ADEUS SOLIDÃO por Rosie M.Starbuck Numa manhã fria e chuvosa de sábado, o telefone toca no apartamento de Scully: é Mulder. - Oi, tem alguma coisa para fazer neste final de semana? - Não sei, Mulder, só mesmo um acontecimento absurdamente vital me tiraria de casa, especialmente neste final de semana. - Ora, Scully, só porque é seu aniversário não precisa ficar enclausurada. Vamos lá, eu tenho uma informação realmente quente, e se, mesmo assim, na pior das hipóteses, não der em nada, dizem que a paisagem é de tirar o fôlego ! - De tirar o fôlego ?!? O que quer dizer, Mulder? Que lugar é esse? - Surpresa! Separe roupas quentes, que eu passo aí em 1 hora. E não se preocupe que trago você de volta a tempo ... No carro, a caminho do local-surpresa, estão numa estrada no meio da mata, margeando um rio, subindo em direção ao alto da montanha. - Tudo bem, Mulder, a paisagem é deslumbrante, mas de que se trata? - Você pode imaginar, Scully, que num lugar tão sossegado, tão longe da civilização, sem crimes, nem vizinhos barulhentos, onde o único som que você pode escutar é o som da mata, alguém, um agente da lei, um guarda florestal, treinado para viver nas condições mais adversas da natureza, esteja em tal situação de medo e angústia a ponto de querer abandonar seu posto e sumir no mundo? - Não me diga que você me tirou do meu retiro, no aconchego do meu lar, para escutar pela enézima vez, o testemunho nada original de uma abdução alienígena !!!... - Sinto muito, mas não tenho maiores detalhes sobre o assunto. - Como assim?! O que sua fonte lhe contou? - Na realidade, ele me disse sobre a existência desse guarda florestal, que vivia isolado numa cabana no alto da montanha, perto da nascente de um rio, famoso por estranhas aparições no meio da noite ... - E ...? - E ele me deu as indicações, e aqui estamos nós para uma entrevista! - Só? Nenhuma prova, nenhuma evidência, nenhuma testemunha? - Scully, já pensou em deixar de lado um pouco a cientista dentro de você, e aproveitar o passeio? - A única outra coisa que eu consigo pensar neste momento, é que estamos andando há horas, e espero estar perto dessa cabana, pois já vai anoitecer e a temperatura cai assustadoramente nestas condições de mata quase fechada. - Então, não tenho boas notícias para você ... - Por que parou o carro, Mulder? Não vejo nenhuma cabana ... - O resto do caminho faremos a pé. O carro não chega até lá em cima... Depois de mais algum tempo caminhando por terreno íngreme .... - Como uma pessoa pode viver tão isolada? Não me admira que estivesse angustiado. Até as pessoas mais introspectivas sentem necessidade de se comunicar eventualmente com outros seres humanos, logicamente animais não contam. Sabe se ele tem equipamento de rádio na cabana? - É provável ... - Ainda que tenha, Mulder. Tanta paz assim, também pode ser assustadora se você está só. - Ora, Scully, não era você que queria passar o final de semana trancada dentro de casa, hibernando como um urso, completamente só?! - Não seria bem assim, eu iria à casa da minha mãe amanhã e ... - Puxa, Scully, desculpe se estraguei seu eletrizante final de semana! - Está desculpado. Espero não me arrepender por isso ... - Afinal, por que você está reclamando? - ... meus pés estão doendo... - ...além dos seus pés, está um pouco frio... - ...um pouco?... - ...estamos andando faz algum tempo, subindo a montanha num terreno bem irregular, mas poderia ser pior, poderia estar chovendo... Neste instante, começa a cair uma chuva fina mas penetrante. E fria. Eles se entreolham. - Mulder, já está anoitecendo, me diga que estamos perto. - Estamos perto. - ? - Verdade, está logo ali na frente. - Não brinque. Já estamos ensopados! - Olhe você mesma! Realmente, logo ali na frente estava a cabana do guarda florestal. Desejando chegar mais rapidamente, começaram quase a correr naquele caminho pedregoso, acidentado e agora, lamacento. Mulder pisa em falso numa pedra solta, rolando um barranco de cerca de 100 m., até parar desacordado na água do rio, cuja nascente ali se localizava. Scully larga seus pertences imediatamente, indo em socorro do parceiro. Desce o barranco correndo, e começa a puxá-lo para fora da água, que estava gelada, chamando-o sem parar. - Vamos, Mulder, me ajude, você precisa sair daqui para não congelar. Mulder, força, você consegue, levante-se , por favor. Nós temos que subir e procurar um lugar aquecido para você. Vamos, Mulder, força !!!... Subindo com dificuldade, aquele barranco parecia não ter fim, tanto para Scully, cansada, molhada e ainda amparando o parceiro trôpego, como para Mulder com as roupas ensopadas do mergulho no rio e zonzo pela queda. Afinal, chegaram na cabana. Deserta. Entraram, não havia ninguém. Estava escuro, e Scully acendeu algumas velas que encontrou. O ambiente pareceu arrumado demais para que tivesse sido abandonado. No meio da sala havia um sofá-cama, que ela puxou para perto da lareira. Para agasalhar, achou somente um saco de dormir. No canto, mesa e cadeiras junto aos apetrechos de cozinha. Havia até algum suprimento