Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: shipper Spoiler: all things Nome do fan fiction: O que aconteceu em "all things". Resumo: Esta fan fiction é extremamente shipper, portanto se você for half ou anti-shipper, não leia, até para os shippers é shipper demais esta história. Nesta ficção, será revelado o que aconteceu entre os agentes Mulder e Scully no episódio "all things" que por si só já é muito shipper. Obs.: A idéia de escrever esta narrativa deve-se à leitura que fiz de algumas fan fictions baseadas no mesmo episódio. E mesmo você, shipper, que se dispor a ler esta história, saiba que há muita dramaticidade, sendo "shipper" demais até mesmo para um shipper. O que aconteceu em "all things" Já era tarde, noite, o manto havia coberto a cidade de Washington com sua escuridão e silêncio, permitindo-se ser salpicado pela chuva de estrelas. Em seu apartamento, o agente do FBI, Fox Mulder estava acomodado em seu sofá de couro preto, ao lado de sua parceira, que não mais o ouvia. Ele que até então, falava sem encarar sua parceira, voltou-se para esta, vislumbrando-a adormecida, com a cabeça levemente caída sobre o encosto do sofá, quase tocando o ombro do homem de olhos verdes. Ficou admirando-a por alguns segundos, inclinou-se suavemente sobre ela, para ajeitar uma pequena mecha ruiva que lhe caía pela face. Antes de puxar um cobertor para cobri-la, deteve-se um pouco mais a contemplá-la com um olhar terno, sereno, imaculado como se a imagem adormecida à sua frente fosse santificada, intocável. Tendo Scully envolta pelo cobertor, pegou-a cuidadosamente nos braços para não despertá-la, levando-a para o seu quarto, chegando neste, deitou o pequeno e frágil corpo sobre a cama, dormiria no sofá da sala. Fitou a face pálida e aveludada de Scully, devia estar muito cansada, a respiração era tranqüila e o sono sereno, parecia um anjo adormecido, o seu anjo, a guardiã de sua existência, uma existência tão frágil e fácil de ser destruída, a causa dessa fragilidade? Seu anjo de olhos celestes. Por ela, passaria a noite inteira em claro a velar-lhe o sono, até a eternidade se assim o fosse. Afastou-se da cama, encostando- se numa das paredes do quarto, deslizando as costas por ela, até ficar agachado no chão, protegido pela penumbra, a observá-la em seu profundo sono. Enquanto Mulder velava o sono da mulher de cabelos rubis, sua mente perdia-se em pensamentos, reflexões: Que sentimento é esse que nos toma por completo a alma, os pensamentos? Que poder é esse que pode ao mesmo tempo destruir e elevar o ser? Como é possível querer estar preso a este sentimento por vontade própria, se ele pode causar o sofrimento, a dor e a própria destruição do ser? Será isto uma fraqueza? Mas, não o sinto assim, pois é justamente deste sentimento que tiro forças para continuar e persistir em minhas buscas, para não desistir da minha existência. Será que este anjo que dorme, na verdade é uma feiticeira, uma bruxa? Pois só assim para Ter-me enfeitiçado desta maneira, confundindo meus pensamentos, meus sentimentos, fazendo-me perder o domínio de mim mesmo. Por que é só perto de você que me sinto seguro? Como você foi se tornar a minha paz? Onde tudo começou? Eu jamais quis isso, não queria isso, mas agora eu quero e tenho medo por querer, porque sei que sem você eu não sou ninguém, sou um nada, até "um nada" seria muito para quem perdesse sua paz, sua razão. Quem é você, minha salvação, minha perdição? Minha fraqueza, minha fortaleza? Não acredito que seja "amor", pois o "amor" me parece algo tão simples, singelo perto do que sinto, que parece algo tão superior, sublime, infinito, perfeito, talvez seja o "verdadeiro amor", aquele sentimento que Platão descreve como ideal, perfeito, eternizado. Algo que ultrapassa as barreiras físicas, que vai muito além da matéria, quebrando as limitações do tempo e