Perfect World - Parte 1



2012

Um mundo perfeito. Se isso fosse possível, como seria esse mundo? Seria um mundo onde as imperfeições seriam simplesmente escondidas, para que ninguém as visse ou as imperfeições sequer existiriam?

Mais simples aceitar a segunda hipótese, afinal nada seria perfeito se houvesse algo a ser escondido.

Um mundo perfeito seria, então, transparente, atraente, brilhante. Como uma bolha de sabão. A mais perfeita forma geométrica criada pela natureza. Um equilíbrio harmônico entre pressão atmosférica, água e sabão.

Transparente e ao mesmo tempo visível, atraente em sua cor, que sob o sol se torna um arco-íris delicado e de grande beleza.

Efêmera, no entanto. Basta uma leve brisa para que a bolha se rompa, a água e o sabão se desintegrem, não deixando qualquer resquício da existência da bolha.

Estaria, então, o mundo perfeito destinado a desaparecer da mesma forma?

E se a resposta for positiva, estaríamos dispostos a correr o risco de desaparecer no vazio, somente para provar poucos momentos de perfeição?

Será que ao buscarmos o mundo perfeito não estamos condenando nós mesmos ao nada?


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22 de dezembro de 2012
5:00 da manhã

Mulder mal dormira durante a noite. Scully também tivera pouco descanso, mas isso porque ele se levantava a cada meia hora, fazendo com que ela acordasse.

Ela sabia o porquê da agitação dele. Era aquela maldita data.

Não uma simples data, mas a data da invasão da Terra pelos alienígenas.

Antes de começarem a fugir, Scully estava disposta a lutar contra o mundo, em busca daquela verdade. Mesmo nos anos que se seguiram, ela continuava com a mesma disposição, talvez com a mesma intensidade que Mulder.

Depois que descobrira o que era a verdade, Scully passou a desejar que não tivesse jamais sabido. Afinal, o que poderiam os dois sozinhos fazer a respeito? Não tinham mais aliados. Não tinham notícias de Skinner, Doggett ou Reyes há anos. E mesmo que soubessem onde eles estavam, como poderiam procurá-los e trazer mais angústia à vida daquelas pessoas?

Mulder não pensava do mesmo modo, ela sabia. Ele pretendia reunir a todos, destruindo o que provavelmente haviam construído nos últimos dez anos, somente para que gritassem juntos que o mundo iria ser invadido e destruído pelos alienígenas.

A data havia chegado. 22 de dezembro de 2012. Eles não sabiam a hora, nem como tudo ocorreria. Mas eles sabiam.

Aquela data havia sido discutida pelos dois durante muito tempo. No início eram somente discussões civilizadas, inteligentes, respeitosas, mas, com o passar do tempo, e talvez devido ao isolamento ao qual se obrigavam a viver, as discussões se transformaram em brigas cada vez mais exaltadas. Até que um dia, de alguma forma, no calor da discussão, o nome de William foi trazido à tona.

Scully ainda não podia se lembrar qual dos dois mencionara o nome do bebê, e talvez jamais voltasse a se lembrar das palavras exatas que os dois proferiram.

O que restara daquele dia foram duas pessoas que se amavam muito, mas que se separavam cada vez mais pelo silêncio. 

Um silêncio cheio de culpa. Scully acreditava que Mulder a culpava por ter dado o filho para a adoção. Mas ela não tinha coragem de perguntar isso a ele. Afinal, mesmo que ele não a culpasse, ela o fazia. Pelos dois.

Agora, dez anos depois de terem começado aquela jornada juntos, se encontravam em mundos opostos.

Scully, internamente, rezava para que o dia 22 terminasse de vez, assim, talvez, os dois voltassem a se tornar um só.

Interrompendo seus pensamentos, Mulder se levantou bruscamente, talvez acordando de mais um de seus pesadelos.

_ Mulder, por favor, volte a dormir.

_ Que horas são?

Scully olhou o relógio ao seu lado. Um leve calafrio percorreu seu corpo.

_ Cinco horas da manhã. Acho que a gente ainda tem algumas horas antes do mundo acabar.

_ Como você consegue brincar com isso? Eu pensei que eu fosse o único cínico por aqui.

_ Eu não estou brincando.

