ARQUIVO X (THE X-FILES) Título: "Prosaico Natal" Nome do Autor: Mario Cavalcante E-Mail: henjoser@svn.com.br Disclaimer: O título "Arquivo X", assim como os personagens Fox William Mulder, Dana Katherine Scully, Margaret Scully e Bill Scully pertencem à Twentieth Century Fox e a Chris Carter. O autor da estória que segue não tem intenção de obter lucro através da mesma, sendo sua única e exclusiva intenção, o entretenimento do leitor. Classificação: UST/Shipper; Comédia. Sinopse: Mais uma vez, Mulder e Scully acabam passando a noite de Natal juntos. E mais uma vez outra grande surpresa (nem tanto) os espera. Fanfic Shipper. _________________________________________________________ Washington D.C., Sede do FBI 24 de Dezembro de 1999 23h19min O agente Fox William Mulder, totalmente alheio às tradicionais festas de fim de ano, decide passar o Natal "trabalhando". Mas, desta vez, resolveu ficar quieto e escondido dentro de sua saleta no FBI, pois desde a noite de Natal do ano passado, em que foi fazer uma investigação de um suposto arquivo X por conta própria e acabou levando um tiro – tudo bem que foi de mentira, mas o susto traumatizou do mesmo jeito –, prefere agora ficar dentro das quatro paredes de seu escritório. O visual de sua sala é muito mais interessante do que os móveis antigos, do que a arquitetura barroca e arabescos do casarão o qual esteve confinado a esta mesma hora um ano atrás com sua parceira, a agente Dana Katherine Scully, os dois tendo uma das experiências mais bizarras desde que iniciaram a parceria na seção dos arquivos X. Porém, o agente Mulder há de convir que aqueles dois supostos fantasmas de meia idade que os assombraram, colocando em cheque seus maiores medos e ansiedades, acabaram por proporcionar aos agentes, além de um constrangimento sem precedentes, uma reflexão mais do que oportuna sobre este convívio, que já dura quase sete anos. E é exatamente neste assunto que Mulder pensa neste momento, ao mesmo tempo em que está sentado em frente ao seu computador, vendo algumas fotos pornográficas em algum site da Internet. A agente Dana Scully, também traumatizada pela experiência de um ano atrás, achou melhor passar a festa de Natal com a família. Os dois últimos Natais foram, para dizer o mínimo, ingratos. Em 1997, descobriu sobre a existência de Emily, uma garotinha de 3 anos de idade, que, por um inusitado acaso, era sua filha. Talvez para outra mulher esse teria sido o melhor presente que alguém poderia ganhar, mas o fato é que havia algum tempo que ela não... Hum... Ficava com alguém... Será que o Divino Espírito Santo resolveu agraciar outra mortal com um filho inconcebido? Ao menos a Virgem Maria deu à luz Jesus Cristo, e Scully nem disso recordava. Nem recebeu visita de Anjo Gabriel nenhum, aliás, um anjo Serafim veio até ela, com um pouco de atraso, visto que Emily já havia morrido com outro propósito muito menos nobre. Mas isso não vem ao caso agora. Scully descobriu que Emily é fruto de um dos terríveis testes feitos com ela no período em que estava seqüestrada. Cem por cento dos seus óvulos foram extraídos de seus ovários e Scully se tornara estéril. Ou seja, tudo estava muito improvável e incompatível com a realidade... Um péssimo Natal. Um ano depois, em 1998, ela resolveu, mais uma vez, seguir os passos de Mulder na busca de pistas sobre um casal que cometeu suicídio duplo num casarão abandonado há décadas atrás. Só mesmo Mulder para, em pleno Natal, fazer isso, e só mesmo Scully para ir atrás dele nessa maluquice. Mas foi bom para os dois, apesar dela também ter levado um tiro imaginário – só que a dor não foi nem um pouco imaginária – pois também aproveitou para repensar sobre muitos assuntos mal resolvidos entre ela e seu parceiro. Mas estamos em 1999, outro Natal chegou... O que os aguarda neste ano? Residência de Bill Scully 23h24min Scully está neste momento sentada no sofá da casa de seu irmão, vendo o movimento de parentes e