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Perfect Betrayal - II
Anteriormente, nos Arquivos X:
Desde o início da noite, William notara algo estranho com Sari.
Jantaram normalmente e ela decidira ir àquele shopping terminar o
jantar. Mesmo sem entender por que não comiam a sobremesa onde estavam,
não se opôs a sair. Notou que ela começou a ficar estranha novamente
quando chegaram ao shopping e de como suava quando avisou ir ao
banheiro. Logo depois, Albert lhe aparecera. Sabia que algo estava
errado em toda aquela situação.
Levantou–se e virou–se para Sari que caminhava lentamente. Estranhou
a lentidão dela e se apressou para acompanhá-la. Era como se ela fosse
cair a qualquer momento e foi o que fez. William ouviu um disparo de uma
arma e em seguida viu o sangue tingir as roupas dela.
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NEW ENGLAND MALL
ARREDORES DE WASHINGTON, D.C.
8:02 P.M.
Sari caiu lentamente sobre os joelhos e assim quedou, ajoelhada, como se
rezasse. A cabeça pendeu para frente, colando o queixo ao peito e
desfazendo o penteado. Os ombros envergaram-se para frente, fazendo com
que as mãos de dedos longos pousassem suavemente sobre as coxas. O
sangue que fluía da grande ferida em seu peito rapidamente pintou sua
bela blusa branca de um vermelho vivo e empapou os longos cabelos que
escapavam do coque desfeito.
William correu tão rápido quando pode, mas não tanto quanto gostaria.
Queria ter sido tão veloz que a bala o tivesse atingido em lugar da
amante. Queria não ter perdido Sari.
Ajoelhou-se ao lado dela e a forçou, gentilmente, a uma posição mais
cômoda. A moça tinha os olhos baços e perdidos nalgum ponto do
infinito. Seus lábios, entreabertos, tornavam-se rapidamente
descorados, assim como a face.
Ele olhou em volta, procurando desesperadamente por socorro. O nó que
lhe apertava a garganta o impedia de pedir por ajuda. Num átimo, ele
olhou para cima. No local onde houvera antes uma cobertura de vidro,
havia agora um enorme buraco por onde um homem de expressão atônita
espiava o caos em que se transformara a praça de alimentação. Sem
saber ao certo o porquê, William sentiu pena daquele homem assustado lá
em cima. Mas não por muito tempo.
– Me desculpe... – sussurrou Sari, num fio de voz, enquanto suas mãos
frias apertavam sem força alguma os braços de William.
Ele a estreitou com força nos braços, não se importando com o sangue
que manchava também suas roupas.
– Não peça desculpas. Apenas viva! – disse ele, com a visão já
toldada pelas lágrimas.
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Tudo acontecera muito rápido. Rápido demais para que Wayne pudesse
coordenar os pensamentos a não ser muitas horas depois.
Na chegada ao shopping, ele reparara no homem. Sua atitude e a grande
sacola de tênis que carregava, pesada demais para o volume que exibia,
não passaram desapercebidos ao olhar arguto de Wayne. Ele seguiu o
estranho meio que sem perceber. Mas, a partir do momento em que o outro
tomara a escada de serviço que levava ao telhado do shopping, a
perseguição passou a ser consciente. Havia algo de errado ali, lhe
dizia seu treinamento policial recebido séculos atrás.
Por sorte, em momento algum, o homem pareceu notar que era seguido. Uma
vez no telhado, passou a agir com a segurança e o descaso de quem tinha
a certeza de que não seria pego. Tirou a caixa revestida de couro negro
de dentro da sacola e começou a montar, peça por peça, com todo o
cuidado, o que Wayne mais tarde identificou como um rifle de longo
alcance. Depois, agindo ainda como se fosse o único ser vivo sobre a
terra, posicionou–se em um canto do telhado de vidro que cobria a praça
de alimentação e esperou.
Wayne o observava, abrigado pela porta corta-fogo da escada de serviço.
Cada músculo de suas pernas reclamava do esforço da subida. Em momento
algum, lhe passara pela cabeça acionar a polícia ou a segurança do
shopping. Ele apenas deixou–se ficar ali e observar.
