A cidade estava vazia naquele dia e naquela hora. Era como se as pessoas
adivinhassem o que estava por acontecer. O parco vento estava gélido e, quando
aparecia, fazia voar todas as folhas caídas das árvores. Sari tentava organizar
seus cabelos cada vez que o vento passava e os desordenava. Aquilo não deixava
de irritá-la um pouco, principalmente depois de todo o tempo que levou para
arrumar os longos cabelos.
Estava alerta aos poucos passantes daquela área e, ao avistar William ao longe,
sem que ele a visse, não pôde deixar de sentir um aperto no coração. Estaria
fazendo a coisa certa? Não gostava da idéia de traição. Por isso, tentava a todo
custo se convencer de que não era traição o que estava fazendo. Era uma vida por
muitas outras vidas. Não valeria a pena sacrificar uma em prol de toda a
humanidade?
Dois meses antes
_ Você tem que seguir todo o combinado. Não há saída. Aliás, nunca houve saída.
Sari olhou para um dos homens no recinto e sentiu um arrepio. Nunca o vira antes
e nem sabia porque Skinner agia como se sua vida dependesse daquele cujo
semblante embora calmo, deixava entrever crueldade no olhar.
_ Eu não entendo como terei que executar todo o plano e ainda não entendi porque
o William é tão...
_ VOCÊ NÃO TEM QUE ENTENDER NADA! _ esbravejou Skinner. _ Você tem que agir.
Somente agir.
O homem ainda não identificado para Sari assentiu levemente com a cabeça e deu
um sorriso gelado em direção a ela. Quem é ele, ela se perguntava a todo
instante. Quem seria o homem para o qual Skinner, até então o mais poderoso de
todo aquele esquema, parecia dever a vida?
Finalmente, ele se levantou e caminhou em direção à mulher. _ Você é
inteligente. Depois de tudo o que já viu e ouviu, ainda não sabe o motivo de
tudo isso? Você é da NASA. Já ouviu falar de alienígenas, não?
Sari podia somente olhar para o homem que falava tão calmamente em alienígenas.
Não que não acreditasse. Ela estudara o suficiente para saber que o universo era
grande demais para ter somente um lugar, um planeta com vida. Acreditava que
houvesse vida em outros locais, mas não gostava da idéia de serem “pessoas”.
Queria acreditar que existiam outras formas de vida que utilizassem outros
elementos químicos como formação. Talvez nem respirassem oxigênio, mas gás
carbônico, quem sabe? As formas humanas também lhe intrigavam. Como poderiam
pessoas tão inteligentes no mundo acharem que todas as formas de vida alienígena
teriam duas pernas, dois olhos, uma boca, dois braços, enfim, serem praticamente
humanos? Não. Era demais para ela. Por isso, sempre que surgia a mera hipótese
de William, seu companheiro de escola e agora amante, ter qualquer ligação com
vida ou forças alienígenas, ela não acreditava. Precisava de mais provas.
Precisava de evidências científicas.
A conversa continuou por mais alguns minutos. A Sari era explicado qual o plano
e como ele seria executado. Coube a ela ouvir tudo sem maiores comentários.
Sentia-se como um soldado que não tem poder nenhum de decisão, que só pode ouvir
e agir.
Data atual
Ao longe, podia observar aquele de quem aprendera a gostar nos últimos dias. O
encontrara de uma maneira tão casual há alguns meses. Perderam contato e, quando
finalmente puderam se reencontrar, Sari tinha uma missão.
Missão esta que ela ainda relutava em aceitar toda vez que via William. Como ele
poderia fazer tanto mal à sociedade como lhe haviam preconizado? Ele era
praticamente o melhor ser humano que já conhecera e, no entanto, era tratado
como um verdadeiro anti-cristo. Enquanto o observava, de longe, pedir um café,
via em seu semblante que algo não estava certo. Seu trabalho consumia todo o seu
tempo e não era sempre que se encontravam por ali. Não se falavam muito, pois o
tempo era precioso para um trabalho como o de William. Sari entendia isso, além
de muitas outras coisas, mas...
Finalmente avistou quem procurava. Tratou de sair da vista de William e entrou
na Mercedes preta que parou em sua frente. Lá dentro encontrou Skinner e Krycek.
Agora sabia seu nome. Depois de muitos encontros, atreveu-se a perguntar e,
apesar de inicialmente estranhar, foi prontamente respondida.
_ Hoje à noite então, não é, Sari?
