A Igreja do Diabo Feedback para mariaanita@msn.com Autora: Meggie Disclaimer: Tem outro dono que não eu e não vou lucrar com essa historia, serve apenas como diversão para a autora viciada...Perdoem-me... Resumo: Canceroso convence Mulder a trabalhar para o Sindicato. Nota: Algumas semanas depois de A salvação da Humanidade Nota II: Essa fic eu comecei antes da sétima temporada Ter terminado, o que parece há séculos atrás. É uma fic tipo Universo Alternativo, em que toda a oitava e nona temporada tem que ser desconsideradas. Inclusive Réquiem. Foi minha primeira tentativa de uma fic mitológica, mas eu me perdi no meio quando o Chris começou a mudar a mitologia. Resolvi ver se ainda conseguia salva-la. Espero que me perdoem por eventuais erros de roteiro, existem anos entre o começo e o fim dessa história. "-Sim, sou o Diabo – repetia ele -; não o diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arreda-lo do coração dos homens. Vede-me, gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos direi tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo..." ( Machado de Assis em " A Igreja do Diabo" ) A IGREJA DO DIABO by Meggie " Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destrui-las de uma vez." ( Machado de Assis) I Um familiar cheiro de nicotina contaminou o ar. Levou a mão ao coltre, num instinto básico e imediato. Uma voz conhecida e levemente rouca, debochou. - Mas será que nunca aprende, Mulder. Largue essa arma, homem. Eu vim em paz. Puxou a pistola assim mesmo, virando-se para apontar para o distinto senhor, encostado na pilastra da garagem de seu prédio. - Você não conhece o significado dessa palavra. - É aí que você se engana, filho. Eu luto pela paz. Pela paz entre os mundos... - Você só luta pela paz de seu próprio traseiro...Diz logo o que veio fazer aqui! O agente queria mais que tudo no mundo puxar aquele gatilho. Já havia estourado sua cota de CGB Spender durante aqueles anos, principalmente depois do que ele fizera a sua parceira, algumas semanas atrás. Expondo-a a seu jogo sujo de perigos e mentiras. Só queria por uma bala no meio da testa dele. - Escute o que tenho a dizer, Mulder. Não se arrependerá, eu garanto. Aquela testa era mesmo muito convidativa. - Abaixe essa arma. Eu já disse que vim em paz. Vim lhe mostrar a verdade! Deus, como estava cansado daquilo! Cansado de toda aquela historia sobre Verdade, de todas as falsas esperanças, de todo o oceano de ilusões ao qual fora abandonado. Não queria ouvir, queria atirar. Mas sua curiosidade sempre falava mais alto. - Você também não sabe mais falar a verdade...falta de pratica, sabe? E mesmo que soubesse, por que diria justo pra mim? Justo agora? - É como eu já disse a sua parceira...estou morrendo...Tenho câncer, agente Mulder...Meus vícios estão me cobrando anos de devoção. Todos me viraram as costas, estou ameaçado...Quero deixar meu legado com você, para que carregue nossa bandeira, e lute por nossa causa. Os olhos verdes do homem mais jovem arregalaram-se estupefatos. Não acreditava no que estava ouvindo. Depois de tudo, ele vinha dizer-lhe para virar de lado, trocar cara por coroa, branco por negro...Será que entendera bem? - Acho que o cigarro corroeu ser cérebro! - Você está iludido, Mulder. Pensa que está no caminho certo mas se engana. O caminho que escolheu sempre esteve fechado. É um labirinto que dá sempre no mesmo lugar...Será que nunca reparou? Eu só peço que me escute. Uma vez em sua vida, ouça o que eu tenho para lhe dizer. Devagar, muito devagar, Mulder abaixou a arma. - Seja rápido. Canceroso sorriu. - A verdade nada mais que a verdade... II A gosto amargo da inutilidade, do tempo perdido, dos sofrimentos desnecessários, apossavam-se da alma de Mulder quando o senhor fumando um Morley terminou de falar. As duvidas pareciam milhares de formigas, machucando-lhe o espirito. Não deveria nem Ter deixado aquele homem começar a construir sua teia, prende-lo em sua rede de convicções...E ele era tão convincente! - Os fins