AUTORA: ANA VITORINO (hannavitorino@hotmail.com) SUPERVISÃO DE TEXTO: NATHY (nathyscully@hotmail.com) SINOPSE: Um misterioso telefonema muda radicalmente a relação dos agentes Fox Mulder e Dana Scully. CLASSIFICAÇÃO: Shipper. CENSURA: O texto em si é leve, de fácil leitura, mas existem algumas cenas dotadas de conteúdo erótico. Ler ou não fica a critério de cada um. NOTA DA AUTORA: O que eu tinha em mente ao iniciar essa história era mostrar um pouco melhor a minha visão de como os agentes Mulder e Scully se comportariam ao assumirem seus sentimentos mútuos. Para isso, busquei fundamentação em determinados episódios da série e também em algumas fan fictions excelentes que li. Assim, qualquer citação semelhante não será mera coincidência. Agradeço desde já aos autores dos textos que me trouxeram inspiração. Feedbacks serão bem vindos. _____________________________________________________________ _________________ ___________ ALL I'VE EVER WANTED _____________________________________________________________ _________________ _____________________ ALEXANDRIA WASHINGTON, DC 11:43 PM A porta do apartamento 42 se abriu. O homem alto, com um rosto de traços suaves e expressão cansada entrou, jogando-se no sofá. A roupa estava suja, ele estava suado. Os olhos verdes fecharam-se lentamente. Mulder não resistiu e começou a cochilar. Após passar um dia inteiro trabalhando com o esquadrão antibombas do FBI e perseguindo terroristas, precisava daquele momento de ausência, de relaxamento. Então, o telefone celular tocou. Inicialmente, o agente pensou que estava imerso num sonho onde bombas e telefones celulares caiam do céu, algo como uma "chuva", e se virou para o lado, encolhendo as pernas, buscando se ajeitar melhor no sofá de couro preto, que mal comportava sua altura imponente. O telefone continuava a tocar. Irritado com o barulho contínuo, levou as mãos ao bolso do sobretudo, pegando o aparelho: ? Mulder. Ninguém se pronunciou inicialmente. Ele insistiu: ? Alô? Alô? Nada ainda. ? Escuta aqui, engraçadinho, vai falar alguma coisa ou prefere que eu desligue na sua cara? – disse o agente, nervoso por ter sido interrompido em seu descanso. ? Agente Mulder? ? Ah, decidiu se manifestar... O que é? ? Sabe que tem um trabalho interessante? Mulder estava cada vez mais irritado. ? Quer dizer que me ligou para dizer que tenho um trabalho interessante? Isso é alguma brincadeira? ? Não é só o seu trabalho que é interessante, sua parceira também é... E muito. O agente levantou-se do sofá num sobressalto. ? Ei, espera aí! O que você quer dizer com isso? ? Já viu sua parceira hoje, agente Mulder? Neste momento, o coração de Mulder acelerou. Ele se lembrou de que não havia falado com Scully naquele dia, pois estivera todo o tempo lidando com os terroristas num prédio comercial de Washington. Scully se comprometera a concluir alguns relatórios que eles estavam devendo ao Diretor Assistente Skinner. ? O que tem a Scully? Vamos, diga! O que houve com ela? ? Acalme-se, agente... Ela AINDA está bem... Mas se eu fosse você, começaria a me preocupar... ? Quem é você? O que está pretendendo? Mulder insistia, mas o telefone estava mudo. O estranho homem havia desligado. Os olhos verdes do agente agora estavam acinzentados, ele transpirava e o coração batia descompassado. Num impulso, ligou para o celular de Scully. ? Scully. ? Onde você está? Aconteceu alguma coisa? ? Mulder? Estou em casa, cheguei há uns 20 minutos... Após passar um dia inteiro escrevendo e revisando relatórios, acho que não estou tão mal, consegui sobreviver... – ela riu. ? Alguém te procurou? Notou algo estranho? ? O que é que você tem, Mulder? Acalme-se! Não aconteceu nada, ninguém me procurou, já disse que passei todo o tempo ocupada com os relatórios, na sala do porão. Só me encontrei com o Skinner, quando fui ao seu gabinete entregar alguns papéis. Ela ouviu um suspiro de alívio do outro lado da linha. ? Agora eu estou calmo, Scully. Agora eu estou calmo. ? Era só isso que queria saber, Mulder? – Scully estava preocupada com o jeito do parceiro. ? Sim, desculpe por tê-la incomodado a essa hora. Boa Noite. ? Boa noite, Mulder. Ele desligou o telefone e foi tomar um banho quente. O inverno estava chegando e o tempo esfriava cada vez mais. Enquanto enxugava os cabelos, começou a pensar na ligação que havia recebido. Quem era aquele homem? O que ele quis dizer? Será que Scully estava em perigo? Mulder não esperou até a manhã seguinte para encontrar sua parceira no trabalho. Já era mais de meia-noite quando ele vestiu uma calça jeans, uma camiseta branca e a jaqueta de couro, calçou os sapatos e jogou algumas roupas e produtos de barbear dentro da mochila. GEORGETOWN WASHINGTON, DC 12:41 AM Mulder bateu na porta do apartamento 35, mas não houve retorno. Preocupado, retirou do bolso da calça sua própria chave e entrou, com cuidado. A sala parecia estar em ordem. Nada fora do lugar, como sempre. O agente pensou que, naquela hora, Scully provavelmente estaria dormindo, isso SE ela estivesse em casa. Entrando no quarto, sentiu-se aliviado ao ver a parceira adormecida, ainda com os óculos e o livro que provavelmente estaria lendo antes de se entregar ao sono. Ele depositou a mochila no chão, próxima ao pequeno sofá que ficava entre a penteadeira e o armário. Aproximou-se dela, e delicadamente retirou seus óculos, assim como o livro que estava em suas mãos, colocando-os sobre o criado-mudo. Scully virou-se naquele momento, mas continuava dormindo. Antes de se sentar no confortável sofá, de onde pretendia velar o sono da parceira, Mulder ajeitou o edredom que a cobria. Tirando os sapatos e a jaqueta, acomodou-se de frente para Scully, e dormiu, pensando que, se alguém ou alguma coisa tentasse fazer mal a ela, estaria ali para defendê-la. Com sua própria vida, se fosse preciso. 7:09 AM Scully abriu os olhos naquela manhã fria, e deparou-se com o parceiro, mal acomodado na poltrona aveludada que ficava à sua frente. Ela se levantou e foi até ele. ? Mulder... – ela chamou, colocando as mãos nos ombros dele. ? Ãnh? – ele acordou assustado. ? Mulder, o que você está fazendo aqui? ? Scully... Que bom vê-la... – ele sorriu preguiçosamente – Eu... Bem... Mandei detetizar o meu apartamento ontem, e não consegui ficar lá quando cheguei. Abri as janelas e vim até aqui, não poderia agüentar aquele cheiro horrível!... – ele não queria preocupar a parceira, preferindo, pelo menos por enquanto, omitir a história do telefonema ameaçador – Quando cheguei, você estava dormindo tão tranqüilamente que não me atrevi a te acordar... ? Você sabia que existem hotéis na cidade, parceiro? ? Puxa, Scully, eu pensei que não haveria problema em passar uma noite no seu apartamento... Ando meio sem grana, e... ? Mulder... – ela interrompeu – Não é isso. Desculpe-me, é que aquele trabalho todo de ontem me deixou um pouco nervosa. Não há problema algum em você dormir aqui, só acho que não posso te acomodar direito, o apartamento é pequeno. ? Não se preocupe, Scully. Estou acostumado a dormir em qualquer canto, você sabe disso. ? Bem, e essa mochila? ? Ah, aqui tem algumas coisas necessárias para que eu possa me manter apresentável... – disse, retirando as roupas e o equipamento para se barbear do interior da bolsa – Com sua licença, vou até o banheiro me arrumar. ? Tudo bem, enquanto isso eu preparo um café para nós. Mulder barbeou-se, trocou de roupas – vestindo um terno escuro – e penteou os cabelos, após molhá-los. Saiu do banheiro e, enquanto Scully se trocava, foi tomar café. Da cozinha, reclamou para a parceira: ? Puxa, Scully, nem uma bolachinha? Aqui só tem uma caneca de café me esperando... Ela retrucou: ? Minha vida anda tão corrida que nem tive tempo de sair para fazer compras... A dispensa está vazia. Mulder abriu as portas dos armários da cozinha, e viu apenas um saquinho de pó de café, jogado no grande