Perfect Strangers
O que caracterizaria um mundo perfeito? Seria aquele capaz de satisfazer a todos os sentidos? Tudo nesse mundo, então, deveria ser bonito para os olhos, suave ao tato, saboroso ao paladar, melodioso aos ouvidos, agradável ao olfato. Como um gostoso gole de água fresca numa bela manhã de primavera.
Por ser perfeito, não deveria haver, neste mundo, nada que se pudesse enquadrar como falha. Doenças, guerras, fome, tristeza, dor, violência, poluição. Tudo isto deveria ser abolido e ceder lugar à alegria, ao amor, à felicidade, à beleza. Perfeitos.
J.J. amava a perfeição. Era apaixonadamente devotado a tentar cercar-se dela.
Nas prateleiras de seu mercadinho, sempre impecavelmente limpo e cheirando a flores, as mercadorias eram dispostas harmoniosamente por cor, tamanho, formato da embalagem. Uma caixa ou uma lata deixadas fora do lugar por um freguês incauto eram imediatamente recolocadas em posição para não ferir a simetria.
As gavetas de roupas, os cabides no armário, seu modo de se vestir sempre com peças do mesmo tom eram reflexos desta mania de perfeição.
J.J. também fazia sua parte para levar o mundo à perfeição. Freqüentava a igreja aos domingos, fazia caridade e trabalhos voluntários, defendia a natureza.
A vida tranqüila na cidadezinha de interior lhe permitia dedicar o tempo necessário a essa busca por um mundo perfeito.
Seu maior defeito, aos seus próprios olhos, o vício de fumar, ele abandonara dez anos antes, à custa de muito esforço. Substituíra os dois maços de Morley que fumava religiosamente todos os dias por uma hora de jogging matinal. Religiosamente.
Mas o que fazer quando todo o universo à sua volta conspira contra a perfeição? Será essa pitada de caos que tempera nosso cotidiano um ingrediente essencial ao funcionamento do mundo? Pode o mundo perfeito sobreviver aos caos?
22 de dezembro de 2012
05:00 da manhã
J.J. acordou com o despertador berrando em seu ouvido. Ao contrário do normal, estava atrasado. Ao contrário do normal, também, ele não saltou da cama imediatamente. Deixou-se ficar, enquanto tentava decifrar a causa daquela sensação que lhe oprimia o peito.
Lá fora, ainda estava escuro. Uma brisa quente agitou a cortina, ao penetrar no quarto pela janela aberta. Estava quente, quente demais para dezembro. Por todos os cinqüenta e um anos de sua vida ele morara em Oscuro, um dos lugares mais quentes do Novo México. Mas não tinha recordação de qualquer outro inverno tão quente quanto aquele.
Talvez fosse aquilo o que o incomodava, talvez fosse o calor que lhe causasse aquela sensação de agonia. Ou as costeletas de porco que Jane Sue preparara para ele no jantar da noite anterior. Sim, as costeletas, deliciosas como sempre, indigestas como nunca.
Melhor tomar um anti-ácido antes de sair para o jogging matinal, ele pensou, enquanto se levantava da cama com todo cuidado para não acordar a esposa.
Antes de sair, ainda deu uma última olhada em Jane Sue, profundamente adormecida, e no céu completamente sem nuvens, iluminado pela primeira claridade da manhã que já se infiltrava suavemente no quarto.
Aquele tinha tudo para ser um dia perfeito.
07:00 da manhã
A melódica sonoridade do mantra e o perfume pungente do incenso convidavam à meditação. Assim como invocava à reflexão a suavidade da luz da manhã cuja claridade feérica era filtrada pela fina cortina de seda da sala de oração. A gentileza domando a fúria.
Naquela manhã, porém, Sari não conseguia se concentrar. O que normalmente para a menina era algo trivial, o desligar-se do mundo material e deixar a mente vagar em busca do nirvana, naquele dia lhe parecia impossível.
