Perfect Hell



23 de dezembro de 2012 - Domingo.


O dia surgiu sem que houvesse qualquer testemunha daquele fato. Era como uma enorme sala de teatro, no dia seguinte a uma grande apresentação. As cadeiras vazias, pipocas jogadas pelo chão, copos de refrigerantes virados e seu conteúdo grudento sujando o carpete já muito empoeirado.

O sol encontrou o mundo exatamente como a equipe de limpeza encontraria a sala de cinema. De má vontade. 

A luz parca se esgueirava silenciosamente por meio das folhas das árvores. O calor ainda demoraria muito a reinar novamente. 

O vento, ainda frio, buscava seu caminho entre a vegetação rasteira, agora queimada. Flocos de cinzas planavam lentamente, levados pelo vento preguiçoso. O odor acre das cinzas impregnava toda a floresta, e nenhum som poderia ser ouvido, mesmo que houvesse alguém capaz de fazê-lo naquele momento.

Uma folha queimada parecia disposta a deixar de fazer parte daquele cenário e parecia se arrastar lentamente, com a ajuda da brisa, para outras paragens.

Não que houvesse outro lugar menos devastado do que aquela floresta. 

A folha voou alguns metros, se enroscando em um enorme tronco de madeira carbonizada. O fogo que havia consumido o tronco ainda habitava dentro dele, escondido, aguardando a chegada de algo que pudesse destruir com suas chamas.

A folha, apesar de já bastante queimada, ainda serviria de alimento para o fogo.

Em segundos, após ter tocado o tronco, a folha deixou de existir.

A brisa, ignorando toda essa ação, continuou sua trajetória, às vezes permitindo que alguma outra folha saltasse em seu dorso e buscasse uma fuga.

Mas o vento era fraco, e as folhas se desfaziam assim que tocavam o solo.

O vento continuou sua trajetória, às vezes se esforçando para chegar mais rápido ao seu destino, outras diminuindo seu ritmo, ao se dar conta de que não havia qualquer destino à sua frente.

Tudo o que restara eram cinzas. A fumaça, antes densa, agora subia lentamente ao céu em pequenos filetes, como um quadro a óleo recém pintado.

O sol parecia ainda indeciso sobre fazer sua aparição habitual ou esconder-se atrás das nuvens, tornando-se uma testemunha privilegiada dos acontecimentos.

Mas nem mesmo o sol poderia buscar abrigo naquele dia. As nuvens não permitiriam tal omissão.

Assim, contrastando com a cor pálida da terra abaixo dele, surgia o sol, luminoso e brilhante, distribuindo luz e vida onde já não havia qualquer ser que pudesse recepcioná-lo. 

Se houvesse um ser vivo que tivesse resistido àquela devastação, com certeza estaria vendo o mesmo panorama, para qualquer lado que olhasse. Mas, caso o sobrevivente fosse um pouco mais atento, talvez percebesse alguns sinais que lhe trouxessem esperança.

Teria que desviar o olhar dos troncos queimados, carbonizados. Das árvores antes frondosas, agora reduzidas a blocos de cinzas, que agora cobriam o chão.

Deveria ignorar o cheiro acre de fumaça, o calor que ainda subia do solo.

Seria obrigado a olhar além do que antes era a floresta, se insinuar pelas trilhas criadas por Deus sabe quem, que levavam a lugar algum.

Mais adiante, onde supostamente não havia mais nada, se encontrava uma cabana. 

O vento não tardou a encontrá-la ainda de pé, alheia à destruição a sua volta.

Talvez curioso com aquele fenômeno, a brisa buscou alguma entrada para a cabana. Não foi difícil encontrar uma brecha na porta da frente.

Sem se preocupar em pedir licença, o vento entrou se espalhando pelos cômodos da cabana, curioso demais para se deter em um local por vez.

Uma parte do vento levantou algumas folhas de papel que dormiam em cima da mesa. Em seguida deslizou para debaixo do sofá, encontrando uma leve poeira, nada com que pudesse se distrair.

Tudo parecia limpo, na verdade, e o vento logo se cansou e correu para se juntar ao resto de si, que agora corria para o quarto.

Uniram-se as duas partes e se tornaram novamente um só ser.

Passou por debaixo da cômoda de madeira e prosseguiu seu caminho por baixo da cama.

Subitamente encontrou uma barreira, a própria parede. Já sem forças de se desviar de seu novo obstáculo, começou a esmorecer, até que finalmente desapareceu, consumido pelo próprio desejo de fugir.