espaço desocupado. Pensou consigo mesmo: "Hoje vamos resolver isso...". PRÉDIO J. EDGAR HOOVER WASHINGTON, DC 8:02 AM Já era sexta-feira, e todos os funcionários da sede do FBI pareciam ansiosos para irem embora e aproveitarem o final de semana. Alguns conversavam em grupo, provavelmente combinando um programa; outros corriam de um lado para o outro visando terminar logo suas obrigações. Mulder e Scully atravessavam os corredores, e a agente percebia algo diferente nas pessoas. Ela sabia que seres humanos normais aproveitavam os finais de semana para aliviarem as tensões após dias árduos de trabalho, fazendo coisas diferentes, divertindo-se. Mas Mulder parecia nem ligar para isso. Ao chegarem à sala do porão, foram avisados de que o Diretor Assistente Skinner gostaria de vê-los. Dali a alguns minutos, eles subiram. *** Skinner parecia tranqüilo naquela manhã, mas nem por isso deixava de lado a expressão séria e compenetrada, digna de um homem que tem muitas responsabilidades nas mãos. Ele inicialmente elogiou o trabalho de Scully, dizendo que os relatórios que ela havia apresentado estavam completos e esclarecedores. ? A diretoria está satisfeita com o seu trabalho, agente Scully. ? Obrigada, senhor. – respondeu ela, com a serenidade de sempre. Então, Skinner virou-se para Mulder. O agente se sentiu incomodado, já esperando alguma repreensão por suas teorias e ações. Ficou surpreso quando seu superior imediato disse: ? Agente Mulder, fui incumbido pela chefia dos trabalhos anti-terrorismo de elogiá-lo pela sua performance de ontem, no Centro Comercial. Mulder olhou para Scully, tinha uma expressão incrédula. ? Agradeço, senhor. Fiz o melhor que pude. Mas não tivemos sucesso total, alguns daqueles terroristas malucos escaparam... ? Deixe de modéstia, Mulder. Em horas como essa, percebo que trabalhar com você não é um erro. Mulder e Scully riram da afirmação do chefe. Skinner continuou: ? Sei que ambos estão esgotados, por isso ordeno que não venham ao FBI nesse fim de semana. Fiquem em suas casas, descansem, recarreguem as energias. Não quero ser acusado depois de explorar o trabalho de vocês, ouviram? ? Nem precisava pedir, senhor. – afirmou Scully. ? Bem... Digamos que vou pensar no caso... – falou Mulder. Eles deixaram o gabinete do Diretor Assistente e voltaram à sala do porão. Mulder pensou pelo caminho: "Acho que não é uma má idéia ficar longe do trabalho... Dois dias não é tanto tempo assim... Mas, afinal, estarei trabalhando, tenho que ficar atento com a segurança da Scully...". ? Mulder, parece que não teremos nenhum caso estranho para investigarmos hoje... ? Scully... – disse ele, sentando-se e colocando os pés sobre a mesa – Que tal você me ajudar a pesquisar sobre os terroristas que escaparam ontem? Podemos ter problemas com eles no futuro... ? Tudo bem, assim não ficaremos sem fazer nada. Mulder foi até um armário de arquivos e pegou pastas que continham fotos e dados de vários criminosos procurados pela polícia. Deu algumas dessas pastas para a parceira, e eles começaram a pesquisa. No final da tarde, haviam identificado os três fugitivos: Pedro Olivares, Luis Barino e Octavio Serra, membros de um cartel de traficantes colombianos e terroristas nas horas vagas, especialmente quando outros traficantes invadiam seus domínios. ? Esses caras são barra pesada, Scully. Ainda podem aprontar alguma. ? Como conseguiram escapar, Mulder? ? Eles se disfarçaram de limpadores de janelas e fugiram pelos andaimes. Foi uma jogada de gênio, pois toda a força policial estava concentrada em negociar com outros bandidos que se encontravam no interior do prédio, ameaçando a vida das pessoas. ? Peça para os funcionários do Departamento Visual fazerem uns cartazes com as fotos deles, e divulgá-los pelo país. Talvez assim consigamos alguma informação. ? É isso mesmo que vou fazer, Scully. Depois poderemos ir para a nossa casa. Ele saiu rapidamente, deixando a parceira sozinha com seus pensamentos: "Nossa casa? Ele disse NOSSA casa? O Mulder não pode estar falando sério..." *** O agente encomendou os cartazes com o pessoal do Departamento Visual, e até conseguiu autorização para oferecer uma recompensa a quem desse informações seguras sobre o paradeiro dos fugitivos. Aproveitou para passar no Setor de Identificação de Chamadas. Pediu a um conhecido seu que trabalhava lá, Justin Carlyle, que verificasse o número de origem da chamada que recebera em seu celular na noite anterior. O técnico verificou várias vezes no computador de registros a tal chamada, mas não havia qualquer citação. Então, pediu o telefone celular de Mulder, e retirou dele um pequeno chip que também marcava as chamadas. Não havia nada. Nenhuma ligação fora feita para aquele telefone na última noite. ? Tem certeza, Carlyle? – Mulder estava inquieto. ? Absoluta, agente Mulder. Ninguém ligou para o seu celular ontem à noite. Nosso sistema de verificações é praticamente infalível, e o chip que acoplamos nos aparelhos de todos os agentes do Bureau para casos de dúvida também não acusou nada. ? Mas então... Como eu recebi aquela chamada? ? Será que você não sonhou, Mulder? Talvez esteja trabalhando demais... Aquele caso dos terroristas foi desgastante... ? Não, eu não sonhei. Tenho certeza disso. Mulder deixou a sala um pouco preocupado, pensando que poderia estar vivendo seu próprio arquivo X. Mas procurou ficar calmo, para não deixar que Scully percebesse que provavelmente um sério perigo a estava rondando. Ele a protegeria. Sempre. ALEXANDRIA 7:18 PM ? Scully, espere alguns minutos que vou até o meu apartamento pegar umas coisas. Tomara que elas não tenham sido contaminadas pelo odor dos produtos de detetização... – falou Mulder, saindo do carro. Scully assentiu com a cabeça. Ela sabia que não adiantava argumentar, Mulder seria seu hóspede por algum tempo. A agente nem desconfiava do verdadeiro motivo da permanência do parceiro em sua casa. "Será que esses produtos realmente cheiram tão mal? E será que mantêm concentrações tão duradouras no ar, a ponto do Mulder ter que se mudar para o meu apartamento?". ? Cheguei, Scully. Peguei mais roupas, meu pijama, escova de dentes... Ah, sim, antes que eu me esqueça, vamos passar no supermercado, precisamos encher a sua dispensa. ? Certo, Mulder. É mesmo uma boa oportunidade para isso. Eles pararam num supermercado próximo à casa de Mulder, que ele parecia conhecer bem. O agente fez questão de "pilotar" o carrinho, enquanto Scully escolhia os produtos. Logicamente, ele dava alguns palpites, parecia uma criança encantada com as prateleiras cheias da loja. Já estavam quase encerrando as compras, quando uma mulher se aproximou de Scully. ? Dana? Dana Scully? ? Errr... Olá. E você é...? ? Não se lembra de mim, Dana? Sou eu, Suzie, fomos colegas na faculdade de Medicina! ? Oh, sim, Suzie... Como vai? ? Vou bem, obrigada. Estou de férias aqui em Washington, passando uns dias na casa do meu cunhado com as crianças... E você... Pelo jeito vai muito bem... Seu marido é um charme! Prazer, Suzie. – ela dirigiu a mão direita ao agente. Mulder corou com aquela afirmação. Seu coração palpitou mais rápido que o normal, ao ouvir a palavra "marido". Será que os dois estavam parecendo tanto assim com um casal? ? Muito prazer. Fox Mulder. – ele se apresentou, apertando a mão dela. ? Quando se casaram? Ele olhou para Scully, como quem pergunta: "E então, o que eu digo?". Dado o olhar que recebeu da parceira, deduziu que deveria encerrar logo a conversa. ? Faz alguns anos. ? E seus filhos? ? Christian e Melissa vão bem, obrigado. Apareça qualquer dia para nos visitar. – disse ele, puxando discretamente o braço de Scully e dirigindo-se ao caixa. ? Tudo bem, tchauzinho! ? Tchau. – disseram os dois. Scully então comentou, aliviada: ? Ah, Mulder, ainda bem que você nos tirou dessa. A "Suzie Língua Solta" fala mais do que qualquer pessoa... ? Desta