Apesar da pouca idade, Sari completaria onze anos dentro de três dias, a menina sempre tivera facilidade para a meditação. Fosse pelo hábito, adquirido desde muito pequena, de participar das preces com os pais, fosse por algum dom inato, bastavam a ela uns poucos minutos em silêncio, o olhos fechados, para que sua mente se distanciasse do corpo material. Nestes momentos, por vezes, o pensamento ia tão longe que Sari julgava avistar no horizonte a suave luz dourada que ela acreditava ser o nirvana.
Mas não era assim naquele dia. Pelas pálpebras semicerradas, os olhos negros de Sari bailavam em suas órbitas sem fixar-se em nada. Voejavam da chama alaranjada das velas para as brasas vermelhas dos bastões de incenso e para o semblante grave do pai, concentrado na oração. Detinham-se, por um momento, no tremor dos lábios da mãe ao entoar o mantra e, de lá, dardejavam rápidos para o sorridente Buda de madeira escura que repousava sobre a mesinha. Nada era capaz de trazer-lhe a tranqüilidade necessária à meditação.
- Acalme seu espírito, - ela insistia mentalmente, repetindo as palavras que o pai sempre lhe dizia.
A inquietude, no entanto, dominava seu espírito de maneira incontrolável.
Talvez fosse a antecipação do dia de festa na escola, o último antes do recesso de final de ano, o que a inquietava. Um dia que tinha tudo para ser divertido, cheio de jogos, brincadeiras e divertimentos.
Talvez fosse a proximidade de seu aniversário. Sari não gostava de aniversários, do seu, em particular. Não que não gostasse de ficar mais velha. Pelo contrário, sofria da mesma impaciência infantil que compele as crianças a desejarem se tornar adultas o quanto antes.
Seu problema era com a data de seu aniversário. 25 de Dezembro, Natal para os cristãos. O melhor dia do ano para se fazer aniversário, se você não quiser ser lembrado. O que, obviamente, não era o caso de Sari.
A menina desejava, sim, ser lembrada. Não, como lhe acontecia agora, por ser diferente. Não pelo tom mais escuro de sua pele ou pelo negro dos cabelos muito lisos e dos olhos amendoados. Não por ser a menina mais inteligente ou por tirar as melhores notas de sua classe.
Sari queria ser lembrada por ter amigos. Mas isso era difícil demais para ela.
Por isso, Sari mergulhava mais e mais fundo nos estudos e entregava-se com afinco à prática de sua religião.
Quem sabe assim, ela conseguiria fazer daquele um mundo melhor para as outras pessoas?
Quem sabe assim, ela alcançaria o nirvana, a suprema perfeição?
09:00 da manhã
O calor intenso, que fazia seu corpo transpirar em abundância, também era responsável por secar todo o suor de sua pele quase que no mesmo instante em que ele deixava os poros. O fogo aproximava-se velozmente, consumindo tudo o que estava em seu caminho. O homem percebeu que não havia mais escapatória quando viu, atrás de si, uma nova barreira de labaredas erguer-se como uma muralha entre ele e a rua. Uma campainha soou alta e sincopada em meio ao rugido das chamas.
Wayne despertou com o coração aos pulos. Levou alguns instantes até entender que o fogo fora um pesadelo, mas a campainha era real. O telefone tocava insistentemente.
- Alô... – resmungou, mal-humorado.
- Garcia? Precisamos de você aqui. A esposa de Leibowitz entrou em trabalho de parto e ele teve de ir para o hospital com ela. Alguém precisa cobrir o turno.
Wayne pensou em contestar. Por que esse alguém precisava necessariamente ser ele? Por que diabos ele era SEMPRE o alguém? Mas parecia não haver muito espaço para contestações no tom imperativo do capitão Wilkinson.
- Sim, senhor. Em meia hora estarei aí. - respondeu, a contragosto.
Quando ergueu-se da cama, a cabeça girava. Havia deixado o serviço ao fim de seu turno, por volta de meia-noite e pouco, e fora beber. Estava cansado e algumas doses sempre o ajudavam a relaxar.