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Mulder acordou lentamente. O calor dominava a cabana. Continuou deitado na cama, irritado com o suor que descia de seu rosto, que umedecera a gola de sua camiseta, deixando-o com uma sensação de frio somente no pescoço. 

Odiava acordar assim. Odiava acordar naquele lugar, sempre odiara. Mas nada podia fazer a respeito. Não antes, pelo menos.

Agora não tinham mais motivos para permanecer ali. O mundo havia sido invadido pelos alienígenas. E mesmo que eles ainda estivessem vivos, não havia mais uma verdade a ser dita. Ninguém iria querer silenciá-los.

Pensando bem, mesmo que o mundo não tivesse sido invadido, o que era improvável, principalmente devido aos acontecimentos da noite anterior, ainda assim eles estavam livres. A data havia se passado, e agora, tendo-se passado tantos anos, dificilmente alguém ainda estaria atrás deles.

Mulder se perguntava se alguém jamais estivera atrás deles, na verdade. Afinal, não teria sido tão difícil assim encontrá-los.

Ele tinha o costume de ir até a cidade mais próxima para buscar mantimentos. Havia conversado com diversas pessoas, durante essas visitas. E Scully também havia feito a mesma coisa.

As pessoas falam, principalmente em lugares afastados como aquele onde viviam. 

De qualquer forma, ninguém jamais os procurara, e eles desenvolveram a crença de que estavam se escondendo muito bem. Era uma ótima crença. Isso os protegia de precisar encarar uma realidade cruel, aquela onde os dois teriam se escondido em vão, e na qual o resto do mundo pouco se importava em procurar por eles.

Mulder se levantou, tentando fazer pouco barulho, mas percebeu pela respiração da mulher ao seu lado, que sua tentativa fôra infrutífera.

Scully manteve-se em silêncio, no entanto. Por um instante, Mulder se perguntou sobre os motivos para que ela não falasse com ele naquele minuto.

A resposta, no entanto, estava guardada no fundo do coração dela. Nem mesmo ela poderia colocar em palavras as dúvidas que a assaltavam naquele momento.

Estavam vivos, e pelo que podia notar, a cabana estava inteira. Nenhum alienígena havia invadido a cabana. Ao menos a cabana, mas quem sabe o mundo?

E se não havia acontecido nada? E se tudo houvesse sido em vão? Desistira de seu filho por nada? Deixara de viver uma vida normal por causa de uma data que não significava nada? Teria jogado fora anos de sua vida, e o próprio relacionamento com Mulder?

E se a invasão tivesse acontecido? E se o mundo estivesse destruído, milhões de pessoas mortas, crianças, famílias inteiras massacradas, e os dois haviam podido evitar, mas preferiram se esconder nos confins do mundo, em um lugar seguro.

Nenhuma resposta lhe trazia conforto. Naquele momento, ela queria poder ligar o rádio, escutar alguma música antiga, deitar a cabeça no travesseiro e dormir até umas quatro da tarde.

Sem qualquer preocupação no mundo.

Mas isso não aconteceria. Por mais que lhe doesse descobrir a verdade, começar a enfrentar o futuro, ela sentia a necessidade de ver com seus próprios olhos o que havia acontecido.

Viu Mulder se afastar, em direção à porta. Lutou por um momento contra a vontade de permanecer imóvel, meio que morta naquela cama, fingindo que ainda era 22 de dezembro. Mas a mentira durou pouco.

Scully se levantou e foi para a sala.

_ Queria saber como nós conseguimos dormir.

A voz de Mulder surgiu meio rouca, como um locutor de uma rádio com muita interferência. 

_ Eu não sei, acho que nós sabíamos que não teria feito diferença alguma se ficássemos acordados.

_ Provavelmente.

_ Mulder, o que você quer fazer?

_ Antes de tudo? Quero ir até a cidade, ver como estão as pessoas. Existem algumas pessoas por lá com quem eu fiz amizade. Acho que você também.

Scully preferiu não pensar nisso. Não enquanto não soubesse o que havia acontecido.

A decisão de irem até a cidade foi tomada rapidamente, sem conflitos. A preparação para a ida foi um pouco mais complicada. Teriam que levar o que precisavam, e não sabiam exatamente o que. Impossível dizer o que esperava pelos dois daquele momento em diante.

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_ Fica muito longe daqui?

A expressão do homem alto de Arroyo Seco subitamente se modificara da desconfiança para a curiosidade. A ruiva, de pé ao lado dele, o olhou de soslaio, também já não parecendo tão aliviada quanto antes. 