_ Não se preocupa com William? Com o que vai acontecer com ele hoje?

Scully se sentiu subitamente zangada, como se alguém a tivesse atingido injustamente. Bem, aquilo havia sido injusto, na verdade.

_ Mulder, eu me preocupo com ele cada segundo da minha vida. Não se atreva a dizer o contrário!

_ O que eu quero dizer é que hoje vai ser diferente. Não é como se você se preocupasse que ele estivesse sendo bem alimentado, ou bem tratado. Hoje vai ser o fim de tudo.

_ Você não tem certeza disso. Afinal podem ter te enganado. Não seria a primeira vez.

Mulder não respondeu. Era uma discussão inútil. Conversar com ela havia se tornado um teste de força entre eles. E, normalmente, ela saía ganhando.

Ele sempre desistia antes que a discussão se transformasse em briga. Já bastava uma briga entre os dois, da qual ele até hoje se arrependia. Prometera a si mesmo jamais cruzar aquela linha novamente.

Quanto à data fatídica, talvez no fundo ela tivesse razão. Somente o fato de saber a verdade não faria com que seus efeitos não os atingisse. O fim seria igual para todos.

O dia 22 já estava criando forma, não só para os dois, mas para toda a humanidade, e talvez quem não soubesse a verdade é que seria abençoado.

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07:00 horas da manhã

Scully ainda dormia. Mulder não podia entender como. 

De pé, olhando pela janela o dia surgindo, Mulder buscava sinais.

Pássaros voando assustados, a terra tremendo, o sol se escondendo atrás de alguma nuvem de aspecto estranho, as folhas caindo de uma só vez, insetos se chocando contra os vidros das casas. O vento soprando cada vez mais forte.

Mulder não via nada disso, mas no fundo sentia como se a atmosfera houvesse se tornado mais pesada, como se estivesse, subitamente, se carregado da eletricidade de toda a vida existente. Sentia como se todos os sonhos, de todos os seres, estivessem sendo interrompidos de forma brusca, como se até mesmo os pesadelos estivessem chegado ao fim, dando lugar a um alívio que somente ele sabia ser falso.

Seu pesadelo, no entanto, não teria fim. Seu pesadelo era sua própria vida. Inseparável de seu ser, imutável, onipotente e onipresente.

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09:00 horas da manhã

Scully já estava acordada há algum tempo, mas havia decidido fingir que dormia. Ficou observando Mulder, que observava, por sua vez, a janela, com um misto de espanto, angústia e tristeza estampado no rosto.

Por alguns momentos, Scully achou que não havia mundo lá fora. Que os dois estavam presos dentro de uma bolha e que Mulder apenas esperava que uma brisa soprasse e eles se juntassem ao nada absoluto.

Não que ela se importasse, na verdade. O nada seria bem vindo, assim como a anestesia é bem vinda em face da dor.

O nada ela podia aceitar. O que ela não queria enfrentar era o mundo, a dor, sua própria existência, Mulder.

O futuro, o passado, o presente. Principalmente o presente.

Ela podia esquecer o passado, esquecer tudo o que teve, fingir que não se importava, diminuir a importância de acontecimentos vitais. Mentir para si mesma.

Podia ignorar o futuro, sequer pensar nele, desejar que ele não viesse a existir.

Mas nada podia fazer quanto ao presente. O presente doía e feria como um ferro em brasas em contato com a pele, e nada podia fazer com que a dor acabasse.

Nada podia tirar Mulder da frente daquela janela. Nada podia fazer com que ela parasse de imaginar como estaria seu filho. 

E se tudo o que houvesse lá fora, a esperar por eles, fosse o nada, então ela conseguiria o que tanto queria.

Nada.

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11:00 horas da manhã

Mulder já havia abandonado a janela. Scully não havia notado quando ele saíra, mas sabia que ele não havia ido longe. Não havia lugar para onde ele pudesse ir sem usar a camionete. 

Morar naquele lutar esquecido por Deus, no meio das montanhas, havia parecido, a princípio a melhor escolha possível.

Mulder fazia uma viagem por mês até a cidade mais próxima, a algumas centenas de quilômetros abaixo, onde comprava mantimentos que durariam por mais de um mês. A não ser na semana anterior, quando voltara trazendo mantimentos suficientes para vinte famílias sobreviverem por uns três meses, sem problemas.