Bebera mais que a conta. Muito mais, a julgar pelo estado em que se encontrava sua cabeça. Mas quem se importava? A quem interessava o caos que era sua vida? Nunca fora e nem nunca pretendera ser o senhor perfeito que desejavam sua mãe e sua avó. Apesar do nome que lhe quiseram dar, John Wayne Garcia, dos heróicos personagens do velho oeste ele só herdara o gosto por bourbon.
O caos contra o qual ele lutava em seu trabalho como bombeiro permeava cada mínima faceta de sua vida. Quando não por acidente, por escolha própria. Wayne vivia sozinho, bebia demais, envolvia-se com prostitutas. Não se julgava capaz de um relacionamento sério e, sempre repetia para si mesmo, não precisava de um.
Seu único objetivo era continuar trabalhando e vivendo como pudesse, até ter economizado o suficiente para comprar um barco. Estava muito perto de alcançar esta meta. Apenas cinco mil dólares o impediam de concretizá-la.
Aí, então, seu mundo seria perfeito.
11:00 da manhã
- Sementes de girassol? Um minuto que vou verificar no estoque se ainda restam algumas.
J.J. deixou a senhora Hill esperando no balcão, enquanto se dirigia aos fundos da loja. Examinou as prateleiras do estoque com atenção, embora soubesse de antemão que nada encontraria.
Ele se lembrava muito bem da semana anterior, quando o homem de Arroyo Seco estivera no mercado e arrebatara todos os pacotes disponíveis de sementes de girassol e mais uma quantidade de mantimentos tão grande como se estivesse esperando a Terceira Guerra Mundial. Muito estranho!
Aliás, tudo era esquisito no que dizia respeito àquele casal de Arroyo Seco. Não era à toa que o pessoal da cidade os chamava de senhor e senhora Estranho, desde que haviam aparecido ali pela primeira vez, cerca de dez anos antes.
Haviam surgido do nada, com um ar triste e assustado, em meio a uma tarde de quinta feira, e comprado, à vista e em dinheiro, um rancho num lugar distante. E que rancho! Aquela propriedade, nas montanhas em Arroyo Seco, tinha reputação de mal assombrada. J.J. obviamente não acreditava nisso. Mas o certo era que ele não sabia de ninguém que tivesse morado por muito tempo naquele lugar esquecido por Deus. Ninguém, exceto aquele casal. O que fazia crescer ainda mais, entre os moradores da cidade, sua fama de estranhos.
O homem, alto e bem apessoado, vinha regularmente à cidade comprar mantimentos. Era reservado, sem ser antipático. A mulher, miúda e ruiva, dificilmente era vista por ali. Suas aparições eram breves idas ao banco, sempre com um jeito desconfiado.
Ambos tinham sempre um ar assustado, excessivamente cauteloso, como o de fugitivos. Talvez fossem exatamente isso, fugitivos. Mas quem não o era naqueles dias loucos? Muita gente costumava aparecer por ali, procurando, na calma das montanhas, um refúgio contra a violência das grandes cidades.
J.J. não iria se espantar se um dia viesse a descobrir que o senhor e a senhora Estranho estavam em Arroyo Seco se escondendo do mundo lá fora, do caos de que ele era feito. Ou se afastando de suas falsidades e intrigas, em busca de alguma verdade interior. O isolamento das montanhas seria perfeito para isso.
Uma sensação de intenso desconforto na boca do estômago arrancou J.J. de seus devaneios. Ah, droga de costeletas de porco...
- As sementes de girassol realmente estão em falta, Sra. Hill. - ele disse, sorrindo. - Mas leve esses pistaches... por conta da casa. Afinal, nada é totalmente imperfeito, não é?
01:00 da tarde
Crianças podem ser imensamente perversas quando o querem.
O que prometia ser uma animada manhã recheada de jogos e brincadeiras revelara-se mais um episódio de preconceito e exclusão para a pequena Sari. Uma verdadeira provação fora o que a menina enfrentara naquelas terríveis horas na escola.