Longos minutos transcorreram sem que o homem esboçasse um único
movimento que não espiar a movimentação lá embaixo através do
vidro. Finalmente, algo pareceu atrair sua atenção e o fez colocar o
rifle em posição sobre o vidro. Como um predador que procura sua vítima,
ele grudou um dos olhos na mira telescópica e passou a esquadrinhar o
andar de baixo, o dedo comprimindo imperceptivelmente o gatilho.
Wayne não poderia deixar aquilo passar em branco. Os anos de dedicação
ao corpo de bombeiros, o treinamento em salvar vidas, o lema de sua
antiga unidade, "Servir ou morrer", o compeliram a fazer o que
julgava certo.
Tão silenciosamente quanto foi capaz, Wayne deixou seu posto de observação
e aproximou–se do franco-atirador, que parecia, enfim, ter encontrado
seu alvo e aguardava pelo momento certo para disparar.
Uma vez em posição atrás do homem, Wayne não teve tempo para pensar.
Precisava, simplesmente, agir. E foi o que fez. Pulou sobre o bandido,
tentando tomar-lhe a arma. Surpreendido, o atirador acabou por
pressionar o gatilho, embora a ação de Wayne já houvesse desviado o
rifle de seu alvo. O tiro rompeu o vidro em direção à praça de
alimentação. Mas Wayne não teve tempo de ver se algo ou alguém fora
atingido.
Seguiu-se uma luta feroz. O ex-bombeiro, por instantes, pensou que seus
velhos músculos não suportariam a força descomunal do adversário.
Mas suportaram e conseguiram, após torturantes minutos, subjugar o
atirador.
Wayne, exausto, respirou aliviado quando percebeu a chegada de quatro
integrantes do corpo de segurança do shopping pela escada de serviço.
Esse pequeno descuido, porém, foi suficiente para que o atirador
reagisse, o arremessando de cabeça contra um parapeito próximo.
Não houve tempo para que a segurança agisse. O atirador arrojou–se
contra o telhado de vidro que se partiu em mil pedaços. Não sem antes
voltar a cabeça em direção a um atordoado Wayne e lançar-lhe um
estranho olhar.
Quando Wayne conseguiu, por fim, aproximar–se do que restara do
telhado, viu o corpo inerte do homem, estendido lá embaixo, em meio a
uma infinidade de cacos de vidro e pedaços de metal retorcido.
A poucos metros do homem, porém, uma visão ainda mais perturbadora. Em
meio a uma enorme poça de sangue, jazia uma linda jovem de cabelos
negros. A blusa branca que ela vestia estava tinta de vermelho do sangue
que jorrava aos borbotões da grande ferida aberta em seu tórax. A
amparava, William Van de Kamp, o homem que Wayne viera executar naquela
noite.
Ele olhava em volta, desesperado por ajuda e, por alguns segundos, seus
olhares se encontraram. Pela primeira vez, Wayne viu seu rosto frente a
frente e, pior do que imaginava, algo chamou sua atenção de maneira
cruel.
A recordação daquele último olhar que o atirador lhe dirigira antes
de se lançar sobre o vidro. Seus olhos eram os olhos de Van de Kamp
colocados num outro rosto. Um rosto que, desgastado pelos anos, poderia
perfeitamente ser o de William Van de Kamp.
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Em questão de minutos, o local já estava repleto de seguranças e
policiais. Algumas pessoas se aglomeravam à distância, atrás do cordão
de isolamento. Havia cadeiras e mesas tombadas, restos de lanches e
copos descartáveis espalhados pelo chão, testemunhas do tumulto
causado pela multidão em pânico. A poucos metros de onde os paramédicos
trabalhavam freneticamente para salvar a vida de Sari, jazia o corpo de
um homem. Na confusão, poucos notaram a ausência de sangue ou de algum
ferimento visível, algo incomum considerando o impacto contra o solo de
uma altura considerável. As atenções de todos estavam na mulher
baleada. A custo, um policial convenceu William a se afastar,
argumentando que nada poderia fazer e que só atrapalharia se ficasse.
Wayne sofrera uma leve concussão, além dos arranhões e pequenas
escoriações em seu corpo, decorrentes da luta. Os seguranças que o
haviam distraído desapareceram pelas escadas em direção ao andar de
baixo. Aproveitando-se do tumulto e do vaivém de viaturas e
transeuntes, desapareceu no meio da multidão antes que alguém se desse
conta. Por um instante, pensou em voltar, mas quem acreditaria nele? E o
que lhes diria? No mínimo, o atirariam na cadeia como cúmplice.