amigos, alguns com uma taça de vinho na mão, outros apenas conversando, alguns outros sentados comendo. E ela ali, usando um vestido preto estilo tomara-que-caia, segurando também uma taça de vinho. Está sentada sozinha, sem pronunciar uma palavra. Bill, seu irmão mais velho, se aproxima e, percebendo o estado de sua irmã, senta- se ao seu lado, no braço da poltrona. "Volte, Dana... Onde você está?" – pergunta Bill acenando com a mão em frente ao rosto dela, como se quisesse traze-la de volta de um transe. "Ah... Bill, oi... Não se preocupe, eu estou bem aqui." – responde Scully, esboçando um sorriso sem graça. "Você não queria estar aqui, não é?" "Bill, que pergunta! Claro que sim!" "Não é o que está parecendo. Onde está o Fox Mulder?" "Mulder? O que tem o Mulder?" "Onde ele está passando o Natal?" Agora que seu irmão fez essa pergunta, ela se dá conta que realmente não sabia onde Mulder estava naquele momento. A última vez que o viu hoje foi antes do meio-dia, e não conversaram sobre o Natal, por incrível que pareça. "Eu não sei... Realmente não sei, Bill. Não sei se deve estar com a família. A única família de Mulder é sua mãe." Margaret, mãe de Dana e Bill, se aproxima dos dois filhos. "Está gostando da festa, Dana?" Antes que Scully respondesse, seu irmão passou à frente. "Ela está odiando a festa." "Bill! Não, mãe, a festa está muito boa. Estou adorando." – diz Scully, lançando a seu irmão um olhar de censura, que ele retribui com um sorriso irônico. "E o Fox?" – pergunta Margaret – "Onde ele está?" "Porque todo mundo está querendo saber do Mulder hoje??", pensa Scully indignada. "Não sei, mãe..." "Por que não o chama para vir para cá?" Quando Margaret faz essa pergunta, Scully, que estava sorvendo um gole de vinho de sua taça, assusta-se com a pergunta da mãe e engasga-se. "Filha? O que foi??" "Hm... Ah... Desculpa... Chamar o Mulder aqui??" "Sim, Dana, ele é amigo da família. Não é, Bill?" Bill não responde. Prefere sorrir ironicamente mais uma vez e levantar-se da poltrona. Ele nunca escondeu sua antipatia por Mulder, já que para ele, tudo que aconteceu de ruim com sua irmã mais nova foi causado por ele e por sua procura pelos "homenzinhos verdes". "Bill? Volte aqui, filho!" "Deixa, mãe... Você sabe que ele não gosta do Mulder... É melhor não o chamarmos" "Não, não tem nada a ver. A festa é da família, e eu o considero parte da nossa." "Mas aqui é a casa do Bill." – argumenta Scully. "Mas eu sou a mãe dele. Qual é o número do celular do Fox?" Só o que Scully pensa é o que deu na cabeça de sua mãe. Naquele momento, queria que sua progenitora odiasse Mulder tanto quanto seu irmão. "Ok, mãe... 555-9985" "Obrigada." – diz Margaret pegando o telefone e discando para Mulder. Sede do FBI 23h36min Mastigando suas sementes de girassol, Mulder está com o mouse na mão clicando em todos os links pornográficos que encontra na Internet. Poderia querer um Natal melhor do que esse? Neste momento seu celular toca. "Mulder falando." "Feliz Natal, Fox!" "Fox"? Quais são os poucos seres humanos que ainda o chamam pelo primeiro nome? Não é a voz de sua mãe... Quem seria então? Pensando nisso, Mulder cala-se por alguns segundos. "Fox? – chama Margaret." "Senhora Scully?" "Eu mesma, meu filho... Feliz Natal!" "Ah, sim... Obrigado! Pra você também..." "Obrigada, querido... Onde está agora?" "Eu? Ah..." – o que dizer? – "Eu estou em casa. Comprei um peru e uma garrafa de vinho..." "Está sozinho?" "Sim, estou." "Que é isso? Venha para cá, estamos na casa do Bill. A Dana está aqui, e alguns amigos e familiares também." "Não, senhora Scully. O Bill... A senhora sabe, o Bill não gosta de mim. Fica chato eu ir passar o Natal na casa dele..." "Não se preocupe com isso, Fox. A Dana está aqui, e eu sou a mãe dele. Você não precisa ficar constrangido. Traga o seu peru e seu vinho e festejaremos todos juntos. Ainda faltam quarenta minutos para meia noite." A proposta é tentadora. Ao mesmo tempo assustadora. Passar