Desde que haviam entrado no armazém, diversos sentimentos diferentes podiam ser lidos nos semblantes de ambos. 

J.J. se considerava um livre pensador, dedicado ao estudo da psique humana. Era, sobretudo, muito bom na leitura das expressões faciais.

Poderia afirmar, com toda certeza, que era ansiedade, apreensão, quase desespero, o que aqueles dois sentiam quando entraram na loja, cerca de meia hora antes. Mal podiam disfarçar estes sentimentos, enquanto vagavam entre as prateleiras, fingindo escolher mercadorias. Se não os tivesse a tanto tempo como clientes, J.J. diria que se comportavam potencialmente como ladrões de loja. Mas, há cerca de dez anos, um ou outro vinha esporadicamente ao mercadinho para comprar mantimentos. De modo que já não lhe eram completos estranhos.

Depois de muitas idas e vindas, haviam finalmente parado diante do balcão com diversos pacotes de pilhas e outros tantos de velas. 

O Sr. Estranho sorriu um sorriso sem graça e começou a puxar conversa

_ Bom dia! - ele disse e J.J. respondeu do mesmo jeito, acrescentando um sorriso caloroso ao cumprimento. 

A ruiva fez um meneio de cabeça à guisa de resposta. Seu companheiro limpou, com as costas da mão, algumas gotículas de suor que lhe umedeciam a testa

_ Parece que não vai haver neve neste Natal... 

Observação idiota, mas o homem alto visivelmente se esforçava para continuar a conversa.

_ Para falar a verdade, a última vez que nevou, por aqui, foi em 1975, se não me engano. - respondeu o lojista.

_ Uhnn... - fez o homem alto, balançando a cabeça, meio sem graça. 

Um silêncio agoniado pesou por alguns instantes, enquanto J.J. somava os valores das mercadorias e as arranjava em caixas de papelão. 

_ Quinze dólares e quarenta e cinco. - falou, por fim.

O outro ainda tinha aquela expressão engraçada, de ansiedade e agonia, quando a mulher, visivelmente irritada pela hesitação do companheiro, perguntou de supetão:

_ Ouvimos uma explosão muito forte, ontem à noite. O senhor sabe o que foi?

A voz dela, normalmente um tanto grave, soou uma oitava acima do normal, denunciando seu nervosismo. O homem alto voltou-se para J.J., apreensivo. Sua mão pousou no ombro da companheira num gesto tenso. 

_ Explosão? Ah, sim... 

Como o lojista continuasse arrumando metodicamente as moedas dentro da gaveta da registradora, a Sra. Estranho insistiu: 

_ E...?

_ Um caminhão transportando combustível se acidentou na estrada. Houve um incêndio e parte do combustível que vazou atingiu um gasoduto que corre perto na margem da estrada. Foi uma explosão e tanto, não foi?


Foi a primeira mudança de expressão da dupla. De angústia para dúvida. 

_ O senhor tem certeza? - insistiu ela. 

J.J. poderia ter se irritado com a pergunta, num dia normal. Mas não naquele dia. 

_ Claro! Sou bombeiro voluntário. Estive lá, ajudando a combater as chamas

Segunda mudança de expressão. Saiu a dúvida, entrou o alívio. 

_ Até feri o braço nos destroços, vejam... - ele mostrou o antebraço envolto numa atadura

No homem, porém, o alívio durou pouco

_ Já se sabe qual a causa do acidente? - ele agora estava desconfiado. 

_ Um motorista bêbado, viajando no sentido contrário. Alega que o carro "apagou" e ele perdeu o controle, acabando por atravessar a pista. Conseguir desviar bem a tempo de se salvar. O caminhão, no entanto, não teve como se safar.

_ O local do acidente... Fica muito longe? - o homem alto voltou a repetir. 

J.J. como que despertara de um sonho. Coçou o queixo, enquanto calculava mentalmente a distância. Não era a toa que era conhecido pela precisão de suas informações. 

_ Cerca de oito milhas e meia a oeste da cidade. 

O homem alto voltou o olhar inquisitivo para a ruiva. Ela franziu o cenho, pensativa. Depois torceu um dos cantos da boca em clara desaprovação. 

_ É uma boa idéia, sim. PRECISO ver com meus próprios olhos. NÃO! Claro que não há perigo algum. 

Impressionante o que uma simples troca de olhares podia significar entre aquele casal! J.J. não cansava de se surpreender com eles. 

O homem olhava para J.J. como quem pede confirmação. 

