Esse é um conto, de ficção, que faz uso dos personagens magistralmente criados por Chris Carter, e não tem nenhum objetivo de obter lucro. Todos os direitos de Arquivo X pertencem a Fox.( como se ninguém soubesse...) Os outros nomes e lugares que aparecem neste texto são fictícios e qualquer semelhança terá sido mera coincidência... Dedicada às pessoas que me apresentaram a essa maneira de curtir Arquivo X, em especial a Késsia Nina, a Silvia Helena e a Clarissa ( que ainda encontrou tempo para me ajudar com toques super importantes para a coerência da história). Região remota da África 1228 D.C. A noite densa caiu sobre a floresta. O ar estava quente, e nem mesmo nas folhas das árvores podia-se perceber qualquer indício de brisa. Na clareira sagrada, o ritmo cadenciado dos tambores provocava nos homens uma sensação de estranho torpor, quase a perda dos sentidos...Dentro do grande círculo, as chamas avermelhadas da fogueira lançavam luzes místicas sobre os corpos brilhantes e fortes, que dançavam e assumiam contornos de lendas antigas, de deuses mais velhos que os céus.... Os ritos já duravam metade da noite quando o cansaço parecia unir-se à música e à dança, e a alma do grande sacerdote tornara-se pronta para ceder lugar às almas dos deuses, que precisavam de seu corpo, forte e bonito, para participar dos cantos de seu povo e entender os desejos por eles descritos. Foi então que ele viu a explosão de luz que encheu a clareira e paralisou a todos: os deuses haviam chegado! Seu corpo inerte foi içado ao ar, atado à luz como se ali existissem centenas de cordas invisíveis que o mantinham e o levavam cada vez mais alto, até que ele finalmente desapareceu na grande esfera brilhante ...Hoje os deuses não vieram participar do ritual.... eles o levaram! A verdade está lá fora Terra Brasilis Um conto de Alexandra P. Morgilli América do Sul, Brasil, 01/12/99 Salvador, Bahia Noite, praia de Maracatis Vivian Foster sabia que o calor que drenava sua vontade não seria aplacado com bebidas alcoólicas, que poderiam sim tornar seu corpo ainda mais desidratado. Contrariando as expectativas de seus colegas para uma noite de folga e descanso no litoral, a cientista de olhar incisivo e brilhantes cabelos vermelhos como o fogo, preferiu sentar-se na varanda de seu quarto de hotel e apreciar as ondas, que rebentavam tranqüilas contra a praia...e de onde podia observar a roda animada em que seus companheiros da equipe americana de pesquisas experimentavam agora os sons e sabores locais, regados é claro, com as fortes bebidas típicas daquele país quente e hospitaleiro. Por alguns instantes, ainda, seu pensamento tornou a fixar-se no trabalho, remontando as imagens desconexas que encontrara aquela semana no sítio arqueológico de Paraús. O que a intrigava, o que inquietava seus neurônios treinados ao trabalho acadêmico, eram as datas. Embora ainda não houvesse recebido do laboratório inglês as datações realizadas pela análise do carbono 14, seu instinto lhe dizia que haviam muitas incongruências entre os diversos artefatos encontrados. Entre os ossos que sua equipe fora chamada para pesquisar, aparentemente pré-históricos, foram encontrados também vestígios mais recentes, não de ossadas de índios das tribos sul- americanas litorâneas há muito dizimadas, mas de exemplares do homem africano, com sua grande estatura e força, talvez da época do início da colonização deste país, por volta de 1500dc. Até aí, tudo bem. O problema eram os adereços destes últimos. Vestimentas festivas, enfeites de rituais sumários e especiais, muitos dos quais não foram sequer estudados, por falta de história escrita sobre eles, ou de tradições perdidas no tempo. A colonização deste país se dera às custas de escravos trazidos da África, isso é claro, mas não explica os caros adornos e vestes rituais. Os escravos não eram trazidos com suas posses ou títulos tribais. Despojados de tudo, traziam apenas suas crenças e sua fé.... - Vivian, venha para a praia, vamos conhecer um local especial!- Os gritos animados vindos da praia despertaram-na de seus devaneios, e, por mais que o cansaço se manifestasse, decidiu que iria juntar-se a eles e relaxar: os resultados do laboratório se encarregariam de desfazer qualquer engano... Praia de Maracatis, 10 dias depois As buscas continuavam intensas, mesmo depois de quase uma semana da comunicação do desaparecimento da equipe americana de pesquisas. Tudo nesse caso era muito incomum e nem a policia local, nem os homens da polícia federal tinham explicação para o desaparecimento dos seis cidadãos estrangeiros. Não havia nenhum pedido de resgate, nem comunicado de barcos desaparecidos, nem de assalto ou qualquer tipo de problema. Eles simplesmente pareciam ter desaparecido em pleno ar, depois de uma noite de festas na praia do hotel. Foram vistos pela última vez rindo e brincando e algumas testemunhas lembram- se apenas de que eles exageraram um pouco na bebida, excetuando-se à mulher baixinha e ruiva, chamada de Dra. Foster, que parecia ser mais controlada. Mesmo ela, no final da noite, fora vista com o grupo, que parecia muito alegre. A polícia achava difícil que todos tivessem simplesmente se afogado. Contatos foram feitos com todos os aeroportos internacionais, como uma tentativa de descobrir se eles apenas tinham voltado para casa, mas isso também não revelou nenhuma pista da equipe. O sítio arqueológico permanecia da mesma maneira...pelo menos para os olhos de um leigo: poeira e ossos velhos, delimitados em pequenos quadros de escavação, de onde a terra havia sido retirada em camadas escalonadas, revelando o que poderiam ser momentos distintos da história humana.... - Delegado Dario! Delegado! O grupo de busca aéreo tem novidades! O senhor está sendo chamado no rádio- gritou o policial de dentro da viatura, parada a alguns metros dali. Seu coração passou por um momento de sobressalto. Desejava no fundo da alma que aquela gente estivesse apenas perdida em alguma das muitas praias desertas da região...mas temia que esta não fosse a verdade... Morro do poeta, entardecer O helicóptero pousou erguendo do solo uma grande nuvem de poeira e dele desceram os homens que chefiavam a operação de buscas, que correram meio abaixados até estarem fora do raio de ação das hélices da máquina barulhenta. Logo a frente, numa área de acesso mais difícil, um já desesperado delegado Dario pôde avistar seus homens, parados junto à borda do morro que dava para o mar, todos olhando para baixo, com expressões abatidas e horrorizadas... Aproximou-se ele mesmo da beirada, enquanto os homens saíam da frente para permitir-lhe a passagem. O que viu a seguir pois fim às suas esperanças de uma solução feliz para o caso: no platô de rocha dez metros abaixo, podia avistar, numa grande poça sangrenta, cinco corpos bastante lacerados e já servindo de atração para as aves carniceiras...Sentiu-se enjoar, enquanto era tomado por um sentimento de impotência e revolta. - Diabos! – disse ele, praguejando contra os céus. Em poucos instantes, porém, o homem recobrou seu senso de ordem, determinou quem desceria para resgatar os corpos e pediu a ajuda aérea para vasculhar novamente a área ao redor. Afinal, eram seis os desaparecidos e ali só haviam cinco corpos. Mergulhadores foram enviados para verificar a costa do Morro do Poeta. - Que lugar para uma tragédia- pensou ele, enquanto fitava um pôr do sol capaz de inspirar o mais racional dos homens e que sem dúvida, era o responsável pelo nome do morro. Alcançando o local onde estava o helicóptero, voltou seus pensamentos para os problemas que teria pela frente: precisava avisar ao gabinete do governador, para que fossem tomadas as medidas devidas em relação à embaixada americana. Olhando novamente para as fotos dos sorridentes estrangeiros em seu arquivo, enquanto sobrevoava a linda paisagem, hoje tão triste, não pôde deixar de sentir um aperto na garganta: o fim de quantos sonhos e descobertas...nas mãos de sabe-se lá que mente ou mentes doentias e sádicas... 