do espaço. Por que relutei tanto em admitir o que sinto? Por medo do quão poderoso poderia ser este sentimento? Talvez. Scully mexeu-se na cama, abrindo os enormes olhos céu, estranhando o quarto, então percebeu que ainda estava no apartamento de seu parceiro, sentou-se no colchão macio, passando as mãos pelo cabelo para ajeitá-lo, quando olhou ao redor, conseguiu distinguir o contorno de um copo na penumbra. Levantou-se e deslizou com seus pés descalços até ele, agachou-se e viu Mulder que acabara adormecendo embalado pelos seus pensamentos. Tocou-lhe a face para acordá-lo. - Mulder - chamou-o num sussurro para não assustá-lo. Com aquela voz rouca e familiar a chamá-lo, foi abrindo vagarosamente os olhos amazônicos, verdes, deparando-se com a imagem de Scully. - Scully! Que horas são? - perguntou meio sonolento ainda. - Tarde, Mulder, muito tarde - ela foi até o abajur, acendendo-o e depois voltou-se para o amigo - Já é muito tarde, é melhor eu ir. - Não, é melhor você ficar, é muito tarde para voltar para sua casa - ergueu-se do chão - Durma aqui no quarto, não precisa se preocupar comigo, eu dormirei no sofá da sala. - Obrigada, Mulder, mas irei para minha casa. - Por favor, fique, senão ficarei preocupado se você sair sozinha a esta hora - fitou os olhos azuis da parceira com os seus, desviando-os repentinamente, indo se sentar no chão, no local em que estava protegido pela penumbra até Scully acender o abajur. - O que aconteceu, Mulder? - ficou preocupada pela atitude do parceiro - O que você estava fazendo neste mesmo lugar antes de eu acordar? - Pensando - respondeu com o rosto voltado para o chão. - Algo o está preocupando? O que é? Ele ergueu o rosto, encarando os olhos de Scully profundamente, esperando que ela compreendesse a mensagem muda que trazia nos seus olhos verdes. Dessa vez, foi ela quem desviou o olhar, também tinha medo, medo de que sua alma fosse revelada para si mesma e para aquele a quem queria ocultar o que sentia, relutante em admitir seus próprios sentimentos. - Scully, eu não a queria nos arquivos-x quando a vi pela primeira vez, você estava invadindo um território que me pertencia, pois eu era o único a acreditar, mas eu não tinha escolha, tive de aceitar a sua parceria. - Se pudéssemos voltar àquele dia, tendo conhecimento do futuro, e lhe fosse oferecida a escolha, qual seria a sua atitude? - voltou a fitar seu parceiro, após sentar-se na cama. - Se me tivesse sido oferecida a escolha, eu escolheria continuar trabalhando sozinho - a estas palavras uma expressão de surpresa e decepção desenhou-se na face de Scully. - Não se preocupe, você ainda pode Ter esta escolha - falou de modo ríspido, levantando-se repentinamente e seguindo para a porta. Mulder percebendo que suas palavras foram mal interpretadas, ergueu-se rapidamente, alcançando-a, fazendo-a parar ao segurar o seu braço delicadamente. - Scully, você entendeu tudo errado, não foi isso que eu quis dizer - apoiou as mãos sobre os ombros da parceira de modo a encará- la. - Não entendi nada errado, Mulder, só ouvi a verdade - falou sem encará- lo, não conseguia entender o porquê de Mulder Ter dito aquelas palavras, pensava que sua companhia, sua parceria, cumplicidade eram importantes para ele, mas não, onde errara? Será que o decepcionara de alguma maneira? - Scully, olhe para mim! - Já é tarde, vou para minha casa - tentou se virar para sair para a sala, mas Mulder a impediu. - Me ouça, se eu dissesse para você que escolheria a sua parceria, estaria sendo egoísta, é claro que eu adoraria tê-la como parceira, mas se eu tivesse conhecimento do futuro, tentaria poupá-la de tudo que você passara por causa de mim, mesmo que para isso me custasse ficar sem a minha razão, sem você. Scully voltou a face para Mulder, os olhos de ambos se encontraram. - Não consigo me imaginar antes de conhecê-la, nem sei onde