_ É verdade, Sra. As chamas foram controladas ontem mesmo. - disse J.J. afinal. 

O Sr. Estranho sorriu, triunfante. 

_ Mas não há muito para se ver, não. Eu lhe garanto. - arrematou o lojista. - Por lá, só há mato queimado e a carcaça carbonizada do caminhão. 

_ E os motoristas? 

_ O do caminhão, coitado, morreu na hora. O bêbado esteve "guardado" na cadeia municipal até hoje de manhã. 

_ Será que poderíamos falar com ele? - ela perguntou. 

_ Duvido muito. Quando estava vindo para cá, mais cedo, vi o xerife o levando embora de carro. A essa hora já devem ter chegado à capital.

O homem fez uma expressão desapontada. A mulher pareceu outra vez preocupada. 

_ Mas por que para a capital? - perguntou a ruiva. 

_ Não sei. Acredito que a companhia que é dona do caminhão está processando o motorista do carro. Acho que ele foi depor na delegacia da capital. 

J.J. se calou por um instante, observando a dupla. A mulher parecia satisfeita com a explicação. O homem era pura decepção. Os dois se entreolharam mais uma vez, pegaram as compras e despediram-se do lojista. Pelo vidro da porta, J.J. pode ver quando se encaminharam à camionete, o Sr. Estranho com a mão levemente apoiada na espádua da companheira, como se a conduzisse.

Foi somente quando o automóvel já ia desaparecendo rua acima, que ele se lembrou de um outro detalhe. 

Esquecera de mencionar os dois homens em ternos negros e óculos escuros que havia visto num carro também negro que seguia o veículo do xerife. 

Talvez tivesse alguma importância. Talvez não.

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A viagem para Washington foi repleta de dúvidas e apreensão.

Após terem enchido o tanque da camionete, os dois sequer discutiram o assunto. Ambos sabiam que deveriam partir. Deixaram a pequena cidade, que havia sido o único elo entre os dois e a civilização e partiram de volta para casa.

Não sabiam o que iriam encontrar, apesar da calma estampada nos habitantes da cidade. Aquela história do caminhão acidentado parecia suspeita demais.

Se não fosse aquele detalhe sobre o carro ter parado de funcionar, eles até que não achariam nada de tão estranho. Mas a falta de energia, exatamente naquela data, parecia a ambos um sinal. 

Se naquela região remota havia havido aquele acidente, quem sabe como estaria a situação em centros mais populosos.

À medida que prosseguiam em sua viagem, a tensão ia diminuindo. Era fácil notar como tudo parecia perfeitamente normal.

Carros passavam por eles em velocidade normal, não havia qualquer acidente na estrada, nos postos de gasolina onde paravam eventualmente, encontravam pessoas aparentemente tranqüilas, e em dois daqueles postos de serviço puderam assistir ao noticiário na TV.

Nada de luzes brilhantes sobrevoando os céus, relatos de abduzidos que agora gritavam que nunca foram loucos, que sempre estiveram certos, imagens de foto e destruição.

Somente as mesmas notícias de sempre. As mesmas guerras que nunca acabavam, um louco que seqüestrara todos os clientes de algum banco, um time de baseball que conseguira vencer o campeonato após anos de tentativas frustradas.

Nada que indicasse uma invasão de seres de outras galáxias.

Prosseguiram a viagem, de qualquer maneira.

Quando, enfim, chegaram a Washington, estavam cansados demais para tirarem qualquer conclusão sobre os efeitos da invasão ou se ela havia ocorrido, afinal.

Haviam vivido ali por tanto tempo, que já sabiam qual área da cidade possuía bons hotéis. Procuraram por um deles e se alojaram rapidamente.

_ Scully, acha que deveríamos procurar por alguém?

_ Você quer dizer quem?

O tom da pergunta indicava a quem ela estava se referindo. William. Mas Mulder preferiu fingir que ela se referia a Doggett, Reyes ou Skinner.

O mundo parecia ter escapado de uma invasão, e talvez eles não corressem mais qualquer perigo. Poderiam procurar pela criança sem problemas.

Mas o que o preocupava não era, sequer, a dificuldade de encontrá-lo, ou os riscos, mas sim como o menino reagiria após dez anos. Ele jamais os havia conhecido, talvez nem ao menos soubesse que era adotado.

Como explicar para aquela criança os motivos que levaram sua mãe a dá-lo para outra família?

E o pior, como explicar que decidiram voltar porque o mundo "não" acabara?

Aquela conversa, mesmo hipotética, era surreal e dolorosa.