15/12/99 16:00 horas Aeroporto de Salvador, Bahia, Brasil. No saguão do aeroporto, um homem alto, com alguns distintos fios de cabelos grisalhos nas têmporas, que lhe emprestavam um ar bastante confiável, envergava um sóbrio terno cinza e aguardava o desembarque do vôo de conexão de São Paulo, com um semblante que parecia estar entre a preocupação e a curiosidade. Nas mãos, uma placa improvisada com o nome do homem a quem tinha de esperar: Fox W. Mulder, agente especial do F.B.I.. Pessoalmente, achava excitante poder participar dessa investigação ao lado de um agente americano. Afinal, quem sabe o quanto sua escolha profissional não fora influenciada pelos filmes que mostravam as aventuras desses homens e que foram verdadeira febre na televisão durante a sua infância? Além de respeitado advogado e delegado cheio de responsabilidades, ele ainda tinha um espírito jovem e empolgado com o trabalho investigativo. Ainda era, como se diz no Brasil, um idealista, um sonhador. Entretanto, ele não podia esquecer-se de que aquele seria o mais delicado de todos os trabalhos de sua vida. Os fatos das últimas semanas já vinham firmando-se como os mais difíceis da sua carreira e o desfecho desse caso talvez não fosse nada corriqueiro. Enquanto estava ainda absorto em seus pensamentos, percebeu o homem alto e elegante que caminhava em sua direção, carregando uma maleta de mão e um olhar curioso: - Olá, eu sou o agente especial Fox Mulder, F.B.I. Acho que você está esperando por mim .... - Oh, claro, seja bem vindo, agente Mulder. - respondeu, sentindo-se apanhado de surpresa e tentando exercitar seu inglês da maneira mais sonora possível- Sou o delegado Sampaio, Dario Sampaio. Fui encarregado de recebê-lo e cuidar de sua estadia em nosso país. Serei seu contato com todas as fontes de informação que achar úteis para suas investigações. Amanhã bem cedo teremos uma reunião para deixá-lo ciente de todos os dados de que dispomos deste caso. Agora, vou levá-lo ao seu hotel, onde poderá descansar da viagem. - Claro, obrigado,- respondeu Mulder, analisando seu interlocutor enquanto o acompanhava até o carro oficial, ironicamente parado sob uma placa de proibição de estacionamento, e desejando ter o material em suas mãos o mais breve possível. Esperar não era algo que ele conseguisse fazer com facilidade. Talvez por isso estivesse ali, iniciando a investigação deste caso antes mesmo dele tornar-se oficial. Sabia que Scully cuidaria de tudo...ainda que , ele tinha certeza, ela ficasse furiosa com sua atitude. Durante os últimos anos, aprendera a antecipar os atos e pensamentos de sua parceira, sempre tão sistemática e fiel aos seus conceitos científicos e morais...e isso o deixava confortável e feliz, como se conhecê-la tão bem lhe fornecesse uma extensão de seu próprio corpo: confiava tanto nela quanto confiava em si mesmo e, em mais ninguém. Quarto de hotel,19:00, noite quente e enluarada Sobre a cama, papéis espalhados entre cascas e sementes de girassol. Mulder atende o telefone e ouve a telefonista lhe dizer que está completando sua ligação. - Obrigado,- ensaia ele em português. Em seguida, uma voz bastante familiar ecoa ao telefone: - Mulder, onde você está?- Seu tom era aflito, como ele imaginara- - No Brasil- a resposta curta teve uma pitada de provocação... - Isso eu acabei de descobrir ao atender a ligação!. Mulder você sabe que essa viagem é altamente irregular e .... - Ouça Scully- ele a interrompeu delicadamente - há algo muito errado aqui e eu não vou atrasar mais ainda esta investigação por causa dos burocratas. A polícia local me recebeu muito bem e mostrou-se ansiosa por tornar meu trabalho frutífero. Eu não pretendo causar nenhum incidente internacional...Além disso, eles iriam mesmo nos designar para este caso... - É, iriam. Agora estão furiosos conosco. Estou tentando convencê-los de que sua intenção era de apenas ambientar-se melhor com o país, antes de iniciar a investigação para a qual você ainda não está autorizado- e pronunciou pausadamente as três últimas palavras- - O.k. Scully, eu sabia que você daria um jeito em tudo. Agora tente resolver tudo isso o quanto antes. Preciso de você aqui. - Mulder, eu ainda não sei se nós teremos um emprego... - Não seja pessimista, Scully. Depois de tudo que conhecemos e vimos, nós sempre poderemos escrever roteiros para o cinema... - Certo, cinema.- assentiu ela, em parte vencida pelo humor de seu parceiro, em parte reconfortada pela certeza de suas boas intenções. - Cuide- se - continuou ela, naquele tom de "ouça a sua médica, parceira, amiga..." - e não arranje encrencas antes disso tornar-se oficial. Lembre-se, estou muito longe para salvá-lo. - Claro, doutora. Voltamos a nos falar logo mais. 16/12/99 8:00 horas Washington sede do F.B.I. Sala do Diretor Assistente Walter Skinner - Agente Scully, sente-se. Eu a chamei aqui para fazer uma pergunta bastante simples: onde está o seu parceiro? Ou melhor, com ordem de quem ele iniciou esta investigação? Você está fazendo parte disso? Dana sabia que seu superior tinha motivos reais para estar furioso. Na verdade, ela mesma havia ficado furiosa ao encontrar o bilhete, nada esclarecedor, de Mulder em sua mesa, dizendo apenas que telefonaria depois. Mulder tinha o péssimo hábito de deixá-la no escuro enquanto desconsiderava todo o protocolo do Bureau. Pior que isso, ele sempre esperava que ela conseguisse endireitar as coisas e isso às vezes ficava bem difícil....Agora, ela deveria agir com toda cautela e seriedade: - Senhor, o agente Mulder partiu para o Brasil ontem à noite. Seu objetivo é claro e não comprometerá a investigação oficial do caso. Ele está tomando pé da situação enquanto cuido dos trâmites legais aqui no Bureau. Nós somos uma equipe e estamos trabalhando como tal... O homem, que até então parecia carrancudo, assumiu uma feição preocupada e séria. Levantando-se de sua cadeira, contornou a mesa e sentou-se em sua ponta, mais próximo da mulher que o fitava com olhos azuis repletos de embaraço diante da reprimenda que ele lhe aplicava: -Dana,- falou usando seu primeiro nome, o que ele só fazia quando precisava de uma aproximação mais pessoal - você sabe o que eu faço para proteger o trabalho de vocês. Não me deixem sem argumentos. Um dia eu posso não conseguir. Ela sentiu-se como quando desapontava seus pais por algum motivo, um estranho constrangimento, mesmo sabendo que não fora ela a autora da "travessura". Afinal, Mulder era seu parceiro há tantos anos e ela já vivera tantas coisas a seu lado, que assumia suas atitudes como responsabilidade dela mesma. E era assim que tinha de ser...Respondeu, então, a seu superior apenas com um olhar de quem agradecia a sincera preocupação. - Consiga todos os papéis necessários antes de juntar-se a ele. É só, agente Scully -. Skinner voltou a sua postura usual, sentando-se novamente atrás de sua mesa e recolocando os óculos, que retirara ao aproximar-se de Scully. - Sim, senhor e, obrigada...- Virou-se e saiu, aliviada, mas ainda desejando matar Mulder. Já do lado de fora da sala, parou e riu de si mesma. Mulder tinha tanta certeza de que ela sempre explicaria tudo...Talvez ela mesma devesse agir como ele...- Pensou melhor -...não, isso mudaria a química que, como ela já comprovara quase cientificamente, funcionava tão bem.... 17/12/99 Vôo American airlines, 13:10 hora de Washington - A senhorita aceita almoçar agora?- Uma voz gentil a tirou da leitura que já durava mais de duas horas- Sim, claro, obrigada- agradeceu e arrumou na pequena pasta todas as folhas do relatório que Mulder havia lhe enviado na noite anterior. Concentrou-se então na bandeja cheia de potinhos que a comissária colocou na sua frente - Comida de avião - pensou quase em voz alta - comida de hotel, comida de lanchonetes suspeitas de beira de estrada.