Naquele dia os dois discutiram novamente. Não que ela se importasse o quanto ele gastara, apesar de saber que o dinheiro que haviam conseguido retirar de suas contas e receber pela venda da casa da família Mulder, depois da fuga, seria suficiente para durar por somente mais uns dois ou três anos.

O que a irritou foi o fato de ele não ter mencionado o que pretendia fazer. Talvez soubesse que ela não queria aceitar a possibilidade da invasão. Scully, de fato, não aceitava, mas não era tola o bastante para não querer estar preparada para essa possibilidade.

O que a magoou foi justamente não terem conversado a respeito. A discussão servia para consertar esse erro, mas, pelo que ela havia notado, havia se transformado em um erro ainda maior. 

Se antes Mulder estava mais fechado do que o usual, agora ele havia se afastado totalmente dela, em um momento em que ela tanto precisava dele. 

Scully afastou seus pensamentos e decidiu que tomaria o melhor banho de banheira de sua vida. Quem poderia dizer se não seria o último, afinal?

01:00 da tarde

Mulder não queria voltar para a cabana. Queria, se fosse possível, ficar o dia todo observando o céu.

O céu, no entanto, parecia alheio ao homem abaixo dele. O azul intenso dominava toda a paisagem, e sequer uma nuvem maculava a pintura.

O vento soprava calmo, ligeiramente quente, mas fresco o suficiente para amenizar a temperatura sempre desagradável daquela região.

Mulder não sabia se nunca havia notado, ou se aquela era realmente a primeira vez que tudo a sua volta estava mais calmo, mais silencioso.

A impressão que tinha era que o mundo havia acabado, além do horizonte, mas que eles ainda não haviam sido comunicados.

Mulder riu para si, talvez rindo de si mesmo por aquele pensamento egocêntrico, ou rindo do resto do mundo, pela ironia da situação.

Os dois haviam abandonado o mundo, se afastado dele de tal forma que, agora que a possibilidade do mundo ter sido destruído parecia tão real, ele sequer podia tomar conhecimento disso.

Ou se importar.

Mas ele se importava. Não entendia porque, mas se importava. Não sabia se era uma simples teimosia, um desafio sem fim, ou se era uma curiosidade mórbida, um desejo não declarado pela destruição, somente para saber ou para provar o que sempre soube.

Mas provar para quem? Será que todos os que duvidaram dele, no momento final da destruição pensariam "Oh! Mulder estava certo!" ?

Ele duvidava, e isso não importava. 

Scully. Era para ela que ele sempre quisera provar tudo. Ela havia se tornado o "mundo" para o qual ele queria mostrar a verdade.

Mas a verdade era tímida, assustada. Nunca surgia de maneira clara e inquestionável.

Talvez por isso, Mulder tivesse esse desejo de ver o mundo virar poeira. Assim colocaria Scully na frente dos destroços e ela diria que ele tinha razão, que sempre tivera.

De certa forma ela já havia feito isso no passado, dez anos antes, mas o tempo foi criando novos obstáculos para essa fé cega que ele tanto buscava.

No final das contas, ele tinha consciência, tudo não passava de pensamentos egocêntricos e inúteis.

Decidiu voltar para a cabana e ter, talvez, sua última refeição com Scully.

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3:00 horas da tarde

O dia parecia se arrastar, para ambos. Mulder havia retornado de seu passeio pelos arredores da cabana ainda mais taciturno do que antes.

Isso assustava Scully. Teria ele visto algo que confirmasse que a invasão já havia começado ou estaria apenas tenso com a possibilidade?

Mulder pegou o radinho de pilha que guardava dentro da cômoda. Era raro que um dos dois ouvisse as notícias no rádio. Primeiro porque o sinal era sempre muito fraco e a recepção cheia de interferência. Segundo porque não se sentiam bem sabendo que a vida continuava lá fora, enquanto os dois viviam como prisioneiros naquela cabana.

Poderiam Ter comprado uma TV, ou um rádio com melhor alcance, mas nunca nenhum dos dois havia sequer proposto isso. Agora, Mulder se arrependia dessa decisão. O pequeno rádio parecia incapaz de trazer qualquer notícia. A única estação que funcionava tocava música gospel sem interrupção.