Procurar por Monica, Doggett e Skinner era lógico e sensato. Não tardou para Mulder responder.

_ Doggett, Skinner e Reyes. Sua mãe, quem sabe. Acho que seria bom encontrá-los e não acho que seja perigoso. A data passou, não existe mais nenhuma verdade a ser escondida.

_ Mulder, não acha isso triste? Que nós dois tenhamos praticamente colaborado para manter a verdade escondida?

Mulder não respondeu. Continuou desfazendo a pequena mala que haviam trazido. Mas Scully não se deu por vencida. Aquela pergunta sempre estivera presente entre os dois, e talvez aquele fosse o momento certo para que os dois a respondessem.

_ Mulder?

_ Quer comer alguma coisa?

_ Não vai responder?

_ O que você quer saber, Scully? Você tem a resposta. Sempre teve. Eu não vou ficar aqui me defendendo, dizendo que nós tomamos a decisão correta, porque eu não sei se isso é verdade. Quer comer alguma coisa?

Dessa vez Scully nada disse. Ignorando-o, ela pegou algumas roupas e foi até o banheiro.

Não havia muito o que discutir, o que tiveram que fazer durante anos havia sido uma escolha mútua. Ela estaria sendo injusta se jogasse na cara dele que a fuga havia sido em vão, que talvez não houvesse ninguém que os perseguisse.

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A intenção de procurar por seus ex-colegas ficou somente na vontade. Mulder havia deixado Scully no hotel para buscar informações. Mas não podia, simplesmente, aparecer na porta do FBI perguntando pelos agentes.

Já sabia que uma busca no catálogo telefônico seria infrutífera. Eles não tinham seus números divulgados. Não seria difícil verificar nos locais onde moravam, dez anos antes, mas a chance de qualquer um deles ainda morar no mesmo local era remota.

Seria mais simples, por enquanto, verificar a situação pós-invasão na cidade.

Era importante saber, também, se os dois ainda corriam riscos. Mas descobrir isso parecia impossível sem algum contato.
Sem seus colegas ou os pistoleiros, que haviam sido seus informantes durante anos, Mulder se sentia como um turista perguntando onde era o Capitólio.

Após caminha um pouco pelas ruas, pôde perceber que não haviam sinais de qualquer invasão. Ninguém comentava acidentes estranhos, mas em uma cidade como Washington acidentes passavam despercebidos.

E mesmo que muitos incidentes ocorressem no mesmo período, as pessoas diriam somente que havia sido um ida de azar.

Una-se a isso a proximidade do natal, capaz de distrair as pessoas de assuntos importantes, e aquele silêncio estaria explicado.

Mulder decidiu voltar para o hotel. Deixaria esse assunto para o dia seguinte. Chamaria Scully para um jantar tranqüilo e ambos teriam uma noite normal. Não uma típica noite de natal, mas ainda assim uma noite tranqüila.

Scully não parecia muito animada com a idéia, no entanto.

_ Vamos, Scully, somente para relaxar. Você escolhe o restaurante.

_ Mulder, hoje é noite de natal, esqueceu? Os poucos restaurantes abertos estão lotados.

_ Acha que alguém poderia nos reconhecer?

_ Washington não é tão grande assim. Acho arriscado.

_ Que tal um restaurante distante do centro? Lembra daquele restaurante de frutos do mar? Fica a uns quinze minutos do centro. É bem distante e sempre abre no natal.

_ Como você sabe?

_ Scully, a coisa que eu mais fazia era passar o natal sozinho, lembra?

Se havia alguma auto-piedade contida naquelas palavras, ela havia se perdido na expressão cômica de menininho desamparado que ele preparou para o momento.

Scully não pôde deixar de rir, e acabou concordando em sair para jantar.

Talvez isso desse aos dois o gosto não só de camarão e lula empanada, mas também da liberdade que haviam abandonado anos antes.

No caminho para o restaurante, Mulder pareceu ter, subitamente, mudado de humor.

Sua expressão se tornara séria. Seus dedos brincavam nervosamente no volante. Algumas vezes parecia incerto sobre qual rumo seguir.

Scully passou a observá-lo e começou a se preocupar quando notou que ele não parava de olhar para o retrovisor.

Ela se virou para ver se havia algo atrás deles, mas a rua estava deserta.

_ Mulder, o que foi?

_ Nada.

_ Você ficou nervoso de repente, o que foi?

_ Quando a gente saiu do hotel percebi um carro preto nos seguindo. Até agora há pouco ele estava atrás de nós.