mais um Natal com Scully? E dessa vez acompanhada da família inteira? Apesar do medo, Mulder aceita o convite. "Ok, Senhora Scully... Estarei aí antes de meia noite." "Ótimo! Venha depressa! Tchau!" "Tchau..." Ao desligar o telefone, o arrependimento se manifesta. Mas já é tarde pra isso. Mulder desconecta-se da Internet e desliga o computador. Pega os sapatos que estão jogados no meio do escritório, calça-os, ajeita a gravata, coloca o paletó e vai pegar o elevador para ir à casa de Bill Scully, o incompreensível. Residência de Bill Scully 23h41min Ao desligar o telefone, Margaret se aproxima novamente da filha. "Pronto, Dana, o Fox está vindo?" "Está??" – Scully ainda tinha esperanças que Mulder não aceitasse o convite. "Sim, ele vai trazer o peru e a garrafa de vinho. Ele comprou isso tudo pra festejar sozinho, já pensou?" "Mulder comprou peru para o Natal??", pensa Scully. "Mãe, o Mulder é um pouco imprevisível mesmo, a senhora sabe..." "É... Bom, vou avisar ao seu irmão." "Ok, mãe." Neste momento, Scully levanta-se da poltrona e vai para a janela tomar um ar. Ela não está necessariamente desanimada pela hipótese de Mulder ir passar a festa de Natal com ela e sua família, mas o que a assusta é o fato de seu parceiro profissional se envolver numa festa familiar dela. Não que ele não seja bem vindo ali, claro que sim, porém Scully está se sentindo como uma adolescente que vai receber pela primeira vez um namorado em casa. 23h46min Dentro do táxi, indo à casa do irmão de sua parceira, Mulder pensa no que o espera. Ele não tem o costume de passar o Natal com a própria família, muito menos com a família de outra pessoa, ainda mais com esta pessoa sendo sua própria parceira. Algo vai acontecer, ele pressente isso. "Chegamos, senhor." – diz o taxista – "São 15 dólares." "15 dólares?!" "Sim, pode olhar o taxímetro." "Nós viemos do FBI para o bairro da reserva da marinha, não atravessamos a rota 66!" "FBI?" "Sim, eu sou agente do FBI." – diz Mulder, mostrando sua insígnia. "Ok... Pode deixar por conta." "Obrigado por deixar o espírito de Natal se manifestar." – diz Mulder, sorrindo cinicamente para o taxista ao mesmo tempo em que desce do táxi. – "Feliz Natal." "Pra você também..." – responde o taxista, claramente contrariado, arrancando o carro com velocidade e fazendo a neve da beira da rua sujar a calça de Mulder. "Desgraçado!" – grita Mulder, limpando a calça. – "Droga... Vamos lá, Fox..." – incentiva a si mesmo. Andando em direção à casa de Bill, Mulder nota que todas as casas do bairro estão iluminadas e enfeitadas para a data especial. Por um momento, lembra de Samantha, sua desaparecida irmã. É quando chega à referida casa. Posta- se à frente da porta, olha para a guirlanda pendurada na janela, ouve a música e o barulho causado pelas vozes dos convidados e pensa... "Já cheguei até aqui...". Finalmente bate à porta. Passam-se alguns segundos e ninguém atende. Faz menção de bater novamente, mas hesita. "Ninguém quer me atender... Vou embora." – Vira-se para ir, dando graças a Deus. Bill, finalmente atende à porta. "Fox Mulder?" Mulder pára, aperta os olhos, enche a boca de ar, formando uma expressão cômica, ao mesmo tempo em que se vira para Bill com um sorriso de orelha a orelha. "Olá, Bill! Como vai você? Há quanto tempo, hein?" "É... Vai ficar aí fora?" – pergunta Bill, demonstrando que é isso que ele queria realmente. "Não, eu..." "Entre, Fox." "Ok, obrigado. Feliz Natal pra você." "Pra você também." – Responde Bill, fechando a porta. Mulder adentra a casa do irmão de sua parceira a passos cuidadosos, observando o movimento e a quantidade de pessoas que estão ali. De longe, ele avista Scully, escorada no peitoril da janela, de costas para a festa. Dali, ele percebe o vestido preto dela, nem tão folgado nem tão justo, desenhando formas do corpo dela que raramente ele teve oportunidade de ver. Em estilo tomara-que-caia, o vestido deixa seus ombros à mostra, fazendo a mente