na despensa. Era um lugar muito simples; talvez até achasse acolhedor em outras circunstâncias, mas agora sua preocupação era outra. - Mulder, tire suas roupas molhadas, para não adoecer. Sente aqui no sofá enquanto pego nossas coisas lá fora. Voltando rapidamente, a próxima providência seria acender a lareira, enquanto Mulder, ainda tonto, tirava suas roupas vagarosamente sentado no sofá. Percebeu que havia lenha na lareira, e suspirou aliviada. Acendeu o fogo facilmente, e reparou um bilhete colocado logo acima, na prateleira. "Não pude esperar, pessoal. Até mais", dizia. Intrigada, comentou com o parceiro: - Veja, Mulder, nosso amigo angustiado não me parece tão angustiado assim pelos dizeres desse bilhete. Mulder?! Scully percebeu que ele não estava bem, estava entrando em choque pela queda na água gelada. Ajudou-o a ficar somente com sua roupa de baixo. Foi buscar o saco de dormir e o estendeu no sofá. - Mulder, me escute: deite-se e entre aqui dentro, você precisa se aquecer, você está em choque mas vai se recuperar se mantiver aquecido, entendeu? - Frio ..., murmurou ele. Mesmo agasalhado e perto da lareira, ele ainda tremia. Esgotados os recursos disponíveis, e também porque não havia mais nada para mante- los aquecidos, e Deus sabe como ela precisava descansar, Scully resolveu aquecer o parceiro com o calor do próprio corpo. Tirou suas vestes molhadas, e com a roupa de baixo, entrou no saco de dormir, abraçando-o para protege-lo do frio. Assim adormeceram. No dia seguinte, Mulder acordou, e passou seu olhar ainda sonolento por todo o ambiente, examinando o lugar onde estava, iluminado pela claridade de uma manhã fria e chuvosa, mas calma e incrivelmente aconchegante. Uma enorme sensação de bem estar inundava seu corpo. – Eu poderia ficar assim para sempre, pensou. Imerso nesses pensamentos, começou a tomar consciência da situação que se apresentava diante dele. A indescritível sensação de aconchego vinha de um corpo quente e macio junto ao seu, que o abraçava carinhosamente: aquele corpo que ele tantas vezes desejara, mas nunca tivera coragem de tocar, pelo profundo respeito que sentia. – Scully, pensou, e instintivamente a abraçou mais forte. A companheira de todas as horas, que salvou sua vida tantas vezes, que o entendia mais que ele mesmo, com quem ele poderia passar o resto de sua vida, estava ali como ele sempre sonhara: nos seus braços, segura, sem qualquer chance de fuga, com seu perfume suave, seus cabelos finos emoldurando um semblante tranqüilo. Lembrou-se da noite anterior, do esforço que ela fizera para socorre-lo, tirá-lo da água, quase carregá-lo barranco acima, e por fim aquece-lo, salvando-o mais uma vez. Como pode demorar tanto para perceber que a amava mais que a si próprio?! Aproximou seus lábios de sua testa, e a beijou suavemente. Ela suspirou profundamente. Estava acordando. Abriu os olhos vagarosamente, como que voltando de um sonho bom. De repente, lembrou- se do acidente, e levantou sua cabeça num sobressalto, encontrando os olhos de Mulder, fitando-a, bem junto aos seus. - Mulder, você está bem? perguntou preocupada. - Nunca estive melhor, respondeu sério. Neste momento, o tempo pareceu parar, com os dois abraçados se olhando profundamente nos olhos. Foi Mulder quem quebrou o silêncio. - Scully, vou te dizer novamente, só que agora tenho certeza que não estou sonhando: eu te amo, há muito tempo ... Ela não conseguia dizer uma palavra; pensou que talvez ainda estivesse sonhando, aquele sonho que tivera tantas vezes, e que a fazia se sentir culpada por estar sendo tão anti-profissional. Todos aqueles sentimentos que conseguira sufocar por tanto tempo, estavam agora prontos para explodir. Todas as suas defesas, que a custo construíra para se proteger, estavam completamente neutralizadas. Seu parceiro, seu amigo, seu amor estava bem ali, e desta vez não haveria nenhuma abelha ... - Eu também amo você, sussurrou num fio de voz. Mulder aproximou-se para beijar sua face, mas no instante seguinte suas bocas já haviam se encontrado, primeiro tímidas, mas depois apaixonadas e vorazes. Suas mãos buscavam o corpo um do outro, trêmulas de desejo. Seus braços angustiados queriam apertar ao outro para ter certeza que não se separariam. Seus olhos se procuravam para dizer o quanto se amavam. Nada mais no mundo importava para eles agora; somente o momento que esperavam lá no íntimo há tanto tempo: viver seu amor de forma plena e sincera. E se amaram muito. No final da tarde, famintos, foram procurar algum alimento na cabana. E encontraram. De pé, em frente à despensa, Scully comentou: - Ainda acho muito estranho uma pessoa sair de casa e deixar comida na despensa. Não acha, Mulder? - Parece mesmo que ele adivinhou que iríamos precisar, não é? brincou com ela. - Você não está sugerindo que isso tudo foi proposital, está? - Que idéia, Scully! disse abraçando-a por trás. Mas pelo menos aqui nossos celulares não funcionam, não é ótimo? beijou seu pescoço e virou-a para si. - Feliz aniversário, Dana! disse, beijando-a apaixonadamente. - o -