vez ela não falou quase nada... – ele observou. ? Vai ver o seu "charme" tirou as palavras da boca dela. ? Isso foi um elogio, Scully? ? Entenda como quiser, Mulder. Eles compraram gêneros alimentícios e produtos de limpeza, pagaram, e foram embora. *** Já passava das nove da noite quando chegaram no prédio de Scully. Mulder deixou o carro no estacionamento e se apressou para ajudá-la a carregar as compras. Acabou levando mais da metade dos pacotes. ? Sabe que nessas horas os homens são bastante úteis, Mulder? – Scully ria. ? É bom saber disso. Quando eu quiser agradar alguma mulher, basta vestir o uniforme de carregador e entrar em ação! – brincou ele. Scully se calou ao ouvir o que ele dissera. "Alguma mulher?", ela pensou. Sentiu-se incomodada. Quem seria essa mulher? Poderia ser a "Suzie Língua Solta"? Será que ele tinha alguém em vista? Enquanto andava até a porta de seu apartamento, ela tentou tirar aqueles pensamentos da cabeça. "Não devo me preocupar com isso, o Mulder é livre e pode fazer o que quiser.". Tentava convencer a si mesma de que não havia razão para tanta preocupação, mas sua mente não podia evitar. ? Bem, parceira, acho que vou tomar uma ducha. – falou ele, colocando os pacotes sobre a mesa da cozinha – Quer que eu te ajude a guardar as coisas antes? ? Agradeço, Mulder, mas pode ir se lavar. Logo eu arrumo tudo por aqui, não se preocupe. ? Se quiser ajuda para qualquer coisa, quando eu terminar estarei disponível. ? É bom saber disso, ainda mais porque estou precisando dar uma faxina no apartamento. Quem sabe pintar as paredes do quarto, da sala... Faz tempo que penso nisso. ? Tudo bem, Scully. Enquanto eu for seu "hóspede", quero ser útil. ? Não fale assim, olha que eu vou te explorar... – ela sorriu. ? Nada me deixaria mais feliz do que poder te ajudar. Pode acreditar em mim. Ele olhava diretamente para ela, e ela sentia a sinceridade nos olhos verdes do parceiro. Definitivamente, não seria ruim tê-lo em casa por alguns dias. *** Mulder ficou pouco tempo no banheiro. Logo apareceu na cozinha, e viu que Scully já tinha terminado de guardar todas as compras. ? Scully, pode ir tomar o seu banho agora, descanse um pouco. Eu cuido do nosso jantar. ? Você está falando sério? Nossa, eu nunca imaginei que você fosse tão "prendado", Mulder. ? Ora, parceira, agora você terá a chance de conhecer o meu lado "doméstica"... Vai ficar surpresa... ? Quero só ver... Poucas coisas me surpreendem. Ela se dirigiu ao quarto. Tudo o que queria naquele momento era tomar seu banho de ervas. Mulder não perdeu tempo, e começou a picar algumas verduras que tinham comprado no supermercado, preparando uma salada. Ele sabia que Scully gostava de saladas. Iria preparar também um assado. Na hora do jantar, sentaram-se à mesa, frente a frente. Mulder vestia seu pijama flanelado, e Scully usava o pijama azul de seda. Ela ainda estava com os cabelos molhados, mesmo com o frio que fazia lá fora. Como o prédio tinha aquecedor, a temperatura interna permanecia amena. ? Mulder, você é mesmo caprichoso. Essa salada está muito convidativa! ? Espere só até você provar... – Mulder encarava a parceira, e começava a enxergar nos olhos dela algo mais fantástico que o azul profundo. Scully percebeu que ele a observava, mas continuou falando, desviando o olhar sutilmente. ? E o assado também está com uma cara muito boa! ? Vamos comer? ? Sim, vamos. Ele serviu um pedaço de assado para ela, que colocou um pouco de salada no prato dele. Para acompanhar a comida, Scully preparara um suco de laranja totalmente natural, sem água nem açúcar, bem diferente daqueles sucos de caixinha com gosto de remédio que Mulder estava acostumado a tomar. Ao terminarem de comer, estavam realmente satisfeitos. ? E então, parceiro? Não quer ser o meu cozinheiro daqui em diante? ? Pode ser, Scully... Desde que você aceite fazer sucos para mim. Eles se olharam e trocaram risadas gostosas. De repente, Scully ficou séria. Demorou um pouco até ela se manifestar. ? Você se saiu muito bem com a Suzie no supermercado hoje. ? Que nada, eu só dei corda para ela... ? Quer dizer que nós somos casados e temos dois filhos? Christian e Melissa, eram esses os nomes? ? Errr... Sim. – mais uma vez, ele mergulhou no azul intenso dos olhos dela – Sabe, Scully, se eu tivesse filhos, gostaria que eles tivessem esses nomes... ? São nomes bonitos. Eu nem penso nisso, porque... – ela se calou. ? Scully... ? Mulder, às vezes é tão frustrante pensar que não poderei ser mãe... Não sei... Eu gosto tanto de crianças... Quando encontrei Emily, cheguei a pensar que... Que tudo poderia ser diferente. ? Por favor, Scully, não fique assim... Se eu soubesse que traria esses sentimentos ruins a você, não teria brincado com a sua amiga... Não desse jeito. – ele tocou levemente as mãos dela, que estavam sobre a mesa. ? Tudo bem, Mulder. – Scully fitava as mãos do parceiro – Acredito que tudo nessa vida tem um motivo. E, se isso aconteceu, é porque tinha que ser... Só assim consigo conviver com a dor... – uma lágrima rolou de seus olhos, e ela apertou as mãos fortes dele entre as suas. ? Scully... Desculpe... Eu não queria... Ela desistiu de tentar conter as lágrimas. ? Mulder, ainda bem que tenho você... Não sei o que faria sem a certeza de que sempre estará aqui... – ela levou as mãos dele junto ao seu coração. ? Pode manter essa certeza, Scully. – ele se levantou, deu a volta na pequena mesa, e puxou-a para si, envolvendo-a em seus braços – Eu... Eu também conto com isso... Eles estavam bastante emocionados. Não apenas pelo fato concreto da esterilidade de Scully, mas também por estarem se abrindo um com o outro. ? Scully... Às vezes, quando eu me sinto desesperado, pressionado, num beco sem saída, fecho os olhos e me lembro de você. Penso na sua força, na sua inteligência, na sua honestidade, dedicação... E consigo suportar, consigo vencer os problemas. Você é a luz que guia a minha existência vazia. Você é minha inspiração, é quem me faz acordar todos os dias, pensando que tenho que seguir em frente, que não posso desistir. ? Mulder, você é a razão de tudo. Não consigo imaginar como seria minha vida sem você ao meu lado. Por sua causa, hoje eu acredito em alguma coisa, acredito no meu trabalho, acredito que temos uma missão a cumprir. Eles permaneceram abraçados por mais algum tempo, e então Mulder falou: ? Venha, Scully. Venha se deitar. Você está cansada. ? Mulder, não pense que vou permitir que durma na minha poltrona aveludada hoje. Vou ajeitar o sofá da sala para você, não é tão confortável quanto uma cama, mas já que diz estar acostumado... – ela deu um sorriso tímido, mirando o rosto dele. ? Não esquente a cabeça com isso, Scully. Eu mesmo me ajeito por lá. Mas só depois que você dormir, certo? ? Combinado. Antes dela se deitar, ele afagou seus cabelos ruivos sedosos, que a essa altura já estavam secos. Enxugou algumas lágrimas que ainda molhavam o rosto bonito da parceira, passou a mão pelos seus ombros e ajudou-a a acomodar-se na cama. ? Mulder, aonde você vai? ? Vou me sentar aqui, Scully. Até você cair no sono. – disse ele, apontando para o sofazinho de veludo. ? Não, Mulder. Por favor, será que... – ela se sentia intimidada, encontrava dificuldades em admitir que, ao menos naquele momento, precisava da proteção do parceiro – Bem... A verdade é que não sei se conseguirei fechar os olhos com essa tristeza toda que está me dominando... Sua presença pode me ajudar... Não poderia ficar aqui, perto de mim, pelo menos até eu dormir? ? Está bem, Scully. Ele entrou embaixo do edredom, e se aproximou da parceira, permitindo que o calor de seu corpo a consolasse. Não trocaram mais palavras por um tempo. Suas mentes estavam abarrotadas de pensamentos conflituosos. Era complicado aceitar que o que os unia era mais forte do que uma grande amizade... O sentimento estava lá, evidente, latente, e implorava