de Mulder viajar. É quando ela se vira e o vê. "Mulder!" – exclama Scully, indo ao encontro dele. "Oi, oi, minha amiga..." "Resolveu fazer como eu e se render ao capitalismo?" "Estamos nos Estados Unidos da América, Scully!" – afirma Mulder sorrindo. Scully dá risada, e neste momento os dois se abraçam forte. "Feliz Natal, Mulder." "Feliz Natal, Scully." – Retribui Mulder, sem o menor ânimo. "Mulder!" – diz Scully, se soltando do abraço. – "Anime-se! Até agora eu estava assim como você está agora." "E o que a fez ficar melhor?" "Quer mesmo saber?" "Claro..." "Espere um instante que já vou lhe dizer o porquê. Mãe! O Mulder chegou!" Margaret, que estava conversando com suas amigas e não havia percebido a chegada do colega de sua filha, vira-se e vê Mulder. "Fox! Que bom que veio!" – diz, se aproximando dos dois. "O convite foi irrecusável, Senhora Scully." – diz Mulder abraçando-a. "Onde está o peru e o vinho?" "O peru e o vinho...". Mulder havia esquecido completamente desse detalhe. Ele inventou a história do peru para não ficar ainda mais óbvia sua aversão à festa de Natal. "Devia ter comprado na vinda...", pensou. Scully, percebendo a conhecida expressão de seu parceiro, pegou tudo no ar, mas ficou calada, claro. "Senhora Scully... Eu realmente ia trazer, mas... Na hora em que a senhora me ligou eu ainda ia colocar o peru no forno, e o vinho ainda não havia gelado. Eu nem me lembrei disso. Mil perdões, mas eu cheguei tarde em casa e, como eu moro sozinho, a senhora já viu, não é mesmo?" – diz Mulder a Margaret, logo desviando seu olhar para Scully, que lhe devolve um sorriso cúmplice. "Mãe, a senhora acha que o Mulder ia mesmo conseguir assar um peru de Natal sozinho?" "Eu acho que não..." – Diz Margaret, sorrindo. – "Sente-se, meu querido, vou colocar uma taça de vinho para você, ok?" "Ok, Senhora Scully... Obrigado, e mais uma vez, me desculpe..." Scully, rindo muito, pega Mulder pelo braço e sentam os dois no sofá. "Ah, Mulder... Está vendo só?" "Vendo o quê?" "Você me perguntou por que eu fiquei mais animada." "Exatamente. Por quê?" "Olha... Quando eu soube que você viria, no primeiro momento eu fiquei assustada." "Assustada? Nossa, Scully, por que será que você ficou assustada, hein?" – irônico. "Até parece que você não sabe..." "É... Nosso Natal no ano passado foi... Hum..." "Isso... Foi... Ingrato." "Ingrato até certo momento... Quando você foi lá para meu apartamento, meu Natal ficou maravilhoso." – Mulder diz isso olhando bem fixo nos olhos azuis de Scully, que, embaraçada, desvia do olhar dele. "É, Mulder... Eu gostei daquilo também, mas... Não foi apenas pelo nosso último Natal que eu me assustei..." "Eu acho que posso lhe entender." "Você sabe que o Bill..." "Me odeia." "Não! Ele não lhe odeia, Mulder. Não odeia porque sabe que eu gosto muito de você. Mas ele tem as razões dele para não simpatizar com você. Então, eu me senti como se fosse uma..." – Scully hesita e cala-se por uns segundos. "Diga, Scully. Sentiu-se como se fosse o que?" "Ah... Sabe quando você tem quinze anos de idade, começa a namorar com um garoto da escola e quer traze-lo na sua casa para apresentá- lo à sua família? Ao ouvir isso, Mulder gargalha. "Você se sentiu assim mesmo, Scully?!" "Sim..." – envergonhada – "Parece bobagem, mas... Guardadas as devidas proporções, claro..." "Claro... Eu não sou seu namorado." – Mulder diz isso colocando o cotovelo sobre o encosto do sofá, segurando a testa com a mão. "Não, não é..." – retruca Scully, olhando para seu parceiro. – "Mas... Depois que você chegou aqui, acho que essa sensação sumiu. Quando eu te olhei aqui na casa de meu irmão, todo desajeitado, sem saber o que dizer... E com aquela história do peru... Mulder! De onde você foi tirar isso?" "Eu não sei, Scully..." – responde Mulder rindo. – "Eu tinha que dizer alguma coisa para sua mãe desistir de me convidar. Mas ela é persistente." "É... Bastante." – Diz Scully, tomando mais um gole de vinho