- Sua vida estava repleta de imagens e sabores passageiros, de lugares diferentes, de estradas e aeroportos. Sentia-se nômade, uma cigana dos tempos modernos , talvez com apenas um pouco mais de classe e conforto. Sua família nunca entendeu porque uma médica formada e bacharel em física submetia-se a essa vida, mas respeitavam-na o suficiente para não questioná-la sobre isso. Exceto Bill, que às vezes tentava fazer valer o papel de irmão mais velho e acabava por provocar em Dana a velha sensação de desconforto em relação a figuras autoritárias. Sentira-se assim em relação a Mulder uma vez, numa época difícil da sua vida, quando tudo repentinamente pareceu tornar-se tão injusto....Sabia, lá no fundo, que aquela crise fora despertada pelo seu crítico estado de saúde. Mas houve algum motivo maior para seus sentimentos em relação a Mulder....e isso ainda não havia conseguido racionalizar. Talvez estivesse inconscientemente evitando pensar sobre isso, chegar ao cerne ....assumir alguma postura real. Tinha de reconhecer, lidava muito bem com tudo aquilo que conseguisse entender e explicar, mas seus próprios sentimentos não estavam exatamente nesta categoria... Instituto médico legal Campinas, São Paulo 19:00 horas/hora local Mulder estacionou o carro alugado, de um modelo relativamente antigo e que já vira em seu país com o irônico nome de Fox, e desceu rapidamente, chegando em instantes à administração do Instituto Médico Legal da cidade, ligado ao Campus Universitário. Logo ao entrar, já pôde ouvir o som distinto de uma discussão em seu próprio idioma, o que indicava, sem sombra de dúvidas, que sua parceira não só já havia chegado, como estava tendo problemas e...estava bastante irritada também. - Não é possível, deve estar havendo um grande engano aqui. Eu sou a agente especial Dana K. Scully, FBI, EUA e tenho autoridade sobre os corpos destes cidadãos americanos, conforme pode confirmar nestes papéis da embaixada e do governo do estado da Bahia, que foi quem os encaminhou para cá. Preciso realizar a autópsia para dar prosseguimento à investigação.... - Sinto muito senhora. – explicava o jovem soldado responsável pelo acesso - Tenho ordens expressas. Sua entrada somente será autorizada com a presença do Diretor do Instituto. Ainda assim, precisarei verificar suas credenciais. O memorando que recebi diz Dr. ª Catarina Scully .... - Você não entende! Sou a Dr.ª Dana Katherine Scully, houve algum erro de grafia, e... - Sinto muito, a senhora tem de esperar – sentenciou o militar Parado junto à soleira da porta, por instantes Mulder deixou- se levar por uma mistura de curiosidade e admiração. O que a fazia ter um desejo tão sincero pela verdade? De uma certa maneira, ele sentia que trabalhava em causa própria, movido por uma paixão pessoal, que envolvia sua irmã desaparecida e o tornava um homem obcecado. E ela? O que fazia aquela mulher defender como uma leoa a busca de uma verdade que ele sempre julgara como apenas sua? - Mulder! - O chamado familiar o trouxe de volta do transe introspectivo em que se colocara. - Scully, o que está acontecendo aqui? Achei que a encontraria na sala de autópsias, já com alguns resultados!- cortou a parte das perguntas habituais sobre "como foi a viagem". O espírito da parceira não estava para amenidades. - "Algo" está acontecendo aqui, Mulder. Eles nos estão negando acesso às provas, usando argumentos estúpidos e burocráticos para isso! Alguém grafou errado o meu nome do meio e isto parece ter cancelado todas as autorizações que havíamos obtido. Eles não entendem o que digo! Estou enlouquecendo aqui! – ela estava realmente irritada... - Dra. Scully, Sr. Mulder! Desculpem o embaraço... – o som familiar do inglês soou como um sinal de alívio para os dois agentes, que imediatamente voltaram-se para ver quem se aproximava – Dr. Barin Palhares - apresentou-se o homem de barba bem cuidada e olhar perspicaz. Scully corou ao perceber que sua expectativa de solução rapidamente transformara-se na explicação real para tantos embaraços burocráticos. Esse era o homem a quem pretendia desmascarar e muito provavelmente era também o responsável pelas confusões que só tiveram o objetivo de distraí-la e atrasá- la . - Dr. Barin - ela tomou a iniciativa de falar com o médico e considerou que a melhor abordagem seria a de manter a relação que seu interlocutor já iniciara, ao chamá-la pelo título – Como o senhor parece já saber, sou a Dr.a Scully, Dana Katherine Scully. Somos agentes do F.B.I. e este é o agente especial Fox Mulder. Estamos aqui...- então ela foi interrompida pelo homem, que estampava um grande sorriso na face. E ele parecia tranqüilo demais, pensou ela. - Eu já estou ciente de todos os fatos, bem como da importância do seu trabalho neste caso tão triste.- parecia o mais amistoso e atencioso dos homens...- Quanto ao senhor Mulder, devo confessar que já o conhecia pela fama... - Que fama? - dessa vez quem interrompeu foi Mulder, assustado pela velocidade e alcance dos boatos que cercavam sua existência... - Ora, senhor Mulder, não se faça de modesto!- seu ar era de admiração sincera - Sabe, há alguns anos, tivemos aqui um caso de " folie a deux" se é que podemos usar esta expressão, quando a população de uma cidade do interior do estado de Minas Gerais acreditou estar tendo contato com "homenzinhos verdes"... Na época, o governo mineiro cogitou seu nome para tentar esclarecer os fatos e acalmar a população. Felizmente, tudo se resolveu muito rapidamente, e não foi necessário incomodá-lo. O senhor é tido como autoridade no assunto.. - Pena não nos terem chamado...talvez hoje estivéssemos aqui autopsiando um marciano...- Mulder não pôde deixar de ser ácido, ao ouvir tão simplificada versão do famoso caso Varginha. - Bom, quero inicialmente pedir desculpas pelo embaraço. A segurança aqui precisa ser rígida por motivos que estão além da nossa capacidade de solução. - Por que a segurança é feita pelo exército? Pensei que eram instalações civis - Scully aproveitou para esclarecer a questão que a estava incomodando. - O Instituto Médico Legal de Campinas também é utilizado para guardar drogas apreendidas pela polícia federal. Assim, colocam nossa equipe em risco constante e transformam o instituto em alvo de traficantes. Depois de muitos protestos, um modesto contigente do exercito foi destacado para dar segurança ao prédio. - Não entendo,- Scully respondeu com ar cético - Drogas apreendidas são provas de crimes mas não são objeto de estudo da patologia forense. Qual relação com o Instituto, se nem ao menos é um lugar seguro? - Ah, senhorita Scully,- deixou de chamá-la pelo título e assumiu um ar enigmático - as respostas lógicas e racionais nem sempre explicam as decisões tomadas em algumas esferas governamentais deste país... - Parece uma epidemia global - brincou Mulder, enquanto recebia um discreto cutucão nas costelas, de uma certa agente ruiva que estava ansiosa para ter acesso aos corpos dos cidadãos americanos, e queria encurtar a conversa. - Creio que nos deixará trabalhar agora, não é Dr. Barin? - Scully inquiriu-o sem deixar muito espaço pra dúvidas quanto às suas intenções. - Por certo, Dra. Scully. Por favor, acompanhem-me enquanto mostro as instalações e a sala que estará a sua disposição... Munidos dos devidos crachás com seus nomes, exceto o de Scully, que trazia o nome de Dra. Catarina Scully, mesmo depois de mais meia hora de diálogos truncados com o soldado que substituíra o anterior no controle de acessos restritos do instituto, eles seguiram um "calmo demais" Dr. Barin pelos corredores, até chegarem à sala da morgue. Consultando sua prancheta cheia papéis, o homem ordenou a seus assistentes que abrissem a gaveta n° 36, onde encontrariam o corpo do - Sr. Scoth Blesson, 34 anos, especialista em cultura primitiva da América - Com o olhar perdido na leitura dos dados na folha de papel, o homem não percebeu os rostos espantados que fitavam a gaveta que acabara de ser aberta. - Parece que o senhor cometeu um engano, Dr.