_ Sim. _ respondeu friamente.
_ Já sabe como executar?
_ Não é como já combinamos milhares de vezes? _ não gostava quando a tratavam
como uma idiota fazendo perguntas que mereciam respostas imbecis.
Krycek somente olhou para Skinner. Apesar de toda a relutância da garota, sabia
que ela levaria o plano até o fim. Percebera que ela não arriscaria a vida da
humanidade por causa de uma vida. Além do que, se não levasse o plano até o fim,
eles estariam lá para fazer com que tudo fosse seguido à risca e ela, inclusive,
fosse eliminada. Krycek não ligava para nada, a não ser o fato de que o legado
de Mulder não teria mais tanto tempo aqui na Terra, fosse alienígena ou não.
Sede do FBI, Washington, DC
William não conseguia se concentrar para escrever um relatório a respeito do que
vira no vídeo. Ainda estava estupefato com as imagens de sua parceira sendo
cúmplice de um assassinato. Ela não parecia estar sendo seqüestrada ou estar
sendo forçada a estar ali, parecia até que desejava a morte do vigia. Sentia um
frio na espinha cada vez que pensava na situação. O conflito interno era tanto
que não tinha como saber o que escreveria para seu Diretor Geral. Não sabia se
dizia o que via ou o que sentia.
Tinha certeza absoluta de que Reyes não era uma pessoa fria daquele jeito,
apesar das imagens provarem o contrário. Conhecia a parceira e seu companheiro
há algum tempo e sabia que Doggett também estava intrigado com a situação.
Porém, mais uma vez, sentia que algo estava faltando naquele quebra-cabeças.
Estavam escondendo algo dele. Algo importante para aquela investigação. Mas por
quê? Estariam Mulder e Scully envolvidos também em toda aquela trama? Não era
suficientemente íntimo de Doggett para perguntar tantos detalhes, mas precisaria
deixar tudo isso de lado para saber a verdade. Sem ela não poderia ajudar em
nada uma investigação que, dias depois, ainda não levara a nada.
No instante em que desligou o computador, seu atual parceiro adentrou na sala.
Era a hora de perguntar para saber da verdade.
_ Agente Doggett, gostaria que me dissesse a verdade.
_ Que verdade? _ Doggett sabia que o rapaz não era bobo para perceber que havia
algo mais em tudo o que estava acontecendo. Mas, apesar de tudo que descobrira,
ainda não sabia se poderia confiar nele. Além de Mulder e Scully, confiara
apenas em Skinner, até que este também simplesmente deixou de manter contato.
Monica e os outros contavam com ele para mantê-los em segurança. Ela achou
melhor que se separassem de novo e, à contragosto, ele concordou. Melissa
prometera entrar em contato com ele, mas não disse como nem quando e isso o
deixava cada vez mais nervoso.
William se levantou, obviamente transtornado. _ Quero toda a verdade a respeito
deste caso, desde o início. Até agora não sei porque fui designado para
trabalhar nas buscas de dois agentes que estão provavelmente mortos há muitos
anos e agora a agente Reyes simplesmente desaparece, justamente quando
conseguimos colocar as mãos nos arquivos do Casal Morto. O que não estão me
contando? E por que a agente Reyes foi para o Oregon?
Por um instante Doggett teve a nítida impressão de estar vendo Mulder. A
convicção com que William falava o lembrava da obsessão de Mulder pela verdade.
E a que ela havia levado...
O incidente que resultou em três mortos naquela noite não passara despercebido
pelo FBI. O tiroteio deixara a vizinhança em pânico mas, felizmente, ninguém
mais se ferira. Os homens não foram identificados mas isso não era surpresa.
Aqueles homens não tinham nome, assim como os inimigos sem rosto que ele e
Monica se propuseram a combater ao insistir na busca por Mulder e Scully.
Doggett sabia que estava sendo vigiado e que qualquer descuido colocaria tudo a
perder. Por mais que temesse pela segurança do jovem agente, ainda não era hora
de envolvê-lo ainda mais naquela confusão.
_ Você está enganado, Van de Kamp. Eu não sei tanto mais do que você. A única
diferença é que eu conheci Mulder e Scully e sei da luta que eles travaram na
vida. Essa é a única diferença entre o que nós dois sabemos. _ ele odiava ter
que omitir alguns fatos. Adoraria poder contar com todo o apoio que aquele
garoto pudesse lhe oferecer, mas ao mesmo tempo temia que Monica o recriminasse
por ter aberto o jogo.