Ninguém a chamara para brincar ou, quando a chamaram, era, simplesmente, porque não restava mais ninguém para compor os times a não ser a menina. Nas poucas brincadeiras de que participou, o fizera porque sua presença fora imposta pelos professores.
Sari não queria que fosse daquela forma. Ela queria ser aceita pelos coleguinhas pelo que era, uma criança inteligente, divertida e companheira. Mas não era assim. A cor de sua pele, de seus cabelos, sua crença religiosa, seu nome diferente, tudo servia de barreira para afastar as outras crianças.
Se, aos menos, seus pais fossem ricos ou importantes... Mas seu pai fora afastado do cargo que ocupava, na Nasa, por não concordar com a política de divulgação, ou ocultação como ele sempre dizia, de informações praticada naquela agência. Mesmo sendo o brilhante engenheiro aeroespacial que, reconhecidamente, ele era.
Por causa disso, a mãe tivera de abandonar seu trabalho como professora de filosofia em uma conceituada universidade na Flórida e toda a família fora obrigada a se mudar. Foram de cidade em cidade até encontrar a segurança necessária para uma vida tranqüila na cidadezinha onde moravam agora. O pai trabalhava numa pequena indústria local e a mãe gerenciava uma lojinha de produtos esotéricos.
Sentada, na varanda de casa, Sari folheava distraída uma revista feminina. Seus olhos vagavam pelas páginas onde belas modelos louras e com olhos azuis exibiam as peles muito alvas em fotos de moda. Ela deslizou o dedinho moreno por sobre a brancura da pele de uma das fotos, desejando intimamente que, com aquele gesto, pudesse transmutar-se naquele padrão aceito. Uma lágrima singela rolou por seu rosto por saber que isso não possível.
- Sari!
Ela ergueu os olhos do papel, secando a face com as costas da mão. Era William, o mais próximo de um amigo que ela havia conseguido arranjar na escola. Ao menos, ele não a ignorava, nem desprezava por ser diferente. Ela esboçou um sorriso triste.
- Vamos brincar no riacho. Quer vir com a gente? - ele convidou sorrindo.
Claro que queria! Ser convidada para brincar, para fazer parte da turma, era TUDO o que Sari mais desejava. Além do que, fazia uma tarde linda, surpreendentemente quente para dezembro, não havia nuvens no céu... Um dia perfeito para nadar no riacho.
Melhor. Era início do recesso. Não havia dever de casa para fazer, nem a necessidade de estudar naquele dia, nem nos próximos. Sim, ela queria. E como queria!
- Vou só falar com minha mãe e trocar de roupa. Encontro com vocês lá!
Um lindo sorriso iluminava seu semblante quando Sari levantou-se de um salto e correu para dentro, acenando para o garoto.
A esperança de ser feliz reacendera no coração da criança.
03:00 da tarde
O dia, afinal, não estava sendo assim tão ruim quanto parecera às nove da manhã, pensou Wayne, ao bocejar, estendido no sofá da sala de TV do quartel central dos bombeiros. Nenhum chamado a manhã inteira, costeletas de porco no almoço e torta de abacaxi como sobremesa. Nada mal para um dia que começara com a campainha desagradável do telefone e a voz de Wilkinson berrando ordens do outro lado da linha.
Cochilara a maior parte do tempo. Assistira TV ou jogara conversa fora com colegas que não via há muito tempo. Nada a fazer, senão isso. Melhor que ficar em casa! E ele ainda receberia salário por aquilo.
Faltava apenas Wayne conseguir alguém que cobrisse seu turno da noite e poderia dizer que havia tido ao menos um dia na vida bem perto de ser perfeito.
05:00 da tarde
Trancada no banheiro, Sari esfregava furiosamente os fundilhos do short branco. Aquela mancha tinha de sair de qualquer jeito. A mãe ficaria ensandecida se descobrisse que ela havia sujado seu short novo.
Mas e se Sari contasse à mãe a verdade? E se dissesse que aquele sangue que manchara a roupa saíra e continuava saindo de dentro dela? E se contasse à mãe que estava sangrando?