para ser extravasado. Eles não agüentavam mais esconder de si próprios a realidade. Queriam se sentir, se tocar, penetrar no universo do outro, por inteiro, por completo. Sem medos ou temores. Precisavam disso. Precisavam muito. Mulder aproximou-se dela e, lentamente, envolveu a cintura delicada com sua mão esquerda. Ela fechou os olhos, e entrelaçou seus dedos nos dedos dele. Então, ele a virou em sua direção. Eles se encararam por alguns instantes. Perceberam que o limiar que os separava havia desaparecido. Estavam livres para viverem seu amor. Naquele momento em que Mulder trouxe o corpo de Scully para perto do seu, todos os sentimentos reprimidos durante anos explodiram. Ele acariciou o rosto dela, quando o silêncio parecia ser o cúmplice oportuno. Os olhos do homem examinaram cada traço da mulher que até então ele ignorava existir... Em sua mente ecoava um único pensamento: "Eu estava cego para não notar a sinceridade desses olhos, para não perceber que essa boca maravilhosa estava aqui, esperando por meus beijos, minhas mordidas, minhas carícias...". Scully, que durante um longo tempo tentou esconder suas emoções, seus desejos, seu coração... Agora se mostrava totalmente entregue ao comando deles. Seu corpo se aqueceu, ansiando pelo momento de ser tocado, beijado... Como ela pôde esquecer o quanto é bom ter um homem ao seu lado, como pôde abster-se de tamanho prazer? Depois deste instante em que os pensamentos dominaram suas mentes, e que de certa forma fizeram os ponteiros do relógio pararem de girar, Mulder não conseguiu mais se controlar. Suas mãos se concentraram na face alva de Scully... Ele passou os dedos em sua testa, em seus olhos, em seu nariz, nas bochechas, no queixo, em todos os contornos daquele rosto, e finalmente chegaram à boca, detalhadamente examinada, tateada. Scully, ainda paralisada pelos acontecimentos, permitia-se apenas receber os carinhos. Seus olhos mergulharam na profundidade dos olhos daquele homem que ela agora tinha certeza de que era a pessoa por quem esperou a vida inteira... O seu corpo não conseguiu esconder as sensações próprias do momento: rubor, calor, tremor... Amor. Mulder parecia castigá-la, ao beijar todo o rosto da amada, menos sua boca. Não que ele não quisesse fazê-lo, mas por desejar que este beijo tivesse a sinceridade, a intensidade e a importância do primeiro beijo. Por isso, percorreu com os lábios os olhos, a nuca, e chegou a roçar os lábios de Scully. E ela, tomada pelo ímpeto próprio dos amantes, colou seus lábios nos dele, enquanto as delicadas mãos contornaram o pescoço do seu homem, tateando os fios de cabelo. O beijo foi doce, suave. Estavam descobrindo os segredos mútuos, tão bem guardados, tão escondidos. Logo o beijo passou a ser apenas a porta de entrada para todo o resto que os aguardava. Como homem e mulher eles se lançaram à loucura dos apaixonados. Limites não precisavam mais ser respeitados, tudo era permitido e eles se entregaram ao amor... Scully beijou todo o corpo do amante, seu tórax, abdômen, seu umbigo... Mulder liberou suas emoções, e com o organismo totalmente extasiado passeou com os lábios pelos caminhos mais secretos do corpo da parceira. Ah... Suas orelhas, seu pescoço, os seios tão perfeitos e tentadores, prontos para serem mordidos... Sua barriga, as pernas... Um corpo tão lindo, que se escondia atrás de roupas sérias que só faziam disfarçar a mulher sensual que Scully é... E como se os deuses tivessem escrito nas estrelas há milhares de anos, Mulder e Scully agora eram um só ser... Todos os segredos foram revelados, não existiam mais barreiras entre os dois. O inevitável enfim aconteceu, e seus destinos foram selados. Os amantes continuaram por horas envoltos nas sensações mais impensadas, permitiram-se até mesmo esquecer do mundo que os cercava. Não existiam mais mistérios a serem solucionados, nem assassinos frios ou conspirações... Nada mais importava, ninguém importava. Todo o silêncio que antes predominava foi quebrado por sussurros de prazer, por palavras de amor e por sons que vinham de dois corpos se tocando, se amando... 9:11 AM Mulder acordou sentindo-se flutuando num mar de rosas... Leve como uma pluma. Olhou para Scully, nua, deitada ao seu lado, e pensou: "Ela me faz um homem melhor. Melhor a cada dia. Ela me faz invencível. A cada sorriso, a cada olhar, a cada toque. Eu a amo. Preciso dela ao meu lado.". Scully foi despertada pelas carícias dele. Sentiu cócegas e sorriu quando ele aproximou o rosto do pescoço dela, respirando ofegante. Como era bom tê-lo ao seu lado! Um homem tão obstinado, tão batalhador, tão carinhoso... Um homem íntegro, que seria capaz de fazer as maiores loucuras para vê-la a salvo e feliz. ? E então, dorminhoca? Quer dar a faxina e pintar o apartamento ou vamos nos entregar de vez à preguiça? ? E eu sou louca de perder a oportunidade de ter um ajudante tão competente ao meu lado? Mãos à obra! Eles se levantaram, tomaram o café da manhã – desta vez com bolachinhas –, e colocaram roupas velhas para iniciarem o trabalho do dia. Mulder estava muito engraçado; vestia uma calça apertada e rasgada, uma camiseta azul bastante desgastada, e colocou um boné com a aba voltada para trás; Scully vestiu um antigo macacão amarronzado, uma blusinha de algodão branca e amarrou um lenço na cabeça, para proteger seus cabelos da poeira e da tinta. Eles iniciaram a faxina pela suíte. Scully tirava o pó dos móveis, enquanto Mulder limpava o teto e as paredes. Ela tirou a colcha e os lençóis da cama, as fronhas dos travesseiros; juntou algumas roupas que estavam jogadas no banheiro e recolheu os tapetes. Em seguida, Mulder foi lavar o banheiro, e Scully passou o aspirador pelo carpete do quarto. Colocou nova roupa de cama, passou lustra-móveis no guarda-roupa, nos criados-mudos, na penteadeira. Foram então para a sala. Scully juntava as revistas espalhadas pelo sofá, e Mulder cuidava das paredes. A agente mais uma vez usou o espanador nos móveis, e Mulder passou o aspirador pelo tapete. Foi uma limpeza rápida desta vez, especialmente porque Mulder não parava a cada dois minutos olhando para a parceira e fazendo aquela cara de "quero colo", sugerindo que eles testassem mais uma vez a maciez do colchão dela e a resistência de sua cama. Limpar o lavabo foi simples. Mulder cuidou disso, e Scully foi para a cozinha, que não estava muito bagunçada. Ela afastou geladeira, freezer, fogão, passou um pano molhado com desinfetante para limpar inclusive os cantinhos mais escondidos. Depois, pegou a escada e foi tirar o pó que estava acumulado sobre os armários de parede. Eles terminaram a faxina antes do almoço. Estavam um pouco cansados, não só pelas atividades daquela manhã, como também por todo o desgaste físico acumulado durante a noite. Decidiram pedir uma pizza pelo telefone, assim não precisariam se trocar para irem almoçar fora. Sentaram-se no sofá da sala para esperarem o almoço chegar. Mulder, lentamente, deixou o corpo escorregar, até pousar sua cabeça no colo de Scully. ? Puxa, Mulder, percebe como minha casa está diferente, mais clara, mais agradável? Fazia séculos que eu não dava uma boa limpeza por aqui. ? O que você tem contra as faxineiras, Scully? ? Tirando o fato de que as duas últimas que contratei andaram levando uma ou outra "lembrancinha" do recinto, nada. Acho que aquela frase "Não confie em ninguém" deveria ser estendida às faxineiras, Mulder. Eles deram uma gargalhada. ? Se é assim, Scully, pode contar comigo quando precisar, viu? ? Ah, Mulder, você é tão gentil... Mas será que não está fazendo isso só pra me agradar? ? Ora, Scully, é lógico que sim! Nada mais me agrada do que te agradar. – ele disse, levantando a cabeça e olhando dentro dos olhos dela. ? Mulder, você não tem jeito mesmo... Se fôssemos somente amigos, como éramos até ontem, duvido que estaria tão disposto a me ajudar. – ela