William somente olhou para Doggett. Sabia que havia algo mais na história e,
percebera agora, talvez houvesse demorado muito tempo para que tivesse absoluta
certeza de que estava sozinho. Precisaria descobrir o que estava acontecendo,
mas não seria com a ajuda de ninguém a não ser dele próprio. Seu celular tocou e
o retirou dos seus devaneios.
_ Tudo bem, estou indo. _ ele pegou seu casaco e, antes que pudesse sair da
sala, virou-se: _ Eu vou descobrir, agente Doggett. Com ou sem a sua ajuda.
Restaurante Hubbles
O gosto doce do Martini que bebia contrastava com a amargura que sentia em seu
coração. Sari bebericava e tentava comer os pequenos pães que colocaram-lhe à
mesa, mas era impossível. Precisava disfarçar, tentava lembrar a si mesma. Já
havia marcado o encontro e agora não havia mais volta. Teria que levar o plano
até o fim e trilhar ali o destino de William e o seu próprio.
Seu destino... que destino era esse? Estudara como nunca durante toda a sua vida
tentando de alguma forma apagar a sua pré-adolescência e a vida que levava na
cidade pequena. Sempre condenou as pessoas para quem trabalhava que seguiam à
risca instruções não muito convincentes ou éticas e agora ela mesma faria pior.
Será então que seu destino era mesmo não ser ninguém na vida além de uma pessoa
qualquer em quem os outros simplesmente mandavam e desmandavam?
Finalmente, avistou o objeto do seu afeto. William estava parado à porta
conversando com o mâitre. Como ele estava bonito, ela pensava. Estava cada dia
mais masculino. Sua expressão, porém, estava cansada. Para falar a verdade, Sari
nunca o vira totalmente despreocupado, sereno. Era difícil. Talvez quando faziam
amor, mas ainda assim ele não conseguia se desligar totalmente. Seu coração
começou a acelerar à medida em que ele se aproximava. Era como se fosse sair
pela sua boca literalmente. Estava com medo de que William pudesse vê-lo através
da sua roupa justa, de tanto que batia forte.
_ Está passando bem, Sari? Está suando...
William se aproximou carinhosamente e lhe deu um beijo nos lábios. Alguma coisa
estava estranha. Trabalhava com isso, sabia quando uma pessoa estava tensa ou
quando escondia alguma coisa. O que ela teria para esconder dele? Sabia que ela
trabalhava para a NASA e que tinha projetos confidenciais, assim como ele
também, mas não acreditava que ela teria tal reação por causa de um projeto que
nada tivesse a ver com seu relacionamento. Estava desconfiado demais, pensou
consigo próprio.
_ Estou bem, William. Só estou com um pouco de calor e meio enjoada. Acho que
comi alguma coisa que não me fez bem. _ ela disse rapidamente.
Mesmo com todo o nervosismo antes de vê-lo, ela forçava-se a lembrar que tinha
tudo esquematizado em sua mente. Agora, porém, com William ali à sua frente e
preocupado com ela, tudo ficara diferente. Tudo mudara.
_ Acho que vou parar com o Martini. _ ela completou com um sorriso tímido e
seco, procurando não deixar espaço para mais perguntas.
Três meses antes
Ainda suava frio todas as vezes que pensava no que se dispusera a fazer em troca
das vidas de Doggett e Reyes. Por eles, dispensara a vida de três pessoas.
Primeiro, Mulder e Scully e agora seria responsável pelo extermínio de William.
Não sabia ainda como fazê-lo, mas precisava pensar rápido. Há muito tempo não
tinha controle sobre seu corpo e qualquer tentativa de desistência poderia lhe
ser fatal. Não seria melhor então dar sua vida pela dos outros? Era tão egoísta
a ponto de tirar a vida de um garoto para poupar a sua, já muito vivida?
Na verdade, mesmo que ele próprio fosse executado, William ainda seria a vítima
seguinte e ele não poderia fazer nada. Não que houvesse algo a fazer naquele
momento, mas o tempo diria se haveria ou não alguma solução para tal impasse.
Andava de um lado para o outro na sacada do seu apartamento à espera de Krycek.