eu estaria hoje se não fosse você, na sala enquanto conversávamos sobre o seu professor, me disse algo como: "e imaginar que eu realmente poderia Ter- me casado com aquele homem", estas palavras me assustaram, porque tudo poderia Ter sido diferente, e eu não a conheceria, continuaria sendo mais uma alma miserável na vida sem sentido, sem rumo, sem razão de existir, não sabe o alívio que é perceber que aquelas palavras eram possibilidades passadas, sendo suas escolhas outras, aquelas que a trouxeram até mim, não sabe o quanto eu agradeço a aquilo que denominamos destino - sua voz era baixa, falava pausadamente enquanto se perdia no mar celeste dos olhos de Scully. - Mulder, eu não sei o que dizer...eu... - Não precisa dizer nada, eu só queria que soubesse que... - Mulder, já é tarde, melhor eu ir. - Scully, do que você tem medo? Por que me impede de dizer o que sinto? E quando consigo dizer, finge não ouvir? - aumentou o tom da voz, tirando as mãos de sobre os ombros dela, desviando o olhar para o chão. - Mulder, não há necessidade de palavras para expressar o respeito, a admiração, a confiança ou qualquer outro sentimento que possuímos um pelo outro, pelo menos não entre nós. - Tem razão, Scully - fitou novamente os olhos celestes à sua frente, tocando com a mão a face pálida de sua parceira, aproximando- se dela, e antes que qualquer palavra fosse mencionada, seus lábios tocaram os dela num beijo suave, longo, eternizado, imaculado. O que se sucedeu não foi um ritual primitivo que acontece em todas as espécies animais e civilizações humanas, entre homens e mulheres de modo a satisfazer as próprias necessidades fisiológicas, algo puramente carnal e irracional, mas o que se seguiu foi algo que transcendia o físico, a matéria, elevando os espíritos a uma indescritível sensação de liberdade, de leveza, de paz, em que não era somente os corpos que se uniam, mas os espíritos que se fundiam numa única essência, sem forma, de modo a tornarem-se tão infinitos, tão perfeitos, divinos, igualando-se à entidade que chamamos de Deus, atingindo muito mais do que a pura inebriação de todos os sentidos. Se houver um céu, um éden, somente o atingiram em vida aqueles que encontraram, na imperfeição de suas existências terrenas, o puro e ideal sentimento, sendo este uma dádiva divina e um privilégio de poucos, muito poucos. Dentre a confusão de lençóis sobre a cama, Mulder puxou o delicado corpo de Scully para junto de seu peito suavemente, embalando-a num abraço aconchegante e terno, adormecendo ambos com o calor humano um do outro. Mal amanhecera, a mulher de cabelos rubis desvencilhou-se delicadamente dos braços de Mulder para não acordá-lo, vestiu-se, colocando a última peça de roupa, a blusa, no banheiro, lavou o rosto, ajeitou o cabelo olhando-se no espelho, depois voltou para o quarto, deteve-se por alguns minutos a olhar o homem adormecido sobre a cama, então, pegou o casaco e saiu, fechando a porta. Depois que o dia já estava claro, Mulder despertou, olhando para o lado em busca de um rosto familiar, os lençóis estavam bagunçados, não havia sido um sonho, ainda podia sentir o perfume de Scully a inebriar- lhe os sentidos, observou em volta o quarto, somente as roupas dele se encontravam espalhadas pelo chão. Enrolou o lençol na cintura, levantando-se em busca de Scully. - Scully! - não houve resposta, depois de vasculhar todos os cômodos, largou o lençol no chão e correu para o quarto, vestindo qualquer roupa, pegou as chaves do carro e saiu apressado do apartamento. No apartamento de Scully, esta estava deitada sobre o sofá de sua sala, possuía os olhos abertos, parados, perdidos em pensamentos, quando o ressonar da campainha a despertou de suas divagações, levantou-se e a passos hesitantes dirigiu-se à porta, sabia quem era, queria poder adiar aquele momento, mas teria de enfrentá-lo de qualquer