Fracassara em sua missão e uma inocente pagara por isso. Pensou no que
dizer a seus empregadores enquanto voltava para casa. “Será que
acharam que não cumpriria minha parte e, por isso, mandaram aquele
atirador?”, pensou, irritado.
William acompanhou Sari até a ambulância e seguiu com ela até o
hospital mais próximo. Um dos detetives da polícia de Washington
tentou fazer-lhe algumas perguntas, mas tudo o que conseguiu foi deixar
o agente federal furioso. Foram precisos pelo menos três policiais para
apartá-los.
Outra ambulância deixou o local, só que em direção ao necrotério. O
veículo não chegou a seu destino. Seus ocupantes foram encontrados
inconscientes e o corpo do atirador desaparecera.
Não demorou muito para que os primeiros jornalistas chegassem ao
shopping em busca de informações, em sua maioria, desencontradas.
Alguns falavam em um atirador solitário, outros, em atentado
terrorista.
Enquanto isso, os policiais interrogavam as testemunhas presentes, os
funcionários do shopping e os seguranças, tentando descobrir quem era
o outro homem no topo do telhado, mas ninguém pôde lhes dar uma descrição
ou algo que pudesse ajudar nas investigações. Wayne desaparecera sem
deixar vestígios.
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WASHINGTON, D.C.
9:38 P.M.
Walter Skinner observava o movimento nas ruas, vários andares abaixo.
Aguardava o telefonema de Garcia na hora combinada. Olhou para o relógio
e desconfiou de que algo saíra errado. Estava pronto para deixar a
sala, quando foi tomado por uma dor excruciante. Uma dor familiar. Levou
a mão ao peito, enquanto uma sensação de formigamento se espalhava
pelo seu corpo. Lutando para manter-se consciente, voltou seu olhar para
a porta, de onde Alex Krycek o observava.
– Você mentiu para mim, Walter.
Ao invés do tom irônico, uma certa irritação podia ser percebida em
sua voz.
– Do que está falando? – respondeu Skinner.
– Sabe do que estou falando, está em todos os noticiários! –
esbravejou.
– Garcia?
– Não! Outro atirador! Se havia um outro plano, por que não fui
informado?!
– Não havia outro plano, Krycek – ele respondeu-lhe entre os
dentes.
– Então vai me dizer que não sabia disso também? – Krycek tocou o
painel sobre a mesa de Skinner e as imagens de várias emissoras de TV
surgiram no telão simultaneamente. – Este rosto lhe parece familiar?
– Impossível.
– Impossível a não ser que você não tenha cumprido sua parte no
trato, Walter.
– Ele está morto. Os dois estão mortos. E, mesmo se fosse ele, isso
não faz sentido.
Krycek assentiu com a cabeça, enquanto um sorriso maldoso se formava em
seus lábios.
– Talvez acredite que o garoto deva morrer.
– E acredita que ele estaria disposto a sacrificá-lo?
– Tudo indica que sim.
– E se não for ele?
– Não importa. Quero o garoto morto. Encontre Garcia e descubra o que
aconteceu. – ele respondeu, desligando o aparelho e colocando fim à
agonia de Skinner. Pelo menos por enquanto.
Skinner afrouxou a gravata e sentou-se à mesa. Algumas gotas de suor
teimavam em brotar de sua fronte e suas mãos ainda tremiam. Se era
efeito colateral do ataque ou o seu nervosismo, isso não importava.
Aquilo era como um pesadelo. Fantasmas retornando do passado para
assombrá-lo.
Pegou o telefone e selecionou o número de seu contato na polícia
local.
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WASHINGTON MEMORIAL HOSPITAL
10:13 P.M.
– Agente John Doggett, FBI. Procuro pelo Agente Van de Kamp.
O policial assentiu com a cabeça, dando-lhe passagem. Percorreu
rapidamente os corredores da emergência, onde encontrou William sentado
em uma das cadeiras, à espera de notícias. Recebera o telefonema há
pouco mais de meia hora. Por um instante, achou que fosse o contato que
tanto aguardava, mas era a voz de Van de Kamp do outro lado da linha.