Este ainda lhe dava arrepios. Quando lembrava que atirara nele anos antes e que,
mesmo assim, nada acontecera, ele sentia calafrios. Quando entrara para o FBI
não imaginava que seria assim. Não imaginava tudo por que iria passar e o que
teria que fazer pelo cargo que adquirira. Muito menos tinha idéia das pessoas
que conheceria no trabalho. Pessoas que fizeram parte da sua vida por tantos
anos e pela morte das quais, agora, ele seria responsável apenas para salvar a
própria vida. Na verdade, não tinha certeza se seria poupado após o término do
serviço sujo, mas gostava de ter em mente que poderia terminar a vida longe
dali. Em paz. Sentia-se atualmente o próprio Canceroso. A única diferença era
que Skinner não tinha domínio sobre o que fazia. Ele estava sendo sempre
manipulado. Sempre.
Exatamente às quatro da tarde sua companhia chegou. Pontual como sempre, Krycek
adentrou a casa e seguiu diretamente para o escritório onde iriam discutir os
assuntos pertinentes ao serviço.
_ Tenho a pessoa certa para o serviço. _ foi a primeira coisa que disse.
Skinner somente assentiu com a cabeça. Não tinha idéia de quem poderia ter
passado pela cabeça de Krycek.
_ Sari Kapoor, a namorada.
Para surpresa de Krycek, Skinner nem pestanejou, mas no fundo estava tão absorto
com aquele pensamento que poderia ter tentado novamente matar Krycek naquele
segundo. Porém sabia que seria inútil. Como ele esperava que a namorada do
próprio William o matasse? Ela nem fazia parte de história nenhuma e agora seria
uma assassina? Como a convenceriam? E por que ela?
Como se adivinhasse todos os pensamentos de Skinner, Krycek continuou. _ Ela é
simplesmente perfeita. O garoto confia nela.
_ Mas como vamos convencê-la?
_ Primeiro, como você vai convencê-la. _ Skinner engoliu em seco _ Ela trabalha
para a NASA, Walter. Acreditará em tudo o que lhe dissermos. E você sabe o que
será dito a ela. Sabe o porquê de querermos a eliminação daquele garoto. Ela vai
entender. Tenho certeza. Eu entendi, porque alguém inteligente como ela não
entenderia? Mulder foi estúpido o suficiente para seguir sua própria imaginação,
preferindo não ver a realidade que estava à sua frente e veja o que lhe
aconteceu.
Data atual
Residência de Wayne Garcia
Wayne olhava os ponteiros de seu velho cebolão a se moverem rapidamente.
Contemplava-os desolado. Cada volta pelo mostrador, colocava Wayne mais próximo
da ingrata missão em que havia se metido. Por um sem número de vezes naquele
dia, ele havia pensado em desistir. Chegara mesmo a pegar no telefone uma ou
outra vez.
Não entendia porque aquele rapaz de aparência tão tranqüila precisava ser tirado
de circulação. Wayne nunca o havia visto em pessoa. A primeira vez seria aquela
noite, num pequeno shopping nos arredores da cidade. Mas havia gasto
intermináveis horas a olhar-lhe a foto, memorizando cada detalhe de sua
fisionomia para que não houvesse enganos. Talvez fosse melhor daquela forma, que
não passasse de um rosto numa fotografia. Assim, nunca lhe ouviria a voz ou
olharia dentro dos olhos, características que poderiam revelar a verdadeira alma
por trás do rosto anguloso e arruinar a fraca determinação de Wayne em levar a
cabo sua tarefa.
O velho despertador sobre a cômoda apitou. Sete e meia. A hora fatídica enfim
era chegada.
Movendo-se com uma dificuldade insuspeitada, Wayne caminhou até o armário. Dele,
resgatou algo que quisera não ter de usar naquela noite. A arma queimava suas
mãos, enquanto a acomodava cuidadosamente dentro da mochila.
Dog, deitado diante da porta, parecia querer impedi-lo de seguir seu caminho.
Antes pudesse. Era tarde demais para arrependimentos.
- Até logo, amigão. - despediu-se o homem um instante antes de fechar a porta
atrás de si, a mochila pesando-lhe como um fardo sobre os ombros.
Sua sorte estava lançada.
Data Atual
New England Mall
Chegaram finalmente ao lugar combinado. Era um shopping local. Pequeno, mas com
lojas suficientes para não chamar a atenção sobre aquele que completaria o
serviço. Pensara tanto em como fazer para levar William até ali e fora tão
simples. Quisera antes jantar com ele, já que seria uma última noite juntos. Seu
coração se acelerava a cada segundo e tinha medo de deixar transparecer mais do
que o necessário para William. Ele era inteligente o suficiente para saber que
havia algo errado com ela e na forma como ela estava agindo, mas Sari nada
poderia fazer.