justificam os meios, Mulder...O que são a vida de 6 em relação a 6 bilhões...Temos tão pouco tempo. Eu tenho pouco tempo. Preciso de você. - E o que você quer que eu faça? – Seu tom de voz demostrava claramente a dor que lhe oprimia a carne. - Entre para o sindicato. ** Anos atrás, não, pra que pensar em anos? Uma hora atrás se alguém lhe dissesse que um dia trabalharia para CGB Spender, teria rido. Mas, o tempo passa, e as circunstancias mudam. Aliara-se a seu inimigo...Sentia-se estranho. O que o Batman estava fazendo de mãos dadas ao Curinga? Como no Mito da caverna, passara uma vida se ludibriando, construíra convicções com bases de isopor. E o pior, envolvera Scully em todos os seus ideais errôneos. E em trinta minutos de conversa, como um louco furacão de fumaça, tudo fora destroçado. Demorara muito para entender que havia construído seu castelo na areia. Canceroso olhava-o inquisidor. Entrar para o Sindicato? Uma organização que estragara a sua vida, a de sua parceira e a qual odiara durante sete anos. Tudo em vão? - Não posso deixar Scully. – Disse depois de infindáveis espaços de tempo. - A escolha é sua. - O que vou dizer a ela?!? – Gritou. Não sabia o que fazer, o que pensar. Em quem acreditar. - Morra para o mundo. A idéia era horrivel. Parecia-lhe horrivel. - Não posso fazer isso com a Scully. – Não podia fazer isso consigo mesmo. Como viver sem poder falar com ela? Toca-la, nem que por breves minutos? O mundo que se danasse, Scully era vital. - Entenda, filho, ninguém está pedindo para você e ela se separarem. Quem iria pensar em separar o Tom do Jerry? O casal 20 do FBI? Não há necessidade, você parece que não funciona sem ela mesmo...É só convence-la a entrar para o grupo também. - Não! Nunca envolveria Scully naquilo. Nunca. Ela já sofrera muito. Já perdera demais por causa daqueles senhores de terno. Não faria aquilo com ela. Não com ela. Podia virar as costas para Spender. Sabia disso. Mas seu cérebro lhe apontava todo o leque de probabilidades. Se havia alguém que podia lhe mostrar tudo, esse ser era o Canceroso. E ele estava lhe oferendo isso...tudo. Fumacinha estava com a razão quando dizia que o caminho que escolhera não levava a lugar nenhum. Sabia, naquele momento, que não interessava o quanto se rebelasse. Eles eram mais fortes. Eles tinham a armas. Conheciam o território. A faca e o queijo. Podia sentir orgulho de Ter alongado uma guerra há muito perdida. Seu joguinho de cartas marcadas. Mas, a que custo? Quantas vidas? Quantas lágrimas? E havia Scully...a sua prioridade era sempre Scully. Ninguém faria mal a ela se estivesse no controle. Ninguém mais a deixaria doente, nem triste. No sindicato poderia protege-la. E só isso já compensava todos os riscos. - Não vamos meter Scully nisso, ouviu? - Como você preferir. Podemos matá-lo num acidente de carro, talvez avião... - Eu não vou morrer.- Gritou exasperado. - Então dê outra idéia. - Pode deixar que eu resolvo tudo com a minha parceira. - Eu volto, Mulder. E virou nos próprios calcanhares, andando calmamente rumo a saida do prédio, Deixando uma tempestade para trás. III Pela primeira vez na vida, concluiu Mulder, tinha direito de escolher. Tinha cartas justas na mão. E um às na manga. Pela primeira vez. Agora, se o Canceroso estivesse falando a verdade, havia uma chance. Uma pequena oportunidade de achar tudo pelo que passara anos procurando. Tudo o que tinha que fazer era inventar uma desculpa para Scully e criar outra aliança. Um elo com o ser humano mais degradante que já conhecera. Trocar o paraíso pelo inferno. A curiosidade sempre ganhava. CGB começara a explicar-lhe tudo, e agora, Mulder queria provas. Queria a história. Queria os acordos secretos. Saber quem estava do outro lado. Do outro lado da mesa. Do outro lado do céu. O preço a pagar era alto, mas não tão alto quanto poderia Ter sido. Teria de deixar os Arquivos X. E teria que explicar isso para Scully de uma forma que ela aceitasse e ainda o permitisse se aproximar. E ainda fosse sua