maneira, respirou profundamente, abrindo a porta em seguida. Mulder possuía uma das mãos apoiadas na parede, usava uma calça jeans e uma camiseta toda amarrotada, estava com o cabelo despenteado, e o rosto de sono, seu olhar demonstrava um certo temor pelo que estava prestes a acontecer, Scully não conseguia olhá-lo, um silêncio estabeleceu-se entre eles até que ela decidiu rompê-lo. - Mulder, entre - disse dando passagem para o homem de olhos amazônicos - Precisamos conversar. Mulder seguiu até a sala, sentando-se numa das pontas do sofá, Scully acomodou-se na outra ponta de modo a encarar o seu parceiro. - Scully, olhe para mim, não há do que nos envergonharmos, foi lindo, maravilhoso - Mulder estendeu a mão para tocar a face de Scully, mas percebendo esta se afastar, voltou à sua posição anterior. - Foi perfeito, mas... Mulder tinha muito medo desse "mas", odiava palavras como esta que havia no vocabulário, principalmente naquele momento tão importante de sua vida. - Mas foi um erro, Mulder - não o encarou. - Não para mim, Scully, e duvido que o tenha sido para você, pois não se pode fingir tão bem, tão perfeitamente, um sentimento e principalmente chamá- lo de "um erro" - Mulder não pôde deixar de aumentar o tom da voz e evitar que seus olhos se umedecessem, pois aquelas palavras feriam-no como arames farpados a rasgarem-lhe a pele, a carne, o peito. - Mulder, o que tivemos foi uma fraqueza, depois de tantos anos sozinhos, carentes, estamos confundindo os sentimentos... - Scully, eu te a... - Não, Mulder, você acha que me ama porque eu sou a única amiga que tem, que confia, já que perdeu tudo que tinha e amava nessa vida, você está confundindo... - Scully não queria dar a si mesma uma chance de ser amada, fechara-se numa redoma de vidro para aquele sentimento, mas este fora mais forte e ultrapassara as barreiras que rodeavam a sua alma, invadindo-a e tomando-a por completo, não queria que Mulder sentisse o mesmo por ela, senão como poderia protegê-lo deste sentimento, dele mesmo, ela mesma não suportaria viver se algo acontecesse a ele. E ele a ela, suportaria? Não, ele se destruiria, e ela não estaria por perto para impedi-lo, para protegê-lo. Precisava fazê-lo acreditar que estava errado quanto ao que sentia. - Não coloque palavras na minha boca, não estou confundindo nada, eu sempre soube, mas nunca admiti, não sei onde, quando e nem como aconteceu, mas já é tarde, Scully, este sentimento me invadiu sem ser anunciado e se apossou de mim, por ele sou capaz de abdicar de tudo, principalmente da minha liberdade que eu nem tenho, porque me tornei um escravo do que sinto, mas sou feliz em minha escravidão, então, não queira me devolver uma liberdade que não quero, eu não sobreviveria, não suportaria, sou um pássaro engaiolado e se você me soltar, eu vou morrer. Se não quer admitir o que sente e aceitar o que digo, o que sinto como verdade, então me dê um tiro que é menos doloroso, assim põe fim ao meu sofrimento. Sei que sente o mesmo por mim, vi isso ontem à noite, mas o que me machuca não é você negar o que sente por mim, mas colocar em dúvida o que eu sinto, Scully. - Mulder,...- não suportava ver o homem crescido à sua frente chorar como uma criança, principalmente sendo ela a causa - Não dará certo. - Deu certo durante todos esses anos! - Irá interferir no nosso trabalho com os arquivos-x. - Nunca interferiu, Scully, por que interferiria agora? A única coisa que mudou foi que eu declarei com palavras o que sempre esteve declarado em meus olhos, que eu te...- Scully calou-o num beijo suave, sentindo o sabor salgado das lágrimas dele, não poderia mais negar o que há muito tempo não admitia a si mesma. Toda a angústia, o temor dissiparam-se no peito de Mulder, sentiu-se leve, amado, vivo, embalou Scully em seus braços naquilo em que queria que se tornasse um eterno abraço. Fim