Mal ouvira o que dizia, exceto as palavras “hospital” e “estado
grave”. O jovem parecia transtornado e aquilo já era o suficiente
para que atendesse a seu pedido. Os eventos se sucederam em um ritmo
vertiginoso naqueles últimos dias. No dia seguinte ao tiroteio,
esperava ser convocado para uma reunião com o Comitê de Conduta
Profissional para explicar o incidente, mas nada aconteceu. Quem quer
que tivesse ordenado àqueles homens que fossem atrás dele estava, de
alguma forma, ligado ao FBI. Ou, na pior das hipóteses, o próprio FBI
não estaria interessado em deixar que aquilo viesse à tona. Naquele
momento, teve certeza de que, mais do que nunca, todos estavam em
perigo.
– Van de Kamp – disse ao se aproximar – Como ela está?
– Ainda não sabem se ela vai resistir – ele respondeu, visivelmente
abatido – Acabaram de levá-la pra sala de cirurgia.
– Alguma pista?
– Não. Ninguém soube me explicar como alguém sobreviveria a uma
queda daquelas. A polícia também não soube me dizer onde estava outro
homem que eu vi no telhado e que, supostamente, estaria sob custódia da
segurança do shopping. Ele simplesmente desapareceu. Tudo o que
conseguiram foi um retrato falado do atirador – ele entregou-lhe um
pedaço de papel.
Doggett olhou para o desenho. A semelhança era evidente e William notou
o brilho de reconhecimento em seu olhar.
– Quer me dizer o que está acontecendo? – ele perguntou.
– Por que acha que eu sei de alguma coisa? – Doggett desconversou ao
devolver-lhe o papel.
– Sei que você conhece este homem – William se levantou,
encarando-o com raiva – Depois do que ele fez, ainda vai protegê-lo?
– Olha aqui, garoto...
Com um movimento rápido, William agarrou-o pela camisa e o empurrou
contra a parede, encostando o cano da arma contra a sua têmpora direita
enquanto o mantinha imóvel com o antebraço pressionado contra seu
pescoço. Alguns policiais que estavam no corredor fizeram a menção de
intervir, mas Doggett os impediu com um gesto. Com o seu treinamento
militar, ele poderia desarmá-lo com facilidade, mas não queria
feri-lo.
– O que vai fazer, Van de Kamp? Vai atirar em mim? Quem quer que tenha
feito isso, está lá fora. Se ficarmos aqui, não vamos ajudar em nada.
Doggett encarou o jovem à sua frente. O impasse se estendeu por mais
alguns segundos e, finalmente, ele desengatilhou a arma, soltando-o.
Virando-lhe as costas, William abriu passagem por entre a pequena multidão
de policiais, enfermeiros e médicos que se aglomerava no corredor.
Ignorando os olhares dos demais, Doggett foi ao encalço do parceiro.
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NECROTÉRIO MUNICIPAL
11:58 P.M.
– Droga!
William descarregou toda sua frustração na forma de um soco no capô
da ambulância. A lataria cedeu numa profunda mossa sob o impacto, ao
passo que os nós dos dedos de William se romperam e o sangue começou a
brotar.
– Nada! Nenhuma pista, nenhuma informação. Nem vidros quebrados, nem
sinais de arrombamento. Apenas dois covardes idiotas que seriam
intimidados até por uma criança com um pirulito.
Ele externava sua ira andando de um lado para o outro da garagem, sem se
importar com o sangue que gotejava do ferimento em sua mão, nem
demonstrar dor alguma.
– Calma, Van de Kamp! – contemporizou Doggett.
O homem mais velho conhecia bem a sensação de frustração que aquela
situação devia estar provocando em William. A dor de ter uma pessoa
querida entre a vida e a morte num leito de hospital, a impotência
diante da ausência do que fazer, do que perseguir.
– Os covardes idiotas, como você os chamou, são apenas dois garotos
cansados e assustados, com um trabalho tão ruim quanto transportar cadáveres.
Você ouviu o médico, eles receberam um golpe tão forte na cabeça que
tiveram sorte de sofrer apenas uma concussão.
O jovem estacou diante de Doggett.
– Como? Me explique como, agente Doggett, um homem cai de uma altura
de 10 metros sobre um monte de cacos de vidro e metal retorcido e não
derrama uma gota de sangue? Como um morto pode levantar-se da maca,
acertar duas pessoas e ainda sair andando de uma ambulância em plena
Washington sem que ninguém tenha visto ou ouvido algo? – seus olhos
verdes cravaram-se nos do outro agente com uma intensidade penetrante.