Não! Sua mãe ficaria ainda mais zangada se imaginasse que Sari havia se ferido. Ou tremendamente preocupada, o que era pior, e certamente a levaria ao médico para tomar injeções. E a menina detestava tomar injeções. Sari preferia sangrar até a morte que tomar uma daquelas injeções enormes e dolorosas que tanto gostava de aplicar o dr. Conrad.
Talvez fosse melhor mesmo sangrar até morrer. Só assim nunca mais teria de passar por humilhações como as que havia sofrido naquela tarde.
Tudo parecera tão certo, tão perfeito quando a tarde começara e William a convidara para ir ao riacho... Tão perfeito que até mesmo sua mãe, contrariando o costume, não criara nenhum empecilho para que a menina saísse.
No riacho, estavam diversas crianças da escola. Alan, Lisa, Bobby, Sally, Angela, Mark, todos, sem exceção, comandados por William, haviam tratado Sari como uma deles. Brincaram, nadaram, falaram bobagens. Tudo perfeito. Até o fatídico momento em que o inferno começara.
Estavam todos sentados em círculo, jogando um jogo de memória, onde cada participante devia repetir toda a estória contada por seus antecessores e acrescentar alguma coisa ao final. Sari era muito boa em jogos de memória e em inventar estórias e estava se saindo muito bem. Cada acréscimo seu à estória toda arrancava uma rodada de palmas e gargalhadas dos coleguinhas.
Ela seria a próxima a jogar e estava totalmente concentrada no que Mark inventava por seu turno. Foi nesse instante que sentiu uma pontada no baixo ventre. Não era exatamente uma dor, era mais como se alguém apertasse sua barriga com muita força. Talvez fosse algo que houvesse comido...
E, então, era sua vez. Sari repetia toda a longa ladainha e se preparava para acrescentar um final engraçado, quando sentiu uma coisa estranha. Algo quente parecia estar escorrendo por entre suas pernas.
A garota quase não conseguiu terminar de falar, tamanho o desconforto. Não era possível que estivesse fazendo xixi nas calças, como um bebezinho!
- O último a pular na água é mulher do padre!
Aquela sensação desagradável continuava a incomodá-la, quando Alan saiu correndo em direção ao riacho. Os outros o seguiram. Sari, no entanto, não queria se levantar.
- Venha, Sari! A água está uma delícia. - convidou William.
A menina balançou a cabeça negativamente e esboçou um sorriso sem graça. Ela definitivamente não queria se levantar. Algo, no fundo de seu coração, lhe dizia que era melhor ficar exatamente onde estava. E foi o que ela fez, ignorando os apelos das outras garotas.
Sari não percebeu quando Alan e Bobby cochicharam um com o outro. Tampouco reparou quando saíram da água e caminharam sorrateiros até estarem ao seu lado. Ela somente os viu quando os dois garotos a ergueram pelos braços da pedra onde estava sentada e a largaram de pé em meio às outras crianças que também haviam saído da água.
- Ei! Olhem as calças de Sari! Sari fez porcaria nas calças! - gritou Alan, apontando para a grande mancha avermelhada que tingia o short branco da menina.
Ela, assustada, imediatamente levou as mãos aos fundilhos e elas ficaram sujas de vermelho.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças! - repetiam com galhofa Alan, Bobby e Mark, às gargalhadas.
A garota mordia os lábios para conter o choro, mas, ainda assim, as lágrimas logo explodiram de seus olhos.
Nas imagens turvas pelo pranto, Sari notou que William se aproximava dela com um sorriso carinhoso. Seus lábios se moviam em palavras incompreensíveis para a garota. Tudo o que ela sabia, naquele exato instante, era que precisava sair dali. Não queria que eles a vissem chorando. Não queria que William a visse chorando.
Saiu em disparada pelo caminho de volta para casa. O pranto agora corria livre por seu rosto, tentando afogar a vergonha que sentia.
Nunca mais queria ver ou ser vista por aquelas crianças. Precisava convencer o pai que era hora de mudarem de cidade outra vez. Precisava sair dali.