amiga. Se não conseguisse...ela iria odia-lo. Transformar-se-ia numa decepção para a única pessoa que não podia decepcionar. Mas era para o bem dela. Quando estivesse no topo, quando vestisse o uniforme do outro exercito, poderia dar a vida dela de volta. Seu direito de Ter filhos, sua liberdade que ficara comprometida ao se ligar a um parceiro doido. Faria isso por ela. Por ele. E pelo mundo. As mão nicotinadas de seu algoz estavam desgovernadas. E aquilo era perigoso. Foi pensando em tudo isso que ele disse sim. IV "Pra ser sincero não espero de você mais do que educação Beijos sem paixão Crime sem castigo Aperto de mãos Apenas bons amigos Pra ser sincero não que espero que você minta Não se sinta capaz de enganar Quem não engana a si mesmo Nós dois temos os mesmos defeitos Sabemos tudo a nosso respeito Somos suspeitos de um crime perfeito Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos Pra ser sincero não espero de você Mais do que educação beijos sem paixão Crimes sem castigo, apertos de mãos Apenas bons amigos Pra ser sincero não espero que você Me perdoe por Ter perdido a calma Por Ter vendido a alma ao diabo Um dia desses num desses encontros casuais Talvez a gente se encontre Talvez a gente encontre explicação Um dia desses num desses encontros casuais Talvez eu diga "Minha amiga, pra ser sincero Prazer em vê-la E a até mais" Nós dois temos os mesmos defeitos Sabemos tudo a nosso respeito Somos suspeitos de um crime perfeito Mas crimes perfeitos não deixam suspeitos." (Engenheiros do Hawai, Pra ser sincero) Estava na hora de virar a mesa. Ele sabia. Ligou para sua amiga ruiva. Venha até aqui, Scully. Vamos conversar. Sim, aconteceu alguma coisa. Estou esperando. Sua hora da verdade chegara. Ainda não planejara direito o que dizer a ela. Pensaria na hora. E Scully veio. A testa franzida de preocupação. Algo lhe dizia que depois daquela 'reunião' nada mais seria como antes. Mulder sentiu-se idiota. Uma criança que teria de entregar um boletim cheio de notas baixas para a mãe. Toda sua mente se rebelando contra a idéia de decepcioná-la. Mas não havia saida. A escolha já havia sido tomada. Uma estrada sem volta. Falou de uma vez. Nada de oi, bom dia, senta, apenas um seco e duro: - Vou sair dos Arquivo X, Scully. Leu tudo nos olhos azuis dela. Todas as dúvidas, a dor, a incredulidade. Nenhuma palavra o deixaria mais arrasado que aquele olhar. Pensou que ela fosse apenas dar as costas e deixa-lo ali, ferido de morte. Sem chance para se explicar. Para se defender. Mesmo que não houvesse defesa. Mas aquela era sua Scully. E ela o amava demais para abandona-lo daquela forma. - Por que? – Uma pequena frase murmurada no caos. Quase inaudível, mas pareceu a seus tímpanos um terrível grito rouco de horror. Seu coração tornou-se pequeno. Estava fazendo mal para alguém que não merecia sofrer mais desilusões. Mas seria para o bem dela. Procurou convencer-se. Faria com que fosse para o bem dela. - Não me pergunte, Scully. – "Por favor, não pergunte". - Deus, Mulder, em que espécie de confusão você está metido agora?!?- Desta vez a voz feminina estava preocupada e feroz. Precisava de uma resposta. Mas ele não lhe diria. - Apenas não pergunte. Ficaram fitando-se muitos séculos. Nunca mentiam um para o outro. Era um acordo não verbal. E Mulder não o quebraria aquela altura de suas vidas. A lei do silencio. Do companheirismo, do respeito e da amizade sempre reinara entre eles. Scully sabia. Quando um cadáver aparecera no apartamento de Mulder e ela tivera que ir lá reconhece- lo como seu parceiro, sabia o motivo. Sabia porque estava indo até aquela reunião mentir por Mulder. Mesmo que não acreditasse, a resposta era obvia e já mencionada. Por Mulder. Faria o que ele quisesse. Quando ele quisesse. Se ele quisesse. Parecia submissão. Mas era confiança. Uma confiança cega. E naquele instante, encarando os olhos esverdeados, a única coisa que conseguia ver era o pedido mudo dele. Um pedido para não mudar. Um pedido por um voto. Um