de sua taça, ao mesmo tempo em que olha para o movimento da festa e vê seu irmão olhando feio para os dois. Disfarçando, Scully diz baixo a Mulder. – "Bill não pára de olhar para cá." "É o general..." – diz Mulder acenando para Bill, que faz um sinal com as sobrancelhas e vira-se. – "Ele sempre foi assim com você?" "Ah sim... Sempre... Não só comigo, com a Melissa também. O papai passava semanas viajando quando éramos crianças. Então ele se acostumou a tomar conta da casa, como o homem da família... Alguns dos meus namorinhos de adolescente não deram certo por causa dele." "Será que ele acha que eu quero namorar com você?" – indaga Mulder, provocando. "Mulder!" – exclama Scully, surpresa. – "Claro que não!" "É o que está parecendo, não acha?" Scully há de concordar que a hipótese que Mulder levantara agora dá um certo sentido à animosidade de seu irmão para com seu parceiro. "Ele tem ciúme de mim, Mulder. Só isso." "Então tá certo..." Margaret vai até os dois. "Venham os dois para a mesa, já vai dar meia noite." "Ok, mãe. Vamos comer, Mulder?" "Sim, vamos. Ao menos para isso o Natal serve." Os dois levantam-se e vão à sala de jantar, encontrando uma farta mesa rodeada por parentes e amigos da família Scully. Margaret está sentada na ponta da mesa, como a matriarca que é e ao seu lado direito encontra-se Bill. Há apenas dois lugares vagos logo ao lado de Bill. E agora? Quem sentaria ao lado do general? O próprio se pronuncia. "Sente-se aqui do meu lado, Fox." Mulder estranha a atitude de Bill, mas obedece, isso sem antes esquecer de puxar a cadeira para Scully. "Obrigada, Mulder." – agradece, meio embaraçada. Mulder senta-se por último e fica entre Bill e Dana. Margaret levanta-se e resolve fazer uma pronunciação: "Meus amigos, meus filhos, meus primos e sobrinhos... Enfim, todos os que estão aqui, me ouçam com atenção..." Scully estranha sua mãe, que sempre foi comedida e de poucas palavras. Mas não fala nada e prefere ouvir. Mulder observa curioso, sempre debaixo da vigilância de Bill. Margaret continua: "Este Natal está sendo muito diferente de todos os outros. Primeiro, por que consegui reunir todos vocês aqui, coisa que não faço há anos." "Não fale de mim, não fale de mim, não fale de mim...", implora Mulder, em pensamento. Mas não adianta, Margaret faz exatamente o que Mulder não quer. "E depois de quase sete anos trabalhando com minha filha, consegui trazer Fox Mulder à minha casa para passar o Natal conosco. Por favor, Fox, levante-se." Todos os olhares da mesa viram-se para o agente, que já está sem cor de tanta vergonha, levanta-se da cadeira. Scully abaixa a cabeça e coloca a mão na testa de tão sem graça, mas não consegue deixar de rir. "Diga algumas palavras para nós, Fox." – pede Margaret. Bill olha para Mulder e espera que pelo menos alguma sílaba saia de sua boca. Scully também observa seu parceiro, que, apenas com um sorriso no rosto, passa alguns segundos calados, mas finalmente fala alguma coisa: "Bom... Em primeiro lugar, quero dizer a todos vocês que... Que... Bom, que este penúltimo Natal do milênio nos encha de esperança para o próximo. Se bem que ainda temos mais um antes, mas... Eu nunca fui muito chegado ao Natal, sempre achei que fosse uma coisa engendrada pela indústria de consumo, e..." "Mais uma conspiração, Fox Mulder?" – interrompe Bill, satirizando. Todos na mesa riem, menos Margaret e Dana. "É, Bill..." – concorda Mulder – "Não chega a tanto, mas sim... uma espécie de conspiração. Mas nos últimos anos mudei um pouco de idéia sobre o Natal, principalmente no ano passado, em que eu estava com a agente Scully. " "Mulder..." – censura a agente. "Não se preocupe, Scully, não vou entrar em detalhes, mas... Digo-lhes que o que passamos no ano passado nesta mesma noite, foi muito construtivo para nós. Isso ela tem que concordar." – Todos olham para Scully neste momento, que faz um sinal afirmativo com a cabeça, mas continua corada de vergonha. – "Então, meu