- consultou-o com ar temeroso um dos assistentes, mostrando a gaveta vazia. - Espero que seja apenas um engano- emendou Scully, já desconfiando do pior. - Como é Possível? Eu mesmo verifiquei esta manhã - o homem pareceu surpreso - abram as outras, 37, 38, 39 e 40! - ordenou ele num tom menos gentil que o que mantinha até então. Uma a uma, as gavetas foram abertas e revelaram estar vazias, assim como a primeira. Seguiu-se uma grande confusão no Instituto, com soldados vasculhando todos os cantos onde fosse possível esconder um corpo. Nada foi encontrado, mas um dos caminhões funerários também sumira. Horas depois, o clima geral era de surpresa e colaboração, mas os dois agentes não pareciam muito convencidos do que era ou não real em toda aquela situação. - Dr. Barin, esperaremos um contato seu assim que encontre uma resposta para tudo isso...por enquanto, nós vamos procurar algumas respostas em outro lugar - Mulder não amenizou nem um pouco a expressão de desconfiança ao despedir-se do médico. Saíram caminhando a passos rápidos. No carro, Scully trazia ainda aquela expressão de indignação contida, com uma das sobrancelhas erguida em sinal de perplexidade e inconformismo com a grande farsa que acabara de presenciar. - Mulder, é óbvio que este homem sumiu com os corpos. É por causa dos laudos vagos e imprecisos dele que fui enviada para fazer as necrópsias. Suas afirmações são absurdas até a raiz e é inaceitável que alguém acredite em acidente nesse caso...Mulder, ele nos fez de idiotas...primeiro me impediu de entrar, provavelmente enquanto seus cúmplices sumiam com os corpos, depois usou aquele ar de "bom doutor" para nos manter aqui enquanto as pistas esfriavam...Esses pesquisadores foram assassinados e eles estão encobrindo as provas, para que todos acreditem em um incrível acidente causado pelo excesso de bebida ou de felicidade, sei lá ...é tudo tão burlesco que parece ficção... Talvez eles tenham esbarrado acidentalmente numa coisa que não deveriam saber...os traficantes parecem ter grande poder aqui e há até parlamentares sob investigação no país... - Scully,- iniciou Mulder, que dirigia com a atenção dividida entre o caminho e sua indignada parceira - acho que há algo mais aqui do um grupo de civis estrangeiros esbarrando numa fortaleza de refino de drogas ou coisa do gênero - ele compreendia a indignação da parceira, e também sabia as opiniões dela sobre suas próprias teorias, por isso precisava falar com cautela - Esse médico legista, o Dr. Barin, é um homem comprometido com algo mais obscuro do que o narcotráfico. Lembra-se do caso que ele nos narrou de maneira tão "singela" lá no instituto? - O tal caso de histeria coletiva, ou loucura compartilhada da cidade mineira? - seu tom, agora já desprovido de qualquer irritação, era o de quem já previa o desenrolar da conversa... - Não existe essa coisa de loucura compartilhada, Scully, pelo menos não nesse caso. Ouça, há dezenas de testemunhas e todas elas dizem a mesma coisa: a criatura foi recolhida pelos militares e enviada para - ele fez uma pausa provocativa - adivinhe, Scully... - Para Campinas? Para o Instituto? Céus, eles guardam mesmo de tudo lá...- agora era ela quem estava sendo irônica. - Para Campinas, sim, mas não ao Instituto. Reparou no tamanho das instalações? O Instituto é ligado ao Campus Universitário...laboratórios equipados...cientistas...não parece uma combinação excelente? Esse é o real motivo dos militares estarem guardando todo o local. E agora a pergunta de US$ 1.000.000,00, Scully: qual é o nome que aparece ligado a todas essas operações? - Não me diga que...é o nosso suspeito? O Dr. Barin? - Sua expressão evidenciava exaustão, mas ainda assim, ela procurou em sua mente uma maneira de deixar claro que não desprezava a teoria do parceiro, apenas achava que havia mais evidências apontando para outra direção - Mulder, você parece preferir sempre ignorar o perigo real e palpável para temer o desconhecido...eu também fiz minha lição de casa. Na recente onda de investigações que parecem estar sendo realizadas em todo o país, o nome do nosso bom Dr. aparece ligado ao acobertamento de uma série crimes de grande importância política, que envolvem a disputa pelo poder deste país e que podem relacionar muitas pessoas importantes ao narcotráfico internacional. Eles usaram sua fama e reputação internacional para validar laudos que contariam as histórias convenientes e não a verdade. Os crimes desse homem, apesar de gravíssimos, são bastante "terrenos" e o envolvimento dele no caso das mortes dos pesquisadores americanos já é o suficiente para tornar esse caso sujo e escorregadio...não precisamos mais de nenhum ingrediente secreto, Mulder...- os olhos azuis o fitavam, implorando para que ele fosse razoável, e enxergasse também o óbvio, não apenas a parte complexa e intangível de tudo. - É, Scully, parece que nossas teorias são diferentes, mas numa coisa concordamos... - Esse homem é o nosso ingresso para a solução deste caso - ela completou a frase do parceiro com um sorriso triste, que denotava o quanto essa sujeira toda mexia com seu senso de justiça, mas que sentia-se reconfortada por estar com ele ali...podendo fazer com que esses crimes tivessem um destino diferente... Os dois prosseguiram em silêncio o resto do trajeto, mas sentiam-se estranhamente tranqüilos, como que aliviados por saberem exatamente o que cada um pensava e que mesmo na diferença, complementavam-se. Mulder não costumava "dar o braço a torcer", mas praticamente sorria, sentindo-se seguro ao lado da parceira, que estava sempre ali, para trazê-lo de volta a terra quando seu cérebro o levava muito distante da razão. Quarto de hotel, 20:00 horas Mal tivera tempo de abrir suas malas e tentar iniciar um merecido banho na pequena, mas convidativa, banheira de sua suíte de hotel quando as batidas na porta do quarto a trouxeram de volta ao trabalho. Deixou o banheiro enrolando-se numa toalha – onde estaria o maldito roupão? – praguejou mais como um reflexo de seu estado de espírito do que pela real necessidade da peça – É você, Mulder? - Talvez eu não seja eu, Scully. Você mesma disse isso uma vez, lembra? Ela suspirou antes de abrir a porta, sem saber se ria da piada ou assustava-se com a lembrança daquela fatídica expedição gelada, quando apontara uma arma para o parceiro pela primeira vez...- o que aconteceu Mulder? eu estava começando o banho...- ela parou repentinamente a frase quando seus olhos cruzaram-se com os de Mulder, que indiscretamente pareciam fixos nas partes de seu corpo não protegidas pela toalha - Mulder, está me ouvindo? - Claro Scully, é que, bem...- ele pareceu ficar bastante embaraçado, mas continuou hipnotizado pela imagem da parceira ...- é que temos uma autópsia a realizar. Encontraram o corpo da Dr.a Foster, há poucas horas. O mais incrível é o lugar onde ela foi encontrada... - Onde encontraram o corpo? - Dentro do hospital universitário...- ele fez uma pausa, como se quisesse prepará-la para algo ainda pior - Na verdade ela foi encontrada ainda com vida, em coma, dentro do hospital...- ele sabia que isso traria lembranças desagradáveis e tocou seu ombro como sinal de amparo. - Da mesma maneira que me encontraram, depois da minha abdução? - seus olhos estavam suportando lágrimas teimosas e ela tentava controlar as emoções despertas pelas lembranças. - Só que a Dr.a Foster não resistiu. Faleceu minutos depois que os médicos deram por sua presença no hospital e tentaram descobrir o que acontecera com ela. Como aconteceu com você, não há nenhum registro de sua admissão no hospital, nem de quem a trouxe. Sei o quanto isso mexe com você, Scully. Na verdade mexe comigo também...