voto de confiança. E por aquele ser Mulder, apenas fez que sim com a cabeça e se jogou em seus braços. Profundamente angustiada com o que tudo aquilo significaria para eles. - Conte-me, Mulder. Por favor. Não me deixe de fora. Não desta vez. Mas já havia se decidido. Se dependesse dele Scully nunca poria os pés naquele antro de conspirações. Ela ficaria melhor e mais segura nos Arquivos X, continuando o trabalho deles. - Eu vou sair, Scully. Mas você tem que continuar, está me ouvindo? Tem que continuar! - Você volta? - Eu sempre volto. V Confiava em Mulder. Esta era a base do relacionamento deles. Mas não iria deixa-lo sozinho. Sabia Deus no que ele estava metido daquela vez e não iria deixa-lo só. Não quando ele podia estar precisando de ajuda. Sentou-se em seu carro na garagem dele e ficou esperando. Pacientemente. As horas se arrastaram, as sombras caíram sobre o lugar. A figura sinistra de um homem fumando, solitariamente, fez-se presente. Logo Mulder veio falar com ele. Parecia Ter chorado. Observou, distante, Canceroso por o braço ao redor dos ombros do amigo. " Deus, é pior do que eu pensava" ** Algum tempo depois de sua conversinha com o fumante mais poderoso do mundo, alguém abriu a porta do 42. Uma mulher pequena, de cabelos curtos, e enormes olhos azuis. Ela entrou decidida. Sem bater, sem cumprimentar. - O que o Canceroso falou para você desta vez, Mulder? Ele não estava exatamente surpreso por vê-la ali. Continuou em silencio, a cabeça enterrada nas mãos. 'Vá embora, Scully. Por favor' - Ele te ameaçou? Me ameaçou? - Não, Scully. Ele não ameaçou ninguém. - Então me diga! Estava confusa. Porque ele não lhe dizia? Por que não confiava nela? Será que Mulder não percebia que não podia simplesmente dar-lhe as costas assim? Os olhos dele estavam vermelhos. Cansados. E decididos. Não diria nada a ela. - Por que você não confia em mim? - Não é questão de confiar. Nunca foi. Apenas acredite...Vai ser melhor assim. VI - Fez a escolha certa, Mulder. - Espero que sim. - Não duvide. Agora venha conhecer nossas instalações. - A área 51? - Não, seria obvio demais. Não se preocupe, logo chegaremos, filho. - Não me chame de filho. Como reposta, apenas mais uma tragada. VII Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas De névoa úmida, Na areia úmida (Manuel Bandeira, Na solidão das noites úmidas) Dois meses sem Mulder. Dois meses de preocupações e noites mal dormidas. Dois meses tentando se adaptar a novos parceiros desconhecidos. Por que ele fizera aquilo com ela? Scully não entendia. Como podia sumir? Desaparecer? Nem em seu apartamento o louco parava mais. Vivia viajando. Em más companhias, na sua opinião. Mas não havia nada que pudesse fazer, Mulder não lhe ouvia. Sentia uma saudade imensa dele. Principalmente dos seus olhos. Sentia falta de poder fita-los e entender o que se passava naquela mente tão maravilhosa. Mas agora duvidava que pudesse entender. Duvidava que ele deixaria que entendesse. Perdera seu melhor amigo e nem sabia o motivo. Doggett entrou na sala. Era um bom homem, um parceiro interessante. Talvez o melhor que aparecera naquelas oito semanas. Mas faltavam nos olhos acinzentados daquele homem uma suavidade irônica que estava acostumada a encontrar. Gostaria de poder entrar em sintonia com ele também, mas andavam discutindo muito. Mas aquele, ao contrario dos outros, não desistiria. Ah, Mulder, por que? ** Mulder entrou na sede de instalações de pesquisas do Sindicato. Era um prédio amplo, a fachada lembrava uma empresa de Biogenetica. E era. Seu cérebro curioso não se cansava de explorar aquele lugar. As coisas que aconteciam ali dentro eram incríveis. Mais do que qualquer um poderia imaginar. E ele tinha acesso a isso tudo. E não podia fazer nada com a informação. Spender sempre estivera certo. Precisavam negociar. Precisavam de tempo. As armas estavam quase todas prontas e apontadas para o céu. Lutara tanto. A toa. Se não fosse os casos que ajudara a resolver, se não fosse Scully, já teria se