Provavelmente, não havia ninguém trabalhando na estação, que devia estar localizada não muito longe dali.

Mulder imaginava dois cenários distintos. Uma cidade pequena, com uma única estação de rádio, comandado pelo mesmo homem que também seria o dono do jornal local, ou mesmo o filho do dono, algum rapaz de vinte e poucos anos, que sempre quisera brincar de ser radialista e talvez estivesse mais preocupado, no momento, em conquistar a moça mais bonita da cidade.

Ou então, o segundo cenário. A cidade destruída, corpos carbonizados espalhados por todos os cantos, o operador da estação de rádio ainda se agarrando aos últimos segundos de vida e programando a rádio para continuar tocando a mesma fita, sem parar.

Músicas que falavam de Deus e de paz. Que talvez fossem uma mensagem para quem sobrevivesse.

Mulder não percebeu quando o rádio, simplesmente, parou de funcionar. Scully interrompeu seus pensamentos.

_ Acho que acabou a pilha.

Mulder se sentiu como se tivesse acordado repentinamente. Como quando se tem a sensação de estar caindo, rapidamente e quando se percebe havia sido um breve cochilo.

_ O que? 

_ A pilha do rádio. Acho que acabou. Tem outras no armário.

Mulder não respondeu. Não queria ouvir o rádio e não se sentia com forças sequer para dizer isso. Era como se sua energia estivesse se esgotado junto com as pilhas do rádio. Em outra ocasião, outra década, outra vida até, ele teria feito alguma brincadeira a respeito, mas agora tudo parecia tão sem sentido.

Continuou parado no mesmo lugar, quase que como hipnotizado pelo rádio morto. Scully desistiu de tentar um contato. Mulder estava em outro lugar, em outra época, talvez. Ela não sabia onde, nem como chegar até lá. E talvez, mesmo que soubesse, não seria uma boa idéia se unir a ele naquele lugar escuro.

Ela já tinha sua própria escuridão. 

5:00 horas da tarde

Scully se sentiu, subitamente, zangada. Se aquele seria seu último dia de suas vidas, então ela queria ao menos que os dois tivessem uma conversa decente. Nada mais de diálogos cortados bruscamente. Uma conversa franca e tranqüila.

_ Mulder, vamos conversar um pouco?

Mulder pareceu surpreso com a pergunta. Havia passado o que lhe pareciam horas, deitado na grande cama de casal, apenas olhando para o teto, às vezes fechando os olhos, indo e voltando em diversos pontos do passado. Pesquisando em sua mente os melhores momentos de sua vida, tentando deletar os piores. Por um instante havia se esquecido de onde estava. Por instantes havia estado no escritório, no porão do FBI e via Scully pela primeira vez, sem saber que a partir daquele encontro ele deixaria de ser o que sempre fôra. O que ele havia sido, não se lembrava. Não podia imaginar como era o mundo pré-Scully.

O que se tornara o assustava. Era aterrorizante ver tudo o que haviam passado juntos e onde haviam terminado. Mas a presença de Scully, sempre ao seu lado, o acalmara. 

Mas não agora. Estranhamente estava irritado com a presença dela. Não sabia se sobreviveria se ela não estivesse ali, mas não queria que ela estivesse ao seu lado, nesse exato momento.

_ Sobre o que quer falar? Sobre o tempo? Está lindo, apesar de horrivelmente quente. Da próxima vez que nós decidirmos fugir, eu escolho o lugar. Se é sobre o almoço, nunca comi nada mais gostoso. Obrigado. Quanto a minha cabeça, acho que vai explodir a qualquer momento, mas acho que esqueci de mencionar isso antes, então não é sobre isso que você quer falar.

_ Não, Mulder, com certeza não é sobre isso.

_ E pensar que houve uma época em que você se preocuparia com a possibilidade da minha cabeça explodir.

Scully sabia que ele estava dramatizando. Provavelmente nem estava sentido nada. Apenas tinha essa necessidade infantil de ser consolado. Ela havia lidado com isso durante anos, até mesmo alimentando essa necessidade. Mas ultimamente ela própria queria ser confortada e não estava disposta a fazer joguinhos com Mulder.