desafiou. ? Nunca duvide da minha palavra, agente Scully. Eu faria qualquer coisa por você, morreria por você, mesmo se ainda fôssemos "apenas bons amigos". Ela fechou os olhos e pensou: "Como é maravilhoso ouvir isso." ? Não tenho outra alternativa senão te amar desesperadamente, Mulder. – ela abaixou o rosto e encostou seus lábios nos dele, beijando-o. Eles ficaram assim, acomodados no sofá e conversando, até que o entregador de pizzas bateu na porta. Mulder recebeu a pizza, pagou o garoto e dirigiu-se para a cozinha, onde já se encontrava Scully, que arrumava a mesa. ? Scully, estou morrendo de fome. ? Eu também estou faminta. Ele colocou um pedaço no prato da parceira, e um no seu próprio prato. Não estava muito acostumado a comer pizza com garfo e faca, costumava usar as mãos apenas, mas sabia que Scully não aprovaria tal comportamento alimentar. E com razão, porque as mãos, sujas ou mal lavadas, podem estar carregadas de microrganismos prejudiciais à saúde. ? Que delícia, Mulder! ? Essa pizza Portuguesa é simples, veja. – ele apontava os ingredientes com as mãos enquanto dizia – Apenas massa, presunto, mussarela, tomate, orégano... Não precisa mais nada para ser perfeita. ? Eu também não gosto muito de pizzas incrementadas exageradamente. Fica até meio sem gosto. – ela comentou. ? Puxa, Scully, temos mais coisas em comum do que eu pensava! ? É verdade, Mulder. Terminaram de comer e Mulder foi ajudá-la com a louça. Scully mal podia acreditar que o parceiro fosse tão prestativo. "Seria um marido perfeito.", ela concluiu. ? Scully, eu estava pensando numa coisa... ? O que é? ? Bem... Acho que deveríamos ter pintado o quarto e a sala antes de limpá- los... ? Você acha que a pintura vai causar muita sujeira? ? Não sei... Sou um cara cuidadoso, posso espalhar uns jornais velhos pelo chão, afastar os móveis... Talvez assim não tenhamos problemas. ? Tudo bem, Mulder, eu te ajudo. Mulder foi até a área de serviço e apanhou a lata de tinta branca que Scully havia comprado há bastante tempo, na esperança de algum dia realizar a pintura. Pegou também o rolo e um pincel. Agora que estavam juntos, poderiam utilizar a parceria para conseguirem benefícios mútuos dentro da vida pessoal. E ele faria tudo, tudo que estivesse ao seu alcance, para deixá-la feliz. Ela merecia. Chegando ao quarto, viu que Scully já estava afastando móveis, cobrindo-os com jornais, assim como o chão acarpetado. Teriam que ser realmente cuidadosos, para não pintarem nada além das paredes e do teto. Mulder foi ajudá-la, e logo eles iniciaram a pintura. Eram duas horas da tarde. O trabalho não demorou muito tempo. Mulder espalhava a tinta com o rolo do teto ao chão, e Scully reforçava a pintura em alguns pontos usando um pincel. Antes das quatro horas eles terminaram, e foram para a sala. Mais uma vez, arrastaram os móveis, enrolaram o tapete, forraram tudo com jornais. Mulder já estava ficando craque em pinturas de ambientes, e desta vez o trabalho rendeu mais. Scully parava em alguns momentos e ficava olhando para o parceiro no alto da escada; como ele era bonito! Aquela calça apertada realçava a forma de suas pernas... Os movimentos o deixavam extremamente sexy... Ela sentia uma imensa vontade de mandá-lo parar com tudo e de amá-lo mais uma vez, mas se controlou. *** Por volta das seis horas da tarde, eles terminaram. Estavam esgotados. Sentaram-se nas cadeiras da cozinha, enquanto conversavam. ? Scully, tenho uma proposta para você. ? O que seria, Mulder? – ela indagou curiosa. ? Que tal irmos para o meu apartamento? Esse "aroma" de tinta fresca vai permanecer por pelo menos um dia ou dois... ? Mas o seu apartamento não está contaminado pelo cheiro terrível dos produtos de detetização? ? Estava, Scully... Ou está, não sei... – ele titubeou – Vamos fazer o seguinte: tomamos um banho agora, vamos até a minha casa e veremos se ela já está "habitável" novamente. O que acha? ? Tá bom, Mulder. Só espero que você também não esteja louco para dar uma faxina e uma pintura por lá... Estou morta! – ela afirmou, sorrindo. ? Não se preocupe, Scully. Não faz muito tempo andei colocando meus dotes de pintor à mostra em minha humilde residência... E quanto à faxina... Isso não funciona no meu caso, no outro dia já está tudo bagunçado novamente. – ele riu de si mesmo. *** Scully tomou um banho rápido. Estava tão cansada que preferiu não esperar a banheira encher-se de água. Quando se preparava para desligar o chuveiro, Mulder entrou no banheiro sorrateiramente, jogou as roupas pelo chão e a abraçou, molhando-se debaixo do jato d'água. O agente começou a massagear as costas dela, ritmadamente, e ela se rendeu aos carinhos dele, sentindo as mãos fortes passeando por seus ombros e por suas costas. ? Mulder... ? Você está muito tensa, Scully... Relaxe, vamos! ? Quantos "dotes" seus eu não conhecia, Mulder... Agora descubro que é um massagista nato... ? Uma das minhas especialidades enquanto massagista é essa... – ele a virou para si, beijando sua boca – Massagem de lábios, de língua... Aquele clima de erotismo mexia com a cabeça e com todos os sentidos de Scully. ? Tenho também essa outra especialidade... – disse Mulder, levantando-a, encostando-a na parede e fazendo com que ela passasse as pernas em volta dos quadris dele – Integração plena de corpos e de almas... – ele encaixou-a a si, e começou a movimentar-se lentamente, proporcionando total prazer à parceira, e compartilhando dessa sensação alucinante. ? Mulder, ah... Mulder!... – ela cravou as unhas nas costas musculosas dele, enquanto ele beijava suavemente os cabelos molhados dela, jogados sobre seus ombros. O momento de êxtase durou o tempo necessário para fazê-los escorregar para o chão do banheiro. Demoraram alguns instantes para tomarem consciência de onde estavam. ? Scully... – ele dizia, procurando ofegante pelos lábios dela e acariciando seus seios. ? Mulder... – ela não sabia que poderia sentir tanto prazer e tanto desejo por um homem. Eles se beijaram novamente, ficaram um tempo envolvidos, até despertarem daquele momento especial que viviam. Terminaram o banho, trocaram de roupas e foram até o apartamento de Mulder. ALEXANDRIA APTO. 42 8:53 PM Scully percebeu, ao entrar na casa do parceiro, que não haviam resquícios do odor causado pela detetização. Tudo parecia em ordem, isso considerando que Mulder nunca se preocupara muito com qualquer tipo de organização. ? É... Pelo jeito, o seu "lar, doce lar" está habitável novamente... ? Puxa, Scully, falando assim até parece que você não gostou de me hospedar... – ele fez aquela expressão característica de "cachorrinho abandonado". ? Ora, Mulder... – ela abraçou-se a ele – Você sabe que não se trata disso. Se você não tivesse se convidado a ficar no meu apartamento, a essa hora estaríamos sozinhos e infelizes, como aliás sempre estivemos em nossos momentos de descanso desde que começamos a trabalhar juntos. ? Isso é verdade, Scully. Eles se sentaram no sofá de couro, que àquela altura, dado o cansaço que os dois sentiam após o dia de trabalho intenso, parecia atraí- los de uma maneira irresistível. Apoiaram-se um no corpo do outro, e ficaram mudos por alguns instantes. Scully começou a cochilar. Mulder não tirava os olhos dela, e passou a acariciar seus cabelos, sussurrando: ? Scully, me perdoe... Ela despertou ao ouvir as palavras pronunciadas por ele. ? Por que, Mulder? Por quê eu tenho que perdoá-lo? ? Porque... Bem... – ele parecia confuso – Porque eu te amo tanto, sempre te amei, e não fui capaz de assumir esse sentimento, muito menos de demonstrá- lo... Sinto-me mal agora, ao perceber que sete longos anos se passaram desde que nos conhecemos e que nunca consegui mostrar a adoração que eu tinha por você... Perdemos tanto tempo... Tantas noites eu passei aqui nesse sofá, sozinho, sentindo uma enorme vontade de ter a mulher da minha vida comigo... E você ali, na