desesperado. Scully... sentia uma falta louca dela. As vezes a observava a distancia, e mantinha-se informado de todos os seus passos. Ela não se acostumava com nenhum parceiro que mandava para ela. Mas depois fora perceber que estava fazendo de propósito. Inconscientemente escolhendo aqueles aos quais ela nunca se adaptaria. Não queria que ela tivesse mais ninguém. Não queria que ela entendesse e amasse daquela forma tão peculiar mais ninguém a não ser ele. Forçara, então, sua consciência a agir e obriga-lo a deixar de ser tão infantil. Scully precisava de um bom colega, alguém que a respeitasse e protegesse. Doggett lhe parecera ideal. Escolhido a dedo. Não colocaria ninguém irresponsável para conviver com sua garota. A outra providencia fora Skinner. Os segredos da nanotecnologia estavam seguros em suas mãos e ninguém mais ameaçaria seu ex chefe. As vezes mandava informações secretas para os pistoleiros se divertirem e Arquivos X que descobria para Scully investigar. Ela estava se saindo bem. Mulder sorriu, desolado. Agora o ultimo passo. Devolver a sua amiga, a única durante anos, a vida que lhe fora tirada. Libertaria aqueles que amava, enfim. VIII Scully sentiu o metal frio da maca arrepiar seu corpo nu. Uma luz difusa, amarelada, inundava o ambiente. Podia ver mas não conseguia mover-se. Havia um lençol branco cobrindo-a. O mais estranho era que não sentia medo. O som de passos e vozes masculinas chegou até seus tímpanos. Uma lhe era muito familiar. Como uma caricia. Os dedos longos dele vieram tocar seus cabelos. Suavemente. Mulder estava sorrindo, parecia um pouco triste, ela reparou. - Vai ficar tudo bem, Scully. Não se preocupe. O som da voz dele mais que as palavras a acalmaram. Confortando- a. Se ele dizia que tudo estava bem, acreditava. - Dorme agora. Amanhã, quando você acordar, tudo não vai Ter passado de um sonho esquisito. Fechou os olhos, sentindo os lábios dele no seu rosto uma ultima vez. *** Mulder olhava para a mulher pálida e ruiva deitada no leito das Instalações. Tão serena. Agora ficaria tudo bem com ela. Sua saúde fora devolvida. Sua capacidade de ser mãe. Segurou suas mão pequenas suavemente. Não sabia se um dia poderia fazer isso de novo. Mas não estava arrependido. Seu único pesar era o de não Ter se juntado ao Canceroso antes. Como que atendendo a um chamado, CGB fez-se presente. Sempre fumando. - Como ela está? – Perguntou, tragando profundamente. - Bem. - Tenho um trabalho para você. - Trabalho? – Aquilo não estava lhe cheirando bem. Primeiro que não gostava que aquele senhor de profundos vincos no rosto e no espirito chegasse perto de Scully. E depois que os trabalhos que ele solicitava sempre queriam dizer problemas. - Sim, Dr. Mark Collins, mas depois seu parceiro nesse caso vem lhe dar os detalhes. Vou deixa-lo só para aproveitar a companhia. E sorrindo, se afastou. Mulder apertou ainda mais a mão da mulher deitada, e repetindo um gesto que fizera a muito tempo, em situação bem diversa, apoiou a testa na cama e se permitiu chorar. ** Scully acordou estranha. Uma sensação irracional que algo importante havia acontecido aquela noite. Bobagem. Sonhara com Mulder. De novo. Mas desta vez fora diferente. Mais real. Ele estava a seu lado, lhe dizendo para dormir que tudo ficaria bem. Sorriu. Respirando fundo. Precisava parar com isso. Mulder sumira. Esquecera-se dela. O melhor era fazer o mesmo...Como se isso fosse possível. Enquanto entrava no chuveiro tentou concentrar-se no caso que investigava com Doggett. Um tal de Mark Collins entrara em contato dizendo Ter informações valiosas. O jeito era ir falar com ele. IX - Marita? - Oi Fox. - Você é a minha parceira para o 'caso'? - É isso aí. Mulder sorriu. Ultimamente não andava se surpreendendo com mais nada. - Então, quais são as informações? - Dr. Mark Collins trabalhava para nós, desenvolvendo a parte final da vacina que impediria a invasão mas no ultimo mês ele andou tendo um comportamento suspeito. Fomos investigar e descobrimos que ele