é como se os mesmos malditos que fizeram aquilo com você estivessem agora nos observando e rindo de nós, enquanto tateamos no escuro... - Vou me vestir, encontro você no saguão... - Espero você no restaurante do hotel. Merecemos comer alguma coisa antes de iniciar mais uma noite de trabalho. – ele queria dar um tempo a ela, para que se recuperasse. Cabine telefônica, em frente ao hotel, 23:40 h - Frohike, sou eu, o Mulder...desligue os gravadores - Mulder já sabia que ele não o faria, mas já era quase uma tradição que suas ligações começassem assim - Preciso de informações sobre operações do governo brasileiro envolvendo rastreamento aéreo, radares, satélites, o que você puder conseguir. - Você está numa linha segura? - Estou num telefone público, perto do hotel. Acho que podemos falar . - Bem, parece que nosso governo andou bastante interessado num projeto recente do governo brasileiro, que envolvia uma complexa rede de monitoramento da Amazônia. Não tenho todas as informações aqui, mas tenho o nome de um contato nosso em Brasília, que talvez possa ajudá-lo. Enviarei um e-mail para você assim que conseguir estabelecer um canal para que vocês se comuniquem. - Como sujeitos tão esquisitos como vocês conseguem ter contatos em todos os lugares? - Mulder sabia o quanto podia confiar nos "pistoleiros solitários" mas outra coisa que sabia é o quanto adorava provocá-los... - Você deveria participar das nossas discussões na Internet...assim teria algum tipo de vida social... - Tchau Frohike...- Mulder encerrou a conversa. Definitivamente, não sentia-se muito bem. Instituto médico legal- 23:44h Era tarde da noite e o silêncio tornava-se estranhamente perturbador, dentro daquela enorme sala de autópsias. Com certeza, a fama que aquele instituto conquistara ao longo dos anos havia garantido verbas suficientes para manter as instalações em ótimo estado e adquirir bons equipamentos. Na verdade, Scully não estava perturbada pelo silêncio, mas pelo corpo a sua frente. Aquela mulher, cujo olhar inteligente se fez notar em todas as fotos que vira e que agora jazia ali, talvez vítima dos mesmos homens que também haviam tirado uma parte de sua própria vida. Mais perturbadora ainda, era a incrível semelhança física que reconhecia entre ela mesma e a Dra. Foster. Sentiu um grande mal-estar, uma tristeza incomum para uma médica treinada para perscrutar a morte. Sentia como se aquele fosse um reflexo de sua própria vida: lera em seus arquivos que Vivian Foster tinha 35 anos, não era casada, nem tinha filhos. Quem sabe apenas um relacionamento eternamente protelado, em nome do trabalho, no qual parecia ser brilhante e bastante reconhecida. Uma cientista que, imaginou ela, esperava viver o bastante para cuidar do trabalho e um dia ainda ter tempo para uma família...filhos....Algo que fora tirado das duas, de maneiras diferentes. Vivian estava morta. Scully, apenas sentia-se meio-morta. Livrando- se de seus pensamentos, Scully volto-se para a mesa de exames, ligou o gravador, calçou as luvas cirúrgicas, que Mulder brincava dizendo serem um item da sua personalidade, sorriu levemente ao lembrar-se dele. Insistira, como sua médica, para que ele ficasse no hotel e aproveitasse o tempo para pesquisar algumas coisas sobre as quais conversaram durante o nefasto jantar. E o proibira de experimentar comidas exóticas para sempre. - A vítima - começou, voltando sua mente novamente para o trabalho - é uma mulher branca,35 anos,1,55m, pesando cerca de 50 quilos. Vou iniciar com uma incisão em y.- Foi só então que percebeu que não estava sozinha na sala..., virou-se a tempo de ver um vulto em trajes cirúrgicos, segurando uma seringa nas mãos enluvadas, os olhos frios por trás da máscara a fitavam em silêncio. Antes que ela tivesse chance de procurar sua arma, o homem pulara sobre ela, lançando-a contra a porta de aço da morgue, com um violento golpe. Scully caiu trazendo com ela todos os pequenos vidros reservados para coleta de amostras, que espatifaram-se no chão. Totalmente zonza, com um corte sangrando na testa, Scully pôde apenas assistir, enquanto seu agressor tomava seu braço esquerdo e lhe aplicava o conteúdo da seringa ...e então, o mundo começou a esmaecer... Quarto de Fox Mulder - 3:10 h Mulder acordou num sobressalto, com o coração acelerado e transpirando em bicas. Tivera novamente o mesmo pesadelo que o perseguia há anos, desde o desaparecimento de Samantha. Levantou-se, ainda ofegante e assustado, foi até a pequena geladeira do quarto e abriu uma caixa de suco de laranja. Scully insistira para que ele descansasse, enquanto ela faria a autópsia da Dra. Foster Ele havia protestado um pouco, mas por fim admitira que o calor e a feijoada que haviam jantado (ele comeu como um condenado, enquanto Scully contentou-se em apenas petiscar) o estavam "matando". Sentou- se no pequeno sofá, perto da janela, olhou para o relógio e pensou se era muito tarde para incomodar Scully. Era. A parceira devia estar cansada, afinal, estava trabalhando enquanto ele dormia porque agira como um novato que não sabe que deve-se ter cautela com comidas com as quais o organismo não está acostumado. - O que será que ela descobriu? - Seu cérebro martelava com a expectativa do que Scully tinha a dizer sobre o caso. _ É tarde, deixe-a descansar! - disse em voz alta para si mesmo numa última tentativa de convencer- se. - Telefonista....quarto 1512, por favor – Não resistiu, afinal. - Ninguém responde, Sr. Mulder.- foi a resposta depois de alguns minutos. - Sei, está bem...obrigado - ele respondeu reticente, enquanto uma nuvem cinzenta formava-se rapidamente em sua mente. Tentou imediatamente o celular, e recebeu a mensagem já esperada de que o número chamado encontrava-se fora de área. Enfiou-se rapidamente nos jeans e camiseta - Já que vou invadir o quarto dela no meio da noite mais uma vez, é melhor que eu me vista- pensou, enquanto calçava os sapatos ,já em pé, junto a porta do quarto. Diante da porta do 1512, bateu e chamou por Scully, numa última esperança de ela apenas estivesse em sono pesado. Nada, nenhuma resposta. Vasculhando os bolsos, tirou o jogo de chaves mestras com o qual rapidamente conseguiu girar a fechadura. Entrou devagar, acendeu as luzes. Não queria tomar um tiro da parceira, confundido com um invasor. Chamou uma, duas, três vezes. Nada. No quarto, viu a mala aberta sobre a cama, algumas roupas nos cabides. Olhou o banheiro, onde tudo o que encontrou foi a água do banho que ele mesmo interrompera horas atrás e a toalha, da qual lembrava-se bem. Um sentimento crescente de pânico lhe subiu pelas pernas, deixando-as meio moles ...o cérebro processando milhares de informações naquele instante. Saiu em disparada, passando pela portaria do hotel e pediu seu carro a um sonolento, mas solícito manobrista. - O Instituto, ela deve estar no Instituto, realizando mais testes.- repetia em voz alta, mais uma vez tentando convencer mais a si mesmo do que constatar algo. Estacionou mal e subiu correndo as escadas do instituto, dois degraus de cada vez. A grande porta de ferro estava fechada e um soldado armado que fazia guarda lá dentro aproximou-se pedindo sua identificação imediata. Mulder sabia que sua credencial do FBI não teria o mesmo efeito ali do que em seu país, mas tentou mesmo assim. - Fox Mulder, FBI, em investigação oficial. Abra por favor, preciso saber se a Dra. Scully ainda está aí, realizando testes. O homem fardado aproximou-se e Mulder sentiu um grande alívio ao reconhecer o soldado teimoso do dia anterior. Pelo menos, sabia de quem ele estava falando. A porta se abriu e o soldado consultou uma listagem, que trazia presa à prancheta. - Quando recebi o turno, a sala 13 estava designada para a Dra. Scully. Não registrei sua saída. Ela deve estar lá. - Preciso vê-la - o tom de voz era aflito - Seu passe ainda é válido. Preciso apenas da sua assinatura aqui e aqui - indicou o jovem soldado, contrariando as expectativas negativas de Mulder, que já preparava-se para correr em disparada porta adentro. Começou caminhando a passos rápidos e acabou correndo pelos corredores, ansiando encontrar a parceira apenas empenhada em seu trabalho a ponto de esquecer-se da hora... Abriu a porta, já esperando a cara de susto de Scully, mas deparou-se com a sala vazia. Repetiu então a mesma seqüência que já realizara no quarto de hotel. Chamou, abriu portas de salas contíguas , verificou o vestiário. Neste, encontrou um par de sapatos, pretos, pequenos. Scully costumava trocar os sapatos por um par de tênis, quando trabalhava numa autópsia. Um nó voltou a formar-se em sua garganta, enquanto retornava à sala principal, agora para procurar pistas.... No chão, embaixo da grande mesa de aço inoxidável, encontrou o gravador onde Scully registrava suas observações durante o procedimento para elaborar o relatório posteriormente. A fita fora removida. A próxima descoberta, entretanto, foi aterradora e tornou novamente reais seus pesadelos: manchas de sangue salpicavam o chão junto a porta da morgue e tubos e vidros quebrados indicavam que ali havia acontecido uma luta e que....Scully estava ferida! Minutos depois, o soldado da portaria bradava em vão pela porta, implorando a um desesperado Fox Mulder que assinasse o registro de saída...mas ele já chegara ao carro, e a arrancada violenta fez cantar os pneus. 