minha frente, todos os dias... Como fui estúpido! Como fui idiota!... – eram visíveis as lágrimas em seu rosto. ? Mulder... Meu Deus, Mulder... Por favor, não diga isso. – ela o fitava com intensidade – Eu também me sentia assim, sabe? Sozinha, carente, perdida... Também sou culpada... Podíamos ter sido tão felizes desde o início... Mas agora não temos mais o que lamentar, superamos todos os bloqueios, assumimos nossos sentimentos, e estamos juntos, o que é mais importante. ? Scully... Eu não mereço você. ? Pare de dizer essas coisas, Mulder! Você me merece sim, e eu te mereço também. Ninguém nesse planeta inteiro, ou mesmo fora dele – Mulder olha intrigado ao perceber que a parceira por um momento considerou a hipótese de vida extraespacial – nos merece mais do que nós mesmos... Foram sete anos, Mulder! Sete anos de testes diários, de provas de amor, uma atrás da outra... Sem você eu não seria o que sou. ? Quer dizer que eu contribui para que você se tornasse essa mulher maravilhosa, sem a qual não posso viver? – ele devolvia a ela um olhar intenso, malicioso. ? Nós somos o que somos porque temos um ao outro. É isso que eu penso. – ela foi direta. ? Eu te amo, Scully. E mais uma vez você está certa, porque sinto que você me completa. ? Eu também te amo, Mulder. Então, Mulder tirou a camiseta que vestia e envolveu em suas duas mãos a mão direita de Scully. Ela olhou para ele, sem entender o que ele pretendia. Mulder levou a mão da parceira até sua boca, beijando-a, e em seguida depositou-a sobre seu peito. Scully pôde sentir que o coração dele batia descompassadamente. ? Olha só o que você faz comigo, agente Scully. – ele sorriu. ? Ah, Mulder... – ela estava emocionada – Nunca imaginei poder sentir por alguém o que estou sentindo por você... Aqui, neste momento, acompanhando as batidas do seu coração, eu percebo que não tenho escapatória. Não adianta negar. Seu coração e o meu são um só... – ela põe a mão dele sobre o peito dela – Batem coordenados, dependem um do outro... Ele se deitou sobre ela, e começou a beijar seu pescoço, delicadamente. Queria sentir seu perfume, queria estar confortado e protegido como nunca esteve antes. Não passou muito tempo, e eles adormeceram. 7:32 AM Scully despertou sentindo algumas dores no corpo. Foi quando percebeu que passara toda a noite deitada com Mulder naquele sofá estreito. Ela se levantou com cuidado para não acordá-lo, e ajeitou-o melhor sobre o móvel. Foi até o banheiro, e depois dirigiu-se à cozinha, para fazer um café. Enquanto andava, percebia como o senso de organização do parceiro andava "adormecido": roupas jogadas no banheiro, toalhas molhadas sobre os móveis, latas de alimentos espalhadas pela cozinha... Aquele era Fox Mulder, o inesquecível Fox Mulder, o corajoso Fox Mulder. Aquele era o seu homem. Ela abriu um sorriso ao lembrar-se de algumas atitudes dele; às vezes parecia um garotinho emburrado, outras vezes assemelhava-se a algum gênio incompreendido devido às suas deduções brilhantes... A expressão da agente tornou-se mais séria ao considerar que na maioria do tempo, ele era um homem amargurado, solitário, fechado. Quantas noites de sono ele não teria perdido, chorando por sua irmã desaparecida, sentindo-se culpado pela separação dos pais? Quantas vezes ele não precisou de uma pessoa ao seu lado, para compartilhar sua tristeza, ou ao menos para ele saber que alguém se importava? E onde estava ela? Scully, comovida, pensou: "Eu sempre estive com ele. Desde o início. Eu sempre o amei, tanto que nem era capaz de perceber. Eu o apoiei, mesmo não acreditando em suas hipóteses nada científicas... Obrigada, meu Deus, por tê-lo colocado em minha vida, e por ter me dado a chance de ser a pessoa que se importa com ele. Obrigada por ele se importar comigo.". Ela se perdeu nesses pensamentos. 9:01 AM Mulder abriu os olhos e procurou a parceira ao seu lado. Não a tendo encontrado, levantou-se preocupado, tenso. Chamou por ela, e só relaxou ao ouvir a voz tão familiar que vinha da cozinha. ? Estou aqui, Mulder. O café está pronto. Ele encaminhou-se lentamente até onde ela se encontrava, e lhe deu um envolvente abraço por trás, beijando seu ombro e seu pescoço. ? Scully... Como é incrível a sensação de estarmos juntos! Adoro ter você comigo... ? Mulder, você é um homem maravilhoso, sabia? ? É claro que eu não sabia! – ele falava com um sorriso ingênuo no canto dos lábios – Se eu soubesse disso, ou melhor, se eu soubesse que você pensava assim, não teria perdido tanto tempo... Teria tomado providências mais cedo para tê-la bem juntinho de mim... – ele apertou o corpo dela contra o seu. ? O pior defeito do ser humano é não saber reconhecer seus próprios valores, Mulder... – ela o provocava. ? Mas você também não fica atrás, minha querida "Ice Queen"... "Rainha do Gelo"... Não é assim que os rapazes da Academia a chamavam? A fria agente do FBI, que afasta todos os homens que se aproximam... Que só tem olhos para a justiça e a verdade! – ele a soltou – Posso saber por quê se fechou e se escondeu tanto? ? Mulder, pára com isso... ? Ora, vamos, Scully! Vai negar que o seu comportamento no Bureau é capaz de frustrar as intenções de qualquer "Romeu apaixonado"? ? Você não entenderia... ? O que eu não entenderia? Tente me explicar. Quem sabe o seu Mulderzão aqui não tenha neurônios suficientes para compreender? ? Mulder... ? Abra-se, Scully. Estamos sendo sinceros, não estamos? Scully fechou os olhos, parecia estar buscando forças para responder. ? O problema é que é muito difícil para uma mulher firmar-se profissionalmente num mundo com tendências machistas e mal intencionado. Vai dizer que estou mentindo? ? Não, não está... – ele agora parecia pensativo. ? Ainda mais no Bureau, onde temos que conviver diariamente com crimes terríveis... Acha que eu não tenho vontade de chorar ao ver a dor estampada nos olhos das pessoas? Acha que eu não sinto medo ao perseguir bandidos psicopatas? Acha que é fácil, Mulder? Acima de tudo, eu sou uma mulher. Mulheres são sensíveis. Eu sou sensível. Mas se demonstrasse isso, seria ridicularizada no meu ambiente de trabalho. ? Scully... Eu entendo você. Até para mim, que sou "o homem da casa", é complicado às vezes... Desculpe-me. Eu sei que você está com a razão. E admiro o seu auto-controle. Dependo disso. Você é a minha constante, a minha pedra de toque. Então ele se aproxima e a beija, encerrando a pequena discussão, uma espécie de "acerto de contas", que hora ou outra teria que acontecer. Haviam esclarecido, ainda que com certa dificuldade, o motivo de tanta resistência emocional mútua naqueles anos de trabalho conjunto. Sentiram- se bem depois disso. Os dois tomaram café, programando o que fariam no domingo que se iniciava. 12:03 PM Os agentes resolveram almoçar num restaurante próximo. Scully convenceu o parceiro dizendo que estava cansada das pizzas e da comida chinesa. Queria algo mais "substancioso". Ele aproveitou para brincar: ? Puxa, Scully, eu não sou suficiente? Para que você quer tanto algo mais "substancioso"? Ela riu, intimidada com a ousadia inocente dele. ? Ora, Mulder... Deixa disso, vai... ? Mas o que temos aqui? Minha ruivinha favorita está envergonhada? Vejam, senhores, isto é incrível! Ela o abraçou, fazendo com que se calasse. Sentaram no sofá e quase perderam a noção do tempo. Nada parecia ser melhor naquele momento do que se sentirem totalmente unidos. 