Título: Reflexões Autora: Patricia Emy E-Mail: patricia_emy@hotmail.com Classificação: Post-episode/Shipper [nível médio de glicose :)] Spoilers: Conduit, Oubliette, Christmas Carol/Emily, All Souls, Sein Und Zeit/Closure, all things Disclaimer: Fox Mulder, Dana Scully e demais personagens pertencem a Chris Carter, à 1013 Productions e à 20th Century Fox. Não há intenção alguma de violar qualquer lei de direitos autorais. Sinopse: Mulder e Scully têm uma conversa sobre perda, destino e... o futuro. Apartamento de Dana Scully Georgetown 1:15 'Estou livre.' Duas palavras que conseguiram resumir um sentimento quase impossível de se descrever, e trouxeram à superfície emoções reprimidas e lembranças enterradas em um lugar bem fundo, onde acreditamos que não possam mais nos causar dor. Feridas que jamais cicatrizam. Mulder pegou este caso como se soubesse o que o aguardava no final, por mais estranho que isso possa parecer. Os paralelos com o desaparecimento de sua irmã eram inevitáveis, ainda que as circunstâncias fossem aparentemente distintas. Não seria a primeira vez que ele se identificaria de forma pessoal com um caso assim. No entanto, havia algo de diferente desta vez. Uma certeza que não tive ao início, mas que veio aos poucos. Talvez por minha recusa em aceitar certas verdades, embora não entenda exatamente o porquê. Quando os pais nos relataram as visões que tiveram de seus filhos desaparecidos, a imagem de minha filha veio à minha mente. As mortes misteriosas, as visões aterradoras, e as escolhas que fui obrigada a fazer, tudo começa a fazer sentido agora. Ao deixar Emily caminhar na direção daquela luz, eu me libertei, embora não tivesse consciência daquilo naquele momento. Deixando-a ir, aceitando o seu destino, procurei acreditar no fato de que ela estaria em um lugar melhor, longe daqueles que a trouxeram a este mundo para servir uma agenda obscura. Aceitando a sua morte, pude seguir adiante. Imagino que tenha sido esta revelação que tenha permitido que Mulder aceitasse a mesma verdade. Penso na dor em seu olhar, ao ler o relato de sua irmã, um testemunho das atrocidades cometidas contra ela. As palavras contidas naquelas páginas, escritas por uma menina de 14 anos, deixavam transparecer a mesma revolta, a amargura e o sentimento de impotência que eu experimentei há alguns anos, quando as memórias do que acontecera comigo começaram a retornar, fragmentadas e confusas. Eu segurei a sua mão naquela mesa de lanchonete e chorei por dentro. Chorei por ele, por sua irmã e por mim mesma. Eu queria poder lhe dizer algo, mas não encontrava as palavras certas. Assim como ele, eu queria que esta busca terminasse, para que este sofrimento chegasse ao fim, de uma forma ou de outra. Por esta razão, procurei respeitar a sua decisão de ir até o fim. Sei que nada que eu dissesse o faria desistir. Encontrar Samantha tornara-se a razão de sua vida, algo mais importante do que desmascarar os conspiradores que a levaram. Não há mais conspirações, ou forças ocultas contra as quais lutar. Nós vencemos, mas a vitória foi amarga. Com a morte de sua mãe, esta busca ganhou um outro sentido. Ele queria que isso tudo acabasse, já não lhe importava como. Depois de anos seguindo pistas que não levavam a lugar algum, Mulder estava cansado. Cansado de lutar. O que ele buscava era muito mais do que a irmã desaparecida. Ele queria estar em paz consigo mesmo, libertar-se da culpa que o atormentou durante estes anos todos, das mentiras em que foi levado a acreditar, embora elas o tenham levado a continuar procurando, a ter esperança. Uma esperança que eu vi morrer, ao mesmo tempo em que vi algo renascer em seu íntimo naquela noite, enquanto olhávamos para as estrelas. E foi isso que me deu a certeza de que o que quer que o futuro possa lhe reservar, ele não estará sozinho. Ele nunca esteve. A batida na porta interrompeu a minha breve divagação, trazendo-me de volta à sala do meu apartamento, iluminada apenas pela parca luz do abajur. "Mulder", eu disse simplesmente ao abrir a porta. Seus olhos demonstravam uma certa surpresa, mas a sua expressão logo se atenuou. "Estava dormindo?", ele perguntou, tirando as mãos do bolso da jaqueta, embora não soubesse o que fazer com elas. "Na verdade estava no sofá, tentando descobrir como dormir sem acordar com algum osso fora do lugar", eu respondi, mexendo o pescoço dolorido. Ele sorriu, aceitando a minha tentativa patética de dar um certo humor à situação. Não nos víamos há uma semana, o tempo em que ele esteve afastado. Depois de tudo o que aconteceu, Mulder mal tivera tempo de lidar com o fato de sua mãe ter cometido suicídio. Com a sua morte, ele perdera o que restara de sua família, ainda que há muito ele já não a tivesse mais. Embora contrariada, aceitei a sua decisão de enfrentar tudo isso sozinho. Foram longas noites em claro, olhando para o telefone, lutando contra o impulso de ligar, nem que fosse para ouvir a sua voz gravada