Sari corria e chorava, sem se importar com o mundo à sua volta.
Entrou em casa como um raio e trancou-se no banheiro, onde ainda estava, quando sua mãe começou a bater na porta.
- Sari, minha filha! Você está bem?
Ela não respondeu, não queria responder. Se o fizesse, a mãe notaria, pelo tom de sua voz, que estava chorando. E Sari não queria que a mãe perguntasse o porquê.
- Sari? Sari? - a mãe soava preocupada.
Então, a menina ouviu o ruído da chave sendo girada na fechadura. O pânico a dominou. Pôs-se a esfregar ainda mais vigorosamente a mancha nas calças e respirou fundo, à espera do fim.
08:45 da noite
- Vinte e seis! - anunciou a voz da loura bonita no vestido colante.
Sem despregar os olhos da TV, Wayne mal acreditava no que estava acontecendo.
De manhã, no caminho para o quartel, ele havia parado para tomar um café. Por alguma razão, enquanto procurava nos bolsos uma moeda para pagar o lanche, seus olhos foram atraídos pelo colorido dos bilhetes da loteria local. Ele não costumava comprar bilhetes de loteria. Wayne não acreditava em sorte. Mas a fascinação por aqueles quadradinhos de cartolina multicor fora tão grande que ele não resistira em adquirir um.
E agora, diante dele, na TV, apenas uma das bolinhas que subiam e desciam dentro do globo de plástico o separava do prêmio máximo.
Ele esquecera a raiva e a frustração por não encontrar um colega que o substituísse, esquecia o cansaço do segundo turno consecutivo. Aquelas bolinhas brancas, subindo e descendo ao sabor do jato de ar no interior do globo transparente, eram tudo o que importava no mundo. Ele as observava fascinado, os dedos apertando com força o bilhete de cartolina, como se não quisessem deixar escapar o sonho.
Então, um jato de ar mais forte isolou uma das bolinhas em um compartimento no topo do globo. A loura do vestido decotado sorriu um sorriso de mil dentes perfeitos, enquanto tomava a bolinha e a examinava com ar compenetrado, numa lentidão irritante.
Num punhado de segundos que pareceram uma eternidade, pensamentos antagônicos duelaram na mente de Wayne.
Num momento, aquela bolinha trazia seu número. Ele se imaginava em seu barco, nem grande, nem pequeno, simplesmente confortável, singrando as águas cor de turmalina do Golfo do México, sob o sol tépido. O vento nos cabelos, o gosto salgado do ar marinho em sua boca.
No instante seguinte, não era mais seu número e ele duvidava da sorte, da vida, do mundo. Duvidava de Deus, que parecia tê-lo esquecido, mal deixara as fraldas.
- Setenta e quatro! - interrompeu a voz melosa da loura na TV.
Wayne apertou tão forte o bilhete que amassou a cartolina colorida. Setenta e quatro, seu número! Ele havia ganho! Ganhara a loteria! Um milhão de dólares! Mais do que jamais imaginara ter! Todos os seus desejos realizados e mais alguns que ainda viesse a inventar.
O sonho de uma vida perfeita, porém, teria que ficar para depois. A sirene estridente do quartel anunciava uma emergência para os bombeiros.
Wayne mal teve tempo de enfiar o bilhete premiado fundo no bolso e correr para o caminhão. Mas ele não se importava.
Apenas mais um atendimento e o sonho estava prestes a se realizar.
09:00 da noite
A lua já ia alta no céu. A brisa continuava quente, embora um pouco mais fresca que durante o dia.
Recostado na varanda de sua casa, J.J. retorcia as mãos nos bolsos. Aquela sensação de opressão que o perseguira desde que acordara, permanecia. Forte a ponto de fazer voltar a maldita vontade de fumar.
J.J. fechou os olhos e pode sentir o gosto acre da nicotina em sua boca, a sensação da fumaça preenchendo os pulmões. Ele sempre gostara de contemplar o brilho rubro da brasa do cigarro, destacando-se contra a escuridão da noite. Ato falho, tateou os bolsos em busca de um maço.