12:42 PM Chegando ao restaurante, Mulder puxou a cadeira para Scully se sentar, como um perfeito cavalheiro. Ela se lembrava de algumas gentilezas dele no trabalho, mas jamais pensou que aquele homem tão obstinado e ao mesmo tempo tão carente fosse capaz de surpreendê-la daquela forma, cheio de boas maneiras. Sentia-se muito feliz ao constatar que ele estava agindo assim para agradá-la, para mostrar a ela o que ele tinha de melhor. Sentia-se, na verdade, especial. Enquanto comiam, não conversaram. Mas trocaram olhares intensos que refletiam todos os desejos contidos que ainda precisavam materializar. Após o almoço, caminharam lentamente, de mãos dadas, até a casa de Mulder. Scully ia muito ao apartamento dele, mas sempre estava tão preocupada com os casos que investigavam que não tinha tempo para reparar nas construções que cercavam o prédio do parceiro. Então, ele aproveitou para mostrar a ela algumas belezas arquitetônicas que ainda não haviam sido notadas por aqueles incríveis olhos azuis, descrevendo, com sussurros que chegavam sensuais aos ouvidos dela, um pouco da história de cada uma. Ela achava tudo aquilo muito interessante, e se derretia ao percebê-lo assim, tão carinhoso e prestativo. 2:09 PM Uma vez no apartamento, renderam-se ao sono. Por mais que desejassem ficar o maior tempo possível juntos, trocando carícias e beijos, tinham que repor as energias gastas nos últimos dois dias. Scully vestiu uma das camisas dele, que para ela serviam como uma camisola, e deitou-se sobre o peito nu do parceiro. Antes de dormir, ela brincou com os pêlos espalhados por aquele tórax musculoso, que tanto a atraíam. 7:26 PM Acordaram praticamente ao mesmo tempo, e viram pela janela que o manto negro da noite já se impunha. O programa para aquela noite não poderia ter sido mais bem escolhido. Mulder, ainda com a calça do pijama e usando meias brancas, estava "espalhado" no sofá de sua sala, observando calado a parceira que, sentada à sua frente, folheava uma revista. Na capa de fundo dessa revista, estava estampada a propaganda de um show que seria realizado logo mais em área aberta na Capital Federal. Ele pensou um pouco e então se manifestou: ? Sabe, Scully, quando morei na Inglaterra tive a oportunidade de conhecer uma cultura diferente, outros costumes e tendências. Incluso nesse "pacote cultural" estavam novos ritmos e estilos musicais, ainda sem força aqui nos Estados Unidos. Cheguei lá idolatrando o rock and roll e voltei para cá sentindo alguma simpatia por aquilo que os especialistas chamam de "música alternativa"... Scully escutava atenta o que ele dizia. Parecia interessada em saber mais sobre o assunto. ? Mulder, e o que seria exatamente essa tal "música alternativa"? ? Bem, digamos que sejam manifestações sonoras que "experimentam" novas combinações, que se baseiam mais no instrumental do que na voz. ? Você quer dizer música eletrônica? ? Mais ou menos. A música eletrônica me parece um tanto "agressiva", sabe? Prefiro ouvir algo menos espalhafatoso e mais intimista, mais particular. ? Pode me dar um exemplo de música alternativa? ? Posso fazer melhor. Posso te mostrar ao vivo como é. ? Como assim, Mulder? No que está pensando? – perguntou Scully, observando aquele brilho característico nos olhos verdes do parceiro, que denunciavam claramente que ele estava tendo idéias. ? Você gostaria de ir a um show nesta noite, Scully? ? Show? De quem? ? A banda se chama "Massive Atack". E o show é intitulado "Mezzanine". ? Creio que nunca ouvi falar... ? Eles não são muito conhecidos, mas já gravaram até com a Madonna! – Mulder falava empolgado. ? Nossa... *** A noite avançava e trazia consigo o vento frio e cortante. Mulder apressava Scully, ele queria chegar o mais cedo possível à arena onde o show seria realizado para pegar um bom lugar. A ruiva agente do FBI, que normalmente já estaria debaixo das cobertas àquela hora, fazia o possível para conhecer melhor os gostos do parceiro, para integrar-se plenamente no mundo dele. ? Estou pronta, Mulder. Podemos ir agora. Ao chegarem na arena, pouco antes das dez da noite – a hora marcada para o show –, os músicos estavam afinando os instrumentos e acertando os últimos detalhes da apresentação. O palco era escuro, havia muitas luzes coloridas sendo testadas pelos técnicos, dando um ar futurista ao lugar. Mulder estava bem agasalhado em sua jaqueta marrom, e ao seu lado Scully tentava espantar o frio colocando as mãos no bolso de seu casaco. Ambos usavam calça jeans. Por baixo do agasalho, Mulder estava com uma camisa pólo verde e Scully com uma blusa de lã. O cabelo deles balançava ao sabor do vento. Por volta das dez e quinze, as luzes se apagaram e os sons começaram a surgir. Ouviram-se aplausos tímidos, dispersos, embora o local estivesse cheio de gente, todos interessados em fazer um programa diferente naquela ocasião. A impressão que se tinha era que, de cada lado do palco, diferentes instrumentos se manifestavam. Tudo muito suave. O baterista imprimiu uma batida cadenciada, lenta, e aos poucos os sintetizadores se impunham, lançando sons desconexos e desencontrados. Então, ouviram-se vozes ecoando, vozes que nada mais faziam do que ordenar aquela sonoridade aparentemente caótica. Constituiu-se uma canção relaxante, diferente. Transcendental. Mulder estava completamente hipnotizado com o show. Parecia estar em harmonia com todo aquele cenário de sonho. De sonho sim, porque quando iria imaginar que estaria, numa estrelada e fria noite de outono, junto à mulher que ama, ouvindo canções tão profundas e marcantes? O agente do FBI nem teve chance de se lembrar do estranho telefonema que ainda acreditava ter recebido há poucos dias, e que, ironicamente, tinha sido a fonte geradora de toda a felicidade que sentia agora. Querendo certificar-se de que vivia uma realidade, aconchegou-se carinhosamente à parceira, abraçando a cintura dela por trás, e ficando agarrado a ela durante todo o tempo. Scully adorou a idéia, nada lhe agradava mais do que estar próxima, praticamente "colada", a Mulder. E além disso, aquele abraço era caloroso e a impedia de sofrer com o vento que insistia em fazer-se presente. Quase no final da apresentação da competente banda, Mulder virou, carinhosamente, o corpo de Scully em direção ao seu. Ele fitava diretamente os olhos azuis dela, deixando-a totalmente desnorteada. Sussurrando, ele disse: ? Eu te amo. Amo estar aqui com você. Esse é o momento mais especial da minha vida. A agente fechou os olhos e tentou mentalizar o que seu amante havia dito. Três sentenças curtas. Poucas palavras. Mas tantas emoções e significados reunidos que ela achava que enlouqueceria, ali, nos braços dele. Após alguns instantes, ao voltar a si, Scully ouviu uma das cantoras da banda pronunciando, sutilmente, frases soltas que se reuniam para formar um sentido que se encaixava perfeitamente naquele momento: "…EVERYTHING I DO IS FOR YOU…" ("...Tudo que eu faço é por você...") "…YOU ARE EVERY PART OF ME…" ("…Você é cada parte minha...") "…AND I DON'T WANT TO FACE ANOTHER DAY, ALONE, WITHOUT YOUR LOVE…" ("…E eu não quero encarar outro dia, sozinha, sem seu amor...") "…ALL I'VE EVER WANTED IS YOU…" ("...Você é tudo que eu sempre quis...") Mulder percebeu, pela expressão da parceira, que as palavras ditas no acaso do momento transcreviam seus sentimentos. O entendimento deles era perfeito. Não havia margem para qualquer dúvida. Então, ele pensou em como havia sido tolo ao duvidar de Scully nos primeiros anos em que trabalharam juntos. Ela sempre lhe foi fiel, sempre quis ajudá-lo. Nunca se rendeu às pressões dos superiores que desejavam que ela invalidasse suas investigações e com isso acabasse com a credibilidade que o "Estranho Mulder" tinha dentro do Bureau. Ele espantou os pensamentos e aproximou-se mais dela. As batidas ritmadas do percussionista confundiam-se com as batidas aceleradas do seu coração. Nesse momento, o show já estava acabando, e os jogos de luzes compunham um mosaico de sombras coloridas que davam um efeito especialíssimo àquela cena de intimidade contida. Ela fechou os olhos, sentindo a respiração dele, que se aproximava cada vez mais. Desta vez, o beijo foi mágico. Eles se exploravam, minuciosamente. Sentiam tudo ao mesmo tempo. Permaneceram assim até a bela canção se encerrar. ? Obrigado, amigos! Vocês são legais! – um dos