_ Não vejo nenhum carro.

_ Eu sei. Provavelmente só estou sendo paranóico. Nada como voltar para casa, não é?

Antes que ela pudesse dizer algo, um carro preto surgiu vindo de uma rua transversal em alta velocidade. O carro se posicionou à frente da camionete e diminuiu a velocidade, obrigando Mulder a fazer o mesmo.

_ Mulder, você tem que sair dessa rua.

_ Eu sei, vou virar na próxima. Se segura.

Mulder deu uma guinada rápida no volante, entrando em uma rua à sua direita. Ainda ouviram a freada do carro que os perseguia.

Não seria difícil para o condutor reencontrá-los. Aquela rua tinha uma única saída. A questão agora era chegar lá antes do outro carro.

Pelo barulho da freada, Mulder imaginou que seu perseguidor teria voltado e entrado na mesma rua que eles. Mas não havia nenhum outro carro atrás.

O mais provável era que o carro negro já tivesse contornado o quarteirão e os dois carros se encontrariam no fim da rua. 

Não havia muito o que Mulder pudesse fazer a respeito. 

Abandonar o carro e fugir a pé era uma opção, mas ele preferia não se livrar da camionete. Teriam dificuldades em conseguir outro veículo.

Além disso, não teriam tempo para retirar suas coisas lá de dentro. Qualquer coisa dentro do veículo poderia servir como pista sobre as identidades que ambos criaram quando fugiram. 

A outra alternativa seria retornar para a rua onde estavam antes, mas seria impossível manobrar em uma rua tão estreita. Teriam que fazer o trajeto de ré.

Estava escuro e Mulder não sabia se conseguiria fazer isso sem deixar metade da camionete nas paredes.

A única alternativa que lhes restava era, então, prosseguir o mais rápido possível, esperando não colidir com qualquer outro carro que estivesse na rua principal. 

Para sorte dos dois, aquela era noite de natal. Não haviam muitos carros circulando.

Ao deixarem a rua estreita, ainda puderam ver o carro preto surgindo do cruzamento oposto. Mulder acelerou o máximo que pôde e, por alguns instantes, os dois carros se encontraram, praticamente frente à frente.

Mulder desviou com rapidez evitando a colisão e buscou uma nova via de fuga. O motorista do outro carro parecia tão persistente quanto ele.

Novamente os dois carros se encontravam bem próximos.

O carro preto estava do lado direito da pista, o que impedia que Mulder pudesse ver o rosto do motorista. Esperava que Scully tivesse melhor sorte.

A corrida continuou por mais um quilômetro, com os dois carros emparelhados.

Mulder começava a achar que seria impossível escapar, e o pior, pela forma com que o outro motorista dirigia, parecia que ele queria manter os dois carros emparelhados, talvez para poder preparar-se para atirar nos dois.

Claro que a primeira pessoa a ser atingida seria Scully, pela posição em que se encontrava.

Mulder entrou em pânico ao pensar nisso. Acelerou ainda mais e, ao ver que poderia escapar por uma rua paralela, freiou de repente.

A manobra fez com que a camionete derrapasse e todo o peso da parte traseira foi lançado para a direita, onde estava o carro preto.

O barulho do metal foi a primeira coisa que deu certeza a Mulder de que as coisas haviam fugido de seu controle, se é que jamais estiveram.

A força do impacto lançou seu corpo contra a porta do passageiro. Mulder sentiu o choque de seu corpo contra o de Scully.

Em seguida, a situação se inverteu. Ele se viu sendo jogado contra o volante e sua porta, e sentiu Scully batendo contra seu ombro.

Então todo o movimento do carro cessou.

Mulder fechou os olhos, respirou fundo, como se pudesse, com isso, verificar se estava inteiro. Podia ouvir seu próprio coração batendo acelerado e sua respiração pesada. 

Mas não ouvia nenhum barulho vindo do banco do passageiro. Scully estava silenciosa demais. Com receio de sequer tocá-la, Mulder procurou por sinais de vida.

Naquele momento percebeu o motorista do outro carro fugindo. Por uma breve fração de segundo teve o impulso de perseguí-lo, mas por duas razões se deteve. Primeiro não poderia deixar Scully ali, sem nem ao menos saber como ela estava.

A segunda razão o teria feito desistir de qualquer luta.

Ao ver o homem fugindo, conseguiu ver sua face. Uma pessoa que Mulder já conhecia. Alguém que ele pensara que jamais veria novamente.

Knowle Rohrer.


CONTINUA



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