– Ou existe mais alguma coisa que eu precise saber para entender essa
história toda?
"Longa história, garoto. E eu nem saberia por onde começar",
pensou Doggett.
– Estou vendo que, se eu quiser respostas, terei que encontrá-las por
conta própria – concluiu William frente ao silêncio do colega.
– Preste atenção no que vou dizer, garoto. Há muita coisa que você
não sabe, assim como há várias coisas que eu não sei ou que o FBI e
o próprio governo desconhecem. Há coisas que nenhum de nós NUNCA vai
saber, Van de Kamp.
William sacou uma folha de papel amarrotada do bolso e a desdobrou
diante do colega.
– Como o que Fox Mulder fazia na cena de um crime esta noite? Como
onde está seu corpo nesse exato momento?
– Sim. – foi tudo o que o outro conseguiu responder.
A idéia de que Mulder estivesse envolvido em uma tentativa de
assassinato como aquela soava totalmente estranha a Doggett.
Principalmente depois que soubera pela segurança do shopping que
houvera luta antes do disparo.
Um pensamento louco passou por sua mente. Tão louco que Doggett
recusava-se a considerá-lo seriamente. Ele desejou que Monica estivesse
ali. Queria muito discutir com ela aquele pensamento insano. O alvo
daquela bala não deveria ter sido Sari! Estaria Mulder querendo matar o
próprio filho? Por quê?
Suas divagações foram interrompidas pelo toque do celular. Ele
observou William atender ao chamado e desligar, lívido.
– Era do hospital... – disse o rapaz, num fio de voz. – Preciso
voltar para lá... agora...
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PARADISE MOTEL
ARREDORES DE WASHINGTON, D.C.
1:21 A.M.
Ele tentou controlar o desagradável tremor das mãos enquanto servia-se
de mais uma dose de whisky. Estava com medo, admitia agora. Por isso, não
ousava nem mesmo acender as luzes do quarto do motel barato onde se
hospedara sob nome falso. A completa escuridão, interrompida apenas
pelo brilho dos faróis dos poucos carros que trafegavam pela avenida
naquela hora, o envolvia como um manto, transmitindo-lhe uma falsa sensação
de segurança.
O que havia acontecido no shopping, horas antes, fora um aviso. Ele
vinha se comportando como um tolo inconseqüente e acabaria por pagar
por seu comportamento irresponsável.
A bala que fora disparada naquela noite, na praça de alimentação,
tinha endereço certo e, certamente, não era o peito da bela morena que
atingira. Era, sim, um ponto bem no meio dos olhos daquele que agora
tremia diante da idéia.
Os homens por trás daquele disparo sabiam de sua desistência e o
perseguiriam até o fim. Era um jogo de caça e caçador aquele em que
havia se metido. Um jogo ao qual se acostumara a jogar habitualmente nos
últimos dez ou doze anos. O que não esperava era que a presa fosse ele
mesmo.
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LINCOLN MEMORIAL
WASHINGTON, D.C.
3:45 A.M.
Encontrara um pequeno pedaço de papel em sua caixa de correio ao chegar
em casa. A mesma caligrafia inconfundível o fizera ter certeza de que
era o contato tão esperado. O pequeno bilhete, em poucas palavras,
revelara-lhe o local e a hora do encontro.
Aproximou-se do boulevard próximo ao monumento, olhando para os lados.
Um casal caminhava pelo lado oposto do espelho d’água, conversando
animadamente até se deter próximo ao meio–fio. Àquela hora não
havia muitas pessoas no local, considerado relativamente perigoso e
ermo, talvez devido à má iluminação dos arredores. Doggett observava
cada pessoa que passava, procurando por algo que pudesse levantar
suspeitas. O casal que conversava momentos antes entrou em um táxi e o
lugar aos poucos foi ficando deserto. Olhou para o relógio. Cinco
minutos.
O som de passos alguns metros atrás dele fez com que sacasse a arma.
Reprimiu-se mentalmente pela distração momentânea.
– John?
Ele relaxou ao ouvir a voz de Monica. Um longo abraço se seguiu ao
suspiro aliviado de ambos face ao reencontro.
– Como está? – ele perguntou ao se afastar, seus olhos fixos nos
dela.