vocalistas da banda agradecia os aplausos do público. ? Uau, Scully! – Mulder afastou-se dela, interrompendo o beijo. Parecia estar despertando de um transe. O transe mais agradável de toda a sua vida. ? Mulder... – a bela face feminina, corada pelo frio, permanecia voltada para ele, presa ao momento de magia. Os olhos ainda estavam fechados. O agente passou delicadamente a mão pelo rosto dela, que saiu daquele estado de completa embriaguez emocional. Ambos sorriram ao se encarar. Mulder segurou a mão de Scully, e eles caminharam lado a lado, até chegarem ao carro. Nenhuma palavra foi pronunciada. Mas isso não era necessário. Havia amor no ar, e isso bastava. ? Mulder, devo dizer que estou completamente apaixonada por "música alternativa". Nunca ouvi nada tão... Profundo... Insinuante... Relaxante... – Scully dizia, ao entrar no veículo. ? Eu não te disse que era bom? – ele deu a partida no motor. ? Bom? É maravilhoso!... – ela acariciou o rosto bem barbeado dele. ? Mas Scully... Tem certeza de que você está apaixonada pela música alternativa? – Mulder a desafiava. ? Claro! Só que vou "rebatizar" esse novo estilo musical... A partir de agora, "música alternativa" será denominada "agente Fox Mulder". Eles riram. *** Chegaram em casa depois da meia-noite, nem tinham percebido o tempo passar. Arrumaram-se rapidamente para dormir, e quando Scully já se aninhava no corpo forte do parceiro, o telefone tocou. ? Mulder. ? Agente Mulder, aqui é o Skinner. Só estou ligando para informá-lo de que a polícia do Texas prendeu hoje os três fugitivos colombianos. Recebemos uma denúncia por telefone e contatamos o pessoal da fronteira com o México. A operação foi rápida, os procurados foram pegos antes que pudessem passar para o outro lado. ? Eles estavam no Texas? Como chegaram lá? ? Sim, estavam. Parece que conseguiram alugar um monomotor com o dinheiro da venda de drogas e passaram ilesos pelos bloqueios policiais. ? É bom saber que a busca está encerrada, senhor. – Mulder estava aliviado, mesmo já tendo tirado de sua cabeça a idéia de que poderiam ser aqueles três criminosos os autores do telefonema ameaçador, o qual ele nem mais tinha certeza se havia recebido. ? Amanhã poderemos conversar melhor sobre isso. Só liguei para tirar essa preocupação da sua mente. Boa noite. – despediu-se o Diretor Assistente. ? Boa noite, e obrigado. – disse Mulder, desligando o telefone. Scully percebeu que Mulder estava pensativo e perguntou: ? O que houve? ? Prenderam os terroristas. Creio que os cartazes oferecendo a recompensa funcionaram. ? Que bom, Mulder. Mas... Por quê você ficou assim? Parece estar tenso... ? Não sei, Scully... Talvez não seja tensão... Pode ser alívio por ter um problema a menos para resolver. Ela beijou-o levemente nos lábios, e ele suspirou de felicidade. Mas uma pergunta ainda estava martelando em sua cabeça. "Quem foi o autor daquele telefonema?". O agente adormeceu pensando naquilo. 2:56 AM O telefone celular de Mulder, colocado sobre o criado-mudo, começou a tocar. Ele abriu os olhos e procurou o aparelho ao seu lado. Atendeu, preguiçosamente. ? Alô? Mulder falando. ? Agente Mulder? Era o misterioso homem que havia ligado para ele na noite de quinta-feira. O agente gelou ao ouvir aquela voz. Esfregou os olhos, levantou-se devagar para evitar que Scully acordasse e foi até a sala, onde poderiam conversar melhor. ? Quem é você? ? Ora, agente Mulder... Quanta curiosidade... ? Deixe de brincadeiras, vamos... ? Diga-me, agente... Como vai sua bela parceira? ? Escute aqui... O que está querendo? Por quê fica perguntando sobre a Scully? ? Fico feliz que a tenha visto todos os dias desde que liguei... ? Pare com esse joguinho! ? Quer dizer que agora a agente Scully vai MUITO bem? Que ótima notícia! Mulder desistiu de fazer perguntas. Ao perceber que o homem estava retomando a conversa anterior, procurou apenas ouvir o que mais ele tinha a dizer. ? Tudo bem. Diga-me o que você pretende. ? Ainda não percebeu? ? Não, não percebi. ? Digamos que alguém lá em cima gosta de você, agente Mulder. E também gosta de sua parceira. Mulder continuava sem entender. ? Quem gosta de nós? ? "A Verdade está lá fora"... Não é esse o lema da sua busca, a razão da sua vida? ? É isso mesmo. ? Então, agente Mulder, faça-me um favor... Olhe para o céu. Ele foi até a janela da sala e observou o manto estrelado. Viu que uma estrela, notadamente maior que as demais, piscava rapidamente. ? Todos merecem ser felizes, meu caro agente. ? Eu... Eu... – Mulder esfregou novamente os olhos, estava confuso. Parecia impossível que tudo aquilo estivesse acontecendo. Teria ele um anjo da guarda? Ou seria um "extraterrestre" da guarda? ? Cuide muito bem da sua parceira, pois se há alguém que pode manter esse sorriso em seu rosto e esse calor em seu coração, é a agente Scully. ? Vou... Vou cuidar. – disse Mulder, desligando o telefone e sentando-se numa cadeira, pensativo. Definitivamente, estava vivenciando o seu próprio arquivo X. 7:12 AM Scully acordou e logo percebeu a ausência de Mulder na cama. Levantou-se e foi até a sala, procurando por ele. Foi encontrá-lo adormecido, com a cabeça apoiada na mesa do computador. Passou a mão nos cabelos castanhos dele, que despertou sentindo o toque delicado. ? Mulder, por quê está aqui? ? Ah, Scully... Fiquei observando as estrelas do céu pela janela e acabei dormindo... ? Você e seus homenzinhos verdes... – ela brincou, sentando- se no colo dele. ? Não são verdes, Scully... São cinza! "E podem até falar ao telefone", pensou consigo mesmo. Eles deram belas gargalhadas. De repente, Mulder ficou sério, e direcionou o olhar para um ponto perdido na parede da sala. Após um curto período de meditação, ele olhou para ela, seus olhos brilhavam. Parecia ter encontrado uma resposta que sempre esteve procurando. ? É isso... É isso mesmo! ? Não estou entendendo, Mulder... É isso o que? – Scully estava curiosa. Ele virou-se e a encarou. ? Scully, preste muita atenção no que vou dizer agora... Eu vou cuidar de você. Vou cuidar de nós. É a melhor maneira que tenho para cuidar de mim mesmo. A agente ficou sem entender a afirmação do amante, mas sentiu-se imensamente feliz ouvindo aquelas palavras. Passados alguns instantes, ela lembrou: ? Mulder, está na hora de nos arrumarmos para o trabalho... Ainda tenho que passar em casa para trocar de roupa... ? É mesmo, Scully! Vamos nos apressar. Ela já se levantava do colo dele, quando sentiu a mão forte puxando-a de volta. ? Creio que o mais prático seria morarmos juntos... O que acha? – perguntou timidamente o agente. ? Mulder... – ela perdeu a voz por um instante. ? Poderíamos até mesmo oficializar as coisas... – ele parecia um garoto envergonhado, olhando para o chão. Scully ficou emocionada e envaidecida com aquele convite, mas ponderou antes de dizer qualquer coisa. ? Não sei... Você acha que "apenas" sete anos de amor contido e três dias de amor intenso são suficientes para que eu diga "SIM"? – ela indagou, forçando uma expressão duvidosa. ? Bem, minha céptica agente Scully... Cientificamente falando, acredito que você já tem provas e evidências suficientes para concluir o caso. – ele completou, sorrindo. Eles se levantaram, respiraram fundo, e se olharam profundamente. Estavam iniciando uma nova fase de suas existências. Finalmente, haviam ultrapassado o tênue limiar, a sutil parede invisível que os separava. No trabalho, concordaram em manter uma postura totalmente profissional, embora Mulder achasse realmente difícil resistir aos encantos da parceira. Mas não demoraria muito e todos no Bureau perceberiam que os dois agentes do FBI tinham em comum mais do que uma simples parceria. A partir daquele final de semana, e após um certo telefonema misterioso, eles passaram a ter toda uma vida em comum. FIM__________________________________________________________ _________________ ___________ 1