_ Ela não vai explodir, Mulder. Não antes do mundo, pelo menos.

_ Então você acredita que hoje é o dia D, afinal.

_ Eu não sei no que acreditar, e é sobre isso que eu queria conversar. Sobre o que nós dois vamos fazer amanhã.

_ Se estivermos vivos amanhã, você quer dizer.

_ Mulder, mesmo que os alienígenas invadam a Terra, isso não quer dizer que vão destruir toda a vida do planeta.

_ Não, tem razão. Eles só estão interessados em uma visita turística. Vão tirar algumas fotos e depois vão visitar Plutão.

_ Você não sabem o que eles querem. Além do que, porque Plutão? E os outros planetas entre a Terra e Plutão?

_ O pacote não inclui visitas intermediárias.

Pela primeira vez em tanto tempo os dois pareciam estar se divertindo. E o mais interessante era que brincavam com um assunto que, para eles, era mais do que delicado.

Percebendo isso, ambos se silenciaram, com medo de perder a pequena magia que havia sido criada.

O silêncio durou pouco. Scully tentou voltar ao assunto, mantendo o mesmo tom relaxado e calmo com que iniciara a conversa.

_ O que eu quero saber é se vamos sair daqui.

_ Scully, não existe nada lá fora para nós dois. Com destruição ou não, ainda assim nós estamos presos aqui. Vão nos matar caso voltemos. Sejam os alienígenas, sejam os militares.

_ Já nos mataram, Mulder. Estamos enterrados no meio do nada. Não temos notícias do mundo, e ninguém sabe de nós. Me sinto como se nós dois fossemos dois fantasmas que ainda não perceberam que estão mortos.

_ Então o que você quer? Finalmente morrer? Quer ir até Washington com um X nas costas e esperar ser atingida?

_ Não. Eu quero procurar meu filho. Quero ter certeza de que ele está bem.

_ Se você quisesse ter essa certeza sempre você não....

Mulder se calou de repente. Não podia acreditar no que quase dissera. Mas Scully não precisava que ele continuasse a frase para entender seu significado.

_ Eu sei, Mulder. Eu nunca deveria ter dado William. Eu me culpo cada minuto da minha vida por isso. Mas, ao mesmo tempo, eu agradeço a Deus por ter feito o que fiz, só assim não teríamos mais um fantasma preso nesse maldito lugar!

Mulder não teve tempo de se desculpar. Scully saiu da cabana, batendo a porta atrás de si, disposta a voltar quando o mundo já não mais existisse.

8:45 da noite

A noite caiu rapidamente na floresta. Scully havia perdido totalmente a noção do tempo. Já era tarde, a lua enorme no céu reinava imponente, ignorando os dramas vividos sob sua luz. 

Poderia ser, facilmente, confundida com uma nave alienígena, enorme, imponente, disposta a engolir todo o planeta, lentamente.

Mas era somente a lua. Uma lua cheia, alaranjada, como sempre era por aquelas bandas, como se o sol, tão quente durante o dia, deixasse calor suficiente para dourar a lua.

O calor persistia durante as noites, transformando cada momento em uma pequena tortura. 

No início, Scully não se importava. Como Mulder dissera, havia sido ela a escolher o local onde deveriam se esconder. Queria ficar longe do frio, não queria correr o risco de precisar de ajuda médica e não conseguí-la somente porque alguma estrada estava inacessível por causa da neve. 

Aquele lugar parecia ideal. Um lugar sempre quente, úmido, e isolado. Mesmo no inverno a temperatura não baixava o suficiente para causar transtornos. Apenas ficava mais amena, mas ainda assim desagradável por causa da umidade.

Esse ano não havia sido diferente. A brisa que soprava agora mal secava o suor que brotava em pequenas gotas em sua testa.

Nos primeiros anos, quando ainda podiam se arrepender da escolha, tudo ainda parecia perfeito. Os dois estavam juntos, e nada os separaria.

Mas o tempo foi passando, e eles foram mudando, o calor moldando suas personalidades, retirando a consistência de que eram feitos, como uma barra de chocolate que derrete todo dia um pouco, até que se torna branca e seca, e somente seu interior ainda é escuro e saboroso.

Uma brisa soprou mais forte, alguns ruídos na mata, talvez causados pela mesma brisa viajante, fizeram com que Scully decidisse procurar a segurança da cabana. 

