freiou bruscamente sobre a ponte de madeira. Ela desceu, apoiando-se na cerca que delimitava a pontezinha. Ele aproximou-se um pouco receoso com a atitude dela. Ela olhou-o séria, depois sorriu doce e estendeu a mão pra ele. Mulder respirou prufundamente, abraçando-a por trás. Ficaram assim durante algum tempo. "Está triste?" – ele perguntou receoso. "Nunca estive tão feliz. Eu estava certa, você pode me fazer a mulher mais feliz desse mundo." – trocaram um sorriso apaixonado. – "Apenas estou me despedindo." "Se eu disser que te amo, ajudo a diminuir a dor da partida?" – ele perguntou, com um olhar infantil. Ela olhou profundamente agradecida. Queria mostrar-lhe, num só olhar, o quanto o amava. "Ter você ao meu lado já é motivo para não sentir dor ao partir." – e manteve-se em silêncio sentindo os braços dele em torno de si. – "Te amo." E seguiram juntos pelo caminho.