– Estou bem. Você...?
Doggett apenas acenou com a cabeça enquanto tocava seus cabelos.
Lembrou–se do quão perto estivera de perdê-la. Ela sorriu, como se
pudesse ler seus pensamentos.
– Soube o que aconteceu... pela TV – ela disse enquanto caminhavam
pelo boulevard deserto. Gibson e Melissa estavam nas proximidades,
atentos à aproximação de estranhos.
– O garoto não é nenhum idiota, Monica. Ele vai descobrir a verdade,
mais cedo ou mais tarde – ele lhe mostrou uma cópia do retrato falado
enviado através da rede a todos os departamentos de polícia da região
metropolitana.
– Não faz sentido – disse Monica ao olhar para o rosto impresso no
papel.
– Sei disso, mas, ao mesmo tempo, penso comigo mesmo... e se eles
jamais conseguiram escapar naquele dia, nas ruínas? Eles podem muito
bem estar mortos... ou, pior, transformados naquelas... coisas.
– Nós não temos como saber com certeza.
– Eu sei. Algo não se encaixa nesta história.
– Do que está falando?
– Havia um outro homem no local. Segundo os seguranças, ele já
estava perto de subjugar o autor do disparo quando eles os
surpreenderam. Só que ele desapareceu antes que a polícia pudesse
interrogá-lo.
– Eles conseguiram alguma descrição deste homem?
– Não, disseram que estava escuro e que tudo foi muito rápido.
– E William, como está?
– Arrasado, mas, ao mesmo tempo, furioso. A garota está mal. A bala não
atingiu nenhum órgão importante, mas fez um belo estrago e ela perdeu
muito sangue. Não sei do que ele será capaz se algo acontecer a ela.
Se ao menos...
– John, não podemos contar a ele... ainda não.
– Por que não? Quem quer que tenha feito isso pode vir atrás dele.
Se ele souber o porquê, pelo menos terá alguma chance.
– Isso se assumirmos que o tiro era pra um dos dois.
– O que quer dizer?
– Quem quer que fosse o alvo, estaria morto agora se não fosse pela
intervenção daquele sujeito. Este tipo de gente não costuma desperdiçar
oportunidades. Bastava um único tiro.
John assentiu com a cabeça. – Van de Kamp e a namorada poderiam estar
na linha de fogo quando tudo aconteceu. Só que eu não acredito que
tenha sido apenas uma fatalidade, especialmente depois que a identidade
do atirador foi revelada.
– Isso se ele for mesmo a pessoa que todos acreditam que seja. E se
eles quisessem pegar William, já o teriam feito. Eles têm os meios
para isso.
– A não ser que exista mais alguém na jogada e nós não sabemos.
A alguns metros dali, Melissa observava o movimento nas ruas enquanto
Gibson assistia à conversa dos dois agentes. Sua atenção, porém,
estava concentrada nos pensamentos da mulher ao seu lado. Sem dizer uma
palavra, ele apenas tocou-lhe o ombro. Ela o encarou, mas desta vez não
o repreendeu por invadir-lhe a privacidade. Ele não precisava ler
mentes para notar a tristeza que parecia emanar dela.
– Eles eram meus amigos também – ele murmurou.
Ela meneou a cabeça, seus olhos marejados desviaram-se dos dele. –
Espero que tudo isso que estamos fazendo sirva pra alguma coisa. Pelo
menos Darin e os outros não terão morrido à toa.
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WASHINGTON MEMORIAL HOSPITAL
4:18 A.M.
Havia sido longa a batalha travada pelos médicos contra a morte. Havia
ainda uma outra batalha em curso, mas essa tomava lugar dentro do corpo
de Sari. Poderosos medicamentos transportados por nanocriaturas teriam a
dupla função de combater infecções e estimular o organismo da mulher
na produção dos preciosos tecidos que recomporiam a região afetada
pelo ferimento.
Uma infinidade de sensores e tubos a conectavam aos diversos aparelhos
que cercavam o leito. Apesar dos muitos anos e das incríveis novas
tecnologias, uma coisa não havia mudado. O bip-bip ritmado do monitor
cardíaco era o único sinal que indicava que Sari ainda estava viva.
Pela grande parede envidraçada, William observava as feições pálidas
da amada lá dentro. Sua expressão era serena, como se dormisse um
longo e merecido sono reparador.