Por um instante pensou que jamais teria coragem de deixar aquele lugar. Eles eram dois pássaros presos por tanto tempo em uma gaiola dourada, que quando têm a oportunidade de serem livres, não sabem o que fazer.

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9:00 horas da noite

Scully entrou apressadamente na cabana. Estava tensa e aquele barulho a havia deixado nervosa. Mulder estava lendo um livro, ou talvez somente folheando, tentando se distrair.

Assim que ela entrou, ele tirou os olhos do livro e acompanhou os movimentos dela.

_ Escutei um barulho lá fora.

Ela fez o comentário, tentando explicar sua pressa em entrar.

_ Eu sinto muito, Scully.

_ Era você lá fora?

_ Não, não é isso. Sinto muito por ter dito aquilo.

_ Você tem o direito de dizer ou pensar aquilo. É seu filho, afinal.

_ Eu não tenho o direito de pensar isso, e não penso. Eu não estava lá quando você precisou de mim, quando sentiu que a única saída para o bebê seria se separar dele.

_ Ótimo, agora a culpa é sua. Como você consegue ser sempre o culpado do que acontece, Mulder?

_ Certo, então me diga, naquele período que eu deixei vocês dois, nem por um momento você me culpou?

_ Não, eu juro. Eu queria que você estivesse lá, ao meu lado, mas entendia seus motivos.

_ Então você pode saber como eu entendi o que você fez. Nós dois tivemos que tomar decisões difíceis, e não podemos voltar atrás, Scully.

_ O que quer dizer? Que eu jamais vou poder ver meu filho de novo?

_ Não. Eu não estou falando do futuro. Estou falando do passado. Você parece viver lá.

_ E você, Mulder, onde você vive?

_ Do seu lado.

_ Nós não estamos mais um ao lado do outro, você sabe disso.

_ Eu sei, mas a gente pode tentar mudar isso, não é?

_ Mulder, você escolheu um péssimo dia para uma reconciliação.

_ Não é um péssimo dia. É o único dia. Depois tudo vai ser diferente.

_ Hoje já está acabando, Mulder. Se o futuro realmente for chegar, é melhor que se apresse. E, enquanto ele não chega, eu vou ver se consigo dormir um pouco.

Mulder sabia que ela estava blefando. Ela, com certeza, se deitaria na cama, fecharia os olhos e esperaria por algum sinal.

Ele também não tinha sono, mas a acompanhou, mesmo sem saber se ela o queria ou não ao seu lado.

Se deitou ao lado dela e ficou observando seu rosto. A luz forte da lua invadia todo o quarto. Se não fosse por toda aquela tensão, ele poderia afirmar que era a noite mais bonita que eles haviam visto.

Scully percebeu que Mulder a observava. Sem abrir os olhos, sussurrou.

_ Mulder, tenta dormir um pouco.

_ São só nove horas.

_ Amanhã vai ser um longo dia.

_ Então amanhã eu descanso.

Uma longa pausa se seguiu antes que ela falasse novamente.

_ Quando isso aconteceu, Mulder?

_ O que?

_ Isso tudo, nossas brigas, essa separação cada vez maior.

_ Eu não sei. Eu não gosto disso, sabe?

_ Nem eu.

Scully abriu os olhos e fixou o olhar nele. Por alguns instantes ela sentiu como se todos aqueles anos não tivessem jamais se passado.

Ele se aproximou e beijou-lhe a testa. E os dois ficaram ali, deitados frente a frente, seus rostos quase se tocando.

E, então, ambos ouviram o barulho. Um enorme estrondo vindo da floresta. Correram até a janela e viram o que não queriam ver. 

Viram o futuro, as chamas, a destruição.

Mais perto do que imaginavam, mais aterrorizante do que poderiam jamais admitir.

Naquele momento, ainda olhando com terror pela janela, Scully sequer notara que Mulder lhe segurava a mão com força.

Tampouco Mulder se dava conta das lágrimas que escorriam pelo rosto dela.

Aqueles detalhes haviam perdido a importância diante do inevitável, do inimaginável.

Diante de 22 de dezembro de 2012.

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Na próxima quarta, Perfect World - Parte 2