O que estava fazendo? Malditas costeletas!
Olhou em volta, à procura de qualquer coisa fora do lugar, algo que pudesse distrair seu pensamento da vontade de fumar. As cadeiras brancas estavam simetricamente dispostas. Os vasos de violetas, apoiados no parapeito em perfeita harmonia. Nenhum grão de poeira no chão feria a arrumação perfeita da varanda.
No jardim, em frente à casa, a grama verde estava perfeitamente aparada e as roseiras plantadas em canteiros simétricos, podadas e preparadas para o inverno. No azul profundo do céu noturno, a grande esfera cor de prata da lua cheia destacava-se dentre as inúmeras estrelas brilhantes.
O mundo poderia ser perfeito para J.J. não fosse por aquela sensação desagradável que tinha na boca do estômago e que lhe trazia de volta um crescente desejo por um cigarro.
- Maldição! - ele murmurou baixinho.
Enfiando a mão num dos bolsos, ele resgatou um cigarro, o último do último maço que ele fumara antes de abandonar o vício. No passado, ele o guardara ali como testemunho silencioso de sua vitória contra o vício. Agora, aquele pequeno cilindro de papel e tabaco serviria como baluarte de sua derrocada.
A outra mão, atenta à movimentação da primeira, já trazia aceso o fósforo que consumaria o ato. Quando a chama tremeluzente tocou a extremidade do cigarro, um forte estrondo ecoou no silêncio da noite. No horizonte, uma enorme bola de fogo ergueu-se aos céus.
J.J., soltando uma longa baforada da fumaça mal cheirosa de seu Morley, compreendeu, naquele instante, que seu mundo nunca mais seria perfeito.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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Wayne afagava distraído o bolso da calça onde estava guardado seu passaporte para um mundo perfeito. O pensamento perdido nas águas quentes e cristalinas em um ponto qualquer do mar do Caribe não lhe permitia reparar na total desordem que se espalhava pelo mundo ao seu redor.
Por todo lado, havia fogo devorando a cidade. Uma dezena de incêndios e explosões havia ocorrido quase que simultaneamente em diversos pontos da cidade e arredores. As sirenes dos carros de bombeiros enchiam o silêncio com seus gritos ensurdecedores, enquanto os caminhões vermelhos rasgavam a noite à toda velocidade.
Alheio a tudo, Wayne Garcia sonhava, como nunca se permitira desde os tempos de criança. Sonhava com dias melhores, com sua própria versão de um mundo perfeito. A esperança coloria seus sonhos com cores vívidas e luminosas, tão diferentes da sombria realidade de sua vida.
- Garcia, vamos!
O grito do companheiro o trouxe de volta de seus devaneios para a crueza de uma situação de emergência em andamento.
Parte da casa branca, em Church Falls, ardia. No gramado descuidado, diante dela, um casal observava as chamas, aparentemente atônito, alheio à movimentação dos bombeiros. O homem de cabelos brancos, magro porém forte, era amparado pela mulher morena que o abraçava. Parecia totalmente abatido pela visão do fogo que consumia a casa. A mulher afagava-lhe carinhosamente os cabelos e trazia no olhar um quê de tristeza indefinível e irremediável.
Era tão evidente a desesperança de ambos que Wayne quase se sentia culpado por sonhar com um futuro melhor e foi invadido pela bizarra idéia de que o mundo havia saído de seus eixos, de que algo, naquele momento todo, estava muito, muito errado.
Não houve tempo, no entanto, para entregar-se à filosofia. Wayne ouviu o grito apenas uma fração de segundo depois que reparou no menino. Oito ou nove anos, nas mãos uma bicicleta vermelha, ele surgiu tão próximo à casa que o fogo que a devorava emprestava reflexos avermelhados aos seus cabelos louros.
- Papai! - gritou, quando parte da estrutura em chamas começou a desabar sobre ele.