Sempre que pensava em não levar o plano adiante, lembrava-se do que Skinner lhe
falou: “Ele será o responsável pela morte de toda a humanidade e você será a
co-responsável, se o deixar vivo. Prefere morrer junto com ele e com mais de 15
bilhões de pessoas do que matá-lo? Ele deve morrer. Uma vida pela humanidade
inteira.”
Essa última frase ficou em sua mente desde que fora abordada por Skinner. Era
como uma tatuagem. E ela teria que viver com aquilo para o resto da vida. Seria
responsável pela morte do único homem que amava e que já a amara. “Uma vida por
uma humanidade inteira”, lembrava-se novamente. Começara a suar de novo. Chegara
a hora. Eram oito horas da noite e o combinado era que ela deveria sair da mesa
às oito em ponto, do contrário correria o risco de perder a vida também.
Com a desculpa de ir ao banheiro, ela levantou-se e começou a caminhar
lentamente. Era como se tudo acontecesse em câmera lenta. Tentava se lembrar de
como caminhar de tanta preocupação que sentia naquele instante. Eram tantos
sentimentos antagônicos que seu corpo estava como se em êxtase. Não conseguia
sentir mais nada. O único pensamento que tinha era que precisava colocar um pé
na frente do outro e continuar seguindo em direção ao banheiro. Mal conseguia
continuar andando quando olhou para cima, no centro e alto da praça de
alimentação onde se encontravam havia um local onde o teto era todo de vidro.
Podia perceber um homem ali presente com uma arma que, pela sua vaga experiência
com armas, sabia ser de longo alcance. Seria certeiro.
Como se ela própria fosse ser assassinada, sua vida começou a passar em flashes
na sua mente. Ela lembrou-se do incêndio há muitos anos. Lembrou-se de como era
desprezada pelos rapazes na adolescência. Lembrou-se da situação extremamente
constrangedora quando sangrou pela primeira vez. Lembrou-se da sensação de
cantar e ser admirada. Lembrou-se de como era uma boa funcionária para a NASA e
agora para seu país. Lembrou-se de como foi sua primeira noite de amor com
William e de como nunca havia se sentido tão amada quanto naquele instante.
Lembrou-se finalmente de que teria que viver para o resto de sua vida com o fato
de ter sido responsável pela morte dele.
Uma tímida lágrima caiu de seus olhos molhando sua blusa no mesmo instante em
que ouvira um disparo. Seu corpo tremeu. Ela não resistiu à dor intensa de toda
a situação, de todos os sentimentos e memórias presentes, de toda a sua
responsabilidade e caiu desmaiada.
_ Você parece com um conhecido meu, William. Com exceção de que você segue o que
seu coração manda.
_ Eu não concordo muito com isso, Albert. Eu acredito ser muito mais racional do
que passional.
_ Pois você está enganado e eu vou provar que está. Eu conheço muitas pessoas e
já vi de tudo nesta vida. Coisas que você não pode nem imaginar serem reais.
Conheci pessoas que viveram intensamente, mas que não puderam aproveitar o que a
vida lhes oferecia. Não gostaria que você se tornasse uma delas. Você é um bom
rapaz, um bom trabalhador e tem um bom coração. Agora vá até sua namorada que
ela precisa de você. Ela está passando por um momento muito difícil. Muito
difícil.
William sabia que mesmo que quisesse uma resposta, Albert não estaria mais ali
para respondê-la. Ele sempre aparecia quando William precisava, mesmo que ele
próprio não soubesse disso. Aprendera, com o tempo, a confiar no amigo
imaginário. Desde o início da noite, notara algo estranho com Sari. Jantaram
normalmente e ela decidira ir àquele shopping terminar o jantar. Mesmo sem
entender porquê não comiam a sobremesa onde estavam, não se opôs a sair. Notou
que ela começou a ficar estranha novamente quando chegaram ao shopping e de como
suava quando avisou ir ao banheiro. Logo depois, Albert lhe aparecera. Sabia que
algo estava errado em toda aquela situação.
Levantou-se e virou-se para Sari que caminhava lentamente. Estranhou a lentidão
dela e se apressou para acompanhá-la. Era como se ela fosse cair a qualquer
momento e foi o que fez. William ouviu um disparo de uma arma e em seguida viu o
sangue tingir as roupas dela.
Sari trairá mesmo William? O que acontecerá com o casal a partir de
agora?
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