anda planejando revelar o sindicato para opinião publica. Ele desconfiou que nós sabíamos de seus planos e fugiu. Agora temos que acha-lo. - E fazer o que com ele? A mulher loura fitou-o longamente, dando-lhe as costas em seguida. - Venha, Fox, eu acho que sei como acha-lo. ** Mark Collins parecia um poeta romântico da segundo geração. Pálido, esquálido, diria, cabelos longos e negros, olhos fundos, uma beleza Byroniana. Parecia não dormir há muito tempo. Scully fitou-o interessada, era uma figura destoante do ambiente. O bar do Jerry não parecia de forma algum um lugar que aquele homem alto e magro passava suas noites boemias. Talvez por isso mesmo Collins o tivesse escolhido. Doggett não gostou dele logo de cara. Scully entendia o porque, a diferença entre eles era enorme. John, o típico valentão Nova- iorquino, Mark o galante poeta inglês. Sorriu com a comparação, mas repreendeu-se em seguida. Não era hora para aquelas considerações. - Bom noite, Srta. Scully, Agente Doggett. – O homem cumprimentou-os, sentando-se em seguida. - Que bom que vieram. - O que deseja de nós, Sr. Collins? - Eu...quero contar-lhes a verdade. - Que verdade? – Doggett perguntou enquanto Scully erguia uma sobrancelha. Já vira aquele filme antes. - Sobre o Sindicato e a vacina. - E como você obteve essas informações? - Eu trabalhava lá. - E um dia resolveu nos contar tudo. - Deixe-me terminar. Eu estava... Os olhos do 'lorde byron' se abriram, surpresos, ao divisar uma figura conhecida entrando no recinto. Suas vistas correram rapidamente pelo local, procurando uma saida. - Eu tenho que ir. E levantou-se apressado, correndo em direção a porta dos fundos. Scully e Doggett entreolharam-se surpresos. Até que ela viu uma mulher loura, vestida em um tailler verde. - Veja, é Marita. – E correu atrás dela, a arma em punho. - Quem? Doggett não estava entendendo mais nada. ** Mark desarmou o alarme de seu carro. Precisava sair dali urgente. Deus, como Marita o achara? Sua testa começava a suar frio. Aqueles homens não perdiam tempo. E se o encontrassem ele que perderia a vida. Abriu a porta. - Ei, Dr. Collins...Onde vai com tanta pressa? Oh, não estava perdido. Apertou ainda mais os maxilares, e fechou os olhos. Era agora que morria. Virou-se para pelo menos ver o rosto de seu assassino. Mulder riu. - Não se preocupe, homem. Eu não vou te matar. Entra no carro, vamos sair daqui. ** Mark e Mulder pararam no Memorial George Washington, mas não estavam interessados na paisagem local. - Muito bem, Mark. Que tal agora me contar o que você sabe? - Você trabalha para ele, por que eu deveria dizer? - Talvez porque se não fosse por mim você já estaria morto? Ande, eu já disse que não vou machucar você. - A vacina...- Mark 'Byron' Collins começou hesitante – Ela não funciona. - Como? - Pensamos que funcionava, serviu em algumas cobaias, mas não funciona, e 'ele' sabe, - Ele? - Spender. Ele, e só ele mais alguns outros poucos, sabem que não funciona. Ele está querendo ganhar tempo para ver se se salva, acho. A questão é que não temos como lutar. Spender está enganando todo mundo. - E o resto do sindicato? - Ninguém sabe. Ninguém. Eles vão invadir. Nós vamos morrer. Não há saida. - E o que você pretendia fazer? - Contar para todos. A população tem o direito de saber o que a atingiu. A cabeça de Mulder girava. Aquilo não podia estar acontecendo de novo. Não acreditava que havia sido enganado novamente pelo Canceroso. Qual o propósito? X "Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido... Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso Contar do meu tormento obscuro e impressentido" (Confidência, Manuel Bandeira) Scully deitou-se, soltando um longo suspiro de alivio. Queria apenas dormir. Enterrar a cabeça no travesseiro e cair no sono. Dia estranho aquele. Estava quase cochilando quando o som estridente da campainha a interrompeu. Droga, quem seria àquela hora? Sonolenta, levantou- se. Se fosse algum tempo atrás diria que era Mulder mas ultimamente era pouco provável. O olho mágico veio desmentir suas conclusões. - Mulder! - Posso entrar, Scully? ** Só de olhar para ela se sentia melhor. Aproximou-se devagar, passando os braços em volta de sua cintura, trazendo-a para tão perto quanto era permitido chegar. Fechou a porta com os pés. Carregou-a para o sofá, enrolando-se lá com ela. Queria conforto, queria paz... queria Scully. Talvez se a abraçasse forte o bastante ela o absorvesse em sua alma. Devia ser o paraíso. Chorou, com a cabeça na barriga dela, sentindo mãos suaves em sua cabeça. Quando achou que merecia deitou-se completamente em cima dela, mantendo o maior contato possível, dedos pequenos e femininos nas suas costas. Estivera errado novamente, tanto tempo se privando dela, e para quê? Para descobrir que tudo fora em vão, novamente? Os lábios dela estavam em seu pescoço deixando-o arrepiado, mas não conseguia parar de chorar. E muito tempo se passou até que conseguisse, caindo depois em um sono de exaustão, profundo e sem sonhos. ** Scully o observou, preocupada. Algo estava muito errado para Mulder vir procura-la pedindo colo. De madrugada. Depois de semanas sem nenhuma palavra. Ele parecia velho. Triste. Como se o mundo fosse muito pesado e estivesse inteiro em suas costas. Gostaria de poder ajuda-lo, mas não sabia como, além de abraça-lo e dizer que tudo ficaria bem. Passou a noite velando por ele, e antes da aurora, Mulder acordou. Antes de abrir os olhos sabia que ela estava ali. Não conseguia ainda se lembrar porque ou onde o 'aqui' era, mas sabia que ela estava lá e, consequentemente, tudo ficaria bem. Abriu os olhos, querendo vê-la. E sorriu. Ela estava aqui com ele, olhando-o com todo amor que só ela possuía. Quando Scully não sorriu de volta, lembrou-se. Tinha estragado tudo de novo. - E então, vai me contar agora o que está acontecendo? - Nada anormal, Scully, eu só estraguei tudo, pra variar. - Detalhes, Mulder. - Não agora, Scully, eu preciso ir. - Como assim, precisa ir? Ele levantou-se apressado, como um amante fujão. - Eu volto, Scully, não se preocupe. - Mulder! - Eu só preciso acertar as coisas, se cuida. - Mulder... Beijou os lábios dela muito levemente. - Eu te amo, Scully. E bateu a porta. XI Bateu no QG dos Pistoleiros. Deixara Mark Collins lá, para seus amigos se divertirem enquanto o vigiavam. Fora também o lugar mais seguro que conseguira pensar para deixa-lo. O cientista conversava animadamente com Byers quando entrou. Frohike ainda o olhava torto e desconfiado por Ter sumido, Langly e John o receberam cortesmente, apesar da acusação velada de seus olhos. Ele estava simplesmente feliz por estar de volta. - Muito bem, Mark, qual era o plano? - Plano? - Como você pretendia expor tudo? Como você iria provar? - Eu não sei, Sr. Mulder, estava esperando que sua ex parceira me ajudasse. - Vamos deixa-la fora disso, okay? Eu tive uma idéia. XII Todas as pessoas cometem erros, Mulder sabia, algumas apenas eram melhor nisso que outras. Estava na hora de ele começar a consertar as coisas. O plano era simples, aliás, não poderia ser mais simples. E era nisso que estava todo o seu charme. Mulder estava confiante. Nada poderia dar errado. Nada. Ele entrou nas Instalações como entrava todo dia, deu Bom Dia para os guardas, tomou café, participou das reuniões, fez o relatório de como Collins conseguira escapar. Depois, como era costume seu, fora explorar os domínios do prédio. A ala de biogenetica era a maior e mais interessante, passava muito tempo lá tentando entender as coisas. Por isso ninguém estranhou quando ele foi ver os experimentos, fazendo perguntas e tocando em tudo. Ninguém notou quando três pequenos tubos de ensaio sumiram, junto com o disquete do esqueleto da pesquisa. Tudo estava preparado, eles tinham os emails dos maiores jornalistas do país, eles tinham como provar, ele sabia onde as instalações ficavam. Era só apertar 'Enviar'. Sorriu tremulo para seus três amigos e Collins, que o olhavam ansiosos. Foi quando seu celular tocou, e o