18/12/99 6:00 h Mulder entrara em contato com o escritório central em Washington, que já estava tomando providências junto à embaixada e ao governo brasileiro. A policia federal e as polícias locais de todos os estados estavam em alerta. O desaparecimento de uma agente do FBI não figurava entre os itens da lista de bom relacionamento entre os países. O clima era de polvorosa. Enquanto isso, ele precisava continuar tentando tudo o que pudesse imaginar para tentar encontrar Scully. Usando o computador da biblioteca da universidade, Mulder acessou seu e- mail. A mensagem era curta e trazia apenas um endereço virtual e o nome código do contato : Agente K.N. Recostando-se então à cadeira e tentando encontrar uma posição menos tensa, Mulder iniciou sua caça por informações, esperando que aquele contato lhe desse um ponto de partida, não mais para resolver o caso, mas para encontrar Scully...era tudo o que importava agora...tudo. A tela iluminou-se, e o endereço eletrônico revelou um endereço real, uma data e um horário. Fox desligou imediatamente e seguiu para o aeroporto, usando ainda as mesmas roupas que vestira às pressas de madrugada. Brasília, DF 15:00h Praça do Três Poderes O ar seco do cerrado enchia seus pulmões e o calor o fazia agradecer por não ter tido tempo de vestir seu terno e gravata habituais. Era difícil não ficar impressionado com a grandiosidade arquitetônica daquele lugar. Uma cidade mais jovem que muitos de seus habitantes e que servia de cenário para os conturbados jogos políticos daquele país. Seguindo as orientações que recebera, entrou na grande catedral, onde anjos suspensos contra a luz que entrava pelos vitrais o fizeram parar e pensar em Scully mais uma vez. Depois, fez o que seu contato indicara e entrou discretamente no confessionário, do lado reservado ao sacerdote. Minutos depois, alguém entrava no outro compartimento. Naquele momento, ele "pediu a Deus" para que não fosse uma fiel disposta a confessar-se... - Sr. Mulder? – a voz era tranqüila e pertencia a alguém bastante jovem. - Sim, e você é K.N., eu suponho. - Consegui as informações que solicitou. Estão num disquete, sob a caixa de contribuições, na entrada. - Há um fato novo. Minha parceira...ela desapareceu, foi levada enquanto realizava a autópsia de uma cientista americana... - Os homens que criaram toda esta operação são muito perigosos e estão desesperados. Se sua parceira realizasse a autópsia descobriria o que eles não querem que ninguém saiba...Entretanto, acredito que não farão nada com ela sem as devidas autorizações dos homens que realmente estão no comando...e estes, Sr. Mulder, acho que já a conhecem muito bem. - O que eles estão acobertando aqui? É algo muito mais sujo do que narcotráfico internacional, não é? No que foi que aqueles pesquisadores esbarraram? - Calma... . Se eu tivesse todas essas informações, talvez já estivesse morta...mas, no disquete, encontrará algumas respostas. Depois, faça sua parte e ligue os pontos... - Por que está me ajudando, se isso coloca sua vida em risco? - Sou uma grande admiradora do seu trabalho, Sr. Mulder. E de sua parceira, a agente Scully. E não estou sozinha. Esperamos que a encontre, e rápido. - Como isso é possível? Nosso trabalho, em sua totalidade, é sigiloso e quase nunca saímos dos Estados Unidos. - Não subestime a capacidade e a velocidade da circulação da informação, agente Mulder. Ela está mudando o tamanho do mundo, acredite. Agora, precisa apressar-se... – com essa frase, a garota deixou claro que o encontro terminara. - Agradeço por sua ajuda – disse Mulder enquanto já ia deixando o cubículo, para apanhar o disquete. Então, ouviu uma última e intrigante afirmação: - Só mais uma coisa, agente Mulder, de caráter pessoal... quanto à agente Scully. Nós sabemos o que ela significa para você.- Ela não falava mais com o agente, falava com o homem - e talvez saibamos com uma clareza que nem mesmo você percebeu ainda. Mas vai perceber...em breve. Adeus Sr. Mulder. – a formalidade retornou apenas na despedida. Mulder deixou que a jovem se afastasse. Seus pensamentos vagavam pelas últimas palavras daquela estranha. Será que a Internet já havia lançado conexões até mesmo dentro de seu peito? Estaria ele tão exposto, ao ponto de transparecer a estranhos, sentimentos que até a ele mesmo continuam ocultos?. Uma lágrima rolou pela sua face, enquanto cerrava o punho num esforço de conter o choro que sentia brotar com violência.- Não era hora de chorar. Precisava encontrar Scully...precisava encontrar Dana... Agreste, tarde quente, mês de dezembro Lentamente, Scully recobrou os sentidos. Sentia seus braços dormentes, presos atrás das costas. Estava deitada no chão de um pequeno e sujo cômodo de madeira e pela luminosidade que passava pelas frestas e o ar sufocantemente quente , concluiu que era dia claro e o sol estava a pino. Não conseguiu definir quanto tempo se passara desde o momento em que fora atacada, mas estava com muita sede e podia sentir um gosto forte de sangue em sua boca. Numa rápida avaliação de suas condições, não percebeu nenhum ferimento mais grave. Por certo, aquele gosto horrível fora causado por algum corte ou escoriação em seu rosto, cujo sangue lhe chegara aos lábios ...- com certeza não devo estar com minha melhor aparência - brincou ironicamente consigo mesma, enquanto tentava levantar-se e explorar seu cativeiro. Foi então que percebeu o quanto estava debilitada: seu corpo doía terrivelmente e sua primeira tentativa de erguer-se resultou num tombo doloroso. Momentos depois, conseguiu colocar-se em pé e tentou encontrar a porta daquele lugar. Embora tudo fosse muito velho e com cara de estar prestes a desabar, a porta fora reforçada com tábuas novas e parecia bastante firme. Aquelas pareciam ser as instalações de um antigo matadouro, ou algo do gênero. No chão, uma grande pilha de carne animal ressecada, garantia ao ambiente um fedor insuportável. Encostou-se junto a uma das frestas, tentando enxergar alguém ou algum sinal de seus captores. Tudo o que viu foi um galpão distante cerca de cinqüenta metros, com dois carros e um caminhão parado junto à entrada. Um caminhão com uma inscrição nas portas do baú: "IML Campinas" Interior do Galpão O homem em pé não estava nada contente. Parado, junto a janela, fazia subir pequenas serpentes de fumaça pelo ar, enquanto tragava em silêncio o cigarro que acendera no mesmo instante em que entrou porta adentro. Os outros dois, sentados em cadeiras de madeira tosca, entreolhavam-se preocupados. Um deles, com uma mão apoiando o queixo, parecia sustentar o peso do mundo no único cotovelo que tocava a mesa postada no centro da sala. Quebrando repentinamente o denso silêncio, o homem em pé lançou o cigarro ao chão e pisou sobre ele enquanto acendia outro e parecia pronto para falar: - Muito bem, Dr. Tudo o que precisávamos