amigos... Se o Natal deve significar alguma coisa, que seja isso então, um momento em que as pessoas pensem um pouco sobre suas vidas. Aproveitem o clima de tranqüilidade, mesmo que na maioria das vezes seja falso, mas aproveitem para rever suas esperanças, prioridades e crenças, e acreditar em algo. Foi o que fiz e o que estou fazendo aqui, agora. É isso." Todos na mesa batem palmas para Mulder, que ficou surpreso com essa reação, assim como Scully, que arregala os olhos e olha para seu parceiro, que já a estava olhando. Bill, observando a cena, descruza os braços e bate palmas sem o mínimo ânimo, só para acompanhar a maioria. "Bom..." – diz Margaret – "Acho que nada mais precisa ser dito, Fox já disse tudo, não?" – todos concordam – "Feliz Natal, então!" Depois de dizer isso, Margaret senta-se, logo em seguida Mulder também o faz, e assim todos comem e bebem, confraternizando a festa "da indústria de consumo" como o agente denominou. 00h34min Algum tempo se passa, todos já estão de barriga cheia, todos já destilaram seus venenos natalinos, já comentaram sobre a tia da irmã do cunhado do primo da sobrinha do avô, etc, etc. Comentários que só vêem à tona quando toda a família se reúne. Mulder e Scully resolveram ficar um tempo andando do lado de fora da casa conversando. Scully já não estava mais tão exposta, resolveu colocar um cachecol, pois a noite está muito fria. Mulder, com seu sobretudo, não reclama do frio. "Saiu-se bem, Mulder. Muito bem..." "Você sabe que eu sempre me saio bem sob pressão." "Sob pressão?" "Sim... Eu ali estava torcendo para sua mãe esquecer meu nome. Tinha certeza que ela iria me chamar para falar alguma coisa." "É... Eu também suspeitava." Os dois caminham alguns metros sem nada dizer. Scully, de braços cruzados, entrelaçando as franjas do cachecol que caem sobre seus ombros, e Mulder com as mãos no bolso do sobretudo. De repente, Scully pára. Mulder, após dar mais um passo adiantado pára também e olha curioso para sua parceira. "Mulder... Alguma coisa está errada, não é possível..." "O que está errado, Scully?" "Não sei... Está tudo muito tranqüilo... Nada de estranho aconteceu. Você não se lembra de nossos últimos Natais?" "Scully... Veja bem... Como é que nada de estranho aconteceu? Eu estou aqui, EU! Fox Mulder está comemorando a festa de Natal, comendo peru, bebendo vinho, confraternizando..." Scully sorri e posiciona-se em frente a Mulder. "É, Mulder... você tem razão mais uma vez..." "Eu sei disso." Os dois agentes estão agora encarando um ao outro sorrindo. Isso já aconteceu muitas outras vezes, mas ali... Ali tudo era diferente. Talvez contagiados pelo clima prosaico da festa, estão se olhando de uma forma diferente. Como duas pessoas normais, e não como dois colegas de trabalho. "Scully..." "Diga, Mulder." "Já que..." – olhando para o alto – "Já que você está reclamando pela falta de algo diferente, acho que podemos mudar esse quadro agora mesmo." "É? E o que seria isso?" Mulder nada diz. Apenas tira suas mãos do bolso, coloca-as no ombro de Scully, fazendo-a descruzar os braços. Ela não se surpreende com a ação de Mulder, tudo que acontecera naquela noite levaria àquilo, ela tinha certeza. Apenas olha-o e espera por cada gesto dele. Ele tomaria a iniciativa. Foi o que ele fez. Segurou as mãos dela, arqueou seu corpo, inclinou levemente sua cabeça para a direita, e como um imã, fez Scully avançar sua boca na dele. Soltando as mãos um do outro, se abraçam. Scully coloca seus braços por sobre os ombros dele, que por sua vez a abraça pela cintura, levantando-a do chão um pouco. O beijo se prolonga por alguns bons minutos, e quando se soltam não dizem nada. Têm a impressão de que se qualquer fonema fosse pronunciado ali, tudo se estragaria. E calam um ao outro com outro beijo, ainda mais forte, ainda mais quente e ainda mais longo. _________________________________________________________ "Prosaico Natal" Estória escrita por Mario Cavalcante