O homem de cabelos brancos, subitamente recuperado do torpor que o paralisava, correu em direção ao menino. Wayne, porém, foi mais rápido e chegou ao local bem a tempo de receber sobre si um enorme pedaço da parede em chamas.
- Onde ele está? - indagou a voz rouca do homem de cabelos brancos já de pé ao lado de Wayne.
Em meio ao entulho ardente, ele procurou pelo menino. Mas ele havia desaparecido. Era como se houvesse sumido no ar! Ou se nunca estivesse estado ali...
- Socorro! Oficial caído. - gritou a mulher morena, que agora o amparava.
Foi então que Wayne percebeu que estava preso sob o desabamento. Suas pernas, que ele não conseguia mover, estava soterradas debaixo de uma montanha de escombros flamejantes.
E a imagem do bilhete de loteria veio à sua mente. Seu passaporte para um futuro melhor na forma de um quadradinho de cartolina colorida estava sendo consumido pelas mesmas chamas que destruíam suas calças e queimavam sua pele.
A dor maior que ele sentia, no entanto, não era conseqüência das queimaduras que destruíam sua pela ou dos ossos quebrados em suas pernas. Sua imensa dor provinha da súbita clarividência de que não mais haveria um mundo perfeito à sua espera.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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Apenas a monotonia do mantra rompia o silêncio da noite. As velas, o incenso, o sorriso pacificador do Buda na mesinha. Nada parecia capaz de acalmar o coração inquieto de Sari.
Agora ela sabia a verdade. Sua mãe lhe explicara a razão do sangramento. Sari não estava ferida ou doente. Também não sangraria até morrer. Apenas havia dado o primeiro passo no longo caminho para se tornar uma mulher.
A mãe contara estórias bonitas sobre esse evento e as transformações que ele causaria. Comparara a menarca ao pálido raio de sol que faria desabrochar em Sari a flor-mulher. Mas nada, nem belas parábolas, nem palavras comoventes, tiraria da garota a sensação de estar suja, podre, estragada para todo o sempre. Nada seria capaz de convencê-la de que, depois dos acontecimentos daquela tarde, ela um dia teria outra chance de ser aceita pelos outros. Naquele mundo material, não havia esperanças para ela.
Nem no outro, o espiritual, ela estava convencida. Para alcançar o nirvana é preciso ser limpo, ser puro. E como poderia ser ela limpa e pura, sangrando daquele jeito?
Em seus ouvidos, o monossilábico mantra que a mãe entoava ganhou outras palavras.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- zombava Alan, sem parar.
A face gorducha do Buda na mesinha tomou as formas rechonchudas do rosto zombeteiro de Bobby, diante de seus olhinhos turvados pelas lágrimas.
- Sari fez porcaria nas calças! Sari fez porcaria nas calças!- continuava o mantra, à medida em que a luz dourada do nirvana ficava mais e mais longe da menina.
Angustiada, ela desviou o olhar da imagem e de suas zombarias. Os olhos vagaram a esmo pela penumbra da sala até serem atraídos pela chama das velas. Nelas a menina pareceu ver o sorriso de William, seus lábios se movendo em palavras que, ainda que ininteligíveis, eram estranhamente reconfortantes.
William era um bom garoto. Seria uma pena nunca mais voltar a vê-lo. Talvez não fosse assim tão boa idéia pedir ao pai para mudarem de cidade.
Ele ainda sorria gentilmente, na chama das velas, quando um estrondo encheu o ar e interrompendo a cantilena do mantra. Tão forte foi que fez tremer os vidros das janelas.
Toda a família levantou-se e correu para a janela. Lá fora, na distância, um clarão dourado erguia-se no negror da noite. Não era o nirvana com que Sari tanto sonhava, mas fogo que consumia a propriedade de algum vizinho.
Contemplando aquela luz dourada e maligna, Sari percebeu que talvez nunca encontrasse seu nirvana. O sonho infantil de perfeição que alimentara até então não mais fazia sentido.
Não diante de 22 de dezembro de 2012.
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Vivemos de Ibope. :)
Leia as fanfics anteriores.