era de toda essa "publicidade' .Não sei como não pensei em contratar os serviços de uma agência, em vez dos seus nobres préstimos médicos. - Fiz tudo o que me ordenaram...ela não deveria morrer. Não sei o que aconteceu... - Agora é tarde , Dr. Barin. Esse erro deixou Mulder e Scully nos nossos calcanhares, como dois perdigueiros. O importante agora é desaparecer com toda e qualquer prova do envolvimento do meu grupo com as suas ações. - Não pode jogar toda a operação em cima de mim...ninguém acreditaria nisso... - Seu governo acreditará no que nós quisermos que acredite, Dr. É claro que alguém tão incompetente nunca poderia ter estabelecido engenhos tão complexos, mas aqui até mesmo J. J. Bennitez seria encarado como realidade...aquele pretensioso... - Podemos contornar a situação, já temos a agente e podemos usá-la para atrair o parceiro...e fazemos os dois desaparecerem como os outros... - Sua capacidade de raciocínio me enoja! Já não basta a confusão que você arrumou por causa de uns abelhudos e um monte de ossos? Bastava entregar a Dra. com vida, com as lembranças que demos a ela sobre um trágico acidente e pronto, tudo ficaria bem. Mas sua incompetência matou também a Dra. Foster e atraiu a raposa direto ao galinheiro. Faça-nos um grande favor e pare de ter idéias! – Sua atenção voltou-se então para o outro homem, que assistia calado. - Você, venha comigo. Precisamos cuidar de uma bela mulher, que costuma meter o nariz onde não deve - dizendo isso, esmagou outro cigarro sob a sola do sapato de couro e levou a mão novamente ao bolso interno onde guardara o maço. De dentro de sua improvisada prisão, Scully já sentia, que apesar de ainda estar com fome e sede, suas condições físicas estavam melhorando. Com certeza, eram os sintomas causados pela droga, que desapareciam totalmente. Esforçando-se nas últimas horas, conseguira libertar as mãos, cujo nó, alguém que confiava demais no efeito das drogas não havia tido o cuidado de reforçar.- Graças aos céus- pensou ela enquanto massageava os pulsos doloridos, ansiando por recuperar a circulação normal em seus braços Precisava pensar em algo rapidamente, antes que aquele sujeito resolvesse voltar .Já fazia muito tempo que estava sozinha ali e sentia que logo seria visitada por seus "anfitriões". - Pense, Scully. Pense- Depois de caminharem lentamente até a porta do barraco onde estava o problema a ser resolvido, o homem do cigarro esperou enquanto o outro removia ruidosamente a corrente que mantinha a porta fechada. A escuridão dentro do fétido alojamento o fez estacar por um minuto, enquanto o capanga entrava com a arma em punho. Um grito forte foi ouvido, enquanto o homem caía, com um gancho de "carne de charque" enfiado profundamente no ombro esquerdo. Enquanto o sangue encharcava o chão ressecado, o homem do cigarro tragou mais uma vez, um tanto incomodado pela arma que agora estava encostada em seu rosto. - Isso não vai levá-la a lugar nenhum, minha cara. Se eu fosse você.. - Cala a boca. Você só responde o que eu perguntar, nada mais. Quantos estão no galpão? - Vá até lá e olhe, Srta. Scully. - Não brinque comigo, canceroso. Estou com muita, muita raiva. Quantos estão no galpão? - a pressão contra o rosto do homem foi aumentada, ao mesmo tempo em que a arma era engatilhada. - Minha equipe, alguns homens, bem armados. Se me matar, não sairá viva deste lugar, agente Scully. Ouça o que tenho a dizer e talvez você tenha alguma chance. - Você tem três minutos para sua história triste, canalha! - Não preciso de tanto. Basta que você saiba, que seu ..."amado" parceiro, neste momento, está perto demais de coisas que queremos esconder. Neste momento, ele está se encaminhando ao sítio arqueológico, onde meus homens estão cuidando de algumas peças que não pertencem ao mesmo quebra- cabeça histórico que as outras. Se você se apressar, talvez impeça a morte dele...talvez não. - Onde nós estamos? Que lugar é esse? - Siga sempre a leste, pela estrada que contorna a entrada deste terreno. Mais ou menos 100 km a separam de seu destino. - a voz do homem era sarcástica e ela sabia que confiar nele era como confiar no próprio demônio. Mas ele poderia estar dizendo a verdade, apenas para torturá- la para sempre, caso acontecesse alguma coisa a Mulder. - Entra aí, seu filho da mãe! - Scully empurrou o homem para dentro do barraco, onde o outro estava desmaiado devido ao ferimento no ombro. Depois de prender o canceroso com as cordas que antes atavam seu pulsos, Scully checou os sinais vitais do capanga. O sangramento diminuíra e ele viveria para ser preso. Sem saber ao certo quantos homens encontraria dentro do galpão, Scully decidiu que o melhor seria usar um dos carros pra sair dali, sem enfrentamentos. Se fosse apanhada, a vida de Mulder poderia acabar, numa emboscada do canceroso. Entrou no primeiro carro, não encontrou as chaves. No segundo, também não. Teria de fazer uma ligação direta e torcer para não ser descoberta. Restava ainda o caminhão. Sorte. Encontrou-o com as chaves na ignição. Antes de entrar no caminhão, voltou e cuidou dos pneus do carros. Não queria levar consigo mais bandidos do que os que já estavam a caminho do sítio arqueológico. Depois, entrou no caminhão, deu a partida e acelerou ao máximo, enquanto um homem saía correndo do galpão, disparando uma arma contra ela. Pelo retrovisor, reconheceu o "bom doutor". Quilômetros dali... O sol inclemente fazia sua cabeça latejar como se estivesse encolhendo e esmagando seus miolos. O jipe deixava atrás de si nuvens de poeira, enquanto ele seguia saltitando no banco do motorista, mais preso ao volante pela gana de chegar ao destino, do que pelo cinto de segurança. Os dados que recebera da jovem mulher na catedral, traziam sérias acusações ao governo americano, que para acobertar a intensa atividade de ovnis no Brasil, teria impedido a implantação do sistema de rastreamento que deveria cuidar das fronteiras e permitir o controle dos desmatamentos criminosos da Amazônia. Em troca da participação do Dr. Barin no caso Varginha, seu prestígio foi alardeado no mundo e lhe rendeu dividendos....e mais comprometimentos. Os parceiros brasileiros do jogo sujo, envolvidos com a máfia internacional do narcotráfico, começaram a precisar cada vez mais dele para apagar suas pistas. Perto dali, na região do sertão estudada pelos cientistas americanos, estaria um local que servia de desova de abduzidos há muito tempo e o alarde científico que atrairia atenção para lá era tudo o que eles não desejavam... Sítio Arqueológico de Paraús No que poderia ser chamado de "cena brutal de crime contra a história da humanidade", uma retro-escavadeira engolia montões de terra, erguia no ar e depois lançava tudo num container parado ao lado de outro, já lotado. A operação estava quase concluída. Apenas mais alguns instantes e tudo o que restaria do local seria um grande e deserto buraco. Fim dos problemas. O homem no comando da ação estava recostado dentro do carro, com os vidros fechados e o condicionador de ar ligado no máximo, odiando ter de estar ali, naquele clima terrível, ansioso por deixar o lugar, com sua carga esquisita: montões de terra, ossos velhos...Pouco sabia sobre o significado de tudo aquilo. Sabia, principalmente, que deveria esperar por problemas a qualquer instante....e que estava bem preparado para isso. Dentro do carro, a arma engatilhada esperava pela visita anunciada... O comboio finalmente estava pronto para partir. Enquanto os dois caminhões enfileiravam-se, um carro assumiu a dianteira da fila, enquanto outro ficava na retaguarda. Dentro do último, um homem de expressão decepcionada tinha ainda a arma pousada sobre os joelhos. Foi então que seu sorriso se iluminou...lá longe, na linha do horizonte, avistou a grossa nuvem de poeira, característica de um veículo se aproximando. Ordenou rapidamente a saída dos caminhões, desceu do carro e posicionou- se , mira pronta, o dedo coçando o gatilho.... O