"Coma induzido", disseram os médicos, "vai acelerar a ação
dos remédios e o processo de recuperação. É apenas por alguns
dias."
William compreendia os preceitos médicos por trás daquela situação.
Ainda assim, no íntimo, desejava ter Sari nos braços e poder abraçá-
la e acalentá- la como a uma criança. Desejava o contato de sua pele tépida
e aveludada sob os dedos, em lugar do frio e liso vidro sobre o qual traçava
agora os contornos delicados do rosto da mulher.
Uma leve pressão confortadora sobre seu ombro o fez virar-se. Sem
surpresa ou susto. Ele sabia exatamente de quem se tratava.
– Vá para casa, garoto! –
disse a voz familiar do velho índio. – De nada adianta ficar aqui
agora.
– Mas ela pode precisar de mim, Albert...
– Não, ela tem tudo de que precisa nesse momento. Os espíritos ...
– ele disse, acompanhando as palavras com um gesto largo para o alto,
– os espíritos lhe fazem companhia. Com a ajuda deles, essa luta está
ganha. Vá para casa e descanse. Poupe suas forças para a batalha que
está por começar.
O agente voltou-se uma vez mais para o vidro atrás do qual Sari parecia
agora sorrir-lhe. Sabia que Albert não estaria mais lá quando se
virasse. Ainda assim, sussurrou:
– Obrigado, velho amigo.
E foi para casa.
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RESIDÊNCIA DE J. WAYNE GARCIA
4:54 A.M.
Wayne destrancava a porta do apartamento quando ouviu uma voz chamá–lo
pelo nome. Sua mão pousou sobre o bolso de sua mochila, onde guardara
uma das armas que levara consigo, uma pistola semi-automática.
– Não vai precisar disso – Skinner disse ao se aproximar, deixando
que a luz do corredor iluminasse suas feições.
– Achei que nossos contatos se resumiriam a telefonemas, Sr. Skinner.
– Esta é uma visita extra-oficial – ele respondeu enquanto limpava
as lentes de seus óculos.
– Acho que não temos mais negócios a tratar – Wayne fez menção
de pôr fim à conversa – Ferir inocentes não fazia parte do trato.
Skinner sorriu, a amargura visível em seu semblante.
– Vejo um pouco de mim mesmo em você, Garcia. Lembro-me de como
costumava vangloriar-me de meu estofo moral, de minha integridade, de
estar sempre disposto a fazer o que era certo, o que era justo. Mas já
faz muito tempo.
– Aonde quer chegar?
– Sei que você é o homem que a polícia está procurando.
Pego de surpresa, Wayne não confirmou nem negou a afirmação de
Skinner. Entretanto, o seu silêncio já não deixava margem para dúvidas.
– O que vai fazer a respeito? – disse depois de uma longa pausa.
– Nada. O serviço ainda está de pé. Aguarde o meu telefonema –
ele parou junto à escada de emergência – E não preciso lhe dizer
que nós nunca tivemos esta conversa.
Estupefato, Wayne só pôde responder afirmativamente.
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ESTAÇÃO DE TREM
ARREDORES DE WASHINGTON, D.C.
5:28 A.M.
O vento cortante vir de todos os lados. Ele tremia e procurava fugir
dele, agasalhando–se o melhor que podia com o pesado sobretudo de lã.
O cachecol e o chapéu deixavam-lhe pouco mais que os olhos de fora.
Ainda assim, Larry Frankel sabia que podia ser reconhecido. Aqueles que
o perseguiam tinham métodos de reconhecimento infinitamente mais
precisos que a identificação visual. Era o que os fazia mortalmente
perigosos, as inimagináveis informações de que dispunham.
Havia apenas um pequeno punhado pessoas na plataforma e ele aproximou-
se de algumas delas, buscando alguma proteção. Uma delas, um jovem de
cabelos longos demais, puxou do bolso um maço de cigarros. Como Larry o
observasse naquele momento, o rapaz estendeu-lhe o maço.
– Aceita?
Surpreendido, Frankel murmurou uma negação e desculpas, afastando-se.
– Todos a bordo! – gritou o condutor, quando, uns poucos minutos
depois, o trem finalmente encostou na plataforma.