na secretária eletrônica. Olhando bem para o seu rosto, percebi que não era a única a ter crises de insônia nos últimos sete dias. "Mulder, o que houve? Por que veio aqui a esta hora?", eu já me arrependi antes mesmo das palavras saírem de minha boca. Sabia que era uma pergunta idiota. "Eu... sei que tenho estado um tanto distante. Sinto muito", ele murmurou. Seus olhos estavam vermelhos, o cabelo em desalinho. "Você está péssimo", eu disse em um tom de reprovação, "Pensei que tivesse tirado esta licença para descansar. Me disse que precisava de espaço, e eu lhe dei, pois sei que faria o mesmo por mim, como já fez várias vezes... Não tem pelo que se desculpar." "Mas isso a magoou." "Pensei que quisesse conversar com alguém, só isso." "E você, gostaria de conversar com alguém?" "Sobre?" "Emily." "Por que isso agora, Mulder?", eu me levantei, irritada. Não estava disposta a remexer em velhas feridas, mas talvez isso não tenha nada a ver com a minha vontade. Talvez eu precisasse ouvir o que eu venho tentando dizer para mim mesma há tanto tempo. "Aonde quer chegar?" "Você me contou sobre as visões que teve, mas depois nunca mais tocou no assunto." "Isso não teve nada a ver com..." "Eu sei. Mas você se fechou, Scully." "E é por isso que você se fechou agora? Porque eu não me abri com você?" Ele balançou a cabeça. "Não... você não está entendendo." Droga. "Não, Mulder", eu me sentei ao seu lado, olhando para as minhas mãos entrelaçadas sobre o meu colo, "Eu entendo. Só agora eu pude entender. Emily se foi, e eu já aceitei isso. Foi doloroso, mas consegui compreender o que aquelas visões significavam, a mensagem que elas traziam... e só então pude ver a verdade." "Era o que você estava tentando me dizer? Para que eu parasse?", ele voltou o seu olhar para o objeto que eu estava segurando momentos antes de ele chegar, agora esquecido em cima da mesinha de centro. "Para que visse a verdade", eu toquei a fotografia, a única lembrança que me restara da minha filha. "Emily me ensinou que o amar também significa 'deixar partir'. Talvez a sua mãe quisesse que você fizesse o mesmo. Deixar Samantha partir. Libertar vocês dois." Mulder acenou com a cabeça e ficou em silêncio, fitando o vazio, o rosto apoiado em suas mãos, os cotovelos repousando sobre seus joelhos. Podia ver claramente o contorno de seu perfil contra a penumbra. "Eu me lembro de algo que a minha irmã me disse na véspera de Natal, um pouco antes de eu entrar para o FBI. Algo sobre não haver certo e errado, que a vida nada mais seria que um caminho, cujo rumo nossos corações devem seguir. Mas ela disse mais uma coisa, a qual eu não dei muita importância naquela época. Ela me falou sobre não deixar que o caminho me impeça de ver o que é realmente importante na vida." "E o que seria?", ele virou-se, fitando-me nos olhos. "As pessoas que encontramos no caminho. Não sabemos quem vamos encontrar, nem como nossas vidas irão mudar, ou mesmo como nós iremos mudar a vida de outras pessoas", eu repeti as palavras de Melissa, tão claras em minha mente, como se tivessem sido ditas naquele momento. "Já não lhe passou pela cabeça que outro rumo sua vida tomaria caso tivesse seguido a sua carreira em Medicina?" "Já", eu desviei o olhar, "Muitas vezes." "E a que conclusão chegou?" Uma torrente de lembranças invadiu a minha mente. Decisões tomadas há tanto tempo. Mágoas. Arrependimento. Paixões proibidas. "Não acho que seria melhor", finalmente respondi. "Como pode ter certeza?" "Eu não sei. Mas o que Melissa me disse faz sentido agora. Ainda que não me agrade esta idéia de que nossas vidas estejam condicionadas a esta coisa que chamam de destino." "Acho que passaríamos o resto de nossas vidas considerando todas as possibilidades." "E nos esqueceríamos do mais importante. Viver." "Tem razão", ele olhou para o teto, soltando um longo suspiro, "Sabe, é uma sensação estranha... depois de tudo que aconteceu... eu sinto um..." "Vazio?" "É. Agora que acabou, eu me sinto livre, mas também sinto como se o chão tivesse sido tirado debaixo de meus pés." "Essa busca foi parte de sua vida por tanto tempo", eu segurei a sua mão, "É normal que se sinta um pouco perdido." "Não, eu não estou perdido. Nunca estive. Por mais que tudo me levasse a acreditar que sim, algo sempre me manteve no caminho certo. Você sempre esteve lá, Scully, me questionando, me oferecendo outras possibilidades, me apoiando e respeitando as minhas opiniões e idéias, por mais absurdas que lhe parecessem. Foi essa sua integridade que me fez ter a certeza de que jamais me perderia, pois você sempre estaria lá para me trazer de volta", ele levou a minha mão ao seu rosto, seu olhar fixo no meu, um leve sorriso em seus lábios, "Sempre." "Sempre", eu repeti, surpresa ao perceber que tinha lágrimas nos olhos. Nos abraçamos, certos de que, ainda que o final desta busca nos forçasse a redefinir nossas vidas, uma coisa permaneceria a mesma: o forte laço que nos une. F I M