jipe continuava vindo em sua direção....já podia distinguir a figura do motorista...mais um pouco, só mais um pouco, e tudo estaria terminado... O estampido ensurdecedor de um disparo foi ouvido, ecoando por um breve instante no ar sufocante do deserto. O jipe continuou ainda por alguns metros, desgovernado, indo parar como um brinquedo sem corda na cratera rasa deixada pelas máquinas, no que antes fora o túmulo de outras almas.... Um sorriso surgiu nos lábios do homem com a arma. Scully já percorrera quase uma centena de quilômetros ao volante daquele maldito e barulhento caminhão. Imaginava se não estaria também trazendo consigo as provas que precisava, na forma dos corpos desaparecidos dos pesquisadores....depois que Mulder estivesse em segurança, verificaria o conteúdo do baú do caminhão...agora não podia parar...precisava ganhar terreno rapidamente, pela estrada de terra esburacada e poeirenta. Sentia o rosto queimar. No peito, um aperto atroz, como só sentira uma vez, quando seu coração quase fora arrancado do peito. Dessa vez, entretanto, não havia nenhuma mão sobrenatural sobre ela....Era apenas ela mesma, farta de seu próprio silêncio, farta de deixar para depois a vida que constantemente ameaçavam tirar dela. Odiava o medo que sentia agora :o medo da perda, do sofrimento...Preferiu sempre proteger-se...fugir de tudo que pudesse causar- lhe esta dor, mas era impossível. Perdera seu pai , para a morte, sem ter conversado com ele coisas que, ela achava, poderiam fazê-la perdê-lo em vida. Só restara a dor de tantas palavras não ditas.... E isso poderia estar acontecendo de novo.... Adiante, na estrada, avistou o "zelo" das autoridades locais para com seus pontos turísticos. Uma placa, já meio descascada, com mensagens em português e inglês, dizia: "Sítio arqueológico de Paraús - Patrimônio da Humanidade Governo da Bahia - Secretaria de Turismo" Havia ainda uma série de recomendações contra depredações, impossíveis de ler com o veículo em movimento. Um quilometro a frente, avistou um jipe, parado desajeitadamente numa depressão de solo, com alguém ao volante. Scully desceu do caminhão quase em movimento e correu a pequena distância que a separava do jipe. Lá, estava Mulder, preso ainda pelo cinto de segurança, a camiseta cinza empapada de sangue. Ela sentiu seu próprio sangue gelar nas veias, enquanto buscava desesperadamente por um sinal de pulsação no pescoço de Mulder. Os sinais estavam fracos, mas ele ainda estava vivo! Scully tirou dele a camiseta e usou-a para pressionar o buraco de bala no peito do parceiro...precisava diminuir o sangramento! Com um esforço enorme para alguém da sua estatura, ela acomodou o pálido companheiro da melhor maneira possível no banco do passageiro do jipe. Usando o que se podia ler do mapa, entre grandes manchas de sangue, traçou caminho em direção ao litoral, para Maracatis, que distava ainda cerca de trinta quilômetros dali. Precisava correr, voar...Scully arrancou com o jipe, sentindo que agora perseguia também seu próprio destino... Jato da UTI aérea, com destino a Washington, D.C. Na pequena área interna da UTI aérea, o som distinto do aparelho de monitoramento cardíaco não era o único que se podia ouvir. O outro som, muito delicado para ouvidos distraídos, era o das lágrimas quentes que caíam lentamente e depois voltavam a se formar nos preocupados olhos azuis de Dana Scully... Nos dois últimos dias, ela vira Mulder travar a primeira parte da batalha contra a morte, sob os cuidados zelosos mas precários da equipe do pequeno hospital de Maracatis. Embora conseguissem estabilizar seu quadro o suficiente para a viagem, ela sabia que a guerra ainda não estava ganha... Washington, D.C. quarenta dias depois Hospital Memorial alguma coisa - Hei! Como vai meu paciente favorito? Acordado, finalmente! - a médica sorridente invadiu o quarto como se estivesse realmente muito feliz naquele dia.- Tenho ótimas notícias para você. Sua capacidade pulmonar já está quase totalmente recuperada. Não terá seqüelas, Sr. Mulder...exceto pela cicatriz, mas algumas mulheres acham isso muito excitante, afinal. Vai fazer par com a outra, do ombro esquerdo. Vocês, homens da lei...- ela examinava atentamente o ferimento, que se destacava no tórax nu do paciente. - Que bom. - Mulder estava com medo de perguntar. Lembrava-se de ter visto o rosto se Scully, mas não sabia se era real, ou um delírio de febre. Procurou pelo nome no crachá da médica - Hã...Dra. Clarissa, eu não tenho nenhuma visita? - Fala daquela médica baixinha que acampou aqui no último mês? Acho que foi para casa, entrar em coma...Pelo menos é o que aconteceria comigo, depois de tantos dias comendo e dormindo mal e chorando até desidratar. Desculpe se brinco demais, Sr. Mulder, mas realmente estou muito contente pela sua recuperação. Por você e por ela. Num dado momento, realmente achei que fosse perder os dois: você para uma bala, ela para a tristeza....- a médica assumiu um tom de terna preocupação. - Agora descanse, vocês terão a vida toda pela frente! Algumas horas depois A Porta do quarto abriu-se e uma cabeleira ruiva apontou pela fresta, sondando o caminho antes de entrar. Mulder dormia tranqüilo, sem os aparelhos cujos sons dominaram a cena nos últimos dias. Aproximou-se da cama e com os dedos contornou os traços bonitos daquele homem com ar de menino....mais uma vez, Dana sentiu seus olhos cheios d'água. Dessa vez, entretanto, não eram lágrimas de desespero, eram diferentes. Eram lágrimas carregadas de ternura, que ela deixou fluírem livremente, estranhamente feliz. Naquela noite Mulder moveu-se um pouco e logo depois despertou. Sentada ao seu lado, a única imagem que desejava ver. Apesar dos cabelos arrumados e a roupa impecável, ela estava bastante abatida. O sorriso, iluminado pelos grandes olhos azuis, não escondia que ela estava mais magra, o rosto fino escondendo toda sua preocupação....O silêncio era mágico, carregado de palavras, suspensas no ar como entidades intangíveis. Reticente, ela tomou a iniciativa. - Que bom ver os seus olhos abertos, Mulder. - Eu também estou feliz por ver os seus... - Eles conseguiram novamente, Mulder. Enterraram todas as provas. Eu,...eu quase consegui...tive o caminhão do IML em minhas mãos mas tive de deixá-lo . Era ele, Mulder. O canceroso, ele estava lá e...eles quase mataram você...eu – a pausa foi maior, sua voz estava embargada, mas ela não queria chorar novamente.- eu tive tanto medo ...de perder você...medo...medo de nunca poder dizer a você o que realmente é importante...o que realmente precisa ser dito... Ele gentilmente tocou seus lábios, fazendo-a calar, depois contornou-lhe o rosto com os dedos, enxugando algumas lágrimas teimosas. Tomou então as mãos dela entre as suas.... - Não diga nada agora.- sua voz era firme, mas terna e os olhos verdes eram um reflexo do que ia na alma daquele homem...- temos toda nossa vida para conversar... - então ele a puxou devagar para junto dele e seus lábios se tocaram, num beijo suave...o beijo mais carregado de sentimentos que duas pessoas seriam capazes de trocar..... " Folha de São Paulo, 23 de fevereiro, 2000 Primeira Página Revelado o assassino do agreste – Médico suicida-se e deixa nota com confissão de mais de 8 homicídios Encontrado ontem em sua casa, o internacionalmente conhecido médico legista Dr. Barin Palhares, vítima de um tiro desferido por ele mesmo contra o próprio peito. Junto ao corpo, uma nota, confessando ter cometido os homicídios que abalaram inclusive as relações entre o Brasil e os EUA, e pelos quais as autoridades procuravam o "assassino do agreste". As causas desses crimes, são atribuídas a uma psicose rara. A polícia afirma que continuará as investigações sobre o caso..." Fim Aguardo ansiosamente os comentários dos leitores que encontrarem um tempinho para isso... Sejam sinceros e não se preocupem, eu não tenho tendências suicidas... Meu e-mail : ariel_55@hotmail.com Beijos, Alexandra 1 1