Com mais pressa do que gostaria de demonstrar, Frankel embarcou na
composição e se trancou numa cabine. Rapidamente, fechou as cortinas e
enfiou-se no fundo de uma poltrona, como se quisesse desaparecer. O leve
tremor causado pelo frio e pelo medo quase o impediram de abrir a
garrafinha de whisky que trazia no bolso. Quando conseguiu, sorveu com
avidez o líquido que lhe desceu ardente pela garganta.
Um breve solavanco indicou que o trem, enfim, pusera-se em movimento.
Alguns minutos e goles mais tarde, uma reconfortante onda de calor o foi
invadindo e relaxando seus músculos cansados.
"Aqui estou seguro...", foi seu último pensamento antes que o
sono, finalmente, dele se apossasse.
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EM ALGUM LUGAR DA VIRGINIA
7:40 A.M.
O trem cortava a paisagem urbana que desfilava pela janela com
incompreensível lentidão a despeito da imensa velocidade em que
viajava a composição. O céu, carregado de nuvens cor de chumbo,
prenunciava que aquele seria um dia chuvoso.
Sentado no vagão quase vazio, ele olhava sem ver a infinita sucessão
de conjuntos residenciais e casinhas brancas, todos idênticos uns aos
outros, que passavam pela janela. Seu olhar, na verdade, concentrava-se
nos olhos cor de avelã que o vidro refletia.
Suspirou. Não se lembrava de jamais ter suspirado antes. Mas sentia-se
tão solitário, que fora impossível controlar o suspiro. Havia sido
uma longa noite.
Ele olhou longamente para o rosto refletido no vidro. Os olhos cor de
avelã, o nariz proeminente, os cabelos castanhos salpicados por fios
brancos. Um belo rosto, com certeza, apesar dos sinais do tempo e dos
tumultos da vida que nele se estampavam. Talvez mais belo justamente por
causa deles. Pena que aquele não era o seu rosto.
Seu rosto, seu verdadeiro rosto... Fazia tanto tempo que ele já não se
lembrava ao certo de como realmente se parecia. Tinha ainda mais
dificuldades em recordar- se de seu nome. Muitos anos haviam se passado
desde que o ouvira pela última vez.
Era um caçador por profissão e natureza. Como tal, o sucesso de suas
empreitadas dependia de habilidade, persistência e camuflagem. E, nesse
último tópico, ele era um especialista. Sua genética alienígena lhe
permitia assumir a aparência que fosse necessária para alcançar suas
presas ou escapar de seus perseguidores. Graças a ela, ele podia, com
um mínimo de esforço, parecer-se com Fox Mulder, como naquele exato
momento, ou transformar-se, no minuto seguinte, naquela senhora gorda de
modos espalhafatosos que se recostava algumas poltronas adiante.
Mas era solitário ser daquela forma. Não haviam restado muitos como
ele com o passar do tempo. E, sendo caçador, não podia dar-se ao luxo
de travar relações amistosas entre os caçados.
Nunca antes a solidão o afetara com tamanha intensidade como agora.
Estava tão imensamente só que tinha ganas de aproximar-se de qualquer
pessoa para conversar. Queria ser como um deles e simplesmente jogar
conversa fora, preencher o vazio que sentia com palavras sem maiores
conseqüências. Qualquer um serviria. Mesmo a senhora espalhafatosa no
banco da frente.
Num impulso tresloucado, ergueu-se e chegou a dar dois ou três passos
em direção a ela. Voltou-se para o lado, quando lhe tocaram o braço.
– Sr. Quest? Lembra de mim?
Jacobson do mercadinho, em Oscuro... – falou com ar curioso o homem de
aparência cansada que o fizera parar.
O caçador estacou. Aquela poderia ser sua chance de conversar com alguém,
como tanto desejava. O homem calvo, que imaginava conhecê-lo, o
encarava sorridente, procurando conversa. Exatamente a conversa que ele
julgava poder ser o alívio para a solidão que o atormentava. O caçador
hesitou, diante do sorriso franco e amistoso daquele estranho.
Mas o senso de responsabilidade prevaleceu. Era, afinal, um caçador e
ainda tinha uma missão a cumprir. Larry Frankel era o nome da vítima,
escondida em um dos vagões daquele trem.
Sem maiores delongas, o caçador acenou desculpas vagas ao estranho
calvo e dirigiu-se, com determinação, ao vagão seguinte.
A caçada precisava continuar
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