sentimento de que algo muito, muito ruim estava acontecendo apossou-se de seu espirito. - Você nos traiu, Fox. Era o Canceroso. - Não sei do que você está falando. - Sua parceira também não. Mulder não sentia mais o corpo. Tudo, de repente, ficara muito frio. - Não a machuque. - Não pretendemos fazer nada com ela. Apenas devolva-nos o que é nosso que devolveremos o que é seu. - Onde você está? - Você me decepciona, filho, eu te dei tudo. Todo o poder que um homem poderia Ter, e você me traiu. - Você mentiu pra mim. - Eu te dei a verdade. - Você mentiu, seu ... Onde ela está? Apenas me diga onde ela está! - Na casa dela. Vá até lá. XIII O mundo, ele aprendera, não é justo. E seus inimigos são sempre muito mais fortes que você. Ele devia Ter sabido, ele devia. Nada nunca era fácil quando se tratava dele. E se eles a tivessem machucado, aquele fumante já estava morto. Dirigiu tão rápido quanto é possível ir sem morrer. Quando chegou em Georgetown estava branco e suado. Marita o esperava, na porta do prédio de Scully. - Onde ela está? - Lá em cima, ela está bem. - O que vocês fizeram com ela? - Nada...ainda. mas se eu fosse você, Fox, tomava mais cuidado com quem deseja trair. Da próxima vez eles podem ser menos lenientes. - Quero ir vê-la. - Primeiro as amostras. Entregou tudo a ela e subiu, escadas acima, o mais rápido que pode. XIV Montanha e chão. Neve e lava. Humildade da umidade. Quem disse que eu não te amava? Amo-te mais que a verdade. (Manuel Bandeira, Ariesphinx) Na Segunda vez em poucos dias Scully abriu a porta para encontra- lo lá. Ele parecia desesperado. Muito mais do que na primeira vez. E ela se preocupou. Mulder mal esperou que ela abrisse a porta para abraça-la, apertando-a como se ela fosse desaparecer se não a segurasse. Ele tremia. - Você está bem, Scully. Eles te machucaram? - Do que você está falando, Mulder? Ninguém me machucou. O coração dele batia rápido e assustado, e ele passou as mãos por toda ela para conferir se era verdade. - Eles ameaçaram você... eles te ameaçaram de novo por causa de uma coisa estúpida que fiz... Desta vez ele não chorou... Scully achou que Mulder estava em choque, tão frio e suado, parecia que desmoronaria, a qualquer momento... Não resistiu quando ele a levou para o quarto e começou a tirar-lhe as roupas, só ficando satisfeito ao vê-la completamente nua. Estranhamente o gesto parecia desprovido de toda a característica sexual, como se ele quisesse as roupas longe só porque as estavam afastando dela. Entraram embaixo dos lençóis, ele abraçando-a como no dia do sofá, a diferença é que não havia lagrimas dessa vez. - Eu não vou deixar que ninguém te machuque, Scully, nunca mais. - Eu sei, Mulder. - Nunca mais. XV "And I think everything is going to be all right, no matter what we do tonight" (Pink, Aerosmith) Quando ele voltou para as Instalações, como era esperado, não havia mais nada lá. Mark Collins também sumira, e Mulder desejou que ele estivesse bem. Apesar de achar pouco provável. Ele mudou-se para casa de Scully, depois de contar-lhe tudo que aprendera naqueles meses que estiveram separados. Agora sabia a verdade, mas não conseguia aceita-la. Não conseguia aceitar que não havia chances. Que morreriam todos, tão logo. Não voltou para os Arquivo X. Continuou a procurar a verdade, outra verdade, de sua forma própria. Vigiava Scully com um cuidado nauseante, que as vezes a irritava. - Mulder, venha pra cama, para de ficar aí olhando pra mim. - Vamos Ter um filho, Scully. - Mulder, não seja louco. - Você sabe que agora podemos. Vamos protege-lo, Scully. Largue os Arquivo X. Vamos mudar pro Havaí. - Mulder... – Ela riu, enquanto ele deitava na cama, os pés gelados. - Imagine, nós dois no Havaí, com nosso molequinho, ou molequinha... Podemos descobrir as coisas de lá... Os Arquivos X não nos levaram a nada... Vem comigo... - Mulder, você ficou louco. - Não podemos criar nosso filho em Washington. Eu não gosto daqui. As mãos dele eram muito convincentes. ................FIM....